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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lopito Feijóo e as literaturas africanas de língua portuguesa

"(...) No meio de tantas falas faladas, no carro, no departamento de sociologia da Universidade da Beira-Interior, na biblioteca da Câmara Municipal da Covilhã, e até mesmo nos restaurantes corredores e elevadores do hotel cujo nome não é aqui chamado, algo que nos chamou devidamente a atenção e tocou profundamente o coração foi o facto de que o público leitor e amante da literatura em Portugal já entendeu que Angola, e os demais países africanos colonizados por Portugal, não têm só uma metade de meia dúzia de escritores que lhes são insistentemente apresentados em razão do circuito do comércio editorial.
Ficou clara – a preto-e-branco e a cores! –, a necessidade e e avidez de conhecerem também os outros. Os não euro-descendentes, como diria o Ricardo Riso. Os outros ainda não editados em Portugal. Os outros que só editam localmente. Os outros, os outros, os outros…. pois, os leitores estafados… muito cansados mesmo com os mesmos, os mesmos, e com os mesmos. (...)"

Lopito Feijóo in Cultura, Jornal Angolano de Artes e Letras, n. 4.

sábado, 24 de março de 2012

Nóssomos - a literatura angolana como tema principal

Prezados,
A Nóssomos é uma editora portuguesa que concentra suas publicações na literatura angolana.
De refinada curadoria, a coleção de poesia reúne nomes consagrados do passado e da contemporaneidade, assim como jovens revelações.
Os títulos poéticos contemplados são de Agostinho Neto, Antonio Jacinto, Arnaldo Santos, José Luis Mendonça, Lopito Feijóo, Zetho Cunha Gonçalves e Nok Nogueira.
As edições são em convidativo pequeno formato e com delicadeza extrema em suas capas.
O melhor: o preço.
Vale a pena visitar o blog e encomendar livros de alguns dos melhores representantes da poesia angolana.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Japone Arijuane - Ensaio sobre o livro Lex & Cal Doutrina, de Lopito Feijóo

O olhar do jovem escritor e ensaísta moçambicano, Japone Arijuane, a respeito da obra Lex & Cal Doutrina, do angolano Lopito Feijóo.
Percebo como fundamental e enriquecedor o diálogo entre os países de língua portuguesa.
Ricardo Riso


Fragmentos do léxico de uma poesia doutrinária
Ensaio sobre o livro Lex & Cal Doutrina, de Lopito Feijóo

Há um jogo metafórico, na poesia de Lopito Feijóo, uma mensagem camuflada que tem uma disponibilidade en los legatos de interpretar, criticamente, a realidade.
Xosé lois Garcia
(investigador)

Muito foi dito, redito, mas para este “Lex & Cal Doutrina”, de Lopito Feijóo, remete-nos a uma profunda reflexão, no que tange ao uso do próprio léxico, aliás, este é, sem dúvida alguma, o propósito primordial desta obra. A separação das palavras em versos diferentes, dotando-as, cada uma em dois versos, cria, até certo ponto uma inibição logo a priori, mas que ao longo da exposição psicológica que as figuras nos remetem, vão se formando e ilustrando as imagens num sentido figurante, fazendo das palavras uma escultura da própria palavra, num sentido artístico do próprio léxico. Esta vanguarda de reinvenção vai até no íntimo quebrar a doutrina morfológica da palavra, rompendo não só com as regras, mas até o profundo sentido da significação da palavra em si.      
FULANA
PAIXÃO

É
ter na
mente
terno crepitante
móveis texturas
duas

leve duras stendo
se à tona
da
doce fulana
paixão inter
posta

inteira mente
eterna mente
mente que não mente.

(pag. 16)
A concepção inovadora, provavelmente única, de tratar a própria palavra, tal e qual um escultor maconde na sua labuta quotidiana ao pau-preto, remete-nos a estabelecer analogias, sem propriedade categórica, pois, os laivos da (re)invenção deste “Lex & Cal Doutrina” produzem na fonografia, se me permitam, um novo neo-concretismo, com tendências similares à poesia concreta brasileira, traços verosímil apontam a poetas como por exemplo Ferreira Gullar.
Pode dizer-se que, metaforicamente, Lopito Feijóo descobre, aqui, mais um dos vastos territórios da superfície poética, território este que na primeira apreciação o leitor vê na condição de um turista mal informado, ignorando todas as potencialidades do léxico doutrinal, mas quando esta visita torna-se constante, o belo revela-se na sublime racionalidade da construção lexical, destas vivas vivências que o escultor de palavras, Lopito Feijóo, propõe-nos. O muito foi dito, mas para percepção do conteúdo poético aqui exposto, aliás, destas figuras tecidas dentro da própria palavra, obrigam-nos ao mesmo exercício tal e qual a labuta de um escultor maconde.
A transcendência piscopoética tem aqui, nestes mares de letras pré-seleccionados, um oceano de conteúdo poético, como oceano, com suas riquezas e mistérios, que requer arduamente a capacidade do leitor desvendar os segredos deste oceano, se comparados às gotas e o conteúdo poético de cada verso aqui reinventado.
Esta obra é realmente uma descoberta de quão a palavra pode significar e dar significados diferentes, quando reinventamos a morfologia.
O facto de, a obra, vir servida em três imensas (imensidade qualitativa) subdivisões: Lexical Doutrina, Memorial Doutrinário e Eros Doutrinários, do conteúdo poético aqui abordado, obriga o leitor a mais um esforço peregrino na concepção, que se diga: a mesma transpiração que o poeta usa e ousa, deve ser a mesma no leitor para decifrar os signos dessa densa linguagem que o “Lex & Cal Doutrina” nos traz.
Feijóo a parece aqui, não como uma criança na noite, com medo de escuro, mas como a própria noite com escuro, medo, curiosidades e ocultismos por desvendar, como um poeta angolano, que não deixa em nenhum momento a originalidade do tradicionalismo (angolanidade), como justifica o poema dedicado ao seu mestre Luandino Viera, intitulado:
Das estradas do céu e do canto do grilito
Gri…gri…gri…
Ngasakidila kanzenze
Insunji mano insunji
 Ku diulu dia dikanu dié
Ngamono jitetembua
Ni mukengêji iazele
Dia kutululuka kuetu.
(Pag. 49)

 Os factos sociais do passado e do presente, guerras sofridas, corrupção, fome, miséria, e muito mais, tem nessas entrelinhas um destaque quase que explícito, aliás, como nos ensina Cícero, não conhecer o passado é permanecer criança, Lopito usa este passado, e vem como à voz das vozes que não se ouvem na labuta árdua do quotidiano subdesenvolvido, e em alguns traços depõe como testemunha ocular dessa África que lhe vive. É sem escrúpulos um poeta, que poetiza as vivas e duras vivências africanas, com muita transpiração, que se diga: felizmente consegue transmitir veementemente as imagens desta angolanidade usando a poesia como a fotografia fiel destas convivências.

Japone Arijuane