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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

João Tala - “Conto os meus mortos e revejo as cicatrizes” (entrevista)

“Conto os meus mortos e revejo as cicatrizes”

O poeta e ficcionista João Tala lançou, recentemente, na União dos Escritores Angolanos, o livro de contos “Rosas & Munhungo”. Tala é autor dos livros “A Forma dos Desejos”, poesia, prémio Primeiro Livro da UEA, 1997, “O Gasto da Semente”, poesia, menção honrosa do Prémio Sagrada Esperança do INALD, 2000, “A forma dos Desejos II”, Chá de Caxinde, 2003, “Lugar Assim”, poesia, UEA, 2004, “Os Dias e os Tumultos”, contos, Grande Prémio de Ficção da UEA, 2004, “A Vitória é Uma Ilusão de Filósofos e de Loucos”, Grande Prémio de Poesia da UEA, 2005, “Surreambulando”, contos, UEA, 2007, e “Forno Feminino”, poesia, Kilombelombe, 2009.

Isaquiel Cori, 09 de outubro de 2011

Vida Cultural - Cada conto refere-se a uma mulher. São curtas mas grandes estórias de amor. Amores vividos ou sonhados?
João Tala - As personagens principais dos contos em Rosas & Munhungo são mulheres distintas que vivem diversas situações, ou são reconhecidas num cenário do pós-guerra imediato. Um traço comum entre essas mulheres é a superação de traumas e outros estados psicológicos daí decorrentes, pelo amor. A característica estilística tem uma grande carga onírica onde o real vivido se revê na composição do sonho.
VC - O título "Rosas & Munhungo" sugere amor e boemia. Quer comentar?
JT - Rosas, como sendo flores, é simbologia feminina, portanto, associada à mulher. Essas personagens, a maioria delas, adaptaram-se a ambientes que lhes eram hostis, ou então a carência cede-lhes o argumento para “ir à rua”. Daí a expressão kimbundo munhungo que é sinónimo de libertinagem, num sentido mais ousado da boemia.

Foto: Jornal de Angola
VC - A proveniência médica do autor está muito presente pelo uso notório de termos do jargão médico. Este uso é propositado ou decorre, digamos, de deformação profissional?
JT - Deformação profissional e porque a personagem representa gente. A essência da medicina são as pessoas.
VC - No estrito sentido do texto pressentem-se algumas ressonâncias intertextuais que fazem lembrar o argentino Jorge Luis Borges, o moçambicano Mia Couto, o angolano Boaventura Cardoso e mais remotamente o também angolano Luandino Vieira. Assume essas influências?
JT - Leio muitos escritores. Mas, no interesse da minha escrita, são os latino-americanos que mais me inspiram. Começou, esse interesse, com a leitura da colecção “Vozes da América Latina” que o nosso INALD dava à estampa nos primórdios de 80 do século passado, principalmente quando li “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo. Seguiram-se depois “O Trovão entre Folhas”, de Roa Bastos, os livros de Gabriel Garcia Marques, entre outros. Do Boaventura Cardoso fascinou-me mais “A Morte do Velho Kipacaça”. Já Luandino Vieira e Mia Couto, salvas as diferenças, parecem enquadrados dentro da mesma dinâmica de reinvenção que a mim fascina, mas não creio que perceba na minha escrita esse modo de conceber o texto. Borges é uma leitura mais recente.
VC - Desde “A Forma dos Desejos I” a mulher tem um lugar muito especial nas suas obras. É seu propósito constante homenagear a mulher? As mulheres tiveram ou têm um papel determinante na sua vida?
JT - Esclarecer sobre isto seria mais do domínio da psicanálise, já que é quase uma constante também na minha poesia. Evidentemente, não vou passar o filme da minha infância e flagrar o papel delas no meu “esquecimento”. Fica para depois.
VC - O contar recorrente de estórias e histórias humanas do tempo da guerra faz parte dos seus livros? Acredita que isso faz falta à reconciliação nacional?
JT - Não o faço pela reconciliação. Faço-o pelo hábito de contar. O militar que conte os cartuchos e o que ainda resta para esmagar. Eu conto os meus mortos, revejo as cicatrizes, teço sonhos, amo e amargo-me. Não fui voluntário quando um dia me cangaram para a tropa onde eu conviviria mais de perto com a guerra. Isso assim, é também matéria para poesia. Escrevo sobre aquilo que vivi e o que me está mais próximo é a guerra. Se analisar bem, saberá que só falta aos políticos reconciliarem-se e deixarem de arrastar os militantes dos partidos nas suas paranóias. De resto, nem a Bíblia reconciliaria. Por exemplo, não acredito que o malanjino não se dê bem com um bieno ou que um bakongo seja inimigo de um umbundo. Só entre militantes de uns e de outros é que se destilam ódios. É maka deles, os políticos.
VC - Sendo um dos autores mais premiados no país, a sua obra não deveria ter uma maior divulgação em Angola e no estrangeiro?
JT - Para tal, falta ao João Tala a cunha. Dizem que isso se faz com a imprensa e com agregação a grupos privilegiados. São coisas de acontecer.
VC - O que o faz escrever? O que o move enquanto escritor?
JT - A leitura. Eu leio mais do que escrevo e isso me inspira, insufla no meu cérebro imagens que persigo no acto da escrita. Depois há o hábito de contar, há a beleza da poesia.
VC - Na qualidade de poeta, que avaliação faz do legado poético de Agostinho Neto?
JT - Posta a pergunta em termos de “legado” fica difícil responder. Agostinho Neto concebeu belas criações poéticas, com um simbolismo que se remetia aos conteúdos da sua época, com plena satisfação estética. No seu tempo o neo-realismo fazia escola com preocupações que tinham no centro a vida simples dos homens mais simples. E no seu caso, a sua terra então colonizada e oprimida, estava no centro das suas inquietações.
VC - A literatura angolana está robusta? Vê nela sinais de renovação?
JT - A geração à qual pertenço, iniciou nos anos 80 uma movimentação que daria em fartos acontecimentos literários. Essa inspiração colectivista, depois que o tempo fez a sua natural selecção, permite hoje distinguir a maturidade dos que jamais se despojaram do interesse pelo estudo e trabalho. Sim, essa literatura está mais robusta. Quanto aos sintomas de renovação ou inovação costumam estar mais associados ao desempenho universal da literatura. Somos apenas peças dessa grande engrenagem, cada um contribuindo para o produto final. Só o génio é outra coisa.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

João Tala - Rosa & Munhungo (lançamento na UEA)

SOBRE O LIVRO DE CONTOS "ROSAS & MUNHUNGO" - Excertos

lançado aos 28/09/11



“Rosas & Munhungo”, o novo livro do escritor João Tala, foi lançado na quarta-feira à noite, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, numa sessão de venda e autógrafos bastante concorrida pelos amantes da literatura angolana.

O livro de contos, apresentado pelo escritor e secretário para a área cultural da UEA, Abreu Paxe, tem 105 páginas e faz uma abordagem ao quotidiano das mulheres angolanas, em particular.

De acordo com o autor, este livro nasceu no contexto do pós-guerra (...) “Tento abordar um pouco a trajectória de vida que muitas mulheres tiveram de seguir, após a guerra (...)

Dentro daquilo que a sociedade vive em relação às mulheres, João Tala tentou encontrar uma determinada temática, cujas personagens principais são senhoras como Josefa Confissão, Amélia Tchiquete, Lukinda, Rebeca Nzoji, Regina, Ana Rita e Maria Wataka.

A intenção do escritor foi abordar em “Rosas & Munhungo” situações que acontecem no mundo, em determinados cenários e contextos. “O livro está recheado de elementos metafóricos através dos quais os leitores podem tirar as suas conclusões”. A sua maior preocupação foi atingir uma determinada estética com a escrita e por isso, como sublinhou, “levei aproximadamente um ano para terminar a obra”.

Abreu Paxe disse à imprensa, à margem da apresentação do livro, que tenta procurar o equilíbrio na forma como regula o estilo literário e não literário. “As técnicas de construção estética de João Tala são inusitadas e bem feitas. Vê-se que existe consciência do mesmo na construção do material artístico”. Explicou, o escritor foi buscar figuras que em quase todas as sociedades são desconsideradas, pelo facto de serem meretrizes, e consegue atribuir-lhes valor existencial.

Obs: fotografia de M. Machangongo


Obs2: o lançamento de Rosas & Munhungo é um excerto da notícia estampada no Jornal de Angola de 30/09/11


Fonte: http://blogtala.blogspot.com/

domingo, 24 de outubro de 2010

João Tala lança "Forno Feminino" no Rio de Janeiro - 26/10/2010


POEMAS DE JOÃO TALA



TROMPAS UTERINAS / BRAÇOS DO MUNDO

ouço o recomeço acostumada seara
de grãos rompidos

ainda. as grandes mãos do mundo
fixam sementes, algarismos

palavras cervicais
húmus sobre terra húmida,

é esse o caminho que atinge ovários
pela boca da labareda.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 27)



Poema ébrio não é mais tua raiva
apago tua escrita dorida de raivas.
Bombeiro da inquietação
leitor das cartas imóveis
o engenho da tua caligrafia
eu, teu empenho a cumprir-te
quanto te conversas e precisas extinguir
o ruído da palavra que nem gritas.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 72)


Boa-noite. Venho de lume à
brisa de terra.
Trouxe o frasco de hormônio
achei-o na farmácia do tempo.

Boa-noite pedacinho. Outro desejo e
dois sorvos. Avivarei mulher em ti
com fogo novo. Noitinha, senhora
súbita alegria de doer onde salgava
o útero. Mais um sorvo e saltam tuas rosas
outro sorvo pode extinguir a angústia
reunida nos teus ovários.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 44)


palavras bonitas como a palavra mágica.
nascente uma palavra moça, recorrente.

palavra menstrual, rosada.
a rigor o mês assiste o vocabulário
da permuta,

a palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas mágicas de teus olhos cheios de plan(e)tas
muitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;

quando do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber na forma palavra nutrir.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 55)


São estas diferenças que partilho:
eclesiástica palavra tu és uma igreja

nutrida uma palavra
espiga outra palavra

levantas-me escolástica o nervo
com a tua dor;
aurora com o teu lume,

álgebra inquieta não somarias
o tempo que não partilho.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 41)


Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 27)


recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 20)


A VIDA É UM VÍCIO ALÍRICO
Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 24)


As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 29)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

João Tala lança "Forno Feminino" no Rio de Janeiro


(clique na imagem para ampliá-la)

O prestigiado escritor angolano João Tala lançará Forno Feminino, seu recente livro de poesia, na Kitabu - Livraria Negra, dia 26 de outubro de 2010, às 18h30, à rua Joaquim Silva, 17 - Lapa - Rio de Janeiro.

Kitabu - Livraria Negra
Rua Joaquim Silva, 17 - Lapa - Rio de Janeiro
Tel: (21) 2252-0533
htpp://kitabulivraria.wordpress.com
Twitter: @kitabulivros

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A (pa)lavra fértil de João Tala em "Forno Feminino" - resenha livro


A (pa)lavra fértil de João Tala em Forno Feminino
Por Ricardo Riso

Desde sua estreia literária com A forma dos desejos (1997), cada novo livro de poesia do angolano João Tala gera imensa expectativa entre os admiradores das literaturas africanas de língua portuguesa. O recente “Forno Feminino”, sob a chancela da Kilombelombe, lançado em 2009, corresponde de forma gratificante ao que se espera de sua escrita, confirmando o seu nome entre o que há de melhor nas letras angolanas neste primeiro decênio do século XXI.

Possuidor de uma poesia marcada pelas imagens insólitas, virulentas e surpreendentes, de um labor estético-poético acurado e inovador na desarticulação da sintaxe e na ampliação semântica no decorrer dos versos impactantes, prenhe ressignificador dos sentidos em sinestésicas metáforas surrealizantes de poemas que recusam os superficiais e acomodados caminhos da fácil compreensão. Uma poesia que desestrutura, por isso causa admiração, torna sua leitura prazerosa e reveladora dos rumos seguidos pelo sujeito poético. Assim é a poesia para quem procura lapidar a palavra poética com esmero. Assim é a poesia de João Tala.

Este jovem escritor nasceu em Malanje, Angola, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda.

Representante da geração dos anos 1990, Tala logo obteve admiração no meio literário angolano com o seu primeiro livro, “A forma dos desejos” (1997), merecedor do Prêmio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos daquele ano. O arrebatamento de sua obra inicial fez com que o poeta José Luis Mendonça declarasse: “‘A forma dos desejos’, veio impor novas exigências à mesa de leitura em relação aos novos autores. Uma das exigências será o critério de qualidade estético-literário. Para o referido poeta, esse livro, possui todos os ingredientes que compõem a obra verdadeiramente literária: a ousadia da mensagem, a imagética surrealista e vanguardista que procura superar o já criado, ou pelo menos, ser diferente trazendo algo de novo, a elaboração conceptual dentro dum diversificado figurino”. (1)

Tamanha empolgação que poderia ter sido contaminada pela precipitação, foi consolidada no livro seguinte, “O gosto da semente”, recebedor da menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000. A respeito desse livro, o poeta João Maimona considera João Tala "como uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho. Faz parte da comunidade de jovens autores que, no limiar da década de 80, procuravam, com rigor, pesquisa e talento, seleccionar, agrupar e combinar palavras que pudessem servir a arte através da literatura. Uma das mais importantes revelações da década de 90." (2)

A partir daí, referendado pelas elogiosas críticas, cada lançamento de Tala passou a ser aguardado com intensa expectativa. Assim o foi com “A forma dos desejos II” (2003), “Lugar Assim” e com “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (2005). Para além das muito bem sucedidas incursões na prosa, tendo publicado dois livros de contos: “Os dias e os tumultos” (2005) e “Surreambulando” (2007). Todos os livros sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, exceto “O gasto da semente”, editado pela INIC.

Apesar de um forte componente político, a obra de João Tala sempre teve um viés erótico. Neste “Forno Feminino” o poeta aprofunda essa tendência inspirando-se em um antigo forno da região da Lunda-Norte. Assim o descreve em nota introdutória:

(...) em 1989, chegado no Dundo, Lunda-Norte, (...) a primeira instituição que visitei foi precisamente o Museu do Dundo onde pude conhecer, porque estava exposto, o histórico ‘forno feminino’. É uma estrutura moldada de barro e (talvez) argila, com contornos à imagem de uma mulher em cujo ventre se abre uma cavidade – o forno – de que antigos ferreiros da região se serviam para fundir metais com que elaboravam instrumentos de trabalho, em especial para a caça. Contaram-me que da simbologia reprodutiva os caçadores acreditavam na sorte para obtenção de ganhos, dada a ubiqüidade, quer a duplicidade do factor reprodutivo/multiplicação.

Dessa maneira, o tumulto proporcionado pela longa guerra civil que devastou Angola até o ano de 2002, data do acordo que selou a paz, não aparece com a frequência dos livros anteriores, “é um tempo de ave o anúncio da abundância” (TALA, p. 83), e neste “Forno Feminino” há um nítido e satisfatório desejo de ruptura com o passado de tristezas, reflexo do novo momento vivenciado pelo país e que a embriaguez criativa, capaz de alterar os sentidos visualiza novos caminhos:

Poema ébrio não é mais tua raiva
apago tua escrita dorida de raivas.
Bombeiro da inquietação
leitor das cartas imóveis
o engenho da tua caligrafia
eu, teu empenho a cumprir-te
quanto te conversas e precisas extinguir
o ruído da palavra que nem gritas. (TALA, p. 72)

Os novos tempos procuram trazer a estabilidade perdida ao país, logo Tala concentra-se na celebração da mulher em uma poética extremamente erotizada que, em vários e surpreendentes momentos, atinge resultados fascinantes e imagens inesperadas, mostrando o apuro e o domínio do poeta fertilizando o Verbo:

Boa-noite. Venho de lume à
brisa de terra.
Trouxe o frasco de hormônio
achei-o na farmácia do tempo.

Boa-noite pedacinho. Outro desejo e
dois sorvos. Avivarei mulher em ti
com fogo novo. Noitinha, senhora
súbita alegria de doer onde salgava
o útero. Mais um sorvo e saltam tuas rosas
outro sorvo pode extinguir a angústia
reunida nos teus ovários. (TALA, p. 44)

A erotização proposta na poesia de João Tala apresenta um poder ilimitado em transformar o próprio verbo, a palavra ganha contornos inovadores, ampliando significados, expandindo sentidos que valorizam a ousadia deste poeta, como em “Palavra amor”:

conheço-a, era uma pálpebra
dormindo no rosto

encrespa o dia desperta o fundo
monstro de um beijo palavra animal
com seus órgão genitais e coração atordoado.

carne da minha carne essa palavra
é uma pálpebra: abre os olhos e respira. (TALA, p. 53)

A sintaxe renovada e o uso cuidadoso do enjambement reforçam as imagens deste autêntico artífice da linguagem, inquieto nas metáforas delirantes desse sujeito lírico de desejo devastador. Com isso, apreende-se diversas referências ao fogo, elemento primordial da natureza, derretendo a palavra, modelando-a e apresentando novos contornos poéticos. O gozo da poesia em “Trompas uterinas/Braços do mundo”:

ouço o recomeço acostumada seara
de grãos rompidos

ainda. as grandes mãos do mundo
fixam sementes, algarismos

palavras cervicais
húmus sobre terra húmida,

é esse o caminho que atinge ovários
pela boca da labareda. (TALA, p. 27)

A inspiração poética surge de elementos díspares, semeados para satisfazer o intenso erotismo do sujeito lírico:

No limite duma mulher tem qualquer criança
com jardins enrolados.
É com este pensamento que poesia arável
cresce, incha, desdobra, decifra
mulheres no limite de suas criaturas. (TALA, p. 70)

A lavra do poeta mergulha na metapoética e no corpo feminino – “A escrita é feminina as palavras são mulheres” (TALA, p. 74). A sinestesia fertiliza os sentidos, nutrindo nossos olhos para versos em orgiástico delírio da palavra:

palavras bonitas como a palavra mágica.
nascente uma palavra moça, recorrente.

palavra menstrual, rosada.
a rigor o mês assiste o vocabulário
da permuta,

a palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas mágicas de teus olhos cheios de plan(e)tas
muitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;

quando do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber na forma palavra nutrir. (TALA, p. 55)

Saciar a sede criativa, fecundar o verbo poético em um lirismo pontuado por imagens surreais como no poema “As mãos urgentes”:

O pasto recolhe à sede palavra grávida
e nas mãos urgentes de semear a conversa
a língua busca o seu cardume onde
súbitas figuras adivinham a sede
apenas húmidos sons extravasam os
peixes da boca. (TALA, p. 25)

A devoção à palavra poética e o respeito ao poder transformador do verbo ganham belíssima homenagem em “Tuas palavras mágicas”:

São estas diferenças que partilho:
eclesiástica palavra tu és uma igreja

nutrida uma palavra
espiga outra palavra

levantas-me escolástica o nervo
com a tua dor;
aurora com o teu lume,

álgebra inquieta não somarias
o tempo que não partilho. (TALA, p. 41)

O livro encerra-se com um poema-oração à mulher, “o mundo recriado a partir dos olhos duma mulher”, no qual o sujeito lírico demonstra todo o seu fascínio e crença na reformulação da vida terrena, tendo a mulher como a responsável maior por essa transformação:

Sou a palavra que você não disse
o nome que você não chamou.
Contigo viverei palavras desiguais
palavras ardidas na língua que as prolonga;
palavras perdidas e procuradas
onde tentas o sonho
(não há mais nada para sonhar?)
Sou a palavra que você não disse
uma canção ao maravilhoso.
As páginas perseguem-me e
da retórica colhes os números;
mas os números não dizem nada
- são as preocupações do pouco,
sem as contar sem as procurar.
Eu sei, nos teus olhos, mulher
se eleva o pensamento;
dos teus olhos, mulher
Deus recriará o mundo.
Assim fora o começo d’olhos pensados
nas mãos de Deus. (TALA, p. 41)

“Forno Feminino” confirma a tessitura textual envolvente de João Tala, a consolidação de seu nome entre o que há de melhor na poesia angolana contemporânea, para além da permanente tentativa de reconstituição do verbo poético, de uma escrita que subverte as normas da língua de forma inovadora. Apreende-se com “Forno Feminino” um desenvolvimento estético e temático libertando-se dos estilhaços da guerra, sem a amargura e a dor daqueles dias. O poeta João Tala reconstrói a linguagem, recria-se e distancia-se dos traumas do passado, e com isso presta a sua contribuição para a reconstrução do país. Agora, em tempos de paz.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

João Tala – A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (resenha)


Por Ricardo Riso

Possuidor de uma poesia marcada pelas imagens insólitas, virulentas e surpreendentes, de um labor estético-poético acurado e inovador na desarticulação da sintaxe e na ampliação semântica no decorrer dos versos impactantes, prenhe ressignificador dos sentidos em sinestésicas metáforas surrealizantes de poemas que recusam os superficiais e acomodados caminhos da fácil compreensão. Uma poesia que desestrutura, por isso causa admiração, torna sua leitura prazerosa e reveladora dos rumos seguidos pelo sujeito poético. Assim é a poesia para quem procura lapidar a palavra poética com esmero. Assim é a poesia de João Tala.

Este jovem escritor nasceu em Malanje, Angola, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda.

Representante da geração dos anos 1990, Tala logo obteve admiração no meio literário angolano com o seu primeiro livro, “A forma dos desejos” (1997), merecedor do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos daquele ano. O arrebatamento de sua obra inicial fez com que José Luis Mendonça declarasse: “"A forma dos desejos", veio impor novas exigências à mesa de leitura em relação aos novos autores. Uma das exigências será o critério de qualidade estético-literário. Para o referido poeta, esse livro, possui todos os ingredientes que compõem a obra verdadeiramente literária: a ousadia da mensagem, a imagética surrealista e vanguardista que procura superar o já criado, ou pelo menos, ser diferente trazendo algo de novo, a elaboração conceptual dentro dum diversificado figurino”. (1)

Tamanha empolgação que poderia ter sido contaminada pela precipitação, foi consolidada no livro seguinte, “O gosto da semente”, recebedor da menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000. O poeta João Maimona considera João Tala "como uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho. Faz parte da comunidade de jovens autores que, no limiar da década de 80, procuravam, com rigor, pesquisa e talento, seleccionar, agrupar e combinar palavras que pudessem servir a arte através da literatura. Uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho". (2)

A partir daí, referendado pelas elogiosas críticas, cada lançamento de Tala passou a ser aguardado com intensa expectativa. Assim o foi com “A forma dos desejos II” (2003), “Lugar Assim” (2004 – já recenseado neste blog) (3) e com “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (2005), que será o objeto deste texto. Além das muito bem sucedidas incursões na prosa, tendo publicado dois livros de contos: “Os dias e os tumultos” (2005) e “Surreambulando” (2007). Todos os livros sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, exceto “O gasto da semente”, editado pela INIC.

A partir do livro “O som e a fúria” de William Faulkner, João Tala utilizou um excerto como epígrafe de onde extraiu o título do seu livro: “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos”. A desesperança do título remete-nos ao triste período crepuscular dominante durante a guerra civil angolana, encerrada em 2002, e posterior à longa noite colonial terminada com a conquista da independência em 1975. Portanto, as feridas profundas da guerra findada recentemente ainda não estão cicatrizadas, os estilhaços deixados na sociedade e na memória do sujeito poético procuram ser reconstituídos pelo Verbo, a força maior para suportar e tentar reconfigurar os sentidos do ser e, por conseguinte, do coletivo e do país.

Este poemário está dividido em três cadernos, o primeiro caderno “Caminhos, Abismos e Trincheiras” apresenta imagens corrosivas de um sujeito poético dilacerado pelas cruéis lembranças do passado recente de Angola:

Está aqui a nossa vitória
está o medo que nos protege. (...)

Estávamos escondidos quando os tambores
anunciaram a folha desprendida da morte.
Saímos do próprio imaginário em busca da terra.
Logo à chegada replantámos os suspiros
e cada dia seria menos uma pátria entrincheirada
cada dia é um homem vivo.
Há-de ter o húmus a humidade carnal
do grito em nossos ventres. (TALA, p. 11)

Apesar de viver tempos de paz, a proximidade temporal expõe as feridas ainda abertas na memória individual e coletiva. O exercício poético passa a auxiliar a reconstrução do sujeito e do próprio país ao não deixar que as absurdas marcas do passado se percam no esquecimento. É a poesia na sua vocação natural de vanguarda, rebatendo a história oficial com a força do Verbo:

O meu caminho é mesmo este que a tropa
incendiou;
é um esquecimento afastado dos ouvidos
como encontrei o passado negado pela vida.
o meu caminho é a história amendrontada
os passos que explicam explosões (...)

o meu caminho vai e vem, lá chegarei
mesmo de muletas
cantando o esquecimento desconstruindo
a história
como um cobarde vivo no meio de tanta
raiva. (TALA, p. 16)

A necessária preocupação em denunciar as mazelas impostas e as ilusões transmitidas ao povo angolano são tratadas com rispidez pelo sujeito poético, que busca combater o desencanto, a desorientação e a memória fragmentada de seus pares:

Em fuga o povo reúne os seus passos e caminha
para os lugares perpétuos.
Mas o caminho são as perguntas: é para que vamos. (...)
Os nossos passos encontraram um edifício erguido
nos comícios. Um lugar de mentiras.
Os nossos corpos palpitavam ainda os números do
salário: pagavam-nos para sofrer.
E os mais breves algarismos da memória
quem ainda os acha, quem? (...) (TALA, p. 13)

A desordem dos sentidos do sujeito poético inspira o uso extremo da sinestesia – “o paladar abandonado / em mãos vazias cheias de luzes / com a vida encolhida num / suspiro” (TALA, p. 23) – para retratar o caos dos tempos idos de tumultos, que permanecerão intocados na memória coletiva, infelizmente.

Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos. (TALA, p. 27)

A insensibilidade da guerra e o desprezo à vida humana fazem do caos a ordem estabelecida, o estado de topor do sujeito poético assemelha-se ao do país: “um homem sem nada / um país em chamas nos meus / nervos” (TALA, p. 23). A insensatez prevalece, justifica-se o impossível e ceifa-se vidas de maneira indiscriminada, o que é repudiado pelo sujeito poético: “porque o terror tem de ‘libertar’ os homens, dizem, / vejam lá o que é isto!” (TALA, p. 27). Em uma época que “a palavra humana era um gemido”, o desgaste com a vida e com o caminho tortuoso do país revela-se:

estou indignado com a guerra das palavras;
estou alucinado com os versos do pouco;
estou de febre cerebralmente distante.
disseram que as palavras são antigas promessas
e não é correcto ouvir o que a morte diz de novo;
eu canto a fadiga canto pequenas coisas
porque estou distante e as coisas estão mudas. (TALA, p. 19)

No caderno seguinte, “Neste lugar nocturno dormem as mulheres”, explora-se o erotismo e o fazer poético entremeados pela amargura do tempo vivenciado, “porque tudo envelheceu. / Envelheceram as mãos injustiçadas e / a forma das paixões” (TALA, p. 40).

Valendo-se de várias referências bíblicas, o sujeito poético busca recompor o que ficou pelos caminhos em “O paraíso nós o perdemos em busca do corpo”:

Dos teus medos desliza a serpente nativa (...)
e o seu rasto cega-nos.

Neste pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava. (...)

Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.

O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa. (TALA, p. 41)

A desorganização de anos de esfacelamento e caos transfere-se para os versos que cantam o corpo em orgiástico delírio da palavra:

quem desarruma o meu ritmo em teu corpo?
quem dessa revolução obstétrica
retira os sentimentos da palavra estética
e da palavra terapêutica reutiliza a
frase encorpada d(o) amor evoluído? quem? (TALA, p. 51)

O derradeiro caderno deste inquietante livro mostra o comprometimento do sujeito poético com o continente africano e demonstra seu desconforto com os séculos de expropriação das riquezas feito pelos europeus: “mas da negação da negação / o velho cede ao novo o espaço gasto / de palavras européias / com que um homem desenraizado / nomeia a morte da África” (TALA, p. 57).

A travessia por vezes corrosiva dos viscerais poemas de “A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos” irrompe imagens violentas aos olhos do leitor, que revelam um poeta maduro em sua tessitura textual. A subversão criativa da linguagem procura recompor os escombros, apontar uma trilha para reconstrução individual e coletiva, busca através da palavra poética exorcizar os traumas psicológicos e recomeçar um novo caminho para a tão atribulada história do país. Este livro de João Tala confirma a diversidade estética da poesia contemporânea angolana, sendo um marco na produção literária do pós-guerra, quiçá, na história literária angolana.

recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões. (TALA, p. 20)
 
 
TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.
 
NOTAS
1 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.
2 - extraído do sítio da União dos Escritores Angolanos < http://www.ueangola.com/index.php/bio-quem/item/69-joão-tala.html > Acessado em 22/02/2010.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

João Tala: blog

Ao navegar pela internet em busca de textos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, encontrei o blog do poeta contemporâneo angolano João Tala, chamado blogtala74 - blog de literatura de joão tala, no endereço http://blogtala.blogspot.com/

Ali fiquei sabendo que o poeta esteve presente no recente III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na UFRJ, e, para minha grata surpresa, João Tala refere-se ao texto que escrevi sobre o seu livro Lugar Assim neste blog.

O texto do poeta está em:
http://blogtala.blogspot.com/2007/11/apreciaes-em-sua-mensageme-mail-de.html

O texto feito por mim está em:
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/10/joo-tala-lugar-assim.html

Abraço,
Riso

terça-feira, 30 de outubro de 2007

João Tala: Lugar Assim

João Tala é um representante da novíssima geração de poetas angolanos, tendo publicado seu primeiro livro, A forma dos desejos, ganhador do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos em 1997. Desde então publicou O gosto da semente (2000), que recebeu menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000, A forma dos desejos II (2003), Lugar Assim (2004) e A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (2005).

Nascido em Malanje, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda. Chegou a estudar (ou estuda – não posso afirmar) medicina interna no Brasil.

O primeiro contato que tive com a poesia de João Tala foi na antologia de poesia angolana contemporânea publicada na Revista Poesia Sempre nº 23 (Fundação Biblioteca Nacional) e, posteriormente, em uma aula sobre Literatura Angolana, ministrada pela Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha. Foram dois momentos de encantamento com a força poética do autor. Faltava um contato maior com a obra do poeta, ou seja, um livro. Até que consegui Lugar Assim.

A geração literária de João Tala, nascida no pós-independência angolano, é marcada pela desilusão com os caminhos trilhados pela história recente país. A amargura, a dor e a melancolia são temas constantes entre seus contemporâneos, justificado pelos longos e sangrentos anos de guerra entre o MPLA e a UNITA, somente encontrando a paz em 2002.

Os referidos temas já eram trabalhados pelos escritores angolanos desde os anos 1980, época em que começa a ocorrer um processo de desencanto com a não realização das promessas da revolução. O poeta e crítico literário Luís Kandjimbo define os poetas do período como a geração das incertezas, nome de acordo com as indefinidas trajetórias da política e da situação social de Angola. Alguns nomes relevantes que despontaram à época são os de João Melo, Paula Tavares, José Luís Mendonça, Lopito Feijoó, Conceição Cristóvão, entre outros. Tais poetas apresentam novas formulações temáticas e estéticas, aprofundando o caminho iniciado pelos três principais nomes do lirismo angolano dos anos 1970, Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho.

Nos anos 1980 cresce a heterogeneidade da poesia angolana. Segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

“A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais.” (CHAVES, 2006, P. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Em Lugar Assim, a distopia angolana é tratada em poemas que fazem da metalinguagem a sua principal fonte para combater o dilaceramento social e os sonhos esgarçados do país. Sobre João Tala, Tindó Secco comenta que “a crença no gume das palavras e na raiz da própria poesia transferiu os sonhos para o universo dos poemas, o que fez com que a literatura e as artes em geral se tivessem constituído em locais privilegiados de resistência”. (Idem, ibidem, p. 99)

Os poemas do pequeno livro são divididos em três partes: Economia, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, e Remendos da Memória, que, de certa maneira, ligam-se entre si pelas referências à palavra, a inspiração para os diversos assuntos versados pelo eu-lírico, como o desejo por palavras sem as cicatrizes causadas pelo horror da guerra:

Os dias fundam breves caminhos sobre as palavras.

Não reclamo palavras economizadas,
a grande fortuna, não.

(Nem uma imagem profunda nem
um abismo em nós.)

Não reclamo palavras estafadas ou
mesmo ressentidas, marcadas de novas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[cicatrizes, não
Apenas reclamo palavras de redenção
guardadas entre as revoltas.
(Lugar Assim, p. 11)

O problema dos deslocados de guerra, que eram povos do interior obrigados a abandonar suas cidades, é denunciado no poema:

“(...) A certeza da incerteza é um desvio demográfico,
Imaginação metódica duma população aos pulos.
Brevemente, num só começo, somos possíveis celeiros
- corpos duma geometria fugaz onde medra o grão.”
(Ibidem, p. 12)

Em Economia, os poemas são metonímias daquilo que não há, da ausência que paira na atmosfera social angolana. A revolta com o esfacelamento do país é apresentado na dificuldade em revelar o que é visto:

“o mínimo que posso pronunciar é uma palavra pontilhada,
um grão. talvez uma pupila que ninguém abriu.
sedentos de enigmas configura-me rosto de estio, esta secura
ajusta-se às minhas palavras através desta face enchida de
olhos veementes em sinal de fogo. o fogo posto na carne.”
(Idem, p. 13)

O eu-lírico indigna-se com a realidade vivenciada pelo oprimido, toma partido e faz do poema espaço de resistência contra a opressão, em rabiscos (gatafunhos) desmascara o silêncio:

“Demasiado o verso fulcral em bocas de traumatizados
são lágrimas devotas o diálogo sem pão;
volto aos problemas, puxo a língua do oprimido e
com a caneta verbal o debate repousa
nos seus enormes olhos tempestuosos, achados na
política geral de meus gatafunhos. – A gíria das bocas
em rebelião.”
(Idem, p. 14)

Nos poemas da segunda parte, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, a metalinguagem aprofunda-se. O ato de escrever torna-se o espaço libertador, o eu-lírico convoca o leitor para fazer poesia. Poesia como alento em “a vida é um vício lírico”:

“Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.”
(Idem, p. 24)

A desilusão e a amargura com o quadro político angolano são demonstrados nos versos de “muitas palavras”. O dilaceramento dos ideais causado pelo desencanto com as promessas políticas é o alimento para a distopia:

“As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.”
(Idem, p. 29)

O esfacelamento da dignidade da palavra é de extrema gravidade em culturas que possuem sua transmissão de conhecimento pela oralidade, a descrença na palavra foi o que fizeram os governantes e seus opositores em Angola no pós-independência motivados por fatores da Guerra Fria e posteriormente pelo neoliberalismo, e fraturaram ainda mais as tradições das etnias angolanas.

Na poesia de João Tala a palavra e o corpo estão em processo constante de metamorfose, num delírio surrealizante na confecção do poema que acompanha as realizações do cotidiano do poeta, suas angústias apresentadas em mãos textuais:

“É uma ortografia tangível memória habitável
os seus passos de líricas;
é de palavras assim que assino o homem;
enche o tempo e os cadernos do tempo;
de alma em barro confecciona pequenos dias
de longas líricas, o meu poeta.
Quem o escuta?
Cabe na minha ortografia como a saudade da
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[palavra;
É um pequeno deus de coisas líricas.
De palavras assim o homem explode a
roda ortográfica tangível – alma da gente;
ou como entendia a notícia de mãos textuais
no corpo da palavra.”
(Idem, p. 30)

Os versos de Remendos da Memória buscam recompor as tradições devastadas. Os sonhos esgarçados por séculos de colonização e guerras e tentam se reagrupar no poema, que canta o fim de um longo período sombrio de feridas cicatrizadas na memória. Para tanto, deve-se recorrer aos valores tradicionais, ao velho tambor (ngoma) e, assim, recomeçar a sonhar com a paz recentemente conquistada:

“Ah! ficaram apenas os túmulos como cicatrizes do olhar.
em que país os olhos são apenas cicatrizes?
não direi nada a humanidade despede-se dos túmulos
os soldados dizem não à guerra por direito próprio.
o meu ngoma sucumbe pela noite pálida o meu Ngoma
é o único instrumento vegetal que realiza o sonho.”
(Idem, p. 39)

Para concluir, percebemos que os poemas de Lugar Assim apresentam a falta de perspectiva com a realidade social de Angola, todavia, João Tala, apesar do amargo de boa parte do livro, ainda assim escreve versos que valorizam a linguagem poética como espaço de resistência da utopia. Com isso, ele segue a tradição lírica angolana de crer em um futuro próspero e justo para um país em construção.

Riso


Outros poemas de Lugar Assim

ONDE ESTÁ O MEU POEMA?

estão aonde os versos da morte, lágrimas do
meu tempo?
eu não sei nem os redigi do pão, da água ou da
mentira.
porque o meu poema cumpre-se a si, é um
corpo fatigado,
temor das esperas.
uma simples conversa não me leva a nada.
o meu poema também é tempo, calor de
gemidos,
musa de línguas ao sol, sons ao faro. lábios
suados.
o meu poema, é assim a rosa palavra de um
rosário.
(Idem, p. 22)


CONSTRUÇÃO DE IDEIAS

Na várzea do texto imploro fundamentos
dum corpo a encher o tempo.
É uma lei como edifício no tempo.
Como entender a notícia de mãos textuais
no meu temperamento?
O rebento dessa notícia é uma crónica
edificada com as mãos no texto.
O benefício será sentir de pensamentos
e outra várzea a tactear bocas do mundo.
Bocas somente no dorso das mãos construtivas.
Com mãos assim toca a encher o Tempo.
(Lugar Assim, p. 26)


O ROSTO IDO(OSO)

Não mais prometo o rosto sem paisagem.
Quero sorrir-me dentro de ti.
E da prevalência de um mundo de dias guardados
o crepúsculo dos sentidos enrugado como
a voz que de súbito é uma caverna;
como o coração de súbito é uma campainha.
(Idem, p. 37)


RIOS DE NÓS

(estes rios fogem de dentro de nós e fora são
promessas de volta ao tempo.
sem passado, eles dirigem-se ao futuro.
do presente só um refresco, minha kota,
só mesmo um refresco da mesma água que
nos lava o corpo; da mesma água que nutre os pastos.)
(Idem, p. 41)


O DAVID MESTRE, RECONHECIDAMENTE

Foste de memória mais longe do que fará a morte.
Grande poeta! Grande pensamento. Sobre o teu
continente múltiplo marcavas o rosto da palavra.
Era esta a fortuna de palavras e ressaibos quando
as mãos fragmentavam o próprio suspiro/estilo?
Assim concluías a jornada: limpo mudo severo.
Qualquer poema traz-te da semente de volta ao chão;
por isso, David, vou já levantar-te do primeiro tambor.
(Idem, p. 45)


LUGAR ASSIM
(para o José Luís Mendonça)

Dizei-me a fúria dessa áfrica que é uma Árvore.
Tempera a voz negra dizei-me um lugar assim.
Na balbúrdia de uanga a palavra respirar.
E onde pensar estrelas a Noite que me acoite.
Dizei-me a Árvore, um ébano me faz igual.
E chegadinho ao crepúsculo só a cor das queimadas.
E a luzir os dedos, as mãos acenam vazias, caricatas.
Como poderei tocar palavras respiradas.
África orgásmica, existe mesmo lugar assim?
(Ibidem, p. 48)



Bibliografia:

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.