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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética (ED.UFMG)


Luís Carlos Patraquim - Antologia Poética

Carmen Lucia Tindó Secco (Organizadora)
Editora UFMG
Coleção: Poetas de Moçambique
2011. 187 p. ISBN: 978-85-7041-910-1

Este livro apresenta a obra de Luís Carlos Patraquim entre 1980 e 2010. Considerado por críticos e especialistas como um dos maiores poetas moçambicanos vivos, Patraquim teve papel importante e inovador na literatura, cinema e jornalismo de Moçambique. Sua primeira obra, Monção (1980), que introduz esta antologia, demarcou o início de uma outra estação literária em Moçambique, até então marcada pela poesia panfletária. A nova vertente passou a aliar a reflexão aos sentidos, construindo poemas dotados da capacidade de enaltecer a vida, acreditar no amor, despertar os desejos, desbravar o espaço onírico, repensar a própria poesia.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PESSOA – a revista que fala a sua língua

Nova revista literária, a PESSOA – a revista que fala a sua língua. Dentre vários textos, encontram-se inéditos do angolano João Melo e do moçambicano Luís Carlos Patraquim.


Vale a visita.

Abraços,
Ricardo Riso

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Luís Carlos Patraquim - Pneuma (livro)

«Há muitas formas de se entrar e outras tantas de sair deste belíssimo Pneuma. E uma delas é bem clara: Luís Carlos Patraquim vive no delta da língua portuguesa. Entre Pasárgada e Inhambane. Como um de seus poetas mais completos e mais inspirados.» Marco Lucchesi

Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, em 1953. Colaborador do jornal A Voz de Moçambique, refugia-se na Suécia em 1973. Regressa ao país em Janeiro de 1975, integrando os quadros do jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema onde se mantém, de 1977 a 1986, como roteirista/argumentista e redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Criador e coordenador da «Gazeta de Artes e Letras» (1984-1986) da revista Tempo. Desde 1986 residente em Lisboa, colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para a Lusofonia do programa Acontece, de Carlos Pinto Coelho, e é comentador na RDP-África.

Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 80
Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2026-5
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 14,99 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72477__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Kuxa Kanema e o fim da utopia moçambicana

Carro soviético que realizava as projeções cinematográficas pela pátria moçambicana. (Imagem de http://www1.uni-hamburg.de/clpic/img/cinema/kuxa_kanema.jpg)

Espelho Atlântico – Mostra de Cinema da África e da Diáspora iniciada ontem, no Caixa Cultural RJ (22 a 27 de abril), brindou o público carioca com a exibição do belíssimo documentário Kuxa Kanema – o nascimento do cinema, que retrata o momento inicial de Moçambique independente a partir de 1975.

O governo moçambicano liderado por Samora Machel, representante máximo do partido FRELIMO que conduziu a guerrilha contra o domínio português, criou o Instituto Nacional de Cinema (INC) para divulgar as conquistas e as reformas propostas pela revolução socialista. Assim como, ter o interesse de se “fazer um cinema para o povo, sobre o povo e do povo”.

Contando com o apoio técnico da extinta União Soviética, que cedia carros para levar os filmes produzidos nos mais distantes lugares do país, em que jamais a população havia tido contato com o cinema, acompanhamos a empolgação e o fervor revolucionário de Samora Machel em seus comícios, sempre lotados. Podemos conferir a sua constante defesa em afirmar a unidade moçambicana, sem divisões étnicas entre macuas, rongas etc., relembrando o passado de conflitos entre os moçambicanos, o que apenas favorecia o colonizador português.

Percebemos a euforia daqueles que participaram da criação dos filmes, como o escritor Luís Carlos Patraquim. Em uma atmosfera propícia à cooperação, tudo era novo, todos pela construção de um país, e o cinema participava desse nascimento: o nascimento de um país. Porém, com todos os percalços pela falta de estrutura e de pessoal tecnicamente capacitado. Não havia um cinema moçambicano até então e a maior parte da jovem nação era formada por pessoas que não tinham a mínima noção do que era cinema, ou de como seria para produzi-lo.

Para resolver o problema e tendo o apoio de pessoas simpatizantes da causa libertária moçambicana, além de cubanos e do bloco socialista europeu, nomes como os dos cineastas Ruy Guerra e Jean-Luc Godard chegaram a participar do INC, propondo idéias e ministrando cursos.

Entretanto, como era um cinema em formação, as divergências começaram a surgir. Na então comunista Iugoslávia, o poeta LC Patraquim conta a inusitada filmagem de um longa-metragem sobre a guerra colonial em que o roteiro proposto pelos iugoslavos determinava a filmagem de ataques aéreos com helicópteros, e no início do filme uma insólita cena com uma guerrilheira que apareceria nua à frente de combatentes portugueses. Patraquim afirma que precisou revelar que na guerrilha moçambicana nunca houve ataques aéreos, toda ela foi feita por terra, o que não foi aceito pelos roteiristas iugoslavos. Discordâncias à parte, o filme foi feito, mas, segundo o escritor, de uma maneira rasteira e maniqueísta.

As diferenças ideológicas logo começaram a vir à tona, porque a FRELIMO via o cinema, no caso o Kuxa Kanema, como forma de propaganda revolucionária. E nem sempre a teoria e a prática andam juntas, como com a sugestão de Godard, que desejava ministrar cursos de cinema às populações carentes, sendo que estas tivessem liberdade para realizar seus próprios filmes. Um projeto utópico que não foi aceito pelo governo.

Todavia, não foram apenas essas divergências. O mundo estava em um contexto de Guerra Fria. Logo em seguida à independência, a Rodésia e a África do Sul começaram a atacar Moçambique para derrubar o governo socialista. Iniciava uma sangrenta guerra. Veio o embargo econômico, o país começou a passar por dificuldades, pois não encontrava apoio entre a comunidade internacional e a ajuda soviética não era suficiente.

Sendo assim, a produção de filmes sofre uma queda significativa diante dos perigos em filmar pelo país. Chegou-se ao extremo da equipe cinematográfica só conseguir filmar acompanhada de um grande aparato militar. Com isso, os filmes passaram a tratar das mazelas às quais a população moçambicana era submetida. LC Patraquim narra uma passagem deplorável, enquanto as cenas são mostradas, de um ataque sofrido por uma aldeia, com centenas de mortos. Não havia mais espaço para filmar a construção do país, infelizmente.

A chamada “guerra de desestabilização” avançou e dilacerou o país. Em 1986, Moçambique passou a ser considerada a nação mais pobre do mundo, Samora Machel morreu misteriosamente em um acidente de avião, em território sul-africano. O fim de uma etapa na história moçambicana se encerrava. Era o fim do sonho de um país em construção.

Apesar de ter servido como instrumento de propaganda política da FRELIMO, o INC e a série Kuxa Kanema cumpriram um importante papel histórico ao retratar o carisma de Samora Machel e a euforia da construção de um novo país recém-independente. Hoje, o prédio de fundação do INC está em ruínas, por causa de um incêndio. Hoje, não há apenas o cinema, mas há uma televisão moçambicana, mas uma televisão globalizada como é ao redor do mundo, que ignora as manifestações culturais locais. O INC funciona precariamente entre escombros. Os filmes dos primeiros anos da revolução deterioram-se, como a situação do país e a esperança de uma população, que foi do sonho utópico à distopia após tantos anos de guerra e dificuldades.

Kuxa Kanema – o nascimento do cinema é fundamental por seu registro histórico, de uma época que o tempo e a elite dominante insistem em apagar.
Ricardo Riso

Kuxa Kanema – o nascimento do cinema
(Bélgica / França / Portugal, 2003)
Documentário, 52 min.
Direção: Margarida Cardoso

domingo, 15 de julho de 2007

Luís Carlos Patraquim

O escrutínio deste sexo fundo com palavras: a poesia de Luís Carlos Patraquim

O pós-independência moçambicano (1975) apresentou uma euforia em relação às letras. Várias publicações inéditas até então foram lançadas, livros reeditados e foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) que lançou várias obras e novos nomes. Nesse contexto, surge um nome que se tornaria emblemático na literatura do país, Luís Carlos Patraquim, com o livro Monção (1980), apontaria para os novos paradigmas que a poesia moçambicana passaria a percorrer na nova década.

Com o país independente e a distopia causada pelas promessas não cumpridas com a revolução e a conseqüente guerra civil entre a FRELIMO e a RENAMO, os poetas começam a abandonar a temática de combate e exaltação dos tempos revolucionários e, segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

Reivindicam uma nova poética, não mais revolucionária apenas no sentido ideológico e social, mas também no plano individual, existencial e literário. Essa geração contemporânea propõe uma poesia capaz de cantar o amor, os sentimentos universais. (1)

Dentre os que acompanharam Patraquim naquele momento, podemos citar Mia Couto (Raiz do Orvalho, 1983), Eduardo White e Nelson Saúte, sendo que os dois últimos ligados à revista Charrua (1984), importante publicação que ajudou a consolidar os novos caminhos da poesia moçambicana.

Em Monção, vemos os poemas tratarem daquilo que é existencial, não apenas uma busca às emoções interiores, mas, também, recapturar as raízes perdidas por séculos de opressão e medo, daí a necessidade de cantar o amor, a imaginação e os sonhos em um constante exercício metapoético, com metáforas inusitadas e dissonantes, que buscam no universo onírico a multiplicidade cultural moçambicana esfacelada pela ação colonizadora. Há também a presença da intertextualidade. Carmen Lucia Tindó Secco comenta esta passagem:

No poema Metamorfose, notamos os versos de José Craveirinha, como já foi demonstrado por diversos estudiosos, e a Carlos Drummond de Andrade:

“quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento no mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade
(...)
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
(...)
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo”


Embora anuncie a “monção” e a “morte do Adamastor”, metáforas da independência e do fim dos tempos coloniais, o poema, convocando versos de Craveirinha e Drummond, procura exorcizar o medo, há séculos, instalado em Moçambique. Consciente das mutilações sofridas por grande parte do povo, o sujeito lírico adverte (...) para a preemência de se restaurarem as emoções individuais bloqueadas pelos anos de arbítrio exacerbado, exaltando, então, a importância de cantar o amor, o desejo, os sonhos, a imaginação. (2)

Uma poesia que recorrerá ao surreal, pela livre associação de imagens apresentará a violência da realidade vivida no país, reativando o onírico presente no imaginário coletivo como forma de resistência para exorcizar o medo e trazer os sonhos adormecidos do moçambicano. Assim, recorrerá às raízes primevas na reconstrução da sua História e perceberemos as referências ao Índico, aos árabes e indianos entrecruzando-se às raízes das etnias negras e à herança trazida do Atlântico pelos portugueses, o que nos demonstra a identidade mestiça do país.

Com isto, o discurso se erotiza em um escrutínio sexo fundo com palavras. O recurso ao mar erotizado é uma constante em sua poesia: o mar, espumas e ondas são associados ao orgasmo, ao corpo da mulher, ao corpo da poesia e à linguagem num constante exercício metapoético que nos fazem viajar nas heranças ocidental e oriental na multifacetada identidade cultural moçambicana.




POESIAS

olhar em dispersão quando havia noite
e a casa em teu corpo era rubra e pétala
não sabia fingidor o silêncio
as pastagens húmidas
desejo na cidade quando o olhar em dispersão
e andavas com girassóis
via em teus cabelos era o corpo brunido
no escrutínio enebriante sumo contra os lábios
então passávamos a casa uma árvore na partitura
solta das mãos
queríamos seiva e nós quando o olhar
na noite em dispersão

(Monção, p. 21)


AUSTRALÍRICA

como dizer revolução sem eroniciar
no tempo
este admirável corpo de dança
a morna geografia do ventre
o mênstruo que é de sangue
e um arco-íris o goma
e a espuma cristaliza sobre a pele

e agora na monção escultora litanistórica
quando a vertigem do vento
vem de vir em teu rosto a inteira
irisdição
canto porque o poema se come
desde o milho à palavra em combustão!

(Monção, p. 25)


VARIAÇÃO DE NYAU

e os faunos bateram o som a pele fremente das planícies
abertas o vento corria vermelho por dentro e as mulheres
acordaram batendo mordendo o sumo dos cajueiros com
largas mãos acesas na noite a monção agónica nos tandos
espermáticos do olhar seios espigas verdes escorrendo leite
então o grito a alegria batendo alguém trouxera máscaras e
as gazelas húmidas sob a lua e o nervo das planícies abertas
quando os faunos bateram o som

(Monção, p. 26)


METAMORFOSE
ao poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento no mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e a metáfora

mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não a sete de Março
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo

enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícinio e amendoim
percutem outros tendões de memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS

(Monção, p. 27-28)


“Efectivamente o poeta Maiakovski suicidou-se”
oiço ler aqui
nesta espiral de esquinas e flâmulas
a um Poeta brasileiro
sentado sobre a pedra

minhas frases razuradas nas veias
que amor lhes dá
mais que o silêncio
e a magreza impúbere destes charcos suburbanos
ronda em tropel de espuma

haverá sereias vogando ao lado das folhas
dos poetas gregos?

Essa língua de Itabira
E agora num plano de Changara
Invenlírica pousada no tando súbito
Vermelho

Que pincel ou cor e forma
De suicídio

Mas te digo aqui a palavra
Entanto a espera dança
E o ritmo está bêbado

Disfarce do homem sem epílogo
Nem o poeta mata a poesia

(Monção, p. 29-30)


PARTITURA ECOLÓGICA
para a Manuela

suelto para a gazela na mesa grácil planura
em crescendo a colheita dum reflexo terno
tenro desejo animal harpejando arqueios
de códupula rápida

suelto para a alquimia ao vento de suas patas
na dança correndo o instinto solto e verde
o caçador espreita como ruge o trovão e a água
beija desprendida a pele trémula e eléctrica

suelto para a vida que morre e principia
no pulsar da fome ao sol do meio-dia

(Monção, p. 32)


nosso é o tempo do canto
conquistado a sangue
e terra

sobre o vibrato dos dias
alguma voz
são todas as vozes

este rosto etéreo a meu lado
e musgo nas marés do corpo
o sorriso de ser mundo
a noite nua
fremente

nosso é o tempo do canto
sobre o lugar
na descoberta palmo a palmo
de mais sol

o tempo amante
a voz da amada
o escrutínio deste sexo fundo
com palavras

(Monção, p. 33-34)


era a casa bailoçando em teus cabelos
e brunida ao fogo
a lança inexorável

quilha de barco ou convés
era o plâncton e a espuma
na exuberância das marés

era, meu amor, o tacto
de nós tão assim completo
tão assim exacto
que flores nasciam e se davam
na água do momento

e na epiderme desse silêncio
era sem dizer
que falava o esquecimento

(Monção, p. 36)


afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema

e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de pinheiros
rumorejando perto

a fúria das ondas
caindo brandas
no meu gesto

(Monção, p. 38)



EFABULÍRICA TABAGISTA

dormes como se morta
incendiado corpo nos dedos

ah! se tabaco fosses e lençol
no mais fundo da noite prismática
gizar o cigarro
fumando no teu sonho

(Monção, p. 48)


MUSICATÓRIO
ao Álvaro Marques

ó purilana queimada bacante
à 9a a fúria púbere
dionisíaco odre
ode instante

assim Beethoven se em périplo
chegasse à orla íris deste Msaho
aqui de sem pauta
mas seiva e nervura desde o tronco

e neste Olímpo de palmares
compor o delta a 4 mãos
e o sonho azeviche Fur Elise

enquanto os deuses esculturados em sura
dançassem o espanto e a matriz
indiciado mundo no Índico
onde só a terra gesta a raiz!

(Monção, p. 49)


SAGA PARA ODE

é preciso a distância para chegar
onde o poema parte e se reparte no léxico verde do teu corpo
com cinzas nocturnas e a madrugada nas mãos

é preciso o lugar ainda que doa
a emoção azul de sangrar por dentro
com o pensamento na galáxia terna do olhar

é preciso tudo como haver morte e flores
na raiz ao vento dos braços inteiros que se deram
por um nome uma ideia rubra nos lábios da liberdade

é preciso ver musgo e alegria até as ilhargas
da tua imagem garça a deslizar
e sorver água na exuberância lustral dos teus seios

é preciso a insurrecta solidão dalguns dias
quando os arquipélagos de ser dizem barco
e os teus passos espreitam
e tímidos percorrem o horizonte coral do silêncio

é preciso inventar-te porque existes
enquanto os deuses adormecem nas páginas dos livros
e o real é a infinita medida do canto
como acender as luzes ao meio-dia
e no mais sol das pétalas abertas
verter a seiva a singrar na terra

é preciso, meu amor, percorrer o tempo que nos deram
suspensos onde estamos nas pálpebras do verão

(Monção, p. 55-56)



(1) SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.3.

(2) SECCO, Carmen L. T. R. A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.

(3) PATRAQUIM, Luís Carlos. Monção. Edições 70. Lisboa, 1980.