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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Lande Onawale - Kalunga: poemas do mar sem fim (resenha)

Mais uma contribuição para o blog fazendo circular nossos afro-rizomas. Abaixo, resenha de Valéria Lourenço, graduada em Letras (UFRRJ), para o livro Kalunga: poemas do mar sem fim, de Lande Onawale.
Ricardo Riso 

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ONAWALE, Lande. Kalunga: poemas de um mar sem fim = Kalunga: poems of na infinite sea. Salvador: Edição do autor, 2011.

O Atlântico. Oceano personificado, mar, morte, kalunga. Não saberemos nunca precisar quantas foram as vidas tragadas por esse oceano a nos separar: Brasil e África. Nações-irmãs com sangue manchando nossa travessia. Mas do fundo das águas emergem as vozes, nos chegam as memórias de um povo-irmão. As vozes ecoam na poesia de Lande Onawale, como vimos no poema “Ancestral”:
“em mim falam vozes ancestrais,
que conversam mais
se calo,
ou a alma silencia (...)”
O baiano, que tem publicado diversos contos e poemas traz em Kalunga: poemas de um mar sem fim, um sujeito extremamente inquieto como nos versos de “Único”:

“...e este punhal
cravado
no lado
esquerdo
do meu peito
é o único que aceito
sem ele
nem sei
viver direito...”

A utilização do verbo cravar diversas vezes ao longo do livro traz o caráter e a necessidade de penetrar suas palavras profundamente em nossas almas, e isso é feito sem grandes esforços.

“A memória do mar me atravessa...
está cravada em mim (...)” (Kalunga)

“Cravamos um sol
bem no meio do outono!” (Z de maio)

“...e este punhal cravado no lado esquerdo (...)” (Ùnico)

Mas Lande não nos remete somente aos mares de Brasil, África e seus ancestres. Em “Fissura nuclear (Fukushima)” há o relato do acidente natural ocorrido no Japão em 2011:

“a fúria do núcleo da terra
seguiu-se a fúria do núcleo
de um milésimo grão de areia
(...)
- a ciência não tem um plano “b””

E a crítica social está presente em “Canarinhas da Vila”, poema que abre o livro, onde o poeta se pergunta o que sua poesia pode fazer contra toda a violência que vivenciamos dia-a-dia.

“o que pode minha poesia contra isso:
três jovens assassinadas lado a lado?”

A resposta ao autor vem de um texto de Laura Padilha intitulado “A palavra africana e as memórias antigas”:

 “Quem põe a palavra em circulação, ascende a um nível de poder maior e intervém no real, quase sempre com um impulso de modificá-lo, dada a força cosmogônica da palavra que faz circular.”

E Lande consegue nos trazer reflexões, intervir no cotidiano, chocar e sacudir-nos, somente com a força de suas palavras.

Kalunga: poemas de um mar sem fim, edição bilíngue, em português e inglês, tem, nos 21 poemas que o compõem, um grito de dor, uma necessidade de se fazer ouvir, poemas para serem declamados inflamando multidões. Essa poesia não pode ser lida em voz baixa ou ficar guardada na gaveta. Afinal, as vozes que a ilustram esperaram durante séculos para serem ouvidas e Lande faz essa tradução para nossa língua muito bem.

______
* cravada, cravamos e cravado: grifo nosso

Referência bibliográfica
PADILHA, Laura. “A palavra africana e as memórias antigas” in Educação, arte e literatura africana de língua portuguesa: contribuições para a discussão da questão racial na escola. Org. Maria Alice Rezende Gonçalves. Rio de Janeiro: Quartet: NEAB-UERJ, 2007.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cidinha da Silva resenha livro de Lande Onawale


Sete: diásporas íntimas – livro maduro de Lande Onawale!

Por: Cidinha da Silva

Ogun iê! Lande Onawale, artífice da ferramenta-palavra na forja do vivido.

Quando cheguei ao segundo conto de Sete: diásporas íntimas (Mazza Edições, 2011) senti que não conseguiria interromper a leitura por nada, tão arrebatada estava. Mas ao concluir o terceiro texto, parei, pois estava sem fôlego e tinha olhos embaçados. Precisei me refazer. Encontrei um autor maduro, de linguagem apurada, com elasticidade textual definida por muita, muita poesia. Mas isso não deveria ser surpresa. Embora tenham um pai cruel e sanguinário, os filhos de Roji que conheço, parecem ter dois corações. Desbordam amor por onde passam e nos levam na correnteza. Lande não é diferente. O ferreiro desses textos é um guerreiro do amor .

“A bailarina”, conto de abertura, dói, profundamente. Mas a narrativa proporciona tempo e espaço para que o leitor processe a dor e a indignação, gerados por expediente racista tão corriqueiro. Os céticos, especialmente, têm tempo narrativo para compreender a discriminação racial sofrida pela bailarina.

“Por sobre as estações” começa assim: No banco da praça, Jorge ancorou a sua nova manhã de angústias. Seus brios de homem, porém, eram donos dos ares, aves agourentas de asas cortantes que atravessam o tempo e os séculos. Eu lia e imaginava o pássaro sombrio de Iyami sobrevoando a cabeça de Jorge. À frente, no texto, Jorge rememora o dia em que ele e Regina se conheceram dentro de uma chuva de confetes. São apenas as primeiras das belas imagens que darão contorno ao texto até que ele exploda em tensão e violência do ciúme machista, da posse e do desespero. As pistas do que está por vir estão no primeiro parágrafo, mas é um conto bom que nos engana e o autor nos surpreende.

“A partida” inicia falando de trens e de seu antigo movimento, enferrujado pelo progresso, até introduzir a partida de um membro de família enraizada no campo, que iria para um grande centro, em busca de vida melhor. Até chegar à definição da partida do filho que se aventura, feita pela mãe: Ademais, isso de ver filho partir é como parir; perdemos tanto da gente, pro pouco que o mundo ganha... O mundo não dá valor... Aos poucos, o sentimento de Justino vai tomando forma, enquanto a compreensão da responsabilidade aumenta. Lembranças das palavras do pai, falecido durante a infância: Não é só a terra que compramos dos brancos que a gente tem que honrar e fazer crescer mais do que eles fizeram. O sobrenome que pegamos deles também... Notem bem, não herdamos, pegamos. O autor visita o amadurecimento forçado de Justino diante d a perda do pai. E isso pesa no momento do ritual de passagem para o grande centro. Na hora de mergulhar definitivamente no mundo adulto, Justino volta a ser criança. A criança que não pôde ser: E ele foi ficando mais moço, mais novo a cada passo e, na soleira da porta, desabou num choro repentino e incontido, que deixou os irmãos atônitos. Com um gesto, a irmã barrou os outros ainda na varanda e Justino foi sozinho, se apoiar nos ombros da mãe.

Não é assim que a vida nos pega? Sabemos que somos capazes de atravessar a grande água, mas crescer dói tanto. Por que é que tem que ser assim? Não sabemos, mas é assim que é! Justino nos dá uma lição singular que talvez não seja percebida como merece: ele sabe ser amado! Só os que sabem sê-lo, permitem, em momentos cruciais, a exposição de fragilidades. Notem bem, fragilidade não é sinônimo de fraqueza. Fragilidade é o desvelamento daqueles sentimentos preciosos e delicados que doem dentro da gente, resguardados por máscaras e muros. Só os fortes se permitem a fragilidade.

E será que os homens negros têm apreendido as lições do amor recebido de maneira mais eficaz do que nós, mulheres negras? É possível que sim. Eles são amados ao longo da vida (por nós, pelo menos), enquanto nós recebemos doses tão diminutas de amor, que não nos acostumamos a ser amadas. Damos e acolhemos de maneira desmesurada e quando o amor se nos apresenta, não sabemos o que fazer, às vezes, sequer o reconhecemos.

É animador observar um homem heterossexual abordando a sensibilidade masculina e isso, mais uma vez, se vê no conto “Veridiana.” O amor não é aquela coisa sublime e inalcançável inventada pelo romantismo. O amor é a oitava superior de um dia duro de trabalho na roça de Veridiana e Romão. O amor é estremecer com o toque daquela mão calejada e áspera no seio, porque aquela é mão desejada do homem amado. O homem que trabalha por amor à família e isso dá um tesão danado. O amor é encher a casa de flores e fazer vingar a inteireza do perfume, mesmo que o amado esteja em dia de jumento. Explico: recordação de Sueli Carneiro citando Arnaldo Xavier “carinho de jumento é coice.” A história de Veridiana e Romão tem muito desta verdade.

“Mukondo” é o retrato da delicadeza e do respeito (próprios de quem vive a energia do N’kice) para tratar da guerra impura travada contra as religiões de matrizes africanas e seus praticantes. É mostra da sensibilidade de quem sabe que em Mukondo não cabem as palavras de ordem do manifesto. Que a linguagem para lidar com os católicos enlutados da história precisa ser diferente daquela que utilizamos no embate político com líderes de igrejas eletrônicas e caça-níqueis, com lobos-pastores de ovelhas, que desrespeitam e agridem, diuturnamente, aqueles que simplesmente mantêm a fé viva em seus N’kices, Voduns e Orixás, por meio do oferecimento de comida, pelo canto e pela dança, num cenário de devoção e alegria.

Taata de N’kice que é, Lande apreendeu de maneira perfeita o que sentem os rodantes nos momentos que antecedem o transe, quando o N’kice avisa: “Vá dormir, que eu vou dançar.”

“Um amor na diagonal” é uma história muito boa, mas tem um ou outro deslize-clichê, frases que uma leitura crítica detida retiraria da pena do poeta: “para essa tarefa prazerosa” ou “tão absorta estava Kinda em seus cálculos.” O texto apresenta certa irregularidade, começa morno, mas, quando engrena torna-se delicioso, como os demais. Exemplo disso é o impagável diálogo de Kinda e Adalberto sobre o cabelo de ambos: Sempre encantado por Kinda, ele (Adalberto) comenta sobre o cabelo dela, antes tímidos e alisados, em contraste com o pixaim que orgulhosamente ostentava. __ Já você... __ diz ela, notando a ausência de seu enorme Black Power. Ele passa mão pela cabeça. __ Pois é... Nessa atividade é bom ser discreto. Entretanto, a tensão do final da história cai com um músculo que estoura. Não é que seja mal arrematado, como a gente vê inúmeros contos por aí, mas o processo poderia ter sido outro que não resultasse em esgotamento muscular. Pareceu-me aqui um escritor cansado de trabalhar determinado texto, quando ele, finalmente conclui que o escrito não ficará melhor do que está e resolve mostrá-lo. Aí está o erro, pois o texto ainda não está pronto e se é assim, que fique mais tempo na gaveta.

“A liberdade contra o peito” é o texto mais fraco do livro, não tem a mesma maestria dos outros para explorar a idéia central, neste caso, a de que os livros e o conhecimento são armas letais contra a ignorância, preconceitos e estigmas.
Sete: diásporas íntimas é do tamanho que deveria ter, nem maior, nem menor. São 8 contos aplicados na Aorta, diretamente. Sete é livro de escritor maduro. De um homem maduro, acima de tudo. A cada dia me convenço mais de que a arte sem vivência é mais pobre, em que pese a consciência de que a legitimidade para abordar determinados temas, não nos torne bons escritores e escritoras por via de conseqüência. Lande tem legitimidade, criatividade, apuro técnico e o tempero do tempo. Dádiva de quem faz o caminho da sabedoria. Se antes, eu o achava um soldado oguniado, premido pela necessidade de construir uma literatura militante, em moldes clássicos (e repetitivos), agora vejo-o como Roji, comandante do exército interior de personagens e paisagens várias, como estrategista de uma tropa que confia plenamente em seu general.

Ogun iê! , Lande!

Fonte: blog da escritora Cidinha da Silva

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lande Onawale - 1ª vez na Kitabu Livraria Negra


O escritor baiano Lande Onawale autografará pela primeira vez seus livros na Kitabu Livraria Negra. Na ocasião, o autor apresentará os recentes livros de contos, Sete: díásporas íntimas, e de poesia, Kalunga (poemas de um mar sem fim).
Lande Onawale participou de várias edições de Cadernos Negros, publicou o livro de poesia O vento e está incluído na antologia Literatura & Afrodescendência, organizada pelo Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte.

Dia 2 de maio de 2012, às 18h
Kitabu Livraria Negra
Rua Joaquim Silva, 17 - Lapa 
Rio de Janeiro

segunda-feira, 12 de março de 2012

Lívia Natália - Landê Onawalê e as diásporas íntimas do corpo (resenha)


Landê Onawalê e as diásporas íntimas do corpo
Lívia Natália*
 
As diásporas que titulam o livro de Landê Onawalê são as íntimas, mas poderíamos chamá-las de mínimas. A delicadeza dos deslocamentos representados nos oito contos  reunidos em Sete: Diásporas íntimas (Mazza Edições, 2012, 72pgs) dialoga com a grande diáspora do povo africano e busca flagrar outros movimentos, pensar como se conformaram, na árida paisagem, estes corpos negros, a desenhar, contemporaneamente,  outros percursos.
Neste livro, se encontram infâncias onde a consciência de si amadurece cedo, os jovens de Sete: Diásporas íntimas estão todos partindo ou chegando. Eles são corpos forçados a se descobrir, demarcando os seus limites diante do mundo, jogando com os lugares marcados, fugindo deles, mesmo quando aprisionados pelos seus contornos, como Adalberto de Um amor na diagonal. Este livro é escrito todo na diagonal, é outra forma de andar, um investimento na ruptura com a verticalidade, que limitam os negros, sua literatura e seus temas aos estereótipos rebaixadores, e também com a horizontalidade que ergue as grades da história como muros, ante nossos olhos.
Nas franjas mínimas, no mais íntimo da vida cotidiana o livro inscreve sem mistérios. Elege temas que nos atravessam, retratando, com uma consistência desconcertante, o que de comum ou excepcional há nas travessias de cada um de seus personagens, que somos nós. Nas dobras das histórias desenham-se infâncias perdidas e restauradas, amores desfibrados, a força das Religiões de Matriz Africana no percurso e assunção do lugar sujeito no sagrado como no conto Mukongo e retrata também a história dos quilombos, alegorizada no amor de Romão e Veridiana.
A escrita de Landê Onawalê é a das possibilidades de ser, e, dentre estas, destaco o modo como ele constrói outra forma de ser homem. O que se vê é uma diáspora do masculino, do homem negro, tema de sucessivas discussões entre as escritoras afrobrasileiras, e que encontra resposta ampla em personagens como Jorge e Romão. De um lado, o conto Por sobre as estações nos apresenta um relacionamento falido, conduzido por um homem que, como muitos, se pensa como proprietário da mulher indo, por isto, muito além de qualquer limite: “Mas Regina abandonara o lugar de musa, ao se perceber no alto de uma velha torre inacessível, só tocada pelos delírios do marido”. Por outro, Romão: um homem de intuições, nele o sexto sentido, propaladamente dito ser apenas do feminino, se manifesta com a angústia do amor no conto Veridiana, e o que se deslinda diante do leitor é um masculino sem castrações, pleno de si: “Ainda confuso, ele se apressou em entender, nas meias palavras de Veridiana, o significado de sua vida inteira”.
Também um feminino enraizado se afirma. As mulheres do livro tem uma complexidade sinuosa, e trazem, como marca maior, o silêncio. Elas não se desperdiçam, mergulham em si mesmas, num gesto de profunda reflexão, e é este silêncio que moverá o mundo, como uma engrenagem invisível.
Os textos trazem a limpidez da contística, que, como sabemos, é muito difícil de ser mantida. O conto deve ser uma linha tensionada e firme pela qual o leitor caminha ainda que temeroso de precipitar-se. Neste sentido, Landê Onawalê constrói narrativas íntegras, as personagens são profundamente plausíveis e, como tal, imprevisíveis, o que aumenta a tensão nos textos que lemos capturados, sorvendo cada palavra. Nada transborda ou falta, a seta é certeira. Saímos do livro movidos pelos seus trânsitos, navegando em nós mesmos, intimamente apartados de nossos lugares. O livro é de uma beleza irremediável.


* Lívia Natália é Profª Drª em Letras e poetisa, autora de "Água Negra". Texto compartilhado pela autora em 12 de março de 2012.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lande Onawale lança "Sete: diásporas íntimas" (Bahia)


O escritor Lande Onawale lança o seu primeiro livro de contos, "Sete: diásporas íntimas" (Editora Mazza) no Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), Largo 2 de Julho, no dia 7 de março de 2012, a partir das 18h.

Fonte: blog do autor.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Lande Onawale e a necessária quilombola utopia literária

Eles ficam se perguntando
Como posso me fazer bonito
Com tudo aquilo que acham feio
(Onawale, Lande. Black Power. p. 51)

Por Ricardo Riso
Nascido a 14/04/1965 na cidade de Salvador, Bahia, professor de História formado pela UFBA, Lande Onawale reuniu pela primeira vez poemas dispersos em seu livro “O Vento” (2003). Funcionário público, ativista do movimento negro, iniciado no candomblé, Reinaldo Santana Sampaio (seu nome de batismo) participou de várias edições dos “Cadernos Negros”, além de poemas e textos em prosa em diversas publicações, dentre as quais destaca-se “Terra de Palavras” organizada por Fernanda Felisberto.

A epígrafe com os versos iniciais do poema “Black Power” demonstra o engajamento à causa negra inserido na sua produção literária. Subverter o discurso estabelecido, romper os estereótipos impostos, elevar a autoestima e reconstruir de forma positiva a imagem de nós, negros, são alguns dos aspectos abordados por Onawale nos poemas de “O Vento”.

Ao atravessar as páginas do livro somos tomados por um vendaval de imagens acerca do cotidiano opressor que nos aflige. As imagens propostas pelo sujeito lírico fazem-nos recordar o quanto ainda são válidas para as relações étnico-raciais brasileiras as premissas do Movimento da Consciência Negra sul-africano, liderado por Steve Biko. Para aquele movimento o fundamental era mudar a mentalidade do negro, pois seria impossível mudar a sociedade enquanto o negro não mudasse a sua forma de pensar, submetendo-se às armadilhas de inferioridade declamadas pelo discurso dominante.

A ressignificação de valor e a consciência de afirmar-se negro em “Black Power” poderá causar espanto e surpresa àqueles que não visualizam a possibilidade de beleza de uma pessoa negra, exatamente por não seguir os modelos predominantes nos meios de comunicação (na literatura brasileira, inclusive), que são motivadores da nossa invisibilidade, reforçados por uma intensa propaganda e pelo racismo oriundo do tempo escravocrata.

Por ter a real dimensão da inferioridade sofrida desde que nossos antepassados negros foram forçados a vir para o continente americano, o sujeito lírico sente-se fortalecido para recorrer a eles, que jamais aceitaram a violência do senhor branco e do regime escravista. Apesar de apagados pela história oficial, jamais adormeceu em nós o combate à situação desigual imposta, e esse passado é rememorado no poema: “a nossa força é indescritível brother // emerge dos séculos / de luta por liberdade” (p. 51).

A valorização das raízes afro-descendentes manifesta-se no belo poema “Capoeira Angola”, que “faz do banzo só saudade” (p. 54). Apreendemos a criatividade de Lande no uso do banzo, a doença que vitimava os escravos forçados a fazer a travessia do Atlântico, ao reconfigurar os sentidos para “traçar / as rotas impossíveis da sobrevivência” (p. 53) e assim estimular seus irmãos de cor a “encarar a roda-vida todo dia” (p. 54).

A recordação constante dos aspectos culturais trazidos por nossos antepassados e a esfuziante celebração do que aqui ficou como forma de resistência, “... e não houve atlântico que apagasse tais pegadas...” (p. 59), são cantados pelo sujeito lírico a convocar e a incentivar o leitor para que juntos “ecoemos quilombolas utopias” (p. 47). Ao mencionar o sonho de liberdade dos quilombos, os versos de Onawale buscam mudanças, novos caminhos para diminuir as desigualdades étnico-raciais persistentes em nosso país, por isso o sujeito lírico faz da sua voz a nossa voz e afirma que “é hora de outras partilhas”. Pela equidade social, esperançoso, visualiza um novo futuro de harmonia que pretende ser assumido pela pluralidade racial brasileira para finalmente atingir a tão decantada e ainda não realizada democracia racial: “é tempo de outros papéis / e – por que não? – de anéis...” (p. 52).

Entretanto, nem sempre o sujeito lírico pode atuar de maneira conciliatória, às vezes precisa ser incisivo diante das ardilosas facetas do racismo à brasileira e é necessário desestabilizar a calmaria vigente: “há em mim veias que anseiam / os incontáveis caminhos da existência / há em mim uma memória / que vem lamber ou devastar / as praias rasas do presente” (p. 60). Por isso é fundamental expor os problemas que nos atingem. Por isso é essencial que a voz do sujeito lírico se torne a voz reveladora nas mentes submissas dos nossos pares, que aceitam o discurso dominante e não enxergam a perversidade de nossas relações sociais. Ou seja, o sujeito lírico propõe uma voz para mostrar novos caminhos, para fazer da persistência a força por um discurso justo contra as atrocidades cometidas por séculos de opressão: “que de tanto nadar contra a corrente / acabou por fazer a correnteza” (p. 63).

No poema “Canarinhas da Vila” encontramos a denúncia do repugnante e corriqueiro tema da violência policial sobre nós, negros. Desde o fim da abolição da escravatura que somos perseguidos e somos objetos constantes de desconfiança dos órgãos de segurança. Nossa juventude é sumariamente assassinada pela polícia, principalmente nas áreas periféricas das grandes cidades. O verdadeiro “genocídio da negra gente” (p. 45) não é tratado como uma manifestação clara de racismo, pois, de acordo com o senso comum, o elevado índice de mortos entre nós se dá por uma mera coincidência de ser a maioria populacional em zonas carentes, pelo elevado índice de desempregados e por possuirmos baixa escolaridade. Por tudo isso é quase natural o assassinato ininterrupto de nossa gente, e ficamos indefesos perante uma justiça que não nos protege, fato comprovado pelo questionamento desesperado, porém consciente, do sujeito lírico: “o que pode a letra morta / da lei, da constituição / contra este costume brasileiro / de matar negros como moscas?” (p. 44).

Apesar de toda a militância em prol do negro, os poemas de Lande Onawale ganham nosso interesse ao abordar o afeto à mulher negra. Sabemos que a questão do afeto para nossos irmãos de cor é extremamente complicada diante de tanto dilaceramento do corpo por séculos de escravidão. Opressão maior sofrida pelas mulheres, forçadas a conviverem com os repetidos estupros dos senhores brancos. Algo que é sempre bom recordarmos: a miscigenação no Brasil foi iniciada sob o signo da violência do colonizador branco. Em razão disso, é com prazer que se faz a leitura de um poema singelo e recheado de musicalidade como “Preta Preta”: “preta / minha preta / preta mesmo / preta, preta // preta / dentro preta / preta fora / toda preta // preta / ontem preta / hoje preta / sempre preta // ah! preta / preta, preta / preta, preta / preta, preta” (p. 25).

Como nós negros não incorporamos o padrão idealizado de beleza nacional, aqui excluindo as “mulatas” e toda a carga pejorativa inserida, por conseguinte, manifestações de afeto entre casais negros são associadas a algo sujo, provocador e/ou devasso. Daí a pertinência e a provocação inerente ao epigrama, que tenta recompor os estilhaços da autoestima fragmentada de nossa gente: “reaja à violência racial / beije sua preta em praça pública” (p. 43).

Assim é a palavra poética de Lande Onawale, palavra que denuncia a maldade das relações étnico-raciais, que procura se desvencilhar das amarras da linguagem dominante apresentando novos paradigmas, invertendo falas, questionando a hipocrisia. Palavra fortalecida pelas lutas dos nossos antepassados, palavra elaborada com esmero a acompanhar a grande diversidade formal e estética do seu fazer poético.

Em seus poemas encontramos mensagens que procuram tocar as mentes reprimidas de seus pares, desnudando os males do preconceito racial em nossa sociedade. “O Vento” de Lande Onawale mostra que sua poesia vai além das páginas do livro, toca nos corações e apresenta novos horizontes para quem os lê. É literatura necessária, é literatura negra que nos orgulha e enobrece nossas almas.

“disperso-me por aí / feito brisa / depois / me rejunto e chego como ventania / varro a casa / derrubo coisas / safadamente / devasso a monotonia (...)” (p. 75)

24 de fevereiro de 2010