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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Valentinous Velhinho – Tenho o Infinito Trancado em Casa, por Ricardo Riso (A Nação nº 137)


Valentinous Velhinho – Tenho o Infinito Trancado em Casa*

Por Ricardo Riso
Agradecimento especial ao poeta Valentinous Velhinho pela generosa troca de e-mails.

Valentinous Velhinho, nome literário de Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues, nasceu em 29/05/1961 na Calheta de S. Miguel, Ilha de Santiago. Participou nos anos 1980 da Sopinha de Alfabeto, colaborou em revistas como Fragmentos e Artiletra, integrou a antologia Mirabilis – de veias ao sol. Publicou, dentre outros, os livros Relâmpagos em Terra (1995) e Tenho o Infinito Trancado em Casa (Artiletra, 2008). Este, o objeto desta resenha.
O longo conjunto de poemas de Tenho o infinito... surpreende pelo tom incisivo, provocador, visceral, insólito, assim como pelas passagens que denotam um caráter mórbido, sepulcral, por vezes escatológico, a remeter ao poeta brasileiro Augusto dos Anjos: “Quantos vermes, quantos o pó anseiam sacudir-me?/ Quero-vos só para mim, ó verme – o meu chocolate sois!” (p. 86).
Trata-se de uma poesia superior explicitada pelo cunho universal, pelas questões metafísicas e existenciais, pela obsessiva temática da loucura, da morte e do suicídio, na contínua referência aos textos bíblicos e na interminável procura para decifrar o desconhecido. Tudo submetido a uma profunda deferência à língua portuguesa e ao esmero criativo nas figuras de linguagem como hipérbato, sínquese, paradoxo, hipérbole e ironia.
Entretanto, o maior mérito do livro está na exímia recriação dos haikais. Ao se afastar do cânone ocidental, o poeta encontra na concisão extraordinários e insólitos resultados. Apropriando-se da técnica nipônica consagrada por Matsuo Bashô, a escrita corrosiva e a inusitada filosofia do eu lírico inquietante se enquadram. A morte: “Vitória mais sofrida/ Do que a do suicida/ Não há.” (p. 142); crítica à religião: “É a um Deus/ Que o abandona/ Que Cristo o espírito entrega?” (p. 152); o ignoto: “Inda mais cíclico do que tudo/ É o que sem inda/ Ter vindo está por vir.” (p. 159).
E os temas caros à poesia caboverdeana? A insularidade é subjugada à condição do poeta ao recordar o local primevo: “O mar/ Abordo da casa/ Onde nasci” (p. 163). A metapoética com o claridoso Jorge Barbosa e o brasileiro Manuel Bandeira é revista em “Sangrenta a Lua”, no qual perpetua a esperança n’“A Estrela da Manhã” (p. 186). A crítica aos rumos do país encontra lírica solução na metáfora bíblica: “Deus ao homem deu/ O desobediente Éden/ E à serpente a obediente pátria” (p. 131). O drama da seca: “É fértil a seca na terra/ Onde caiu a chuva/ E nunca mais se levantou.” (p. 145).
O cariz místico e as questões acerca da existência estão em dois blocos de poemas dedicados ao místico Angelus Silesius e a Deus que iniciam e encerram o livro, aos quais se confrontam com o etéreo: “É divino tudo o que Deus dá/ E também tudo o que Ele recebe.// Porém nada do que tem ou possui Deus/ É divino a não ser o céu e a terra.” (p. 183).
Recorrente é a exaltação à loucura, não a doentia, mas sim a dos poetas, a que expande a consciência: “Como é metafisicarnal/ A glande da Loucura, (...)/ De universos sem fim que nunca mais acabam!”, venerada pelo eu lírico: “Ó sensatos, todos os versos dos loucos/ Aqui à minha sonâmbula cabeceira os quero! Aqui!/ Eis-me aqui.” (p. 94).
Os cânones da filosofia e da literatura ocidental são prestigiados em originais citações a Goethe, Niestzche, Baudelaire, Blake, Kafka, Borges, Flaubert e, com destaque, Fernando Pessoa. Haikais e máximas inspiram-se em Pessoa: “O poeta – se não finge o poeta/ Deus não lhe perdoa nunca”. (p. 14), e no excelente “Encontro a Bordo”, no qual o eu lírico afirma que viu “uma vez só” “o poeta que dobrou Camões” (p. 108).
A longa travessia de Tenho o Infinito Trancado em Casa consolida a poiesis excepcional deste dândi da literatura de Cabo Verde, que busca em seus apocalípticos poemas sanar as dúvidas entre vida e morte para valorizar o Homem, pois “a meta dos homens procuro” (p. 173).
A poesia de Valentinous Velhinho instiga, incomoda e almeja a esperança: “A alma que volte a entrar./ Já passou o vento/ E o sonâmbulo tempo.” (p. 125).
 * Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação nº 137, de 15 a 21/04/2010, p. 18.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Seló - Página dos Novíssimos, por Ricardo Riso (Semanário A Nação 133, de 18 a 24/03/2010)



Por Ricardo Riso
*artigo publicado no semanário cabo-verdiano A Nação nº 133, de 18 a 24/03/2010, página 14. 
O século XX determinou mudanças cruciais nas relações entre as metrópoles europeias e as colônias africanas. A urgência da libertação desses países sedimentou-se ao longo das décadas, acompanhando a evolução de um sentimento nacional opositor à injustificável tirania colonizadora. Tais eventos mobilizaram diversas camadas sociais, logo a vocação libertária da poesia impôs aos poetas participação ativa na desintegração do sistema opressor.
Em Cabo Verde a consciencialização dos escritores alvoreceu com a revista Claridade (1936). Em seguida, o já insustentável colonialismo exigiu radicalização e comprometimento com o nacionalismo por parte dos poetas, nascia a revista Certeza (1944). Enquanto isso, a PIDE, a polícia salazarista, tentava dizimar as manifestações subversivas.
A resistência ao regime organizou-se e sob a iluminada liderança de Amílcar Cabral surgia o PAIGC, em 1953. Sucessivas independências espalharam-se pelo continente, antes de findar esse decênio o Suplemento Cultural (1958) e o Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes (1959) estremeciam os pilares lusos nas ilhas.
Embora a ditadura salazarista não aceitasse as evidências do anacronismo colonial e recrudescesse a violência, o brilho da liberdade urgia e atraía jovens poetas para se tornarem atores da História. Assim, em Mindelo, Ilha de São Vicente, com apenas duas edições e quatro páginas do jornal Notícias de Cabo Verde irradiavam as viscerais palavras formadoras de Seló – Página dos Novíssimos, em 1962.
Três nomes marcariam a literatura do país despontaram em Seló: Mário Fonseca, Osvaldo Osório e Arménio Vieira. De acordo com Osório, seló era a forma como se anunciava a chegada de algum barco nos portos da Ilha da Brava. Bela metáfora do passado das naus portuguesas e seus dissabores, pois Seló trazia o desejo contínuo, inquestionável e legítimo da libertação, e “a necessidade de protestar e dar alarme” às agruras que assolavam as ilhas.
Além dos poetas citados, completam a edição inaugural Rolando Martins e Jorge Miranda Alfama. Este narra em “Carta” um comovente pedido para que o emigrante “não negues o destino da tua terra”, apesar do desespero que o levou a partir diante do “esboço de vida nas ilhas”. Este em diálogo com o poema “Holanda” de Osório, retrata a esperança do emigrante na terra longe: “Chegamos com barcos guildas nos olhos e desejos de vencer (...) e poremos todo o nosso esforço”. Para quem fica, a miséria causada pela fome é repudiada no expressionismo voraz de Mário Fonseca: “Gargalhadas de escárneo/ Rasgando / Até as comissuras dos lábios”. Imagens inusitadas e o tom apocalíptico surpreendem em “Advento” de Martins, pois “Na hora crepuscular uma estrela cortaria o alumbramento dos céus / hossanas e maldições, blasfémias e orações negariam o silêncio / Coros incorpóreos seriam o eco do anúncio da Hora”.
Em 28/08/62 a derradeira edição foi publicada, acrescida de Arménio Vieira e da bem-vinda presença feminina de Maria Margarida Mascarenhas. Esta comparece com um conto que narra dificuldades várias, o desencanto apodera-se em “O destino de Egídio”: “Abandonar uma esperança para agarrar uma vaga promessa, isso indefinidamente?” O metafórico “Poema” de Vieira renega o passado colonial, “Não o mar azul/ de caravelas ao largo/ e marinheiros valentes”, para revelar a sua “revolta contida (...) Mar! do não-repartido/ e do sonho afrontado”.
O característico compromisso social de Fonseca e a defesa inexorável dos desfavorecidos iluminam-se no poema “Estrangeiros” com a simples troca do pronome em um verbo: “Lá vão eles! Vedê-os! Vedê-nos!”. A denúncia social também é a tônica do misterioso conto “O Segredo” de Osório.
Seló – Página dos Novíssimos marcou o seu tempo e deixou seu legado às gerações posteriores. Deve-se parabenizar a iniciativa do Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco pela edição facsimilada e pelo cuidadoso texto de Maria Lucia Lepecki. Trata-se de uma bela e justa homenagem à literatura de Cabo Verde.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Onésimo Silveira – poesia como testemunha do seu tempo (Jornal A NAÇÃO 130 - 25/02/2010)



Onésimo Silveira – poesia como testemunha do seu tempo*
Por Ricardo Riso

Registro de um tempo histórico de tristes recordações, detentor de um rigoroso comprometimento social e na defesa incontestável do cidadão caboverdeano, assim é o livro “Poemas do tempo de Trevas – Saga / Hora Grande” de Onésimo Silveira. Sob a chancela do IBNL (Praia, 2008), a publicação reúne poemas inéditos e dispersos escritos até o ano de 1958 em Saga, e re-edita Hora Grande, de 1962.

Nascido em 1935 na Ilha de São Vicente, Silveira participou de “Claridade” – apesar de ser um crítico ferrenho da geração claridosa –, do Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes e consta em diversas antologias como “Modernos poetas caboverdeanos” (1961). Como ensaísta lançou “Conscientização na literatura de Cabo Verde” (1968), entre outras obras. Sofreu exílio político, fixando-se na Suécia, onde formou-se em Ciências Sociais.

Seguidor da linha contestatária da revista “Certeza”, Silveira fez da sua poesia veículo de protesto contra a asfixia colonial. O realismo visceralizante de seus versos retrata cenas do cotidiano tortuoso ao qual o ilhéu era submetido, como na movimentação proporcionada com a aproximação de um barco ao porto, mas que ao não atracar gera intensa frustração ao “homem que desde manhã grande / Pensava na fome dos filhos / E da mulher que deixou a esperar” (p. 42). Entretanto, quando um barco chega a um porto as oportunidades de trabalho são escassas porque se respeita a ordem da “infinda lista negra” (p. 40) de homens “para o desembarque das mercadorias” (p. 40).

Recordamos as reflexões de Albert Memmi a respeito do comportamento do colonizador durante a leitura de “Portões da Companhia”: “Portão indiferente das companhias / Que não quer ver, não quer falar, não quer sentir / Para não sossobrar também ao peso da angústia!” (p. 43). Inferimos a desumanidade e o desprezo ao ilhéu simbolizados no “portão”, marca da crueldade do poder à época.

Enquanto no poema “O Regresso” a revolta anuncia-se com a emigração forçada às roças de São Tomé e o retorno do caboverdeano à ilha após um período de agruras: “E trazem a certeza mordaz da desgraça irremediável / Esses escorraçados do destino que foram matar a fome / E regressam com a insaciável sede e fome de justiça” (p. 80)

Depreendemos a nova relação com o mar, não mais castrador e evasionista, fortalecida com a crescente mobilização contra o colonialismo e sendo explicitada em “Um Poema Diferente”: “O povo das ilhas quer um poema diferente / Para o povo das ilhas: / Um poema sem braços à espera de trabalho / Nem bocas à espera do pão; / Um poema sem barcos lastrados de gente / A caminho do Sul” (p. 128).

A partir da virulência da sua poesia engajada a contrapor a violência colonial, o sujeito lírico de Onésimo da Silveira desnuda as atrocidades sofridas pelo ilhéu, que busca sua dignidade enquanto é tomado pela fome e pela ausência de trabalho. Seus poemas mostram como a batalha do cotidiano era encarada com “um instinto de sobrevivência quase carniceiro” (p. 55) àqueles que ficavam nas ilhas, ou aos que embarcavam na inevitável emigração: “Apontou-me, entre outras razões, / Que embarcaria para São Tomé / Só porque não havia o que fazer // E eu / Não podendo dizer-lhe mais nada / Respondi que já sabia.” (p. 75). Contudo, o sujeito lírico também desmascara a ilusão do que poderia ser a emigração: “A certeza de coisa alguma / Desterrou o pobre imigrante / Na solidão de si próprio / (...) A lamentar... a lamentar... a lamentar... / Vive o velho imigrante / Aprisionado na sua própria solidão” (p. 52).

Atravessar as páginas de “Poemas do tempo de Trevas – Saga / Hora Grande” é se deparar com retratos de uma época que a poesia de Onésimo da Silveira jamais se omitiu em revelar.

* Artigo publicado no jornal A Nação (Cabo Verde), página 9, de 25/02/2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Dina Salústio - Contra a violência, a literatura, por Ricardo Riso (Jornal A Nação 127 - 04/02/2010)



Dina Salústio – contra a violência, a literatura
Por Ricardo Riso

Diante da violência desmedida que assola os centros urbanos, vivenciamos uma estranha sensação de inércia, impotência frente às barbaridades do cotidiano e ao horror causado quando sabemos os motivos de determinados crimes e da pouca idade daqueles que os cometem. Questões que são abordadas em alguns contos de “Mornas eram as noites” (Camões, 1999), de Dina Salústio (1941 – ilha de Santo Antão, Cabo Verde), e que serão aqui expostos para nossa reflexão.

A violência descontrolada na sociedade demonstra-se nos atos agressivos dos jovens e da violência contra as crianças. Nos contos “Para quando crianças de junho a junho?” e “Filho de deus nenhum”, a revolta e a indignação apossam-se do narrador ao relatar dois momentos de crueldade extrema. No primeiro conto, um grupo de adolescentes espanca um doente mental sob os olhares inertes dos adultos, enquanto no segundo é mostrada a reação da sociedade contra a morte de um menino:

“De repente, uma rua larga, agora espreitada pela violência que transborda e agride os caminhantes. Uma dúzia. Talvez menos de uma dúzia de rapazes da quarta, que deviam ser crianças e que se haviam transformados em feras, perseguindo e atacando um doente mental. Livros e pastas esquecidos na valeta. Nas mãos, pedras. Nos gestos, ódio. Olhares frios. O homem no meio, indefeso, confuso, louco, impotente, cada vez mais agitado pelos uivos dos estudantes que nunca deveriam lançar outros sons que os da alegria e da esperança.” (p. 28)

“Homens e mulheres enfurecidos atacam a cadeia onde se encontra detida a assassina do pequeno Lizandro, de três anos, morto à dentada. (...) O pequeno Lizandro não resistiu às mordeduras e pancadas da madrasta. (...) Não conheceu alegrias. Para ele, apenas tristezas que o seu corpo cedo recusou.” (pp. 53-54).

Os dois contos poderiam ter acontecido em qualquer cidade do mundo. É a violência causada por um sistema neoliberal que exclui e oprime as classes menos favorecidas, traz desesperança aos jovens e deixa as famílias desestruturadas. Tempos amargos como o jovem que liderou o espancamento ao doente mental:

“‘... Se fosse meu pai, eu não teria pena... Se ele morresse, problema dele... Se eu gosto do meu pai? Se você o vir pergunte-lhe se ele gosta de mim, ou... se... se me conhece.’

Nas últimas palavras um soluço abandonado.(...) E quando o miúdo chefe se mexe e retoma o caminho para casa, arrastando os pés, não há crueldade nos seus olhos. Apenas uma criança amarga que havia parido prematuramente um homem. Desencantado.” (p. 29)

Entretanto, em “Campeões de qualquer coisa” o redimensionamento da atitude masculina é proposto por um personagem que se recusa a viver a hiper-competitividade que domina a sociedade capitalista. Ele questiona a hipocrisia de uma vida em mentiras e as máscaras que homens se obrigam a criar para sobressair.

““Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de autoafirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. E vestimo-nos de atletas e mascaramo-nos de campeões, para, às escondidas, chorarmos a nossa simplicidade, a vulgaridade que enforma os nossos sentimentos íntimos. Não temos coragem para dizer não sou o melhor e não tenho que o ser, nem justificar-me da minha fragilidade. (...)” (p. 14-15)

Sendo assim, quem sabe se a partir dos contos de Dina Salústio, a reflexão sobre a ética distorcida da contemporaneidade, estimuladora da violência e que induz as pessoas a ser, ou a desejar ou a querer aquilo que não são ou não possuem, não nos ajudaria a buscar alternativas à degradação do ser humano?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jornal A Nação 124 - 13/01/2010 - "A fortuna dos dias" de José Vicente Lopes, por Ricardo Riso





José Vicente Lopes – A Fortuna dos Dias

Por Ricardo Riso
José Vicente Lopes (JVL), natural da Ilha de São Vicente (1959), reúne pela primeira vez contos dispersos em publicações como as revistas “Ponto & Vírgula” e “Fragmentos” e na antologia Tchuba na Desert (2006). Agora, esses contos estão ao lado de alguns inéditos para compor as 18 narrativas de “A Fortuna dos Dias” (Praia: Spleen Edições 2007).

Diante de um quadro de incertezas e irrealizações deparamo-nos com narrativas que apresentam intensa ironia perante os acontecimentos do cotidiano do ilhéu, permeados por recursos do fantástico ao relatar a caótica, e, por vezes, surreal situação do país.

Os protagonistas são pessoas comuns que não se adaptam à “ordem” estabelecida como em “O buraco”, que narra o misterioso aumento de um buraco na rua de Cleofas Miranda. Saudoso dos tempos coloniais, ele “observou por alguns minutos o buraco, indignado com o descaso das autoridades competentes. ‘Por isso é que esta terra não vai para frente’, (...) ‘Eu sabia que a independência havia de dar nisto’”. (p. 117) E conclui que o buraco “continuava a afundar e a alargar-se, mas não encontrava nenhuma explicação lógica para aquilo” (p.120). O que poderia ser uma metáfora pessimista do futuro de Cabo Verde.

Elementos da oralidade auxiliam o fantástico no conto “Ribeira de Deus”: “e para provar o que estou a dizer, vou contar-vos esta história. (...) de modo que quem me quiser ouvir que ouça (...). Vejam este braço: mesmo depois de tantos anos, só de lembrar, ainda me arrepio todo.” (p. 104).

Em “A convenção”, um encontro com representantes da diáspora não apresenta soluções objetivas e mostra a ganância dos participantes: “Era a hora de as autoridades d’Azilhas reconhecerem de uma vez por todas, a importância que a Décima-Primeira Ilha tem na vida do país, isentando-os de certas taxas aduaneiras para suas importações ou conferindo-lhes certos direitos políticos.” (p. 130-133)

Em “A barragem”, um simples cidadão narra em carta a construção de uma barragem prometida há tempos, reafirmada com a independência: “também era para valer quando os moços do PAIGC apareceram aqui logo depois do 25 de abril e nos prometeram a barragem se aceitássemos a Independência” (p. 139). O uso eleitoral da obra: “Andam por aí a dizer que desta vez nem vai ser preciso fraude” (p. 144); o desperdício e a desesperança revelam-se: “Mas agora que a barragem está pronta, (...) se não houver chuva, qual vai ser a serventia da barragem? Afinal, há quantos anos não cai nesta terra uma pinga decente que seja de chuva? (...) e aí não haverá barragem nenhuma neste mundo capaz de conter a força da nossa desilusão.” (p. 145)

A solidão do homem contemporâneo e a manipulação de um passado histórico glorioso marcam o insólito em “A cidade e o ídolo”. O protagonista torna-se herói, mas não se revela o por quê: “Pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer, nem o que você é ou deixa de ser... O que importa é o que as pessoas julgam o que aconteceu ou o que pensam quem você é” (p. 30). Forja-se uma biografia “para posterior compilação das suas Obras Completas” (p. 31-32). Todavia, após fugir para o estrangeiro e retornar anos depois, o herói se surpreende por não ser reconhecido e passa a ser tratado como louco. Metáfora de um mundo de imagens que manipula as pessoas ao seu bel prazer.

JVL beira o sarcasmo ao citar aspectos culturais do país. Lê-se em “Morabeza” que um navio encalhado “foi inteiramente pilhado” pela “população – como sabeis amável, hospitaleira e generosa” (p. 89).

Ao utilizar elementos do fantástico em suas narrativas, como as epígrafes que são alegorias dos contos, o uso criativo da oralidade e os diálogos constantes do narrador com o leitor, José Vicente Lopes faz críticas contundentes ao desarranjo por que passa Cabo Verde, assim como revela a solidão e a amargura do homem contemporâneo. “A Fortuna dos Dias” é uma grande contribuição para a evolução da prosa caboverdeana, elevando ao clássico o conto “O sonho do senhor JB”.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde) 122 - 31/12/2009 - resenha "Praianas" de José Luis Hopffer C. Almada





José Luís Hopffer C. Almada - Praianas


Por Ricardo Riso


Neste ano foi lançado “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade”, livro de poesia de José Luis Hopffer C. Almada, publicado pela Spleen Edições, com visceral capa de Abraão Vicente e um posfácio muito bem elaborado por Rui Guilherme Gabriel, assim como foram as análises de Inocencia Mata e Maria Armandina Maia à 2a. edição da “Assomada Nocturna” e ao artigo de Mario Fonseca referente à sua 1a. edição. Todo esse esmero crítico valoriza o vigor da formulação poética de José Luis e demarca a pertinência da sua produção para a literatura cabo-verdiana contemporânea, além da reconhecida contribuição na área de crítica literária.

Em “Praianas”, o autor retoma seus heterônimos para reunir poemas sobre a Cidade da Praia e inclui-se na vasta lista de poetas que se inspiram na cidade, tais como Arménio Vieira, Jorge Carlos Fonseca e Filinto Elísio. Estão representados, com seus olhares diversificados e diferenciadas características, NZé di Sant’ y Agu (o mais telúrico, vinculado às ilhas e à cultura de Cabo Verde) autor do longo e épico poema narrativo “Praianas” (recomenda-se as considerações de Rui Guilherme acerca de gênero) e de “Historicidades”; “Poeticidades”, de Alma Dofer Catarino (o que se pretende lírico e existencialista); e “Noiticidades”, de Erasmo Cabral de Almada (a faceta voraz e crítica) que encerra o livro; alguns deles acompanham a criação poética de José Luis desde o final dos anos 1970.

A ironia e o olhar corrosivo e amargo diante da situação atual da Praia e do país revelam-se nos poemas dedicados a Erasmo Cabral de Almada, principalmente em “Cidade VI”: “A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade” (p. 115). Enquanto Alma Dofer Catarino comparece com lirismo e elegante ironia inferidos na homenagem a Arménio Vieira, em “O desterro do poeta”, ao mencionar o incômodo causado não só pela sua poesia, mas também pela sua presença: “Dizem/ consumias demasiado café (...) Por isso/ instaram-te a mudar/ o teu indeclinável percurso/ de todos os dias/ e proibiram-te de consumir café” (p. 103-105).

Todavia, o engrandecimento deste livro se dá nos poemas de NZé di Sant’ y Agu. O seu apego ao chão de Cabo Verde e a constante rememoração do passado histórico estimulam o poema “Monte-Agarro” (p.95), integrante de “Historicidades”, a celebrar os heróis da revolta de 1835: Gervásio, Narciso e Domingos. Mas é na retomada e no aprofundamento de características das duas “Assomadas Nocturnas” que o longo poema “Praianas” se destaca. Estão lá a evocação, a anáfora, o uso constante da adjetivação e do gerúndio, o discurso metafórico, a enumeração incansável de pessoas, lugares e fatos e a reconstituição do passado pela memória individual (biográfica) e coletiva (histórica).

Na 1a. parte do poema, temos a chegada dos meninos à Praia com suas “almas ávidas das luzes da cidade” (p. 18), o duro aprendizado na urbe, a solidão, a iniciação sexual até o amadurecimento da consciência política e do momento histórico em que viviam, “da multidão libertando os medos seculares” (p. 49). Na 2a. parte, reduz-se a saga dos meninos e enfatiza-se a luta pela libertação em Cabo Verde e Guiné ao recorrer aos participantes do PAIGC, aos anônimos contrários ao colonialismo e aos presos políticos, assim como os combates pela África e a mobilização pela diáspora. Pertinente e bela a participação descrita dos “poetas pastores da noite” (p. 61), “versados na arte poética de intervenção social (...) dotados na ciência da revolta e do inconformismo (...) da palavra contestatária detonadora de ânimos novos” (p. 58).

Este “Praianas” consagra a maturidade poética de José Luis Hopffer C. Almada, seu apuro estético e formal, a incessante e incansável lapidação da palavra. Através da revisitação constante ao passado e valendo-se da sensibilidade à flor da pele na recriação literária, Hopffer Almada presta sua contribuição ao reencenar em uma tessitura poética comovente a história e a cultura de Cabo Verde.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jornal A Nação (Cabo Verde) n. 120 - 17/12/2009 - coluna Ricardo Riso




Para quem quiser receber a versão pdf desta e das futuras edições do jornal A Nação, basta deixar o e-mail para contato neste post ou em qualquer outro do blog, ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com solicitando o jornal.
Abraços,
Ricardo Riso


Passaportes de Abraão Vicente renovam tema caro à literatura: a emigração


Ricardo Riso


A insularidade de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago ou a situações políticas, como o colonialismo português e as desigualdades econômicas que a independência não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar é parte da cultura de Cabo Verde.

A evasão e a emigração são disseminadas na literatura. A geração da Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade, foi acusada de evasiva por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos havia o sentimento nacional independente a Portugal a partir da evasão e do sonho, como no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal / por esse orgulho que tu trazes; / porque este ar de triunfo iluminado / com que voltas...(...)
...Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conheceste... (...)
que nunca viram teus olhos / no mundo que percorreste...

Nos anos 1940, a revista Certeza (1944) explicita o absurdo do colonialismo. Nos 1960, as guerras coloniais levariam à independência.



A crescente revolta e a nova relação com o mar são retratadas por Ovídio Martins em “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos / desesperadamente estendemos as mãos / por sobre o mar
As ondas não são muros / são laços / de sargaços / que servirão de leite / à grande madrugada (...)

Após a independência, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marca a ruptura da literatura com os dilemas do ilhéu. No prefácio, José Luís Hopffer Almada afirma que:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário (...) No deserto, cresce a geração mirabílica (...) Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. (...) Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

Nessa linha, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em “Revolução-evolução”:

Viola a tua tradição / enterra a tua paranóia marítima secular / renega a tua estreita visão interior
E busca / novas formas / novas artes / novos engenhos / nova mente
De / cortar as amarras da estagnação / engravidar a terra de novo sangue / estabelecer nova aliança com o mar

A emigração hoje

É notório o elevado número de emigrantes cabo-verdianos pelo mundo. Porém a xenofobia dificulta o deslocamento de estrangeiros, que se arriscam em embarcações precárias.

Por outro lado, Cabo Verde recebe barcos ilegais africanos impedidos de chegar à Europa, o que gera transtornos ao país, sem estrutura para abrigá-los.

Essa situação denuncia o fracasso do neoliberalismo, em que países do 1o. mundo ignoram a situação caótica da África, em boa parte causada pelas pressões econômicas externas.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Vicente é autor do blog - http://abraaovicenti.blogspot.com -, com diversas séries expostas que surpreendem pela variedade das técnicas. Diversidade que demonstra segurança, conhecimento e ousadia.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes, objeto de desejo do cabo-verdiano, e cria inquietantes obras. Mas, atento ao momento adverso, recorre a um verso dos Rolling Stones: you can’t always get what you want.

Ao despedaçar o passaporte com pinceladas agressivas, figuras fragmentadas e textos caóticos, Vicente denuncia o desespero de quem quer emigrar. Desfigurando-o, mostra, pela impessoalidade das figuras despedaçadas, o cidadão comum que quer sair para um futuro incerto. O dilaceramento do documento, metáfora da dificuldade de alcançar o sonho, a saída do país.

Inquietação e multiplicidade na escolha dos meios deslocam o observador da passividade da contemplação. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões do seu tempo ao renovar e não se omitir em denunciar as novas vertentes de um tema que atravessa a literatura cabo-verdiana: a emigração.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A NAÇÃO nº 118 - 03/12/2009 - Mário Fonseca resenhado por Ricardo Riso

Prezados (as),

na edição 118 do jornal cabo-verdiano A NAÇÃO - 03 de dezembro de 2009 - resenhei o livro Se a luz é para todos (Praia: Publicom, 1998) de Mário Fonseca. Foi uma maneira de homenagear o poeta, falecido recentemente, e que tive o prazer de conhecer em um congresso sobre cultura cabo-verdiana na Universidade de São Paulo em novembro de 2008 e constatar sua fala serena, sincera e combatente em defesa da literatura e da cultura de seu país.

Para quem quiser a versão digital do semanário, basta deixar seu e-mail em algum comentário neste ou em qualquer outra postagem deste blog, ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com solicitando o referido arquivo.

A seguir, a resenha publicada nesta edição.

Abraços,
Ricardo Riso



Mário Fonseca – a luz da liberdade em forma de poesia

O teórico brasileiro Alfredo Bosi em O ser e o tempo da poesia afirma que a poesia há muito não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade (BOSI, 1977, p. 143), o que ficou evidenciado com o predomínio do sistema capitalista e sua voracidade em concentrar a riqueza entre poucos. Caberia a uma determinada categoria de poetas, aproveitando a eloquência natural e o olhar visionário, o dever de denunciar as mazelas impostas às classes desfavorecidas.

Nascido na Ilha de Santiago, Mário Fonseca (1939-2009) no seu livro Se a luz é para todos (Praia: Publicom, 1998) expõe sua solidariedade e humanismo exacerbados. Ele pertencia a essa classe de homens que, parafraseando Aimé Cesaire, possuía uma “postulação irritada de fraternidade” (p. 166), e assim versa: talvez / não viva / a minha / própria vida. / Pouco importa. / Vivo / a que / os outros / terão. / Mesmo se / dentro / de séculos! (p.111).

A defesa intransigente dos desfavorecidos percorreu toda a trajetória poética de Fonseca. No histórico suplemento literário Seló (1962), inserido no jornal Notícias de Cabo Verde, o então jovem poeta confirmava sua posição e escancarava as crueldades sofridas pelos seus conterrâneos sob o jugo colonial português: Lá vão eles / Vedê-os! Vedê-nos! / (...) Estrangeiros na noite e na vida (p. 16-18).

Contrapondo-se à longa noite (metáfora do colonialismo) e às injustiças impostas pelo poder ao redor do mundo, sua poesia escora-se na iluminação do fazer poético para, em metáforas e imagens virulentas de intensa luz, demonstrar a crença na vitória contra a opressão, mesmo que para atingir seu objetivo se perca a vida: Luzes! Luzes! (...) Que venha o dia (...) / Afastai de mim a noite (...) / Dai-me luzes e matai-me! Matai-me mas ilumina-me / Ilumina-me / Afogado em luzes / morrerei sorrindo (p. 82-83).

Incondicional, revela as desigualdades sociais no mundo porque sou poeta para as cantar (p. 76), Fonseca vale-se de sua erudição literária para convocar poetas maiores da cultura ocidental, revolucionários tanto na literatura quanto em suas posições a favor dos excluídos. Por isso clama por Maiakovsky, Rimbaud, Garcia-Lorca, Whitman, Eluard, Keats, ora inseridos em versos, ora em epígrafes, e também para mostrar metapoeticamente que a poesia / sol verdadeiro do nosso sistema solar / passe ao combate (...) passe ao ataque contra as bandeiras / por demais desfraldadas / da fealdade / da estupidez / da estreiteza de longos dentes / com todas as armas / com todos os gumes / da rima / do ritmo / da melodia (...) é preciso / urgente / necessário (...) para que / de pólo a pólo / o animal humano / entoe enfim / (...) o primeiro canto verdadeiramente humano (p. 86-88).

Demasiadamente humano, realizando a poesia / no próprio corpo da vida (p. 89), o combatente sujeito lírico de Fonseca saúda grandes líderes como Lénine, Patrick Lumumba e Che Guevara (p. 89), e sua indignação não se esgota, não tem fronteiras: Caboverdianamente vos digo / Enquanto houver um só / Homem algemado – um só! / Enquanto houver um só / Grito sufocado – um só! / (...) Daqui da frente poética / Pleno do vosso grito ouvido / Aos meus versos guerrilheiros / À plena voz gritarei: ao ataque! (p. 90)

A universalização da sua luta faz a travessia do Atlântico, relembra líderes como Langston Hughes e W. Du Bois, atinge as Américas, Chorai negros da América (...) Do Norte / do Centro / do Sul (p.101), alcança a Ásia e o necessário pan-africanismo do poema Eis-me aqui África, ou seja, sua solidariedade expande-se por todo o globo: Vale é querer / com força lutar / com força viver / na terra / de todos / por todos semeada. (p. 107)

De quem dedicou a vida a combater os regimes opressores do mundo, e não foram poucos. Mário Fonseca legou à Humanidade uma obra consistente, coerente e bela. Uma poesia para enquanto houver um ser humano sofrendo injustiça jamais se calará, nunca ficará ultrapassada, sempre será recordada e cantada.
(Ricardo Riso)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jornal A Nação (Cabo Verde) No. 116 - Arménio Vieira resenhado por Ricardo Riso


Prezados(as),

As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº116 DE 19 DE NOVEMBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se minha resenha crítica: Arménio Vieira – o poeta que não se corrompe.
Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado em qualquer texto do blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com

Abraços,
Ricardo Riso

Arménio Vieira – o poeta que não se corrompe
Por Ricardo RisoA literatura de Cabo Verde recebeu um reconhecimento internacional que há muito lhe era devido com o merecido Prêmio Camões ao escritor Arménio Vieira, detentor de uma obra escassa, dispersa, multifacetada e de altíssima qualidade.

Escreveu quatro livros, dois de poemas, “Poemas” (trechos citados são deste livro) e “Mitografias, e dois romances, “O eleito do sol” e “No inferno”, além de textos publicados em revistas como "Fragmentos" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.

Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Surgiu na geração dos anos 1960, tendo participado do histórico suplemento Seló (1962). Pelo seu envolvimento na luta de libertação amargou dois anos de clausura nas cadeias da PIDE. Talvez por isso a opção por um sujeito lírico transfigurado em “touro onírico”, irônico, irreverente, libertário, indignado com os desvios éticos de seus contemporâneos: “e lá no alto, rente ao tecto / fazer chichi na presunção / de tantas bestas juntas / santos beatos e jumentos” (p. 37).

O “poeta de vento sem tempo” se compara a um gato: “o espírito de um gato / é como o canto de um poeta / – não atende nem escuta / a ordem de ninguém” (p. 30). Compromissado com seus valores e com o fazer poético, versa: “ser poeta a sério / implica uma espécie de suicídio” (p. 106). Com isso, temos um ilimitado e criativo mundo: “é pela metaforização do discurso / que se salva o pensamento” (p. 9).

Sua poesia é de forte cariz existencial, metafísico e metapoético. Na década 1970, o cantalutismo predomina e o sujeito lírico indaga seus pares com questões de liberdade existencial, como em “Didáctica Inconseguida”: “ensino-te caminhos / que não passam pela porta de ninguém / e dizes que sou louco” (p. 59).

Rompimento estético assumido e a própria dificuldade do fazer poético é desnudada em “Canto final ou agonia de uma noite infecunda” em que “a flor desfeita / não embala o coração do poeta” (p. 69). Logo, imagens corrosivas ilustram a agonia de pertencer a um “tempo devassado por insectos cor de cinza / A voz suspensa e negada / cede a vez à letra amorfa / inscrita no silêncio / Com seu peso de chumbo e olvido / acaba o poema / e um ponto final selando tudo” (p. 70).

Uma característica marcante é o uso inventivo da metalinguagem, além do seu profundo conhecimento dos cânones literários ocidentais. O sujeito lírico apropria-se da literatura grega e dos mitos greco-latinos em imagens irônicas e inusitadas, como em “Fábula de Esopo”:

Um touro, ignorante de cabeça,
mas rijo de couro e carcaça,
quis ser elefante

Engoliu vento, inflou...
e já feito imenso balão
(de meter medo à selva e ao leão)
deu um estouro e tombou
(...)

(p. 33)


Apesar do existencialismo, encontra-se a denúncia das desigualdades de seu tempo: “o tempo que perdemos atrás dos mortos / sem nunca pensarmos nos mortos que somos” (p. 27). Revolta-se com a crueldade humana: “Na face / de certos homens / tanta vez / um retrato / a plena luz / de cão perfeito / e feroz / (até espanta / não ladrarem)” (p. 31), e beira o sarcasmo em “Caviar, champanhe & fantasia” ao citar a esplanada da Cidade da Praia que “seria um oásis magnífico e fresco (...) / teria um leite mais branco / e clientes catitas e empregadas bonitas / e baixaria para uma média razoável o número de pedintes / (...) e haveria por certo uma clínica ali perto / e remédios para tudo (até para os males sem cura)” (p. 46).

Vieira apresenta uma poesia atemporal, cabo-verdiana e universal, atenta e indignada aos problemas do cotidiano e das incoerências humanas, inquietante em suas indagações existenciais e experiências estéticas. Ela é irônica, sarcástica e corrosiva. Intensa criatividade nas ressignificações das mitologias greco-romanas, nas apropriações dos cânones literários ocidentais. Vieira é coerente e fiel a sua obra, conseguindo extrair de um mundo infestado por decepções e desconforto matéria para tecer uma poesia cuidadosa, sutil e bela. Arménio Vieira, um poeta que jamais se corrompeu!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde): resenhas de Ricardo Riso

Prezados(as),

As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº113 DE 29 DE OUTUBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se a minha primeira resenha crítica - FILINTO ELÍSIO: LI CORES & AD VINHOS - para este veículo. A periodicidade será quinzenal. O texto, na íntegra e com alguns poemas do livro, encontra-se em http://ricardoriso.blogspot.com/2009/10/filinto-elisio-li-cores-ad-vinhos.html
Na próxima, o escritor a ser resenhado será o cabo-verdiano Mário Fonseca e o seu livro Se a luz é para todos; nas seguintes comentarei Praianas de José Luis Hopffer C. Almada e Lisbon Blues seguido de Desarmonia de José Luiz Tavares.

Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado aqui no blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com
Agradeço a todos os que me acompanham e incentivam nessa estrada.

Abraços,
Ricardo Riso