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sábado, 24 de março de 2012

Mia Couto - Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade

Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade* Mia Couto

Quero, antes de mais saudar os professores.

Durante anos, fui professor. E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições.

Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redações, nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo que só faz quem ainda está a aprender?

Lembro-me como se fosse hoje: o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas. Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar.

Depois, quando anunciou o título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas, dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno gesto.”

Havia qualquer coisa de profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos, sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias entregam tanto ao futuro deste país.

Comecei por saudar os professores. Parece que me esqueci dos estudantes. Ou que os coloquei em segundo plano. Mas não.

Todos somos professores, mesmo que não o saibamos. Perante os outros, perante os nossos pais, perante os amigos, perante nós mesmos, com bons ou maus exemplos, com tristes ou gratificantes lições, todos somos professores. Um dos maiores professores do nosso tempo é um homem que nunca deu aulas. É um homem que ensinou a sermos mais humanos. Mais do que isso, é um homem que ensinou a ter esperança num mundo tão desesperançado. Esse professor de toda a humanidade, de todas as raças e credos, é um africano. Chama-se Nelson Mandela. A sua vida foi uma interminável lição. Mandela é hoje uma bandeira mundial não apenas porque foi um político que dignificou a política, mas porque nos dignificou a todos nós, seres humanos. 

Deixem-me falar de Mandela. Este homem, que agora está doente e cansado, viveu encarcerado durante vinte e sete anos. Vinte e sete anos são mais do que o tempo de vida da maior parte dos presentes nesta sala. Vinte e sete anos de prisão é tempo suficiente para criar raiva, ódio e insuperáveis ressentimentos. Contudo, este homem converteu esse potencial negativo em força construtiva e reconciliadora. Um dos motivos de inspiração de Mandela foi ter encontrado num poema que se chama “Invictus”. Vou ler esse poema.

Do ventre da noite que tudo cobre

Negra como o fundo da cova escura

Agradeço aos deuses de todos os céus

Por quanto a minha invencível alma perdura



Ante as garras do cruel acaso

Nem eu tremi, nem o medo me turvou

Sob o peso da ameaça e da desumana violência

Eu sangrei mas a minha alma nunca se curvou



Não importa se a passagem é estreita

Não importa quantos castigos devo penar

Eu sou o dono do meu destino

Eu sou o capitão da minha alma.



Estes versos, meus amigos, foram uma espécie de suporte moral que deram força a Nelson Mandela. Vezes infinitas o prisioneiro 46664 da Ilha de Robin regressou a estes versos para não sucumbir. Como escritor e poeta, dá-me grande alegria saber deste poder da poesia. Neste caso, há qualquer coisa que deve ser acrescentada.
Na verdade, este poema foi escrito em 1875. O seu autor não foi um poeta sul-africano, não foi sequer um poeta africano. Quem escreveu estes versos foi um britânico chamado William Ernest Henley. Estes versos viajaram para além de séculos e continentes e iluminaram a esperança de um homem que, em vez de se vitimizar e procurar a vingança, nos deu uma eterna lição da crença nos outros. 

Eu venho falar para a Escola de Comunicação e Artes. Por isso me demorei nestes episódios. Porque acredito que a comunicação e a arte são ferramentas de mudança tão importantes como a política. Mandela fez da política um instrumento de comunicação da verdade. Ele fez da política uma obra na arte da reconciliação, numa nação dividida pelo preconceito. Talvez a cultura seja o mais poderoso e duradouro instrumento de intervenção social. No nosso continente isso é bem claro. Vejamos um exemplo:

Desde há 50 anos, quando começaram a acontecer as independências, o nosso continente conheceu mais de 210 presidentes. O desafio que vos faço é o seguinte: digam o nome de 10 (apenas 10) destes dirigentes que se tenham notabilizado como figuras humanas de referência. Terão dificuldade. Será muito mais fácil enumerarmos artistas e intelectuais dignos de serem lembrados. E é aqui que a figura de Mandela é tão importante para nós, africanos. Podemos não nos lembrar de muitos políticos africanos que nos dignifiquem. Mas o nome de Mandela basta para compensar toda essa ausência e devolver o orgulho de sermos quem somos.
Caros amigos, vou entrar agora no tema central desta alocução.

Todos os dias centenas de chapas de caixa aberta transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo essa forma de transporte é aceitável. Quem se transporta assim são animais. Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós esse atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados.

O caso dos chapas é apenas um exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser visíveis. Na nossa sociedade essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre, gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo, adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria. Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de ostentação dessa minoria.

O assunto que quero abordar convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria vida.

Estamos perante uma espécie de formatação mental e moral. A mensagem é a seguinte: querem dizer-nos as nossas doenças sociais são incuráveis. Resta-nos viver de remendos e expedientes.

Visitou-me um escritor amigo da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba. A primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria – depois de 50 anos de exportação de petróleo - é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em garrafas e jerricans nos passeios públicos. Para alguns esse é um processo natural em África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se apoderou dos circuitos formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a questão politica que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue, se tornou normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber. É mentira. A dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos impostos, para escapar das obrigações para com o património público. Quando o meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte:

- A minha surpresa não foi tanto o que eu vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria.

O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia da Republica nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem incomodados com a passagem da letra que diz: Nenhum tirano nos irá escravizar. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes misérias.

A invocação da chamada “africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples facto de andarem de calças. Mulheres de calças não é uma coisa africana – foi o que invocaram os agressores. Em nome de África se agrediram e mataram pessoas apenas porque eram homossexuais. Em nome da pureza africana se continua a impedir que, apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus estudos. Em nome de África se cometem os maiores crimes contra África. O nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes.

As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo. Porque achamos que não tem a ver connosco. Ou porque fazemos cálculos. É melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca do nosso silêncio e da nossa cumplicidade.

O mecanismo da invisibilidade foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos. Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo.

Eu rabisquei uma lista de fenómenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem extensa. Mencionarei apenas de alguns.

A violência contra os mais fracos

O primeiro desses fenómenos é a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é verdade. Mas os povos todos, do mundo, são pacíficos por natureza. O que muda é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional. Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas, invisíveis e perversas.

Hoje somos uma sociedade em guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos. Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um recado, uma definição de hierarquias. Quem chega primeiro à reunião, onde se senta, quem não comparece à cerimónia, com que carro chegou, de quem se faz acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão, sou chamado de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu queria comprar. Deixe que escolho um carro compatível com o seu estatuto.  

Estamos em guerra connosco mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes, os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são objecto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal, acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável natureza.

E conto-vos três episódios reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas:

Em Cabo Delgado 17 homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para que houvesse uma insuficiente resposta.

Em Manica dois jovens violam sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez.

Em Tete um homem mata a criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher porque a meio do dia ele chegou a casa e a mulher recusou fazer sexo com ele. O jornalista da televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do ato ao perguntar: “o senhor devia estava necessitado não é verdade?”.

Reclamamos a violência da rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70 por cento dos actos de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60 por cento dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afectado de modo particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por razões que se dizem culturais. Nós ainda banalizamos muito facilmente. É ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver connosco, que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é, desresponsabilizamo-nos. Mesmo sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver connosco.  

OUTRA GUERRA - AS VIUVAS

Sugiro que leiam o livro de Fabrício Sabat, chamado As viúvas da minha terra, para ficarem com uma ideia do crime generalizado que é cometido contra mulheres que vivem um momento dramático da sua vida. E nesse exacto momento de fragilidade, são assaltadas pelos próprios parentes. Levam-lhes os bens, os filhos, o sossego.

CASO DAS VELHAS

Acusadas de feitiçaria, roubaram-nas durante a vida, fizeram sumir a sua infância e juventude e, no final, roubaram a possibilidade de uma velhice tranquila, usufruída com os netos e as lembranças. Está longínqua a imagem de África como um lugar especial porque os velhos são respeitados.

GUERRA CONTRA OS GAYS E AS LÉSBICAS

Moçambique nem é dos países menos tolerantes. Há países que consideram formal e legalmente um crime o simples facto de ser ter uma orientação sexual diferente. Mesmo assim, há entre nós, uma enorme intolerância.

CASO DOS DOENTES MENTAIS

Nós estamos tão ocupados com outras doenças que esquecemos que não é apenas o HIV SIDA que tem implicações do ponto de vista do estigma social. As doenças mentais são outro mal não visível. Não creio que existam estatísticas da prevalência de doenças mentais em Moçambique. Mas a média em África é de 14 por cento da população.

ALBINOS  

Vou contar-vos um episódio real. Conheci um pedreiro que chamarei apenas por Fabião, que certa vez executou uma obra para minha casa. Um dia, uma moça albina veio à minha porta pedir água. O pedreiro desceu do escadote onde trabalhava para me dar conselhos: “é melhor não dar, ou usar um copo que depois deita fora”. Quando lhe perguntei porquê, ele respondeu: “aquela tjidajna é alguém que tem muitos problemas”. E reproduziu os habituais mitos e preconceitos sobre os albinos. No final confessou: “ainda bem que na minha família nós não temos disso».

Passaram-se anos e a semana passada o mesmo Fabião ligou para mim a perguntar se era possível entrar sem convite na exposição “Filhos da Lua”, na Fortaleza de Maputo. Ele ouviu na rádio que a exposição tinha por tema “os albinos” e estava muito interessado em levar a sua filha a esse evento. “É que a minha filha nasceu albina.” Fabião não podia nunca imaginar ser pai de uma tjidjana. Mas foi. E ele agora, por amor a essa menina, queria enfrentar junto com ela os preconceitos que ele mesmo guardava dentro de si. Chamei Fabião e ofereci-lhe que levasse para a sua filha dois discos. Um de Salif Keita, outro do nosso Aly Fake. E disse “esses são os melhores copos de água. Refrescam a alma”.

Muitas vezes pensamos que essas diferenças vivem fora de nós. A diferença está dentro de nós. Um em cada 35 moçambicanos é portador do gene do albinismo. Um em cada 35 pessoas é portador dessa gente. Nenhum de nós sabe à partida se poderá ser pai ou mãe de uma criança albina.

GUERRA COM OS MORTOS

Até aqui falei de conflitos com mulheres, crianças, velhos. Mas todos esses segmentos sociais são compostos por gente viva. O mais triste é que a nossa sociedade entrou em guerra com os seus próprios mortos. Este é o sintoma mais grave da nossa patologia social: passamos a maltratar até os nossos mortos. O que acontece nos nossos cemitérios é um atentado contra os mais básicos princípios morais. As famílias enterram os seus entes queridos e são obrigadas a retirar o mais ínfimo valor que acompanhe o falecido. Sabem que no dia seguinte, o caixão foi assaltado, o morto foi despido. As próprias jarras de flores são quebradas antes de serem colocadas para prevenir que sejam roubadas e vendidas. Não contentes em assaltarem os vivos, há gangs que se especializaram em roubar os mortos. Nem depois do último suspiro estaremos a salvo dos ladrões.

Meus amigos

Eu disse que estávamos em guerra connosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin Luther King disse O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus. É o silêncio dos homens bons.

A lista das nossas guerras domésticas estende-se por mais domínios. Os exemplos que escolhi ilustram o facto de que não somos a sociedade pacificada que pretendíamos ser. Há um percurso enorme a percorrer e esse caminho é sobretudo uma viagem interior. Essa viagem só acontecerá se vocês souberem ver, souberem não aceitar. Tudo o que aqui disse pode ser resumido em dois textos pequenos de autores alemães. Peço-vos que escutem. O primeiro é uma parábola e diz o seguinte:

“Um dia, vieram e levaram o meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram o meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram-me mim. Nessa altura, já não havia mais ninguém para reclamar.”

O segundo texto é um apelo na forma de verso, escrito pelo dramaturgo Bertolt Brecht:



"Nós pedimos-vos com insistência:
Nunca digam - Isso é natural.
Diante das barbaridades de cada dia,
Numa época em que corre sangue
Num tempo em que a arbitrariedade tem força de lei,
Num momento em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
Se aceitamos as coisas como naturais

este nosso mundo torna-se imutável



Caros amigos



O nosso tempo também está em guerra contra os jovens. À nossa frente, e não falo apenas de Moçambique, se anunciam tempos difíceis. À nossa frente está um futuro magro em que parece que apenas alguns podem caber. O que nos sugerem é que briguemos uns com outros para ver quem cabe nessa estreita porta. Mas talvez seja possível criar um outro futuro mais amplo.



Vão ser assediados. Por forças políticas que estão mais preocupadas com o Poder do que com a resolução efectiva dos problemas. Por forças que se lembram dos jovens quando se trata de colher votos. Por forças que falam aos jovens, não falam com os jovens.

Vocês são jovens. Ser jovens é uma condição inerente, que se exerce sem esforço. Mais do que jovens, sejam diferentes. Tragam para o nosso tempo o inesperado, o que é novo, o que é historicamente produtivo.

Uma nova classe está povoando o poder político em Moçambique. São os papagaios. Reproduzem o discurso dos chefes. A maior parte deles são jovens. Mas são jovens de alma envelhecida. Os papagaios podem pensar que o seu futuro está assegurado porque olham o país como se fosse um aviário. Mas o nosso futuro como nação não se constrói senão com ousadia, com vitalidade e um infinito respeito pelos outros.

Ficamos muitas vezes à espera, ficamos à espera que o governo faça. Temos medo de tomar iniciativa. Achamos arriscado. Não agimos porque dizemos que faltam recursos, falta orçamento, falta autorização do chefe. Mas existem lições que parecendo pequenas podem tocar alguém para toda a vida.

O professor primário que leu uma redacção sobre as mãos calejadas de sua mãe não imaginava que estaria marcando para sempre um aluno seu. O poeta William Henley não poderia imaginar que versos seus poderiam sustentar, cem anos mais tarde, a vontade de lutar de um africano que iria mudar o destino de milhões de pessoas.

Fazemos o que fazemos não porque sejam grandiosas iniciativas mas porque necessitamos mudar as coisas e melhorar o mundo. Fazemos o que fazemos porque, como diz o poema, nós queremos ser donos do nosso destino e capitães da nossa alma colectiva.

*Fonte: texto gentilmente enviado pelo escritor Andes Chivangue em 14 de março de 2012.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mia Couto - E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? - E outras interinvenções



E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? - E outras interinvenções

Mia Couto

Editora Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13116

E se Obama fosse africano? reúne o que Mia Couto chama de "interinvenções", neologismo que expressa bem o sentido destes artigos, quase todos transcrições de palestras proferidas pelo autor em eventos na África, na Europa e no Brasil.

Neles, o autor aborda de modo corajoso e criativo os principais impasses da África contemporânea. Temas como a corrupção, o autoritarismo, a ignorância, os ódios raciais e religiosos, mas também a riqueza da tradição oral e das culturas locais, o vigor artístico, as relações complexas entre o português e as línguas nativas, a influência de Jorge Amado e Guimarães Rosa sobre a literatura luso-africana, tudo isso é tratado com rigor intelectual, imaginação poética e humor por um dos maiores escritores de nossa época.

Longe do discurso árido dos acadêmicos e da retórica demagógica dos políticos, o autor, que é também biólogo, passeia pelos assuntos com habilidade de ficcionista, entremeando os dados objetivos de sua análise a lembranças pessoais e referências literárias, numa prosa calorosa e envolvente. Nesses exercícios de militância intelectual, o autor mostra que a inteligência crítica e a fantasia poética são fortes aliadas para a compreensão e a transformação do mundo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

FESTLIP - Mar me quer (Grupo Tijac - Moçambique/Ilhas Reunião)

Bela montagem de texto de Mia Couto cativa o público

Por Ricardo Riso

Transpor para o teatro o universo literário extremamente particular e inovador de Mia Couto não é uma tarefa simplória, exige de quem resolve encarar tal desafio, um profundo mergulho nos vários aspectos intangíveis trabalhados em sua escrita, tais como: a memória, o sonho, o tempo, o animismo africano e a sua criativa maneira de subverter a língua portuguesa, criando um “português moçambicano”. E é dentro desta experiência com a oralidade que Mia desfila a sua genialidade ao inverter provérbios, modificar a sintaxe etc.

Fruto de uma parceria banhada pelo Índico, “Mar me quer” alia o diretor das Ilhas Reunião Mickael Fontaine, o músico Matchume e um afinado elenco de atores moçambicanos, para encenar a história de Zeca Perpétuo e Dona Luarmina. Os dois moram à beira do mar, solitários. Ela, desfolhando uma flor invisível e querendo esquecer o passado quer ouvir as histórias de Zeca, enquanto este evita falar do seu passado e tenta conquistá-la de diversas maneiras sem obter sucesso. A memória tenta ser esquecida, ambos não desejam revelar o outrora que coincide com a violenta guerra civil do país. Os segredos do nebuloso passado são revelados a partir do momento que surgem as inserções do pai e do avô de Zeca Perpétuo e de um narrador. Assim, começamos a compreender que a história de Zeca e Luarmina vão se entrelançando.

A pluralidade cultural moçambicana está presente no texto, identificada nas três gerações dos Perpétuos. Seu avô representa o negro, apegado ao chão e às tradições; o pai assimila-se e procura aproximar-se da cultura do branco invasor, condição que será cobrada pelos antepassados o deixando cego e com os olhos azulados se tornando um adivinho que passa a ser procurado pelos pescadores. Enquanto Zeca sofre o conflito de viver entre culturas opostas – a negra e a branca do colonizador –, pois foi criado por um padre e em meio a livros, mas que busca o mar e a rede de pesca com a mesma constância que se afasta dos livros. Já a senhora Luarmina é uma mestiça, a mescla de raças que formam a nação moçambicana.

Diante dos conflitos entre tradição e modernidade, além da presença da memória, dos sonhos esgarçados e de certo mistério comuns na prosa coutiana, a direção da peça encontrou soluções cênicas interessantes e criativas que enriqueceram a narrativa bela e pungente. Sábia e caprichada a presença da música de Matchume, aliando tambores e sons eletrônicos sem jamais sobrepor as vozes dos autores. A presença constante do vídeo a pontuar os esgarçamentos da memória da velha Luarmina, simbolizados por um corredor interminável e vazio, ou a visão do mar e os momentos de fuga de Zeca Perpétuo fechando-se naquilo que quer encobrir. Os momentos de tensão e de presença do avô de Zeca são encenados dentro de uma tela circular em que ora o jogo de luz demarcar o ator, ora são as suas mãos e o seu rosto de encontro à tela a demonstrar os conflitos que passam os personagens. A iluminação do cenário, com destaque para a forte cor azul, também capta com bastante sutileza as passagens e tensões vivenciadas.

A atuação do elenco é segura, sem maiores sobressaltos, o que valoriza e reverencia a força do texto de Mia Couto. Zeca Perpétuo e Dona Luarmina são representados sem exageros, discretos e simples, angustiados com seus conflitos internos, de encarar seus medos, rever seus erros, de liberar a palavra e revelar o que está dentro de si. Daí a opção de Luarmina em refugiar-se na escolha de seu futuro (bem-me-quer / mar-me-quer) desfolhando as pétalas de flores invisíveis, enquanto Zeca Perpétuo escuta os gritos insistentes das gaivotas. Já o narrador possui a sobriedade e a serenidade necessária para pontuar os acontecimentos.

“Mar me quer” encenado pelo Grupo Tijac (Moçambique/Ilhas Reunião) convence por saber traduzir os aspectos essenciais do texto de Mia Couto, gratifica pela leveza de como os assuntos são tratados, por respeitar o sonho e, principalmente, por nos fazer refletir, a partir das tensões de Zeca Perpétuo e Luarmina, a maneira como encaramos nossos conflitos internos, nossos medos, os segredos sombrios que nos atormentam, que tentamos ocultar e esquecer, por conseguinte, travam a nossa evolução. “Mar me quer” fascina e emociona pela bela montagem, pelo final surpreendente como o é em todos os textos de Mia Couto. “Mar me quer” é uma peça obrigatória, naturalmente.


Última apresentação: 11/07 – 19h – Sesc Ginástico
Ficha Técnica:
Texto: Mia Couto
Adaptação e Direção: Mickael Fontaine
Elenco: Eliot Alex, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão
Duração: 01:00h
Música: Matchume
Técnico: Hassan Aboudakar

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Imagens Abensonhadas (inspiradas em Estórias Abensonhadas, de Mia Couto), por Ricardo Riso

Procurei expressar meu encantamento com os trabalhos abaixo após a leitura dos contos de Estórias Abensonhadas, livro do moçambicano Mia Couto, e aqui compartilho com vocês.
A série Imagens Abensonhadas ainda está em construção, postarei outros trabalhos no futuro.

Ricardo Riso



"com o fato para celebrar a paz moçambicana" (conto "Chuva: a abensonhada") - série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de "Estórias Abensonhadas", do escritor moçambicano Mia Couto) -Ricardo Riso - fotografia digital - 06/05/2009


Nãozinha de Jesus, Só se for lá no último canto (conto "O adeus da sombra") - série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de "Estórias Abensonhadas", do escritor moçambicano Mia Couto) - Ricardo Riso - arte digital - 01/2007



Ver com o olhar dos amantes, para além dos vários firmamentos (ao casal Estrelinho e Infelizmina) - (conto "O cego Estrelinho", série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de Estórias Abensonhadas, do escritor moçambicano Mia Couto) - aquarela - 40,2 x 30,3 cm - 30/04/2009



capa de "Percorrendo um caminho que dispensa toda bandeira" (conto "O poente da bandeira") - série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de Estórias Abensonhadas, do escritor moçambicano Mia Couto) -Ricardo Riso - Aquarela, pastel oleoso, estopa e madeira - 39,7 x 23,6 cm - 05/05/2009



parte interna de "Percorrendo um caminho que dispensa toda bandeira" (conto "O poente da bandeira") - série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de Estórias Abensonhadas, do escritor moçambicano Mia Couto) -Ricardo Riso - Aquarela, pastel oleoso, estopa e madeira - 39,7 x 23,6 cm - 05/05/2009



pintura interna de "Percorrendo um caminho que dispensa toda bandeira" (conto "O poente da bandeira") - série "Imagens Abensonhadas" - livre interpretação dos contos de Estórias Abensonhadas, do escritor moçambicano Mia Couto) -Ricardo Riso - Aquarela, pastel oleoso, estopa e madeira - 39,7 x 23,6 cm - 05/05/2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Festlip – Festival de Teatro da Língua Portuguesa – 2009 (2 a 12/07/2009)


O Festlip – Festival de Teatro da Língua Portuguesa – 2009 (http://www.festlip.com/) acontecerá entre os dias 2 e 12 de julho na cidade do Rio de Janeiro. Na sua segunda edição homenageará o escritor moçambicano Mia Couto, que ministrará palestra no dia 3 de julho com o tema ‘Metamorfose da literatura para o teatro’. Além das companhias teatrais de Brasil, Angola, Portugal, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau, o evento contará com Mostra Gourmet, oficinas teatrais, debates e dois dias de shows no bairro da Lapa. A programação é gratuita com distribuição de senhas, exceto a mostra gourmet, os teatros são o Sesc Ginástico, o Espaço Sesc/Copacabana e o Sesc/Tijuca.

Ricardo Riso

Programação por dia – Festlip – Festival de Teatro da Língua Portuguesa - 2009

Toda a programação – com exceção da Mostra Gourmet – tem entrada franca, com distribuição de senhas até 30 minutos antes do início da sessão. No teatro Sesc Ginástico, as senhas serão distribuídas 60 minutos antes do início da sessão.

De 2 a 31 de julho:

Mostra Gourmet – O sabor da Língua Portuguesa
Restaurante 00 Cozinha Contemporânea – Pratos especialmente criados pelo chef do restaurante, Ray Cardoso, inspirado na cultura e culinária dos países participantes do Festlip.

2 de julho (quinta-feira)

Abertura oficial do FESTLIP
19h - Teatro Sesc Ginástico
Grupo Tijac, de Moçambique, com o espetáculo “Mar me Quer”, baseado na obra de Mia Couto. Apresentação para convidados.
Entrega do Troféu Festlip - 2009 em homenagem ao premiado escritor moçambicano Mia Couto.

3 de julho (sexta-feira)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Palestra com Mia Couto: ‘Metamorfose da literatura para o teatro’
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘Sobreviver no Tarrafal’, com o Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi (Angola- Luanda)
21h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘Uma solidão demasiado ruidosa’, com a Cia Teatral Artistas Unidos (Portugal - Lisboa)
21h30 – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘Complexo sistema de enfraquecimento da sensibilidade’, com Cia de Teatro Antro Exposto (Brasil- São Paulo)

4 de julho (sábado)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Lindos dias’, com a Cia. Teatral Primeiros Sintomas (Portugal - Lisboa)
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘Psycho’, com a Companhia de Teatro Solaris (Cabo Verde - Cidade de Mindelo)
21h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘Kimpa Vita - A Profetisa Ardente’, com o Grupo Elinga-Teatro (Angola - Luanda)
21h30 – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘O Homem ideal’, com o Grupo M'Bêu (Moçambique - Maputo)
22h – Estrela da Lapa. Festlipshow - Fidjus de Cabo Verde (Cabo Verde), Mario Lucio (Cabo Verde), Abel Duerê (Angola), Bongar – Coco da Xambá (Brasil) e DJ Falcão (Angola).

5 de julho (domingo)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Cortiços - Cia de Teatro Luna Lunera’ (Brasil – Belo Horizonte)
19h30 – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘No Inferno’, com o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo (Cabo Verde – Cidade de Mindelo)
20h – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘Nó mama - Frutos da Mesma Arvore’, com o GTO
(Guiné Bissau - Bissau)
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘Mar me quer’, com o Grupo Teatral Tijac (Moçambique – Maputo com Ilha da Reunião)

6 de julho (segunda)
13h às 18h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Oficina teatral com diretor Miguel Seabra, do Teatro Meridional (Portugal)

7 de julho (terça)
13h às 18h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Oficina teatral com diretor Miguel Seabra, do Teatro Meridional – (Portugal)
20h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Mesa ‘Encenação do Teatro da Língua Portuguesa’, com os diretores participantes e mediação de Tania Brandão

8 de julho (quarta)
13h às 18h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Oficina teatral com diretor Miguel Seabra, do Teatro Meridional (Portugal)
19h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Vitrine do Teatro Carioca no Corredor Cultural da Lapa – Grupos convidados: Tá Na Rua, Teatro do Anônimo e Cia dos Atores.

9 de julho (quinta)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Cortiços, com a Cia de Teatro Luna Lunera (Brasil)
20h – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘Sobreviver no Tarrafal’, com o Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bamdi (Angola)
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘Psycho’, com a Companhia de Teatro Solaris (Cabo Verde)
21h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘No Inferno - Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo’ (Cabo Verde)

10 de julho (sexta)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Cortiços’, com a Cia de Teatro Luna Lunera (Brasil)
21h30 – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘O Homem ideal’, com o Grupo M'Bêu (Moçambique)
21h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘Uma solidão demasiado ruidosa’, com a Cia Teatral Artistas Unidos (Portugal)
20h – ‘Teatro Sesc Tijuca’. Peça: ‘Lindos dias’, com a Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugual)

11 de julho (sábado)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Mar me quer’, com o Grupo Teatral Tijac (Moçambique – Maputo com Ilha da Reunião)
21h30 – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘Complexo sistema de enfraquecimento da sensibilidade’, com a Cia de Teatro Antro Exposto (Brasil)
21h – Espaço Sesc – Teatro Arena. Peça: ‘No Inferno’, com o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo (Cabo Verde)
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘O Homem ideal’, com o Grupo M'Bêu (Moçambique)

12 de julho (domingo)
19h – Teatro Sesc Ginástico. Peça: ‘Lindos dias’, com a Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugal)
20h – Espaço Sesc – Mezanino. Peça: ‘Nó mama - Frutos da mesma árvore’, com o CTO (Guiné-Bissau)
19h30 – Espaço Sesc - Teatro Arena. Peça: ‘Kimpa Vita - A profetisa ardente’, com o Grupo Elinga-Teatro (Angola)
20h – Teatro Sesc Tijuca. Peça: ‘Uma solidão demasiado ruidosa’, com a Cia Teatral Artistas Unidos (Portugal)
22h – Espaço Sesc – Mezanino: Cerimônia de encerramento - entrega do Prêmio Festlip 2009 de espetáculo revelação


Grupos teatrais participantes na programação do FESTLIP:

Portugal:
Companhia Teatral Primeiros Sintomas - Espetáculo: “Lindos Dias”, com texto de Miguel Castro Caldas e direção de Bruno Bravo.
Companhia Teatral Artistas Unidos - Espetáculo: “Uma Solidão Demasiado Ruidosa”, com texto de Bohimil Hrabal e Direção de Antônio Simão.

Moçambique:
Grupo M'BEU - Espetáculo: “O Homem Ideal”, com texto e direção de Evaristo Abreu.
Grupo Tijac - Espetáculo: “Mar Me Quer”, de Mia Couto com direção de Mickael Fontaine.

Angola:
Grupo Elinga Teatro - Espetáculo: “Kimpa Vita: A Profetiza Ardente”, com texto e direção de José Mena Abrantes.
Grupo Horizonte Nzinga Bandi - Espetáculo: “Sobreviver No Tarrafal”, com de texto Antônio Jacinto e direção de Adelino Caracol .

Guiné Bissau:
Grupo Teatro do Oprimido – Bissau GTO - Espetáculo: “Nó Mama – Frutos da Mesma Árvore”

Brasil:
Cia. Luna Lunera – Belo Horizonte - Espetáculo: “Cortiços”, concepção Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro e direção de Tuca Pinheiro.
Cia. De Teatro Antroexposto – São Paulo - Espetáculo: “Complexo Sistema de Enfraquecimento as Sensibilidade”, com texto de direção de Ruy Filho

Cabo Verde:
Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo - Espetáculo: “No Inferno”, com texto e direção de João Branco
Companhia de Teatro Solaris - Espetáculo: “Psycho”, com texto de Valódia Monteiro e direção de Herlandson Lima Duarte

Eventos paralelos:

04 de julho (sábado)

FestlipShow

4 de julho (sábado)
22h – Estrela da Lapa
Festa musical com apresentações de músicos brasileiros e internacionais (todos os países participantes). Entrada franca. Fidjus de Cabo Verde – Cabo Verde; Mário Lucio – Cabo Verde; Abel Duerê – Angola; Bongar – Coco da Xambá – Brasil; DJ Falcão – Angola; E mais uma atração surpresa

6 a 8 de julho (segunda a quarta)
Oficina Teatral: Com o diretor português Miguel Seabra, do grupo teatral Meridional, direcionada aos atores participantes do Festlip e para estudantes de teatro como ouvintes, com entrada franca (distribuição de senhas).

7 de julho:
20h – Espaço Sesc Arena
Mesa de debates – ‘Encenação do Teatro da Língua Portuguesa’
A mesa será composta pelos diretores dos grupos teatrais participantes do Festlip, com mediação de Tania Brandão.

8 de julho:
19h – Espaço Sesc Arena
Vitrine Carioca do Teatro do Corredor Cultural da Lapa
Exposição do trabalho realizado por três grupos teatrais cariocas, Tá Na Rua, Cia. dos Atores e Teatro de Anônimo, através dos seus diretores: Amir Haddad, Enrique Diaz e João Carlos Artigos. Participação dos atores das companhias.

Informações para a imprensa:
Factoria Comunicação
Vanessa Cardoso (vanessa@factoriacomunicacao.com.br)
Pedro Neves (pedro@factoriacomunicacao.com.br)
Leila Grimming (leila@factoriacomunicacao.com.br)
(21) 2249.1598 / 2259.0409

Fonte: e-mail enviado pela idealizadora e produtora do FESTLIP, Tânia Pires, às 14h14 do dia 21/06/2009.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Mia Couto - Antes de Nascer o Mundo (Livro)

Jesusalém, ermo encravado na savana, em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida: Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente.

Silvestre afiança aos filhos e ao criado que o mundo acabou e que a mulher — qualquer mulher — é a desgraça dos homens. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso: uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens.

Mia Couto é um dos maiores expoentes da literatura africana de expressão portuguesa. Moçambicano e amante confesso da escrita inventiva do brasileiro Guimarães Rosa, ele é um artista investido do poder mágico e poético das palavras. Mas é da alma do povo de seu país, bela, trágica, alegre, sofrida, enigmática, que este poeta da prosa extrai seu ouro universal.

Em Portugal, Moçambique e Angola o livro recebeu o título de Jesusalém.


Antes de Nascer o Mundo
Mia Couto
Companhia das Letras
280 páginas
R$ 42,00
http://www.companhiadasletras.com.br/

sábado, 14 de março de 2009

Mia Couto - E Se Obama Fosse Africano? E Outras Interinvenções (livro)


E Se Obama Fosse Africano? E Outras Interinvenções
Mia Couto

Na sequência do anterior Pensatempos, Mia Couto ressurge com um conjunto de textos de intervenção que resulta da sua participação em encontros públicos nos últimos anos. São textos de reflexão crítica de um autor de ficção que, ao mesmo tempo que reinventa o seu universo, não abdica da sua missão de pensar o mundo.
As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, mas todos eles confirmam como o escritor moçambicano faz da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade do nosso tempo.

Género(s): Literatura
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 216
Peso: 0 g Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2023-4
1.ª edição: Março 2009
1.ª edição: Março 2009
Data: Março 2009
Preço: 10,00 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72619__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm


E se Obama fosse africano?
Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ” E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente.
Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato.
Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos.



Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
Fonte:

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Mia Couto - Venenos de Deus, remédios do Diabo (resenha)

por Ricardo Riso

O prazer e a curiosidade motivam a travessia das cento e oitenta e oito páginas do recente lançamento de Mia Couto: Venenos de Deus, remédios do Diabo (Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2008). Exímio contador de história que é, Mia Couto neste novo romance instiga o leitor com uma história recheada por personagens complexos e intrigantes, levando-nos à Vila Cacimba, distante cidade de sua Moçambique. Cidade em que nada é exatamente como deve ser nem seus moradores são e dizem o que realmente são, o que logo nos remete à inversão proposta pelo título do livro, e é nessa relação de troca de papéis que se calcará a história.

Sidónio Rosa, ou Sidonho, o protagonista do romance é um médico que resolve ir para Vila Cacimba para prestar serviços em uma organização internacional, mas com o intuito de reencontrar Deolinda, uma mulher que conheceu em Portugal, filha de Bartolomeu Sozinho e sua esposa Munda. No vilarejo depara-se com uma doença misteriosa que ataca os soldados estrangeiros, os “tresandarilhos”, em sua maioria.

Para sua surpresa, não encontra Deolinda, todavia, é informado pelos pais que ela está no estrangeiro fazendo cursos de aperfeiçoamento, porém seu retorno é ignorado. Contudo, Sidónio recebe cartas de Deolinda pelas mãos de sua mãe, Munda, deixando-o desconfiado com a chegada misteriosa das cartas:

– Quem são esses misteriosos mensageiros que trazem as cartas de Deolinda? Quem são eles que ninguém os vê?
– O senhor quer saber muito, Doutor. São familiares. O senhor sabe, aqui, em África, todos são familiares. (p. 47)

Nas cartas, Deolinda pede para que Sidónio dê assistência aos seus pais, papel que o médico presta, mas com a intenção de adquirir a confiança dos pais de sua amada. Com isso, o médico começa a conviver com os Sozinhos, outras pessoas do vilarejo e seus estranhos hábitos, esperançoso em rever sua paixão o mais breve possível. Essa relação de troca de favores remete-nos aos tempos coloniais que se perpetuam no pós-independência em razão da miséria vivenciada pela maioria da população, fazendo com que o estrangeiro procure comprar a confiança das pessoas com o seu dinheiro, enquanto os pobres aceitam o papel de vítima e assim obter o máximo proveito com a ajuda externa.

É no desenrolar da espera de Sidónio que vamos conhecendo a complexidade dos personagens a começar por Bartolomeu Sozinho, um ancião negro saudoso da época colonial. Dos anos 1960 até a independência em 1975, viveu a bordo do transatlântico Infante D. Henrique da Companhia de Navegação Colonial cumprindo a função de mecânico. Bartolomeu orgulhava-se de ser o único negro da tripulação, mas a independência do país coincidiu com a quebra e a inutilização da embarcação. Assim como o navio, Bartolomeu também se sente fora de uso e enclausura-se no quarto de sua casa, saudoso dos tempos coloniais.

Na casa, Bartolomeu vive com sua esposa Munda uma relação conflituosa, confusa e de dependência entre eles: “Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor” (p.10). Munda esconde mistérios a respeito do paradeiro da sua filha Deolinda e sobre o que aconteceu no passado entre sua filha e o pai, sugerindo uma relação incestuosa a Sidónio Rosa, fato que a leva a planejar a morte do marido e ao mesmo tempo prestar-lhe toda a assistência médica.

Um outro personagem de destaque é o antagonista de Bartolomeu, o administrador de Vila Cacimba, Alfredo Suacelência. A princípio, Bartolomeu revela-nos que o administrador é uma pessoa corrupta como todos os políticos de Moçambique, impressão reforçada pela conduta de Suacelência que se vale da influência do cargo para manipular situações e oprimir pessoas:

– Pois mandei chamá-lo – repete enfaticamente o anfitrião – para conversarmos sobre a situação da Vila. E tinha que ser aqui, no conforto da minha casa. (p. 67)
– Eu não bebo outra coisa, para mim whisky é a única coisa que existe. (p. 68)
serve-se generosamente e, mais generosamente ainda, emborca, de uma assentada, um copo inteiro. Volta a encher o copo, ao mesmo tempo que desaperta o cinto e esfrega a barriga deixada a descoberto. Um poderoso arroto mistura-se com a voz e o administrador é forçado a repetir a fala:
– Sabia que eu posso mandá-lo prender, Doutor?
– Sei.
– Fica preso e ninguém sabe de nada. Aqui em Vila Cacimba é muito longe, não há embaixadas, consulados, jornalistas... (p. 71)

A rivalidade entre Bartolomeu e Suacelência é interessante por retratar Moçambique antes e depois da independência. Bartolomeu possuía posição de destaque por trabalhar no transatlântico supracitado durante o colonialismo, fato que era desprezado pelo administrador recordando um importante momento da hipocrisia da ditadura salazarista que tentava convencer a opinião pública internacional que não havia racismo nas colônias portuguesas:

O administrador fazia pouco das suas glórias marítimas. Quando Bartolomeu desembarcava do Infante D. Henrique, as pessoas olhavam-no como um herói que vencera horizontes. Suacelência minimizava-lhe os feitos: “Ora, esses colonos precisam de um preto decorativo”. Não era por méritos próprios que o mecânico negro seguia no navio. Ele era tripulante apenas como instrumento de uma mentira: de que não havia racismo no império lusitano. (p. 26)

Todavia, Suacelência soube manipular a seu favor a sua não permanência na embarcação e a recusa em submeter-se aos portugueses, o que era bastante prestigiado na década de 1960, quando começou guerra colonial em Moçambique (1964) alçando-o aos cargos burocráticos após o país ter se tornado independente. Suacelência também era tripulante do navio, mas ao ficar gravemente doente, necessitou abandonar a embarcação para maiores cuidados na então capital Lourenço Marques, atual Maputo. A partir daí, surgiu a sua revolta com Bartolomeu:

O jovem Suacelência demorou-se na capital e, quando regressou à sua terra natal, trouxe consigo uma versão heróica da sua passagem pelo navio. Que ele tinha sido expulso do transatlântico por razões patrióticas. Ele, Suacelência, filho e neto da linhagem Susiweia, tinha capitaneado uma revolta à moda do assalto do Santa Maria, por Henrique Galvão. A revolta abortara – em parte pela conveniência de Bartolomeu para com os portugueses – e Suacelência tinha sido lançado ao mar. Salvara-se graças à ajuda de uns pescadores que o trouxeram para a praia. (p. 72)

Entretanto, a complexidade de Suacelência surge quando fala de sua relação com o partido: “– A minha vida não é muito feliz, o senhor sabe? (...) Sabe o que acontece no final? Acabo dizendo mal do meu partido” (p. 71). Depois, ficamos sabendo que Suacelência é um personagem que, de certa maneira, possui um bom caráter que esbarrou diante de interesses escusos, típicos de um país mergulhado em corrupção e em favorecimentos tanto particulares quanto a grandes corporações:

Suacelência tinha sido demitido do cargo. Sem razão, nem motivo nem explicação. A medida fora tomada enquanto o Administrador recebia tratamento na cidade. (p. 161)
O que tinha ocorrido era simples, no dizer de Suacelência. Ele se tinha oposto ao descontrolado abate de madeira, sem saber que o negócio era desenvolvido por uma empresa de um político poderoso. (p.171)

Esta personagem ainda nos surpreenderá com a generosidade ao gastar suas economias para realizar o último desejo de seu rival: que o seu enterro tivesse um barco para levar seu corpo até o cemitério – “Era um pedido louco, mas Suacelência iria cumprir. Caso ainda sobrasse dinheiro, talvez comprasse umas tintas e pintasse no casco do barco o nome Infante D. Henrique”. (p. 177)

Explorando a pluralidade étnica de Moçambique como na relação do casal Bartolomeu-Munda, ela mestiça e descendente de alemães, enquanto ele negro que contrariou a família ao escolhê-la para casar, gerando Deolinda que se apaixonou por um homem branco português, Sidónio, Mia procura demonstrar como a questão racial ainda é pertinente no país, geradora de conflitos e preconceitos ainda enraizados.

Em Venenos de Deus, remédios do Diabo, Mia Couto mantém-se fiel a sua consagrada fórmula de contrapor tradição e modernidade neste Moçambique do século XXI, em que não há curandeiros, pois Deolinda vai procurar um em outro país, no Zimbábue, a presença marcante de um médico, Sidónio (que não possui habilitação para tal), assim como a figura de Bartolomeu, presa ao passado colonial. Ainda deparamo-nos com problemas contemporâneos como casos de corrupção política, AIDS, incesto e aborto em um país que procura a melhor maneira de construir o seu caminho, e tem em Mia Couto um observador arguto a respeito do descompromisso político e à perniciosa ocidentalização das culturas locais.

Aproveitando-se do nevoeiro já proposto no nome do lugarejo, Vila Cacimba, Mia Couto utiliza com mestria a sua verve de ótimo contador de história para manter enevoada as vidas de seus personagens e o leitor é conduzido por imagens imprecisas, recheadas de verdades e mentiras que se confundem e se revelam no decorrer das páginas. E, assim, a partir da casa de Bartolomeu, tão doente quanto ele, metonímia de Moçambique, procurar denunciar e sanar seus males e apresentar um caminho menos conturbado para a nação. Tudo em excelente literatura.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mia Couto - O fio das missangas (livro)


O FIO DAS MISSANGAS (Contos)
Mia Couto

Editora Companhia das Letras


"A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."


"A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto "O fio e as missangas" define a sua existência.
Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor.
A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura.
Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. "Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida", diz a narradora de uma dessas belíssimas "missangas" literárias.

Capa Rita da Costa Aguiar
Páginas 152
Formato 14,00 x 21,00 cm
Peso 0,225 kg
Acabamento Brochura
Lançamento 30/01/2009
ISBN 9788535913811
Preço R$ 34,00
Fonte: http://www.companhiadasletras.com.br/

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Mia Couto - Espaços ficcionais, de Maria Nazareth Soares Fonseca, Maria Zilda Ferreira Cury (Orgs.)

Mia Couto - Espaços ficcionais
Maria Nazareth Soares Fonseca, Maria Zilda Ferreira Cury (Orgs.)

Sinopse
“Vejo este material principalmente como suporte da transmissão de conhecimento sobre a África, pura e simplesmente, o que não é coisa pouca, mas ainda como material usado para contrariar o processo de interiorização de uma série de lugares-comuns sobre a África e, consequente, sobre a construção de um sistema hierarquizante de valores culturais. Por isso, este livro pressupõe que se esteja atento a uma perspectiva ocidentalocêntrica, que tem plasmado, mesmo que inconscientemente, os estudos sobre a África feito por cientistas sociais das diversas áreas do saber.
O que não posso deixar de referir é que este livro, da autoria de Maria Nazareth Soares Fonseca e Maria Zilda Ferreira Cury, cumpre esta dupla função: por um lado, a de fornecer instrumentos para o estudo interno das literaturas como sistemas autónomos – o que não significa o seu isolamento, o seu fechamento em relação a outro qualquer sistema. Por outro, consolidar o seu reconhecimento como área de estudo eminente.”
Inocência Mata
Lisboa, Março/Abril de 2008

Sobre os autores
Maria Nazareth Soares Fonseca

Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, é professora do Programa de Pós-graduação em Letras da PUCMinas e professora aposentada da UFMG. Responsável pela área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Maria Zilda Ferreira Cury

Possui graduação em Letras (Português, Inglês e Alemão) pela Universidade de São Paulo, mestrado em Estudos Literários: Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Minas Gerais (e doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Além disso, fez Pós-doutorado pela Sorbonne Nouvelle- Paris III (1999). Professora Titular de Teoria da Literatura pela UFMG e coordenadora do projeto de pesquisa “Intelectuais e vida pública: mediações e migrações”, financiado pelo CNPq a que seu projeto individual de pesquisa “Imigrantes na literatura” encontra-se vinculado. Participa, como pesquisadora, no projeto de pesquisa “Topografia da cultura: representação, espaço e memória” coordenado pela Profa. Dra. Sara del Carmen Rojo vinculado ao Convênio UFMG/ Università degli Studi di Bologna. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada, atuando principalmente nos seguintes temas: imigrantes, intelectuais e vida pública, Carlos Drummond de Andrade, Belo Horizonte, leitura e intertextualidade.

Ficha Técnica do Livro
Páginas: 136
Formato: 15,5 x 22,5 cm
Acabamento: brochura
Editora: Autêntica
ISBN: 9788575263686
Código: 10214
Área temática: Literatura brasileira e estrangeira
Edição: 1ª

http://www.autenticaeditora.com.br/livros/item/462

Para ler uma resenha sobre este livro, acesse:

http://www.autenticaeditora.com.br/noticias/item/277

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Moçambique - literatura e artes plásticas

Ontem, preparei uma apresentação para a disciplina de Estágio de um tema que muito me agrada: as letras e telas moçambicanas. A partir da diversificada produção de Mia Couto, com trechos de romances, contos e crônicas tracei diálogos com as produções dos artistas plásticos Malangatana Valente, Roberto Chichorro e Naguib Abdula.

Comecei com a crônica de Mia Couto, “Perguntas à Língua Portuguesa”. Nesta, apresentei sua postura em relação ao uso da oratura na escrita, os neologismos e suas brincriações, e a emancipação de um falar moçambicano independente à matriz européia.

A seguir, selecionei um trecho inicial de “Terra Sonâmbula” e apontei a característica expressionista do romance, ambientado em tempos de guerra, com intensa presença de cores como o vermelho e com a fragmentação da família, das perdas da raízes. Daí a comparação com a tela “Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros?” de Malangatana. Ambas, tratam de uma busca incessante das raízes perdidas em tempos de horror e inconseqüências desestabilizadoras da sensibilidade humana.

Depois, li trechos da crônica “O Gênio Ingênuo" de Mia Couto a respeito da obra de Malangatana Valente. Basicamente, comentei características formais e temáticas da pintura do pintor da Matalana como o surrealismo e a presença dos sonhos em “Monstros grandes comendo monstros pequenos”, explorando a representação de seres do imaginário da etnia ronga como os shetanis, lumpfanas, xicuembos etc., as cores vibrantes, os excessivos elementos asfixiados no espaço da superfície pintada e a analogia com a situação moçambicana perante o colonialismo português, o sincretismo religioso em “O feitiço”, e a planaridade da tela numa relação próxima com a técnica do all over de Jackson Pollock.

Ao usar o conto “O cego Estrelinho” de “Estórias Abensonhadas”, atentei-me às novas formas de olhar engessadas em meio à voracidade da guerra, expressas no conto quando o cego Estrelinho conduz sua guia além dos vários firmamentos com as pinturas oníricas de Roberto Chichorro. Destaquei o lirismo da narrativa coutiana acompanhado pelas cores e temas expostos por Chichorro. O predomínio da cor azul e a analogia com o infinito, a liberdade e a imaginação criadora, segundo Gaston Bachelard; os olhos também na cor azul, sendo o surrealismo onírico citado por Carmen L. T. Secco, os olhos dos sonhos a imaginar uma vida sem as atrocidades reinantes dilaceradoras da paz entre os homens. Além das alegorias de pássaros, do ar como elemento da natureza, representando os vôos da imaginação e da liberdade.

Ainda com Mia e Chichorro, aproveitei para mostrar dois momentos de esperança na história recente de Moçambique. O primeiro está retratado na tela “sonhar amanhã sem lágrimas”, onde Chichorro transmite toda a euforia do momento de nascimento de Moçambique independente com destaque para a representação de duas personagens lendo livros. Lembro que o idioma português, ou seja, a língua do colonizador, foi utilizado como arma para unificação das etnias contra o regime então vigente. No segundo momento, usei o conto “Chuva: a abensonhada” para falar do encerramento da guerra fratricida, a desconfiança inicial do narrador com o futuro e a entrega feliz, lúdica, com a paz que se inicia.

Para finalizar, abordei possíveis relações da obra coutiana com a arte multifacetada de Naguib. Em texto para catálogo de sua exposição, em que Mia frisa o caráter plural da arte do artista da região do Tete. A respeito da arte deste artista, Mia comenta: “obra de mestiçagem, sem buscar as identidades mas as fronteiras, os cruzamentos e as viagens. Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos do nosso tempo moçambicano, as diversas raças do nosso ser colectivo”.

Foi explorando o multiculturalismo nas obras de Naguib que comentei as múltiplas linguagens utilizadas por ele, como a fotografia, a pintura, o uso de jornais, sites specifics, grafismos como hieróglifos nos remetendo a um passado esgarçado na tentativa de revivê-los. Além disso, sua arte é sensual, erótica, livre e celebradora da vida de um novo tempo moçambicano, com destaque para as mulheres zoomorfas.

Para finalizar a apresentação, entre Mia e Naguib, em comum, a linha tênue da ancestralidade/modernidade. Em Naguib, os procedimentos contemporâneos: fotografias para retratar a árvore sagrada, o embondeiro, com pinturas rupestres. Em Mia, o conto “O embondeiro que sonhava pássaros” de “Cada homem é uma raça”, também aponta para o resgate das raízes perdidas por séculos de colonização, representado pelo menino Tiago, filho de portugueses no tempo da colonização, o seu envolvimento com a cultura local e a presença do animismo africano trabalhado com brilhantismo pelo narrador.

Com isso, procurei mostrar a confluência das artes desses artistas moçambicanos, perseguidores da memória esfacelada, dos sonhos esgarçados, desbravadores das sendas de lirismo da poesia em um mundo dominado por mentes obliteradas. Artistas que prezam por expor um país multicultural, sem omitir os olhares atentos às mazelas sociais e políticas na expectativa de um tempo novo para Moçambique. Um tempo sem a crueldade do outrora e distante da perversidade neoliberal da atualidade.

Para quem quiser acessar a apresentação, basta acessar este endereço:
Ricardo Riso

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mia Couto - Um passado ainda por nascer

"Esta lixiviação das responsabilidades históricas serve os propósitos das elites que hoje actuam como gestores indígenas da dependência neo-colonial".

Mia Couto *

África 21 Digital - 04/11/2008 - 17:32
http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=7851026


Existem poucas coisas que podem ser tão novas e recentes quanto o passado. O tempo – ou melhor a memória que dele ficou – é uma escolha permanente retrabalhada, uma página sempre e sempre actualizada.

A produção dessa encenação que é o passado africano está ainda curiosamente nas mãos de quem sempre negou a História do continente. As referências desse edifício solene, à sombra do qual repousam o sagrado e os mortos, continuam ainda hoje sendo eminentemente europeias: o colonialismo como único divisor de águas, a visão romântica de uma África pré-colonial paradisíaca e a projecção de um amanhã sem futuro. O afropessimismo é irmão gémeo da imagem de uma África pré-colonial mistificada, onde apenas reinavam harmonias e equilíbrios.

O expediente é simples: anulam-se os conflitos internos das sociedades africanas como motor da sua própria História. Partem-se as pernas aos processos que moveram os tempos e se moveram ao longo dos séculos. Numa cadeira de rodas, se coloca um corpo inerte, deficiente e desresponsabilizado. A esse corpo se dá o nome de «África» e ora se elogia ora se acusa quem faz movimentar a cadeira de rodas. A confissão de culpa dos «excessos» do esclavagismo e da dominação colonial por parte dos europeus ajuda a reiterar esta imagem de um continente inteiro menorizado, apenas e sempre vítima.

Falei da simplificação da História porque ela sugere uma sumária infantilização dos africanos. Leiam-se os compêndios escolares e escutem-se os discursos oficiais das elites africanas e não ficarão dúvidas: tudo corria bem até ao século XVI, todos os africanos eram pessoas encantadas e encantadoras, até à chegada dos europeus.

Este maniqueísmo está presente quando se julgam os crimes da escravatura: parece que do lado de África ninguém foi nunca culpado. Esta lixiviação das responsabilidades históricas serve os propósitos das elites que hoje actuam como gestores indígenas da dependência neo-colonial. O continente africano tem vários passados e os africanos têm o direito de os inventar e colocar ao serviço de um sem número de retratos do presente.

O grave é que os africanos interiorizaram estes critérios e se avaliam a si mesmos na base destes critérios de «pureza» e «autenticidade». A anulação da diversidade e o reconhecimento que afinal há muitas e várias Áfricas não serve nesta mobilização contra o mundo e os pecadores externos.

Ditadores como Mobutu e Idi Amin (e agora Mugabe) serviram-se deste apelo unitário que, nas décadas de 50 e 60, foi intensamente mobilizador para a construção das independências. Esta operação é simples.

A «maldade» e o «ódio» nascem sempre fora. Nós, africanos, somos apenas vítimas, mesmo quando somos culpados. Nós, africanos, somos irmãos, unidos por uma condição que tem mais a ver com natureza do que com a História. Porque a História essa actuou, como já vimos, por um processo de sofrimento. E esse sofrimento foi sempre infligido pelos de «fora». É por isso que ficamos sem reacção quando quem nos faz sofrer é um «nosso».

Algumas das hesitações face a Mugabe explicam-se por esta ausência de distância. Foi fácil empreender acções contra o ditador anterior na ex-Rodésia: Ian Smith era branco, filho de colono. Era um «outro». Mobilizar a opinião africana contra Mugabe é bem mais difícil. E não se trata apenas de razões políticas. É porque temos contra nós esta visão deformada do passado e mistificadora do presente.

Várias são as vozes de África que alertam para o perigo deste reducionismo. Kofi Annan dizia a propósito de Robert Mugabe: «Os africanos devem-se guardar de uma forma auto-destrutiva e perniciosa de racismo que une e mobiliza o cidadão para lutar contra os tiranos brancos, mas que serve para criar desculpas para os tiranos que são pretos».

Samora Machel criticou duramente Marrocos pela sua postura de ocupação do Sara Ocidental. «Por que razão atacamos o colonialismo quando é praticado por europeus e não o fazemos quando é praticado por africanos?» O Nobel da Literatura, Wole Soyinka, alertou também para esta auto-complacência. «Devíamos estar preocupados com a bota que nos pisa sem querermos saber da raça de quem calça essa bota».

Os africanos estão, assim, criando focos de guerrilha contra esta visão dominante empobrecedora de si mesmos. Eles questionam os pressupostos da própria «africanidade». Querem ser contemporâneos e sair da toca identitária para onde puristas os empurraram. As identidades múltiplas dos africanos e das diferentes Áfricas estão sendo forjadas neste processo.

O passado do continente, esse passado tão plural quanto os continentes que há em África, está ainda por escrever. Vive ainda no futuro.

* Mia Couto, escritor moçambicano, assina coluna na Revista África 21, edição de Outubro