Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Malangatana Valente: 06/06/1936 - 05/01/2011
Portanto, aqui presto minha homenagem àquele que tanto me emocionou e emociona cada vez que folheio os livros que tenho sobre sua obra, do encantamento causado a cada apresentação que faço de sua arte, a este, como disse Mia Couto, “‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas”, encerro, dizendo apenas meu muito obrigado e que descanse em paz.
A seguir o primeiro texto que fiz sobre a obra de Malangantana Valente, para ler a versão completa clique aqui.
Ricardo Riso
Estar-se no sítio como moçambicano, como africano, e fazer com que as pessoas conheçam mais um pouco Moçambique:
Malangatana Ngwenya Valente
Para o meu primeiro texto sobre Moçambique não poderia ter deixado de escolher o pintor da Matalana, Malagantana Ngwenya Valente. Nascido em 1936 numa região de etnia ronga, sendo que o apelido Ngwenya, significa jacaré, venha da África do Sul, de seu pai, que era de etnia zulu, Malangatana talvez seja hoje o maior pintor da história moçambicana.
A obra deste artista apresenta-nos e obriga-nos a mergulhar entre seres mitológicos assustadores e homens, ora híbridos, perdidos, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade do colonialismo, a desumanidade das guerras colonial e da desestabilização em cores contrastantes e impactantes. Renascem figuras metamórficas, monstros que permeiam o imaginário do moçambicano, violentado com tantos anos de guerra. Mia Couto assinala:
“Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.
Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)
No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)
Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.”
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Malangatana - homenagem a Eduardo Mondlane
Malangatana até 21 Fevereiro
Homenagem a Eduardo Chivambo Mondlane - Pastor de Manjacaze
Pintura, Desenho e Ilustração são as propostas apresentadas numa iniciativa que, além de representar uma homenagem a Eduardo Chiovambo Mondlane - Pastor de Manjacaze, pretende assinalar e comemorar o 3 de Fevereiro, data alusiva aos Heróis Moçambicanos.
Com esta iniciativa, pretende-se envolver um maior número de cidadãos, ampliando a relação cultural, linguística, social e fraternal entre os moçambicanos (estudantes e trabalhadores) residentes em Coimbra e, mesmo, no País, e a população conimbricense, proporcionando ao público de Coimbra o contacto com a obra deste embaixador cultural de Moçambique.
Os fortes e antigos laços de amizade e cooperação que permanecem activos e se renovam, permanentemente, entre a nação irmã de Moçambique e a cidade de Coimbra, justificam e incentivam que acções como esta sejam sempre bem-vindas e aufiram da qualidade e diversidade que permitem contribuir para um maior enriquecimento e enraizamento entre as Instituições e os cidadãos.
A obra de Malangatana Valente, reconhecida em todo o mundo, apresenta um artista multifacetado, distinguido com elevados galardões do seu país e de países estrangeiros, portador de um currículo grandioso materializado em exposições individuais e colectivas e prémios artísticos nos mais diferentes espaços mundiais e nas mais diversas organizações de arte ostentando, também, um extraordinário palmarés do criador de Instituições de arte, do fomentador da cultura africana, do participante em actividades de âmbito social e humanitário da UNICEF e de cidadão da Paz.
Na polivalência da sua criatividade, Malangatana mostra-se como pintor, ceramista, cantor, actor, dançarino e poeta afirmando, em todo o lado e com o orgulho de inquestionável patriota, a sua origem africana e moçambicana. Em todas as iniciativas em que está presente (festivais, workshops, colóquios, exposições, membro de júris, conferências, encontros) proclama com alegria a sua identidade e abraça com amor as raízes da sua civilização.
Ao analisarmos a sua obra no contexto das artes plásticas, vemos um percurso de coragem, de determinação, de sensibilidade e de opção artística na área em que se notabilizou. Desde criança que sentiu uma vocação para a arte, descoberta nas capacidades inatas que o acompanhavam e fortalecida no querer indómito de ser pintor profissional. Apoiado e estimulado por amigos, veio a organizar a 1.ª exposição em Lourenço Marques, em 1961. Depois, frequentou escolas de arte, recebeu uma bolsa da Gulbenkian, viajou para diversos países, visitou galerias e museus, relacionou-se com artistas e criou a sua própria identidade artística, com características especiais que o prendem às suas raízes, à ancestralidade do seu povo, aos modos de vida, aos costumes e aos mitos e valores do seu país.
Com os conhecimentos da sua vivência comunitária enraizou esse património sem preço e a partir dele elabora um mundo imaginário ancestral africano com ligação ao real quotidiano. A sua pintura evoluiu com a grandeza da sua imaginação, saber e criatividade, passando por sucessivas formas e técnicas, desde o neo-barroco ao expressionismo e ao surrealismo, mas sem se afastar das características que o consagram. A cor, o traço, o contorno clarificante, a força dos seus "protagonistas", enfim, o conteúdo das composições, expandem um pendor reflexivo que emerge na inquestionável qualidade, que consagra um artista, que sem medos e com o querer dos grandes homens construiu uma obra que honra as artes plásticas e é bandeira desfraldada de Moçambique em todo o Mundo.
Neste entendimento, visitar e ler, na Galeria Pinho Dinis, a pintura de Malangatana é colher, nos seus trabalhos, a beleza, a inquietação, a denúncia, a revolta contra tempos passados e o sentimento de liberdade e de paz.
Fonte:
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Moçambique - literatura e artes plásticas
Comecei com a crônica de Mia Couto, “Perguntas à Língua Portuguesa”. Nesta, apresentei sua postura em relação ao uso da oratura na escrita, os neologismos e suas brincriações, e a emancipação de um falar moçambicano independente à matriz européia.
A seguir, selecionei um trecho inicial de “Terra Sonâmbula” e apontei a característica expressionista do romance, ambientado em tempos de guerra, com intensa presença de cores como o vermelho e com a fragmentação da família, das perdas da raízes. Daí a comparação com a tela “Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros?” de Malangatana. Ambas, tratam de uma busca incessante das raízes perdidas em tempos de horror e inconseqüências desestabilizadoras da sensibilidade humana.
Depois, li trechos da crônica “O Gênio Ingênuo" de Mia Couto a respeito da obra de Malangatana Valente. Basicamente, comentei características formais e temáticas da pintura do pintor da Matalana como o surrealismo e a presença dos sonhos em “Monstros grandes comendo monstros pequenos”, explorando a representação de seres do imaginário da etnia ronga como os shetanis, lumpfanas, xicuembos etc., as cores vibrantes, os excessivos elementos asfixiados no espaço da superfície pintada e a analogia com a situação moçambicana perante o colonialismo português, o sincretismo religioso em “O feitiço”, e a planaridade da tela numa relação próxima com a técnica do all over de Jackson Pollock.
Ao usar o conto “O cego Estrelinho” de “Estórias Abensonhadas”, atentei-me às novas formas de olhar engessadas em meio à voracidade da guerra, expressas no conto quando o cego Estrelinho conduz sua guia além dos vários firmamentos com as pinturas oníricas de Roberto Chichorro. Destaquei o lirismo da narrativa coutiana acompanhado pelas cores e temas expostos por Chichorro. O predomínio da cor azul e a analogia com o infinito, a liberdade e a imaginação criadora, segundo Gaston Bachelard; os olhos também na cor azul, sendo o surrealismo onírico citado por Carmen L. T. Secco, os olhos dos sonhos a imaginar uma vida sem as atrocidades reinantes dilaceradoras da paz entre os homens. Além das alegorias de pássaros, do ar como elemento da natureza, representando os vôos da imaginação e da liberdade.
Ainda com Mia e Chichorro, aproveitei para mostrar dois momentos de esperança na história recente de Moçambique. O primeiro está retratado na tela “sonhar amanhã sem lágrimas”, onde Chichorro transmite toda a euforia do momento de nascimento de Moçambique independente com destaque para a representação de duas personagens lendo livros. Lembro que o idioma português, ou seja, a língua do colonizador, foi utilizado como arma para unificação das etnias contra o regime então vigente. No segundo momento, usei o conto “Chuva: a abensonhada” para falar do encerramento da guerra fratricida, a desconfiança inicial do narrador com o futuro e a entrega feliz, lúdica, com a paz que se inicia.
Para finalizar, abordei possíveis relações da obra coutiana com a arte multifacetada de Naguib. Em texto para catálogo de sua exposição, em que Mia frisa o caráter plural da arte do artista da região do Tete. A respeito da arte deste artista, Mia comenta: “obra de mestiçagem, sem buscar as identidades mas as fronteiras, os cruzamentos e as viagens. Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos do nosso tempo moçambicano, as diversas raças do nosso ser colectivo”.
Foi explorando o multiculturalismo nas obras de Naguib que comentei as múltiplas linguagens utilizadas por ele, como a fotografia, a pintura, o uso de jornais, sites specifics, grafismos como hieróglifos nos remetendo a um passado esgarçado na tentativa de revivê-los. Além disso, sua arte é sensual, erótica, livre e celebradora da vida de um novo tempo moçambicano, com destaque para as mulheres zoomorfas.
Para finalizar a apresentação, entre Mia e Naguib, em comum, a linha tênue da ancestralidade/modernidade. Em Naguib, os procedimentos contemporâneos: fotografias para retratar a árvore sagrada, o embondeiro, com pinturas rupestres. Em Mia, o conto “O embondeiro que sonhava pássaros” de “Cada homem é uma raça”, também aponta para o resgate das raízes perdidas por séculos de colonização, representado pelo menino Tiago, filho de portugueses no tempo da colonização, o seu envolvimento com a cultura local e a presença do animismo africano trabalhado com brilhantismo pelo narrador.
Com isso, procurei mostrar a confluência das artes desses artistas moçambicanos, perseguidores da memória esfacelada, dos sonhos esgarçados, desbravadores das sendas de lirismo da poesia em um mundo dominado por mentes obliteradas. Artistas que prezam por expor um país multicultural, sem omitir os olhares atentos às mazelas sociais e políticas na expectativa de um tempo novo para Moçambique. Um tempo sem a crueldade do outrora e distante da perversidade neoliberal da atualidade.
Para quem quiser acessar a apresentação, basta acessar este endereço:
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Mia Couto: O beijo da palavrinha
Com o lançamento no mercado brasileiro da editora Língua Geral, especializada em divulgar autores da língua portuguesa, e sua coleção intitulada Mama África, direcionada ao público infantil com contos tradicionais africanos escritos por autores consagrados e ilustrado por artistas plásticos igualmente prestigiados, resolvi analisar um título da coleção mencionada, a saber: O beijo da palavrinha, escrito por Mia Couto e ilustrado por Malangatana Valente. Dois artistas moçambicanos comprometidos com a sua terra, com a pluralidade cultural de seu país, com o bem-estar entre os homens das diversas “raças” e crenças, e que fazem do universo onírico o espaço necessário para perpetuar os seus desejos de liberdade, de preservação das culturas autóctones e de uma sociedade plural e pacífica.Em O beijo da palavrinha, Mia Couto conduz-nos ao interior de sua Moçambique, a um lugar onde vivia uma menina que nunca vira o mar, e para enfatizar a distância da localidade do litoral, afirma: viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz. Logo na primeira página o autor contextualiza, de maneira simples e clara, o ambiente de dificuldades causados pela seca e miséria, que se confirma no próprio nome da personagem principal, Maria Poeirinha, a indicar o flagelo, a vida sem maiores aspirações da menina. Os nomes das personagens são fundamentais para compreender a obra coutiana. O uso da onomástica apresenta características que compõem os personagens de suas estórias. Há de se ressaltar também o trabalho gráfico que faz uso de uma fonte em tamanho reduzido, pequena e discreta na oração em que o nome da menina é apresentado em relação aos outros parágrafos desta página inicial a chamar a atenção do leitor-criança para a condição minúscula da personagem. Ao lado do texto temos a ilustração de Malangatana em uma de suas principais características, a imagem poluída por figuras humanas, confinadas e asfixiadas no espaço limitador da moldura da tela, estilo que brilhantemente representava a condição dos moçambicanos diante da ação colonizadora e da posterior guerra civil que assolou o país em diversas pinturas da sua carreira, além da cor vermelha constante na obra do artista, e principalmente as diversas expressões faciais encarando o leitor, que retratam espanto, tristeza, melancolia, dor e indiferença. O artista ilustra o povo da aldeia, procura valorizar a cultura autóctone, caracterizando suas pessoas com trajes típicos como cordões e ornamentos nas cabeças, e utensílios domésticos como um vaso.
Diante da miséria em que a personagem vivia, até o sonho, espaço libertador dos descaminhos de um sofrido cotidiano, espaço para se escorar no universo onírico para dar asas à imaginação e trazer um pouco de alento a tão triste vida, nem nesse espaço ilimitado e livre a menina consegue desvencilhar-se de sua condição, como relata o autor: até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos. Às vezes se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos. A descrição de seu manto representa o seu viver fragmentado e frágil como grãos de areia, a falta de ambição porque talvez nem saiba o que isto seja, e ausência de qualquer expectativa de melhora, pois o que imagina bom está distante como a princesa de um livro, condição esta que também é motivada pela hostilidade do ambiente em que vive. O seu espaço físico-geográfico hostil, é o que decepa as asas literárias do sonho para rapidamente recolocá-la no seu meio, na sua realidade crua, de pés descalços, intenso calor e rio seco: Mas depressa ela saía do sonho pois seu pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão. Enquanto isso, Malangatana representa em intensas alegorias o sonho da menina, porém percebemos um peixe enorme e furioso pronto para aboncanhá-la e, assim, trazê-la para o seu mundo. E diante dos sonhos interrompidos, mais uma vez o predomínio dos tons avermelhados na ilustração.
Dois coadjuvantes são apresentados. Primeiro, seu único irmão, Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa. A seguir, o tio Jaime Litorânio que achava um absurdo seus familiares não conhecerem o mar, pois este o havia aberto a porta para o infinito. Para Jaime Litorânio o mar era seu universo de liberdade contra as agruras da vida, como acreditava: havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do sol mas das águas profundas. O mar, a porta para o infinito, um infinito de liberdade, sem pobreza, sem miséria que vinha das águas profundas, contrastando com o pélago profundo de Charles Baudelaire em As flores do mal. O mar infinito como lugar de refúgio, abrigo, acalanto, como lugar de toda cura contra as mazelas da vida. Assim pensava Jaime Litorânio, que destaca em seu nome sua paixão pelo mar. O infinito é destacado na diagramação das páginas desta passagem. E Malangatana retrata a luz deste mar profundo em figuras dispersas, apenas rostos, rostos impessoais, fragmentos de rostos flutuando (nadando) no espaço. O mar que exige a alma inteira, entregue para visualizar e reconhecer a mencionada luz, que pode ser a própria luz da pessoa que se dispõe a tal exercício libertário.
Daí o tio crer que a cura da doença da menina, quando esta desenvolve uma terrível enfermidade que a leva à beira da morte, ser o momento exato para que conhecesse a praia e descobrisse outras praias dentro dela. A incredulidade dos moradores da aldeia apresenta-se: Mas o mar cura assim tão de verdade?, entretanto o tio permanece convicto e insiste na salvadora viagem. E Malangatana apresenta um destemido navegante na popa de um barco, cônscio de sua sagrada missão, a de conduzir a pobre Poeirinha que parece nos encarar assustada com a velocidade dos acontecimentos e proporcional rapidez da morte que se aproxima.
Contudo, a viagem não se concretiza em razão da elevada fragilidade da menina. As pessoas não sabem o que fazer e sua mãe começa a entoar as velhas melodias de embalar. Em vão. Momento que Malangatana registra com lirismo comovente o leito de morte de Poeirinha, cercada por conhecidos e sua mãe que pega a sua mão. Todos já se conformam com a morte de Poeirinha, já preparavam as finais despedidas, até que aparece na cena seu irmão Zeca Zonzo com um papel e uma caneta.
Zeca Zonzo informa que vai mostrar o mar para irmã e surpreende a todos ao não desenhar o que esperavam, como um oceano azul cheio de peixes. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra “mar”. Apenas isso: a palavra inteira e por extenso. Zonzo ainda não sabe o que fazer, até que sua irmã murmura em débil suspiro: Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada, tão cansada que já não consegue se levantar. Os olhos, as pálpebras sem forças para se levantar, a luz cansada. Faróis, faróis de luz que iluminam a vida. O olhar distante da menina que olha apenas de soslaio para a discreta claridade no alto a sua esquerda, a remeter características barrocas, como o claro x escuro, o contraste entre o terreno e o sagrado, a posição superior diagonal da luz invadindo a ilustração e o tratamento granulado empregado pelo artista na realização da obra.
Com a fragilidade da irmã, Zeca Zonzo resolve ajudá-la: Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu. Sendo, em seguida, repreendido pelos pais que achavam se tratar de mais um desvario da criança vazia, porém o menino está determinado no seu objetivo e guia o dedo da menina sobre os traços que desenhara. Todavia, Poerinha denuncia sua condição e, entre murmúrios, diz: Estou tocando sombras, só sombras, só. É a vida que se esvai do corpo, desprendendo-se para outro plano, outra vida, como a aura disforme retratada por Malangatana que envolve e se vai do corpo físico para o plano espiritual, a caminhar sozinha em um novo mundo desconhecido, um mundo de sombras, o que é realçado na diagramação do texto com o destaque para a palavra só com a fonte em tamanho maior.
Entretanto, Zeca Zonzo insiste e sopra os dedos da irmã como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel. Com o dedo guiado pelo irmão, Poeirinha consegue decifrar a primeira letra, o “m”, momento em que os dois sorriem sem que os outros presentes compreendessem o motivo da alegria. A letra “m” é descrita pelo narrador como feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem, e Poeirinha recorda-se das ondas do rio: Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.
E passa para a letra “a”. É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria. Nesta passagem, Malangatana representa a dor da menina em seu leito com a gaivota imaginária. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela. As pessoas ao redor estavam emudecidas diante das crianças que chegam à última letra: É uma letra tirada da pedra. É o “r” de rocha. E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. Mais uma vez o vermelho ressurge na pintura de Malangatana, os dedos da menina sangram, mas o olhar não revela dor, mas sim, um distanciamento, um vazio, talvez o fim que se anuncia.
Emocionado diante da situação o tio Jaime Litorânio diz: Calem-se todos: já se escuta o marulhar! O som do mar que anuncia a mudança de estado de Poeirinha. E abre-se espaço para o universo onírico de Mia Couto aparecer com a reconhecida maestria: Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. É o vôo da liberdade para uma nova vida sem as agruras da vida terrena. É retomando o sonho da menina transcrito no início do livro e o fantástico surge entre as palavras e viajamos com a gaivota branca ou no rio dos seus sonhos. Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeirinha que se erguia? (...) Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto de remoinhos, remendos e retalhos? A paz, a liberdade e a harmonia sendo conduzidas nas asas de um pássaro, animal que tantas vezes aparece na literatura moçambicana, não só em Mia Couto, mas também nas poemas de Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, e constantemente representado nas pinturas de Roberto Chichorro.
Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra a lenda do flamingo e do nascimento da noite. Conta sobre um flamingo que um dia resolve não mais voar, que está cansado de viver e que deseja ir a um lugar onde só há luz, mas não é dia, e a ave parte e diz aos seus pares: não quero mais pousar, só repousar. E parte em direção ao sol poente:
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.
Ou seja, os pássaros são tidos como animais sagrados que também fazem essa transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.
Terna e bela é a última ilustração de Malangatana, ao retratar a menina em seu leito de morte, cercada por seus familiares com olhares complacentes após o seu derradeiro suspiro. O fundo azul simbolizando o mar, a colcha de retalhos, os peixes e a sua passagem desta para outra vida.
Não apenas por ser um livro infantil, mas as crianças são bastante representativas nas literaturas africanas de língua portuguesa, pois estão mais próximas dos antepassados devido a pouca idade, assim como os mais velhos que também estão mais próximos, mas pelo avançar da idade. As crianças são argutas, espertas, observadoras e inocentes, e geralmente ajudam a solucionar conflitos, vivenciam os dramas do período colonial e da guerra. Em O beijo da palavrinha, o personagem Zeca Zonzo era tratado como um menino que nada sabia, nada resolvia, desprovido de juízo, entretanto, partiu dele a idéia de ajuda a irmã, surpreendendo a todos, e mostrando a ela como era o mar, porque nem o tio Jaime Litorânio com todo o seu amor pelo mar conseguiu apresentar à menina como era o oceano, e o menino, de maneira lúdica, teve a felicidade de conduzi-la ao mar através da leitura e da escrita. É importante frisar a presença desses dois últimos componentes na construção de Moçambique independente, e o autor Mia Couto foi um dos participantes nesse processo de divulgação e unificação da nação pela língua portuguesa.
Podemos fazer a seguinte analogia a partir da atitude dos dois irmãos, o estado de saúde de Maria Poeirinha com a palavra “mar” e a tríade início-meio-e-fim. O “m” de mar com suas ondas que sobem e descem, como a condição da menina extremamente doente em seu leito de morte; a letra “a” do mar como a gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria, momento em que todos ao redor haviam se calados pela perplexidade com que a criança vai sendo apresentada ao mar ou pela brisa fria, o vento frio a indicar que algo de ruim estaria por vir, enquanto as crianças, no universo imaginário, preocupavam-se em não demorar com o toque sobre a letra para não espantar o pássaro que ali estava; e quando encerram a leitura e a escrita da palavra mar a menina reconhece a letra “r”, o r da rocha. E os dedos da menina magoaram-se no rugoso r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. A letra “r” muito bem observada pelo autor por causa da sua tipografia. O “r” de rocha que encerra a onda, local de repouso das aves, rocha na beira do mar de vento frio a simbolizar o fim, o término da vida de Maria Poeirinha.
E assim a menina é conduzida pela gaivota e navega no derradeiro sonho.
Eis minha mana Poeirinha que foi beijada pelo mar. E se afogou numa palavrinha.
COUTO, Mia. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Malangatana Valente - poemas
Para conhecer a pintura de Malangatana, visite http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/estar-se-no-stio-como-moambicano-como.html
e a relação dele com o poeta moçambicano José Craveirinha, visite
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/11/craveirinha-e-malangatana-comunicao.html
A seguir, alguns poemas deste multifacetado artista.
A coruja
A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;
O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana* Muhlonga
apitava o Kulungwana* mortal;
Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.
Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.
In Livro "Vinte e quatro poemas" de Malangatana Valente Ngwenya, edição do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, 1996 pag.35
A Mamã preocupada
Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?
Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
In livro de Malangatana Valente NGWENYA "Vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Portugal,página 24
Amor Verde
Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom
Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
In Do livro "Malangatana - vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Instituto Superior de Psicologia Aplicada-CRL, Lisboa, em 1996, o poema na página 32.
Pensar alto
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor
enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.
http://kafekultura.blogspot.com/2007/06/valente-malangatana-pintura-poesia.html
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Craveirinha e Malangatana - Comunicação UFRJ
RESUMO: A presente comunicação propõe-se a analisar a produção artística de José Craveirinha, com o livro Cela 1, e a série Desenhos de prisão, de Malangatana Valente, que retratam o recrudescimento da violência imposta pelo regime ditatorial português. O objetivo central é estabelecer um diálogo entre as duas obras realizadas quando os artistas eram prisioneiros nas cadeias da pide, e como a experiência da asfixia do cárcere serviu de inspiração para denunciar as mazelas da guerra, a reconstrução da memória coletiva e a afirmação de um Moçambique independente.
Os poemas de José Craveirinha em Cela 1 referem-se à produção literária que os críticos das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa denominam como a poesia de combate ou de protesto, momento histórico em que os temas políticos e sociais eram necessários. Porém, os dois artistas não reduziram seus trabalhos ao estilo panfletário comum à época. Em meio à revolta justificada por séculos de injustiças sofridas por causa da ação colonizadora, os poemas apresentam a pluralidade cultural que compõe o corpo moçambicano e abordam uma postura contrária ao regime salazarista, que esmagava as manifestações tradicionais locais.
os pensamentos tuberculizam-se em esquadria
e uns atrás dos outros aos cardumes de náuseas
sangram cotovelos nos ladrilhos.”10
racham-me as unhas na lascívia das macias
paredes de cimento (mentira não são macias) caiado
e no amoroso cárcere ensurdecedor de silêncios (...)”11
os pulsos mata-fomes do grande rato verde do medo
o imaginário omnipotência dos nossos feitiços impossíveis aqui
e o táctil gosto das pontas dos dedos nas paredes (...)
E por dentro a porta ao meio
mais cega
mais surda
e mais muda do que nós
no papel autêntico
de porta fechada.”13
Sala de Castigo da PIDE
No cárcere, Craveirinha mostra-nos um tempo próprio do preso no seu cotidiano de “ausência citadina”. Em uma linguagem paradoxal e muitas vezes sinestésica, o sujeito-lírico versa sobre a angústia da espera, o silêncio e o barulho, as informações passadas sob os olhares dos carcereiros, o breve contato com a família:
“(...) Em centésimos de segundo
os nossos olhos privilegiados
decifram estritas instruções
de mil e duzentas palavras. (...)”16
“(...) e depois as noites de vinte e quatro horas a fio
ensurdecedoras de silêncio dos ponteiros de angústia (...)”17
relojoados centímetro a centímetro ida e volta
na perspectiva de mundos de nada todo o dia. (...)”18
“(...) – ‘São 30 minutos e acabou!’ (...)
Mas a cada visita (...)
Mais sessenta segundos com a família
Não era mais nada
... ERA OURO!”19
Uma outra presença marcante nestas obras é o nefasto torturador, os agentes da PIDE encarregados de interrogar os presos. Com ódio e violência desmedida, estes agentes “de olhos raiados de sangue”20 procuravam minar a auto-estima dos que ali se encontravam sob suas garras, utilizando variadas e repugnantes práticas de tortura denunciadas na escrita corrosiva do poeta:
“(...) E ao ritmo
da contradança de joelhos nus nem parece
que algures há cartilagens sangrando
a esfolar-se no chão das cadeias.”21
“(...) Quietos
quatro horas seguidas
comodamente sentados numa cadeira
ao milésimo século de perguntas (...)
Mas...
não falamos!
Nossos
sorrisos moçambicanizados
previamente a carícias
de cacetadas.
E
as bocas inchadas
a sangue natural imitando o vermelho
torna autêntico este verso.”22
A desprezível figura do torturador foi ilustrada por Malangatana, recebendo a alcunha de “Chico Feio, o espancador da PIDE”. A degradante personagem é mostrada em cenas de violência extrema contra os prisioneiros, violência motivada pela ditadura salazarista, revelando o ódio que os agentes possuíam pelos revolucionários, como em “O prisioneiro” e “A cela”. Na ilustração supracitada, em “Devoragem” e “Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento”, Malangatana substitui os espíritos das religiosidades ancestrais. Os seres fantásticos como os xicuembos, lumpfanas e shetanis que vivem no imaginário fragmentado dos seus compatriotas, tornam-se imensas e assustadoras figuras híbridas, com olhares alucinados, garras e dentes afiados. São monstros materializados, do e no tempo presente, os agentes da PIDE. Como observou Julio Navarro: “sem perder a qualidade estética, pelo contrário, Malangatana começa a integrar no seu imaginário aquela ligação dos seus monstros (...) com o monstro real: o colonialismo”23.
Chico Feio, o espancador da PIDE
O prisioneiro

A cela

Devoragem

Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento
Entretanto, a resistência à tortura é ilustrada por Malangatana em “Apoio moral aos espancados cela IV” e motivada por Craveirinha com impactantes versos a clamar a união e a afirmação dos moçambicanos, e a inverter a relação com o carcereiro:“(...) E no sofrimento deste prédio
nós os presos e os que não foram presos
conseguimos o seguinte consenso:
– Voz de prisão aos carcereiros!”24
“(...) Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!
Será suficiente esta confissão
sr. chefe dos cassetetes
da 2ª brigada?”25
“(...) Pátria:
o nosso próprio receio
leva-nos ao cúmulo da fúria
mas ao carcereiro o próprio medo
fabrica para toda a polícia
o auge do desespero.”26
O projeto de nação em sua poesia surge antes da participação na FRELIMO e da guerra colonial. Para Fátima Mendonça o Velho Cravo é “o primeiro escritor a apresentar o espaço geográfico moçambicano em termos de nação”27, e complementa afirmando que:
“O elemento de afirmação nacional que emerge, desde o início, da poesia de José Craveirinha, é pois gerado e produzido por um real definido e marcado, porventura apreendido pelo poeta numa fase em que a sua configuração não é perceptível a muitos: o poeta limitou-se a antecipar-se no tempo, captando e prevendo, assumindo-se finalmente como o ‘fabricante de vaticínios infalíveis’.”28
Portanto, a Pátria é cantada em várias formas, sendo motivo para agregar os moçambicanos sedentos por liberdade:
“(...) Mas
a arma da paixão mais secreta
dos filhos que amam a terra-mãe cem por cento (...)”29
“(...) Este infinito sentimento
no recíproco amor a homem e mulher
para jamais nos esquecermos de vez
do amor dos amores mais amados
o amor chamado pátria!”30
“(...) percorro este universo emigrando
diariamente no interior africano
deste território minha pátria
escondido no meu país.”31
Malangatana Valente recorre aos sonhos para suportar as agruras do colonialismo em desenhos como “Sonho, nota de soltura” e “Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas”. Já José Craveirinha versa sobre o desejo de almoçar com a família em casa “depois do grande sonho conseguido”32. Sonho que somente se concretizaria em 25 de junho de 1975, com a efetiva participação dos dois artistas que viram Moçambique se tornar independente. Com isto, o livro Cela 1 foi publicado em 1980 e a série Desenhos de prisão foi exposta como parte das comemorações do 70º aniversário de Malangatana Valente em 2006, imortalizando em suas obras a terrível experiência do cárcere na luta contra o colonialismo.
Sonho, nota de soltura
Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas
BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 88-107, 2002.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994.
CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.
CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980.
FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989.
LEITE, Ana Mafalda. A fraternidade das palavras. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 20-28, 2002.
NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 40-51, 2002.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.
REFERÊNCIA INTERNET:
FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES. http://www.fmsoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.
NOTAS:
1 BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 143.
2 FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989. pp. 32-33.
3 CHAVES, Rita. José Craveirinha: a poesia em liberdade. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 139.
4 Idem, ibidem. p. 141.
5 CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. p. 35.
6 CHAVES, Rita. Entrevista: José Craveirinha. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. pp. 241-242.
7 CHABAL, Patrick. Entrevista: Malangatana Valente. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994, pp. 207-208
8 CHABAL, Patrick. Entrevista: José Craveirinha. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994. pp. 99-100.
9 SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 45, 2002.
10 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 73.
11 Idem, ibidem, p. 15.
12 BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 100.
13 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 47.
14 FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES. http://www.fmariosoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.
15 SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003, p. 226.
16 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 84.
17 Idem, ibidem, p. 76.
18 Idem, ibidem, p. 73.
19 Idem, ibidem, p. 68.
20 Idem, ibidem, p. 49.
21 Idem, ibidem, p. 10.
22 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 14
23 NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.
24 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 72.
25 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 38.
26 Idem, ibidem, p. 28.
27 MENDONÇA, Fátima. O conceito de nação em José Craveirinha, Rui Knopfli e Sérgio Vieira. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 54.
28 Idem, ibidem, p. 54.
29 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 17.
30 Idem, ibidem, p. 21.
31 Idem, ibidem, p. 81.
32 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 35.
terça-feira, 10 de julho de 2007
Malangatana Ngwenya Valente
Malangatana Ngwenya Valente
Para o meu primeiro texto sobre Moçambique não poderia ter deixado de escolher o pintor da Matalana, Malagantana Ngwenya Valente. Nascido em 1936 numa região de etnia ronga, sendo que o apelido Ngwenya, significa jacaré, venha da África do Sul, de seu pai, que era de etnia zulu, Malangatana talvez seja hoje o maior pintor da história moçambicana.
A obra deste artista apresenta-nos e obriga-nos a mergulhar entre seres mitológicos assustadores e homens, ora híbridos, perdidos, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade do colonialismo, a desumanidade das guerras colonial e da desestabilização em cores contrastantes e impactantes. Renascem figuras metamórficas, monstros que permeiam o imaginário do moçambicano, violentado com tantos anos de guerra. Mia Couto assinala:
Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.
Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)
No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)
Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.
O feitiço, 1962.
Os seres representados são tantos, diversas alegorias a conduzir nosso olhar. Antepassados e figuras fantasmagóricas misturando-se, fragmentadas como a memória do homem moçambicano distante de suas raízes primeiras após tantos séculos de colonização e supressão de suas manifestações culturais. Frederico Pereira comenta:
Essa fragmentação, onde se encontram seres múltiplos da mitologia ordinária e da mítica pessoal, não evolui de facto em direcção a espaços organizados e organizadores. São esses espaços que permitem ao criador e ao Olhar do receptor encontrar-reencontrar na Obra uma fala que, ao invés de caótica, mas será polifônica. Aí se intui a presença, com efeito, de seres-em-diálogo, entre si e connosco. Seres-em-diálogo que dizem ainda: ‘Isto sou eu; isto é a minha terra; isto é a minha Cultura-Mãe’.

O poço sagrado, 1985.
É a maneira como Malangatana consegue descobrir soluções plásticas para ilustrar e, conseqüentemente, apresentar, denunciar a condição de seu povo, são estes fatores que fazem dele um artista maior. Trata-se da forma que arranja e re-arranja os elementos pictóricos que, logo, universaliza a sua obra ao olhar do espectador e “faz recordar-nos assim aquilo que os nossos tempos nos querem ir conduzindo a esquecer”, como observou Frederico Pereira.
É a consciência de ser moçambicano, a afirmação dos valores de sua terra contra a opressão da ditadura salazarista, metonimizada pela PIDE, que faz com que o artista explore a exaustão as figuras fantasmagóricas e dilaceradas que compõem o fragilizado e amedrontado universo onírico de Moçambique. Carmen Lucia Tindó Secco lembra que:
Há uma ausência de vazios que tenta suplementar as lacunas provocadas pelo processo de neutralização das alteridades, ao longo de séculos de submissão. Animais e homens. xicuembos (espíritos de antepassados) e shetanis (figuras mágicas e fantasmagóricas), lagartos repulsivos (os lumpfanas, que, segundo lenda das tradições moçambicanas registrada por Henri Junod, foram os responsáveis pela transformação dos homens em seres fadados à morte e não mais passíveis de ressurreição) e ngwenhas (jacarés com dentes afiados), seres híbridos e pássaros míticos como o ndatli (conhecido como o galo do céu, a ave do relâmpago e do trovão), se entrecruzam em metamorfoses, algumas vezes monstruosas, desvelando temores profundos, enraizados na alma do povo apequenado por tantas violências sofridas, materializadas por afiadas e ferinas garras.
É exatamente por ter a habilidade necessária para “sem perder a qualidade estética, pelo contrário, Malangatana começa a integrar no seu imaginário aquela ligação dos seus monstros – sexuais, tradicionais – com o monstro real: o colonialismo”, conforme observou Júlio Navarro e tinha percebido Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, fazendo-o a seguinte recomendação segundo palavras do próprio Malangatana:
(...)Em abril de 1961, essa foi a minha primeira exposição individual. Esta exposição coincidiu também com a vinda do sr. Eduardo Mondlane, que eu conheci pessoalmente, a ele e à mulher. Falei com ele e até pedi se ele não me podia dar uma bolsa para ir para os Estados Unidos. Nesta altura, ir para a América, ou sair dali era qualquer coisa que seria importante. E ele aconselhou-me a que não saísse daqui, porque tinha uma pintura que devia continuar a beber nas minhas raízes aqui, no aspecto de etnografia, de sociologia... Eu não entendi, de facto isso. Só compreendi mais tarde. Mas de qualquer modo obedeci, fiquei.
Esta referência às raízes ronga da Matalana foi realçada por vários que apoiaram o pintor nos primeiros anos de atividade artística. Malangarana cita seu amigo, o arquiteto Miranda Guedes.
Comecei por pintar uma pintura de paisagem, um pouco daquilo que se chamava retrato; não chegava a ser um retrato fiel. Continuei com naturezas mortas, mas depois comecei a dedicar-me à pintura decorativa, que foi provocada pelo facto de o arquitecto Miranda Guedes me ter consignado a pintar a contos, contos tradicionais. Aliás, quando ele me tirou do Clube de Lourenço Marques em 1960, a primeira coisa que ele faz é mandar-me de férias para junto de meus pais, para me reambientar, e trazer alguns contos para poder pinta. Isso fez com que a minha pintura, de facto, fosse mais para o sentido decorativo.
Na simbiose entre seres mitológicos e religião, depreendemos o caminhar na linha fronteiriça entre um mundo e outro a partir do caminhar do artista: tinha uma tia curandeira, da qual foi ajudante por algum tempo, ter estudado na escola da missão suíça e aprendido a língua ronga e todo o conhecimento tradicional aliado ao ensino da leitura, e posteriormente o ensino em uma escola católica onde não era permitido o uso das línguas locais e valorizado o ensino religioso. E é por subverter o espelhamento da cultura dominante que sua obra aproxima-se do barroco, mais precisamente do neobarroco, através da crítica à imposição do racionalismo ocidental efetuado pelas colônias, mas que não se concretizava plenamente diante do hibridismo e mistura das culturas várias que conviviam nas áreas colonizadas. Carmen Lucia Tindó Secco argumenta:
Na poética de José Craveirinha e na pintura de Malangatana Valente a dimensão neobarroca assume contornos cósmicos, intensamente atrelados a uma busca telúrica das raízes moçambicanas, apagadas, em parte, pelas práticas coloniais etnocêntricas. O erotismo neobarroco do poeta e do pintor se manifestam como jogo, revolta e indignação diante da consciência da fratura em relação às matrizes africanas.
O conjunto de Sevilha (3), 1990.
Diante do exposto, são representações como a presença de um feiticeiro portando um crucifixo, mostrando a mesclagem das culturas do colonizador e do colonizado que são para mim, o que atrai, instiga, incomoda e faz pensar; seria o punctum da imagem de Roland Barthes:
Nesse espaço habitualmente unário (a fotografia), às vezes (mas, infelizmente, com raridade) um “detalhe” me atrai. Sinto que basta a sua presença para mudar minha leitura, que se trata de uma nova foto que eu olho, marcada a meus olhos por um valor superior. Esse “detalhe” é o punctum (o que me punge).
A conscientização social cresce com mais rapidez quando conhece o poeta José Craveirinha, artista com o qual adquire intensa amizade e suas artes dialogarão no decorrer dos anos. Craveirinha foi um poeta engajado na luta contra o colonialismo, identificamos várias fases na sua poesia que vão desde temas que resgatam os elementos culturais de sua terra, a negritude, o erotismo (comum aos dois artistas), a denúncia da violência colonial nos versos de Cela 1 ao lirismo de Maria, obra em homenagem à esposa falecida.
Evidente que esta atuação subversiva em plena ditadura salazarista não passaria impunemente pela PIDE, a polícia política. No percurso de ambos por um país livre haveria a opressão, a tortura, a morte, porém nada mais faria com que a convicção e esperança dos que estavam lutando desanimasse. Os versos do poeta da Mafalala retratam a afirmação dos combatentes:
Ao bom evangelho dos cassetetes
ouvir avoengos pássaros bantos
cantarem algures nos ombros
velhas melodias de feridas.
E depois
à sedutora persuasão das ameaças
pela décima segunda vez humildemente
pensar: Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!
Será suficiente esta confissão
sr. chefe dos cassetetes
da 2ª brigada?
Chico Feio, o espancador da PIDE, 1965.
As prisões aconteciam, Malangatana conta a sua experiência no cárcere:
(...) Mesmo na altura de 1961/62 tinha uma actividade política muito grande. Foi quando fiz parte do grupo em que o Craveirinha trabalhava clandestinamente, depois em 1963/64 as atividades crescem, também com o Luís Bernardo Honwana e outros. E somos presos, com o Rui Nogar, depois de termos contactado guerrilheiros que tinham vindo a Lourenço Marques para criar a Quarta Região Militar. Fomos presos juntos, alguns em celas diferentes.
(...)
fiquei pouco tempo na prisão comparado com muitos correligionários que ficaram de quatro a sete anos. Eu fiquei dezoito meses, (...) A base do julgamento foi pertencermos, sermos simpatizantes, da Frelimo. As provas que haviam foram que, de facto, nós tínhamos reuniões com guerrilheiros. A PIDE tinha a sua rede de informações, tinha acho que acompanhado a vida dos guerrilheiros desde a saída deles de Dar-Es-Salam, tinha um conhecimento mais ou menos exacto sobre eles.
Encarcerado, produz, em condições adversas, a série desenhos da prisão, segundo Mario Soares:
Testemunho e memória, esses desenhos, embora com recurso a diferentes técnicas, necessariamente limitadas pelas circunstâncias, inserem-se claramente no que de mais essencial constitui a estética desenvolvida pelo Artista.
Ora violentos – a violência praticada na prisão; ora sonhadores – o sonho de liberdade de qualquer preso; ora com recurso às suas mais fundas origens culturais, as da sua aldeia e do seu povo; ora evocando as famílias e as tragédias quotidianas; ora virados para o futuro imaginando o seu país livre e independente esses desenhos aparecem-nos, na sua diversidade, como um claro retrato da vida e dos sonhos de Malangatana e dos seus companheiros de prisão e de luta.
A violência fragmenta a vida do moçambicano que recorre ao espaço libertador dos sonhos para reduzir o sofrimento não somente seu, mas das esposas, das crianças, desorientadas com a falta de contato com a figura paterna, e pinta versos denunciando a situação:
“A Lua brilha
e a estrela
canta um poema triste
do céu que é enorme
do mundo que é vasto
das crianças que esperam
papá que nunca chega
A Lua brinca no céu e salta
e as crianças calaram as vozes
[e perguntam:
Mamã, o papá quando chegará
para nos contar as mil histórias”
Kenguelequezé, 1965.
Dono de um expressionismo acentuado, Carmen Lucia Tindó Secco define as várias fases percorridas pelo pintor da Matalana:
Expressionismo crítico – influenciado pelo neo-realismo – que efetua a denúncia do colonialismo, dos trabalhos forçados, dos cruzamentos culturais resultantes da imposição do cristianismo, das injustiças e misérias presentes no cotidiano dos bairros de caniço de Lourenço Marques;
A do expressionismo marxista, onde se depreende um didatismo pictural em prol da luta de libertação e dos ideais da revolução;
Julgamento de militantes da Frelimo, 1966.
A do onirismo cósmico e telúrico em que predominam o encarnado, os elementos do universo mítico moçambicano, os monstros, as unhas, os dentes, enfim, o horror e o sangue próprios de um contexto de guerra e violência;
Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros? 1985.
A do surrealismo cósmico, em que o azul substitui o rubro das telas, tingindo as figuras fantasmagóricas do imaginário ancestral que se retorcem à procura das origens, da paz e dos antigos sonhos.

O Ritual Nocturno, 1985.
Devemos acrescentar que o expressionismo de Malangatana apresenta características formais que o diferem do expressionismo de origem alemã. Notamos em sua pintura figuras e formas deformadas e distorcidas, cores vibrantes descompromissadas com a verossimilhança e o sentimento dramático de revolta com os anos de supressão da cultura de seu povo em telas viscerais a escancarar a agonia de um país que se quer livre. Todavia, o expressionismo praticado por ele carrega em seu traço a linha de contorno, o que seria contraditório para os alemães do início do século XX, pois estes eliminaram através do gestual livre, espontâneo e descompromissado, o que poderia ser uma espécie de controle para o que se deve expressar, daí chamo esta maneira de expressar-se de expressionismo matalanagantana.
Com o excesso de alegorias apresentados nas suas obras, Malangatana não problematiza a questão cara aos modernistas entre a relação figura/fundo, pois ao preencher toda a tela com incontáveis faces suas telas apresentam planaridade única, em um confuso e fragmentado labirinto a procura das próprias raízes sufocadas no decorrer dos séculos. A planaridade realizada por ele aproxima-se da técnica do all-over, desenvolvida por Jackson Pollock no apogeu do expressionismo abstrato dos anos 1950, com o seu preenchimento homogêneo da superfície pintada, como destacou o crítico americano Clement Greenberg ao falar da nova pintura à americana.

O Conjunto de Sevilha (9), 1990.
Expressionista e surreal também. Assim são suas formas zoomórficas dos seres mitológicos, e encontramos paralelos com o Pablo Picasso da época da Segunda Guerra Mundial e as pinturas infestadas de criaturas híbridas que enchiam de medo e horror medievais o homem europeu em plena Renascença retratadas por Hieronymus Bosch, assumidas por ele:
(...) já nos anos 60, 1962, 1963. comecei a ver também pinturas de Picasso... Do Bosch, de quem tive uma grande influência, quando vim a simbiosar aspectos mitológicos com a religião... convencional, digamos.
Ao falar de Moçambique em suas pinturas, Malagantana, neobarrocamente, subverte a ordem estabelecida e questiona o legado imposto pelo colonizador com uma ruptura estética a elevar em cores, formas e tintas as danças, feitiços, mitos... estórias contadas em telas de e para Moçambique.
Malangatana:
“A pintura pode descrever várias coisas que acontecem na vida política e pode ser utilizada para ilustrar aquilo que acontece. Por exemplo, pode denunciar factos. Eu uso a pintura, ainda hoje, para denunciar as atrocidades que acontecem hoje na África Austral, em Moçambique sobretudo. Da mesma maneira que pintei coisas que falavam das atrocidades da situação colonial, hoje falo dos massacres, hoje falo das mulheres cujo os seios são cortados, das crianças que são mortas, e também utilizo a pintura par lutar contra o apartheid.
(...) Mas continuo, de facto, a não ignorar aquilo que acontece ao ser humano em Moçambique. Eu não estou fora da sociedade moçambicana, e não deixo também de ter uma pintura que seja crítica em relação àquilo que eu considero injusto. Ela fala, conta coisas também. Isso, no sentido de fazer com que, afinal, o homem moçambicano se vá vendo através da minha pintura e, no caso da poesia, na do Craveirinha e do Rui Nogar.”
Fontes:
BARTHES, Roland. A câmara clara. Ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1984.
CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Editora Veja. Lisboa, 1ª edição, 1994.
FERREIRA, Gloria (ORG.). Clement Greenberg e o debate crítico. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2001.
NAVARRO, Julio (ORG.). Malangatana – de Matalana a Matalana. Catálogo da exposição no Instituto Camões, Portugal.
SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas. ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.
SOARES, Mario. Texto da exposição virtual Malangatana: desenhos da prisão. Acessado em http://www.fmsoares.pt/ no dia 20/10/2006.