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domingo, 30 de junho de 2013

Rasuras da História desveladas na Poesia (A Nação)


Rasuras da História desveladas na Poesia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 263, de 13 de setembro de 2012, p. E18
As diversas revoltas contra o sistema escravocrata ocorridas no século XIX aparecem de forma tímida na literatura cabo-verdiana, principalmente se levarmos em conta que “raramente aqueles escritores (‘da geração claridosa’) se debruçam sobre as grandes revoltas camponesas da ilha de Santiago. Mas descrevem repetidamente as revoltas urbanas do Mindelo ao qual se sentem associados”, de acordo com José Carlos Gomes dos Anjos em “Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde” (2006, p. 139), como exemplo o mitificado Ambrósio, versado por Gabriel Mariano.
Uma vertente bastante marcante da obra poética de José Luis Hopffer Almada é o resgate de cenários, protagonistas e revoltas antiescravocratas do passado, principalmente da ilha de Santiago, buscando a valorização da afro-crioulidade identitária conforme o próprio poeta esclarece a este jornal na sua edição 92: “A memória é um lugar onde se podem resguardar muitos milagres. Lugar de refúgio e de ancoragem, pode por outro lado ser constantemente reencenado nos termos propostos pela imaginação e pelo engenho do criador que se propõe revisitá-la. Para além dessa pressão incontornável, creio importante empreender algum labor de resgate do passado histórico de Cabo Verde e, especialmente, de Santiago, ilha particularmente vituperada durante grande parte do período colonial e do período pós-Independência. Tem-se por vezes a impressão de que alguns se especializaram na ocultação da história da ilha, das suas populações, das suas elites, das suas manifestações culturais mais características... Contra a amnésia (deliberada e induzida) há que contrapor a memória e as suas revisitações. (...) A interpretação do passado mediante o discurso científico não substitui todavia o que ao poeta, ao escritor e ao artista da palavra compete: criar emoções e comoções presentes com o olhar debruçado sobre as circunstâncias e os afectos dos nossos antepassados, reencenados no palco imaginário da nossa memória e da nossa genealogia.”
Contra a amnésia induzida que estranhamente ignora um contexto histórico de contestação à ordem estabelecida no século XIX presente nas revoltas dos Engenhos (1822), Monte Agarro (1835) e Achada Falcão (1842), dentre outros fatores, as invasões napoleônicas, a fuga da Família Real, a independência do Brasil às lutas liberais em Portugal (VIEIRA,1993;1999), valemo-nos do que Jacques Derrida menciona como “suplementar” para preencher as rasuras que se apresentam na literatura a partir de um contradiscurso inclusivo, pois para o ensaísta o “signo que substitui o centro, que o supre, que ocupa o seu lugar na sua ausência, esse signo acrescenta-se, vem a mais como suplemento (...), suprir uma falta do lado do significado” (DERRIDA, 1971, p. 245).
Com esta perspectiva que Hopffer Almada procura desvelar o passado colonial cabo-verdiano nos poemas de seu heterônimo NZé dy Sant’Y’Águ, tal como aparece no poema “Monte-Agarro”, incluído no livro Praianas (2009, p. 95-96). Este poema retrata a malograda insurreição antiescravocrata protagonizada por Gervásio, Narciso e Domingos em 1835, que pretendia extinguir o sistema escravista, matar os senhores brancos e tomar a ilha de Santiago, tornando-a um Haiti cabo-verdiano (ALMADA, 2007). Entretanto, com o insucesso “era esse o destino/ de monte-agarro fonteana/ julangue serra-malagueta/ e dos cavalos da sua noite exausta/ resfolegando contra os próceres/ do morgadio e do pelourinho...” (2009, p. 96).
Encerra-se o poema recordando outras revoltas malogradas, mas permanece a dimensão humanística da obra de José Luis Hopffer Almada conotada à evocação da filosofia ubuntu dos direitos humanos proferida pelo filósofo Mogobe Ramose no artigo “Globalização e Ubuntu”, que resgata o aforismo “Motho ke motho ka batho”, que “afirma ser humano é afirmar a humanidade própria através do reconhecimento da humanidade dos outros e, sobre tal embasamento, estabelecer relações humanas entre eles” (2010, p. 212).

segunda-feira, 30 de abril de 2012

ANTOLOGIA DE POESIA CABO-VERDIANA CONTEMPORÂNEA - LABORATÓRIO DE POÉTICAS (Ricardo Riso)

Prezadas e Prezados, 
Com satisfação apresento outra antologia de poesia cabo-verdiana contemporânea organizada por mim, agora na Revista Laboratório de Poéticas n. 8. A atual pequena edição contempla as poéticas de Filinto Elísio, José Luis Hopffer Almada, José Luiz Tavares e Mário Lucio Sousa. 
Agradeço à revista Laboratório de Poéticas e ao poetamigo José Geraldo Neres por oferecerem esse importante espaço para a visibilidade da poesia cabo-verdiana.
A seguir a apresentação da antologia.
Boa leitura para todos e peço ajuda para divulgação.
Ricardo Riso




ANTOLOGIA DE POESIA CABO-VERDIANA CONTEMPORÂNEA - LABORATÓRIO DE POÉTICAS

Apresentação 
Ricardo Riso 

Esta pequena antologia de poemas apresenta alguns dos substantivos nomes da poesia cabo-verdiana contemporânea. Filinto Elísio, José Luis Hopffer C. Almada, José Luiz Tavares e Mario Lucio Sousa destacam-se no panorama literário e possuem intensa atividade intelectual no arquipélago desde a década de 1980. A produção desses poetas representa as pluralidades estéticas e de estilos, variedade temática e a busca incessante por um verbo depurado, qualidades que norteiam algumas das tendências da poesia em Cabo Verde, mostrando, cada um com suas especificidades, o amadurecimento e a consolidação do sistema literário do país.

A antologia pretende dar a conhecer, ainda que de forma breve, alguns desses poetas, artífices da linguagem, e contribuir para a melhor divulgação da poesia contemporânea de Cabo Verde, ainda de tímida exposição no Brasil. Panorama que se contrapõe à excelente qualidade dos poetas revelados com o país independente, e que aqui trazemos para a apreciação dos leitores. Com isso, estimular um olhar mais atento do público brasileiro para a recente produção poética cabo-verdiana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade” (resenha)

José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 206, p. 20, de 11/08/2011.

A obra de José Luis Hopffer Almada solidifica-se na poesia cabo-verdiana contemporânea em razão da complexidade com que trata temas consagrados no sistema literário do seu país, tais como a evasão e a emigração, assim como de um minucioso labor de lapidação da palavra demonstrado na incessante recriação de seus poemas, para além da louvável atuação na crítica literária, no ensaio e na promoção da cultura de Cabo Verde.

Escolhemos o poema “Na morte de Baltasar Lopes da Silva (que também é o poeta Osvaldo Alcântara)” (na versão publicada recentemente em “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, organizada por Ricardo Riso e que refunde a versão inicialmente publicada na revista “Fragmentos”), para abordarmos a identidade cabo-verdiana, expondo um sujeito deslocado e fragmentado que refaz seus poemas na diáspora, de cabo-verdiano das dez ilhas e da terra-longe, revisitando as origens de sua cultura e as replanejando na contemporaneidade. Segundo Stuart Hall, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas”. Nesse sentido, temas caros à literatura anunciam-se: “evadiram-se os meus companheiros para a Pasárgada, desterraram-se para as hespérides ou degredaram-se para a terra-longe?” Deslocamento apresentado na rica heteronímia, na transumância de seu heterônimo mais vinculado à mãe-terra, de Zé di Sant’Y’Águ para NZé di Sant’Y’Águ, este telúrico e lusógrafo que tanto pode estar nas ilhas quanto na diáspora, enquanto aquele ficou restrito aos poemas em língua materna.

Nesse poema atribuído nesta versão muitíssimo abreviada a NZé di Sant’Y’Águ os macrotemas da evasão e da emigração são trabalhados em uma ampla tessitura de saudade bipartida. Talvez por isso a homenagem ao claridoso Osvaldo Alcântara, o maior responsável pelo pasargadismo na literatura cabo-verdiana. Pasargadismo que foi evasionista e também gerou a sua recusa, o antievasionismo, questões revisitadas no poema: “Sinto saudades do norte desconhecido onde trilham os passos dos meus amigos ausentes. Sinto saudades do ignoto san francisco do norte. Sou saudosista. Sou evasionista.// Os meus companheiros, meus conterrâneos da mãi-terra, meus contemporâneos da pasárgada, sentem saudades do san francisco de cá, do nosso sul. São saudosistas. São anti-evasionistas”.

Nessa condição sofrida impõe-se o sentimento de saudade sob “à sombra da acácia”. O sujeito lírico projeta uma experiência cosmopolita e parte para a 11ª ilha: “Não dura muito escapar-me-ei para o norte (...). Integrar-me-ei no exôdo dos rostos. Negu. A transumância dos corpos. (...) E só então serei terra-longista”. Assim, confirma sua raiz afro-crioula e sente as agruras de emigrante: “Gueto. Trabalho e gueto. Crioulo e gueto. Cachupa e gueto. Lágrima e gueto. Navalha e gueto. Getu de rosto descoberto. Da descoberta da face escura”, e relembra a trágica experiência dos povos africanos durante a colonização da ilha de Santiago: “Dos filhos da diáspora nasceu a ilha. O tráfico dos corpos. A deportação da alma. (...) Com a audácia dos navegadores. Com a calculista frieza dos negreiros. (...) O atlântico odor de sangue. O choro em ancestral exílio. Da porta sem retorno de gore à pia baptismal da cidade velha”. Dessa maneira, a “reconstrução do meu olhar na vasta diáspora” apresenta um sujeito conotado ao seu tempo, e segundo Edward Said, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação”.

E é assim, para um povo que navega pelas sete partidas do mundo, que José Luis Hopffer Almada reconfigura esse sentimento dilacerante comum ao cabo-verdiano nas ilhas ou na diáspora, a saudade, e presta seu contributo de escritor-intelectual exposto, segundo Said, “ao risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

António Pedro, por José Luis Hopffer C. Almada

Uma gentil contribuição de José Luis Hopffer C. Almada para este blog. Neste texto, o poeta e crítico literário cabo-verdiano, por meio do pseudônimo Dionísio de Deus Y Fonteana, celebra a memória de António Pedro, que para Manuel Ferreira em Aventura Crioula, "nos parece ter sido António Pedro um dos que teria dado um contributo para a mudança literária em Cabo Verde. Não será despropósito nenhum ligar o seu nome à fase dos primeiros sintomas do modernismo literário cabo-verdiano (...)". (FERRREIRA, 1985, p. 292-293).
Abraços,
Ricardo Riso 


                                   ANTÓNIO PEDRO:
A SAGA ISLENHA DE UM POETA DE CABOVERDIANIDADE BISSEXTA
VISTA POR DIONÍSIO DE DEUS Y FONTEANA

                                   Dezembro de 1909
                                       Tempos de infância

António Pedro nasceu no plateau da cidade da Praia.
Se não no real, pelo menos no simbólico.
Na casa-grande plantada sobre a colina do Laranjo e a ribeira que lhe perfazia o verde e a fortuna.
Morgadio e arquitectura de Trás-os-Montes (o metropolitano, não o tarrafalense!) viram os seus olhos semicerrarem-se face ao intenso brilho do sol caboverdiano.
A 9 deDezembro de 1909, como sagitário.
Ó criatura de tantas promessas por cumprir!
Por ter começado por ouvir um patois anglolusodjarfogobadio, o seu signo iluminou-se, desde sempre, de uma aura de universalidade sem céus nem raízes aparentes. A tentação da total transgressão habitou-lhe então o coração, ainda infante, ao mesmo tempo que uma insondável e sempre súbita queda para as raízes pétreas. O signo de sagitário era nele premonição de um espírito em constante deambular, entre o vale do Laranjo e o mundo, entre o primeiro patois escutado com o borbulhar do leite materno e a babel da modernidade, entre Santiago e o Império, entre a purgueira e o pinheiro.
Cresceu no plateau. Se não no real, pelo menos no simbólico.
Na sociedade colonial ensolarada de ritmo e de bulício.
Na sociedade colonial enclausurada no recato e na solidão da cidade-repartição.
Provincianamente alegre e atónito face às romarias da justaposição e da interpenetração entre a lusitanidade e a africanidade, e os múltiplos coitos que paulatinamente geraram a crioulidade, e os muitos incestos que engendraram os filhos híbridos das ilhas e as suas feições afro-latinas, sempre autênticas na plena assunção da sua bastardia biológica e cultural, a qual, aliás, ficaria depois gravada no célebre axioma “Cabo Verde não é nem Europa, nem África, Cabo Verde é Cabo Verde”.
(“Ou tautologia, segundo outros pontos de vista mais cáusticos- interfere um aprendiz de intelectual recém-diplomado por uma universidade obviamente estrangeira – como o do vate da cidade que ousou escrever uma série de poemas subversivos, como “Fome” ou “Eis-me aqui, África”. Curiosamente o mais subversivo desses poemas, intitulado “Quando a vida nascer” foi publicado, pela primeira vez, no Boletim Cabo Verde, importantíssima revista cultural editada na Praia religiosamente em todos os meses do calendário entre os anos de 1949 e 1964. Quiçá tenha sido o Boletim Cabo Verde a mais importante revista cultural caboverdiana do período colonial, se levarmos em conta a riqueza e a variedade do seu conteúdo ensaístico e literário e a diversidade estética e geracional dos que nela colaboraram, mas também caracterizada pela sua sujeição à tutela e à censura directas do governo colonial enquanto propriedade da administração da província e porta-voz da ideologia colonial então dominante. Tanto mais que as suas primeiras páginas eram reservadas aos discursos e às obras do governador e às chamadas políticas coloniais de fomento, para além da ininterrupta idolatria do chefe máximo do Estado Novo colonial-fascista e do culto de uma certa histeria patriótico-imperial, como aquela que se verificou aquando da invasão do chamado Estado português da Índia (formado por Goa, Damão e Diu) pela União Indiana de Nehru. Nessa óptica, funcionava como uma espécie de jornal oficioso do Governo da província/colónia. Deve ter sido por esta razão que o inrevelado autor do libelo acusatório anti-claridoso Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana (consabidamente publicado sob um nome emprestado a um avassalado versejador desses tempos de bloqueio e, em tempos, renomado autor de alguns dos poemas mais emblemáticos da nova largada político-cultural), tenha preferido manter na mais estrita clandestinidade o excelente ensaio-panfleto político de denúncia total do sistema colonial-racista vigente em Cabo Verde e de desmascaramento das políticas de reforma colonial empreendidas por Adriano Moreira, assinando-o com o pseudónimo castiçamente badio A. Punói”.
“ Não obstante os constrangimentos acima referidos, o Boletim Cabo Verde marcou toda uma época. Basta dizer que a maior parte da poesia de Jorge Barbosa, incluindo a de teor mais contestatário (como o paradigmático “Panfletário”), mas excluindo outros de quase ruptura política (como “Meio-Milénio”, “Nau Negreira” ou “Memorial de São Tomé” e outros integrantes de livros que tentou dar à estampa durante a primavera marcelista), e quase toda a obra cronística e ficcional de Maria Helena Spencer foram dadas a conhecer no Boletim Cabo Verde. Oficioso em parte, sim senhor!, mas nada que se comparasse com o seu sucessor, o famigerado semanário Arquipélago, de conotação abertamente colonial-fascista e implacável defensor do status quo, numa época em que já proliferavam os movimentos de libertação nacional e eram mais do que evidentes os sinais da queda próxima do império colonial português”-esclarece bem-humorado o poeta existencialista da cidade, também ele estreante no Boletim Cabo Verde, no qual, aliás, comprovou na sua própria pele a veracidade do axioma “pior a emenda que o soneto”, quando um poema seu dado à estampa no mesmo Boletim Cabo Verde, foi sujeito ao crivo estético do juiz da comarca (anote-se em roda-pé, que nas horas vagas esse austero magistrado se ocupava com as letras, deste modo pretendendo participar na vida cultural da pequena cidade colonial e aí deixar a sua inconfundível marca, outorgando-se o papel de mentor e mestre das novas gerações, mesmo se à revelia das mesmas. Até que o conseguiu ao se meter com a promessa de poeta que era então um dos mais importantes literatos da actualidade” ”-riu-se o poeta predilecto da cidade). Sublinhe-se que o Machado (assim se chamava o magistrado inquisidor da jovem poesia islenha que, segundo sei, nada tem a ver em termos de laços de parentesco com o famigerado sargento Maschado, sim, aquele em cuja boca mijou Nhanha Bonbolon, nominho de Ana da Veiga, a líder da revolta de Ribeirão Manuel), em vez de optar pela censura pura, ainda que fundada em critérios alegadamente estéticos, de um poeta neófito (“como tantos outros jovens principiantes nas lides literárias que, na altura, tentavam dar nas vistas”-faz questão de sublinhar o poeta galardoado que era o principiante na poesia da altura) preferiu re-escrever os poemas do mesmo principiante e mostrar em praça pública (isto é, nas páginas do Boletim Cabo Verde) como é que o poema do estreante em literatura deveria ter sido escrito).
Acrescente-se ainda um pequeno parêntesis aposto não se sabe se por um defensor confesso - não do axioma literário acima referido, mas do axioma identitário também anteriormente referenciado-, ou se por um desses críticos mais cáusticos da mesma expressão tautológica (“não sendo nem cabo, nem verde (pelo menos na maior parte do ano no que se refere aos terrenos de sequeiro nas chamadas ilhas agrícolas, para não falar de algumas ilhas francamente áridas e escassamente dotadas de ridículas manchas de regadio ou de bosquejos de florestas), optou Gabriel Mariano por grafar Caboverde (numa única palavra e sem hífen), a um tempo continente e arquipélago culturais, pondo assim termo a eventuais paradoxos identitários e sentimentos de orfandade continental, desde sempre muito comuns entre os caboverdianos).
(“Neste caso mais propensos à busca do pai, ou do seu rosto abstracto e severo, do que da mãe (ou do afago afectuoso do seu ventre irrenunciável), por razões aliás mais do que compreensíveis, como seja a herança de bens simbólicos de grande relevância, como os apelidos que realmente contam porque se perpetuam nos nomes dos filhos machos e nos dos seus descendentes varões, e de parte da riqueza e das vivências acumuladas como património material e imaterial”-acrescenta o poeta predilecto da cidade, aliás, de tez branca, cor que lhe foi legada pelo pais, luso-descendentes, se bem que caboverdianos de gema).
Depois, criança ainda, alheio a todas as conjecturas existenciais, ignorante de todas as conjunturas sociais e das respectivas vestes coloniais, mas habitado pelo wanderlust que lhe foi precocemente inoculado pelo signo com que nasceu, António Pedro saiu pelo mundo.

                                                 1929-1938
                                       Tempos de regresso
Tempo de saudade.
Saudade ou sodádi? Mas existirão essenciais diferenças entre as duas curiosas melancolias em face da ausência e da perda da árvore da infância?
Chamamento da infância ou da paternidade?
Talvez da maternidade?
Talvez de um qualquer Pik’ lion, ainda desconhecido?
Certamente do Laranjo.
António Pedro regressa ao plateau.
E ainda do mar espanta-se: “Bé, o pó da ventania sufoca! /...lá na baía ou doca/…parece melhor/ embora fosse careca/a terra seca e adormentasse já» (novo parêntesis desta vez aposto por um indefectível defensor do passado verdejante da cidade da Praia (aliás, profusamente atestado nos coqueirais da sua orla marítima, na floresta da Achadinha, nos mangais do Taiti, nas hortas do Palmarejo), para além de irrepreensível adversário das teses propugnadoras da muito propalada inabitabilidade passada da cidade capital, alegadamente devido à natureza supostamente pantanosa dos vales que a circundavam, e, por isso, muito propiciadoras da propagação do paludismo, da cólera e de outras doenças infecciosas, particularmente mortíferas para os europeus recém-arribados: presume-se, por isso, que Março foi o mês da chegada de António Pedro à sua cidade natal, dada a ventania que então por aí grassava. Ventania essa, que, todavia, não pode ser confundida com a bruma seca dos dias de hoje, bruma seca essa recentemente importada de outras paragens sahelianas, ou, dizem as más línguas, trazida por aqueles que, há poucas décadas arribados à ilha maior, não prescindem da regularidade do seu pé de vento pois que se maravilham com um fenómeno que consideram integrante da sua personalidade e da sua identidade colectivas e, por isso, muito se vêm extasiando em dançar ao vento…).
Envolto pela poeira, António Pedro atravessou o cais (“sim! O cais de São Januário! Aquele que as bestas obtusas da Câmara Municipal mandaram demolir para acharem um traçado mais consentâneo e mais barato para a nova marginal”-Exasperou-se o poeta-jurista da cidade, conhecido defensor dos direitos humanos, amante de jazz e de wisky velho, e autor do primeiro manifesto que questionou as políticas culturais prosseguidas pelo regime de partido único, então recém-instituído. Entretanto, enquanto os ânimos se exaltavam à volta do martírio a que a cidade vem sendo sujeita por diferentes gerações de políticos e de técnicos, todos eles detentores de muito pouco afecto e de escassíssima empatia pela cidade, com a cumplicidade ou, pelo menos, com a silenciosa indiferença da população, martírio esse profusamente ilustrado na cada vez maior descaracterização da cidade e no crescente e cada vez mais indomável caos urbanístico que nela reina, António Pedro), lançou um olhar curioso e alongado pelos botes varados ao longo da Praia Grande de Chã de Areia e pela vizinhança emaranhada de coqueirais (sempre exóticos aos olhos de quem esteve, durante anos a fio, longe dos trópicos) que se estendia pelo Taiti e pela Várzea da Companhia, passou pelos antiquíssimos edifícios administrativos e pelos armazéns das alfândegas, subiu a rampa de São Januário, atravessou o coração da cidade alta e foi à busca do mistério dos rochedos de cá, encastelados nas penedias do cruzeiro, nas encostas do hospital provincial e do edifício da fazenda, ou refastelados sobre o vale do Laranjo e de outras ribeiras da freguesia de Nossa Senhora da Graça.
Adolescente luso, jovem luso-caboverdiano (“isso não, a expressão ainda não existia, nós os islenhos éramos todos portugueses e caboverdianos ou, melhor, portugueses de Cabo Verde! Também não existia ainda a possibilidade da dupla nacionalidade. Afinal éramos uma simples colónia ultramarina, ademais uma insignificante, mísera e famélica terra de Portugal de aquém e além mar, em consequência não dispúnhamos de nacionalidade própria. Por isso, maravilha-se agora o Orlando Pereira: nasionalidadi dja nu ten dja! Melhor seria dizer branco português de Cabo Verde crescido na metrópole?”-interroga-se o poeta predilecto da cidade) ou teen-ager santiaguense (“curioso”, acrescenta o vate mais celebrizado da cidade, “cai bem o termo teen-ager devido às ascendências inglesas do gajo, mesmo se, por alturas do seu regresso à sua cidade natal, ele já não fosse propriamente um teen-ager, mas um jovem adulto!”)?
Dicotomia cultural, estalagmites de lusitanidade ou penedos de caboverdianidade no imenso oceano das solicitações culturalistas cosmopolitas e das auto-sugestões identitárias, confluência dos afluentes das origens todas de tantas heranças nas águas da universalidade cuja foz seria a cidade da Praia, melancólica defronte do seu rio imaginário?
Enfim, português, português ultramarino, luso-africano, branco afro-lusitano, europeu meso-atlântico, minhoto retornado ou badio branco irreversivelmente postado no miradouro da sempre atraente e inapagável civilização europeia?
“Irreverente modernista era o que ele era, o António Pedro, de tantas e múltiplas ascendências, de tantas e diversas andanças!”-sufragou, com voz cristalina, se bem que póstuma, o único e convicto companheiro das lides plásticas e das tertúlias que encontrou no provincianismo beato e caseiro da sua cidade natal.
E continuava o caldeamento cultural e todos, ainda que a contragosto, imaginavam-se nadando no caldo pagão da miscigenação.
(“Embora a contragosto dos cronistas oficiosos e dos pensadores mais eurocêntricos e concêntricos na preservação, a todo o custo, da chamada missão civilizadora de Portugal em África e de que Cabo Verde seria, a um tempo, a ilustração mais eloquente e um agente privilegiado, e, por isso, mais renitentes à aceitação dos benefícios da mestiçagem cultural e dos efeitos positivos resultantes do diálogo civilizacional e da interpenetração de raças e culturas, de que Cabo Verde é uma pequena, mas bela ilustração”-iludia-se, anos mais tarde, um passante da cidade a propósito do caldeirão de ensaio da mestiçagem que, segundo esse escritor metropolitano tornado caboverdiano adoptivo, seguramente no plano da maioritária escrita ficcional, e adepto convicto e divulgador prolífero das teses então em voga nos círculos intelectuais dominantes no arquipélago, terá sido e continuaria a ser Cabo Verde até à completa crioulização da ilha de Santiago mediante a extirpação dos resquícios de áfrica (como a tabanca, o batuque, a magia negra, a renitência messiânica dos rabelados) que, lamentava-se em desencontrados sentimentos de desprezo, respeito e despeito, ainda sobreviviam nessa ilha meridional de Cabo Verde e teimavam em marcam o rosto mais visível da sua cultura ou, melhor, a face mais típica da ilha sociológica, outra, que é o seu hinterland, a qual se encontraria num estádio de evolução cultural (isto é, de assimilação à cultura europeia dominante) muito desconforme do estádio de aceitação (o mais avançado, como é sabido, no processo de aculturação à civilização europeia) a que chegaram as nossas restantes ilhas, com destaque para as de barlavento(e aqui entravam as muitas citações dos mestres claridosos, com excepção de Jorge Barbosa que, sendo natural e profundo conhecedor da ilha de Santiago, não alinhava nestes modos de ostracização e de negro-africanização das suas expressões culturais afro-crioulas mais distintas).
Com a topografia da sua pequena cidade natal soterrada na mais recôndita loca da memória, António Pedro vivia com íntima ansiedade o seu regresso, que sabia ser fugaz, à terra natal e o reencontro com a sua vida quotidiana, com as suas pulsões, com as suas expressões idiossincráticas, com as suas manifestações culturais mais típicas. E era firme a sua convicção, funda a sua intenção e inabalável a sua vontade de penetrar-lhes o âmago, de dissecar-lhes o espírito, de entender-lhes o sentido, de neles se envolver para melhor se envolver com as gentes das ilhas, seguramente futuras personagens que teriam que desfilar e transfigurar-se na sua escrita, na sua pintura, no seu teatro, nas suas mãos inventivas. Imensa era a força que o propulsava na contínua superação das barreiras que se iam erigindo na atmosfera elitista e centrípeta que então dominava e sufocava a cidade-repartição, em cujas verdejantes imediações tinha nascido e passado a primeira infância. Tantas as suspeições inoculadas pelos preconceitos eurocêntricos dominantes, tantas as barreiras engendradas pelo desconhecimento do meio e por tantos anos de ausência!
Aproximou-se, pois, da ilha e dos seus moradores, a mente inundada de dúvidas, embora com o firme propósito de não se diluir nos usos e costumes das populações das ilhas, mesmo daquelas dos estratos sociais mais ilustrados nas coisas da cultura moderna ou das fontes clássicas da civilização europeia. Convinha-lhe preservar a sua actual personalidade moldada em tempos e espaços vários da Europa, nos quais, aliás, se tinha sentido completamente em casa, depois de um breve período de sensação de vazio e espanto adveniente da falta do sol e da poeira que agora o circundam e quase o sufocam. O papel que se reservara era o de tornar-se cúmplice das gentes das ilhas. Um cúmplice obviamente aberto a todas as dimensões do seu ser ou, pelo menos, àquelas dimensões que lograsse perscrutar. Com o distanciamento necessário à sua melhor compreensão, com o distanciamento que, de todo o modo, lhe foi outorgado pela longa ausência e, para sermos claros, com o distanciamento que se esperaria de um branco (algo mestiçado, embora), descendente de famílias possidentes e que, embora ainda moço, se foi dotando de invulgares conhecimentos do mundo e das suas mais recentes revoluções estéticas, mormente nos domínios das artes plásticas, literárias e dramatúrgicas modernas, ainda quase inteiramente desconhecidas nessas ilhas abandonadas. Pretendia, pois, envolver-se com a ambiência parda e a atmosfera luminescente que dele se aproximavam pachorrentamente e transportar a ilha e a cidade, e com elas as suas gentes, e os seus rostos, e as suas almas, para as insondáveis dimensões das saudades futuras que se haveriam de alimentar das imagens que agora se petrificavam na arte que, ainda tímida, se escondia na sua retina.
E, sôfrego, lançou-se todo e inteiro às novas sensações.
Sem falsos temores, sem fingimentos, sem ressentimentos, sem pruridos, sem outras congeminações que não as de traduzir em arte o que os olhos viam, o corpo sentia, a mente dissecava, a alma aplaudia, rejeitava ou condenava à indiferença de coisa outra, dos outros, sem outro vínculo com ele, se não o de apresentar-se como matéria de reflexão artística.
No Diário: Vi um batuque/ baque bacanal/-pobres selvagens/e a morna/ morna/bole mole/ já velha …”. Ironia versilibrista. Modernismo jorrando, lívido, estrangeirado e cara-pálido, todavia irreverente e livre, liberto das babas do ultra-romantismo e da grandiloquência camoniana estranhamente acasalados nas hespérides (essas perdidas ilhas arsinárias!) com os restos do fim do mundo!
Ó desenvolvimento separado na separata que é o puro sonho ou pesadelo automático!
Entrementes, escrevia um nativista: “o badio porque o mais africano e negro dos caboverdianos é o culturalmente mais atrasado e, obviamente, o menos civilizado de todos eles”. Curiosamente, esse nativista tinha-se envolvido numa das mais importantes polémicas estéticas que tiveram lugar em Cabo Verde, quando nos inícios dos anos trinta do século se posicionara contra a titubeante irrupção do modernismo literário em Cabo Verde, argumentando que o verso devidamente cingido na rima, na métrica e em outras formas fixas era a única indumentária adequada à poesia e desqualificando os cultores modernos do versilibrismo como perigosos bolchevistas literários. Assinale-se que, nesta expressão acusatória (“bolchevistas literários”) se sintetizam todos os paradoxos e ambivalências nos quais navegava a geração dele contemporânea. Nesta óptica, ele terá sido o exemplo mais acabado das contradições e das ambiguidades que perpassavam os literatos e demais letrados do nativismo político, como atestam as suas profundas convicções de homem republicano de esquerda e progressista admirador de Marx, o mestre venerando, e membro encartado do Partido Socialista Português, e as suas celebradas capacidades de exímio émulo neo-clássico do autor de Os Lusíadas – se bem que um tanto serôdio - da poesia camoniana e de intrépido cultor e defensor do idioma caboverdiano, se bem que nas margens delimitadas pela sua filiação neo-latina. É, igualmente, assim que ele se evidenciou como co-precursor tanto do culto da Atlântida (transmutada, por vezes em labor simultâneo com José Lopes, em Hespérides, Jardim das Hespérides ou ilhas arsinárias) e da esquizofrenia cultural crioula, oscilante entre o amor da mátria natal e a veneração da pátria imperial e monumental dos descobridores, missionários, letrados e, mais de que tudo, de Camões, o seu símbolo, o seu canto, como também da África mediterrânica, faraónica e esfíngica, todavia sempre venerada como berço da civilização ocidental, e, a contrario, por exemplo, da démarche mais tarde empreendida por Cheikh Anta Diop, em contraponto à África negra, tida por pagã, animista e selvagem, habitada por criaturas tisnadas, abandonadas às trevas da ignorância e, por isso, necessitadas das luzes da civilização cristã e ocidental, quiçá somente passíveis de serem alcançadas mediante a obra do colonizador europeu e seu mais proficiente cultor, o colonizador português, como consideravam e advogavam em altos e, por vezes, impacientes brados os filhos islenhos da mãe-pátria lusitana, nossos ancestrais e respeitados compatriotas.
Oh! Tempos de múltiplos pressentimentos e de muitos ressentimentos!
Tempos de todas as exaltações! Tempos de veneração do vulcão da ilha das lavas cuspindo orgulho e rectidão na língua materna! Tempos da louvação da altivez das criaturas e da sua limpa emersão das lendas, das frutas douradas, dos tempos antiquíssimos das batalhas memoráveis e dos monstros vencidos!
Tempos de culto da língua pátria dos poetas da expansão lusa!
Tempos de ressurreição da pele negra insurrecta do marechal tricolor das Antilhas e de outros lugares de liberdade dos irmãos de raça e de desgraça!
Tempos de subjugação ao abecedário da vassalagem e aos labirintos da sua decifração, com o corpo escuro circunscrito à amnésia e à quotidiana sublimação do cárcere e da carestia em moradas outras, dos deuses antigos, dos deuses nossos contemporâneos, estranhos, estratificados.
Para, alguns anos depois, arrematar um outro génio da insularidade, sedentário da província do meio do mar, do lar insular modelar do nosso processo supostamente acelerado e exemplar de aristocratização cultural e, em vida, sedento das raízes do seu torrão natal, e das outras, recém-adquiridas e devidamente transladadas para o sopé do monte verde e aí para sempre sepultadas com os seus futuros restos mortais com vista privilegiada para o Porto Grande e para os navios demandando o norte e/ou o nor/noroeste dos mares do Atlântico. “Precisamente a ilha de Cabo Verde (Santiago) que se encontra numa fase mais atrasada de evolução aculturativa, está mais avançada linguisticamente do que as outras, embora apenas no aspecto fonético”.
Oh! Tempos de busca e de auto-diluição!
Oh! Tempos da caboverdianidade espartilhada entre a lusitanidade, a luso-crioulidade, a afro-crioulidade e a africanidade!
Oh! Tempos de muita inflexão e de pouca penitência!
A terra jazia, entretanto, inerte no seu diálogo silencioso com os parceiros, mas também com os morgados, com os comerciantes, com os seminaristas, com os professores primários.
Inadaptado e louco modernista era o que era o António Pedro.
“Louco e bendito modernista é o que ele é", corroborou, ainda em tempo útil, Jaime de Figueiredo, comovido e entusiasmado, a Jorge Barbosa, discípulo hesperitano, então muito dado às brumas da antiguidade greco-latina devidamente envoltas em rima e métrica clássica.
“Oh azuis, por demais azuis céus que me ofuscam o brilho castanho e o pardo verde da terra! Oh céus sem pátria!”.
As palavras continuavam a crepitar incongruentes, espartilhadas entre o plateau e os subúrbios, entre a saga aventurosa dos sonhos loiros libidinosos e os ventres proeminentes, infestados de lombrigas, das crianças em tempos de miséria e de muita fome, sideradas ante o casebre abandonado, o arco de ferro do menino enferrujando-se com as brincadeiras desvanecidas pelas estiagens e o desassossego do mar sempre, sempre dentro dele e dos caboverdianos anónimos, humildes, seus irmãos.
“Este homem é um Nero e pretende atear fogo à cidadela das nossas tradições mais civilizadas”-clamaram os estudantes radicados do outro lado de onde sopra o vento, secundados pelos neuróticos moradores da beira-mar onde, com estonteante regularidade, por sua vez, baila o vento.
“E traz à praça pública as nossas chagas, pois que de chagas se trata quando se nomeia o batuque, e a terra seca, e a preta. Oh! Vergonha do mondrongo-badio insultando herético o nosso fado que é a morna! Oh! Nefasto agente das artes degeneradas!”.
E, destemperados, congregaram-se em torno da raiva e do ódio, embevecidos com o auto-da-fé que acabavam de efectuar, e com as cinzas das primeiras letras pós-hesperitanas escritas e impressas em terras de Cabo Verde com o selo tipográfico da Imprensa Nacional de Cabo Verde, sedeada na cidade da Praia.
“Bendito modernista é o que ele é, esse cultor da liberdade poética e da sátira versilibrista!”, exclamou Jorge Barbosa e pôs-se febrilmente a escrever versos libertos da serôdia coacção da rima e da métrica e a debitar poemas sobre os mares caseiros da praia negra e da saragaça, o cutelo dos picos após a chuva, as negras e mulatas e respectivas ancas sensuais e dançarinas no pilar do milho, a estiagem, as meninas portuárias de S. Vicente, a ambiência neurasténica da ilha do Sal, os quinhentos anos de desventura e abandono do balanço final da lusitanidade colonial, e, impaciente com os tempos da maturação do tempo, pôs-se a congeminar destemidos versos panfletários destinados à memória futura das novas gerações contestatárias e nacionalistas. Versos esses que, embora clandestinos, eram recitados de forma sorrateira em muito restritos círculos de confrades, amigos e admiradores.
Entretanto, o pilão continuava retinindo nos quintais, e nos terreiros sagravam-se os ritos funerários e mandavam-se recados aos finados e ao senhor da chuva e, assim, prosseguia a trágica edificação da identidade do povo da ilha, do arquipélago do verde renitente e do diário milagre da sobrevivência.
Alguns anos mais tarde, um outro poeta, também ele branco nascido sob o signo de sagitário no plateau, mas nele criado até à idade adulta, sentado num café de Lisboa, assediado pela doença, pela saudade e pelo inverno, dessendentava-se nos sequeiros de Mato Engenho e de Dàcabalaio e sonhava um outro amanhã para as suas distantes e amadas ilhas, e as suas levadas enormes, e os seus trapiches pilando, e o seu cheiro de melaço vivificando as ânsias de felicidade na terra finalmente nossa, do povo das ilhas (“estás a atribuir-lhe de forma abusiva essa última expressão, consabidamente da lavra clandestina de Manuel Duarte. O António Nunes era simplesmente um poeta neo-realista que transitou do ultra-romantismo para o cânone claridoso salpicando-o dos ritmos de pilão e de outros sinais afro-crioulistas por influência de Teixeira de Sousa e da poesia negritudinista do mulato santomense crescido na diáspora portuguesa da capital do império, Francisco José Tenreiro de seus nomes civil e poético completos. As leiras de terra que serão nossas inserem-se mais num projecto de reforma agrária de teor socialista, ou, melhor, democrático-popular, como propugnavam os comunistas portugueses, companheiros de jornada de Teixeira de Sousa que, aliás, introduziu António Nunes nas tertúlias neo-realistas do Café Gelo de Lisboa, do que numa visão independentista, como, aliás, se viria a verificar com a postura titubeante do romancista foguense quanto a esta última questão, não obstante o seu entranhado anti-fascismo e o seu inquestionável progressismo político-social, primeiramente de cariz mais comunista e revolucionário, depois de teor mais socialista e reformista ”- interpelou-me, visivelmente incomodado, o poeta-mor, ex-preso político e combatente da liberdade da pátria. Aliás, não te esqueças desse outro poeta caboverdiano radicado na metrópole e muito ligado aos círculos neo-realistas da poesia do (anti) bloqueio. Na verdade, nascido na ilha da Boavista, foi levado para Lisboa ainda de tenra idade, tendo aí crescido e morrido, feito homem e poeta navegante entre o seio familiar crioulo caboverdiano e a ambiência circundante europeia e cultor de duas poéticas, complementares nas temáticas e nas sensibilidades trazidas à cena. São dele a Ilha e a Solidão e Missiva, de incidência caboverdiana, mas também os muito celebrizados Pátria, Lugar de Exílio e A Invenção do Amor, de temática predominantemente portuguesa e/ou universalista, mas sempre de altíssimo teor libertário e anti-fascista. No progressivismo residirão os seus pontos de encontro com o poeta Sagitário, saudoso da cidade natal, longínqua e pequena).
Porque sagitário morreu o demiurgo do poema de amanhã esquizofrénico num hospício da pátria monumental da miséria desvalida do povo, enclausurado no coração do império.
Santiago continuava especado entre o mar e o pilão, entre o sul e a estiagem, aguardando pacientemente, meses atrás dos meses, anos atrás dos anos, a estação das águas, das sementeiras, das mondas, das remondas, das trismondas, das colheitas dos risos, dos frutos, da alegria,
Os cavalos relinchavam continuamente em Santa Catarina, as folhas dos poilões rumorejavam entre Setembro e Março, o azul entranhava-se à distância e aos ecos ressoando entre as colinas sob o profético deambular de Nhu Naxu.

                                          1938-1966
               Tempos de outros regressos e de outras partidas
Veio o António Pedro na sombra do nacional-sindicalismo, do surrealismo, do periodismo e do Marechal Carmona (então presidente da pseudo-república portuguesa do Estado Novo em exercício de soberania por terras ultramarinas), viu a claridade e sorriu satisfeito.
O arquipélago tornou-se com o império a retaguarda do mundo. Tudo cheirava a pólvora e holocausto. Crioulos caboverdianos nascidos afro-americanos ou latinos do Mississipi desembarcavam nas costas de Dunquerque. Judeus de Cabo Vede agarravam-se ao Sião de Achada Riba, enquanto António Pedro proferia convincentes ditongos de liberdade entre o nevoeiro de Londres.
O arquipélago tornou-se, contra o império, a retaguarda da voz. E os corpos islenhos calcinados entre os oboés, descobriam-se escuros, castanhos e libertários.
António Pedro habitava ainda as muitas moradas das diásporas.

                      De 1966 até à eternidade
Morreu o pai minhoto, escriba assíduo na revista maior da província/colónia dos seus tempos praianos, veio e viu como a terra ainda era seca, de um continuado odor castanho salpicado de verde.
Foi-se e nunca mais voltou, o sagitário de tantas promessas não cumpridas, o homem-teatro de tantas máscaras assumidas quiçá para melhor perscrutar as diversas tonalidades da dor e as diversas matizes da paixão, o artista plástico e o poeta surrealista que, desprevenido, também se embebedou da terra nua e árida e das suas imponentes colinas azuis, e se fez eco dos rochedos de Laranjo e da Serra da Arga, ao som improvável da morna, que, serenada em serenata, teimava em arrebatá-lo para o transe de uns desajeitados passos de maxixe.
JOSÉ LUÍS HOPFFER C. ALMADA
Praia, 21 de Julho de 1987 (versão original publicada na revista Fragmentos, de 1987)
Revisto e refundido em Lisboa, aos 16, 17, 20 e 21 de Dezembro de 2010, aos 30 de Janeiro, e aos 1, 6 e 9 de Fevereiro de 2011


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

José Luis Hopffer Almada: o poeta-intelectual e o tempo em que vive


O poeta-intelectual e o tempo em que vive

por Ricardo Riso
Resenha publicada na seção Artes & Cultura do semanário cabo-verdiano A Nação, nº 176, de 13 a 19/01/2011, p. 29
O dilaceramento da sociedade mascarado pela ordem neoliberal vigente transforma o cotidiano em um simulacro cínico e hipócrita de bem-estar, anula o senso crítico e anestesia os sentidos das pessoas, tornando-as inertes frente às contradições da pós-modernidade. Caberia aos poetas, enquanto intelectuais e perscrutadores do seu tempo, manifestar o descontentamento diante da aparente inevitabilidade de mudança, de desolação pelo passado e de melancolia pelo futuro que se anuncia? A leitura de “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade” (Praia: Spleen Edições, 2009), de José Luis Hopffer Almada, auxilia-nos a tecer breves considerações acerca do papel do poeta-intelectual e o tempo em que vive.

“Em defesa dos intelectuais”, Jean-Paul Sartre afirma que “o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta”, estimulando a sociedade burguesa a afastá-lo, pois suas observações são incômodas e provocativas, tornando-se conveniente desacreditá-lo e legá-lo ao ostracismo. Edward Said no capítulo “Exílio intelectual: expatriados e marginais”, do livro “Representações do Intelectual”, segue as ideias propostas por Sartre e mostra que os intelectuais são conduzidos a conviver à margem da sociedade, pois o exílio “é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros”, por que se afastando “das autoridades centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver coisas que normalmente estão perdidas em mentes que nunca viajaram para além do convencional e do confortável”.

Sendo assim, consideramos que o nome literário Erasmo Cabral de Almada, a faceta corrosiva e voraz de Hopffer Almada, apresenta-se como aquele que importuna a ordem estabelecida e ciente de sua condição: “Eis-me/ entre os papéis/ e estes me dizem:/ é arriscado/ ser-se indagador”. Há o descrédito com o futuro na imagem da criança no lixo, contrapondo-se aos ideais cabralinos de que “as crianças são as flores da revolução/ a razão principal da nossa luta”, tratado de forma crepuscular diante da perpetuação da miséria: “Em aziaga aparência/ debruça-se uma criança/ sobre o contentor de lixo/ e no seu fundo/ surge-lhe/ como o impacto da revelação/ (...) o longo precipício do destino/ o irresistível declínio dos dias...”.

Os poemas atribuídos a Erasmo Cabral de Almada caracterizam-se por um atento olhar das metamorfoses sofridas no Cabo Verde independente. Por isso, temos o desencanto diante das incongruências da política – “com os meus antigos ideais/ perdidos” – expressado por “txibita” (arquétipo do ilhéu): “txibita deixou/ de respirar as palavras dos outros/ (...) por isso/ txibita (...)/ é apátrida/ na sua pátria c.v.”. A indignação do poeta-intelectual com o ocaso dos ideais revolucionários desintegrados com o passar dos anos, demonstra-se no desalento de quem foi partícipe daquele momento histórico: “Também eu/ polícias, vigiei/ vertical/ entre as implacáveis palavras de um ideal/ as verdes folhas de uma promessa/ as reconfortantes falácias de uma utopia/ temendo que/(...) depois somente restassem/ trucidadas sombras da história/ soçobradas recordações do destino”.

Um olhar cáustico e impiedoso sobre a sociedade cabo-verdiana é apresentado em “Cidade VI”, porém um olhar consternado frente às mudanças dilaceradoras da Praia. Novamente, os dirigentes políticos o alvo dileto dos “sobreviventes da cidade” que “cogitam demoradamente na obstinação desses antigos combatentes do mato agora reciclados como sagazes salvadores da pátria”.

Contra a hipocrisia do século XXI, inferimos que o discurso à margem proposto pelo poeta José Luis Hopffer Almada contribui para revelar verdades incômodas à ordem estabelecida em seu país, fazendo da poesia espaço de consciência crítica. Por mais dilacerada que esteja essa consciência, em seu exílio ela sobrevive “de novo/ com os meus ideais”, ainda que desacreditados do PAIGC, porém iluminados pela estrela negra desse intelectual “caçador de estrelas”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ÁFRICA E AFRICANIDADES - Ano III - nº 11 - nov/2010

ÁFRICA E AFRICANIDADES - www.africaeafricanidades.com.br

Ano III - nº 11 - novembro de 2010 - ISSN 1983-2354

Sumário

Problemáticas lusógrafas e o papel da língua portuguesa na emergência da identidade literária caboverdiana e na universalização da poesia caboverdiana contemporânea
José Luís Hopfffer C. Almada

The arts of resistance in the poetry of Linton Kwesi Johnson
Jair Luiz França Junior

A valorização da história e cultura afro-brasileira por Luiz Carlos da Vila
Maria Angélica Ventura Ferreira

Memórias na escrita de autoria feminina afrobrasileira
Assunção de Maria Sousa e Silva

Strategizing renewal of memories and morals in the african folktale
John Rex Amuzu Gadzekpo e Orquídea Ribeiro

Consciência coletiva, identidade negra e cidadania: uma perspectiva pós-colonial para as construções sociais no Brasil
Bruno Diniz Fernandes

Baara, de Souleymane Cissé
Wanessa Tenório Bezerra

O ensino e a pesquisa sobre África no Brasil e a lei 10.639
Luena Nascimento Nunes Pereira

Cabelo bom. Cabelo ruim: a construção da identidade afrodescendente na sala de aula
Sayara de Brito Félix

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Ricardo Riso

A construção da identidade negra em territórios de maioria afrodescendente
Tarcia Regina da Silva

Da cor do preconceito: o negro na teledramaturgia brasileira
Alex Santana França

População negra no Ceará e sua cultura
Marlene Pereira dos Santos e Henrique Cunha Junior

O outro pé da sereia: uma viagem no tempo-espaço
Aparecida Cristina da Silva

Afrocentricidade e educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado
Renato Nogueira dos Santos Junior

A reconfiguração da identidade nacional moçambicana representada nos romances de Mia Couto
Josilene Silva Campos

Água e azeite: políticas afirmativas e a democracia racial no Brasil
Natália Neris da Silva Santos

O outro e o eu: a cama, nas narrativas de Niketche e A cor púrpura
Waltecy Alves dos Santos

“Sonéá: exaltação da tradição oral guineense nos moldes da escrita”
Jusciele C Almeida de Oliveira

Esporte, integração social e a aplicação da lei 11.645/08 No 2º segmento do Ensino Fundamental da E.M. Professor Washington Manoel de Souza – Queimados – R.J
Denise Guerra dos Santos

Legislação portuguesa para o ultramar
Esmeralda Simões Martinez

Memória e espaço: sentimentos insulares pintados e cantados por Luísa Queirós e Conceição Lima
Eneile Santos Saraiva

Da invisibilidade do negro nos estudos sobre a cultura sertaneja
Salatiel Ribeiro Gomes

O uso da literatura de base africana e afrodescendente junto a crianças das escolas públicas de Fortaleza: construindo novos caminhos para repensar o ser negro
Geranilde Costa e Silva

Crédito pecuário a mulheres de moçambique: dinâmicas sociais de gênero
Maria Henrique Cândido e Marta Júlia Marques Lopes

Diálogos entre Brasil e Angola: a recriação literária da infância em obras autobiográficas
Karina Mayara Leite Vieira

África negra e a formação da africanidade
Tarcia Regina da Silva

Dança do chorado: facetas do corpo e cultura vilabelense
Belnidice Terezinha Figueiredo Fernandes

domingo, 7 de novembro de 2010

IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS

Prezados, estarei no IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS, de 8 a 11 de novembro, na UFOP/MG, apresentando a comunicação Memória, pan-africanismo e revisão crítica da história no poema “Australidades”, de José Luis Hopffer C. Almada, no dia 10 de novembro, a partir das 18h no IFAC - sala 1, ao lado dos colegas LETÍCIA NUNES GOMES (UFRG) – Ilha e Ilhéu: fusão do espaço-personagem, em A louca de Serrano, de Dina Salústio; KLEYTON R. W. PEREIRA (FAFIRE) – Identidade, gênero e diáspora – uma análise das personagens femininas nos contos de Lília Momplé, Maria Margarida Mascarenha e Orlanda Amarilis; RUBENS PEREIRA SANTOS (UNESP/Assis) – A novíssima poesia caboverdiana: a poética de José Luis Tavares.
Uma mesa que muito me atrai por apresentar a produção contemporânea de Cabo Verde, a partir das obras de J L Tavares, Dina Salústio (felizmente não será Mornas eram as noites) e José Luis Hopffer Almada.
Até lá!
Abraços,
Ricardo Riso

sábado, 11 de setembro de 2010

Movimento Pró-África (sítio)

Uma boa dica de sítio que pensa as diversas problemáticas do continente africano, chama-se Movimento Pró-África.

Desde já, recomendo a leitura dos artigos de José Luis Hopffer Almada, sob o título Breves apontamentos a propósito de recentes polémicas sobre a identidade literária caboverdiana e o artigo de Hermenegildo Carvalho, intitulado Revisitar Amílcar Cabral (I), fundamentos da sua Liderança.

Abraços,
Ricardo Riso

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ao município da Praia, pelo seu 19 de maio - 152 anos

CIDADE VI


“a arménio vieira, jorge carlos fonseca, osvaldo azevedo,
oswaldo osório, fernando monteiro, armindo silva,
daniel benoni, ludgero correia e fi linto elísio correia e silva,
observadores, amantes e críticos da cidade”

Nós temos uma cidade.
A nossa cidade nem sequer chega a ser nojenta.
A nossa cidade está de nojo.
A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade.

Estes deambulam circunspectos pelas ruelas de ponta-belém e pelo que sobreviveu das ruas de madragoa, de sá da bandeira, de andrade corvo, de serpa pinto, da república, de cândido dos reis, da horta, da moradia, oh!, pelas antigas ruas cinicamente sorrindo, transfi guradas e ainda aturdidas sob as vestes e os nomes heróicos das placas toponímicas recém-colocadas.

Prosseguem pela pracinha da escola grande, constatam que, entre os canteiros descuidados e as fl ores devassadas, a mesma continua estranhamente ostentando o nome original do poeta de os lusíadas e a estátua em bronze do doutor lereno, ilustrativa das suas benemerências de médico humanista.

Continuam até à pracinha do liceu, descansam por momentos aprazíveis nos bancos dos jardins fl oridos e, maquinalmente, recitam os versos de camões ainda inscritos nos azulejos azuis exaltantes da expansão portuguesa e que estoicamente sobreviveram aos tumultos estudantis que se seguiram ao golpe de estado do 25 de abril de 1974.

Postam-se depois nos muros avarandados da cidade e lançam olhares tristes sobre a imensidão dos subúrbios. Planam o olhar pelas silhuetas de ponta-de-água, da achada eugénio lima, da achada grande, do paiol, da fazenda, de lém-cachorro, do castelão, da vila nova, da achadinha, de pensamento, de safende e de outros bairros postados contra a longínqua imponência das montanhas do interior da ilha e o translúcido e majestoso vulto do pico de antónio.

Tranquilizam-se e ao seu espírito inquieto deambulando imaginariamente pelos jardins do parque 5 de julho, complexo recém-inaugurado com enjoativas pompa e circunstância acompanhadas dos discursos heróico-cavalgantes do costume. Admitem a contragosto que o parque se tornou lugar emblemático da cidade, seu pulmão verde e centro de diversões nocturnas e de diurnos e apaziguadores multi-usos. Embevecidos, fi xam-se nos perfi s das suas duas casa padja, felizes recriações modernas e vagamente monumentais das antigas casas rurais cobertas de palha para a realização de colóquios, concertos, mesas-redondas, seminários e conferências internacionais, tão destes ofuscantes tempos, embebidos de petulância e de promiscuidade entre os fi lhos de gente antiga, branca e fi na e filhos de pés descalços, enfatuados o quanto baste nas suas vestes e poses de doutores recém-licenciados em universidades comunistas dos países de leste.

Agitam-se, tomados de maus agoiros, com o pressentimento da breve decadência desse novo rosto da cidade e de outros novos rostos, como, por exemplo, o centro social primeiro de maio, o restaurante hong kong (obviamente de indecifráveis comerciantes chineses), todos marginando a avenida cidade de lisboa, de nome inegavelmente auspicioso mas construída, imagine-se, nas circundações dos bairros suburbanos da achadinha e da várzea e dos casebres do taiti.

Cidade de lisboa… quedam-se saudosos na silenciosa evocação das férias graciosas passadas ou imaginadas na capital do império e cogitam demoradamente na obstinação desses antigos combatentes do mato agora reciclados como sagazes salvadores da pátria por mor da sua astúcia na arrecadação das ajudas internacionais. Fogo fátuo, condenado à lenta extinção, profetizam pessimistas, por efeito do mero cansaço dos doadores internacionais, agora promovidos a parceiros estrangeiros do desenvolvimento, afi nal meros substitutos dos congeminadores metropolitanos dos antigos planos de fomento que tantas escolas, estradas e postos sanitários trouxeram à província ultramarina. Afinal, meros sósias sem a glória da pátria e a grandeza do império!

Desistem de imaginar o burburinho que irá por achada de santo antónio, tira-chapéu (ou frouxa-chapéu, para os mais renitentes) e outros subúrbios das proximidades do mar, agora envaidecidos pela presença próxima da antiga placidez das moscas e das alimárias e das hortas miraculadas do palmarejo, de símbolos do poder como o palácio da assembleia nacional popular, as embaixadas da união soviética, da china e de portugal, de vivendas e residências de ministros, juízes, directores-gerais, inspectores das fi nanças, auditores das alfândegas e outros altos funcionários do estado.

Dir-se-ia, pensam de si para si e nos subúrbios que se estendem defronte dos seus olhos indignados, um extenso mercado de candongueiros, um roque santeiro luandense ou um imenso acampamento de exércitos hititas prestes a invadir ménfis, tebas e outras cidades egípcias e a destruir a grandeza das suas pedras multisseculares e a magnificência das suas memórias milenares.

Atravessam a rua do hospital. Alguns dos sobreviventes da cidade encarceram-se no pavilhão dos alienados, dementes e possessos da quinta enfermaria do hospital central “agostinho neto” para sessões de consulta psiquiátrica e de meditação sobre o tempo e a cidade ou, melhor, sobre os tempos da cidade.

Conspícuos, os habitantes da cidade apresentam condolências ao quase-cadáver sorridente da cidade. As melhores condolências, asseguram, são as que se apresentam aos sobreviventes, as únicas vítimas de algum mérito e merecedoras de autêntica pena, escárnio que baste e muita condescendência. Afi nal, verdadeiros mortos-vivos, são eles irrefutável memória e assídua presença das ruínas do futuro! Ah! os sobreviventes da cidade!

Nem sequer acreditam na ressurreição do seu lugar de natalidade. Espavoridos e insólitos, sentados na plácida e obesa comodidade das tocatinas e das conversas de fi m de tarde nos bancos da praça grande, observam o crescer dos prédios, a abertura de novas avenidas, o calcetamento de novos arruamentos (e, fantasiam, a asfaltagem e, extrapolam, quiçá a pavimentação artística de vias exclusivamente destinadas aos peões), a alegre devoração e as doces guerras dos festivais de música, a consonântica (mas, admitem, melodiosa) desfaçatez de alguns dos recém-chegados …

Com um certo temor e muito a contra-gosto digerem o impúdico abraço entre o plateau e os subúrbios. Por isso, declinam os convites para as inaugurações de empreendimentos turísticos e de modernas vias rápidas que, cogitam, pretendem unifi car as achadas, achadinhas, várzeas, colinas, encostas e ribanceiras numa, profetizam sarcásticos, cidade-menina do atlântico.

Meditativos, os sobreviventes da cidade revisitam os lugares da infância e, pressurosos, lamentam o entranhado lixo da cidade, a proliferação do comércio ambulante e das quotidianas feiras debugigangas, a ruína de lojas tradicionais emblemáticas (como a casa serbam, a loja herculano, a casa feba, as galerias-praia), a caótica degradação dos bairros, o terramoto da miséria e do êxodo rural, a invasão dos bárbaros que, dizem, são os sampadjudos das as-ilhas, os badios de fora (das aldeias, dos cutelos e das vilas do interior da ilha), os cooperantes de carteiras recheadas e olhos claros omniscientes, os mandjacos (negros, animistas e muçulmanos da costa de áfrica), os comerciantes chineses que, escudados na monumentalidade do palácio da assembleia nacional popular na achada de santo antónio e no baixo preço dos produtos importados da sua ásia natal, vêm arruinado os comerciantes locais, não se coibindo sequer de se juntar aos rabidantes indígenas das ilhas e instar os mandjacos a irem para a sua terra, a regressarem às suas cubatas aldeãs e suburbanas…

Enfim, e para culminar, constatam consternados a negra veracidade do que os petulantes da cidade denominam a plena dakarização das ruas, das mentalidades, da cidade...

Em conversas segredadas asseveram que enquanto uns invadem os leitos das ribeiras e as encostas (como se pode verifi car in loco na chamada embaixada (ou encosta) dos sampadjudos, sobranceira ao subúrbio das vila nova), e constroem bairros de barracas e casebres sumamente degradados em safende, vila nova, et cetera, et cetera, outros ocupam a beira-mar e refastelam-se nas vivendas e outros rostos recentes e outros recantos antiquíssimos da capitalidade, remetendo os sobreviventes da cidade para a insignifi cância e a amnésia, para a triste irrelevância de moradores antigos e primeiros da capital, cidade cantada e vilipendiada como rochosa transfiguração da velha e antiga metáfora de cidade santa, urbe reiterada e secularmente mal-amada por alguns conhecidos forasteiros que nela e noutras reinam e todavia reivindicam.…

Sentados no cruzeiro, os sobreviventes da cidade observam o mar e a sua possível transfi guração em trilho para o além, em viagem ou suicídio desde que represente uma forma defi nitiva de fuga ao corpo putrefacto da cidade.

Cidade despojada da praia negra e dos seus coqueiros e pic-nics, substituídos pelos dejectos da fábrica de cervejas e pelo cheiro nauseabundo dos tanques onde vão sendo experimentadas novas formas de energia renovável sem qualquer utilidade prática imediata ou visível.

Cidade despojada da memória do verde, dos pássaros cinzentos e do canto do bico de lacre no taiti e nas antigas florestas circundantes do bairro craveiro lopes e da fazenda, para sempre extintas.

Sentados no cruzeiro, sob os auspícios e a ferrugem dos canhões antiquíssimos e a proximidade das conversas dos moradores dos apartamentos pequeno-burgueses dos prédios do ténis, os sobreviventes da cidade são tomados de um imperecível desejo de evasão da cidade carregada de vento, pó, ruas esburacadas e sobrepovoada de insolentes animais, racionais e irracionais, domésticos e exóticos.

Sentados no cruzeiro, os sobreviventes da cidade cogitam, utópicos e visionários, e ante os seus olhos confi guram-se as imagens de uma longa avenida marginal estendendo-se, asfaltada, iluminada e movimentada, da gamboa, passando pelo porto, até à praia da mulher branca, com as devidas e modernas bifurcações para um mais moderno aeroporto internacional e os remodelados bairros de lém-ferreira, ponta-de-água e achada-grande-trás…

Pesarosos, os sobreviventes da cidade debruçam-se sobre as trucidadas flores da praça grande, das pracinhas da escola grande e do liceu adriano moreira (os sobreviventes da cidade recusam-se a pronunciar o novo nome do liceu, domingos ramos, guinéu e comparsa semi-analfabeto de, imagine-se, outros terroristas, ou de modo mais eufemístico, combatentes do mato, em boa hora neutralizados, como amílcar cabral, josina machel, eduardo mondlane, chico té, che guevara, justino lopes, jaime mota, ludgero lima e o ainda mais execrável kwame nkrumah…).

Crispados, os sobreviventes da cidade cogitam sobre a futura reposição da verdade dos lugares e dos seus nobres e pátrios nomes, como craveiro lopes, alexandre albuquerque, andrade corvo, serpa pinto, sem, obviamente, esquecer os heróis de mucaba…

Os sobreviventes da cidade rezam sobre as ruínas da cadeia civil e dos sobrados coloniais amarelecidos pelo tempo e pela decrepitude, os quintais de algumas casas térreas de persianas verdes, janelas envidraçadas e soalheiras meias-portas e outras casas típicas do planalto da cidade da praia, urbe outrora chamada de santa maria da esperança e da vitória.

Os sobreviventes da cidade indignam-se com a transfi guração do planalto (recapitulam: capital de facto das ilhas de cabo verde desde o abandono da cidade velha em 1776 e capital ofi cial da província ultramarina desde 29 de Abril de 1858) em reles e francófono plateau de uma cinematografi a, na qual a cidade se transmutou em mero figurante numa vilã miríade de subúrbios.

Os sobreviventes da cidade continuam deambulando pelas ruelas e constatam com alívio, orgulho e alguma vaidade que os moradores das casas mais modestas dos quarteirões mais pobres do planalto-capital recusam terminantemente a deportação para o longínquo bairro da terra-branca (branca de novos ricos indígenas e de cabelos loiros cooperantes, dizem sarcásticos) ou para qualquer achada, achadinha ou ribeira, todas fl ageladas pelo cinzento, pelo abandono, pelo caos, pelo despojamento de urbanidade, por todo o tipo de carências, pela ausência de qualquer memória urbanística e, sobretudo, pela irremissível circunstância de serem baxu-praia, abaixo da praia, sub-praia…

Os sobreviventes periféricos e suburbanos do planalto-capital preferem ser despejados. O cubículo ou a casa térrea de dois ou três quartos e muita promiscuidade não se salva, mas ao menos salvam-se a honra e a dignidade de indefectíveis praienses. Ocupa-se a praça e abre-se escritório de conversador na esplanada central da cidade, no restaurante avis ou no café cachito ou abanca-se como engraxador de sapatos na praça alexandre albuquerque (arremetem os auscultadores da cidade: mas a polícia nega-se a fazer reluzir as botas na praça “12 de Setembro”. Quando for o caso não há-de a polícia precisar de botas reluzentes. Abaixo o boato e a paranóia!)

Os habitantes da cidade estão de nojo. Pelos sobreviventes da cidade ou por si próprios.
Milhafres e vampiros debicando o cadáver da cidade. Persistentemente. Diligentemente.

Os habitantes da cidade estão de luto. Pela cidade e por si próprios.
Cadáveres futuros sobre o corpo arruinado da cidade.
Irremediavelmente.

Dizia eu, nós temos uma cidade.
A nossa cidade e os seus habitantes nem sequer chegam a ser nojentos.
A nossa cidade e os seus habitantes estão aparentemente de nojo.
Estão de nojo pela cidade e pelos sobreviventes da cidade.
Magnanimamente.

(poema atribuído ao heterónimo Erasmo Cabral de Almada)

(ALMADA, José Luis Hopffer. Praianas. Praia: Spleen Edições, 2009. p. 115-121)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde) 122 - 31/12/2009 - resenha "Praianas" de José Luis Hopffer C. Almada





José Luís Hopffer C. Almada - Praianas


Por Ricardo Riso


Neste ano foi lançado “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade”, livro de poesia de José Luis Hopffer C. Almada, publicado pela Spleen Edições, com visceral capa de Abraão Vicente e um posfácio muito bem elaborado por Rui Guilherme Gabriel, assim como foram as análises de Inocencia Mata e Maria Armandina Maia à 2a. edição da “Assomada Nocturna” e ao artigo de Mario Fonseca referente à sua 1a. edição. Todo esse esmero crítico valoriza o vigor da formulação poética de José Luis e demarca a pertinência da sua produção para a literatura cabo-verdiana contemporânea, além da reconhecida contribuição na área de crítica literária.

Em “Praianas”, o autor retoma seus heterônimos para reunir poemas sobre a Cidade da Praia e inclui-se na vasta lista de poetas que se inspiram na cidade, tais como Arménio Vieira, Jorge Carlos Fonseca e Filinto Elísio. Estão representados, com seus olhares diversificados e diferenciadas características, NZé di Sant’ y Agu (o mais telúrico, vinculado às ilhas e à cultura de Cabo Verde) autor do longo e épico poema narrativo “Praianas” (recomenda-se as considerações de Rui Guilherme acerca de gênero) e de “Historicidades”; “Poeticidades”, de Alma Dofer Catarino (o que se pretende lírico e existencialista); e “Noiticidades”, de Erasmo Cabral de Almada (a faceta voraz e crítica) que encerra o livro; alguns deles acompanham a criação poética de José Luis desde o final dos anos 1970.

A ironia e o olhar corrosivo e amargo diante da situação atual da Praia e do país revelam-se nos poemas dedicados a Erasmo Cabral de Almada, principalmente em “Cidade VI”: “A nossa cidade está de nojo pelos sobreviventes da cidade” (p. 115). Enquanto Alma Dofer Catarino comparece com lirismo e elegante ironia inferidos na homenagem a Arménio Vieira, em “O desterro do poeta”, ao mencionar o incômodo causado não só pela sua poesia, mas também pela sua presença: “Dizem/ consumias demasiado café (...) Por isso/ instaram-te a mudar/ o teu indeclinável percurso/ de todos os dias/ e proibiram-te de consumir café” (p. 103-105).

Todavia, o engrandecimento deste livro se dá nos poemas de NZé di Sant’ y Agu. O seu apego ao chão de Cabo Verde e a constante rememoração do passado histórico estimulam o poema “Monte-Agarro” (p.95), integrante de “Historicidades”, a celebrar os heróis da revolta de 1835: Gervásio, Narciso e Domingos. Mas é na retomada e no aprofundamento de características das duas “Assomadas Nocturnas” que o longo poema “Praianas” se destaca. Estão lá a evocação, a anáfora, o uso constante da adjetivação e do gerúndio, o discurso metafórico, a enumeração incansável de pessoas, lugares e fatos e a reconstituição do passado pela memória individual (biográfica) e coletiva (histórica).

Na 1a. parte do poema, temos a chegada dos meninos à Praia com suas “almas ávidas das luzes da cidade” (p. 18), o duro aprendizado na urbe, a solidão, a iniciação sexual até o amadurecimento da consciência política e do momento histórico em que viviam, “da multidão libertando os medos seculares” (p. 49). Na 2a. parte, reduz-se a saga dos meninos e enfatiza-se a luta pela libertação em Cabo Verde e Guiné ao recorrer aos participantes do PAIGC, aos anônimos contrários ao colonialismo e aos presos políticos, assim como os combates pela África e a mobilização pela diáspora. Pertinente e bela a participação descrita dos “poetas pastores da noite” (p. 61), “versados na arte poética de intervenção social (...) dotados na ciência da revolta e do inconformismo (...) da palavra contestatária detonadora de ânimos novos” (p. 58).

Este “Praianas” consagra a maturidade poética de José Luis Hopffer C. Almada, seu apuro estético e formal, a incessante e incansável lapidação da palavra. Através da revisitação constante ao passado e valendo-se da sensibilidade à flor da pele na recriação literária, Hopffer Almada presta sua contribuição ao reencenar em uma tessitura poética comovente a história e a cultura de Cabo Verde.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde): resenhas de Ricardo Riso

Prezados(as),

As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº113 DE 29 DE OUTUBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se a minha primeira resenha crítica - FILINTO ELÍSIO: LI CORES & AD VINHOS - para este veículo. A periodicidade será quinzenal. O texto, na íntegra e com alguns poemas do livro, encontra-se em http://ricardoriso.blogspot.com/2009/10/filinto-elisio-li-cores-ad-vinhos.html
Na próxima, o escritor a ser resenhado será o cabo-verdiano Mário Fonseca e o seu livro Se a luz é para todos; nas seguintes comentarei Praianas de José Luis Hopffer C. Almada e Lisbon Blues seguido de Desarmonia de José Luiz Tavares.

Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado aqui no blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com
Agradeço a todos os que me acompanham e incentivam nessa estrada.

Abraços,
Ricardo Riso


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

José Luis Hopffer C. Almada - Praianas (livro)

Novo livro de poesia do cabo-verdiano José Luis Hopffer C. Almada, Praianas, publicado pela Spleen Edições (Cidade da Praia-Cabo Verde), com ilustração de capa de Abraão Vicente.


Nasceu no sítio de Pombal, Concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, Cabo Verde (1960). Reside actualmente em Lisboa.
Associado a diversas iniciativas culturais em Cabo Verde, como o Movimento Pró-Cultura (1986), o suplemento cultural Voz di Letra do jornal Voz di Povo (1986-1987) e a revista Pré-Textos; director da revista Fragmentos (1987-1998); co-fundador da Spleen-Edições (1993) e dirigente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (1989-1992/1998).
Participação regular em colóquios, em diversos países, como Senegal, Cuba, Bélgica, Brasil, Angola, Portugal, Holanda, Suíça, Moçambique; colaboração assídua em jornais e revistas literárias e jurídicas, com destaque para Fragmentos, Pré-Textos, Direito e Cidadania, Lusografi as, A Semana, Liberal-Caboverde.
Representado em diferentes antologias poéticas estrangeiras.
Organizou Mirabilis – de Veias ao Sol (Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos (1998) e O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Cabo-Verdianas (2008). Publicou: livros de poesia – À Sombra do Sol, I e II, (1990); Assomada Nocturna (1993) e Assomada Nocturna – Poema de NZé di Sant’ y Águ (2005); ensaio: separata – Orfandade e Funcionalização Político-Ideológica nos Discursos Identitários Cabo-Verdianos (2007).
Utiliza os nomes literários Nzé di Santý Águ, Zé di Sant´y Águ, Alma Dofer Catarino, Erasmo Cabral de Almada (poesia), Tuna Furtado (artigos e ensaios) e Dionísio de Deus y Fonteana (crónica literária e prosa de ficção).

Texto da orelha do livro:
A filiação literária de “Praianas”, como acontecia com Assomada Nocturna, pode (...) situar-se entre a épica do século XX e o Bildungsroman realista defi nido por Bakhtin. Quanto a este aspecto, e a propósito ainda de Assomada Nocturna, Inocência Mata afi rmou precisamente que o tempo revivido por NZé di Sant’y Águ “pode considerar-se a fase de «conhecimento do mundo»”; daí que fosse esse um tempo “cujo signifi cado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o sujeito quer recuperar na sua significação histórica”, como é comum suceder no Bildungsroman realista. Já se pensarmos noutras revisitações, mais ou menos épicas, aos lugares da formação pessoal ou colectiva, poderemos encontrar afi nidades entre estes dois
livros cabo-verdianos e um Cahier d'un Retour au Pays Natal, de Césaire, um Éloges ou um Anabase, de Perse, ou mesmo um Paterson, de William Carlos Williams. Com este, além do recurso ao collage, há a coincidência do topónimo e do antropónimo, já que “NZé di Sant’y Águ” é também um pseudónimo
gentílico. A propósito de Perse, podemos servir-nos criticamente da asserção de Ana Mafalda Leite que diz ser o franco-caribenho autor da “épica possível de um ocidental, distanciado já de um sentido histórico romântico”: é certo que NZé di Sant’y Águ se destina africano e que os processos de nation building são precisamente românticos, mas quer a geral condição pós-moderna, quer a qualidade teoricamente crioula e historicamente diaspórica do Arquipélago, quer ainda, sem fantasmagórica máscara greco-latina, a biografi a
europeia de J. L. Hopffer C. Almada distanciam o autor de “Praianas” do casticismo folclórico oitocentista. Sobre a herança do martinicano, enfi m, devemos recordar a entrevista do autor a Michel Laban: no período pós-independência, explica Almada, “fazíamos como que uma conjugação entre o surrealismo na forma (…) e um certo engajamento político –, até que descobrimos Aimé Césaire e chegámos à conclusão que (…) essa conjugação era possível...”. A incrustação de frases ou versos alheios no corpo do poema, a recorrência da
anáfora e do discurso metafórico, a exuberância e a virulência vocabulares, a encenação articulada de ambientes rurais e urbanos, a consciência política africanista e libertária ou o recurso à arma miraculosa da cultura ocidental (como queria também T. Tio Tiofe) são partes do património comum aos dois poetas insulares.

Por sua vez, os sucessivos Leaves of Grass, de Walt Whitman, The Cantos, de Ezra Pound, ou oesía Vertical, de Roberto Juarroz, partilham com “Praianas” esse estatuto de work in progress adquirido nas alterações, acrescentamentos ou restaurações progressivos de um projecto iniciado cedo na vida literária do autor – no caso vertente, com a redacção, em Leipzig, no início dos anos 80, da primeira versão de Assomada Nocturna.

In Posfácio de Rui Guilherme Gabriel


Fonte: e-mail enviado pelo próprio autor em 26/08/2009.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

José Luís Hopffer Almada (Org.) - O ano mágico de 2006 - olhares retrospectivos sobre a história e a cultura cabo-verdianas

2009-01-23 17:32:11

Praia, 23 Jan (Inforpress) - O livro " O Ano Mágico de 2006 - Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Cabo-Verdianas" é lançado quinta-feira, dia 29, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, em Lisboa.

A obra segundo o seu coordenador, o escritor e ensaísta José Luís Hopffer Almada, reporta-se para a História-saga do arquipélago que, partindo do improvável, se foi construindo como projecto de uma existência ontologicamente segura e soberana, ainda que existencialmente interrogativa".

Os colaboradores do presente volume lançam, em forma de indagação, olhares plurifacetados e críticos sobre diferentes fases da formação e da emancipação do povo cabo-verdiano e dos seus diversos e sucessivos protagonistas, tendo como referência eventos e efemérides ocorridos em anos em "6" e, por isso, aniversariantes em 2006.

Para além de uma nota de abertura assinada pelo ministro da Cultura, Manuel Veiga, e de uma introdução do coordenador/organizador do presente livro, a obra conta com contribuições ensaísticas de prestigiados estudiosos da história, da cultura e da literatura de Cabo Verde, as quais vêm devidamente assinaladas no "Índice".

A essas contribuições acrescem alguns trabalhos do artista plástico, fotógrafo e também autor da fotografia constante da capa Mito (nome artístico de Fernando Hamilton Elias Barbosa), do escultor Kassanaia (nome artístico do também artesão José Brazão) bem como da ceramista Alice Vieira.

Na opinião de José Luís Hopffer Almada, tais trabalhos pretendem fazer ao leitor "visualizar algumas facetas, por vezes monumentais, por vezes simples rostos da nossa identidade e do Cabo Verde de um passado que, amiúde, se alonga pelo presente".

Anote-se que a grande maioria dos estudiosos acima referenciados vêm desenvolvendo as suas actividades em diferentes áreas de investigação e em várias universidades e centros de pesquisa, nacionais e estrangeiros.

Inforpress/fim