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segunda-feira, 30 de abril de 2012

ANTOLOGIA DE POESIA CABO-VERDIANA CONTEMPORÂNEA - LABORATÓRIO DE POÉTICAS (Ricardo Riso)

Prezadas e Prezados, 
Com satisfação apresento outra antologia de poesia cabo-verdiana contemporânea organizada por mim, agora na Revista Laboratório de Poéticas n. 8. A atual pequena edição contempla as poéticas de Filinto Elísio, José Luis Hopffer Almada, José Luiz Tavares e Mário Lucio Sousa. 
Agradeço à revista Laboratório de Poéticas e ao poetamigo José Geraldo Neres por oferecerem esse importante espaço para a visibilidade da poesia cabo-verdiana.
A seguir a apresentação da antologia.
Boa leitura para todos e peço ajuda para divulgação.
Ricardo Riso




ANTOLOGIA DE POESIA CABO-VERDIANA CONTEMPORÂNEA - LABORATÓRIO DE POÉTICAS

Apresentação 
Ricardo Riso 

Esta pequena antologia de poemas apresenta alguns dos substantivos nomes da poesia cabo-verdiana contemporânea. Filinto Elísio, José Luis Hopffer C. Almada, José Luiz Tavares e Mario Lucio Sousa destacam-se no panorama literário e possuem intensa atividade intelectual no arquipélago desde a década de 1980. A produção desses poetas representa as pluralidades estéticas e de estilos, variedade temática e a busca incessante por um verbo depurado, qualidades que norteiam algumas das tendências da poesia em Cabo Verde, mostrando, cada um com suas especificidades, o amadurecimento e a consolidação do sistema literário do país.

A antologia pretende dar a conhecer, ainda que de forma breve, alguns desses poetas, artífices da linguagem, e contribuir para a melhor divulgação da poesia contemporânea de Cabo Verde, ainda de tímida exposição no Brasil. Panorama que se contrapõe à excelente qualidade dos poetas revelados com o país independente, e que aqui trazemos para a apreciação dos leitores. Com isso, estimular um olhar mais atento do público brasileiro para a recente produção poética cabo-verdiana.

quinta-feira, 24 de março de 2011

José Luiz Tavares - Lisbon Blues


José Luiz Tavares - Lisbon Blues
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 186, p. 10, de 24 de maio de 2011.
A mudança de paradigma na poesia cabo-verdiana atestada por T. T. Tiofe em uma de suas epístolas publicadas no “Primeiro e Segundo Livro de Notcha” em razão de novos caminhos estético-formais, por uma poesia de indagações ontológicas e metafísicas assim consagradas nos “Exemplos” de João Vário, encontra, dentre vários poetas revelados dos anos 1980 para cá, o logro da superação na legítima e autêntica produção poética de José Luiz Tavares.
O livro “Lisbon Blues seguido de Desarmonia” (2008), da editora Escrituras (São Paulo/Brasil), tem posfácio de José Luis Hopffer C. Almada e ilustrações de Fernando Pacheco.
Ao vagar pelas ruas de Lisboa, Tavares apresenta sua cartografia da cidade. Peculiar é o olhar do poeta, de estrangeiro, de “moreno das ilhas”. “A mão que escreve inflama-se” ao passar por diversos lugares, passeios no elétrico, mulheres, turistas, desejos e anseios do poeta beirando o onipresente Tejo. E assim o “poeta duro” transfigura a “agreste matéria” “deste pobre ofício de palavras a que me entrego”.
O extremo rigor com o seu ofício e a exasperação da palavra poética depurada é a busca de Tavares, fazendo da agonia da tessitura poética motivo para explanar com elegância a trivialidade do cotidiano: “Apesar da ignorância da rota desses navios/ que descem o tejo, da mulher que nos subúrbios; os vê passar tão rente à sua mágoa,/ da moça tímida espiando o mundo/ da janela que em breve o escuro virá selar,// ficam bem os sinos esvoaçando sobre a tarde/ de inverno em que busca a justa palavra/ e não vê deus a tua aflição: o que cala,/ o que finge, o que mente – agreste destino/ que te cabe, tingindo pelo clarão da dúvida”.
Exacerbação da linguagem a serviço de uma incessante procura para melhor atingir uma estética rigorosa, inovadora e própria, aliando formas renascentistas, como o soneto, à versificação livre moderna. Para este “arqueólogo da língua”, no dizer de António Cabrita, que faz uso corrente de vocábulos raros e de “palavras que quase só têm lugar nos dicionários do português”, conforme declara Fátima Monteiro citada por Almada: “Entre a tusa e o lumbago arfa, insone, o polegar. O esmalte/ com que disfarça a ciática,/ que mesureiro caronte lho afiança?”. É com essa estética da expressão manifestada pelo requinte da linguagem, por vezes pictórica, que não impede a associação ao vulgar configurando fortes imagens: “A reboque de frases póstumas, num semáforo,/ à rapariga de cu redondo fescenino soneto// prometi”.
Em “Desarmonia” “me entreguei feito escravo do soneto”, diz. Mas para um poeta duro e que “leva a vida em riste” a metapoética é virulenta, o ofício torna-se ofegante transpiração e coerente com a aspereza da “Oficina irritada”, de Drummond, o soneto de abertura deste livro. Tavares demonstra destreza nas aliterações, assonâncias, rimas internas, prosódias, procura transgredir imagens e “busca o incerto elo// que une o tigre e seu modelo (...)// no ser e parecer”. Tal como Drummond, “Eu quero compor um soneto duro”, Tavares afirma que “Não fala esta poesia de coisa casta”. Logo, expandir a rigidez do soneto é uma preocupação constante, seja pela temática: “Flitena, eritema, eczema – pra soneto/ não serão baixo tema?”; seja na inspiração em Drummond: “E agora, josé, estribado vais num/ único pé, para loja e para o café// (...) mas, nas dores que os versos reinventam,// atenção ao metro, que este soneto, apesar/ de louvor ao manco pé, ao bardo aretino/ tira o boné”. Obsessiva é a transgressão do fazer poético e ironiza a rigidez das regras: “em que o metro é o polícia sinaleiro,/ quase divindade que em outra vida/ hei temido (por isso este jeito mesureiro)”.
Lê-se: “digam lá se a poesia fez ou não progressos”. Sim para este multipremiado poeta comprometido com a reinvenção da linguagem, ampliando os limites da poesia com sintaxe e semântica próprias. José Luiz Tavares é um nome incontestável da contemporaneidade e substantivo esse “Lisbon Blues seguido de Desarmonia”.

segunda-feira, 21 de março de 2011

José Luiz Tavares - Dia Mundial da Poesia

EPÍSTOLA AOS POETAS DO MEU PAÍS
(Antimanifesto para um tempo sem poesia)

Oram e laboram nas catacumbas
do mistério, os poetas do meu país.
Têm pactos com a metafísica.
São fiéis assalariados da tristeza.
Carpem a desfortuna da história,
o glorioso incêndio de roma,
e até mesmo o primeiro uivo divino.
Cobrem-se de tantas imaginárias
dores, como se lhes não bastasse
as veras que lhes dá o mundo.

Ó altos atletas da mágoa,
de lacrimais talentos possuidores,
o paraíso ou o inferno não são mesteres
de um só dia. Canção de embalo
ou acorde perfeito não erguem cidades.
À bulha com as pedras, até que derribada
a última quimera, sufocada a harmonia,
não sobre alento para canto ou choro.

E no entanto o mundo se revida?
Pobres versos não movem guerras;
sorriem antes ou desembestam caretas,
porquanto nem piedade ou cólera
defendem da humilhação e o progresso
lá vai fazendo as suas vítimas.

Ó crentes nas ideias que não defenderam
atenas do soçobro, a posteridade vale
bem menos que a gratidão do sol
esparramada por sobre esses fêveros
pardos campos. Soltar gases, armar
escarcéu, é bem mais poético e mais
humano, que o silêncio foi sempre
uma forma de morte distraída.

Ó tribunícios companheiros no altar
do verbo, se o tempo é chaga e o dom
impuro, fazei antes estalar o chicote,
ou desatai aos pinotes num desmedido
arroubo de danados.

JOSÉ LUIZ TAVARES

José Luiz Tavares nasceu em Cabo Verde em 1967 e reside em Lisboa, Portugal, onde estudou literatura e filosofia. Publicou «Paraíso Apagado por um Trovão» (2003), Agreste Matéria Mundo (2004), Lisbon Blues seguido de Desarmonia (2008), Cabotagem&Ressaca (2008) e Cidade do Mais antigo Nome (2009). Recebeu inúmeros prémios literários em Cabo Verde, Portugal, Brasil e Espanha, entre os quais o Prémio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, o Prémio Jorge Barbosa, da Associação dos Escritores Caboverdianos, o Prémio Literatura para Todos, do Ministério da Educação do Brasil, o Prémio Pedro Cardoso, do Ministério da Cultura de Cabo Verde, e o Prémio Cidade de Ourense, do Ayuntamiento de Ourense. Foi ainda Finalista do Prémio ibero-americano, Correntes d’escritas, e semi-finalista do Prémio Portugal Telecom de literatura no Brasil.

* Poema gentilmente cedido por José Luiz Tavares para publicação neste blog em virtude do Dia Mundial da Poesia.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão (resenha)


José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão

por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação nº 145, página 16, de 10 de junho de 2010

O arrebatador Paraíso Apagado por um Trovão, 1º livro de poesia de José Luiz Tavares, alcança a sua 3ª edição sob a chancela da Universidade de Santiago, ampliado com onze novos poemas, uma entrevista à Maria João Cantinho resgatada da revista Storm-magazine e pela 1ª vez com tradução para a língua cabo-verdiana. Motivo maior para celebrar este relançamento, o que faz jus à atuação contínua do poeta na língua mãe, ora na criação de poemas, ora na tradução de textos lusógrafos.

Impressiona em Paraíso... a depuração da língua portuguesa em uma autêntica reinvenção da linguagem já descrita por José Luis Hopffer Almada, explorando os limites do verbo e do labor poético com imagens por vezes insólitas e surpreendentes na rememoração criativa da infância – “pátio paraíso onde é sempre/ estio” – do poeta na rural Chão Bom, Tarrafal de Santiago: “Descer – ao chão antigo,/ agreste, familiar; (...) Regressar – à vida rude, elementar,/ Desacontecidos sucessos/ são matéria deste livro, precário/ edifício, como tudo o que é erguido/ pelo cuspo da poesia”.

Para reconstruir o passado evoca a casa, lugar primordial: “Ali fora a casa. Lugar/ das domésticas deflagrações”. Memória esgarçada recriada por uma sensível tessitura: “Às vezes, é de tudo o que não falamos/ que me recordo. Então uma cicatriz de doçura/ assalta-me os inacontecidos gestos (...) mas já não tenho a certeza se pisei esses/ polvorentos caminhos”.

As figuras marcantes desses dias estão nos poemas agrupados em Retratos Cativos. As mães ganham especial destaque: “São elas, as mães./ (...) Assim, /perto de nós, fica o eco / dos seus rostos;/ (...) Sobre as colinas da manhã/ são o mais alto nome do amor”. Cativante a recordação do “cristo de negra pele”, “velho avô de suaves cãs”: “Nele, o perfil alcantilado honrando a ascendência”; assim como as tocantes despedidas do avô quando “eu era ainda da estirpe dos inocentes”: “Erguia então o padre a/ extrema-unção, mas são meus os braços/ estremecendo agora ao derramar dos santos/ óleos”; e da cerimônia da avó: “E fez-se luz sobre a estreita cova/ quando à terra baixaram o corpo de minh’avó (...)/ Pediu minh’avó, expressamente, que assim/ fosse. Duas, três voltas deram-se à igreja; cumprindo-se assim sua última vontade./ Mas por todo esse ano eu não pararia/ de ver a sua curvada figura vigiando/ o alvoroçado recolher dos galispos”.

“Pela sirga da memória” veem outras passagens, como na escola: “Aprendemos verbos e pronomes;/ ao tabefe e à reguada. Cantada a tabuada,/ de pé, em frente ao quadro, com que alívio/ a sineta nos chamava para o intervalo”; e no cotidiano rural: “Olhai o homem que levanta o cenho/ e move o vento do pensamento (...)/ Olhai-o agora caminhando pelos sulcos,/ derramando as sementes no mês exato/ em que as aves pressurosas/ indiciam o destino das colheitas”.

Galardoado com o Prémio Mario António da Fundação Calouste Gulbekian em 2004, a estreia poética de Tavares assevera o pleno domínio do seu ofício, certifica a maturação da linguagem entrecortada por um vocabulário rebuscado que remete à Renascença, tornando complexa e fascinante a sua poesia: “Desde os almudes onde esbraceja a treva/ aos sulcos em que o vitupério uma canção/ verrina, inclina-se essa mulher/ para o fogo que vai crescendo”.

Contudo, ainda assim hialina poesia, paradoxal pela maneira como esse sujeito lírico se expressa em deslumbrantes metáforas, corvídea escritura: “o que no desterro de si mesmo/ sonha o armistício primaveril/ mas a supérstite mão do criador/ transforma em eterno arauto da catástrofe”, posto que “é disso feito o poema;/ inda o não saibas, tudo o que nele entra/ tinge-se de penumbra e mistério”.

Paraíso Apagado por um Trovão enquadra-se entre o que há de melhor na poesia cabo-verdiana, quiçá, em língua portuguesa, proporcionada por este partícipe incontestável da reconfiguração da linguagem poética, José Luiz Tavares, “aquele que de novo refaz/ a obscura trama do mundo”.

sábado, 29 de maio de 2010

José Luiz Tavares - Paraíso Apagado por um Trovão (3a. edição)

Paraíso Apagado por um Trovão, do celebrado poeta José Luiz Tavares chega a sua terceira edição sob a chancela da Universidade de Santiago. O que torna especial a atual edição é o fato de ser bilíngue, com todos os poemas transcritos em língua cabo-verdiana, além de constar uma entrevista à Maria João Cantinho em 2004.

Com esta obra, José Luiz Tavares foi galardoado com os seguintes prêmios: Prémio revelação Cesário Verde, C.M.O. 1999; Prémio Mário António, Fundação Calouste Gulbenkian 2004: e foi Finalista Correntes d’Escritas / Casino da Póvoa 2005.

Marco paradigmático na poesia cabo-verdiana, Paraíso Apagado por um Trovão é, conforme assinalou José Luis Hopffer Almada em posfácio de outro livro do poeta - Lisbon Blues, "choca, desde logo, pelo seu apuro de linguagem, num português raro, e quiçá rebuscado, na sua erudição.


Característico dessa linguagem é o seu quase despojamento do coloquialismo identitário da poética e do concreto léxico da caboverdianidade, por vezes marcada pelo chamado português literário de invenção claridosa, frequentemente chão, mesmo se – como foi anteriormente dito - assaz elaborado na sua inventividade literária e irrecusavelmente autêntico na sua pertinência cultural.

De todo o modo é o apuro da linguagem, na sua raridade e erudição, que tornam patente e incontornável o efeito universalizante de ruptura quer com o telurismo atávico, de raiz claridosa e feição novalargadista e vanguardista".

Parabéns ao poeta José Luiz Tavares por este novo Paraíso Apagado por um Trovão e pela tradução deste para a língua materna, objeto maior da afirmação identitária do arquipélago, e que tanta perseguição sofreu em um triste passado não tão distante. Há-de celebrar a produção em língua materna assumida por nomes como Danny Spínola, Kaká Barbosa, Jorge Carlos Fonseca, Zé Dy Sant'Y'Agu (heterônimo de José Luis Hopffer Almada), seguidores na tradicão do uso do crioulo de nomes como Kaoberdiano Dambará, Pedro Cardoso e Eugénio Tavares.

Ricardo Riso



ONDE HABITA O TROVÃO
UNDI KI STRUBON MORA
2.

A casa é um esboço de memórias:
primeiro, o telhado onde os gatos tecem
ninhadas. A insónia trabalha os alicerces
como furiosos êmbolos percutindo os veios.
Os filhos chamam das janelas, estendem raízes
pelos pátios num sereno avultar de astúcias.

O vento enumera as casas que foram sendo
habitação dos mortos; em segredo;
como um rumor de pálpebras
descendo sobre a surdina dos amados nomes
sussurrados junto aos poços do crepúsculo.

Ruínas de antiga ordem, fitam-nos desde
a lonjura do olvido; mas os esteios lá permanecem;
se bem que esventrados por percucientes máquinas.
Tão fundo descem que é própria raiz dos sonhos
que escarvam.
p. 22


i i .


Kaza é un sbosu di mimórias:
prumeru, tedjadu undi ki gatus ta tise
ninhadas. Insónia ta trabadja alisersis
sima piston furiozu ta rapika na veius.
Fidjus ta txoma di janela, es ta stende raís
pa pátius, nun labantar serenu di astúsia.


Bentu ta konta un pur un kes kaza ki ba ta ser
morada di mortus; sukundidu;
sima un susuru di pálpibras
ta dixi riba di surdina di kes nomi amadu
limiadu baxu djuntu di posus di kanbar di sol.


Ruínas di ordi antigu, es ta djobe-nu
desdi distansia lonji di skesimentu; mas pilar
ta kontinua la; si ben ki ratxadu
pa kes mákina ki ta diskabaka-s. Es ta dixi ton fundu
k’é propi raís di sonhus k’es ta garbata.
p. 23

 
10.

Imenso país imerso, a infância.
Cheira a mangas verdes mordidas sob
o sol de agosto. A bichos padecendo
num estio de febre.

Insoluta pátria de segredos
rescendendo pelos poros,
quando o norte se entenebrece
e as vozes do sul distante tecem
as incalculáveis rotas do regresso,

vejo-a a cada solidão adentrando
a raiz do coração; vejo-a incorruptível
por entre rápidos estandartes,
porque não de pedra
ou outra perecível matéria,

mas silente caule, raiz e húmus,
cicatriz perene — foi de um baio
que tive, jumento talvez, mas isso
que importa?, ó coração velho
que já só urros levas agora na carlinga.
p. 38

 
x.


País tamanhu murgudjadu
é mininesa. E ten txeru di mangi
mordedu na sol d’agostu.
Di bitxus ta padise nun veron di febri.


Pátria di segredus sima pedra
ta risende através di peli
ora ki norti ta sukura y kes vos
di sul la lonji ta kanta kaminhus
inkalkulável di rigresu,


n ta odja-l na kada solidon
ta kanba na rais di kurason; n ta odja-l perfetu
n ta odja-l na meiu di banderas presadu
sima kusa ki ka ta more,
ka pamodi é di pedra o dotu material
ki ta ditiora, mas pamodi
é tronku silensiozu, raís y strumu,


sikatris pa tudu senpri – foi di un kabalu
kor d’oru ki n tevi (si kadjar matxinhu,
mas kel li ka ten inpurtansia) ó kurason
bedju ki gosi so gritu
bu ta leba na kabina.
p. 39

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

José Luís Tavares: O Poeta de Todos os Prémios - vídeo com entrevista

Prezados,
Vídeo com entrevista do poeta cabo-verdiano José Luíz Tavares publicada no sítio Sapo.cv. Para assistir ao vídeo, clique em http://noticias.sapo.cv/info/artigo/1048453.html

Abraços,
Ricardo Riso

José Luís Tavares: O Poeta de Todos os Prémios
24 de Fevereiro de 2010, 18:02

Será José Luís Tavares actualmente o melhor poeta cabo-verdiano? Pelo menos é o mais premiado, aliás o jovem tarrafalense, minino di Txon Bon, aos 42 anos é o mais galardoado dos escritores cabo-verdianos.

Tudo começou, em 1999, com o Prémio Revelação Cesário Verde, da Câmara Municipal de Oeiras, a que se seguiria o prémio Mário António, da Fundação Gulbenkian, em 2004, o prémio Jorge Barbosa, da Associação dos Escritores cabo-verdianos, em 2006, para de ter sido finalista do prémio Correntes d’ Escritas/Casino da Póvoa, em 2005, e semi-finalista do prémio Portugal Telecom de Literatura, no Brasil.

Mas ainda há mais. Em 2008 e 2009 José Luís Tavares aumentou o seu curriculo ao vencer por duas vezes consecutivas o prémio “Literatura para Todos”, do Ministério da Educação do Brasil, no valor de 10 mil reais cada um, com os livros “À Bolina em Redor do Natal” e “Lisbon Blues”. Em Cabo Verde, seria ainda distinguido, em 2009, com o prémio Pedro Cardoso, com o livro “Tempu di Dilubri (escrito em crioulo).

O seu mais novo livro “Cidade do Mais Antigo Nome” acaba de sair na editora portuguesa Assírio & Alvim, acompanhado por um conjunto de fotografias do fotógrafo português Duarte Belo. O livro tem a Cidade Velha como tema principal, recentemente eleita Património da Humanidade. Não é muito usual livros de poesia com fotografias à mistura. Mas, como o próprio autor explica: “Trata-se de um livro concebido nessa perspectiva, muito visual”.

Outro dos aspectos mais sonantes das suas obras são os títulos, bastante sugestivos, como, por exemplo, “Paraíso Apagado Por um Trovão”. “Eu guardo um caderno onde todos os dias escrevo e anoto títulos e ideias poéticas sugestivas para possíveis livros”.

Mas, desengane-se quem espere encontrar Cabo Verde como ponto de partida dos seus poemas. “O mais importante é escrever, as temáticas vão mudando ao longo da vida de um escritor”. Quanto à própria escrita, são muitos os leitores para quem esta não é nada fácil, talvez pensando ir encontrar na obra de José Luís Tavares alguma ressonância próxima da maioria dos autores cabo-verdianos.

No entanto, segundo o próprio, os seus livros “vendem-se bem”. “Em dois, três anos, uma edição de mil exemplares está esgotada”. Nada mau, quando se está a falar de poesia.

Se os seus livros se vendem bem, a crítica literária lusófona recebeu o novo nome das letras cabo-verdianas de braços abertos, mostrando-se entusiasmada com a sua obra e dedicando-lhe teses de mestrado e doutoramento.


Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo poeta José Luiz Tavares em 25/02/2010.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

José Luiz Tavares - “Cidade do Mais Antigo Nome” (livro)




“CIDADE DO MAIS ANTIGO NOME” DE JOSÉ LUIZ TAVARES JÁ SAIU DA TIPOGRAFIA
Lisboa, 21 Dezembro – Editado pela prestigiada Assírio & Alvim, já está nas bancas “Cidade do Mais Antigo Nome”, de José Luiz Tavares, com larga cópia de fotografias da Cidade Velha do português Duarte Bello. Trata-se de um extenso poemário do mais premiado poeta cabo-verdiano (com importantes prémios que lhe foram atribuídos em Portugal, Brasil e Cabo Verde), actualmente a residir em Portugal. É um cancioneiro heróico, mas onde não falta um certo lirismo, sobre a Cidade Velha, Berço da Nação e hoje Património da Humanidade.

Não é um livro fácil: o verso em linguagem de recorte clássico, num português da melhor água, é por vezes duro e quase chocante, não fugindo (quando necessário e sem disfarce) ao vernáculo. É literatura da melhor qualidade.

Duarte Bello, cujos créditos como fotógrafo estão patentes em diversos álbuns e são pautados por significativas exposições, esteve na Cidade Velha, recolhendo com minúcia milhares de imagens, das quais foi feita criteriosa selecção. Duarte Bello é filho do falecido poeta Ruy Bello.

O poema de José Luiz Tavares foi escrito antes de Cidade Velha ser reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Depois encalhou por falta de oportunidade de publicação até que a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago se interessou, sensibilizando empresas e Câmaras suas amigas de Portugal. Assim, congraçando apoios, foi possível avançar para esta edição de alta qualidade.

O lançamento do livro chegou a estar previsto para Novembro, em Lisboa (na sede da UCCLA) e em Viseu, aquando da assembleia geral do ForalCPLP. No entanto, atrasos havidos na tipografia inviabilizaram estas apresentações. Agora, a apresentação oficial (lançamento) está marcada para 30 de Janeiro, na Cidade Velha, durante as Festas do Santo Nome. “Cidade do Mais Antigo Nome” será apresentado também no Tarrafal e na cidade da Praia.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

José Luís Tavares ganha pela 2ª vez o prêmio “Literatura para Todos” do MEC/Brasil

Mais um prêmio literário para o cabo-verdiano José Luís Tavares! Felicito-o por mais esta conquista aqui no Brasil!
Parabéns, José Luís Tavares!!
Ricardo Riso


Notícia publicada em destaque na Inforpress.cv
Date: Wed, 25 Nov 2009 15:40:04 +0400

Literatura: José Luíz Tavares galardoado pela segunda vez consecutiva no Brasil

Praia, 25 Nov. (Inforpress) – O poeta cabo-verdiano radicado em Portugal José Luiz Tavares foi galardoado pela segunda vez consecutiva com o prémio “Literatura para Todos” do Ministério da Educação do Brasil, soube a Inforpress.

O prémio, no valor de 10 mil reais (cerca de 423 contos), foi atribuído ao livro inédito “À bolina ao redor do natal” e será entregue durante a Conferência Internacional de Jovens e Adultos, que acontece em Belém do Pará, às portas da Amazónia, de 4 a 8 de Dezembro.

Em declarações à Agência Inforpress, a partir de Lisboa, o autor de “Lisbon Blues” disse que o livro agora premiado será publicado na Colecção Literatura para Todos, com uma tiragem de 300 mil exemplares.

De acordo com o galardoado, as publicações serão enviadas às entidades parceiras do Programa Brasil Alfabetizado, às escolas públicas que oferecem a modalidade EJA, às universidades da Rede de Formação de Alfabetização de Jovens e Adultos, aos núcleos de EJA das instituições de educação superior e às unidades prisionais, entre outros.

Recorde-se que Tavares recebeu esse mesmo prémio em 2008 pelo livro “Os secretos acrobatas”, que se encontra neste momento em processo de editoração.

Este prémio vem juntar-se ao prémio Pedro Cardoso, que lhe foi atribuído o mês passado pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde, pelo livro inédito em língua caboverdiana intitulada “Tenpu di Dilubri”. Este prémio, no valor de mil e duzentos contos caboverdianos, é o prémio de maior dotação monetária no país.

Além desses prémios, o poeta do Tarrafal (menino di Txon Bon, como se auto-intitula) conquistou outros prestigiados prémios no estrangeiro e em Cabo Verde, tais como o Prémio revelação Cesário Verde, da Câmara municipal de Oeiras, em 1999, o prémio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, em 2004, o prémio Jorge Barbosa, da Associação dos Escritores Caboverdianos, em 2006, tendo ainda sido finalista do prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, em 2005, e semi-finalista do prémio Portugal Telecom de Literatura no Brasil.

Recorde-se que além dos prémios, Tavares tem recebido largos encómios da crítica um pouco por todo o mundo da língua portuguesa, nomeadamente em Portugal e no Brasil, onde as suas obras já são objecto de teses de doutoramento.

Falando de outros projectos, José Luiz Tavares indicou que terá nas bancas ainda esta semana o álbum “Cidade do mais antigo nome”, que toma como objecto a Cidade Velha de Santiago, património cultural da humanidade, editado pela mais importante editora de poesia do mundo da língua portuguesa, a Assírio e Alvim de Lisboa.

À Inforpress, o escritor anunciou que em meados de Dezembro sairá uma nova edição, a terceira, de “Paraíso Apagado por um trovão”, desta vez bilingue (traduzida para caboverdiano pelo próprio poeta), corrigida e aumentada.

A edição será da novel editora, a Santiago edições, da universidade de Santiago.

Sempre na vanguarda, José Luiz Tavares assegurou à Agencia Cabo-verdiana de Informação que as obras em português estão escritas segundo o novo acordo ortográfico, que entrou em vigor em Cabo Verde no dia 1 de Outubro, como já acontecera com o livro anterior “Lisbon Blues” editado o ano passado no Brasil, e as em língua caboverdiana usando o alfabeto caboverdiano aprovado em Março pelo governo.

Tavares, nascido em Cabo Verde em 10 de Junho de 1967, mas residente em Portugal, onde estudou Literatura e Filosofia e onde escreve poesia, deverá estar em Cabo Verde em meados de Dezembro e finais de Janeiro para a apresentação dessas obras.

Inforpress/Fim

Fonte: e-mail enviado pelo poeta José Luís Tavares em 25/11/2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde): resenhas de Ricardo Riso

Prezados(as),

As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº113 DE 29 DE OUTUBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se a minha primeira resenha crítica - FILINTO ELÍSIO: LI CORES & AD VINHOS - para este veículo. A periodicidade será quinzenal. O texto, na íntegra e com alguns poemas do livro, encontra-se em http://ricardoriso.blogspot.com/2009/10/filinto-elisio-li-cores-ad-vinhos.html
Na próxima, o escritor a ser resenhado será o cabo-verdiano Mário Fonseca e o seu livro Se a luz é para todos; nas seguintes comentarei Praianas de José Luis Hopffer C. Almada e Lisbon Blues seguido de Desarmonia de José Luiz Tavares.

Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado aqui no blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com
Agradeço a todos os que me acompanham e incentivam nessa estrada.

Abraços,
Ricardo Riso


sábado, 27 de junho de 2009

José Luiz Tavares - Cidade do Mais Antigo Nome (Excertos)

CIDADE DO MAIS ANTIGO NOME (EXCERTOS)

13.

Não pediste o alimento ínvio
nos íngremes dias de infância,
nem o peso do pó regateaste
pelo lento entardecer dos anos,
embora setembro nas alturas
seja tanta luz a apascentar o verde.

Altas vozes te nomearam
impávido cordeiro do sacrifício,
mas sei que eras apenas essa criança
sobressaltada quando no horizonte
surdem velas corsárias e o céu se
despenha da rota algibeira de deus.

Por isso este abismo cavado
à flor da tua fala mansa, e as luzes
que trazes nos cabelos pulsando
como um anoitecido rebanho de estrelas.

Estes desgrenhados versos que te ofereço
agora são o viático da desforra
nos enrouquecidos pulmões da história:
tudo cabe na garganta do tempo
ou à ilharga desse sol pernalta
pastoreando as mudáveis coisas do mundo.



44.

Quanto vento arremessou a poeira
da tua solidão? Que preces se calaram
nas bocas escorchadas dos mortos?
E no entanto, donairosa envelhece a tarde
agora que os seus fulvos calcanhares
singram as várzeas derradeiras.

Demo-nos um novo começo na voz
áspera das ribeiras, nas madrugadas
de conjuras, nos tropeços destes versos
que não pedem meças às aves alquebradas
pelos langores doutros céus.

Antes do verbo já eras carne,
e corpo de rapina mercadejado no pelourinho
onde vinham bater, na voz dos negros arfando,
já não o sol das áfricas, lêveda lembrança da pátria
ancestral, mas a imorredoura noite da alma,
abismos animados pela fêvera voz do terror.

Sem a altivez dos cantadores de vozes felinas,
sou um pedinte desabrigado nos embolorados
pátios da história. E nada me pesa mais
que o olhar falcoeiro que te deitam
desde os rapaces gabinetes de fomento.



47.

Como lembrança que se insinua
na flora acesa do crepúsculo
com a alada gravidade
de um pueril deslumbramento
retrato do olvido
canção sem nome

eis-te à esquina triste do poema
branco fantasma tumultuando
a vigília nos empardecidos
pátios da história

de novo me dirás a áspera ternura
irmã da ira ou tão só a escura cinza
dos presságios trespasse dos delírios
urdidos sem paixão nem fúria

que esquecer que não seja
o que fica além do verso
oculto tremor celeste desalinho
inacessível às palavras incensárias
que um dia segredaram
com suspeitosa mansidão
um nevado país a insinuar-se
no rasto obstinado das cassiopeias
agora campo vedado
aos toldados vaticínios do futuro?



80.

«Então erguemos uma morada
junto à costa bonançosa,
sob um teto de altas nuvens»o
concluiu a voz,

«e à terra demos o nome de ribeira
grande, por mor das tumultuosas águas
que por ela descem caminho do mar.

E cumpriu-se então, aqui, nossa sina
obscura, tecida pelas inextricáveis linhas
com que se inventa uma pátria.»

E se agora te nomeio, ó senhora da melancolia,
com os rasos signos da poesia,
é porque nela vivo para a futura morte
de tantos dedos, tal essa magnificente mulher
voltejando nos soberanos pátios duma ilha
onde pulsa o calado fulgor do antigo amado rosto.


JOSÉ LUIZ TAVARES


Fonte: e-mail enviado pelo poeta às 13h54, dia 26 de junho de 2009.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

José Luiz Tavares - Retrato do Poeta aos Quarenta e Dois

Ao poetamigo José Luiz Tavares,

Minhas felicitações por mais um aniversário! E nada melhor que celebrar esta data divulgando a sua poesia com o belo poema enviado pelo senhor.

Com admiração, carinho e respeito, um grande abraço
Ricardo Riso


RETRATO DO POETA AOS QUARENTA E DOIS

Quarenta e mais dois são os contados
anos, de parcos milagres, nulas maravilhas,
créditos de quantos dias hipotecaste
ao fingido desvelo dessa mão afoita.

Partias. E eram já estendal de arroteado pó
as várzeas de vário verde, lêveda lembrança
de quando vós, senhora de navegáveis curvaturas,
vos arregaçáveis, estendida sobre um dealbado
chão de sargaços, para a impante glória
desse atamancado coração
rendido à ressaca que o rilha p’la calada.

Quarenta e mais dois, não de enganos tantos,
mas da certeza que estar vivo é soluço
que descamba em ruivos dessangrados versos,
suados colhões belicosos, inda tão lembrados
dos desvelos, amorios — ó mistério de leveza —
que lhes davam mãos perdulárias
à mesa posta da penúria.

Quarenta e mais dois, e eis-te desconforme
ao ar do tempo, cão que ainda se eriça
ao tartamudo rilhar do vento à flor das gáveas,
ao arfar recidivo e rombo,
à sílica golfando nos costados lacerados.

Céus de lua nova, dai-lhe um firme ombro
para os súbitos rasgões da saudade,
arte para quanta ginga a vida requeira
— embora a bigorna dos meses crepite
silenciosa nos alveólos, aos quarenta e mais dois,
dores, tirando certos avulsos cagaços,
apenas as poeticamente repartidas por alguns
celebrados livros que lhe não fizeram mais
refinado em meio a tanta cabronada.

Quarenta e mais dois, quase novo, quase velho
o rosto que sombriamente o espelho lhe devolve,
mas ainda não menos impoluto que o infante ranhoso
dos valados, por isso, ó vós castrados para a vida,
vós que tendes por expertise a salivante
arte do broche, tomai lá disto em forma de pum
e remoei-lo, ó vorazes milhafres do zunzum,
tal cautério para a vossa angústia de capados.

JOSÉ LUIZ TAVARES


(poema enviado pelo poeta em 09/06/2009)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bouquet de Estrelas para Arménio Vieira, por José Luiz Tavares

Esta belíssima homenagem ao escritor Arménio Vieira, galardoado com o Prêmio Camões, foi enviada pelo poeta José Luiz Tavares. Aqui, compartilho com vocês.
Parabéns, Arménio Vieira!!!
Ricardo Riso
BOUQUET DE ESTRELAS PARA ARMÉNIO VIEIRA,

DITO CONDE, REI À NOSSA MANEIRA

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.

Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.

Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».

A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar - no desconforto de um tempo de imundície terror e morte - beleza.

Lisboa, 3 de Junho de 3 de Junho de 2009
José Luiz Tavares (jltavares.poeta@gmail.com)
Fonte: e-mail gentilmente enviado por José Luíz Tavares às 13h31, dia 03 de junho de 2009.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

José Luiz Tavares - entrevista

A entrevista abaixo foi publicada no semanário cabo-verdiano A Nação em 21/05/2009, e gentilmente enviada pelo escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares. JLT foi selecionado entre os cinquenta finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009. Melhores informações em http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=23443&idSeccao=518&Action=noticia
Abraços,
Ricardo Riso

Entrevista a José Luiz Tavares — Poeta

1. Considera-se um “enfant terrible”?
R: Não, não me considero. Terrível era Ivan e, que eu saiba, não sou russo. No entanto não deixo de reconhecer que possuo uma personalidade poética áspera, detonadora de atritos, no sentido em que a física o entende.
Enfant, serei sempre, pois é preciso conservar uma certa inocência, que não ingenuidade, e aquele módico de pureza que é o melhor antídoto contra a peçonha e as safadezas do mundo.
Claro que eu passo por ser um indivíduo desbocado, arrogante, destemperado, porque os senhores feudais da literatura caboverdiana e da lusofonia, os compadres do elogio mútuo e das palmadinhas no lombo não estavam habituados a que alguém lhes olhasse nos olhos e dissesse ao que vinha, independentemente de lhe assistir razão ou não. Ainda tenho presente o célebre discurso da Gulbenkian na cerimónia da entrega do prémio Mário António, em que metade da assistência ficou a olhar para mim entre o atónito e o assustado. Até amigos meus disseram-me que tiveram receio de aplaudir.

2. Como estudioso, como poeta existe de facto de uma escrita contemporânea cabo-verdiana?
R: Não sou estudioso no sentido em que as pessoas entendem habitualmente essa figura. Eu estudei, li, apetrechei-me teórica e tecnicamente para exercer a minha arte com a mais funda consciência dos seus pressupostos, não para produzir obras teóricas fora do âmbito da criação artística. O grande pensador de origem judaica George Steiner, chamava a essa capacidade teórica incapaz de criação inteligência parasitária ou secundária.
Tudo aquilo que faço e sei tem que convergir na obra. Para elucidar este aspecto, conto-te este episódio: em Setembro de 2004 pedi ao João Vário que apresentasse os meus livros paraíso apagado por um trovão e agreste matéria mundo na feira do livro do Mindelo. Vário, que possuía um notável conhecimento das coisas da arte, e que chamava agreste matéria mundo de livro de ensaios (eu prefiro poesia do pensamento ou lírica reflexiva) disse-me que não o faria, pelo simples facto de que os meus livros não tinham genealogia na literatura caboverdiana e que não eram livros que podiam ser apresentados assim do pé para a mão. Prometeu escrever sobre eles um artigo para a revista anais, mas infelizmente o seu estado de saúde não lho permitiu.
Quanto à contemporaneidade ou não da escrita caboverdiana, só entendo a questão num âmbito comparativo, isto é, se aquilo que se faz cá é co-mensurável com aquilo que se faz lá fora. Penso que nalguns aspectos sim, embora a literatura caboverdiana tenha padecido sempre de um problema de desfasamento, o seu grande problema genético. Repare, por exemplo, naquilo que é considerado o nosso modernismo: esteticamente é profundamente reaccionário em relação às grandes correntes, se pensarmos nas vanguardas que nesse tempo vicejavam e feneciam por esse mundo de deus.

3. Na tua condição de intelectual, de poeta, de homem incomoda-te ser rotulado “escritor cabo-verdiano” com todos os pressupostos que daí advêm? Que escritor, que género de literatura quem lê a sua obra vai encontrar?
R: Eu não sou intelectual nem tenho essa ambição, o que não me impede de atirar umas pedradas de quando em vez, mas sempre a partir da minha condição de escritor e de homem livre que não ambiciona mais nada senão traçar os contornos dos mundos a haver e esboçar o rosto do povo do futuro. Ambição sísifica, provavelmente, mas eu não nunca me conformei com os rasos eventos do dia ou com os pequenos mundos além da esquina.
Escritor e caboverdiano sou, como já respondi em certa ocasião, uma coisa está subsumida na outra, ainda que múltipla e fragmentária seja a condição de todo o criador autêntico. Agora o que é preciso é perceber se determinados livros se encaixam na sua tradição nacional, ou se se enquadram em âmbitos mais vastos e mais desterritorializados. Ou se é a condição étnica, jurídica ou linguística que determinam a sua pertença a esta ou aquela tradição de escrita.
Eu próprio que vivo agudamente, mas sem drama, essa ambivalência, em termos de obra produzida, não tenho nenhuma dúvida em relação à minha pertença enquanto indivíduo ao âmbito da literatura caboverdiana, recusando, com prejuízo para a minha privada, adquirir, até esta data, a nacionalidade do país onde vivo. Isto não quer dizer que o não possa fazer amanhã, mas nunca por calculismo, como alguns que conheço, que, sendo de direito caboverdiano e português, nunca tinham assumido essa dupla condição, vindo a fazê-lo porque enquanto portugueses nunca as suas obras obteriam qualquer projecção.

4. Tempos atrás afirmou que em Cabo Verde “infelizmente, demasiados maus livros têm sido premiados, o que não deixa de ser um sintoma preocupante”. Sinal que a nossa literatura actualmente é má?
R: Abraão, não me puxes pela língua, que sou suficientemente insensato para dizer umas verdades. A afirmação atrás citada foi proferida por mim num contexto determinado que foi a atribuição do prémio Jorge Barbosa pela Associação dos escritores Caboverdianos ao meu livro «Agreste Matéria Mundo», que tinha concorrido ao prémio sonangol e foi preterido em favor de um outro livro. Como sabe, houve alguma polémica à volta do assunto na rádio e nos jornais, mas nada disso é relevante. O que importa é o valor intrínseco da obra, e se ela nos acrescenta ou não, não apenas como povo, mas também enquanto agregado civilizacional, e penso que quanto a este último aspecto ninguém esclarecido e de boa-fé alimentará quaisquer dúvidas.
Se a nossa literatura é má? Eu não quero fazer um julgamento holístico, por atacado. Há alguns, poucos, livros bons, e do resto não cuido pois não me interessa.

5. Em Cabo Verde ninguém comenta ou fala da obra de outros escritores, por medo ou pequenez do meio. Desafiaria o JLT a dar-me os nomes mais pujantes, donos da melhor literatura feita por cabo-verdiano nos últimos anos?
R: Eu não quero falar de nomes, grupos, capelas, confrarias, tugúrios, movimentos e quejandos. Como lhe disse, prefiro falar de livros, mas em todo o caso posso fazer um breve excurso. Depois da morte do João Vário, mestre insuperável, o Arménio Vieira é o nosso maior escritor vivo. Há dois anos publicou um livro magnífico, Mitografias. É pena que não produza mais. O Vadinho é um poeta com grandes capacidades, ainda que por vezes demasiado enredado em alguns labirintos metafísicos. O Filinto atingiu um momento alto com «Das frutas serenadas». O Mário Lúcio é o nosso prosador mais imaginativo. Ah, falta o JLT, mas desse não posso falar.

6. Parece que por estas bandas os prémios fazem os nomes. Que valor dá aos prémios?
R: Os prémios podem fazer os nomes, mas não fazem as obras. Já vi algumas invencionices em Cabo Verde, donzelas e mancebos transportados ao colo por serem membros ou simpatizantes da confraria A ou B, ou porque é preciso atender a determinadas mitologias geográficas ou culturais, mas passado o efeito da bolha e da zoeira mediática, retornam ao lugar que lhes cabe.
No meu caso acho que todos os prémios que ganhei, ganhei com mérito, mas também posso estar enganado. Até já fiquei a saber que deixei de ganhar determinado prémio porque o júri não me considerou suficientemente modesto.
Para mim os prémios têm duas vertentes a considerar: dão visibilidade a uma obra e podem funcionar como um estímulo à produção de novas obras. Nunca é uma finalidade em si. É por esta razão que prefiro os prémios atribuídos a obras existentes do que bolsas de criação, que são atribuídas a uma intenção que pode transformar-se em obra de mérito ou não.

7. Dos prémios que já recebeu, qual ou quais os mais simbólicos para si?
R: Acho que todos os prémios que recebi foram importantes, desde as minhas redacções da escola primária que eram escritas no quadro para a classe copiar, até ao mais importante prémio literário que um autor caboverdiano alguma vez ganhou, o prémio Mário António da fundação Calouste Gulbenkian. O prémio Cesário Verde ocupa um lugar especial, pois foi o primeiro prémio literário significativo que ganhei. As distinções no antigo suplemento literário DN-jovem do Diário de Notícias faziam bem ao ego, pois eu tinha essa fixação tola de tentar provar que era tão bom ou melhor que o melhor dos portugueses que lá escrevia. O ter sido um dos dez finalistas das correntes d’escritas no meio de grandes monstros da poesia de língua portuguesa e espanhola, foi um momento assinalável. O Prémio Jorge Barbosa tem um significado particular, dado que foi a primeira vez que fui premiado no meu país. O prémio literatura para todos abriu-me um pouco mais as portas do Brasil. A indicação para o prémio Portugal Telecom, ao lado do Mia Couto e do Pepetela, é algo que não acontece todos os dias.

8. É voz quase unânime que daqui a poucos anos és um sério candidato ao prémio Camões. O que pensas dessa possibilidade? É algo que está no teu horizonte?
R: Não sou responsável por aquilo que os outros acham ou deixam de achar. É a opinião deles, nada mais do que isso. O que posso dizer é que quem me conhece sabe da minha determinação em construir uma obra consistente, até com sacrifício dalguns aspectos da minha própria vida. Mas cada um escolhe o seu destino, e eu escolhi este. Se esse prémio for o reconhecimento da consistência e da singularidade de um percurso, será bem-vindo, mas não estou preocupado com isso. Só a obra interessa, e é nela que empenho todas as minhas forças e capacidades.

9. Outra afirmação sua “Passa pela cabeça de alguém que hoje quando se fala da literatura cabo-verdiana se esqueça do nome de José Luís Tavares?” Como situaria a sua obra dentro da historiografia da literatura cabo-verdiana?
R: Essa afirmação foi proferida na sequência da atribuição do prémio Jorge Barbosa e reportando à atribuição de medalhas culturais, que eu já avisei para ninguém pensar em ma atribuir, pois teria de recusar dada a inexistência de critério na sua atribuição. Até uma vez fui sondado, na altura em que ganhei o prémio Mário António, para saberem se eu aceitaria o passaporte diplomático, na presença de uma terceira pessoa que o pode confirmar, mas recusei, pois na altura não estava claro para mim se não se tentaria condicionar a minha actuação por via dessa aceitação. Tenho sofrido alguns dissabores nas viagens que efectuo um pouco por todo o lado, mas face às circunstâncias da altura entendo que fiz bem em recusar. Comigo tem que ser tudo muito transparente.
Agora respondendo à questão: eu não me situo na literatura caboverdiana. Deixo esse trabalho a esses outros que vivem de botar faladura em relação à obra alheia. Em todo o caso, posso dizer: acho que sou um ET ali numa terra de ninguém. Se se quiser, entre mim e os outros, há um século de diferença. Por ora sou o único escritor caboverdiano do século xxi. Esta afirmação não é do domínio axiológico, isto é valorativo, mas sim cronológico, embora possa ser lida também na primeira acepção.

10. JLT é um poeta do português ou português das ilhas? Por outras palavras: a tua obra é comparável aos melhores autores portugueses de origem ,mas o facto de ser cabo-verdiano pode diminui-la aos olhos dos críticos?
R: Eu gosto de dizer que sou poeta do português. Isto de ser um escritor que vem das periferias da língua e escreve no coração da antiga metrópole colonial, tem vantagens e desvantagens. A vantagem é às vezes as coisas surgirem donde não se esperava, e de espanto em espanto, se a obra for consistente, atingires patamares que provavelmente o teu país não te proporcionaria. Terá sido isso que aconteceu com «Paraíso apagado por um trovão. Apesar de estar a falar em causa própria, em vinte anos de vida em Portugal nunca vi uma recepção tão clamorosa a um primeiro livro de poesia, sobretudo tratando-se de alguém que é estrangeiro em relação à língua e completamente estranho ao meio literário. Nem no caso do meu amigo Gonçalo M. Tavares, esse escritor portentoso, dos mais notáveis que apareceram em Portugal nos últimos decénios.
O reverso é uma certa suspeita que se instala em relação a ti, quer da parte dos teus correligionários do tipo «este agora está armado em escritor português» ou «é o novo protegido dos brancos», quer dos críticos ou escritores que se julgam donos da língua, mas como já não podem exercer sobre ti nenhum tipo de tutela ou porque a tua obra alcançou uma visibilidade que a deles não obteve, entram na fase do bloqueio. A propósito destes dois pontos de vista gostaria de citar um excerto de uma crítica do António Cabrita, um dos críticos que melhor tem lido os meus livros, a propósito de Agreste Matéria Mundo: « estamos diante de um caso literário a que só a miopia de uma certa crítica obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo. Com José Luiz Tavares apetece lembrar o que Brodsky escreveu sobre Derek Walcott: esta cobardia mental e espiritual patente nos intentos para converter este homem num escritor regional pode explicar-se também pela pouca vontade da crítica profissional em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro». Pronto, foi o meu momento de egolatria.

11. Falando da língua portuguesa é a favor do acordo ortográfico?
R: Completamente a favor, por motivos particulares. Aliás, Lisbon Blues está escrito segundo as novas normas da grafia do Português. Para além das vantagens geo-linguísticas para o português, ele vem escavacar os não-argumentos desses que se opõem ao alfabeto caboverdiano. É o mesmo princípio, ainda que mitigado, que preside ao espírito dessa reforma.

12. E o crioulo? Oficializa-se ou não...que opinião sobre esse arrastamento do processo de oficialização da língua materna cabo-verdiana?
R: A oficialização da língua era para já ter sido ontem. A língua é o primeiro pilar da identidade de um povo, e se há quem não perceba isso, então estamos mesmo mal do ponto de vista da nossa consciência enquanto povo, nação e agregado civilizacional...

13. Há uns tempos li num blog que tinha dito que provavelmente nunca será em crioulo o poeta que é em português? Porque?
R: Isso é óbvio, Abraão. Eu tenho trinta e cinco anos de labuta com o português escrito. Há toda uma literatura produzida ou traduzida para o português, uma língua com praticamente nove séculos de existência e cujo percurso de consolidação escrita é paralelo à sua expansão oral. Como poderei eu da noite para o dia inventar as imagens, metáforas, boleios, acrobacias que tenho à minha disposição em português e que fazem parte de todo um arsenal que tenho há muito interiorizado? Não é um problema da natureza da língua caboverdiana ou das suas possibilidades expressivas. É preciso tempo para que a língua atinja o seu esplendor literário, para que se construa um idioma poético que ainda se encontra demasiado indexado à matriz oral e popular.

14. Fale-me um pouco do seu projecto Lisbon Blues seguido de Desarmonia?
R: Lisbon Blues e desarmonia são dois livros autónomos escritos em tempos muito diferentes, mas que por motivo de oportunidade editorial foram juntados num único volume.
Lisbon Blues é um projecto antigo. De todos os meus livros publicados é o mais antigo em termos de projecto, se bem que da primeira versão, que data de há uns quinze anos, tenha sobrado muito pouco. É a primeira vez que escrevo um livro a partir na minha condição étnica. Sem ser demasiado óbvio (aliás, nada na minha poesia é óbvio), ele é um livro profundamente político no sentido original da palavra polis.
Quanto a desarmonia (tecnicamente o livro mais exigente que já escrevi) nasceu da necessidade (e da dificuldade) de traduzir os sonetos de Camões, e não os Lusíadas como uma colunista suína e ignara andou a propagar por aí. A certa altura desta empresa dei-me conta que só dominando a técnica do soneto enquanto poeta poderia defrontar o grande Camões. O livro que ora dou à estampa é o resultado dessa aprendizagem minuciosa, e que de um ponto de vista formal foi o livro mais fácil e mais difícil de escrever. O resultado, sem qualquer auto-complacência, não desmerece o esforço dispendido.

15. Como vê a situação política social de cabo Verde a partir da diáspora?
R: Eu tenho uma gratidão e uma admiração profunda pelas gentes do meu país, políticos incluídos, sem olhar a partidos ou ideologias. Penso que todos eles, mesmo quando há desacertos, têm tentado fazer o melhor para Cabo Verde.
Claro que me inquietam alguns fumos (e até fogo) de corrupção, a questão da segurança, sobretudo na capital, a delapidação paisagística através da construção desenfreada e de um turismo intensivo de baixa qualidade, a propriedade e o uso dos solos e, concomitantemente, a especulação fundiária na qual anda metida meio Cabo Verde, se se vier a confirmar as denúncias vindas a público. Em qualquer caso os motivos de regozijo são bem maiores que os de crítica.

16. Volta um dia para leccionar e viver em Cabo Verde?
R: Nós falamos disso há dois anos. Aliás, aproveito a ocasião para lhe agradecer, pois parece que o Abraão é o único que dá pela minha presença quando venho a Cabo Verde. Você e o José Maria Varela da inforpress.
Se está lembrado, há dois anos disse-lhe que a minha vinda tinha apenas a ver com condições psicológicas: basta-me sentir capaz de produzir cá como onde estou. As coisa mantêm-se no mesmo ponto, se bem que hoje tenha uma razão particular para vir viver para Cabo Verde.

Lisbon Blues, de José Luiz Tavares - resenha por António Cabrita

A resenha abaixo foi gentilmente enviada pelo escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares acerca do recente livro de poesia, "Lisbon Blues seguido de Desarmonia". Lançado no Brasil pela Editora Escrituras, o livro integra a coleção Ponte Velha.
Abraços,
Ricardo Riso


TRATADO DE URBANISMO
Algumas notas sobre «Lisbon Blues seguido de Desarmonia» de José Luiz Tavares
Por António Cabrita*
1
Escreveu Eugénio Montale, poeta que amo: «a arte é a forma de vida de quem na verdade não vive: uma compensação ou um sucedâneo. Por outro lado não justifica nenhuma deliberada turris eburnea: um poeta não tem que renunciar à vida. É a vida que se encarrega de escapar-se-lhe». E não concordo nada, porque a essa falsa dualidade (vida ou arte) se antecipa a condição do âmbito.

Pense-se num piano. Como móvel não passa de um objecto. Mas o piano dá a possibilidade de criar uma obra e o intérprete dá ao piano a possibilidade de que essa obra seja – é um enriquecimento mútuo. É uma experiência com uma dupla direcção, e o piano deixa de ser um objecto para ser um âmbito. O Picasso teve a mesma experiência quando encontrou por acaso um selim de bicicleta ao lado de um guiador tresmalhado e “viu” que aquele cruzamento inesperado desenhava a cabeça de um touro. Com isso fez uma nova escultura, mas a transformação foi mútua, esse encontro modificou o seu olhar.

No plano da criação, um âmbito é o que cria um nó de relações que nos transforma. Evidentemente que a poesia é um tabuleiro ideal para o jogo da reversibilidades que o âmbito propicia, razão pela qual, como dizia o poeta brasileira Mário Quintana — lá está o paradoxo, um poeta que não amo — a poesia não é uma fuga da realidade mas «uma fuga para a realidade».

Por isso pergunta José Luiz Tavares, ecoando Rilke: «Porém, se eu gritar pelo real,/ que vivo louvado deus me trará mais do que/ o embolorado eco que na memória ecoa?» (119) Na memória das palavras, acrescente-se, nesse redil da língua, continua Tavares, «onde se cresce/ e se morre com os pulmões ungidos pelo trovão». (119) O trovão é cego, a luz que o antecipou não, mas a irradiação do relâmpago só se torna palpável (veja-se a ironia) se a palavra lhe for trânsito na sua fuga para a realidade, onde finalmente se converte em experiência, em jogo partilhado, em âmbito. De onde ressalta que a poesia é mais um meio de conhecimento que de representação e, em segundo lugar, que não há nesta hipótese a vida de um lado e a literatura de outro. É o que trama José Luiz Tavares, e penso ser o incremento dos grandes poetas.

2
Não há escapatória ao que nos tornou únicos e irrepetíveis e conformou um destino. José Luiz Tavares: pobre, negro, cabo-verdiano, com os pais na diáspora. Cedo se vê dividido por uma dupla diáspora. O da periferia da língua materna, o crioulo, e a diáspora na língua: o português. Quer-se caldo mais vulcânico? José Luiz negou o que separa, fez do que consterna uma afirmação: «Mas faz da tua vida uma arte da recusa:/ da pátria, em que célere te amortalham, /tu que só nos versos os sinais que salvam/ vislumbraste»(154), e arrancou-se pelo transe da poesia à sua condição periférica. Quando desembarca para estudar em Lisboa, com o lume programático que é o seu, já sonha devolver à lusíada língua algum brilho, uma «intacta geometria» tonificada pela aragem e um vinco de sangue, de modo a emboscar os sortilégios. Claro que em tudo isto se padece; se calhar, como diz Le Clezio, um dia descobriremos que nunca houve literatura, que ao invés houve sempre medicina. Medicina porque o autor escreve para se salvar. Catarse.

Mas vou contar um segredo: a catarse de nada vale, o que importa é o que fazemos com ela. Como a deslocamos, transfiguramos, a dotamos de sortilégio. Só esta translação, a que muda a dor em dom, importa: «E vendo assim lisboa (so beautiful)/ assalta-me a lembrança de um outro azul/— sob suas fímbrias plantei/ renques de acácias e tabuletas alusivas; /sob seus desdoirados ramos/ desamores lamentei/que não sou amigo do rei,/ nem cheganças com deuses hei./Mas se é de sua lei/ que, embora triste, seja altivo amigo/ da grei, tal sina não maldigo;/ talvez mesmo comigo diga:/grato estou a estes claros dias/ em que das lágrimas fiz maravilhas.» (LEMBRANÇA DE MANUEL BANDEIRA…). Acrescente-se a isso o Ofício, o abnegado gesto de calcetar diariamente a palavra, fazendo com que vida e a escrita convirjam, não por vaidade ou orgulho, mas porque assim se respira, e temos “o desgoverno” deste autor cabo-verdiano, omnívoro homem do mundo e da cultura que, quanto mais se expande no magno e transcontinental perímetro da literatura, mais se aproxima da sua origem.

3
Eis a cartografia e os seus endereços, nesta Lisboa contida em José Luiz Tavares.

O verdadeiro resgate deste livro é a sua consciência crioula, mestiça, o entrelaçado dos seus veios no ladrilhado dos seus versos. Ao jeito de uma bebinca. Expliquemo-nos. Temos a camada da Lisboa empírica, a da locomoção e vivência do poeta: as noites, engates, itinerários, passeios, eléctricos, turistagens, desejos, expectativas e rasgões deceptivos no plano existencial, o recorte da vida; depois temos, noutra camada, isso confrontado com a memória da Lisboa dos poetas que o poeta lê – Cesário, Vitorino Nemésio, Armando Silva Carvalho, o inevitável Pessoa, etc.- : a tradução literária -; ao que se sobrepõe nova camada com a memória transpessoal dos lugares: do rio, omnipresente, aos monumentos, às ínfimas e bolorentas tascas, ou aos cafés, miradouros, jardins e praças, e à sua importância topológica no cruzamento de comunidades díspares.

Isto leva a que, ao arrepio da maior parte da poesia hoje dominante — que usa e abusa de um só tempo verbal, coincidente com o do poema, e se concentra num episódico quadro temporal — José Luíz Tavares (como antes dele, Jorge de Sena e João Miguel Fernandes Jorge) faça da História (literária, social, da linguagem) um harmónio e convoque a «longa duração» na tessitura dos seus poemas, sem medo de para isso por vezes recorrer à dissonante elipse como processo: «Deste-me telegráficas razões/ para o desamor./ O noturno arco-íris/ outra vez presa do teu riso — por muito menos abandonei filhos/ e mulher, e automóvel/ à saída do emprego./ Rossio à noite tem ciosos habitantes,/ pretos das africas de sorriso na algibeira,/ eu diria que gente (embora a saldo/ para qualquer leve inconveniente)/ que naves já não negreiras desembarcam/ por sob um céu que públicos contendores/ disputaram o matiz -/ eu diria que fúcsia, por vezes sépia,/ como nesse fundo de caravaggio/ em que pretos de ginga e volteio/ aguardam o vago Sebastião/apreçando a jorna em indecifrável algaravia.» (Noturno do Rossio).

Depois, o seu caudal discursivo é ainda mestiço (uma intertextualidade em devir perpétuo e em mútua influência) pela associação automática, a simultaneidade de tempos históricos, as sequências de imagens intensamente visuais ou as citações literárias implícitas; sendo em si mesma a linguagem um feixe ou uma multiplicidade de registos e modos de uso que disputam pertinências e convenções e articulam o erudito e o calão, ou, lubricamente, curto-circuitam o dizer em voga com um delicioso paté de anacronias verbais (- «sabotagem linguística» pela qual o autor lembra a fatuidade épocal de todo o dizer). Dantes, dizia-se que estes poemas se comportavam como palimpsestos, agora será mais exacto pegar num vocábulo que o autor usa várias vezes: são fractais, variantes na serialização que a literatura é, figuras auto-reflexivas e costuradas num discurso que sabe colocar todas as máscaras e dilui-las ou fundi-las com uma facilidade, uma técnica ou um fôlego invejáveis.

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A meio caminho de vida do poeta houve o “acontecimento do soneto”. É o que dá notícia o segundo dos livros aqui compilado «Desarmonia —Sonetos Esconsos».

O soneto está para a poesia como o piano para a música: 72 teclas e uma pauta infinita de variações. No caso, 14 versos e uma girândola de fogo preso. O soneto é, intrinsecamente, um oximoro, pois propicia a maior das liberdades induzida pela maior das disciplinas. Que o diga o indiano Vikram Seth, que fez um romance de 300 páginas em sonetos, «The Golden Gate». Quando se tem a ilusão de dominar o soneto — o qual deixa sempre um rabo de fora — o poeta fica obcecado, como a língua que encontra um molar rachado que sonda, interminavelmente. E constitui um dos maiores riscos no domínio da poesia, no sentido em que a disciplina a que obriga pode secar o poeta, acantoná-lo na técnica. Ledo Ivo, um dos bons poetas brasileiros da geração de cinquenta, e que debutou com longas elegias, inflectiu no soneto ao terceiro livro e ao décimo lamentaria ter-se confinado ao seu espaldar rítmico.

Mas não se pode fugir ao desafio, e José Luiz Tavares, no seu jeito de um arqueólogo da língua, não podia decliná-lo. Não é o espaço para fazer uma análise apurada de alguns poemas no limite da “saturação literária”, queria antes chamar a atenção para os dois ciclos finais, Matéria Ígnea e À Beira das Cinzas, que por si só, justificam claramente o encómio deste livro.

Diga-se que José Luiz Tavares trabalha na corda bamba de “um realismo” que tende à «rugosa realidade» de Rimbaud e transita na tensão entre a memória da literatura e a vida ao relento: «a vida/ é o que desborda deste molde de decalque» («O Flato de Orfeu», 11º soneto).

O poeta sempre oscilou entre a elegia e a (auto-)derrisão, e é brilhante nas duas vertentes – a haver alguns deslizes nos seus poemas, decorrem de eventualmente não ter doseado bem o trabalho da sístole e da diástole e não haver conseguido a síntese das suas duas pulsões. Esta tensão é bem patente neste livro; veja-se: esta dicção: «sonho-te, meu brando país do sul, pequena/ nesga de azul, ou apenas votivo perfil de lava,/ sobre cujo gume o trânsito do tempo infindo/ é rutila transparência que a memória encena» («Partes da Bruma», 4), claramente nos antípodas desta: «piéria voz decadente e glabra/ que esta rupestre moldura guarda/ tudo é rouca música em que te vens/ pobre poesia que nem o pagode já entreténs» («O Flato de Orfeu», 7). Contudo, felizes os países que têm poetas que são vários num (e não nasceu do acaso a admiração de Tavares por Nemésio, que não precisou da histeria do heterónimo para se manifestar em arquipélago) e na maioria dos poemas esta tensão é resolvida de uma forma orgânica e fecunda — como acontece em O’Neil, um lírico a contrapêlo, e em Fernando Assis Pacheco, que Tavares também evoca.

Nos dois ciclos que citei e prefiro vejo um verso viril que pelo vinco de uma prosódia segura deixam de lado o Cesário, tão evocado no primeiro livro, para avançarem mais atrás na tradição e dialogarem com Bocage. E não é pela matéria licenciosa dalguns sonetos (o que cria sempre dissabores sociais aos poetas), mas antes pela auto-análise e algum ritmo: «nem do amor digas era uma vez: puro/ ladrão de mãos de veludo, seu assomo/ é helicoidal destino do poeta impuro/ patinado por sete gerações de fumo». Mas o poeta vai mais longe na genealogia e nos dois sonetos finais do livro – absolutamente brilhantes – farejo Sá de Miranda.

Pode um poeta ecoar todas estas vozes e ser ainda como aquelas equipas de futebol que jogam mais do que a soma dos seus elementos? É o que acontece aos grandes poetas, que tudo incorporam e devolvem com uma energia que lhes é própria e singular.

E por isso só me resta aconselhar a leitura imediata deste livro de José Luiz Tavares, que reúne seguramente, entre outras peças de valia, uma dúzia de poemas que são do melhor que a literatura em língua portuguesa tem produzido. Comece o leitor por exemplo pelo poema em que o poeta dialoga com a estátua de pessoa, no Chiado. E se o poeta escreve: «Pátria futura já sombra escalavrada», acredite que é por modéstia, pois quem se apresenta assim como um vero urbanista da língua tem nas paisagens do futuro um lugar assegurado.

*António Cabrita, escritor, crítico e jornalista português
Fonte: e-mail enviado pelo poeta José Luiz Tavares no dia 19 de maio de 2009.

domingo, 16 de novembro de 2008

José Luís Tavares - Lisbon Blues (livro lançado no Brasil)

A Escrituras Editora - http://www.escrituras.com.br/ -, dentro da Coleção Ponte Velha, edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), publica Lisbon Blues, de José Luiz Tavares, organizado por Floriano Martins e ilustrações de Fernando Pacheco.

Este livro reúne dois títulos de José Luiz Tavares e o posfácio apresenta ensaio de José Luís Hopffer C. Almada (Cabo Verde, 1960), poeta e editor, já com destacada presença no meio editorial de seu país.

No poeta José Luiz Tavares, como em poucos poetas contemporâneos de língua portuguesa, é flagrante a irrupção de novos paradigmas mediante o primacial recurso à reinvenção da linguagem.

O já relativamente longo percurso literário de Tavares tem o seu ponto de partida no Liceu Domingos Ramos da Praia, onde co-fundou e dirigiu a folha juvenil Aurora (de iniciação às lides literárias), no já longínquo ano de 1987. Então “aprendiz de poeta e de ficcionista”, embebido de insaciável curiosidade intelectual e em pleno processo de maturação criativa, Tavares foi freqüentador regular das tertúlias literárias que, por essa altura, pululavam entre os jovens revelados dos anos oitenta na cidade da Praia.

Apaixonado cultor de poesia, insaciável na busca do novo na linguagem e na perscrutação do insondável para além do real cotidiano, municiado com os conhecimentos da técnica do verso, da tradição poética e da poesia contemporânea lusógrafas, da teoria da literatura e da filosofia que a formação universitária e um trabalho cotidiano, persistente, as leituras, múltiplas e transpirantes, José Luiz Tavares propôs-se ser um partícipe ativo e fecundo na invenção de um dizer novo, não só na poesia caboverdiana, como também em toda a poesia de língua portuguesa.

Sobre o autor:
José Luiz Tavares nasceu em Cabo Verde, em 10 de junho de 1967, mas reside em Portugal, onde estudou Literatura e Filosofia e onde escreve poesia. Com o livro Paraíso Apagado por um Trovão conquistou o prestigiado Prêmio Mário António – poesia 2004, da Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com a poeta angolana Ana Tavares. Tendo como grande referência o brasileiro João Cabral de Melo Neto, um dos grandes poetas da Língua Portuguesa, José Luís Tavares confessa que trata a escrita com o rigor matemático, como uma arte cujo produto acabado depende de apetrechos técnicos. "Não se trata apenas de inspiração, sonho ou do estado de espírito, mas também de habilidades que se desenvolve com a prática", frisa o poeta comparando a arte da escrita com a arte de pintar ou de esculpir. "As palavras são meus instrumentos de trabalho para pintar ou esculpir o meu pensamento através de parâmetros técnicos, com recurso à teoria e à metodologia", sublinhou.

A Coleção Ponte Velha foi criada por Carlos Nejar (Brasil), poeta, ficcionista, crítico e membro da Academia Brasileira de Letras, e pelo poeta António Osório (Portugal).

Livro: Lisbon Blues
Autor: José Luiz Tavares
ISBN 10:
ISBN 13: 9788575313121
Gênero: Poesia/Literatura Caboverdiana
Edição: 1ª Edição
Páginas: 208
Formato: 14x21
Peso: 0,245
Preço: R$ 32,00

Cabo Verde – José Luís Tavares e Glaúcia Nogueira ganham concurso literário promovido pelo MEC

A obra “Os secretos acrobatas” de José Luís Tavares foi premiada na categoria Obra Africana – poesia e a jornalista brasileira residente em Cabo Verde, Glaúcia Nogueira, foi premiada na categoria Biografia com a versão infantil de “O Tempo de B. Léza – Documentos e Memórias", primeiro livro da autora, no II Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação (MEC). Esse concurso é voltado para estimular a produção literária destinada a jovens e adultos em processo de alfabetização.

O resultado ainda é provisório, o oficial sairá hoje. De qualquer maneira, meus parabéns para o poeta cabo-verdiano José Luís Tavares e para a jornalista Glaúcia Nogueira!

Para ver os outros premiados pelo MEC, acesse
http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/concliteratura.pdf

Para ler a matéria publicada no MEC a respeito do concurso, acesse
http://portal.mec.gov.br/secad/index.php?option=content&task=view&id=138&Itemid=278

Abraços,
Ricardo Riso