Mostrando postagens com marcador Kaoberdiano Dambará. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kaoberdiano Dambará. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de junho de 2013

Kaoberdiano Dambará (A Nação)


Kaoberdiano Dambará
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 243, de 28 de abril de 2012, p. E14
Raras são as manifestações literárias da afro-crioulidade e da língua materna na literatura cabo-verdiana entre os nativistas, hesperitanos e claridosos até a chegada de uma postura mais contestatária dos representantes da Nova Largada, sendo assinalável para a timidez de tal afirmação a postura racista, branca e eurocêntrica da colonização portuguesa que sempre procurou desvalorizar os aspectos culturais da afro-crioulidade e das origens negras contribuintes para a formação da sociedade cabo-verdiana.
Diante de quadro opressor e de negatividade explícita, favorecido por um discurso de exaltação à mestiçagem que oculta os traços identitários negros, um sentimento afro-crioulizante só poderia surgir atrelado a um quadro de ruptura com a então colônia e de necessária libertação em prol da independência da nação a ganhar corpo na década de 1940, se torna um processo irreversível nos anos 1950, com a criação do PAIGC e a idealização da “reafricanização dos espíritos” de Amílcar Cabral e Manuel Duarte, e atinge o seu auge na década seguinte com as guerras coloniais iniciadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Nessa perspectiva, é de suma importância para a compreensão da luta anticolonial o papel exercido pelos escritores que vivenciaram esse período a leitura da obra de Kaoberdiano Dambará, pseudônimo de Felisberto Vieria Lopes, nascido em 1937 na ilha de Santiago. Segundo Mario Pinto de Andrade no prefácio para a Antologia Temática de Poesia Africana – O Canto Armado, vol. 2: “Kaoberdiano Dambará, que define a revolta para a liberdade, indica claramente o dever do militante de brandir o ferro no cimo dos montes. Daí o facto de o PAIGC ter saudado então a poesia do autor de Nóti (edição do PAIGC, 1964) como ‘das mais vigorosas, combativas que jamais se escreveu em língua crioula’” (1979, p. 13).
Expressiva é a maneira como a defesa do negro, do país e da África livres apresentam-se em seus poemas, também totalmente compreensível o apoio à divulgação de sua obra pelo PAIGC, já que os poemas são em língua materna e incisivos nas suas críticas como demonstram os textos selecionados na antologia supracitada de Andrade e no vol. 1, intitulado na Noite Grávida de Punhais. O uso do imperativo mostra o poder de arregimentação para a luta que se trava em todo o continente: “Ergue-te e caminha filho de África/ ergue-te negro escuta o clamor do povo: África Justiça Liberdade”.
Sua obra desvela os motivos da falta de união e os conflitos existenciais do ilhéu a partir da perspectiva racial: “Bo bem di londji / (...) Dikansa no bem kombersa / xinta bo bem flam,’m ta pidi’u!/ (...) nôs sangui ê kêl um ta korê na vea./ Ma ê kel: - Branko dja suparano,/ bo ta diskunfia di mi!”. Manifesta o caráter didático ao revelar o arquétipo do opressor na figura do espantalho do grande latifundiário: “Na triatu’l Mundo,/ tud’ê forsa’l Distino,/ tud’ê forsa’l spantadjo:/ Nhôs da ko nho Fifi na tchon,/ spantadjo ta kaba, Distino ta kaba!
Como também é assinalável a gradação tensa das estrofes rumo ao processo de conscientização identitária negra e libertária do poema Juramento em intertextualidade com “O galo cantou na baía” de Manuel Lopes: “galo dja korko assa;// sê pam sirbi Branko, ma’m krê morê/ probi, sukuro, negro – na bo pé:/ nh’aima ta russussita na floresta.// Nha mai dexam mustura nha sangui/ ko tromento, ko batuko, ko stribilim:/ Aima di nôs guentis dja labanta di koba!”
Substantivos os poemas dedicados ao grande líder Amílcar Cabral após a sua morte e a perpetuação de seus ideais para revigorar e inspirar a poesia de combate, sendo homenageado com as letras de seu sobrenome iniciando cada verso: “Canto no ôbi, no ka cêta:/ Anôs, nôs sorti ê spantado,/ Bento ki passa na sono,/ Riba’l kórda’l nôs bida,/ Anti kôrda, djê passa;/ Liberdádi ê kaminho kâ dexano!”

A luta pela libertação do país e a valorização do negro cabo-verdiano como inspiração para a poesia de Kaoberdiano Dambará é a testemunha da utopia que virou realidade.