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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pedro Matos - "Midju di Fogu" (livro)

"Midju di Fogu", de Pedro Andrade Matos, é lançado em Cabo Verde

"Pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos", escreve Simone Caputo Gomes, da USP.

Da Redação

Praia - "Midju di Fogu" é o título do livro de memória e afectos de Pedro Andrade Matos que é lançado nesta quinta-feira (24) na Casa de Memória da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, com apresentação de Alberto Nunes e Fausto do Rosário.

Natural da Ilha do Fogo, no arquipélago de Cabo Verde, Pedro Andrade Matos é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Minas Gerais (PUC) e mestrando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), residindo actualmente em Belo Horizonte.

No próximo sábado (26),"Midju di Fogu" (Milho de Fogo), livro de estreia de Pedro Matos, um natural da "ilha do vulcão", será apresentado no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Cidade da Praia, capital do país, pelo escritor caboverdiano Filinto Elísio.

Nas palavras de Simone Caputo Gomes, professora de Literaturas Africanas da Universidade de São Paulo (USP), "pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos, entre arbustos (como a purgueira) balançados pelo louco vento".

"Os homens cavam a terra, as mulheres jogam as sementes do milho e as crianças cobrem as covas com os pés, num djuntamô (juntar as mãos) para que o chão, fecundado, possa “vestir o povo de água” e conceder-lhe a abundância na “terra molhada”, lê-se no texto de apresentação de "Midju di Fogu", um livro que "promete ao leitor uma bela sementeira", diz Simone Caputo Gomes.

Filinto Elísio e os novos caminhos para “desoficinar a poesia”


Filinto Elísio e os novos caminhos para “desoficinar a poesia”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 182, p. 13, de 24/02/2011.
Meu primeiro contato com a poesia de Filinto Elísio se deu com o livro Das Frutas Serenadas, ocasião que tive oportunidade de conhecê-lo na USP, Brasil. Com o avanço das páginas do referido livro, vi que estava à frente de uma poesis que vivenciava sua insularidade dentro da literatura cabo-verdiana. Deparei-me com um vigor surpreendente que privilegiava a metapoética aliada a uma deliciosa união de sinestesia e exacerbado erotismo, para além do pleno uso das rimas internas, assonâncias e aliterações subvertendo a estrutura do soneto, configurando o poeta como um excelente sonetista. Evidências que seriam aperfeiçoadas com o livro seguinte, Li Cores & Ad Vinhos, e a plena maturidade de Filinto em seu ofício.
Entretanto, o inquieto poeta resolveu aventurar-se pelo romance, aliás, o antirromance, rompendo com tudo o que já tinha sido escrito até então em seu país, e jogou nas ruas Outros Sais na Beira-Mar. Um outro assombro, como sempre prazeroso, diante do audacioso hibridismo proposto pela narrativa fragmentada de Elísio, mesclando diferentes gêneros literários e incorporando características textuais da internet, como os e-mails.
Em sua permanente desassossegada criação literária o autor decide retornar à poesia. O que esperar de um novo livro de poesia de Filinto Elísio? Algo transgressivo, no mínimo, assim o escritor habituou-me.
Recebo Me_xendo no baú que sairá pela portuguesa Letras Várias, em caprichada edição com pinturas do português Luís Geraldes e um CD com os poemas declamados por João Branco e Nancy Vieira. Passo rapidamente os olhos pelas páginas e percebo que Filinto retoma características do passado e os sonetos, predominantes nos dois últimos livros, são abandonados, ou melhor, há apenas um. Agora os versos são curtos, breves, a lembrar os tempos Do lado de cá da rosa.
Me_xendo no baú está dividido em cinco cadernos, totalizando 35 poemas. Os cadernos possuem títulos curiosos em razão da grafia escolhida pelo poeta, deslocando nossos sentidos sendo reconfigurados pela sonoridade das palavras, arte na qual Elísio é mestre como são os grandes nomes da poesia: Ó de ceia das i_lhas. Formado por dez poemas, este primeiro caderno propõe-se uma peculiar leitura das ilhas de Cabo Verde “antes do verbo”. Diante dos sentidos desgastados das palavras pela insensibilidade da contemporaneidade, o poeta “pensa palavras primordiais” para ressignificar a história das ilhas em forma de poesia, esmaecidas pelos fragmentos da memória e dignificá-las com a força libertadora do verbo poético. O derradeiro caderno retorna ao país e o poeta celebra as manifestações musicais das ilhas em belíssimos poemas. Estão lá a morna (reatualizada), a coladeira, a tabanka, o cola son jon, o funaná, o batuque – e a comovente homenagem às mulheres: “na re_tina de aquém & mar/ mulheres da grande ilha/ tam_borilam entre suas coxas/ o destino de serem outras deusas/ a_finação das máguas – suas lem_branças…”. Surpreendo-me com o criativo neologismo “máguas”, a unir a mágoa das mulheres abandonadas por seus homens e a água do mar, esse mar que leva os companheiros para a terra-longe.
Desarranjar os estáticos sentidos semânticos dos nossos tempos, perscrutador das palavras, poeta. Palavra, erotismo, poesia, a geografia das ilhas a serviço da poeisis de Elísio, navegador de uma linha tênue que invoca exclamações. “São o caos querendo o cosmos” para a peculiar grafia de sua poesia. Não por acaso, o ar, elemento da natureza representando o voo, a liberdade da palavra poética, presentifica-se. Percepções inertes na agitação dilaceradora do cotidiano. Cabe ao poeta restaurar as “coisas levi_tantes” e fecundar “lavra_s novas”.
“Persistem em mim todas as fomes”. A fome que devastou o povo das ilhas em tempos idos se demonstra insaciável na incessante recriação do verbo poético. A sinestesia permanece marcante, a erotização estonteante, palavra poética de puro desejo, versos surgidos na efemeridade da vida, o que o leva a dessacralizar o desejo, sendo fiel ao seu instinto masculino: “versejo-te sendo este desejo/ uma estranha forma de cruz”.
A celebração simbolista nas metáforas inusitadas, a intertextualidade com Arthur Rimbaud e com a própria obra: “rosa do lado de cá?”; as referências obrigatórias do poeta: o Fernando Pessoa de “Ode Marítima” e “Autopsicografia”, e o mineiro Carlos Drummond de Andrade das Gerais de tanto agrado do poeta de Santiago, para além do universal expresso nas citações da mitologia egípcia.
Em seu “tabu_leiro” de palavras, a investigação ininterrupta dos sons e a sua musicalidade em diferentes grafias – “em mi fá sol lá da melo dia” e “musicar fonemas” –, substancia-se com o farto recurso de termos e maneiras de escrita apropriados da internet, “S grafema impreciso/ VC de vossemecê”; na supressão de vogais e a crítica ao empobrecimento da língua portuguesa tratada de forma invertida: “amiúde sem vogais/ de ataúde consoantes:/ amar-te em MR-T/ FDR-T gemendo assaz letras/ CMR-T engolindo-as todas”; assim como, a ironia de um surrealismo delirante que somente um poeta transgressor como Elísio poderia proporcionar: “S exílio/ S lírio/ C de cílio/ e de você/ esse delírio”.
Por outro lado, a reverência a um cânone da literatura de Cabo Verde, profundo admirador da expressão máxima da poesia, a sua musicalidade. Falo de Corsino Fortes de “Pão & Fonema” e “Árvore e Tambor”: “aliterando em T/ (corsino verseja tambor)/ metaforizando em P/ (cor & sino tal poesia)”.
Criatividade extrema, ludicidade com as palavras, o poeta a cantar o seu “hino de liberdade”, a criar inusitadas pontes com um mestre da sonoridade das palavras como Manuel Bandeira – em desassombro de qualquer pasargadismo ou antipasagardismo da história literária cabo-verdiana – e o seu poema “Rondó do Capitão”, utilizando versos livres, imagens automáticas e surreais, onomatopeias, versos impregnados por temos da computação – “mas/ não me piches/ no graffiti/ nem me_gapixels/ em photoshop”. Por isso o poeta afirma para mim, para o leitor, “upgrada-te”. Sentimento necessário para acompanhar o intenso uso da tecla “underscore” (ou underline) fartamente aplicado na internet, que ora serve para reforçar o gozo sexual em “den_goso”, ora para jogos lúdicos como as “equações estéticas” de “Intradoxos”: “a_barco/ b_arco/ c_rco/ ...de circo meu bem”. Transgressão na linguagem que procura restaurar sentidos profundos dissolvidos pelo tempo, lucidamente reconstruídos no processo constante de “desoficinar a poesia”.
Me_xendo no baú revela a ludicidade em harmonia com a complexidade criativa de um poeta que se atreve a inovar, a se apropriar de referenciais contemporâneos para sua escrita. Não é por menos que afirma: “querem de mim ainda as transgressões”. Filinto, todas, se possível. Que continue “vasculhando o ú” de sua poesia, deslocando as imagens, recriando palavras e sons, desestabilizando os incautos da poesia sem tesão, revisitando as ilhas do arquipélago, celebrando suas músicas, esfarpando “metrificações e versos”, valorizando os poetas que o formaram... por arriscar novos caminhos para a sua poesia, Filinto Elísio amplia a vastidão de seu mar e fortalece a insularidade de sua trajetória na literatura cabo-verdiana, tornando-se um obrigatório mar a ser navegado. Com prazer, sempre.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Camila Mont-Rond – Amor na Ilha e outras Paragens (livro)


Camila Mont-Rond – Amor na Ilha e outras Paragens (sinopse)

Camila Mont-Rond é o pseudônimo de Ondina Maria Fonseca Rodrigues Ferreira. Neste livro de contos deparamo-nos com histórias de pessoas comuns fragmentadas pelas variadas circunstâncias impostas pela vida. A contista enfatiza a condição da mulher cabo-verdiana, subjugada em uma sociedade patriarcal que comete injustiças de diversas e cruéis ordens. As histórias se passam em diferentes tempos que vão desde o século XVI, a luta pela independência e os dias atuais. Os espaços se dão tanto nas ilhas do arquipélago quanto na terra-longe, sendo os efeitos da emigração sentidos de forma positiva ou negativa pelas personagens.

Detentora de uma narrativa envolvente e concisa, elegante e sutil nos detalhes que mascaram os destinos das mulheres cabo-verdianas, este livro proporcionará gratas surpresas para quem atravessar suas páginas e assim conhecer um pouco de Cabo Verde pela sóbria prosa de Camila Mont-Rond.

Ricardo Riso

Este livro e outros títulos da Artiletra, editora cabo-verdiana, encontram-se à venda na Kitabu - Livraria Negra (Rio de Janeiro - Brasil).

Osvaldo Azevedo – Regresso à Vila do Vale (livro)


Osvaldo Azevedo – Regresso à Vila do Vale (sinopse)

Este livro de Osvaldo Azevedo, também ilustrado por ele, reúne poemas e contos que em sua maioria recriam os “mil mistérios e tesouros que guardam a Vila do Vale”, local de origem do escritor. Filho do poeta Pedro Corsino Azevedo, esta publicação está dividida por poemas introdutórios, uma dedicatória e três cadernos.

No caderno inicial estão agrupados poemas e contos de intensa rememoração da infância, na restrita visão de mundo dos pequenos sempre prontos para descobrir o universo dos adultos. Os contos testemunham o cotidiano de uma pacata vila durante o período colonial, sendo os animais protagonistas em algumas narrativas, como a de “O Brilhante”, o bravo cavalo de um tempo em que “a terra ainda esperava a manifestação máscula de um homem”. O caderno seguinte preocupa-se com a relação ilhéu-mar, enquanto o derradeiro apresenta intimismo e lirismo, para além das divagações acerca do ocaso da vida.

Um livro de agradável leitura de um veterano das letras de Cabo Verde.

Ricardo Riso

Este livro e outros títulos da Artiletra, editora cabo-verdiana, encontram-se à venda na Kitabu - Livraria Negra (Rio de Janeiro - Brasil).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mario Lucio Sousa – Para nunca mais falarmos de amor (livro)


Mario Lucio Sousa – Para nunca mais falarmos de amor (sinopse)

Em 1999 Mario Lucio Sousa concretiza a sua 3ª incursão literária. Este consagrado músico cabo-verdiano possui uma carreira consistente e celebrada tanto na literatura quanto no teatro, como comprova a sua estreia na poesia com o “Nascimento de um Mundo” (1991).

Em “Para nunca mais falarmos de amor”, o autor brinda-nos com uma temática destelurizada do cânone literário cabo-verdiano, poemas breves e concisos, agradáveis experiências com os hai-kais em imagens inusitadas e por vezes irônicas.

Sousa capta na observação da simplicidade do cotidiano a matéria para os seus poemas, embora encontre no ser humano e na beleza da vida as substâncias para a sua poesia. Nesse sentido, inferimos a comovente presença de um lirismo amoroso acompanhado de um respeito à condição humana no que se refere às suas ânsias, angústias e nas suas contradições diante das adversidades.

Com uma singela carta do autor aos editores ilustrando a capa do livro, deparamo-nos com 84 pequenos poemas sinceros, em alguns momentos dolorosos, reveladores de um artista com a sensibilidade à flor da pele pronto para desnudar o belo da poesia, o bom de viver.
Ricardo Riso

Este livro e outros títulos da Artiletra, editora cabo-verdiana, encontram-se à venda na Kitabu - Livraria Negra (Rio de Janeiro - Brasil).

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Arménio Vieira por Ricardo Riso na revista Triplov (Portugal)



Publicada na revista portuguesa Triplov, minha resenha do livro O poema, a viagem, o sonho, de Arménio Vieira, primeiro cabo-verdiano a ser galardoado com o Prêmio Camões, em sua edição de 2009.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Corsino Fortes - A cabeça calva de Deus (livro lançado no Brasil)


Livro: A cabeça calva de Deus
Autor: Corsino Fortes
ISBN 10: 8575313909
ISBN 13: 9788575313909
Gênero: Literatura Portuguesa Contemporânea/Poesia
Edição: 1ª edição
Páginas: 288
Formato: 14 X 21 cm
Peso: 325 g
Organização e prólogo: Floriano Martins
Coleção: Ponte Velha
Artista convidado: Fernando Gonçalves
Posfácio: Ana Mafalda Leite
A Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB/Portugal), publica A cabeça calva de Deus, de Corsino Fortes. A organização e prólogo da obra são de Floriano Martins e as ilustrações de Fernando Gonçalves.
A cabeça calva de Deus intitula uma trilogia poética iniciada com a publicação de Pão & Fonema (1974), seguida de Árvore & Tambor (1986) e agora concluída com o livro Pedras de Sol & Substâncias (2001), obra poética de Corsino Fortes que foi objeto de diversos estudos e que faz parte de várias antologias em língua inglesa, portuguesa, francesa, italiana, holandesa, entre outras.
Segundo Ana Mafalda Leite, no posfácio, “A cabeça calva de Deuscondensa o universo caboverdiano pela sua potência engendradora a partir das suas limitações geoclimáticas e telúricas. Abandonadas pelos deuses no meio do Atlântico, as dez ilhas caboverdianas, a caminho da África, Europa e América, com a nudez mineral da secura, incorporam nelas a força poética e rítmica com que a poesia fundamental de Corsino Fortes as canta em tom épico e sagrado”.
Sobre o autor:
Corsino António Fortes
 nasceu em 14 de fevereiro de 1933, em Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Licenciado em Direito (Lisboa, 1966), veio a exercer as funções de delegado do Ministério Público e juiz de direito, em Angola, até ser exonerado a seu pedido, em abril de 1975, do cargo de magistrado. Em 1974-1975, como militante ativo do P.A.I.G.C. exerceu as funções de representante do Partido em Angola, de diretor-geral dos Assuntos Judiciários da República da Guiné-Bissau e de emissário especial da República de Cabo Verde junto dos Governos da República Popular de Angola e da República Democrática de São Tomé e Príncipe. Entre 1975 e 1981, foi embaixador extraordinário e plenipotenciário da República de Cabo Verde junto da República Portuguesa, desempenhando idênticas funções junto dos Governos de Espanha, França, Itália, Noruega e Islândia. Em 1981, foi nomeado secretário de Estado-adjunto do primeiro-ministro e, em 1983, secretário de Estado da Comunicação Social. Entre 1986 e 1989, regressa à diplomacia como embaixador de Cabo Verde junto da República Popular de Angola. Entre 1989 e 1991, exerce as funções de ministro da Justiça pelo Governo de Cabo Verde. Hoje exerce as seguintes funções: Presidente da Fundação Amílcar Cabral, Presidente do Conselho de Administração da Inpar – Companhia Cabo-Verdiana de Seguros, Vice-presidente do Conselho de Administração da Caixa Econômica de Cabo Verde, e Sócio-fundador da Associação dos Escritores cabo-verdianos. Foi condecorado pelo Governo Português com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito, pelo Governo Francês com o Grand officier de L’ordre nacional du Mérite: e pela Presidência da República de Cabo Verde com a Ordem do Vulcão.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Artiletra (Cabo Verde) livros à venda na Kitabu (RJ)

(clique na imagem para ampliá-la)
Prezados,

sempre procurando formas para ampliar e facilitar o acesso do público brasileiro aos livros dos escritores das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, iniciei uma parceria com a Edições Artiletra. Agora seus livros estão à venda na Kitabu - Livraria Negra, à rua Joaquim Silva 17, Lapa - Rio de Janeiro/RJ. Além dos livros de Valentinous Velhinho, Mario Lucio Sousa, Kaká Barbosa, entre outros, o histórico jore - jornal-revista de Educação, Ciência e Cultura, Artiletra, nº 105/106 - novembro/dezembro-2010, também está à venda.

Agradeço ajuda para a divulgação.
Grande abraço,
Ricardo Riso


A relação dos livros da Artiletra:


Camila Mont-Rond - Amor na Ilha e Outras Paragens

Dionísia Velhinho Rodrigues - Na Minha Terra Também se Ama
Kaká Barboza - Konfison na Finata
Kwame Kondé - Escritos sobre Teatro
Mario Lucio Sousa - Para Nunca Mais Falarmos de Amor

Osvaldo Azevedo - Regresso à Vila do Vale


Vadinho Velhinho - No Ponto do Rebuçado
Valentinous Velhinho - Adeus Loucura Adeus
Valentinous Velhinho - Relâmpagos em Terra
Valentinous Velhinho - O túmulo da Fênix
Valentinous Velhinho - Tenho o Infinito Trancado em Casa

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

António Pedro, por José Luis Hopffer C. Almada

Uma gentil contribuição de José Luis Hopffer C. Almada para este blog. Neste texto, o poeta e crítico literário cabo-verdiano, por meio do pseudônimo Dionísio de Deus Y Fonteana, celebra a memória de António Pedro, que para Manuel Ferreira em Aventura Crioula, "nos parece ter sido António Pedro um dos que teria dado um contributo para a mudança literária em Cabo Verde. Não será despropósito nenhum ligar o seu nome à fase dos primeiros sintomas do modernismo literário cabo-verdiano (...)". (FERRREIRA, 1985, p. 292-293).
Abraços,
Ricardo Riso 


                                   ANTÓNIO PEDRO:
A SAGA ISLENHA DE UM POETA DE CABOVERDIANIDADE BISSEXTA
VISTA POR DIONÍSIO DE DEUS Y FONTEANA

                                   Dezembro de 1909
                                       Tempos de infância

António Pedro nasceu no plateau da cidade da Praia.
Se não no real, pelo menos no simbólico.
Na casa-grande plantada sobre a colina do Laranjo e a ribeira que lhe perfazia o verde e a fortuna.
Morgadio e arquitectura de Trás-os-Montes (o metropolitano, não o tarrafalense!) viram os seus olhos semicerrarem-se face ao intenso brilho do sol caboverdiano.
A 9 deDezembro de 1909, como sagitário.
Ó criatura de tantas promessas por cumprir!
Por ter começado por ouvir um patois anglolusodjarfogobadio, o seu signo iluminou-se, desde sempre, de uma aura de universalidade sem céus nem raízes aparentes. A tentação da total transgressão habitou-lhe então o coração, ainda infante, ao mesmo tempo que uma insondável e sempre súbita queda para as raízes pétreas. O signo de sagitário era nele premonição de um espírito em constante deambular, entre o vale do Laranjo e o mundo, entre o primeiro patois escutado com o borbulhar do leite materno e a babel da modernidade, entre Santiago e o Império, entre a purgueira e o pinheiro.
Cresceu no plateau. Se não no real, pelo menos no simbólico.
Na sociedade colonial ensolarada de ritmo e de bulício.
Na sociedade colonial enclausurada no recato e na solidão da cidade-repartição.
Provincianamente alegre e atónito face às romarias da justaposição e da interpenetração entre a lusitanidade e a africanidade, e os múltiplos coitos que paulatinamente geraram a crioulidade, e os muitos incestos que engendraram os filhos híbridos das ilhas e as suas feições afro-latinas, sempre autênticas na plena assunção da sua bastardia biológica e cultural, a qual, aliás, ficaria depois gravada no célebre axioma “Cabo Verde não é nem Europa, nem África, Cabo Verde é Cabo Verde”.
(“Ou tautologia, segundo outros pontos de vista mais cáusticos- interfere um aprendiz de intelectual recém-diplomado por uma universidade obviamente estrangeira – como o do vate da cidade que ousou escrever uma série de poemas subversivos, como “Fome” ou “Eis-me aqui, África”. Curiosamente o mais subversivo desses poemas, intitulado “Quando a vida nascer” foi publicado, pela primeira vez, no Boletim Cabo Verde, importantíssima revista cultural editada na Praia religiosamente em todos os meses do calendário entre os anos de 1949 e 1964. Quiçá tenha sido o Boletim Cabo Verde a mais importante revista cultural caboverdiana do período colonial, se levarmos em conta a riqueza e a variedade do seu conteúdo ensaístico e literário e a diversidade estética e geracional dos que nela colaboraram, mas também caracterizada pela sua sujeição à tutela e à censura directas do governo colonial enquanto propriedade da administração da província e porta-voz da ideologia colonial então dominante. Tanto mais que as suas primeiras páginas eram reservadas aos discursos e às obras do governador e às chamadas políticas coloniais de fomento, para além da ininterrupta idolatria do chefe máximo do Estado Novo colonial-fascista e do culto de uma certa histeria patriótico-imperial, como aquela que se verificou aquando da invasão do chamado Estado português da Índia (formado por Goa, Damão e Diu) pela União Indiana de Nehru. Nessa óptica, funcionava como uma espécie de jornal oficioso do Governo da província/colónia. Deve ter sido por esta razão que o inrevelado autor do libelo acusatório anti-claridoso Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana (consabidamente publicado sob um nome emprestado a um avassalado versejador desses tempos de bloqueio e, em tempos, renomado autor de alguns dos poemas mais emblemáticos da nova largada político-cultural), tenha preferido manter na mais estrita clandestinidade o excelente ensaio-panfleto político de denúncia total do sistema colonial-racista vigente em Cabo Verde e de desmascaramento das políticas de reforma colonial empreendidas por Adriano Moreira, assinando-o com o pseudónimo castiçamente badio A. Punói”.
“ Não obstante os constrangimentos acima referidos, o Boletim Cabo Verde marcou toda uma época. Basta dizer que a maior parte da poesia de Jorge Barbosa, incluindo a de teor mais contestatário (como o paradigmático “Panfletário”), mas excluindo outros de quase ruptura política (como “Meio-Milénio”, “Nau Negreira” ou “Memorial de São Tomé” e outros integrantes de livros que tentou dar à estampa durante a primavera marcelista), e quase toda a obra cronística e ficcional de Maria Helena Spencer foram dadas a conhecer no Boletim Cabo Verde. Oficioso em parte, sim senhor!, mas nada que se comparasse com o seu sucessor, o famigerado semanário Arquipélago, de conotação abertamente colonial-fascista e implacável defensor do status quo, numa época em que já proliferavam os movimentos de libertação nacional e eram mais do que evidentes os sinais da queda próxima do império colonial português”-esclarece bem-humorado o poeta existencialista da cidade, também ele estreante no Boletim Cabo Verde, no qual, aliás, comprovou na sua própria pele a veracidade do axioma “pior a emenda que o soneto”, quando um poema seu dado à estampa no mesmo Boletim Cabo Verde, foi sujeito ao crivo estético do juiz da comarca (anote-se em roda-pé, que nas horas vagas esse austero magistrado se ocupava com as letras, deste modo pretendendo participar na vida cultural da pequena cidade colonial e aí deixar a sua inconfundível marca, outorgando-se o papel de mentor e mestre das novas gerações, mesmo se à revelia das mesmas. Até que o conseguiu ao se meter com a promessa de poeta que era então um dos mais importantes literatos da actualidade” ”-riu-se o poeta predilecto da cidade). Sublinhe-se que o Machado (assim se chamava o magistrado inquisidor da jovem poesia islenha que, segundo sei, nada tem a ver em termos de laços de parentesco com o famigerado sargento Maschado, sim, aquele em cuja boca mijou Nhanha Bonbolon, nominho de Ana da Veiga, a líder da revolta de Ribeirão Manuel), em vez de optar pela censura pura, ainda que fundada em critérios alegadamente estéticos, de um poeta neófito (“como tantos outros jovens principiantes nas lides literárias que, na altura, tentavam dar nas vistas”-faz questão de sublinhar o poeta galardoado que era o principiante na poesia da altura) preferiu re-escrever os poemas do mesmo principiante e mostrar em praça pública (isto é, nas páginas do Boletim Cabo Verde) como é que o poema do estreante em literatura deveria ter sido escrito).
Acrescente-se ainda um pequeno parêntesis aposto não se sabe se por um defensor confesso - não do axioma literário acima referido, mas do axioma identitário também anteriormente referenciado-, ou se por um desses críticos mais cáusticos da mesma expressão tautológica (“não sendo nem cabo, nem verde (pelo menos na maior parte do ano no que se refere aos terrenos de sequeiro nas chamadas ilhas agrícolas, para não falar de algumas ilhas francamente áridas e escassamente dotadas de ridículas manchas de regadio ou de bosquejos de florestas), optou Gabriel Mariano por grafar Caboverde (numa única palavra e sem hífen), a um tempo continente e arquipélago culturais, pondo assim termo a eventuais paradoxos identitários e sentimentos de orfandade continental, desde sempre muito comuns entre os caboverdianos).
(“Neste caso mais propensos à busca do pai, ou do seu rosto abstracto e severo, do que da mãe (ou do afago afectuoso do seu ventre irrenunciável), por razões aliás mais do que compreensíveis, como seja a herança de bens simbólicos de grande relevância, como os apelidos que realmente contam porque se perpetuam nos nomes dos filhos machos e nos dos seus descendentes varões, e de parte da riqueza e das vivências acumuladas como património material e imaterial”-acrescenta o poeta predilecto da cidade, aliás, de tez branca, cor que lhe foi legada pelo pais, luso-descendentes, se bem que caboverdianos de gema).
Depois, criança ainda, alheio a todas as conjecturas existenciais, ignorante de todas as conjunturas sociais e das respectivas vestes coloniais, mas habitado pelo wanderlust que lhe foi precocemente inoculado pelo signo com que nasceu, António Pedro saiu pelo mundo.

                                                 1929-1938
                                       Tempos de regresso
Tempo de saudade.
Saudade ou sodádi? Mas existirão essenciais diferenças entre as duas curiosas melancolias em face da ausência e da perda da árvore da infância?
Chamamento da infância ou da paternidade?
Talvez da maternidade?
Talvez de um qualquer Pik’ lion, ainda desconhecido?
Certamente do Laranjo.
António Pedro regressa ao plateau.
E ainda do mar espanta-se: “Bé, o pó da ventania sufoca! /...lá na baía ou doca/…parece melhor/ embora fosse careca/a terra seca e adormentasse já» (novo parêntesis desta vez aposto por um indefectível defensor do passado verdejante da cidade da Praia (aliás, profusamente atestado nos coqueirais da sua orla marítima, na floresta da Achadinha, nos mangais do Taiti, nas hortas do Palmarejo), para além de irrepreensível adversário das teses propugnadoras da muito propalada inabitabilidade passada da cidade capital, alegadamente devido à natureza supostamente pantanosa dos vales que a circundavam, e, por isso, muito propiciadoras da propagação do paludismo, da cólera e de outras doenças infecciosas, particularmente mortíferas para os europeus recém-arribados: presume-se, por isso, que Março foi o mês da chegada de António Pedro à sua cidade natal, dada a ventania que então por aí grassava. Ventania essa, que, todavia, não pode ser confundida com a bruma seca dos dias de hoje, bruma seca essa recentemente importada de outras paragens sahelianas, ou, dizem as más línguas, trazida por aqueles que, há poucas décadas arribados à ilha maior, não prescindem da regularidade do seu pé de vento pois que se maravilham com um fenómeno que consideram integrante da sua personalidade e da sua identidade colectivas e, por isso, muito se vêm extasiando em dançar ao vento…).
Envolto pela poeira, António Pedro atravessou o cais (“sim! O cais de São Januário! Aquele que as bestas obtusas da Câmara Municipal mandaram demolir para acharem um traçado mais consentâneo e mais barato para a nova marginal”-Exasperou-se o poeta-jurista da cidade, conhecido defensor dos direitos humanos, amante de jazz e de wisky velho, e autor do primeiro manifesto que questionou as políticas culturais prosseguidas pelo regime de partido único, então recém-instituído. Entretanto, enquanto os ânimos se exaltavam à volta do martírio a que a cidade vem sendo sujeita por diferentes gerações de políticos e de técnicos, todos eles detentores de muito pouco afecto e de escassíssima empatia pela cidade, com a cumplicidade ou, pelo menos, com a silenciosa indiferença da população, martírio esse profusamente ilustrado na cada vez maior descaracterização da cidade e no crescente e cada vez mais indomável caos urbanístico que nela reina, António Pedro), lançou um olhar curioso e alongado pelos botes varados ao longo da Praia Grande de Chã de Areia e pela vizinhança emaranhada de coqueirais (sempre exóticos aos olhos de quem esteve, durante anos a fio, longe dos trópicos) que se estendia pelo Taiti e pela Várzea da Companhia, passou pelos antiquíssimos edifícios administrativos e pelos armazéns das alfândegas, subiu a rampa de São Januário, atravessou o coração da cidade alta e foi à busca do mistério dos rochedos de cá, encastelados nas penedias do cruzeiro, nas encostas do hospital provincial e do edifício da fazenda, ou refastelados sobre o vale do Laranjo e de outras ribeiras da freguesia de Nossa Senhora da Graça.
Adolescente luso, jovem luso-caboverdiano (“isso não, a expressão ainda não existia, nós os islenhos éramos todos portugueses e caboverdianos ou, melhor, portugueses de Cabo Verde! Também não existia ainda a possibilidade da dupla nacionalidade. Afinal éramos uma simples colónia ultramarina, ademais uma insignificante, mísera e famélica terra de Portugal de aquém e além mar, em consequência não dispúnhamos de nacionalidade própria. Por isso, maravilha-se agora o Orlando Pereira: nasionalidadi dja nu ten dja! Melhor seria dizer branco português de Cabo Verde crescido na metrópole?”-interroga-se o poeta predilecto da cidade) ou teen-ager santiaguense (“curioso”, acrescenta o vate mais celebrizado da cidade, “cai bem o termo teen-ager devido às ascendências inglesas do gajo, mesmo se, por alturas do seu regresso à sua cidade natal, ele já não fosse propriamente um teen-ager, mas um jovem adulto!”)?
Dicotomia cultural, estalagmites de lusitanidade ou penedos de caboverdianidade no imenso oceano das solicitações culturalistas cosmopolitas e das auto-sugestões identitárias, confluência dos afluentes das origens todas de tantas heranças nas águas da universalidade cuja foz seria a cidade da Praia, melancólica defronte do seu rio imaginário?
Enfim, português, português ultramarino, luso-africano, branco afro-lusitano, europeu meso-atlântico, minhoto retornado ou badio branco irreversivelmente postado no miradouro da sempre atraente e inapagável civilização europeia?
“Irreverente modernista era o que ele era, o António Pedro, de tantas e múltiplas ascendências, de tantas e diversas andanças!”-sufragou, com voz cristalina, se bem que póstuma, o único e convicto companheiro das lides plásticas e das tertúlias que encontrou no provincianismo beato e caseiro da sua cidade natal.
E continuava o caldeamento cultural e todos, ainda que a contragosto, imaginavam-se nadando no caldo pagão da miscigenação.
(“Embora a contragosto dos cronistas oficiosos e dos pensadores mais eurocêntricos e concêntricos na preservação, a todo o custo, da chamada missão civilizadora de Portugal em África e de que Cabo Verde seria, a um tempo, a ilustração mais eloquente e um agente privilegiado, e, por isso, mais renitentes à aceitação dos benefícios da mestiçagem cultural e dos efeitos positivos resultantes do diálogo civilizacional e da interpenetração de raças e culturas, de que Cabo Verde é uma pequena, mas bela ilustração”-iludia-se, anos mais tarde, um passante da cidade a propósito do caldeirão de ensaio da mestiçagem que, segundo esse escritor metropolitano tornado caboverdiano adoptivo, seguramente no plano da maioritária escrita ficcional, e adepto convicto e divulgador prolífero das teses então em voga nos círculos intelectuais dominantes no arquipélago, terá sido e continuaria a ser Cabo Verde até à completa crioulização da ilha de Santiago mediante a extirpação dos resquícios de áfrica (como a tabanca, o batuque, a magia negra, a renitência messiânica dos rabelados) que, lamentava-se em desencontrados sentimentos de desprezo, respeito e despeito, ainda sobreviviam nessa ilha meridional de Cabo Verde e teimavam em marcam o rosto mais visível da sua cultura ou, melhor, a face mais típica da ilha sociológica, outra, que é o seu hinterland, a qual se encontraria num estádio de evolução cultural (isto é, de assimilação à cultura europeia dominante) muito desconforme do estádio de aceitação (o mais avançado, como é sabido, no processo de aculturação à civilização europeia) a que chegaram as nossas restantes ilhas, com destaque para as de barlavento(e aqui entravam as muitas citações dos mestres claridosos, com excepção de Jorge Barbosa que, sendo natural e profundo conhecedor da ilha de Santiago, não alinhava nestes modos de ostracização e de negro-africanização das suas expressões culturais afro-crioulas mais distintas).
Com a topografia da sua pequena cidade natal soterrada na mais recôndita loca da memória, António Pedro vivia com íntima ansiedade o seu regresso, que sabia ser fugaz, à terra natal e o reencontro com a sua vida quotidiana, com as suas pulsões, com as suas expressões idiossincráticas, com as suas manifestações culturais mais típicas. E era firme a sua convicção, funda a sua intenção e inabalável a sua vontade de penetrar-lhes o âmago, de dissecar-lhes o espírito, de entender-lhes o sentido, de neles se envolver para melhor se envolver com as gentes das ilhas, seguramente futuras personagens que teriam que desfilar e transfigurar-se na sua escrita, na sua pintura, no seu teatro, nas suas mãos inventivas. Imensa era a força que o propulsava na contínua superação das barreiras que se iam erigindo na atmosfera elitista e centrípeta que então dominava e sufocava a cidade-repartição, em cujas verdejantes imediações tinha nascido e passado a primeira infância. Tantas as suspeições inoculadas pelos preconceitos eurocêntricos dominantes, tantas as barreiras engendradas pelo desconhecimento do meio e por tantos anos de ausência!
Aproximou-se, pois, da ilha e dos seus moradores, a mente inundada de dúvidas, embora com o firme propósito de não se diluir nos usos e costumes das populações das ilhas, mesmo daquelas dos estratos sociais mais ilustrados nas coisas da cultura moderna ou das fontes clássicas da civilização europeia. Convinha-lhe preservar a sua actual personalidade moldada em tempos e espaços vários da Europa, nos quais, aliás, se tinha sentido completamente em casa, depois de um breve período de sensação de vazio e espanto adveniente da falta do sol e da poeira que agora o circundam e quase o sufocam. O papel que se reservara era o de tornar-se cúmplice das gentes das ilhas. Um cúmplice obviamente aberto a todas as dimensões do seu ser ou, pelo menos, àquelas dimensões que lograsse perscrutar. Com o distanciamento necessário à sua melhor compreensão, com o distanciamento que, de todo o modo, lhe foi outorgado pela longa ausência e, para sermos claros, com o distanciamento que se esperaria de um branco (algo mestiçado, embora), descendente de famílias possidentes e que, embora ainda moço, se foi dotando de invulgares conhecimentos do mundo e das suas mais recentes revoluções estéticas, mormente nos domínios das artes plásticas, literárias e dramatúrgicas modernas, ainda quase inteiramente desconhecidas nessas ilhas abandonadas. Pretendia, pois, envolver-se com a ambiência parda e a atmosfera luminescente que dele se aproximavam pachorrentamente e transportar a ilha e a cidade, e com elas as suas gentes, e os seus rostos, e as suas almas, para as insondáveis dimensões das saudades futuras que se haveriam de alimentar das imagens que agora se petrificavam na arte que, ainda tímida, se escondia na sua retina.
E, sôfrego, lançou-se todo e inteiro às novas sensações.
Sem falsos temores, sem fingimentos, sem ressentimentos, sem pruridos, sem outras congeminações que não as de traduzir em arte o que os olhos viam, o corpo sentia, a mente dissecava, a alma aplaudia, rejeitava ou condenava à indiferença de coisa outra, dos outros, sem outro vínculo com ele, se não o de apresentar-se como matéria de reflexão artística.
No Diário: Vi um batuque/ baque bacanal/-pobres selvagens/e a morna/ morna/bole mole/ já velha …”. Ironia versilibrista. Modernismo jorrando, lívido, estrangeirado e cara-pálido, todavia irreverente e livre, liberto das babas do ultra-romantismo e da grandiloquência camoniana estranhamente acasalados nas hespérides (essas perdidas ilhas arsinárias!) com os restos do fim do mundo!
Ó desenvolvimento separado na separata que é o puro sonho ou pesadelo automático!
Entrementes, escrevia um nativista: “o badio porque o mais africano e negro dos caboverdianos é o culturalmente mais atrasado e, obviamente, o menos civilizado de todos eles”. Curiosamente, esse nativista tinha-se envolvido numa das mais importantes polémicas estéticas que tiveram lugar em Cabo Verde, quando nos inícios dos anos trinta do século se posicionara contra a titubeante irrupção do modernismo literário em Cabo Verde, argumentando que o verso devidamente cingido na rima, na métrica e em outras formas fixas era a única indumentária adequada à poesia e desqualificando os cultores modernos do versilibrismo como perigosos bolchevistas literários. Assinale-se que, nesta expressão acusatória (“bolchevistas literários”) se sintetizam todos os paradoxos e ambivalências nos quais navegava a geração dele contemporânea. Nesta óptica, ele terá sido o exemplo mais acabado das contradições e das ambiguidades que perpassavam os literatos e demais letrados do nativismo político, como atestam as suas profundas convicções de homem republicano de esquerda e progressista admirador de Marx, o mestre venerando, e membro encartado do Partido Socialista Português, e as suas celebradas capacidades de exímio émulo neo-clássico do autor de Os Lusíadas – se bem que um tanto serôdio - da poesia camoniana e de intrépido cultor e defensor do idioma caboverdiano, se bem que nas margens delimitadas pela sua filiação neo-latina. É, igualmente, assim que ele se evidenciou como co-precursor tanto do culto da Atlântida (transmutada, por vezes em labor simultâneo com José Lopes, em Hespérides, Jardim das Hespérides ou ilhas arsinárias) e da esquizofrenia cultural crioula, oscilante entre o amor da mátria natal e a veneração da pátria imperial e monumental dos descobridores, missionários, letrados e, mais de que tudo, de Camões, o seu símbolo, o seu canto, como também da África mediterrânica, faraónica e esfíngica, todavia sempre venerada como berço da civilização ocidental, e, a contrario, por exemplo, da démarche mais tarde empreendida por Cheikh Anta Diop, em contraponto à África negra, tida por pagã, animista e selvagem, habitada por criaturas tisnadas, abandonadas às trevas da ignorância e, por isso, necessitadas das luzes da civilização cristã e ocidental, quiçá somente passíveis de serem alcançadas mediante a obra do colonizador europeu e seu mais proficiente cultor, o colonizador português, como consideravam e advogavam em altos e, por vezes, impacientes brados os filhos islenhos da mãe-pátria lusitana, nossos ancestrais e respeitados compatriotas.
Oh! Tempos de múltiplos pressentimentos e de muitos ressentimentos!
Tempos de todas as exaltações! Tempos de veneração do vulcão da ilha das lavas cuspindo orgulho e rectidão na língua materna! Tempos da louvação da altivez das criaturas e da sua limpa emersão das lendas, das frutas douradas, dos tempos antiquíssimos das batalhas memoráveis e dos monstros vencidos!
Tempos de culto da língua pátria dos poetas da expansão lusa!
Tempos de ressurreição da pele negra insurrecta do marechal tricolor das Antilhas e de outros lugares de liberdade dos irmãos de raça e de desgraça!
Tempos de subjugação ao abecedário da vassalagem e aos labirintos da sua decifração, com o corpo escuro circunscrito à amnésia e à quotidiana sublimação do cárcere e da carestia em moradas outras, dos deuses antigos, dos deuses nossos contemporâneos, estranhos, estratificados.
Para, alguns anos depois, arrematar um outro génio da insularidade, sedentário da província do meio do mar, do lar insular modelar do nosso processo supostamente acelerado e exemplar de aristocratização cultural e, em vida, sedento das raízes do seu torrão natal, e das outras, recém-adquiridas e devidamente transladadas para o sopé do monte verde e aí para sempre sepultadas com os seus futuros restos mortais com vista privilegiada para o Porto Grande e para os navios demandando o norte e/ou o nor/noroeste dos mares do Atlântico. “Precisamente a ilha de Cabo Verde (Santiago) que se encontra numa fase mais atrasada de evolução aculturativa, está mais avançada linguisticamente do que as outras, embora apenas no aspecto fonético”.
Oh! Tempos de busca e de auto-diluição!
Oh! Tempos da caboverdianidade espartilhada entre a lusitanidade, a luso-crioulidade, a afro-crioulidade e a africanidade!
Oh! Tempos de muita inflexão e de pouca penitência!
A terra jazia, entretanto, inerte no seu diálogo silencioso com os parceiros, mas também com os morgados, com os comerciantes, com os seminaristas, com os professores primários.
Inadaptado e louco modernista era o que era o António Pedro.
“Louco e bendito modernista é o que ele é", corroborou, ainda em tempo útil, Jaime de Figueiredo, comovido e entusiasmado, a Jorge Barbosa, discípulo hesperitano, então muito dado às brumas da antiguidade greco-latina devidamente envoltas em rima e métrica clássica.
“Oh azuis, por demais azuis céus que me ofuscam o brilho castanho e o pardo verde da terra! Oh céus sem pátria!”.
As palavras continuavam a crepitar incongruentes, espartilhadas entre o plateau e os subúrbios, entre a saga aventurosa dos sonhos loiros libidinosos e os ventres proeminentes, infestados de lombrigas, das crianças em tempos de miséria e de muita fome, sideradas ante o casebre abandonado, o arco de ferro do menino enferrujando-se com as brincadeiras desvanecidas pelas estiagens e o desassossego do mar sempre, sempre dentro dele e dos caboverdianos anónimos, humildes, seus irmãos.
“Este homem é um Nero e pretende atear fogo à cidadela das nossas tradições mais civilizadas”-clamaram os estudantes radicados do outro lado de onde sopra o vento, secundados pelos neuróticos moradores da beira-mar onde, com estonteante regularidade, por sua vez, baila o vento.
“E traz à praça pública as nossas chagas, pois que de chagas se trata quando se nomeia o batuque, e a terra seca, e a preta. Oh! Vergonha do mondrongo-badio insultando herético o nosso fado que é a morna! Oh! Nefasto agente das artes degeneradas!”.
E, destemperados, congregaram-se em torno da raiva e do ódio, embevecidos com o auto-da-fé que acabavam de efectuar, e com as cinzas das primeiras letras pós-hesperitanas escritas e impressas em terras de Cabo Verde com o selo tipográfico da Imprensa Nacional de Cabo Verde, sedeada na cidade da Praia.
“Bendito modernista é o que ele é, esse cultor da liberdade poética e da sátira versilibrista!”, exclamou Jorge Barbosa e pôs-se febrilmente a escrever versos libertos da serôdia coacção da rima e da métrica e a debitar poemas sobre os mares caseiros da praia negra e da saragaça, o cutelo dos picos após a chuva, as negras e mulatas e respectivas ancas sensuais e dançarinas no pilar do milho, a estiagem, as meninas portuárias de S. Vicente, a ambiência neurasténica da ilha do Sal, os quinhentos anos de desventura e abandono do balanço final da lusitanidade colonial, e, impaciente com os tempos da maturação do tempo, pôs-se a congeminar destemidos versos panfletários destinados à memória futura das novas gerações contestatárias e nacionalistas. Versos esses que, embora clandestinos, eram recitados de forma sorrateira em muito restritos círculos de confrades, amigos e admiradores.
Entretanto, o pilão continuava retinindo nos quintais, e nos terreiros sagravam-se os ritos funerários e mandavam-se recados aos finados e ao senhor da chuva e, assim, prosseguia a trágica edificação da identidade do povo da ilha, do arquipélago do verde renitente e do diário milagre da sobrevivência.
Alguns anos mais tarde, um outro poeta, também ele branco nascido sob o signo de sagitário no plateau, mas nele criado até à idade adulta, sentado num café de Lisboa, assediado pela doença, pela saudade e pelo inverno, dessendentava-se nos sequeiros de Mato Engenho e de Dàcabalaio e sonhava um outro amanhã para as suas distantes e amadas ilhas, e as suas levadas enormes, e os seus trapiches pilando, e o seu cheiro de melaço vivificando as ânsias de felicidade na terra finalmente nossa, do povo das ilhas (“estás a atribuir-lhe de forma abusiva essa última expressão, consabidamente da lavra clandestina de Manuel Duarte. O António Nunes era simplesmente um poeta neo-realista que transitou do ultra-romantismo para o cânone claridoso salpicando-o dos ritmos de pilão e de outros sinais afro-crioulistas por influência de Teixeira de Sousa e da poesia negritudinista do mulato santomense crescido na diáspora portuguesa da capital do império, Francisco José Tenreiro de seus nomes civil e poético completos. As leiras de terra que serão nossas inserem-se mais num projecto de reforma agrária de teor socialista, ou, melhor, democrático-popular, como propugnavam os comunistas portugueses, companheiros de jornada de Teixeira de Sousa que, aliás, introduziu António Nunes nas tertúlias neo-realistas do Café Gelo de Lisboa, do que numa visão independentista, como, aliás, se viria a verificar com a postura titubeante do romancista foguense quanto a esta última questão, não obstante o seu entranhado anti-fascismo e o seu inquestionável progressismo político-social, primeiramente de cariz mais comunista e revolucionário, depois de teor mais socialista e reformista ”- interpelou-me, visivelmente incomodado, o poeta-mor, ex-preso político e combatente da liberdade da pátria. Aliás, não te esqueças desse outro poeta caboverdiano radicado na metrópole e muito ligado aos círculos neo-realistas da poesia do (anti) bloqueio. Na verdade, nascido na ilha da Boavista, foi levado para Lisboa ainda de tenra idade, tendo aí crescido e morrido, feito homem e poeta navegante entre o seio familiar crioulo caboverdiano e a ambiência circundante europeia e cultor de duas poéticas, complementares nas temáticas e nas sensibilidades trazidas à cena. São dele a Ilha e a Solidão e Missiva, de incidência caboverdiana, mas também os muito celebrizados Pátria, Lugar de Exílio e A Invenção do Amor, de temática predominantemente portuguesa e/ou universalista, mas sempre de altíssimo teor libertário e anti-fascista. No progressivismo residirão os seus pontos de encontro com o poeta Sagitário, saudoso da cidade natal, longínqua e pequena).
Porque sagitário morreu o demiurgo do poema de amanhã esquizofrénico num hospício da pátria monumental da miséria desvalida do povo, enclausurado no coração do império.
Santiago continuava especado entre o mar e o pilão, entre o sul e a estiagem, aguardando pacientemente, meses atrás dos meses, anos atrás dos anos, a estação das águas, das sementeiras, das mondas, das remondas, das trismondas, das colheitas dos risos, dos frutos, da alegria,
Os cavalos relinchavam continuamente em Santa Catarina, as folhas dos poilões rumorejavam entre Setembro e Março, o azul entranhava-se à distância e aos ecos ressoando entre as colinas sob o profético deambular de Nhu Naxu.

                                          1938-1966
               Tempos de outros regressos e de outras partidas
Veio o António Pedro na sombra do nacional-sindicalismo, do surrealismo, do periodismo e do Marechal Carmona (então presidente da pseudo-república portuguesa do Estado Novo em exercício de soberania por terras ultramarinas), viu a claridade e sorriu satisfeito.
O arquipélago tornou-se com o império a retaguarda do mundo. Tudo cheirava a pólvora e holocausto. Crioulos caboverdianos nascidos afro-americanos ou latinos do Mississipi desembarcavam nas costas de Dunquerque. Judeus de Cabo Vede agarravam-se ao Sião de Achada Riba, enquanto António Pedro proferia convincentes ditongos de liberdade entre o nevoeiro de Londres.
O arquipélago tornou-se, contra o império, a retaguarda da voz. E os corpos islenhos calcinados entre os oboés, descobriam-se escuros, castanhos e libertários.
António Pedro habitava ainda as muitas moradas das diásporas.

                      De 1966 até à eternidade
Morreu o pai minhoto, escriba assíduo na revista maior da província/colónia dos seus tempos praianos, veio e viu como a terra ainda era seca, de um continuado odor castanho salpicado de verde.
Foi-se e nunca mais voltou, o sagitário de tantas promessas não cumpridas, o homem-teatro de tantas máscaras assumidas quiçá para melhor perscrutar as diversas tonalidades da dor e as diversas matizes da paixão, o artista plástico e o poeta surrealista que, desprevenido, também se embebedou da terra nua e árida e das suas imponentes colinas azuis, e se fez eco dos rochedos de Laranjo e da Serra da Arga, ao som improvável da morna, que, serenada em serenata, teimava em arrebatá-lo para o transe de uns desajeitados passos de maxixe.
JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA
Praia, 21 de Julho de 1987 (versão original publicada na revista Fragmentos, de 1987)
Revisto e refundido em Lisboa, aos 16, 17, 20 e 21 de Dezembro de 2010, aos 30 de Janeiro, e aos 1, 6 e 9 de Fevereiro de 2011


Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha


Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha

Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 180, de 10 de fevereiro de 2011, p. 27.
João Manuel Varela é um caso paradigmático na história da literatura de Cabo Verde ao afastar-se da cabo-verdianidade e do telurismo de raiz claridosa, com predomínio da obra de Jorge Barbosa, ainda fortemente influenciando seus pares nova-largadistas e demais nomes que despontaram na virada dos anos 1950/1960.
Varela fragmentou sua obra poética em heterônimos, sendo os poemas atribuídos a João Vário, os “Exemplos”, motivo de negação no meio literário de seu país, “obra por todos nós discriminada” no dizer de Manuel Ferreira em “Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa” (FERREIRA, 1987, p. 63), mas que ainda sofre com a “ostracização literária” como assinala José Luis Hopffer Almada em recente artigo, “Que caminhos para a poesia cabo-verdiana – parte II”. Ostracização estimulada naquele tempo por não acompanhar a temática de luta anticolonial, por privilegiar indagações ontológicas e metafísicas, e por fazer uso do longo poema narrativo com forte ressonância épica, para além das diferentes referências que vão da Bíblia aos clássicos da literatura ocidental.
Por outro lado, paralela à obra de João Vário, Varela cria um outro heterônimo, Timóteo Tio Tiofe, com um discurso cabo-verdiano e que rompe com a influência de Jorge Barbosa e cria “O Primeiro Livro de Notcha”, “um poema de que as minhas ilhas precisam e, em certo sentido, talvez, o poema que a minha geração aguarda ou aguardava de mim” (TIOFE, 2000, p. 13). Fragmentos desse poema vinham sendo publicados desde os anos 1960 até serem refundidos em “O Primeiro e o Segundo Livros de Notcha”, sob a chancela da Edições Pequena Tiragem, em 2000.
“O Primeiro Livro de Notcha” é dividido em três partes, subdivididas em “discursos”. Neles, o poeta retoma características da obra de Vário como a intertextualidade com a Bíblia e aos cânones ocidentais, porém insere o homem cabo-vediano na plenitude de seus anseios, receios, cotidiano, mitos, revoltas, língua materna, rememoração de populares, heróis nacionais e africanos, assim como o farto uso de elementos e expressões da geografia, da história, da botânica do arquipélago.
O narrador insere-se como africano, pois, para ele, “o nosso destino, o destino político do arquipélago, é inconcebível fora do contexto africano” (p. 13). Afinal, é “um homem deste século,/ um homem de África, (...) falando da África deste tempo e de seu povo” (p. 21). Tempo de emigração forçada para o contrato: “Vou dar nome para Angola ou São Tomé. Sabes se ainda recebem contratos para este mês, Cunha?” (p. 34). A respeito da emigração para S. Tomé, Tiofe, na “Primeira Epístola ao meu irmão Antonio”, aponta para a nova realidade submetida ao cabo-verdiano que se depara com “a humilhação, (...) a falta de recursos da terra. (...) é a partida como solução desesperada” (p. 133). Revolta expressa ao relatar a quantidade absurda de mortos nas letras frias das estatísticas pela seca e fome ao longo dos séculos, estimulando o apoio aos revolucionários: “quem não pensa, neste tempo de Sekou Touré, de BenBela, de Guevara, em pegar em armas?” (p. 97).
Esse sofrimento da África sempre foi “ignorado” pela instituição que apoiou a dor dessa população: “Algum tempo mais tarde, o papa Paulo VI recebia em audiência Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Soube-se, então, no Vaticano, que lutar pela independência é também uma maneira de merecer o reino dos céus” (p. 115). Aliás, a única solução para as ex-colônias de Portugal diante da intransigência deste em negociar as independências e indaga: “Ó homens da Europa, homens/ que vos embriagais de orgulho e simonia/ por que não haverá neste mundo/ outra certeza além da vossa?” (p. 119).
É incontestável a depuração da linguagem, o exaustivo e criativo labor com a palavra poética de João Manuel Varela proporcionando plena satisfação para quem ler este livro atribuído a T. T. Tiofe.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Mito Elias - TEMPO DE BICHOS - PRIVATE Z(oo)M

TEMPO DE BICHOS - PRIVATE Z(oo)M

Celebrando as 70 vidas do poeta Arménio Vieira

29 de Janeiro 2011 - 18:30 - Livraria CE BUCHHOLZ - Rua Duque de Palmela, 4 - Lisboa

Mais uma performance do TRIO MAJINA
desta vez sobre os BICHOS na poesia de Conde de Silvenius.

Mito Elias - Poesia, vídeos e sonorizações.
Elmano Caleiro - Contrabaixo e Baixo eléctrico.
José Brazão - Percurssão.
José Cunha - MC & orador residente.

TEMPO DE BICHOS – Projecto MAJINA

O POETA
Que bichos são estes, senão nós mesmos. Sempre o homem, na sua condição mortal e precária, com as suas grandezas e misérias, no centro da obra de Arménio Vieira. Mesmo quando convoca os Bichos do seu animalário, ou sobretudo quando os convoca, para se tornarem no espelho de todas as nossas perplexidades, onde buscamos as impossíveis respostas para este improvável destino de bicho-gente que somos. Para o poeta de Mitografias, à força de querermos ser diferentes transformamo-nos em burros, sem que isso nos dê a dignidade que ser burro, jerico ou asno implica. De tão distraídos, e sonolentos, tornamo-nos “animais de capoeira”. Não galinhas, porque como nos lembra o poeta “as coisas

são o que são”. Fazem de nós galináceos adormecidos e anestesiados. Podemos também ser frustrados e vingativos tubarões, ou tigres sanguinários e sem nobreza. Há uma nobreza de bicho que em nós se transformou em mera animalidade, e que fomos perdendo como em HOMENS-CÃES (E VICE VERSA). Mas desenganem-se. Os homens não são bichos. São meros bichos e animais como os bichos e os animais nunca ousam ser. Sim, porque afinal “as coisas são o que são”, e “mais não digo”, diz o poeta, na forma irónica de quase tudo dizer no que diz não dizer. Irónico, mordaz, corrosivo, com um refinado sentido de humor, são estes alguns dos instrumentos de precisão com que Arménio Vieira nos sonda a alma e põe a nu o sentido da existência. Herdeiro de uma tradição literária maior, Homero, Dante, Shakespear, Camões, Melo Neto ou Sena, é toda uma tradição cultural e literária na qual ele se insere e se assume, “li-os todos” (Arménio dixit), que está no centro da sua obra e nela se prolonga sem angústias.

O PROJECTO
Que nome dar a este espaço de exaltação estética, em que somos convocados para a celebração da palavra, numa ritualização mágica e interactiva, que nos franqueia os domínios do sagrado pela porta profana do fascínio, do prazer e da fruição plásticas?

Domina nestas performances o aparato da sua encenação, e não estamos distantes dos rituais da sagração. Mas sem obediência a um qualquer cânone, que não seja o do improviso, da experimentação, da irrupção do novo. Não faltam também, como nos domínios do sagrado, as técnicas, os instrumentos, os objectos, e até a figura do celebrante, embora aqui estejam estiolados, implodidos na sua missão de ordenamento, regulação e controlo, que dão lugar a uma prática da desobediência, da iconoclastia, de inesperado e até de insólito. É uma atmosfera mais mágica que mística, um território mais estético que religioso mas onde não estão totalmente ausentes o espiritual e o sagrado. Os caminhos é que são outros, diversos, inusuais. Enquanto espaço de ritualização ele obedece a um processo de constante reinvenção, recriação. É a isto que chamamos PERFORMANCE POÉTICA, ou POÉTICA PERFORMATIVA, ou ainda ORAL ACTION (à maneira da Action Painting), território complexo e pluridisciplinar de hibridização pós-moderno, onde as linguagens se fundem num processo fecundo de crioulização e mestiçagem.

O AUTOR
Os trabalhos de Mito obrigam-nos constantemente a um olhar outro sobre a realidade. Um pouco à semelhança de uma certa poesia de Arménio Vieira, aqui celebrada, é um exercício de atenção contra a desatenção a que estamos sujeitos (ver poema ISTO É QUE FAZEM DE NÓS). A procura constante de processos de contaminação, de técnicas e de linguagens, sublinha o carácter experimental de um trajecto ímpar no panorama da arte caboverdiana.

José Cunha

http://www.youtube.com/watch?v=rEUDKQ5Rzqk

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Germano Almeida – Estórias Contadas


Germano Almeida – Estórias Contadas
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 178, de 27 de janeiro de 2011, p. 29.

Detentor de uma consolidada obra em prosa, reconhecido e aclamado nos países de língua portuguesa e no seu país, Cabo Verde, Germano Almeida, natural da ilha de Boavista, possui como principal característica o irreverente humor nos seus textos literários, dentre tantos, destacamos “O testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo” (1989, adaptado para o cinema), “O meu poeta” (1990), “A família Trago” (1998), “O mar na Lajinha” (2004) e as crônicas reunidas em “Estórias Contadas” (1998), objeto desta resenha.

Trata-se da reunião de cinquenta e cinco crônicas publicadas em jornal, possibilitando ao escritor a oportunidade de ampliar seu público leitor e expor sua ideias. Esse gênero caracteriza-se pela apreensão do cotidiano e encontra na verve irônica de Almeida um agradável espaço para relatar fatos comuns e memórias da infância, versar sobre a poesia do cotidiano, o que aproxima a narrativa da sua crônica ao conto curto como acontece na hilariante disputa do narrador com a sogra em “A minha cadeira”: “E assim ficamos com um único pomo de discórdia: a minha cadeira. Ela chega e é como se durante anos tivesse estado a sonhar-se nela enroscada, porque dirige-se directamente a ela e instala-se com um suspiro de proprietária saudosa, nunca se comovendo a partir desse momento com nenhum dos meus ares infelizes” (p. 89).

Rememorar as abruptas mudanças de seu tempo, a conscientização da crueldade imposta pelo colonialismo, refletir a identidade cabo-verdiana são alguns temas abordados em “Uma forma de identidade africana”. Nessa, o narrador recorda os seus estudos orientados para que se mantenha subserviente e exalte a ex-colônia, noções configuradas nos slogans “mais fácil é obedecer que mandar” e “Aqui é Portugal”. Perante essas passagens, deve-se recuperar o que Roland Barthes, em “Aula”, assinalou como o fascismo da língua, “pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”. A seguir, o narrador comenta a disseminação da ideia de “pertença africana” nos “anos 60-70, com a agitada revelação de que Cabo Verde também era África” (p. 15), “um grande sentimento de esvaziamento” causado pela contestação do que distinguia o ilhéu de outros povos. Contudo, o narrador expõe alternativas que demonstram a condição especial de Cabo Verde ao recorrer ao famoso poema de Ovídio Martins, “Flagelados do Vento Leste”, e na afirmação de Baltasar Lopes da Silva, na qual “não éramos nem africanos nem europeus”; conclui o narrador “que criar essa terceira possibilidade é bem do cabo-verdiano (...) E tivemos que aprender que há tantas identidades culturais quantos os povos africanos, e bem perfeitamente que poderíamos pertencer à África desde que levássemos uma etiqueta a assinalar-nos como senhores de uma identidade que nos particulariza como cabo-verdianos” (p. 17).

A condição de marginalidade imposta pela sociedade contemporânea ao escritor enquanto intelectual é bem aproveitada por Germano Almeida nas crônicas. Edward Said, em “Representações do Intelectual”, salienta que o “intelectual no exílio é necessariamente irônico, cético e até mesmo engraçado, mas não cínico”. Em “A saúde de todos no ano 2000”, Almeida revela o seu descrédito frente às propagandas políticas: “Saúde para todos no ano 2000”; “Educação para todos no ano 2000”; e complementa que “de imediato não quisemos acreditar em tal maravilha, sobretudo porque tinha duas características que logo nos fizeram desconfiar da sua seriedade: era de graça e era para todos” (p. 33).

Germano Almeida relata em “Estórias Contadas” passagens do passado colonial na sua infância, situações pitorescas imediatas ao pós-independência e casos recentes da década de 1990. De impostores a presidiários, do apreço ao vinho ao amor ao futebol, essas agradáveis crônicas exaltam o país, o ilhéu e sua cultura: “assim é o cabo-verdiano: orgulhoso da terra onde vive, sofre e labuta contra a permanente estiagem, os olhos no estrangeiro, o coração nas ilhas” (p. 12).