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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mário Fonseca será homenageado na Associação Caboverdeana de Lisboa

CONVITE

A Associação Caboverdeana de Lisboa vai homenagear o cidadão e poeta de grande envergadura, Mário Fonseca, no próximo dia 17 de Dezembro, pelas 18,30 horas, na sua Sede (sita na Rua Duque de Palmela, Nº 2, oitavo andar) com o seguinte programa: :

-Testemunhos sobre a vida de Mário Fonseca por Maria Margarida Mascarenhas e José Eduardo Cunha;

-Abordagens da obra literária de Mário Fonseca por Elsa Rodrigues dos Santos e José Luís Hopffer Almada:

-Projecção de um vídeo de Mito Elias sobre Mário Fonseca;

-Recital baseado na obra poética de Mário Fonseca.

- Mini-Feira do Livro Cabo-verdiano


Fonte: e-mail gentilmente enviado por José Luís Hopffer Almada em 15 de dezembro de 2009.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A NAÇÃO nº 118 - 03/12/2009 - Mário Fonseca resenhado por Ricardo Riso

Prezados (as),

na edição 118 do jornal cabo-verdiano A NAÇÃO - 03 de dezembro de 2009 - resenhei o livro Se a luz é para todos (Praia: Publicom, 1998) de Mário Fonseca. Foi uma maneira de homenagear o poeta, falecido recentemente, e que tive o prazer de conhecer em um congresso sobre cultura cabo-verdiana na Universidade de São Paulo em novembro de 2008 e constatar sua fala serena, sincera e combatente em defesa da literatura e da cultura de seu país.

Para quem quiser a versão digital do semanário, basta deixar seu e-mail em algum comentário neste ou em qualquer outra postagem deste blog, ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com solicitando o referido arquivo.

A seguir, a resenha publicada nesta edição.

Abraços,
Ricardo Riso



Mário Fonseca – a luz da liberdade em forma de poesia

O teórico brasileiro Alfredo Bosi em O ser e o tempo da poesia afirma que a poesia há muito não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade (BOSI, 1977, p. 143), o que ficou evidenciado com o predomínio do sistema capitalista e sua voracidade em concentrar a riqueza entre poucos. Caberia a uma determinada categoria de poetas, aproveitando a eloquência natural e o olhar visionário, o dever de denunciar as mazelas impostas às classes desfavorecidas.

Nascido na Ilha de Santiago, Mário Fonseca (1939-2009) no seu livro Se a luz é para todos (Praia: Publicom, 1998) expõe sua solidariedade e humanismo exacerbados. Ele pertencia a essa classe de homens que, parafraseando Aimé Cesaire, possuía uma “postulação irritada de fraternidade” (p. 166), e assim versa: talvez / não viva / a minha / própria vida. / Pouco importa. / Vivo / a que / os outros / terão. / Mesmo se / dentro / de séculos! (p.111).

A defesa intransigente dos desfavorecidos percorreu toda a trajetória poética de Fonseca. No histórico suplemento literário Seló (1962), inserido no jornal Notícias de Cabo Verde, o então jovem poeta confirmava sua posição e escancarava as crueldades sofridas pelos seus conterrâneos sob o jugo colonial português: Lá vão eles / Vedê-os! Vedê-nos! / (...) Estrangeiros na noite e na vida (p. 16-18).

Contrapondo-se à longa noite (metáfora do colonialismo) e às injustiças impostas pelo poder ao redor do mundo, sua poesia escora-se na iluminação do fazer poético para, em metáforas e imagens virulentas de intensa luz, demonstrar a crença na vitória contra a opressão, mesmo que para atingir seu objetivo se perca a vida: Luzes! Luzes! (...) Que venha o dia (...) / Afastai de mim a noite (...) / Dai-me luzes e matai-me! Matai-me mas ilumina-me / Ilumina-me / Afogado em luzes / morrerei sorrindo (p. 82-83).

Incondicional, revela as desigualdades sociais no mundo porque sou poeta para as cantar (p. 76), Fonseca vale-se de sua erudição literária para convocar poetas maiores da cultura ocidental, revolucionários tanto na literatura quanto em suas posições a favor dos excluídos. Por isso clama por Maiakovsky, Rimbaud, Garcia-Lorca, Whitman, Eluard, Keats, ora inseridos em versos, ora em epígrafes, e também para mostrar metapoeticamente que a poesia / sol verdadeiro do nosso sistema solar / passe ao combate (...) passe ao ataque contra as bandeiras / por demais desfraldadas / da fealdade / da estupidez / da estreiteza de longos dentes / com todas as armas / com todos os gumes / da rima / do ritmo / da melodia (...) é preciso / urgente / necessário (...) para que / de pólo a pólo / o animal humano / entoe enfim / (...) o primeiro canto verdadeiramente humano (p. 86-88).

Demasiadamente humano, realizando a poesia / no próprio corpo da vida (p. 89), o combatente sujeito lírico de Fonseca saúda grandes líderes como Lénine, Patrick Lumumba e Che Guevara (p. 89), e sua indignação não se esgota, não tem fronteiras: Caboverdianamente vos digo / Enquanto houver um só / Homem algemado – um só! / Enquanto houver um só / Grito sufocado – um só! / (...) Daqui da frente poética / Pleno do vosso grito ouvido / Aos meus versos guerrilheiros / À plena voz gritarei: ao ataque! (p. 90)

A universalização da sua luta faz a travessia do Atlântico, relembra líderes como Langston Hughes e W. Du Bois, atinge as Américas, Chorai negros da América (...) Do Norte / do Centro / do Sul (p.101), alcança a Ásia e o necessário pan-africanismo do poema Eis-me aqui África, ou seja, sua solidariedade expande-se por todo o globo: Vale é querer / com força lutar / com força viver / na terra / de todos / por todos semeada. (p. 107)

De quem dedicou a vida a combater os regimes opressores do mundo, e não foram poucos. Mário Fonseca legou à Humanidade uma obra consistente, coerente e bela. Uma poesia para enquanto houver um ser humano sofrendo injustiça jamais se calará, nunca ficará ultrapassada, sempre será recordada e cantada.
(Ricardo Riso)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jornal A NAÇÃO (Cabo Verde): resenhas de Ricardo Riso

Prezados(as),

As imagens a seguir são do jornal A NAÇÃO, de Cabo Verde, Nº113 DE 29 DE OUTUBRO DE 2009. Nesta edição, na página 14, encontra-se a minha primeira resenha crítica - FILINTO ELÍSIO: LI CORES & AD VINHOS - para este veículo. A periodicidade será quinzenal. O texto, na íntegra e com alguns poemas do livro, encontra-se em http://ricardoriso.blogspot.com/2009/10/filinto-elisio-li-cores-ad-vinhos.html
Na próxima, o escritor a ser resenhado será o cabo-verdiano Mário Fonseca e o seu livro Se a luz é para todos; nas seguintes comentarei Praianas de José Luis Hopffer C. Almada e Lisbon Blues seguido de Desarmonia de José Luiz Tavares.

Para quem quiser conferir a versão em .pdf do jornal, basta deixar um recado aqui no blog ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com
Agradeço a todos os que me acompanham e incentivam nessa estrada.

Abraços,
Ricardo Riso


sábado, 26 de setembro de 2009

Mário Fonseca - 12/11/1939 - 25/09/2009

Faleceu, ontem, dia 25/09, na cidade da Praia, o poeta e ensaísta cabo-verdiano Mário Fonseca. Para melhores informações, acesse http://asemana.sapo.cv/spip.php?article45774&ak=1

Foi um dos maiores defensores da independência de Cabo Verde e da autonomia do continente africano, o que foi registrado em vários de seus poemas. Coerente, sonhador, batalhador, para ele o seu “espírito estava ocupado quase que exclusivamente a nível profundo a duas coisas: política e literatura”.

Que sua alma descanse em paz e à família minha sentidas condolências.

Ricardo Riso

PARA UM CANTO VERDADEIRAMENTE HUMANO

Antepassados imortais
imortal Maiakovsky
imortal Rimbaud
imortal Camões
imortal Keats
imortal Eluard
imortal Lorca
imortal Whitmann
e vós outros
inumeradas gargantas
de onde brotam
flamejantes dardos
da consciência humana
em assembleia
plenária
aberta
a todos os gritos
a todos os ventos
nós
herdeiros
pequenos
actuais
em assembleia
plenária
aberta
a todos os sonhos
de todos os homens
é preciso
urgente
necessário

que a poesia
sol verdadeiro do nosso sistema solar
passe ao combate

é preciso urgente necessário

que a poesia
tambor rítmico do mundo
passe ao ataque
contra as bandeiras
por demais desfraldadas
da fealdade
da estupidez
da estreiteza de longos dentes

com todas as armas
com todos os gumes
da rima
do ritmo
da melodia

com todas as granadas
da mente
do coração
dos nervos

é preciso
urgente
necessário

que a poesia
farol dardejante
no litoral minado
da fraternidade
passe ao ataque
ao ataque
ao ataque

paciente
ardente
contra
as contra-guerrilhas da exclusão
de ontem
de hoje
de fora
de dentro
do homem

é preciso urgente legítimo

que a poesia
passe ao ataque
brandindo as armas que com sangue forjastes
que com suor brandimos
na rude peleja
brandindo machados de percussão minuciosa
que decepem pela raiz
as fronteiras
por demais guardadas
da fealdade
da estupidez
da estreiteza
por onde se filtram
as quintas-colunas da separação
de ontem
de hoje
de fora
de dentro
do homem

que é preciso urgente legítimo
esmagar esmagar
para sempre esmagar
com todas as armas
com todos os gumes
da rima
do ritmo
da melodia
com todas as granadas
da mente
do coração
dos nervos

para que
de pólo a pólo
da terra ao sol
o animal humano
enfim liberto
das etiquetas
passaportes
diques
da separação
da exclusão
entoe enfim
no ar enfim lavado
o primeiro canto verdadeiramente humano

(FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1988. p. 85-88)