Confirmado o encontro com os escritores Manuel Rui e João Melo na UFF, na próxima terça-feira, dia 22 de setembro, às 14h, sala 218-C, no Campus Gragoatá da UFF, bloco C.
Fonte: E-mail gentilmente enviado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco, em 20/09/2009.
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
João Melo e Manuel Rui na UFF/RJ
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segunda-feira, 23 de março de 2009
Manuel Rui – Cinco dias depois da independência
Por Ricardo RisoManuel Rui Monteiro, ou Manuel Rui, é um escritor multifacetado, pois passeia por diversos gêneros literários como o conto, a poesia, a novela, o romance, além de escrever ensaios, músicas populares, cabe aqui ressaltar a intensa amizade com o compositor brasileiro Martinho da Vila, além de ter participado da luta de libertação contra o jugo colonial português e ser o autor do hino nacional de Angola. Só esta última citação já nos dá ideia da importância deste escritor para o seu país.
Lançado originalmente no livro Sim camarada! (Luanda: UEA, 1977), o conto Cinco dias depois da independência foi publicado em formato de bolso na série 2K da União dos Escritores Angolanos, em 1979, e será o objeto analisado neste texto.
Publicado próximo à independência de Angola, conquistada em 1975, Cinco dias depois da independência focaliza sua ação no comportamento das crianças durante o longo conflito contra as forças colonizadoras. As crianças, ou melhor, os pioneiros, como eram conhecidos pelos militantes do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), formavam “uma frente paralela, insubmissa e dispersa, (...) regida por leis que escapam à compreensão imediata dos adultos (...), contra o invasor das suas ruas, contra o estrangeiro que se atrevera a calcar o sonho de liberdade novinho em folha (...)” (contracapa do livro).
Influenciados e encantados com a maciça propaganda e os lemas – O Éme-Pé-Lá é o povo, o povo é o Éme-Pé-Lá (p. 20) –, esses pioneiros vivenciam intensamente os acontecimentos da guerra e participam de maneira limitada, de pequenas ações contra o inimigo, que aliam coragem e astúcia, sendo exaltadas pela população assim como pelos combatentes das Faplas, o braço armado do MPLA. Os pioneiros representam a utopia, a confiança nos ideais da revolução – A vitória é certa! –, repetem todo momento.
Entretanto, o cotidiano da guerra caótico somado aos parcos recursos das forças angolanas demonstra que nem sempre a presença dos pioneiros representa ajuda, como na chegada de graves feridos a um hospital que não tinha condições de atendimento: “Mas para quê que trazem camaradas mortos e camaradas que necessitam de intervenção cirúrgica? (...) Estou farto de dizer, nestas condições não podemos ir além de primeiros-socorros e pequena cirurgia” (p. 16). Em situações assim, os pioneiros para nada serviam e deveriam sair dali, causando desapontamento ao líder do pequeno esquadrão:
Comandante Kwenha cabisbaixo. Como um general de maiores condecorações a quem, injustamente e em público, desprezaram as estrelas de comando. Mas as condecorações, essas, permaneciam bem dentro do peito.
Pela primeira vez o grupo era desautorizado ali. Na delegação do MPLA. E pelo simples fato de nomadizarem chamavam-lhes vadios. Eles que tinham cinco bases. Presentes, sem uma baixa, em quase todas as confusões. Eles que recuperaram duas armas à fnla entregando-as à primeira patrulha de Fapla que passou. Aquele esquadrão! Que, ainda sem nome, assistiu e ajudou no desalojamento dos chipendas. (p. 22)
Em sua inocência, os pioneiros compreendiam os símbolos da luta de libertação, fitavam as propagandas encontradas no caminho, e admirados prestavam homenagens mesmo não sabendo ler:
Em frente ao dip, mudaram de passeio para aproveitarem ver o jornal da parede, parando deslumbrados nos recortes onde vinha a fotografia do camarada Presidente e pioneiros a marchar com espingardinhas de fisga e bala. Um ritual. Mesmo que as colagens não fossem substituídas durante dias, eles repetiam a contemplação que já fazia parte das regras do grupo. Entendiam pelas fotografias. Ninguém sabia ler no pelotão. (p. 23)
Com as vidas entremeadas ao dia-a-dia da guerra, os pioneiros sabiam identificar as armas das Faplas e dos inimigos pelos sons que emitiam: “Eles não falhavam nos sons. Distinguiam bazuka, metralhadora anti-aérea ou canhão” (p. 29), ou como transcreve o narrador amargurado: “O tempo tinha posto assim as crianças nessa precocidade de aceitar a guerra como uma brincadeira séria a salvar a vida” (p. 31).
Acostumados à brutalidade de tempos de conflito, ao convívio constante com a morte, à insensibilidade dominante os pioneiros ficavam ávidos para agir próximos às zonas de combate:
“A rua estava deserta. Os pioneiros apenas. Naquela progressão de corpo vergado procurando a proteção das paredes e muros dos quintais. Para eles a direção só podia ser uma: o sítio de onde vinha o tiroteio” (p. 35).
Um diálogo travado entre uma jovem grávida e um pioneiro, escondidos em tubo de esgoto, traduz o espírito de luta que guiava esses destemidos pequenos combatentes:
– E essa arma mata o quê?
– Tudo – respondeu o miúdo segurando a arma com as duas mãos – lacaios do imperialismo.
– E se for blindado?
– Entro nele e estoiro o maquinista. Blindado sem homem não anda. Um camarada falou num comício o homem é que faz andar a máquina.
– E se for barco?
– Qual barco?
– De guerra?
– Aqui não estamos no mar mas o meu esquadrão completo afunda.
– Mas já afundaram?
– Não. Porque o inimigo não vem no mar. Ainda, os pescadores organizados tudo ÉME. Se vierem vamos afundar.
– E se for avião?
– Abato. Deixa só ele voar baixo, também um camarada me contou ele abateu licóptero na primeira. (...)
– E se eles param aí perto?
– Aqui não tem perigo. Isto é zona libertada. Base número cinco do esquadrão Kwenha. (...)
A salientar não só a confiança como também a responsabilidade e a argúcia necessária à situação. (...) Ganhava confiança nas afirmações do miúdo, lembrando-se, por instantes, de todas as histórias de heroísmo que ouvira sobre pioneiros. (...) Pensou na hipótese de conseguir sair sã e salva e sentiu um singular orgulho por se encontrar ali com um pioneiro, naquela situação de perigo e guerra. (p. 47-52)
Um diálogo travado entre uma jovem grávida e um pioneiro, escondidos em tubo de esgoto, traduz o espírito de luta que guiava esses destemidos pequenos combatentes:
– E essa arma mata o quê?
– Tudo – respondeu o miúdo segurando a arma com as duas mãos – lacaios do imperialismo.
– E se for blindado?
– Entro nele e estoiro o maquinista. Blindado sem homem não anda. Um camarada falou num comício o homem é que faz andar a máquina.
– E se for barco?
– Qual barco?
– De guerra?
– Aqui não estamos no mar mas o meu esquadrão completo afunda.
– Mas já afundaram?
– Não. Porque o inimigo não vem no mar. Ainda, os pescadores organizados tudo ÉME. Se vierem vamos afundar.
– E se for avião?
– Abato. Deixa só ele voar baixo, também um camarada me contou ele abateu licóptero na primeira. (...)
– E se eles param aí perto?
– Aqui não tem perigo. Isto é zona libertada. Base número cinco do esquadrão Kwenha. (...)
A salientar não só a confiança como também a responsabilidade e a argúcia necessária à situação. (...) Ganhava confiança nas afirmações do miúdo, lembrando-se, por instantes, de todas as histórias de heroísmo que ouvira sobre pioneiros. (...) Pensou na hipótese de conseguir sair sã e salva e sentiu um singular orgulho por se encontrar ali com um pioneiro, naquela situação de perigo e guerra. (p. 47-52)
Apreende-se que o tubo de esgoto é uma metáfora do útero, da gestação e do nascimento da nação, pois quando a dupla consegue sair dali é praticamente o momento em que a vitória pela independência se consolida.
A frieza do corajoso pioneiro assusta-nos, mas trata-se de um ambiente de radicalização diante de uma situação colonial insuportável e agonizante. A postura desses pioneiros retrata o meio violento que os gerou, ou seja, as crianças são consequência de uma época crucial para a futura nação angolana, são sujeitos da história na guerra de libertação de um país que estava nascendo. Nesse sentido, o texto de Manuel Rui é de importância extrema ao captar o momento da utopia fortalecida e de como as crianças lidavam com esses acontecimentos, com a chegada da independência. “A vitória é certa! A luta continua”, o lema repetido diversas vezes no decorrer do texto concretizou-se.
A frieza do corajoso pioneiro assusta-nos, mas trata-se de um ambiente de radicalização diante de uma situação colonial insuportável e agonizante. A postura desses pioneiros retrata o meio violento que os gerou, ou seja, as crianças são consequência de uma época crucial para a futura nação angolana, são sujeitos da história na guerra de libertação de um país que estava nascendo. Nesse sentido, o texto de Manuel Rui é de importância extrema ao captar o momento da utopia fortalecida e de como as crianças lidavam com esses acontecimentos, com a chegada da independência. “A vitória é certa! A luta continua”, o lema repetido diversas vezes no decorrer do texto concretizou-se.
Por outro lado, Cinco dias depois da independência chama-nos atenção para o foco de mudança da luta, que não passa mais a ser apenas contra o colonizador português, mas entre os angolanos que não se submetem à ideologia do MPLA. Novamente o pioneiro, com sua sabedoria e experiência, no conflito armado aponta para a dissidência do povo angolano ao identificar os sons das armas:
É deles
é nosso
é nosso
é nosso
é deles (p. 66)
Essa passagem ilustra as fissuras que viriam a dilacerar o país, desencadeando uma longa e tenebrosa guerra civil.
Como bem observou a Profa. Dra. Tania Macêdo, a descrição do amanhecer durante o primeiro dia de Angola independente com a rajada de balas dada por um guerrilheiro saudando os novos tempos, demonstra as dificuldades que deveriam ser encaradas pelo país, como a continuação da guerra que perdurou até esta década (MACÊDO, 2007, p. 366-367):
E a noite, fustigada pelo tiroteio de glória, estendia já seus braços de fadiga nos contornos da aurora. Estrelas que fugiam para seu repouso diurno. Ruídos matinais desabrochavam do corpo das plantas. Flores, tocadas pelo sabido vento de tantos heróis, desprendiam o orvalho fresco e doce na boca da terra. Então, quando o sol se levantou do mar antigo e ultrajado dantes, desprendendo sua solta cabeleira de luz e força, Carlota ficou que instante a contemplá-lo. Era o primeiro sol em liberdade.
– Já nasceu o sol. Primeiro dia depois da independência! Parece um soldado camarada.
O guerrilheiro ergueu-se num salto, deu dois passos em frente, apontou a espingarda nos esconderijos da lua e de rajada limpou o carregador.
– Sim camarada. – Disse depois de assoprar o fumo do cano.
E nas narinas de Carlota, o cheiro de pólvora entrava parecia um perfume. (p. 94)
A tragicidade da guerra após percorrer todo o texto, faz sua última vítima ao final da história, mostrando a sua faceta mais cruel e onipresente em um tempo de horror: o pequeno e audaz pioneiro é morto pelas tropas inimigas. Esse acontecimento mostra com clareza o que se poderia esperar dos novos duros e difíceis tempos para esses jovens pioneiros (MACÊDO, 2007, p. 367), as incertezas que encarariam na reconstrução de um país sofrendo com os recursos escassos, as pressões de países como a África do Sul e os EUA que alimentavam a Unita, guerrilha contrária ao MPLA. Por conseguinte, a guerra civil que devastou a nação, ceifando milhares de vidas, muito contribuiu para destroçar os sonhos de uma geração que tanto acreditou na vitória e nas conquistas da revolução.
Cinco dias depois da independência é uma bela e comovente história das raízes primeiras da nação angolana, da participação determinada desses pequenos anôminos que atendiam pela alcunha de pioneiros, pois, como afirma o narrador, "dois ou três anos antes, as pessoas perguntavam-se sempre os nomes. Agora tudo mudara. Bastava pioneiro." (p. 58) Infelizmente, a História foi cruel com os caminhos trilhados pelo país nos anos seguintes dilacerando a utopia revolucionária.
Bibliografia:
RUI, Manuel. Cinco dias depois da independência. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1979. Coleção 2K.
MACÊDO, Tania. Monandengues, pioneiros e catorzinhas: crianças de Angola. CHAVES, Rita, MACÊDO, Tania, VECCHIA, Regina (orgs.). A kinda e a missanga – encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda: Angola, Nizla, 2007. p. 357-374
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Manuel Rui na UFRJ
MANUEL RUI NA FACULDADE DE LETRAS DA UFRJ
Dia 24 de março (terça-feira), às 11h, sala D220
Falará sobre o livro Quem Me Dera Ser Onda.
A Editora dele vai levar livros para vender e ele autografar.
Dia 24 de março (terça-feira), às 11h, sala D220
Falará sobre o livro Quem Me Dera Ser Onda.
A Editora dele vai levar livros para vender e ele autografar.
Fonte: e-mail enviado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco em 18/03/2009
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Manuel Rui - Obama e um acto de cultura universal
Ainda não tive tempo para escrever algo a respeito de um novo vento a soprar por aí. Não sei, sinto receio em criar expectativas. Talvez, por ingenuidade, não perco a vontade de sonhar... de viver e ver a História acontecer... pensei que vivenciaria aqui, na cidade do Rio de Janeiro, contudo, o carioca não quis ser fator determinante nos rumos da História. Mas ela chegou, veio de longe... creio que só o fato de estimular a esperança já nos faz algum bem.
Boa sorte, Obama!
O texto a seguir é do escritor angolano Manuel Rui, gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco*, no qual comenta a expectativa em torno de Obama. Considerei uma ótima leitura. Espero que gostem.
Abraços,
Ricardo Riso
OBAMA E UM ACTO DE CULTURA UNIVERSAL
Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.
Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.
Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.
Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o país; e se mudarmos o país podemos mudar o mundo.
OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.
Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.
No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.
OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.
Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteriras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.
Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.
No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.
No século passado foi Mandela.
Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.
Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.
OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.
Como Agostinho Neto deixou escrito:
E DO DRAMA INTENSO
DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL
RESULTOU CERTEZA
AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS
NOS ALICERCES DO MUNDO
MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.
manuel rui
* Fonte: recebido em 5 de novembro de 2008,20h30.
Boa sorte, Obama!
O texto a seguir é do escritor angolano Manuel Rui, gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco*, no qual comenta a expectativa em torno de Obama. Considerei uma ótima leitura. Espero que gostem.
Abraços,
Ricardo Riso
OBAMA E UM ACTO DE CULTURA UNIVERSAL
Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.
Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.
Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.
Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o país; e se mudarmos o país podemos mudar o mundo.
OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.
Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.
No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.
OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.
Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteriras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.
Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.
No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.
No século passado foi Mandela.
Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.
Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.
OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.
Como Agostinho Neto deixou escrito:
E DO DRAMA INTENSO
DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL
RESULTOU CERTEZA
AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS
NOS ALICERCES DO MUNDO
MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.
manuel rui
* Fonte: recebido em 5 de novembro de 2008,20h30.
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sábado, 19 de abril de 2008
Manuel Rui – Memória de Mar
A esperança e a história revistas em Memória de Mar, de Manuel Rui
No pós-colonialismo enfrentado pelos países africanos de língua portuguesa, houve preocupação dos escritores em fazer uma literatura voltada para a reconstrução da própria história, retomada pelo olhar do colonizado, e a incessante busca pela afirmação da identidade, ou seja, libertar-se do pensamento opressor do colonizador.
Tais dilemas fomentaram crises nas gerações anteriores que viveram sob o jugo colonial. Situação que foi se modificando no decorrer do século XX quando os escritores começaram a ter voz e a expor os seus textos. Nesse momento, a imprensa teve papel fundamental, dando espaço às obras literárias, assim como as obras publicadas por escritores como Castro Soromenho, Alfredo Troni, Óscar Ribas e outros fomentam a difícil tarefa do angolano em ser o ator principal de sua literatura.
No caso de Angola, os movimentos literários "Vamos descobrir Angola" e as revistas homônimas “Mensagem”, publicadas em Luanda e Lisboa, nas décadas de 1940 e 1950 foram manifestações essências na consolidação da angolanidade. A partir daí, os escritores angolanos assumiram postura contrária ao sistema opressor em que viviam e participam ativamente da guerra colonial, no início dos anos 1960. A Professora Rita Chaves (USP) sintetiza o drama do escritor como protagonista de sua história:
“(...) as primeiras narrativas que pontuam a história da literatura angolana não conseguem despir-se completamente de uma visão lusa. (...) a inconsistência do angolano como personagem das narrativas é, em certa medida, referência a sua inconsistência como personagem de sua história. (...) o angolano precisava conquistar a sua voz para percorrer o caminho que o levaria à reconquista de sua terra, à recuperação de sua liberdade.” (CHAVES, 2005, p. 73)
Com a independência conquistada, os impasses que afligiam os escritores angolanos puderam ser encarados com a profundidade exigida, e deram continuidade ao processo de exorcizar o passado colonial. Manuel Rui é um dos nomes fundamentais desse processo. Sua obra literária, com o constante recurso da ironia, trata dos problemas vivenciados pela sociedade angolana na construção de um novo país, empenhando-se na defesa do caráter multirracial e plural da cultura angolana, passando pelos desvios ideológicos dos dirigentes políticos que não cumpriram os ideais revolucionários, após 1975.
No livro “Memória de Mar”, publicado em 1980, pela União dos Escritores Angolanos, a narrativa aproxima-se do fantástico, com a utilização de vários tempos narrativos no desenrolar da história, e o uso de personagens-tipo. Trata-se da expedição feita por um pequeno grupo formado por um major, um historiador, um sociólogo e o narrador-personagem à “ilha dos padres”, local em que, misteriosamente, seus habitantes ficaram incomunicáveis após a independência angolana, em 1975.
Valendo-se de fina ironia, Manuel Rui ataca duas instituições que apoiavam o colonialismo: a Igreja Católica e as forças militares portuguesas.
Desde o primeiro contato com os religiosos, moradores da ilha e fervorosos devotos de Nossa Senhora de Fátima, que o narrador-personagem demonstra diversas facetas dos religiosos portugueses, tais como a contrariedade ao ateísmo do regime comunista: “Sim. Compreendo senhor major e melhor compreenderá o senhor deus, pai e senhor dos céus e da terra. E com cariedade perdoará.” (RUI, 1980, p. 22); o preconceito aos angolanos que aderiram à fé católica, e são tratados como ‘serviçais’, as justificativas em pertencer a uma casta superior e no domínio português:
“–Ali são os serviçais. (...) trabalham aqui e, em compensação, ganham a fé em deus e salvam a alma. Noutros tempos, alguns houve, como vereis, que conseguiram aproximar-se mais de deus, estudar humildemente e obter a ordenação. Engrossamos assim o nosso exército de cruzada com uma espécie de oficiais de segunda linha, isto sem ofensa pois eles manejam tão bem a cruz e a palavra de deus como qualquer um de nós.
– Nós quem? – perguntou o sociólogo.
– Nós os religiosos de origem, os que chegámos aqui para evangelizar. (...) nós os que não descendemos do gentio, viemos de longe, deixamos a pátria e família com a sagrada missão de cristianizar esta terra.” (RUI, 1980, p. 23)
O narrador não deixa de denunciar o aspecto político da Igreja em ter que se adaptar aos novos tempos, procurando, assim, manter a parceria com o poder vigente, até então oprimido. Na nova conjuntura busca modificar, inclusive, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, aproximando-a dos traços físicos e cor da etnia dominante. Com a mudança, a Igreja procura continuar manipulando a população e se manter junto ao poder político.
“(...) chegaram os bispos a lavrar uma acta de aditamento. Nela se teciam elogios à senhora de Fátima. Debatia-se a palavra nossa que antecedia senhora e a urgente necessidade de o rosto agora ser pintado de preto, por razões políticas, tendo-se registado também a possível alteração de feições. E, levantada que foi em acta a maka racial, ficou em dúvida se, daí para o futuro, a santa não deveria figurar albina.” (RUI, 1980, p. 110)
Um outro aspecto interessante abordado pelo narrador, em contraponto ao catolicismo, é a valorização da mitologia angolana, representada pela Quianda, a sereia do mar. Embora houvesse a proibição dos superiores religiosos sobre os serviçais, a Quianda estava presente não só no imaginário, mas com presença real entre os angolanos, como podemos inferir no episódio da visita da imagem da N.S. de Fátima à ilha e o desastre que poderia acontecer:
“Correu até o sacrílego boato de que se ela viesse, Quianda, sereia do Kwanza, passaria para aquém da foz até ao canal a revolver as águas em tempestades contra a santa imagem. Creio que o boato partiu dos serviçais ou de algum padre de segunda linha por desbantuizar completamente.” (RUI, 1980, p. 29)
O sincretismo religioso está inserido entre os religiosos desde o início da ocupação da ilha, como revela um griot. O griot tem presença fundamental nas etnias angolanas, pois é o detentor da sabedoria e da memória oral de seu povo, aqui a serviço da religião católica. Ele relembra que, nos primeiros anos de permanência na ilha, o líder espiritual português D. Junqueira fazia uso de “parte dos costumes do continente” (RUI, 1980, p. 65) africano em favorecimento à fé católica, como verificamos na passagem a seguir:
“E assustava os serviçais originários do sul com uma estória do norte. A da Quianda, sereia do Kwanza, que num dia qualquer por maior zanga, cansada de assistir a tanta infidelidade a deus, navegaria para a foz rasgando a barra e, num instante, estoirava a sua fúria numa calema de submergir a ilha e seus habitantes. D. Junqueira apaixonara-se pelos mitos diluvianos e serenídeos. Era dessa arte que ele também assustava os serviçais do norte com estórias do sul, metendo feiticeiros da chuva e inundações, terrível castigo para os infiéis.” (RUI, 1980, p. 66)
Sobre a personagem D. Junqueira, há uma forte passagem que demonstra a hipocrisia do catolicismo em relação ao comportamento e à rigidez de conduta dos padres em relação ao sexo, ainda mais sendo o padre o modelo de conduta:
“Copiavam D. Junqueira em tudo. Por isso, a partir do momento em que um dos serviçais, casualmente, observara D. Junqueira, oculto entre os limoeiros, a mastubar-se com os olhos fixos nas freiras que ao longe colhiam flores para o templo, também os serviçais se masturbavam com o pensamento, que jamais algum deles havia praticado tal acto com os olhos postos em algumas das religiosas.” (RUI, 1980, p. 67)
Tal fato fez com que os serviçais exigissem mulheres, o que contrariou D. Junqueira. O padre mandou que fosse construída uma torre, prendeu todos os serviçais em cruzes, desmentiu o acontecido e as histórias locais, e mandou retirar as freiras do convento, como narrou o griot:
“E tudo se pôs fim – disse o griô – por D. Junqueira ter descoberto todos os cabecilhas. Mandado eles próprios construir uma torre que só acabava no céu. Obrigando um serviçal sabido de lendas de sua terra, contar a estória de Catanda, o homem que subiu, subiu, até roubar a lua. Depois, concluída a torre que tocava o céu, D. Junqueira obrigou cada cabecilha a fabricar uma cruz do tamanho de um homem. E cada um foi amarrado à cruz. E D. Junqueira falou um sermão dizendo que era mentira terem-no visto em gesto tal por entre os limoeiros. Que a mulher era uma coisa sagrada e, como tal, não devia ser comprada de alembamento, muito menos desejada, vorazmente, como um naco de carne. Que olhassem o exemplo da virgem Maria, mãe do senhor. E falou mais: que aquela história da Catanda era mentira porque Catanda era infiel. E os infiéis só ganhavam céu ou mesmo lua por mor de penitência apagadora de pecados. Então, mandou ele recolher as freiras aos retiros. (...) Mandou repicar os homens com uma mistela de óleo de palma, incenso e mirra. Mandou-os subir com as suas cruzes a escalada da torre. Mandou que os outros todos se ajoelhassem de mãos e olhos bem postos no céu. E ele próprio, D. Junqueira, pegou fogo à torre dizendo: perdoai-lhes senhor! Que não sabem o que fazem.” (RUI, 1980, p. 67-68)
O ato de D. Junqueira é revisto pelos religiosos contemporâneos diante dos estrondos da guerra colonial, como uma espécie de maldição sobre a Terra. A proximidade da independência angolana altera os hábitos dos padres e serviçais, que, indiretamente, voltam-se para as manifestações espirituais locais e exigem o acerto de contas com o passado, porém, de acordo com as tradições angolanas:
“ninguém jamais poderia esquecer o tempo de D. Junqueira. A torre. O incêndio. D. Junqueira ofendera o céu, desmentindo a verdade de Catanda, o herói que chegara à lua. Além disso, mandara queimar vivos os homens que falaram em nome de todos, reivindicando mulheres, nem que fossem as freiras. Que agora era tempo de satisfazer a reivindicação. O padre ficou perplexo. (...) Aí, os serviçais quiseram explicar o que faltava resolver: o ajuste de contas com D. Junqueira, o céu, a terra, o mar, e a Quianda. O superior era pela paz. Rogava pelo fim dos estrondos e temia pela segurança da ilha. Então, ao menos, que indicasse tantos padres quantos os homens que D. Junqueira incendiara na torre. Que se fizesse um cortejo de dongos e cânticos de escravos. Que o cortejo fosse pela costa até à barra, afrontasse a rebentação da baba da sereia. Que entrasse no rio até a calmaria da água doce e o fresco da floresta. Que se acendessem velas. Que o superior benzesse os padres encomendasse suas almas. Que os padres fossem atirados à Quianda. E, pago o tributo, que o cortejo regressasse à ilha para um comba sem quaisquer limites com o levantamento da proibição de bebidas fermentadas. Depois, quando chegasse o varrer as cinzas, sucumbiria a ira da sereia para o fim da guerra. O superior respondeu que nunca supusera um tão grande retrocesso naqueles espíritos que ele ajudara no caminho do céu. Não desejava contrariar as tradições. Mas aquilo era uma heresia.” (RUI, 1980, pp. 69-71)
Como as oferendas não foram feitas, o padre sofre as conseqüências por não respeitar as tradições locais, como é narrado pelo griot enquanto segurava um crucifixo atestando o sincretismo religioso:
“Não passaram os estrondos – prosseguiu o griô – e dias depois, quando na ilha se comemorava a padroeira, a Quianda cumpriu sua promessa, rasgou a barra, entrou no oceano e, quando o superior se punha em fuga numa embarcação roubada, ante o susto de ainda ver a sereia engolir o busto de D. Junqueira, também ele, superior, foi engolido pela boca da sereia.
E, segurando um crucifixo pendurado ao pescoço, o griô disse: tudo tem o seu fim. Também a Quianda havia desaparecido para sempre.” (RUI, 1980, pp. 72-73)
Ao referir-se aos militares portugueses, o narrador-personagem é mais cruel em sua ironia, que beira o sarcasmo. Ao retratar militares que se encontram em um submarino e não têm noção do que acontece nas batalhas em Angola.
A princípio, um comandante demonstra confiança e arrogância ao mencionar o apoio internacional que Portugal teria. Tal posição é contrária à opinião internacional, que pressionava Portugal a abandonar as colônias africanas e aceitar a independência destas, principalmente após a revolução dos Cravos, em 25/04/1974. Ignora o avançar das forças angolanas, e não percebe a leviandade de suas declarações a uma mulher portuguesa retornada, que insultava a incompetência e traição dos militares:
"O certo é que o plano terá de se cumprir. É impossível que esses boçais resistem a tanta força. A norte os zairenses, mercenários e os aprendizes de Holden. Cá em baixo os sul-africanos, o elp e as multidões de Savimbi. Aliás, estão praticamente liquidados os meios de transporte dos comunistas. (...)
A esta hora Santos e Castro retomou Caxito. A coluna do sul queimou Porto Amboim e caminha sem problemas para Luanda. (...)
Haja o que houver a guerra está ganha. Demonstraremos em Lisboa o que foi a grande traição de vinte e cinco de Abril e desfilaremos no Terreiro do Paço com os generais fiéis às tradições da pátria." (RUI, 1980, pp. 79-80)
"Não merecemos as suas palavras insultuosas. Não traímos nem a fé nem o império. Estamos integrados em um plano conjunto. Forças zairenses, fenelá, unita, a fina flor dos mercenários, elp, sul-africanos. Possuímos um enorme apoio dos Estados Unidos, França, Alemanha Federal e outros países do mundo civilizado. Armamento não nos falta, incluindo o chinês e devo dizer-lhe que depois da segunda guerra mundial, a marcha que se faz neste momento sobre Luanda em várias frentes, é, sem dúvida, a maior marcha de blindados que a história registará." (RUI, 1980, p. 85)
Apreendemos a guerra colonial angolana inserida em meio ao contexto da Guerra Fria. O MPLA era apoiado pelo bloco comunista, e Portugal apoiava a UNITA (grupo de guerrilheiros angolanos contrários ao futuro regime comandado por Moscou) além de ter a ajuda da África do Sul e dos norte-americanos, estes não declarados oficialmente.
Hilariante é o diálogo entre o comandante e o náufrago, nu, que ele julga ser um mensageiro, mas, na verdade, é um dos religiosos da ilha dos padres. O religioso conta toda a história da ilha, da maldição, de rezar pela paz. Prosa que irrita o comandante, julgando-o louco ou espião comunista. Até que recebe um telefonema de Luanda e, finalmente, terá a exata noção do que acontece em terra:
"– Alô submarino, alô submarino responde Luanda. Os comunistas estão a proclamar a independência os blindados não entraram em Luanda corremos perigo sou obrigado a concluir comunicação receio interferência repito receio interferência inimiga terminado." (RUI, 1980, p. 95)
O comandante, perplexo, ordena a subida à superfície, porém o submarino é obrigado a submergir por causa dos ataques. Incrédulo, ainda, o comandante afirma:
"– Para baixo – gritou o comandante – não sei o que se passa mas parece que estamos a ser alvejados a partir dos nossos próprios barcos e com as nossas peças que afundamos na ilha. Para baixo!" (RUI, 1980, p. 97)
A submersão do submarino como metáfora do fim do colonialismo em Angola. “Tínhamos passado muitos anos debaixo do mar” (p. 105), relata o narrador-personagem. Emerge Angola independente, um recém-nascido país pronto para reconstruir a sua história. Dessa maneira, Manuel Rui contribui com um livro que procura reescrever a história do país, buscando no passado situações para compreender o presente e arquitetar o futuro. Fazendo prevalecer o caráter multirracial do povo e da cultura angolanos, e apesar de tantos anos de opressão, memória dilacerada e sonhos esgarçados, não há ódio, mas, sim, amor e esperança: “E era essa, talvez, a nossa maior vitória sobre o tempo: não sabermos odiar.” (RUI, 1980, p. 111) Entretanto, Manuel Rui sabe que “a realidade é sempre mais de sonho que o imaginário” como mencionou na epígrafe do livro, e já prever as dificuldades sociais, econômicas e políticas nos tortuosos caminhos da reconstrução que a utopia revolucionária encontrará, “porque o limite do sonho é sempre o real” (RUI, 1980, p. 118).
No pós-colonialismo enfrentado pelos países africanos de língua portuguesa, houve preocupação dos escritores em fazer uma literatura voltada para a reconstrução da própria história, retomada pelo olhar do colonizado, e a incessante busca pela afirmação da identidade, ou seja, libertar-se do pensamento opressor do colonizador.
Tais dilemas fomentaram crises nas gerações anteriores que viveram sob o jugo colonial. Situação que foi se modificando no decorrer do século XX quando os escritores começaram a ter voz e a expor os seus textos. Nesse momento, a imprensa teve papel fundamental, dando espaço às obras literárias, assim como as obras publicadas por escritores como Castro Soromenho, Alfredo Troni, Óscar Ribas e outros fomentam a difícil tarefa do angolano em ser o ator principal de sua literatura.
No caso de Angola, os movimentos literários "Vamos descobrir Angola" e as revistas homônimas “Mensagem”, publicadas em Luanda e Lisboa, nas décadas de 1940 e 1950 foram manifestações essências na consolidação da angolanidade. A partir daí, os escritores angolanos assumiram postura contrária ao sistema opressor em que viviam e participam ativamente da guerra colonial, no início dos anos 1960. A Professora Rita Chaves (USP) sintetiza o drama do escritor como protagonista de sua história:
“(...) as primeiras narrativas que pontuam a história da literatura angolana não conseguem despir-se completamente de uma visão lusa. (...) a inconsistência do angolano como personagem das narrativas é, em certa medida, referência a sua inconsistência como personagem de sua história. (...) o angolano precisava conquistar a sua voz para percorrer o caminho que o levaria à reconquista de sua terra, à recuperação de sua liberdade.” (CHAVES, 2005, p. 73)
Com a independência conquistada, os impasses que afligiam os escritores angolanos puderam ser encarados com a profundidade exigida, e deram continuidade ao processo de exorcizar o passado colonial. Manuel Rui é um dos nomes fundamentais desse processo. Sua obra literária, com o constante recurso da ironia, trata dos problemas vivenciados pela sociedade angolana na construção de um novo país, empenhando-se na defesa do caráter multirracial e plural da cultura angolana, passando pelos desvios ideológicos dos dirigentes políticos que não cumpriram os ideais revolucionários, após 1975.
No livro “Memória de Mar”, publicado em 1980, pela União dos Escritores Angolanos, a narrativa aproxima-se do fantástico, com a utilização de vários tempos narrativos no desenrolar da história, e o uso de personagens-tipo. Trata-se da expedição feita por um pequeno grupo formado por um major, um historiador, um sociólogo e o narrador-personagem à “ilha dos padres”, local em que, misteriosamente, seus habitantes ficaram incomunicáveis após a independência angolana, em 1975.
Valendo-se de fina ironia, Manuel Rui ataca duas instituições que apoiavam o colonialismo: a Igreja Católica e as forças militares portuguesas.
Desde o primeiro contato com os religiosos, moradores da ilha e fervorosos devotos de Nossa Senhora de Fátima, que o narrador-personagem demonstra diversas facetas dos religiosos portugueses, tais como a contrariedade ao ateísmo do regime comunista: “Sim. Compreendo senhor major e melhor compreenderá o senhor deus, pai e senhor dos céus e da terra. E com cariedade perdoará.” (RUI, 1980, p. 22); o preconceito aos angolanos que aderiram à fé católica, e são tratados como ‘serviçais’, as justificativas em pertencer a uma casta superior e no domínio português:
“–Ali são os serviçais. (...) trabalham aqui e, em compensação, ganham a fé em deus e salvam a alma. Noutros tempos, alguns houve, como vereis, que conseguiram aproximar-se mais de deus, estudar humildemente e obter a ordenação. Engrossamos assim o nosso exército de cruzada com uma espécie de oficiais de segunda linha, isto sem ofensa pois eles manejam tão bem a cruz e a palavra de deus como qualquer um de nós.
– Nós quem? – perguntou o sociólogo.
– Nós os religiosos de origem, os que chegámos aqui para evangelizar. (...) nós os que não descendemos do gentio, viemos de longe, deixamos a pátria e família com a sagrada missão de cristianizar esta terra.” (RUI, 1980, p. 23)
O narrador não deixa de denunciar o aspecto político da Igreja em ter que se adaptar aos novos tempos, procurando, assim, manter a parceria com o poder vigente, até então oprimido. Na nova conjuntura busca modificar, inclusive, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, aproximando-a dos traços físicos e cor da etnia dominante. Com a mudança, a Igreja procura continuar manipulando a população e se manter junto ao poder político.
“(...) chegaram os bispos a lavrar uma acta de aditamento. Nela se teciam elogios à senhora de Fátima. Debatia-se a palavra nossa que antecedia senhora e a urgente necessidade de o rosto agora ser pintado de preto, por razões políticas, tendo-se registado também a possível alteração de feições. E, levantada que foi em acta a maka racial, ficou em dúvida se, daí para o futuro, a santa não deveria figurar albina.” (RUI, 1980, p. 110)
Um outro aspecto interessante abordado pelo narrador, em contraponto ao catolicismo, é a valorização da mitologia angolana, representada pela Quianda, a sereia do mar. Embora houvesse a proibição dos superiores religiosos sobre os serviçais, a Quianda estava presente não só no imaginário, mas com presença real entre os angolanos, como podemos inferir no episódio da visita da imagem da N.S. de Fátima à ilha e o desastre que poderia acontecer:
“Correu até o sacrílego boato de que se ela viesse, Quianda, sereia do Kwanza, passaria para aquém da foz até ao canal a revolver as águas em tempestades contra a santa imagem. Creio que o boato partiu dos serviçais ou de algum padre de segunda linha por desbantuizar completamente.” (RUI, 1980, p. 29)
O sincretismo religioso está inserido entre os religiosos desde o início da ocupação da ilha, como revela um griot. O griot tem presença fundamental nas etnias angolanas, pois é o detentor da sabedoria e da memória oral de seu povo, aqui a serviço da religião católica. Ele relembra que, nos primeiros anos de permanência na ilha, o líder espiritual português D. Junqueira fazia uso de “parte dos costumes do continente” (RUI, 1980, p. 65) africano em favorecimento à fé católica, como verificamos na passagem a seguir:
“E assustava os serviçais originários do sul com uma estória do norte. A da Quianda, sereia do Kwanza, que num dia qualquer por maior zanga, cansada de assistir a tanta infidelidade a deus, navegaria para a foz rasgando a barra e, num instante, estoirava a sua fúria numa calema de submergir a ilha e seus habitantes. D. Junqueira apaixonara-se pelos mitos diluvianos e serenídeos. Era dessa arte que ele também assustava os serviçais do norte com estórias do sul, metendo feiticeiros da chuva e inundações, terrível castigo para os infiéis.” (RUI, 1980, p. 66)
Sobre a personagem D. Junqueira, há uma forte passagem que demonstra a hipocrisia do catolicismo em relação ao comportamento e à rigidez de conduta dos padres em relação ao sexo, ainda mais sendo o padre o modelo de conduta:
“Copiavam D. Junqueira em tudo. Por isso, a partir do momento em que um dos serviçais, casualmente, observara D. Junqueira, oculto entre os limoeiros, a mastubar-se com os olhos fixos nas freiras que ao longe colhiam flores para o templo, também os serviçais se masturbavam com o pensamento, que jamais algum deles havia praticado tal acto com os olhos postos em algumas das religiosas.” (RUI, 1980, p. 67)
Tal fato fez com que os serviçais exigissem mulheres, o que contrariou D. Junqueira. O padre mandou que fosse construída uma torre, prendeu todos os serviçais em cruzes, desmentiu o acontecido e as histórias locais, e mandou retirar as freiras do convento, como narrou o griot:
“E tudo se pôs fim – disse o griô – por D. Junqueira ter descoberto todos os cabecilhas. Mandado eles próprios construir uma torre que só acabava no céu. Obrigando um serviçal sabido de lendas de sua terra, contar a estória de Catanda, o homem que subiu, subiu, até roubar a lua. Depois, concluída a torre que tocava o céu, D. Junqueira obrigou cada cabecilha a fabricar uma cruz do tamanho de um homem. E cada um foi amarrado à cruz. E D. Junqueira falou um sermão dizendo que era mentira terem-no visto em gesto tal por entre os limoeiros. Que a mulher era uma coisa sagrada e, como tal, não devia ser comprada de alembamento, muito menos desejada, vorazmente, como um naco de carne. Que olhassem o exemplo da virgem Maria, mãe do senhor. E falou mais: que aquela história da Catanda era mentira porque Catanda era infiel. E os infiéis só ganhavam céu ou mesmo lua por mor de penitência apagadora de pecados. Então, mandou ele recolher as freiras aos retiros. (...) Mandou repicar os homens com uma mistela de óleo de palma, incenso e mirra. Mandou-os subir com as suas cruzes a escalada da torre. Mandou que os outros todos se ajoelhassem de mãos e olhos bem postos no céu. E ele próprio, D. Junqueira, pegou fogo à torre dizendo: perdoai-lhes senhor! Que não sabem o que fazem.” (RUI, 1980, p. 67-68)
O ato de D. Junqueira é revisto pelos religiosos contemporâneos diante dos estrondos da guerra colonial, como uma espécie de maldição sobre a Terra. A proximidade da independência angolana altera os hábitos dos padres e serviçais, que, indiretamente, voltam-se para as manifestações espirituais locais e exigem o acerto de contas com o passado, porém, de acordo com as tradições angolanas:
“ninguém jamais poderia esquecer o tempo de D. Junqueira. A torre. O incêndio. D. Junqueira ofendera o céu, desmentindo a verdade de Catanda, o herói que chegara à lua. Além disso, mandara queimar vivos os homens que falaram em nome de todos, reivindicando mulheres, nem que fossem as freiras. Que agora era tempo de satisfazer a reivindicação. O padre ficou perplexo. (...) Aí, os serviçais quiseram explicar o que faltava resolver: o ajuste de contas com D. Junqueira, o céu, a terra, o mar, e a Quianda. O superior era pela paz. Rogava pelo fim dos estrondos e temia pela segurança da ilha. Então, ao menos, que indicasse tantos padres quantos os homens que D. Junqueira incendiara na torre. Que se fizesse um cortejo de dongos e cânticos de escravos. Que o cortejo fosse pela costa até à barra, afrontasse a rebentação da baba da sereia. Que entrasse no rio até a calmaria da água doce e o fresco da floresta. Que se acendessem velas. Que o superior benzesse os padres encomendasse suas almas. Que os padres fossem atirados à Quianda. E, pago o tributo, que o cortejo regressasse à ilha para um comba sem quaisquer limites com o levantamento da proibição de bebidas fermentadas. Depois, quando chegasse o varrer as cinzas, sucumbiria a ira da sereia para o fim da guerra. O superior respondeu que nunca supusera um tão grande retrocesso naqueles espíritos que ele ajudara no caminho do céu. Não desejava contrariar as tradições. Mas aquilo era uma heresia.” (RUI, 1980, pp. 69-71)
Como as oferendas não foram feitas, o padre sofre as conseqüências por não respeitar as tradições locais, como é narrado pelo griot enquanto segurava um crucifixo atestando o sincretismo religioso:
“Não passaram os estrondos – prosseguiu o griô – e dias depois, quando na ilha se comemorava a padroeira, a Quianda cumpriu sua promessa, rasgou a barra, entrou no oceano e, quando o superior se punha em fuga numa embarcação roubada, ante o susto de ainda ver a sereia engolir o busto de D. Junqueira, também ele, superior, foi engolido pela boca da sereia.
E, segurando um crucifixo pendurado ao pescoço, o griô disse: tudo tem o seu fim. Também a Quianda havia desaparecido para sempre.” (RUI, 1980, pp. 72-73)
Ao referir-se aos militares portugueses, o narrador-personagem é mais cruel em sua ironia, que beira o sarcasmo. Ao retratar militares que se encontram em um submarino e não têm noção do que acontece nas batalhas em Angola.
A princípio, um comandante demonstra confiança e arrogância ao mencionar o apoio internacional que Portugal teria. Tal posição é contrária à opinião internacional, que pressionava Portugal a abandonar as colônias africanas e aceitar a independência destas, principalmente após a revolução dos Cravos, em 25/04/1974. Ignora o avançar das forças angolanas, e não percebe a leviandade de suas declarações a uma mulher portuguesa retornada, que insultava a incompetência e traição dos militares:
"O certo é que o plano terá de se cumprir. É impossível que esses boçais resistem a tanta força. A norte os zairenses, mercenários e os aprendizes de Holden. Cá em baixo os sul-africanos, o elp e as multidões de Savimbi. Aliás, estão praticamente liquidados os meios de transporte dos comunistas. (...)
A esta hora Santos e Castro retomou Caxito. A coluna do sul queimou Porto Amboim e caminha sem problemas para Luanda. (...)
Haja o que houver a guerra está ganha. Demonstraremos em Lisboa o que foi a grande traição de vinte e cinco de Abril e desfilaremos no Terreiro do Paço com os generais fiéis às tradições da pátria." (RUI, 1980, pp. 79-80)
"Não merecemos as suas palavras insultuosas. Não traímos nem a fé nem o império. Estamos integrados em um plano conjunto. Forças zairenses, fenelá, unita, a fina flor dos mercenários, elp, sul-africanos. Possuímos um enorme apoio dos Estados Unidos, França, Alemanha Federal e outros países do mundo civilizado. Armamento não nos falta, incluindo o chinês e devo dizer-lhe que depois da segunda guerra mundial, a marcha que se faz neste momento sobre Luanda em várias frentes, é, sem dúvida, a maior marcha de blindados que a história registará." (RUI, 1980, p. 85)
Apreendemos a guerra colonial angolana inserida em meio ao contexto da Guerra Fria. O MPLA era apoiado pelo bloco comunista, e Portugal apoiava a UNITA (grupo de guerrilheiros angolanos contrários ao futuro regime comandado por Moscou) além de ter a ajuda da África do Sul e dos norte-americanos, estes não declarados oficialmente.
Hilariante é o diálogo entre o comandante e o náufrago, nu, que ele julga ser um mensageiro, mas, na verdade, é um dos religiosos da ilha dos padres. O religioso conta toda a história da ilha, da maldição, de rezar pela paz. Prosa que irrita o comandante, julgando-o louco ou espião comunista. Até que recebe um telefonema de Luanda e, finalmente, terá a exata noção do que acontece em terra:
"– Alô submarino, alô submarino responde Luanda. Os comunistas estão a proclamar a independência os blindados não entraram em Luanda corremos perigo sou obrigado a concluir comunicação receio interferência repito receio interferência inimiga terminado." (RUI, 1980, p. 95)
O comandante, perplexo, ordena a subida à superfície, porém o submarino é obrigado a submergir por causa dos ataques. Incrédulo, ainda, o comandante afirma:
"– Para baixo – gritou o comandante – não sei o que se passa mas parece que estamos a ser alvejados a partir dos nossos próprios barcos e com as nossas peças que afundamos na ilha. Para baixo!" (RUI, 1980, p. 97)
A submersão do submarino como metáfora do fim do colonialismo em Angola. “Tínhamos passado muitos anos debaixo do mar” (p. 105), relata o narrador-personagem. Emerge Angola independente, um recém-nascido país pronto para reconstruir a sua história. Dessa maneira, Manuel Rui contribui com um livro que procura reescrever a história do país, buscando no passado situações para compreender o presente e arquitetar o futuro. Fazendo prevalecer o caráter multirracial do povo e da cultura angolanos, e apesar de tantos anos de opressão, memória dilacerada e sonhos esgarçados, não há ódio, mas, sim, amor e esperança: “E era essa, talvez, a nossa maior vitória sobre o tempo: não sabermos odiar.” (RUI, 1980, p. 111) Entretanto, Manuel Rui sabe que “a realidade é sempre mais de sonho que o imaginário” como mencionou na epígrafe do livro, e já prever as dificuldades sociais, econômicas e políticas nos tortuosos caminhos da reconstrução que a utopia revolucionária encontrará, “porque o limite do sonho é sempre o real” (RUI, 1980, p. 118).
Ricardo Riso
BIBLIOGRAFIA:
CHAVES, Rita. O passado presente na literatura angolana. In: Angola e Moçambique – experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Atelier Editorial, 2005. pp. 45-62
RUI, Manuel. Memória de mar. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1980.
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Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto
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Manuel Rui: A casa do rio
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Manuel Rui - A casa do rio
Novo livro do escritor angolano Manuel Rui, A Casa do Rio. Manuel Rui estará presente no III Encontro Internacional de Professoras de Literaturas Africanas, participará da palestra de abertura ao lado de Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e João Melo. Onde? Fundação Biblioteca Nacional. Quando? 21/11, às 11h.
Riso
Começaram a almoçar e Antero recontou à mais-velha a sua saída, obrigado e mandado pelo administrador do Posto do Chipindo e ainda ela quis saber da vida no Puto, que ainda tinham lá um parente nas obras que mandara uma carta em mãos, a falar que viria de férias. Antero quase não ouvia nada e, nas piadas, exagerava no riso para, de cabeça baixa, sentir as lágrimas a misturarem-se nos lábios com a comida que nem saboreava. Era melhor não avançar nada sobre a casa, tanto mais que não seria ali o lugar, bem altaneiro, e a casa era numa baixa, sopé das serras. Mas, para não esquecer, adiantava entregar o recado ao irmão e só depois de almoçados, aí sim, a factura para a motorizada.
«Paquito. Guarda esse bilhete no bolso. É dos teus sobrinhos.»
«Já foi há muito tempo, mas soube que o mano Gandi morreu. Mas também sei que a madrinha, a mãe, está viva, mas o mano não trouxe fotografias dos meus sobrinhos?»
«Não trouxe, desculpa foi tudo à pressa e ainda graças ao primo Juca. Nem hoje. Há tempo para te contar como vim parar aqui. Quer dizer, tinha que vir. Mas vou-te mandar as fotos que não vamos perder mais o contacto.»
Género(s): Literatura/ Ficção/Romance
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 340
Peso: 400 g Colecção: «Outras Margens», n.º 67
Código: 93.067
ISBN: 978-972-21-1894-1
1.ª edição: Setembro 2007
Preço: 14,70 €
Começaram a almoçar e Antero recontou à mais-velha a sua saída, obrigado e mandado pelo administrador do Posto do Chipindo e ainda ela quis saber da vida no Puto, que ainda tinham lá um parente nas obras que mandara uma carta em mãos, a falar que viria de férias. Antero quase não ouvia nada e, nas piadas, exagerava no riso para, de cabeça baixa, sentir as lágrimas a misturarem-se nos lábios com a comida que nem saboreava. Era melhor não avançar nada sobre a casa, tanto mais que não seria ali o lugar, bem altaneiro, e a casa era numa baixa, sopé das serras. Mas, para não esquecer, adiantava entregar o recado ao irmão e só depois de almoçados, aí sim, a factura para a motorizada.
«Paquito. Guarda esse bilhete no bolso. É dos teus sobrinhos.»
«Já foi há muito tempo, mas soube que o mano Gandi morreu. Mas também sei que a madrinha, a mãe, está viva, mas o mano não trouxe fotografias dos meus sobrinhos?»
«Não trouxe, desculpa foi tudo à pressa e ainda graças ao primo Juca. Nem hoje. Há tempo para te contar como vim parar aqui. Quer dizer, tinha que vir. Mas vou-te mandar as fotos que não vamos perder mais o contacto.»
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Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 340
Peso: 400 g Colecção: «Outras Margens», n.º 67
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1.ª edição: Setembro 2007
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sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Quem me dera ser onda - Manuel Rui
Alguns autores conseguem tecer linhas cômicas diante da condição trágica do cotidiano, o que acabou se tornando uma característica comum nas produções literárias de países periféricos. O riso passa a ser o elemento crítico da ordem estabelecida, apontando suas falhas e subvertendo-a, demonstrando o grotesco da situação vigente. No caso específico das literaturas africanas de língua portuguesa, depreendemos o uso da carnavalização de Bakthin.
Na novela Quem me dera ser onda, do angolano Manuel Rui, o caráter cômico predomina durante toda a narrativa. O grotesco apresenta-se no inusitado enredo do livro: moradores vindos do interior decidem criar um porco em um apartamento no sétimo andar de um prédio. Com isto, várias “makas” acontecem entre o fiscal do prédio, responsável por manter a ordem, Diogo e seus filhos Zeca e Ruca, que tentam ocultar a presença do suíno.
A novela passa-se no período pós-independência angolano, e inferimos a presença do ambiente de euforia que havia com a libertação recentemente conquistada do colonialismo português. Notamos também a utilização de um vocabulário de cunho marxista, pois a revolução feita pelo MPLA, partido que assumiu o poder, tinha orientação comunista. Contudo, é exatamente na aplicação dos valores da ideologia marxista na sociedade angolana que as contradições surgem em razão da revolução não cumprir com plenitude suas promessas. E é no cotidiano do prédio que a narrativa de Manuel Rui pretende metonimizar a situação do país naquele momento.
Apreendemos o frouxo cumprimento das leis pelos revolucionários logo no início da novela. Diogo, fiel aos ideais da revolução, subverte a lei do prédio ao levar um porco para o apartamento. Este personagem é responsável por diversas passagens cômicas do texto, é ele que questiona os privilégios de alguns companheiros, é quem busca soluções para manter o porco quieto: “Diogo mandava logo a mulher ou um dos filhos levantar o rádio para abafar a denúncia da presença do porco” (RUI, 2000, p. 17) e em seguida descobre uma solução mais eficiente e silenciosa: “Diogo trouxe um fio comprimido e muito fininho todo enrolado. (...) ligou o rádio, pegou o auscultador pequenino na outra extremidade, meteu na orelha do porco colando seis tiras de adesivo como se fosse um penso” (RUI, 2000, p. 19). Para surpresa de todos, o porco imediatamente fica calado, o que leva Diogo a comemorar de acordo com suas convicções: “Conquistas da revolução! Estás politizado! Isto é o que a comissão de moradores devia ver” (RUI, 2000, p. 19). Com fina ironia, o narrador comenta que “carnaval da vitória” (nome do porco) passa a ser o principal ouvinte da rádio do país.
Apreendemos certa inocência em Diogo e seu furor revolucionário, pois seus comentários oscilam entre pesadas críticas à corrupção dos governantes e a euforia com pequenas conquistas na vida social, como mostra a passagem em que a sua tão sonhada carne foi retirada dos restos alimentícios de um hotel de luxo pelos seus filhos, com o intuito de acalmá-lo e, assim, fazer com que ele esquecesse de comer carne de porco: “Funge de carne? Até que enfim, mulher! Bastou mudarem o ministro para a carne aparecer nas bichas. Vamos a ver agora se a pequena-burguesia lhe não atrapalha o trabalho. Assim é que é. Revolução começa na barriga.” (RUI, 2000, p. 45)
Entretanto, o objetivo de Diogo é alimentar o porco até o carnaval, data que promete fazer um grande churrasco e saciar a vontade de comer carne, sumida dos postos de abastecimento para a população, porém farta na dieta dos políticos do alto escalão do partido conforme denuncia a novela. Mas sua idéia vai de encontro ao pensamento dos filhos, que rapidamente iniciam um fraterno relacionamento com o animal: “Os dois miúdos tratavam o porco como membro da família. Limpavam o cocó dele, davam-lhe banho e, todos os dias, passavam na traseira do hotel a recolher dos contentores pitéus variados com que o bicho se giboiava” (RUI, 2000, p. 20). A amizade gerará diversas situações hilárias protagonizadas pelas crianças na tentativa de esconder o porco.
Com o carinho desenvolvido pelos meninos, “carnaval da vitória” passa a alimentar-se com restos de um hotel luxuoso, “comia de um hotel de primeira; nos restos vinham panados, saladas mistas, camarões, maioneses, lagosta, bolo inglês, outras coisas sempre a variar” (RUI, 2000, p. 17). Diferente de seu passado, em que a ração se resumia em comer espinhas de peixe nas areias da praia de Corimba, alimentando críticas de Diogo que começa a considerar o comportamento do animal como pequeno-burguês: “Estás-te a aburguesar-se. Quem te viu e quem te vê. É a luta de classes!” (RUI, 2000, p. 17). O porco transforma-se, segundo Maria Teresa Salgado,
“o animal acaba metamorfoseando-se, respondendo ao papel dinâmico e ambivalente da cultura popular, que remete às imagens do corpo grotesco em transformação: ‘O suíno estava quase culto, quase protocolar. Maneirava vênias de obséquio com o focinho e aprendera a acenar com a pata direita, além de se pôr de papo para o ar à mínima cócega que um dos miúdos lhe oferecesse à barriga’” (LEÃO, 2003, p. 120).
Ou seja, o porco alimenta-se melhor e com mais variedade que os moradores da casa, levando Diogo a denunciar o “peixefritismo”, que é a ausência de carne nas refeições diárias em virtude do racionamento imposto pelo governo.
As crianças têm importante papel durante a trama, pois são elas que possuem o pensamento rápido e astuto para conseguir garantir a permanência do animal, escondendo-o, através de mentiras, dos fiscais responsáveis pelo cumprimento das regras do prédio. Protegem “carnaval da vitória” de embaraçosas situações, como a vez que decidiram levar o animal à escola e este consegue fugir enquanto estava entre os colegas de turma. Além do porco se tornar um ídolo para os meninos, fazendo com que ele vire personagem de um concurso de redação e desenho da escola, sendo admirado até pela professora.
São as crianças que infernizam as vidas dos fiscais do prédio, mostrando a fragilidade e o despreparo dos que seriam os responsáveis por manter a chama revolucionária acesa. No trecho a seguir, veremos que o camarada Nazário é ridicularizado pelos meninos por não conhecer corretamente a língua portuguesa nem os dizeres corretos para um comunicado oficial:
“1º Porque é preciso resolver os problemas do povo deste prédio:
2º Assim é que: está proibida a habitação no seio do mesmo de animais porcos çuínos.
Produção, Vigilância e disciplina
Nazário e Faustino
Abaixo a reacção
A luta continua
A vitória é certa!
– Desculpe camarada Nazário, mas suíno é com esse, disciplina é antes de vigilância e antes da luta continua tem de pôr pelo Poder Popular e no fim acaba ano da criação da Assembléia do Povo e Congresso Extraordinário do Partido!” (RUI, 2000, pp. 14-15)
Os comunicados são usados pelos garotos após o furto de um bloco do camarada Faustino e, através deles, expõem o patrulhamento ideológico, o instável momento político do país com a iminência de uma contra-revolução, o favorecimento daquilo que é do Estado e ridicularizam os fiscais com suas mensagens fantasiosas.
“A COMISSÃO DE MORADORES ROUBOU UM PORCO QUE ESTAVA NA BICHA DA LOJA DO POVO. ABAIXO OS ESPECULADORES!
O Fiscal do Ministério
João Pitanga Ismael” (RUI, 2000, p. 34)
“Tribunal da Comarca de Luanda – 2ª Vara
Para os cães policiais da cadeia do Tribunal peço aparas cruas de carne. Mande-me pouco sebo. São cães estatais, comem todos os dias.
Saudações Revolucionárias
Faustino (Juiz)” (RUI, 2000, p. 44)
“CAMARADAS MORADORES
OS ESPECULADORES DIOGO, FAUSTINO E NAZÁRIO SÃO CONTRA O CARNAVAL DA VITÓRIA.
ABAIXO A REACÇÃO
O Fiscal
Loló Madaleno” (RUI, 2000, p. 51)
Todavia, mesmo com todas as peripécias para manter “carnaval da vitória” vivo, o porco é morto por Diogo e o churrasco é realizado durante o carnaval numa grande confraternização que reuniu, inclusive, o fiscal Nazário: “– Ataque camarada Nazário. É lombinho e não é marítimo. – Espere um momento. Vou buscar a minha mulher, trago uma grade e na volta chamo o Faustino com a aparelhagem. Veja se precisam de louças e talheres.” (RUI, 2000, p. 60)
A metáfora é clara, tal como o porco “carnaval da vitória”, os ideais da revolução não sobrevivem aos descaminhos que se seguiram na construção da nação angolana. O porco saiu da miséria em que vivia na praia, teve seus dias de glória e bom tratamento com as refeições caprichosas do hotel que os meninos traziam. Contudo, seu momento de bem-estar e euforia foi curto como a paz em Angola que, após a guerra colonial e a conquista da independência, conviveu com poucos anos de estabilidade e depois sofreu com a guerra civil entre o MPLA e a UNITA, esta patrocinada pela África do Sul.
Entretanto, a distopia contida na mensagem da novela, deixa-nos ao seu final uma ponta de esperança vinda das crianças ao refletirem se não seria melhor terem deixado “carnaval da vitória” fugir. Afinal, o porco em seu lugar era “livre. Vadio na chafurda despreocupada” (RUI, 2000, p. 55), associam a liberdade às vagas (ondas) do mar, pois “onda ninguém amarra” (RUI, 2000, p. 55) e buscam no espaço libertador dos sonhos o desejo de ser onda.
Portanto, é pelo uso da carnavalização e do grotesco perpetrada na novela que o autor Manuel Rui narra, recorrendo ao riso, a desilusão revolucionária angolana, porém sem deixar a chama da esperança desaparecer: “E Ruca, cheio daquela fúria linda que as vagas da Chicala pintam sempre na calma do mar, repetiu a frase de Beto: – Quem me dera ser onda!” (RUI, 2000, p. 60)
Riso
Na novela Quem me dera ser onda, do angolano Manuel Rui, o caráter cômico predomina durante toda a narrativa. O grotesco apresenta-se no inusitado enredo do livro: moradores vindos do interior decidem criar um porco em um apartamento no sétimo andar de um prédio. Com isto, várias “makas” acontecem entre o fiscal do prédio, responsável por manter a ordem, Diogo e seus filhos Zeca e Ruca, que tentam ocultar a presença do suíno.
A novela passa-se no período pós-independência angolano, e inferimos a presença do ambiente de euforia que havia com a libertação recentemente conquistada do colonialismo português. Notamos também a utilização de um vocabulário de cunho marxista, pois a revolução feita pelo MPLA, partido que assumiu o poder, tinha orientação comunista. Contudo, é exatamente na aplicação dos valores da ideologia marxista na sociedade angolana que as contradições surgem em razão da revolução não cumprir com plenitude suas promessas. E é no cotidiano do prédio que a narrativa de Manuel Rui pretende metonimizar a situação do país naquele momento.
Apreendemos o frouxo cumprimento das leis pelos revolucionários logo no início da novela. Diogo, fiel aos ideais da revolução, subverte a lei do prédio ao levar um porco para o apartamento. Este personagem é responsável por diversas passagens cômicas do texto, é ele que questiona os privilégios de alguns companheiros, é quem busca soluções para manter o porco quieto: “Diogo mandava logo a mulher ou um dos filhos levantar o rádio para abafar a denúncia da presença do porco” (RUI, 2000, p. 17) e em seguida descobre uma solução mais eficiente e silenciosa: “Diogo trouxe um fio comprimido e muito fininho todo enrolado. (...) ligou o rádio, pegou o auscultador pequenino na outra extremidade, meteu na orelha do porco colando seis tiras de adesivo como se fosse um penso” (RUI, 2000, p. 19). Para surpresa de todos, o porco imediatamente fica calado, o que leva Diogo a comemorar de acordo com suas convicções: “Conquistas da revolução! Estás politizado! Isto é o que a comissão de moradores devia ver” (RUI, 2000, p. 19). Com fina ironia, o narrador comenta que “carnaval da vitória” (nome do porco) passa a ser o principal ouvinte da rádio do país.
Apreendemos certa inocência em Diogo e seu furor revolucionário, pois seus comentários oscilam entre pesadas críticas à corrupção dos governantes e a euforia com pequenas conquistas na vida social, como mostra a passagem em que a sua tão sonhada carne foi retirada dos restos alimentícios de um hotel de luxo pelos seus filhos, com o intuito de acalmá-lo e, assim, fazer com que ele esquecesse de comer carne de porco: “Funge de carne? Até que enfim, mulher! Bastou mudarem o ministro para a carne aparecer nas bichas. Vamos a ver agora se a pequena-burguesia lhe não atrapalha o trabalho. Assim é que é. Revolução começa na barriga.” (RUI, 2000, p. 45)
Entretanto, o objetivo de Diogo é alimentar o porco até o carnaval, data que promete fazer um grande churrasco e saciar a vontade de comer carne, sumida dos postos de abastecimento para a população, porém farta na dieta dos políticos do alto escalão do partido conforme denuncia a novela. Mas sua idéia vai de encontro ao pensamento dos filhos, que rapidamente iniciam um fraterno relacionamento com o animal: “Os dois miúdos tratavam o porco como membro da família. Limpavam o cocó dele, davam-lhe banho e, todos os dias, passavam na traseira do hotel a recolher dos contentores pitéus variados com que o bicho se giboiava” (RUI, 2000, p. 20). A amizade gerará diversas situações hilárias protagonizadas pelas crianças na tentativa de esconder o porco.
Com o carinho desenvolvido pelos meninos, “carnaval da vitória” passa a alimentar-se com restos de um hotel luxuoso, “comia de um hotel de primeira; nos restos vinham panados, saladas mistas, camarões, maioneses, lagosta, bolo inglês, outras coisas sempre a variar” (RUI, 2000, p. 17). Diferente de seu passado, em que a ração se resumia em comer espinhas de peixe nas areias da praia de Corimba, alimentando críticas de Diogo que começa a considerar o comportamento do animal como pequeno-burguês: “Estás-te a aburguesar-se. Quem te viu e quem te vê. É a luta de classes!” (RUI, 2000, p. 17). O porco transforma-se, segundo Maria Teresa Salgado,
“o animal acaba metamorfoseando-se, respondendo ao papel dinâmico e ambivalente da cultura popular, que remete às imagens do corpo grotesco em transformação: ‘O suíno estava quase culto, quase protocolar. Maneirava vênias de obséquio com o focinho e aprendera a acenar com a pata direita, além de se pôr de papo para o ar à mínima cócega que um dos miúdos lhe oferecesse à barriga’” (LEÃO, 2003, p. 120).
Ou seja, o porco alimenta-se melhor e com mais variedade que os moradores da casa, levando Diogo a denunciar o “peixefritismo”, que é a ausência de carne nas refeições diárias em virtude do racionamento imposto pelo governo.
As crianças têm importante papel durante a trama, pois são elas que possuem o pensamento rápido e astuto para conseguir garantir a permanência do animal, escondendo-o, através de mentiras, dos fiscais responsáveis pelo cumprimento das regras do prédio. Protegem “carnaval da vitória” de embaraçosas situações, como a vez que decidiram levar o animal à escola e este consegue fugir enquanto estava entre os colegas de turma. Além do porco se tornar um ídolo para os meninos, fazendo com que ele vire personagem de um concurso de redação e desenho da escola, sendo admirado até pela professora.
São as crianças que infernizam as vidas dos fiscais do prédio, mostrando a fragilidade e o despreparo dos que seriam os responsáveis por manter a chama revolucionária acesa. No trecho a seguir, veremos que o camarada Nazário é ridicularizado pelos meninos por não conhecer corretamente a língua portuguesa nem os dizeres corretos para um comunicado oficial:
“1º Porque é preciso resolver os problemas do povo deste prédio:
2º Assim é que: está proibida a habitação no seio do mesmo de animais porcos çuínos.
Produção, Vigilância e disciplina
Nazário e Faustino
Abaixo a reacção
A luta continua
A vitória é certa!
– Desculpe camarada Nazário, mas suíno é com esse, disciplina é antes de vigilância e antes da luta continua tem de pôr pelo Poder Popular e no fim acaba ano da criação da Assembléia do Povo e Congresso Extraordinário do Partido!” (RUI, 2000, pp. 14-15)
Os comunicados são usados pelos garotos após o furto de um bloco do camarada Faustino e, através deles, expõem o patrulhamento ideológico, o instável momento político do país com a iminência de uma contra-revolução, o favorecimento daquilo que é do Estado e ridicularizam os fiscais com suas mensagens fantasiosas.
“A COMISSÃO DE MORADORES ROUBOU UM PORCO QUE ESTAVA NA BICHA DA LOJA DO POVO. ABAIXO OS ESPECULADORES!
O Fiscal do Ministério
João Pitanga Ismael” (RUI, 2000, p. 34)
“Tribunal da Comarca de Luanda – 2ª Vara
Para os cães policiais da cadeia do Tribunal peço aparas cruas de carne. Mande-me pouco sebo. São cães estatais, comem todos os dias.
Saudações Revolucionárias
Faustino (Juiz)” (RUI, 2000, p. 44)
“CAMARADAS MORADORES
OS ESPECULADORES DIOGO, FAUSTINO E NAZÁRIO SÃO CONTRA O CARNAVAL DA VITÓRIA.
ABAIXO A REACÇÃO
O Fiscal
Loló Madaleno” (RUI, 2000, p. 51)
Todavia, mesmo com todas as peripécias para manter “carnaval da vitória” vivo, o porco é morto por Diogo e o churrasco é realizado durante o carnaval numa grande confraternização que reuniu, inclusive, o fiscal Nazário: “– Ataque camarada Nazário. É lombinho e não é marítimo. – Espere um momento. Vou buscar a minha mulher, trago uma grade e na volta chamo o Faustino com a aparelhagem. Veja se precisam de louças e talheres.” (RUI, 2000, p. 60)
A metáfora é clara, tal como o porco “carnaval da vitória”, os ideais da revolução não sobrevivem aos descaminhos que se seguiram na construção da nação angolana. O porco saiu da miséria em que vivia na praia, teve seus dias de glória e bom tratamento com as refeições caprichosas do hotel que os meninos traziam. Contudo, seu momento de bem-estar e euforia foi curto como a paz em Angola que, após a guerra colonial e a conquista da independência, conviveu com poucos anos de estabilidade e depois sofreu com a guerra civil entre o MPLA e a UNITA, esta patrocinada pela África do Sul.
Entretanto, a distopia contida na mensagem da novela, deixa-nos ao seu final uma ponta de esperança vinda das crianças ao refletirem se não seria melhor terem deixado “carnaval da vitória” fugir. Afinal, o porco em seu lugar era “livre. Vadio na chafurda despreocupada” (RUI, 2000, p. 55), associam a liberdade às vagas (ondas) do mar, pois “onda ninguém amarra” (RUI, 2000, p. 55) e buscam no espaço libertador dos sonhos o desejo de ser onda.
Portanto, é pelo uso da carnavalização e do grotesco perpetrada na novela que o autor Manuel Rui narra, recorrendo ao riso, a desilusão revolucionária angolana, porém sem deixar a chama da esperança desaparecer: “E Ruca, cheio daquela fúria linda que as vagas da Chicala pintam sempre na calma do mar, repetiu a frase de Beto: – Quem me dera ser onda!” (RUI, 2000, p. 60)
Riso
Fontes:
RUI, Manuel. Quem me dera ser onda. Rio de Janeiro, Gryphus, 2005.
SALGADO, Maria Teresa. O riso na literatura angolana de língua portuguesa. In: LEÃO, Ângela Vaz. Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua portuguesa. Belo Horizonte, Pucminas, 2003.
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Manuel Rui
Manuel Rui: Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto
Manuel Rui é escritor angolano, da cidade de Huambo, nascido em 1941. Lançou, entre outros, Rioseco, Um anel na areia e Quem me dera ser onda, sendo esta a sua obra mais conhecida.
Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto
Manuel Rui
Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, Brasil, 23/05/1985.*
Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.
Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.
Mas para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me. Assim na minha oratura para além das estórias antigas na memória do tempo eu vou passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. Por exemplo o espantalho silencioso que coloco na lavra para os pássaros não me comerem a massambala passa a ser o outro que não fazia parte do texto. Também vou substituir a surucucu cobra maldita. Surucucu passa a ser o outro. E a cobra no meu texto inventado agora passa a ser bela e pacífica se morder o outro com o seu veneno mortal.
E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a luta. Ah! Não tinha reparado. Afinal isto é uma luta. E eu não posso retirar do meu texto a arma principal . A identidade. Se o fizer deixo de ser eu e fico outro, aliás como o outro quer. Então vou preservar o meu texto, engrossá-lo mais ainda de cantos guerreiros. Mas a escrita? A escrita. Finalmente apodero-me dela. E agora? Vou passar o meu texto oral para a escrita? Não. É que a partir do movimento em que eu o transferir para o espaço da folha branca, ele quase morre. Não tem árvores. Não tem ritual. Não tem as crianças sentadas segundo o quadro comunitário estabelecido. Não tem som. Não tem dança. Não tem braços. Não tem olhos. Não tem bocas. O texto são bocas negras na escrita quase redundam num mutismo sobre a folha branca. O texto oral tem vezes que só pode ser falado por alguns de nós. E há palavras que só alguns de nós podem ouvir. No texto escrito posso liquidar este código aglutinador. Outra arma secreta para combater o outro e impedir que ele me descodifique para depois me destruir.
Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código que a escrita já comporta? Isso não. No texto oral já disse: não toco e não o deixo minar pela escrita, arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto. Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma temos de ser nós. ‘Nós mesmos’. Assim reforço a identidade com a literatura.
Só que agora porque o meu espaço e tempo foi agredido, para defender por vezes dessituo do espaço e tempo o tempo mais total. O mundo não sou eu só. O mundo somos nós e os outros. E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste então o mundo universal.
Escrever então é viver.
Escrever assim é lutar.
Literatura e identidade. Princípio e fim. Transformador. Dinâmico. Nunca estático para que além da defesa de mim me reconheça sempre que sou eu a partir de nós também para a desalienação do outro até que um dia e virá “os portos do mundo sejam portos de todo o mundo”.
Até lá não se espantem. É quase natural que eu escreva também ódio por amor ao amor.
Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.
Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.
Mas para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me. Assim na minha oratura para além das estórias antigas na memória do tempo eu vou passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. Por exemplo o espantalho silencioso que coloco na lavra para os pássaros não me comerem a massambala passa a ser o outro que não fazia parte do texto. Também vou substituir a surucucu cobra maldita. Surucucu passa a ser o outro. E a cobra no meu texto inventado agora passa a ser bela e pacífica se morder o outro com o seu veneno mortal.
E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a luta. Ah! Não tinha reparado. Afinal isto é uma luta. E eu não posso retirar do meu texto a arma principal . A identidade. Se o fizer deixo de ser eu e fico outro, aliás como o outro quer. Então vou preservar o meu texto, engrossá-lo mais ainda de cantos guerreiros. Mas a escrita? A escrita. Finalmente apodero-me dela. E agora? Vou passar o meu texto oral para a escrita? Não. É que a partir do movimento em que eu o transferir para o espaço da folha branca, ele quase morre. Não tem árvores. Não tem ritual. Não tem as crianças sentadas segundo o quadro comunitário estabelecido. Não tem som. Não tem dança. Não tem braços. Não tem olhos. Não tem bocas. O texto são bocas negras na escrita quase redundam num mutismo sobre a folha branca. O texto oral tem vezes que só pode ser falado por alguns de nós. E há palavras que só alguns de nós podem ouvir. No texto escrito posso liquidar este código aglutinador. Outra arma secreta para combater o outro e impedir que ele me descodifique para depois me destruir.
Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código que a escrita já comporta? Isso não. No texto oral já disse: não toco e não o deixo minar pela escrita, arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto. Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma temos de ser nós. ‘Nós mesmos’. Assim reforço a identidade com a literatura.
Só que agora porque o meu espaço e tempo foi agredido, para defender por vezes dessituo do espaço e tempo o tempo mais total. O mundo não sou eu só. O mundo somos nós e os outros. E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste então o mundo universal.
Escrever então é viver.
Escrever assim é lutar.
Literatura e identidade. Princípio e fim. Transformador. Dinâmico. Nunca estático para que além da defesa de mim me reconheça sempre que sou eu a partir de nós também para a desalienação do outro até que um dia e virá “os portos do mundo sejam portos de todo o mundo”.
Até lá não se espantem. É quase natural que eu escreva também ódio por amor ao amor.
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