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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Maria Helena Sato - Caleidoscópio



Maria Helena Sato - Caleidoscópio
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 208, p. 24, de 25 de agosto de 2011.

Recriar a origem das ilhas de Cabo Verde a partir de referenciais universais distantes do colonizador português gerou ótimos momentos ao longo da história literária do arquipélago, desde os pré-claridosos como José Lopes e Pedro Cardoso com o mito hesperitano, passando pelo telurismo épico e heróico de Corsino Fortes e Timóteo Tio Tiofe, até as díspares experiências contemporâneas, tais como os poemas do caderno “Ó de Ceia das Ilhas” inserido em “Me_xendo no baú, vasculhando o u”, de Filinto Elísio, da estreia em poesia de Mário Lúcio Sousa e o seu “O Nascimento de um Mundo”, e o poema “Parábola do Castro Sofrimento” de NZé dy Sant’Y’Águ (heterônimo de José Luis Hopffer Almada).

A cabo-verdiana Maria Helena Sato prestou seu contributo às ilhas nos poemas de “Areias e Ramas” e inovou ao apresentar sua peculiar genealogia para as ilhas nos dez contos de “Caleidoscópio” (Juiz de Fora: Mosteiro de São Bento, 2009). Neste, Sato, descompromissada de rigor histórico, rememorou com extrema habilidade narrativa as histórias contadas por sua avó acerca das origens das ilhas e passou para a escrita esse conhecimento oral acrescidas de suas referências literárias, o que tornou os textos híbridos entre o ficcional e os mitos universais e do ilhéu.

Assim sendo, os contos dedicados às Ilhas de São Nicolau e Santiago exemplificam essa associação proposta pela autora ao narrar como os nomes dos santos nomearam as ilhas. Na primeira, a ilha servia de entreposto para Papai Noel distribuir seus presentes até ser descoberto que seu nome era Nicolau, enquanto para Santiago narra-se que a ilha seria um possível lugar para os reis magos esconderem o nascimento de Jesus Cristo de seus perseguidores, sendo Tiago o responsável para os preparativos do local.

O ficcional se dá na bela metáfora da persistência, perseverança e coragem do ilhéu para vencer as adversidades e os parcos recursos originam o nome da Ilha Brava, assim como a singela e inusitada origem para a Ilha de Santa Luzia.

O resgate de tradições surge para a Ilha do Sal, já que o processo de salgar o peixe e assim conservá-lo é retomado para evitar desperdício em tempos de pesca farta.

A revisitação do passado escravocrata da Ilha do Fogo é retomado a partir de uma revolta em 1680, tendo a morte de seu líder, os seus olhos vermelhos e o seu sangue em analogia às lavas do vulcão mostram a origem de como a ilha passou a ter esse nome.

Para Santo Antão, o criativo conto apresenta o imaginário encontro do pirata Tom Bans e Bashô, o mestre do hai cai, para demonstrar o acolhimento da ilha com os imigrantes, para além da convivência pacífica e respeito mútuo ter auxiliado o oriental Bashô “que ficara mais claro enxergar o sentido da vida no caminho entre os dois vales”. Salienta-se ainda o didatismo a respeito do hai cai e a bela homenagem ao poeta António Januário Leite, natural da ilha. Aliás, homenagens aos escritores repetem-se nos contos à Ilha de São Nicolau (a Baltasar Lopes da Silva) e São Vicente (Sérgio Frusoni).

O cosmopolitismo da Ilha de São Vicente aparece na excêntrica tripulação de um navio formada por ícones de diversas artes, desde personagens literários (Hercules Poirot) e seus criadores (Agatha Christie), poetas (Camões), mágicos (David Copperfield) e artistas (Leonardo da Vinci), assim como o hibridismo do falar local que incorporou estrangeirismos do inglês e do francês, e palavras do português medieval, para além da apropriação da carta para narrar esse conto.

Sem deixar de mencionar temas comuns a todas as ilhas, tais como a escassez das chuvas, a emigração forçada, a origem escravocrata dos negros, a pesca e os dramas do pescador, esses foram alguns exemplos de como Maria Helena Sato em seu caleidoscópio narrativo aliou oralidade e escrita, tradições locais e referências universais para na 11ª ilha manter a sua caboverdianidade plena associado a esse sujeito contemporâneo deslocado e completamente incorporada como cidadã do mundo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Maria Helena Sato - Areias e Ramas (resenha)


Maria Helena Sato – Areias e Ramas
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 202, de 14/07/2011, p. 27

Há alguns anos que a cabo-verdiana Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, e possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês). Sato já tem uma obra extensa, com nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2006 lançou “Areias e Ramas” pela Edições Subiaco da cidade mineira de Juiz de Fora. Em suas 130 páginas espalham-se 94 poemas mais apresentação da poetisa, e o texto de contracapa ficou a cargo do também cabo-verdiano e radicado no Brasil, Luís Romano, autor de “Famintos”, que sobre o livro afirma: “pela raridade temática e alcance espontâneo, resultou eclética poesia, viva até alcançar tecedura de singular contexto lírico, sem sacrifício da harmonia em si”.

Acompanhando os apontamentos de Romano, percebemos em Maria Helena Sato uma poiesis madura, de amplo domínio da versificação livre, da brevidade dos versos, das formas curtas como o haicai e as quadras, assim como do soneto clássico e da poesia em prosa. Diversidade a serviço da recriação de temáticas consagradas na literatura cabo-verdiana, por uma pena diaspórica que a partir da distância, da sua insularidade, recorre à memória das ilhas para transformá-la em poesia: “Dez lágrimas,/ únicas,/ transbordam./ As demais/ cabem nos mapas”.

Poesia que apresenta a cartografia de Sato, cartografia de memória, por vezes dorida, como em “Seca”: “Silêncio virou,/ descanso – ou descaso?/ Sem você, sorriso, escasso...”; por vezes afetiva, de memória familiar: “De repente a lua/ plena/ não estava mais/ e Joãozinho/ gritou:/ ‘A bola?/ Quem a chutou?’/ Mas logo/ a escura nuvem/ passou!/ Após cada nuvem,/ sempre procuro/ você”.

Cartografia que também é literária, ainda afetiva, na relação com o claridoso Jorge Barbosa no poema dedicado a ele: “Atencioso olhar que me cumprimentava, ele passava por mim e eu sabia o nome daquele homem grande de estatura. Desconhecia, porém, a dimensão maior que carregava. Assim eram nossos encontros, enquanto eu brincava na rua, jogando ringue ou andando de bicicleta – e Jorge Barbosa passava”. Cartografia que recria a partir dos referenciais para sua poesia, como no “Passeio de Anílbal Lopes da Silva com Drummond e Bandeira”: “Longa estrada,/ vida boa,/ Porto Novo/ a Santa Bárbara.../ Muito pó/ muito pó/ muito pó.../ Oh Belarmino/ essa buzina/ olha o caminho/ é uma pedra?/ (...) Estrada/ longa,/ é muito sol,/ é muito sal,/ é muito pó,/ pego atalho,/ um dia só,/ tenho entrada/ garantida,/ vou ver o rei,/ pego atalho/ já estou perto/ de Pasárgada,/ até amanhã/ até amanhã/ até amanhã...” Cartografia a relacionar suas preferências estético-formais a Cabo Verde, como em Haicai: “Certamente, o poeta Bashô encontraria no arquipélago de Cabo Verde motivos para inspiração. Afinal, tudo quanto ele escreveu brotou de outro arquipélago, o Japão.

Cartografia do espaço da memória afetiva em “Mágico no Éden-Park”: “Cartola, gaiola,/ pombo, coelho, gaivota.../ E alguém ainda dirá/ que ninguém vive/ de ilusão!” Cartografia a celebrar o espaço das ilhas, como em “São Vicente”: “A terra quase/ infinita/ luta,/ porque vê,/ pequena ilha/ luta/ porque crê./ Areias/ são ponte/ de espera”.

“Areias e Ramas” surpreende pela lírica leve e afetuosa que Maria Helena Sato trata a sua poesia, de intensa celebração da memória das ilhas nos mais diferentes aspectos expostos de sua vivência, recriação estimulada por quem “sabe que os limites que impõe/ o olhar são limites fingidos, facilmente transgredidos”. Características que a diferenciam, por fim e ao cabo, e a posicionam ao lado de vozes femininas contemporâneas de Cabo Verde, tais como Vera Duarte, Dina Salústio e Carlota de Barros.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Maria Helena Sato – Cristais (resenha)



Maria Helena de Morais Sato – "Cristais"
Por Ricardo Riso
Com estima e consideração, à autora.

Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês).

Sato tem nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Farol” (2002), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (apresentação de antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2005 lança “Cristais” pela editora paulista Komedi, prefaciado por D. Geraldo Gonzáles y Lima e ilustrado por Celso Massatoshi Sato. “Cristais” reúne 99 poemas que convidam à reflexão diante das intempéries do cotidiano imposto pela contemporaneidade. Talvez por isso a concisão dos poemas, os versos sejam curtos, ainda assim o sujeito lírico apresenta-se eloquente, preciso, propondo o reencontro do “ser com o Ser”.

As agruras de uma sociedade hipercompetiviva em correria frenética para acompanhar as imposições de um mundo globalizado possui a insensibilidade – “Ouvidos cansados/ e visão embrutecida” – entre os homens como consequência. Os sentidos esgarçados precisam ser restaurados e a analogia aos cristais lembra-nos que “Duros ou/ estilhaçando,/ esperamos lapidação...”.

O desejo de reencontrar o caminho expõe-se na busca pela recriação da palavra primordial, a que permite a harmonia entre seus pares, e suplica: “Mesmo assim/ viramos/ demiurgos,/ fórmulas/ para te/ alcançar!/ Só não inventamos/ ainda,/ neste templo,/ a palavra única,/ elo de/ corações/ sem/ lar”.

A desorientação é a ordem do dia diante de vidas transfiguradas, de trajetórias fragmentadas pelo caos, o sujeito lírico necessita de ajuda para resgatar a sensibilidade perdida e questiona se precisa de um peregrino (de terras distantes) “para me repetir/ a primeira lição?” Nesse sentido, tal como retirante, deve-se apreender uma nova sensibilidade que parte da observação simples da natureza: “Fim de retiro./ Um arco-íris/ no cenário,/ no olhar./ As mesmas nuvens,/ mas há um arco-íris no céu!/ (...) Na alma do retirante,/ cores ligam/ Terra e Céu!”

Sendo assim, não causa estranhamento que o sujeito lírico de Maria Helena Sato se aproxime da poesia zen, pois para compreender a desfiguração da vida segundo Octavio Paz no artigo “A poesia de Matsuo Bashô”, recorre-se à “doutrina sem palavras (...) através da experiência do sem-sentido, descobrir um novo sentido”. Logo, versa o sujeito lírico: “O nada ilumina/ o que palavras/ obscurecem./ Sou/ minha própria/ nudez”. Por outro lado, ainda em sintonia com o Oriente, Sato subverte a temática do hai kai ao referir-se à religiosidade cristã: “Quase hora de missa,/ já pelo caminho, a pé/ cem ave-marias!”

A entrega incondicional ao ser amado ganha atenção especial em diversos poemas de Sato. Em “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos”, o sociólogo Zigmuth Bauman observa a dificuldade dos casais em manter suas relações, pois se considera que uma relação fechada obstrui relacionamentos futuros mesmo sem a certeza de concretizá-los, ou seja, segundo Bauman, “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”. Por isso, reconforta a posição do poema “Recriação”, rara e contrária à maneira dispersa que os relacionamentos amorosos se dão entre nós: “À tua Luz me/ rendo/ e em qualquer espaço/ me desvendo,/ se for em teu/ universo!”.

Como “cristais em lapidação/ constante”, nós, “sísifos da vida”, encontramos na leitura de “Cristais”, de Maria Helena de Morais Sato, sapiência e conforto para contermos as individualidades, o “nosso impulso/ de/ ter” e encararmos as atrocidades da vida como o herói menino que, após ter tido sua cesta de mantimentos roubada, “sorria/ por ter carregado tanto/ e não ter pesado/ nada!”

Trata-se de poesia diaspórica cabo-verdiana de excelente qualidade. E o melhor: publicada no Brasil. Portanto, recomendo a leitura deste “Cristais”, de Maria Helena Sato.