José Vicente Lopes – A Fortuna dos Dias
Por Ricardo Riso
José Vicente Lopes (JVL), natural da Ilha de São Vicente (1959), reúne pela primeira vez contos dispersos em publicações como as revistas “Ponto & Vírgula” e “Fragmentos” e na antologia Tchuba na Desert (2006). Agora, esses contos estão ao lado de alguns inéditos para compor as 18 narrativas de “A Fortuna dos Dias” (Praia: Spleen Edições 2007).
Diante de um quadro de incertezas e irrealizações deparamo-nos com narrativas que apresentam intensa ironia perante os acontecimentos do cotidiano do ilhéu, permeados por recursos do fantástico ao relatar a caótica, e, por vezes, surreal situação do país.
Os protagonistas são pessoas comuns que não se adaptam à “ordem” estabelecida como em “O buraco”, que narra o misterioso aumento de um buraco na rua de Cleofas Miranda. Saudoso dos tempos coloniais, ele “observou por alguns minutos o buraco, indignado com o descaso das autoridades competentes. ‘Por isso é que esta terra não vai para frente’, (...) ‘Eu sabia que a independência havia de dar nisto’”. (p. 117) E conclui que o buraco “continuava a afundar e a alargar-se, mas não encontrava nenhuma explicação lógica para aquilo” (p.120). O que poderia ser uma metáfora pessimista do futuro de Cabo Verde.
Elementos da oralidade auxiliam o fantástico no conto “Ribeira de Deus”: “e para provar o que estou a dizer, vou contar-vos esta história. (...) de modo que quem me quiser ouvir que ouça (...). Vejam este braço: mesmo depois de tantos anos, só de lembrar, ainda me arrepio todo.” (p. 104).
Em “A convenção”, um encontro com representantes da diáspora não apresenta soluções objetivas e mostra a ganância dos participantes: “Era a hora de as autoridades d’Azilhas reconhecerem de uma vez por todas, a importância que a Décima-Primeira Ilha tem na vida do país, isentando-os de certas taxas aduaneiras para suas importações ou conferindo-lhes certos direitos políticos.” (p. 130-133)
Em “A barragem”, um simples cidadão narra em carta a construção de uma barragem prometida há tempos, reafirmada com a independência: “também era para valer quando os moços do PAIGC apareceram aqui logo depois do 25 de abril e nos prometeram a barragem se aceitássemos a Independência” (p. 139). O uso eleitoral da obra: “Andam por aí a dizer que desta vez nem vai ser preciso fraude” (p. 144); o desperdício e a desesperança revelam-se: “Mas agora que a barragem está pronta, (...) se não houver chuva, qual vai ser a serventia da barragem? Afinal, há quantos anos não cai nesta terra uma pinga decente que seja de chuva? (...) e aí não haverá barragem nenhuma neste mundo capaz de conter a força da nossa desilusão.” (p. 145)
A solidão do homem contemporâneo e a manipulação de um passado histórico glorioso marcam o insólito em “A cidade e o ídolo”. O protagonista torna-se herói, mas não se revela o por quê: “Pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer, nem o que você é ou deixa de ser... O que importa é o que as pessoas julgam o que aconteceu ou o que pensam quem você é” (p. 30). Forja-se uma biografia “para posterior compilação das suas Obras Completas” (p. 31-32). Todavia, após fugir para o estrangeiro e retornar anos depois, o herói se surpreende por não ser reconhecido e passa a ser tratado como louco. Metáfora de um mundo de imagens que manipula as pessoas ao seu bel prazer.
JVL beira o sarcasmo ao citar aspectos culturais do país. Lê-se em “Morabeza” que um navio encalhado “foi inteiramente pilhado” pela “população – como sabeis amável, hospitaleira e generosa” (p. 89).
Ao utilizar elementos do fantástico em suas narrativas, como as epígrafes que são alegorias dos contos, o uso criativo da oralidade e os diálogos constantes do narrador com o leitor, José Vicente Lopes faz críticas contundentes ao desarranjo por que passa Cabo Verde, assim como revela a solidão e a amargura do homem contemporâneo. “A Fortuna dos Dias” é uma grande contribuição para a evolução da prosa caboverdeana, elevando ao clássico o conto “O sonho do senhor JB”.

