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domingo, 29 de novembro de 2009

Nelson Saúte e Ondjaki - crônicas no PNETLiteratura

Para quem quer conhecer crônicas recentes dos escritores Nelson Saúte (Moçambique) e Ondjaki (Angola), acesse o PNETLITERATURA - www.pnetliteratura.pt
Abraços,
Ricardo Riso

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Nelson Saúte - Escrevedor de Destinos (novo livro)


Fui informado pelo amigo Ouri Pota, do blog Mãos de Moçambique, que Nelson Saúte lançou um novo livro esta semana em Maputo: Escrevedor de Destinos, pela Editora Ndjira.

A seguir, as melhores informações que encontrei na web a respeito sobre o novo livro.

Ricardo Riso


http://maosdemocambique.blogspot.com/
Para os amantes da literatura Moçambicana. Saibam que será apresentado hoje 23 de Outubro de 2008, as 18 horas, a obra Escrevedor de Destinos de autoria de Nelson Saúte, na sede da Empresa Portos e Caminhos de Ferro.

Na obra que sai sob a chancela da editora Ndjira, Nelson Saúte explora o género da crónica em forma de carta. É uma singela homenagem de um escritor preocupado com os fazedores do dia-a-dia de Moçambique os seus demónios tutelares), e dos que também influenciam e influenciaram a trajectória política, desportiva, sócio-cultural e até ideológica do País.


http://ma-schamba.com/literatura-mocambique/o-escrevedor-de-destinos-de-nelson-saute/

Escrevedor de Destinos, de Nelson Saúte
25 de Outubro de 2008
Mais um atrevimento de Nelson Saúte. 36 “cartas” com destinatário afixado, crónicas em forma epistolar chamou-lhes avisadamente o poeta António Pinto de Abreu, também já memória autobiográfica de Nelson Saúte, traçando diálogo com as personagens que lhe foram marcos (Nogar, Craveirinha, Knopfli - do qual foi, com Francisco Noa, aqui paladino -, Noémia de Sousa, Albino Magaia, etc.) mas também que lhe são companheiros (como p. ex. Gemuce ou Simões, artistas trazidos para o “lado de cá” do mundo das letras). Com isto traçando um quadro, bem mais polémico do que a suavidade da forma deixa entrever em primeira zleitura, do que vem sendo Moçambique. Arriscando até ser (ascender a?) cartilha de acção.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Nelson Saúte – Os Narradores da Sobrevivência

Após a independência moçambicana em 1975, houve um curto período de euforia com a libertação, mas desestabilizado com a guerra civil entre Frelimo, partido que fez a revolução, e Renamo, apoiado pela África do Sul, Rodésia e tendo a colaboração não-declarada do governo norte-americano. Conflito que mergulhou o país numa crise sem precedentes em sua história, prolongando o sofrimento causado pelos séculos de ação colonizadora portuguesa.

A crueldade da situação vivenciada pelos moçambicanos deixou marcas profundas naqueles que participaram desses terríveis anos, que viram a violência aumentando cada vez mais, as mortes tornando-se rotineiras, os habitantes do interior refugiando-se na capital (os deslocados) e os mutilados pelas famigeradas minas tropeçando pelas ruas da capital Maputo. E o que é pior, a desilusão com as promessas não cumpridas pela revolução, que não concretizou os projetos de maior igualdade social, distribuição de renda, fim da fome e diversos outros problemas estruturais, que custaram tantas vidas durante a guerra colonial nos anos de 1964 a 1975.

É no clima de desencanto com os caminhos trilhados pelo país que, nos anos 1980, emerge a literatura de Nelson Saúte. Contemporâneo da revista Charrua, publicação que apresentou novos paradigmas ao corpo literário moçambicano e lançou nomes como o de Eduardo White entre outros, que Saúte se aproxima da literatura. Através de suas atividades no jornalismo, Saúte desempenha um importante papel ao documentar os nomes que formaram e ainda formam a literatura de Moçambique. Entrevista grandes escritores, organiza antologias de poesia e contos, e, em seguida, publica suas experiências nas letras.

Nascido nos subúrbios da então Lourenço Marques, atual Maputo, em 1967, Nelson Saúte tem a língua portuguesa como o principal e único idioma. Não fala nenhuma língua de etnia local, nem o ronga, língua predominante na região onde foi criado. Portanto, é testemunha viva da história recente do país: participou como “pioneiro” nos anos de euforia com o pós-independência, vivenciou o longo período de guerra civil passado durante a adolescência e juventude, que só encerraria com o acordo de paz de 1992.

Tive a oportunidade de assistir a uma palestra de Nelson Saúte no ano passado. Naquela época, a editora Língua Geral lançava uma série de livros infantis, intitulada Mama África, e Saúte assinava um dos livrinhos - O homem que não podia olhar para atrás - com ilustrações de Roberto Chichorro. Impressionou-me, durante a sua fala, a melancolia e amargura ao comentar sobre o seu passado durante a guerra, o que só viria a compreender melhor com a leitura do romance que comentarei a seguir, Os Narradores da sobrevivência (Publicações Dom Quixote, 2000).

O romance se passa nos difíceis anos da década de 1980, época de sofrimento extremo para Moçambique, um país arrasado pela violência, e pela desesperança e desencanto de seu povo com o irreal cotidiano. Como afirma o narrador: “Anos de uma grande ilusão destruída diante dos nossos olhos por mãos humanas como a nossa”. (SAÚTE, 2000, p. 141)

É a história do desencontro de Marimbique, jovem moçambicano recrutado para lutar pelos ideais da revolução, e sua mãe, a velha Xinguavilana, e o posterior reencontro no enterro de ambos. Metáfora do dilaceramento da sociedade moçambicana, que via as famílias tendo seus destinos separados e/ou encerrados pelas ações deploráveis da guerra.

Depois de vários anos afastado de sua cidade natal, Maputo, Marimbique retorna em um caminhão trazendo trinta e tantos corpos mortos, os quais ele é o responsável:

“O camião que Marimbique escoltava trazia a notícia mais dilacerante da guerra. Três dezenas de cadáveres: pernas, braços, intestinos, ventres, olhos, orelhas, pedaços de carne, corpos macerados. Pela primeira vez a guerra chegava à capital – marchava vagarosa com o camião que entra na cidade ao entardecer”. (Ibide, Ibidem, p. 15)

Trata-se do primeiro momento que a capital, ou a “Nação” como é chamada pelos moçambicanos, com o que a guerra tem de mais cruel: os seus mortos. Até então, a guerra para os moradores de Maputo resumia-se a racionamentos: “Que era a guerra na grande cidade? A falta de energia, a ausência de água”. (Ibide, Ibidem, p. 15) É a partir do reencontro de Marimbique e da presença dos mortos na cidade que o romance trilhará seu caminho.

Diante de tantas desgraças vivenciadas por Marimbique, ele recorre constantemente à memória para buscar um pouco de sossego às vistas cansadas de dor, medo e morte. O jovem está acompanhado pelo motorista, contudo os dois não se comunicam, conheceram-se para cumprir a triste missão. O filósofo Walter Benjamin apontava para a dificuldade em narrar que os novos tempos apresentavam, a violência exacerbada da guerra seria uma das motivadoras desse quadro, pois os soldados quando retornavam das batalhas nas trincheiras permaneciam mudos, incapazes de se comunicar após o convívio desesperador com os mortos e mutilados. Daí o amparo na memória, nas lembranças da infância para suportar as durezas trazidas pelo ódio e matança desenfreada entre os moçambicanos:

“Quando atravessou o Alto-Maé acenou à Estrada da Circunvalação, deste modo ele saudava a infância. Lembrou os canaviais e os carros alegóricos que atravessavam a Avenida de Angola. Estes partiam do Largo Albasine, desciam os foliões em direcção ao Bairro do Aeroporto. Todo aquele mundo labiríntico dos subúrbios acordava lembranças muito nítidas. As coisas que poderiam ter acontecido na véspera por certo deslembrava. Tal é o prodígio da memória, que nos faz recuar a tempos imemoriais e é incapaz de nos revelar uma imagem do dia anterior. No caso, ele tinha razões mais do que razoáveis para se refugiar no tempo – ou templo? – perdido. A infância, a adolescência.” (Ibide, Ibidem, pp. 38-39)

A devastação causada pela guerra às mentes das pessoas, mantém assombrados os pensamentos, a condição miserável do presente faz com que o narrador vasculhe a memória para acalantar a existência:

“As lembranças constantes de lugares ou situações que nos tenham sido queridos denunciam que o presente pouco acrescenta às nossas vidas. Abraçamo-nos ao passado, marcados por uma vontade dilacerante de o reviver constantemente ou, de forma intermitente, momentos inolvidáveis, que já não nos pertencem, a não ser no domínio inatingível da imaginação.” (Ibide, Ibidem, p.21)

A partir daí, a narrativa procura remontar o passado de Marimbique em situações vivenciadas pelas pessoas com quem convivia ou em suas próprias lembranças, entrecruzando-as com a mãe e a sua luta persistente, inglória para todos, em rever o filho desaparecido, o que a faz ser agressiva com os que querem convencê-la da morte do rapaz:

“Morto deixa corpo. Quem disse que um morto desaparece assim mesmo? (...) Nesta vida eu já me cruzei várias vezes com a morte. Todas as vezes ela deixou rasto, não é agora assim. Como se comprova que meu filho morreu?” (Ibide, Ibidem, pp. 19-20)

A morte passa a ser uma rotina no cotidiano dos moçambicanos, que são alvejados em cruéis emboscadas nas estradas, nas minas espalhadas pelo país e nos combates entre os soldados. Torna-se um terrível hábito ter que enterrar os entes queridos, o absurdo da situação chega a atingir o nível extremo de se enterrar apenas os pertences de um morto, pois muitos foram deslocados dos seus locais de origem e seus corpos jamais seriam revistos. Tal proposta é feita à mãe de Marimbique, que denuncia o desrespeito com os que se foram e a insensibilidade daqueles que se acostumaram com a desgraça e vivem dela: “Querem é vender as roupas do meu filho no dumba-nengue (mercado de rua) e mafiar-me que estão enterradas”. (Ibide, Ibidem, p. 26) Por outro lado, revela o estado de penúria a que se encontravam os moçambicanos, em miséria absoluta:

“Há anos que entretanto não se realizavam aquelas cerimônias de enterrar os pertences dos mortos. Roupa dos falecidos serve para os vivos. Numa altura destas, prenhe de crises, como desperdiçar os farrapos dos outros, mesmo depois de passarem para o outro lado da fronteira, lá onde habitam os sem-vida?” (Ibide, Ibidem, p. 26)

Este acontecimento demonstra o dilaceramento das tradições espirituais, a descrença nos rituais funerários dos antepassados, a cultura esgarçada. Nei Lopes, em Kitábu, comenta que a morte é a continuidade da vida, que se desprende do corpo físico e parte ao encontro dos que o precederam, em um outro nível de existência. Por isso, é fundamental o respeito aos antepassados e o cumprimento dos rituais e obrigações para com eles.

Tais costumes tentam sobreviver nos bairros periféricos de Maputo, os bairros de caniço, onde se passa a história. Bairros que tinham como característica o convívio entre as diversas raças (negros, árabes, portugueses, indianos) que viviam em Moçambique e formaram a cultura miscigenada do país.

A narrativa privilegia as manifestações da religiosidade africana deformada pelos séculos de colonialismo e depois perseguida pelos representantes da revolução, de orientação comunista, que diziam que a “revolução era pagã”. Porém, a hipocrisia é uma característica dos que estão no poder e tal fato não era praticado pelos dirigentes, que, às escondidas, visitavam os curandeiros:

“Dizem até, numa altura em que os grandes não punham os pés nas igrejas nem sequer admitiam cerimónias para lembrar os antepassados, tudo isso porque a revolução era pagã, alguns, muitos destes alguns, dizem as falas populares, saíam dos seus Volvos e dirigiam-se, à socapa, ao velho Aeroporto, famoso por socorrer as mais incríveis inquietações.” (Ibide, Ibidem, p. 29)

Contrapondo-se à asfixia das origens locais, o narrador mostra a relação com o mundo dos mortos, o que os envolve como os xicuembos (espíritos malignos, constantes na pintura de Malangatana Valente), xipócùes (almas de outro mundo) e os nyangas (curandeiros). Sendo assim, conhecemos doenças como a nyocana, a doença da lua, sofrida por Marimbique, o ritual para sua cura e como o ritual se adaptou à geografia dos subúrbios:

“Quando há luar, o atingido entra nas convulsões, sofre espasmos. (...) Mata-se um animal representativo – cabrito, por exemplo – cozinha-se carril de amendoim de galinha, mais xima, alguns assimilados fazem arroz, junta-se a família. Para além disso, existem as bebidas tradições, como o uputso. Vinho também serve, mas tem que ser branco. (...) Ajoelha-se a um canto da palhota, se for no subúrbio, no quarto da flat para aqueles que transitaram e estão na cidade, e fala com os velhos de antigamente. (...) A cerimônia termina sempre com alegria entre os convivas. Assim, os que estão deste lado da Terra podem continuar sossegados, os espíritos haverão de protegê-los.” (Ibide, Ibidem, pp. 115-116)

Como a mãe de Marimbique acreditava nos valores da revolução, não dava importância para o que sentenciavam os nyangas (curandeiros) e Marimbique não cumpriu as obrigações necessárias. Somente com a velhice acompanhada do desespero em não reencontrar o filho e a morte que se aproxima, é que ela retornará às crenças locais:

“O filho sofrerá a vida inteira desta doença e dos maus espíritos que lhe ensombraram os caminhos. Muitos anos depois, a velha será uma devota das consultas aos curandeiros. Mas o filho terá já desaparecido, as suas demandas pouco ajudarão a saber do seu destino.” (Ibide, Ibidem, pp. 116-117)

Embalados pelo clima festivo e de vitória absoluta da independência, alguns excessos foram cometidos pelos novos governantes e seus simpatizantes. Seguindo a cartilha dos partidos comunistas europeus, houve um patrulhamento intenso sobre os costumes tradicionais moçambicanos e tudo o que não seguisse as diretrizes européias era considerado contra-revolucionário, passível de pesadas punições. Havia, por exemplo, a “Operação Produção”, que mandava para fora da cidade os desajustados sociais, como os bêbados:

“Durante a ‘Operação Produção’ desapareceram, passaram a beber clandestinamente num improvisado bar de subúrbio, até passar a fúria revolucionária que varria os famosos improdutivos dos centros para o Niassa.” (Ibide, Ibidem, p. 113)

A burocracia estatal mostra sua (in)eficiência no controle da vida das pessoas, na quantidade enorme de documentos exigidos aos transeuntes pelos despreparados soldados governamentais, procedimento que ficou conhecido como “Operação Tira-Camisa”, que também servia para prender ou forçar ao alistamento nas tropas:

“– Documentos?
– BI, cartão de residente e cartão de recenseamento!
(...)
– Os que estão indocumentados para aquele canto. Fiquem ali em fila, tirem as camisas.
Era a mais do que conhecida ‘Operação Tira-Camisa’. Marimbique ouvira falar apenas deste tipo de rusga. Os militares ficavam à porta dos cinemas e de outros lugares de concentração dos jovens e exigiam que estes exibissem os papéis. Pediam de preferência documentos impraticáveis. Havia aqueles que, no delírio de sua ignorância, até exigiam que os incautos transeuntes sacassem dos bolsos certidões de óbito. Quem não os tivesse ia preso. Era levado para os centros de concentração ou eram recrutados compulsivamente para a tropa. A guerra apertava. Precisava-se, com urgência, de carne para canhão.”
(Ibide, Ibidem, p. 50)

Com o intuito de equiparar tudo, de criar uma sociedade sem classes como nas teorias socialistas, o governo revolucionário toma medidas radicais. Surge o cartão de abastecimento e a lei de igualdade salarial:

“Quatro barra oitenta foi uma das leis mais conhecidas no tempo da revolução, com ela se estipulava a igualdade de salários nas mesmas categorias profissionais. (...) Para além dos salários que provinham dessa lei, havia os cartões de abastecimento que o GOAM (Gabinete de Organização do Abastecimento de Maputo), distribuía, sem os quais não se podia adquirir comida nas lojas.” (Ibide, Ibidem, p. 84)

A incompetência estatal também serve para mascarar a corrupção, alimentar o tráfico de influências e favorecer os quadros políticos. Infelizmente, situações típicas das elites dos países periféricos. O romance denuncia o deplorável caráter de alguns representantes das lideranças revolucionárias e mais uma vez o despreparo para o comando:

“Muitas das padarias da cidade não faziam pão. Tinham entrado em crise. Ter pão era privilégio dos chefes, os famigerados Estruturas. Aqueles que vestiam balalaicas do poder e acenavam dos seus LADA. Os LADA eram carros importados de um dos países socialistas que apoiavam a revolução. Os populares não sabiam a origem exacta dos carros protocolares, mas eximiam-se no escârneo, LADA significava, na fala de rua: leva atrás dirigente analfabeto.” (Ibide, Ibidem, p. 13)

A luta pela independência serviu para unificar Moçambique e as várias etnias que compõem o país. Porém, a harmonia entre elas era instável, as lideranças dividiam-se, enquanto os combatentes, como Marimbique, desconheciam as outras regiões e povos. O bairro onde vivia, a Munhuana, havia o convívio entre povos de várias raças, o que pode ser confirmado nos depoimentos do poeta José Craveirinha ao comentar sobre a Mafalala.

“Em pouco tempo ficou a perceber que era do Sul, havia os do Norte. Também soube que era ronga e havia os macuas. A revolução não resolvera o grande dilema de um país embrulhado em várias nações. Não sabia Marimbique o que significava a palavra etnia. Mais tarde aprendeu na dureza do quotidiano que os homens se dividiam por origens geográficas, por raças, por línguas ou etnias.
O seu mundo era a Munhuana, ali eram, todos, meninos. Pretos, chineses, mulatos, fosse o que fossem. Eram todos da mesma raça. (...)”
(Ibide, Ibidem, p. 41)

Tal situação era geradora de intensos conflitos na mente de Marimbique, que não compreendia as desavenças entre os vivos, a matança desenfreada da guerra, o desarranjo do mundo:

“Hoje, quando olha o país mergulhado na confusão de cores, lembra-se do daltonismo que então guiava os moçambicanos. (...) De onde são estes corpos que transportamos? Que língua falarão lá no lugar para onde vão? A que etnia pertencem? Serão eles ainda muito diferentes na sua condição única de mortos?” (Ibide, Ibidem, pp. 41-42)

O convívio com a guerra faz com que a anestesia se apodere dos sentimentos das pessoas. Amor, sonho e dignidade são desalojados pela inércia e desinteresse pelo sofrimento do próximo. Os mutilados não causam espanto, nem revolta:

“Apareceram depois os mutilados. Os transeuntes olhavam-nos mas não se importavam. Era apenas mais uma palavra que a guerra nos trouxera para o vocabulário: mutilado. (...) Pessoas que viram seus membros estilhaçarem-se ao vento. Gente que perdeu sonhos e dignidade. Agora vendem maços de cigarros em bancas improvisadas nos passeios.” (Ibide, Ibidem, p. 59)

Com a aproximação da independência, os portugueses colonizadores, que segundo Albert Memmi se acostumaram à vida e às benesses oferecidas na colônia jamais imaginaram que essa realidade um dia findaria e que precisariam abandonar a colônia e seriam obrigados a retornar à metrópole. Essas pessoas viviam às custas do sistema colonial e tiveram que se retirar em massa, deixando os apartamentos nos prédios da cidade desocupados. Estes, passaram a sofrer com a falta de manutenção e foram ocupados pelas pessoas que viam do interior, que se adaptavam, a sua maneira, à nova vida, situação parecida com a da novela angolana de Manuel Rui, Quem me dera ser onda:

“Os prédios ameaçavam ruir de podre. (...) Por todos os lados havia furos de água suja. A rede de esgotos acolhia ratazanas. Os tubos das canalizações enferrujavam secos. Bebia-se água insalubre, que subia a baldes nas escadas porcas e escorregadias (...) Os inquilinos acendiam fogões a carvão nos andares, punham a lente em chama nas flats, as paredes escureciam ocultando o branco que haviam tido antes. Os homens, nas suas horas de lazer, plantavam pequenas hortas nas banheiras. Eles ignoravam a utilidade dos novos objectos que se atulhavam nas casas de banho da revolução. (...) As explêndidas moradias tinham sido deixadas ao abandono pelos antigos proprietários. Estes haviam sido apanhados desprevenidos na encruzilhada da História, eles que se julgavam eternos, na sua modorra africana (...)”(Ibide, Ibidem, p. 71)

As ruínas da cidade são as ruínas psicológicas dos moçambicanos, fraturadas pela presença constante da morte e dos mutilados. Pessoas deslocadas dos seus locais de origem sonambulam pelas estradas com o risco real de sofrer uma emboscada, além da fome, que passa a ser uma fiel companheira do cotidiano. Há, até uma denúncia feita em relação a isto, pois os postos de abastecimento tinham papéis higiênicos e outros artigos em grande quantidade, enquanto a comida quase não aparecia:

“As lojas do Povo o que tinham de mais era o batom e papel higiênico. Não que as moças desgostassem do batom que vinha do Leste da Europa, não que os nossos hábitos fossem contrários ao uso de papel higiênico, preferindo a areia, coisa que se fazia agachado, depois de se defecar no mato, também tínhamos ânus urbanizados, o que se passa é que a comida era pouca e a necessidade terrena de nos desfazermos dos sólidos desnecessários ao organismo também. Daí o excesso na provisão do papel higiênico.” (Ibide, Ibidem, pp. 143-144)

Em um estado de pobreza onipresente, cada cidadão lida com a terrível época a sua maneira. A personagem Jamaica é um ex-combatente que se tornou mutilado após pisar em uma mina. Porém, era “mutilado de uma guerra que ele recusava existir, Jamaica, enfim, vivia das lembranças”. (Ibide, Ibidem, p. 61) Recordava-se sim, dos tempos em que era jogador de futebol e das meninas que namorava. A evasão servia para encobrir a realidade: “Mutilado eu? Vão todos para aquele sítio. Dizem que eu não tenho perna? Quem não tem perna é este país que está cheio de malucos. Eu sinto a minha perna, esta muleta é tudo estilo”. (Ibide, Ibidem, p. 62) Já a personagem Bragança, amigo de Jamaica, fez da incomunicabilidade a sua forma de reação contra as agruras da guerra: “Bragança, esse, não falava. Voz dele extinguiu-se há muitos anos”. (Ibide, Ibidem, p. 63)

O desajuste perpetrado pela guerra, desloca os homens para longe da racionalidade. A realidade aniquilada pelas minas apresenta um quadro surreal que beira a loucura:

“Mano, como não podemos estar com o juízo fora de lugar? As búlgaras gostam dos pretos, os italianos filmam cães a fornicar nossas filhas. Como não ficar maluco perante esta sociedade que até nos traz os mortos de Maluana para serem passeados pela Avenida Eduardo Mondlane como se fosse dia de carnaval? Tudo isto não bate certo. Fazemos parte de um terrível carnaval de estúpidos!” (Ibide, Ibidem, p. 81)

A irracionalidade dos anos de guerra motiva a ironia ao grotesco dos acontecimentos. Rir-se da própria desgraça. O riso como fator crítico da ordem estabelecida, demonstrando, através do grotesco, as falhas da época:

“Não muito tempo depois, nos palcos da cidade se começou a zombar da própria desgraça, fazendo com que os desgraçados se rissem de si próprios. Não sei se moçambicanamente cultivamos a ironia na forma de nos retratarmos no quotidiano, mas verdade seja dita: o teatro que haveria de irromper, nos anos aflitos de guerra, nos tempos do cerco à cidade, quando se anunciavam todos os apocalipses, seria de grande motivação do riso e do escárneo.” (Ibide, Ibidem, p. 72)

A maneira como a guerra definha os sentimentos dos povos que são obrigados a conviver com cenas deprimentes e deploráveis, ultrapassa o grotesco. O horror das mortes corriqueiras, amendronta até aqueles que estão habituados a conviver com ela, como o coveiro Mandala:

“Afaguei muita morte. Mas, palavra de honra, tenho medo destes mortos. São caras de mulheres assustadas, de crianças que ainda gritam, de homens surpreendidos pelas baionetas, precocemente. Não são mortos vindos do sossego. Dizem que são as vítimas da guerra. De Maluana, de Taninga. Com estes mortos assim qualquer dia esta guerra não fará vítimas, ela própria será vítima dos mortos porque nenhuma guerra devia agüentar tanto.” (Ibide, Ibidem, p. 88)

A inconseqüência e fúria dos ataques dos soldados destroem as vidas das pessoas, que perdem seus bens materiais, seus parentes, suas identidades. Vários personagens representam o vazio, a ausência de um passado que foi dilacerado no decorrer do conflito. A perda da identidade é o que pode haver de mais doloroso, além da perda de contato com os familiares desaparecidos. Mandala é um personagem sem passado e sem nome, recebeu a alcunha daqueles que passaram a conviver com ele: “Dizer velho Mandala é uma espécie de redundância dado que o nome de Mandala ninguém conhecia e assim lhe chamavam por sua idade justificar tal alcunha”. (Ibide, Ibidem, p. 87)

O mesmo acontece com a velha mãe de Marimbique. Seu passado são especulações dos que com ela passaram os anos:

“Fala-se muito dela mas nada se sabe ao certo. Sua lenda intensifica-se na densidade da incerteza. Nem mesmo o elementar pormenor do nome. Como se chama? Ninguém lhe conhece o nome. Ela é conhecida, porém, pela alcunha, que lha deram por ser má, intratável, difícil, irascível – Xinguavilana.” (Ibide, Ibidem, pp. 22-23)

A tragédia da morte ronda todo o romance e é somente na morte que Marimbique e sua mãe, Xinguavilana, voltam a se encontrar, em dois cortejos distintos rumo as suas sepulturas. O rapaz acabou dominado pela loucura em um hospital, sua última morada. A mãe de Marimbique foi vencida pelo tempo quando perdeu a esperança de achá-lo:

“Outra vez eles cruzaram-se, agora nas campas, lado a lado. Definitivamente. Não havia como evitar que se encontrassem. O dia estava-lhes reservado a este encontro na morte, descerão à terra e residirão lá nos lugares onde acoitam os antepassados, ao mesmo tempo quase, e em talhões gémeos por assim dizer. (...)
A filha de Mambone e mãe de Marimbique não resistira ao desgosto do desaparecimento do filho. Quando perdeu a esperança de reencontrar, deixou-se levar para a terra dos antepassados. Afinal, os dois, mãe e filho, por fim encontravam-se e abraçavam-se para a eternidade.”
(Ibide, Ibidem, pp. 139-140)

A família destruída pela guerra continuará dilacerada com a presença do filho de Marimbique, que conheceu o pai e a avó no dia do enterro, e, assim, “ficou a saber a partir daquele dia quando, finalmente, lhe contaram a estória da sua família paterna”. (Ibide, Ibidem, p. 140)

Para finalizar, fico com as palavras do narrador, que melhor expressam o triste período da história recente de Moçambique, neste pungente romance de Nelson Saúte:

“Os anos oitenta foram anos dramáticos. Foi o tempo em que experimentámos a miséria mais abjecta em termos materiais. Onde os homens despojaram-se da sua humanidade e vestiram a bestialidade oculta na sua personalidade. Foram os anos da morte, da violência das armas que em humanas mãos serviram para destroçar os mais belos projectos igualmente humanos que havia entre nós e reduzir o homem moçambicano à condição de coisa nenhuma. (...) Os anos da falta de luz. (...) Os anos dos suicídios dos jovens, da morte estúpida e brutal dos jovens. Estes são os anos oitenta. Os anos da nossa desgraça individual e colectiva, mas os anos que resgatamos hoje e quase choramos ao lembrá-los porque em tudo em que eles representavam havia uma pureza que as minhas palavras não têm competência para nomear. E agora que os homens se vestem dos agasalhos da amnésia para atravessar as ruas, vale a pena recordá-los.” (Ibide, Ibidem, pp. 141-144)


BIBLIOGRAFIA:
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.

LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

SAÚTE, Nelson. Os narradores da sobrevivência. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000.

SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Língua Geral: lançamentos e noite de autógrafos

A Editora Língua Geral fará na quarta-feira, 07/11/2007, às 19h30, uma noite de autógrafos na Livraria Travessa (Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema) com os escritores e os seguintes livros:
Ondjaki – Os da minha rua
Patrícia Reis – Morder-te o coração
Francisco José Viegas – À luz do Índico
Nelson Saúte – Rio dos Bons Sinais

Nelson Saúte – Moçambique e Ondjaki – Angola, participarão do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas no dia 21/11, às 16h, na Fundação Biblioteca Nacional, ao lado dos escritores Jacques dos Santos – Angola e Fragata de Moraes – Angola.

As informações a seguir são do sítio da Livraria Travessa: http://www.travessa.com.br/wpgEventos.aspx?pcd=10002


OS DA MINHA RUA
Ondjaki
Editora: Língua Geral

RESENHA

Músicas, lugares e cheiros estimulam as lembranças do escritor angolano Ondjaki, no livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral. Neste livro Ondjaki passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990. Os limites entre biografia e ficção são continuamente desafiados: basta observar o tom intimista a mesclar-se continuamente a uma perspectiva histórica. Dessa forma Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura, conduzindo os leitores a cenas de caráter intimista que levam ao registro de uma época em Angola. Os da minha rua revela grande mobilidade não só pelo olhar intimista que se expande ao registro histórico: os 22 textos desta obra podem ser lidos como unidades autônomas, que valem por si mesmas (como se fossem contos), mas também podem ser lidos feito capítulos de um romance. Trata-se portanto de uma obra muito flexível, de intenso hibridismo, que se vale de outro tom, muito próximo ao da crônica. Este surge por meio do registro sobre o cotidiano, que vem a ser uma das marcas incontestáveis desse gênero. Com um discurso muito afeita à oralidade, o narrador lembra de amigos, família, festas na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de 1.º de Maio, a piscina de Coca-Cola e a novela brasileira Roque Santeiro. Com essas memórias entre o ficcional e o biográfico, Ondjaki nos leva à reflexão sobre nossas próprias particularidades, de nosso passado e de nossas lembranças sobre um período de descobertas e brincadeiras. “A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (...).”

ISBN: 9788560160235
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 168 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007


MORDER-TE O CORAÇÃO
Patricia Reis
Editora: Língua Geral

RESENHA

Em "Morder-te o coração" há muitas tentativas para compreender o amor, o desejo, a fuga, o medo; tenta-se compreender sobretudo a procura do sexo com mais-valia de calor humano que nos protege e nos defende da solidão. Encontros e desencontros de sentimentos, de vontades e de decisões mapeiam o novo romance de Patrícia Reis, escritora portuguesa que tem mais de um romance lançado pela editora Língua Geral e que é, em Portugal, um dos maiores sucessos de público e crítica neste ano. "Morder-te o coração" traz as lembranças de um homem por um amor de verão; seus sonhos e desejos com uma mulher misteriosa, calada e que ele acreditou amar. O romance revela a desilusão deste homem após a fuga do seu amor, a busca por ela em todos os cantos do mundo (de uma ilha portuguesa a Veneza) e até mesmo em outra mulher, na nova vida que tenta levar na cidade fria de Estocolmo, onde seu único desejo é ter alguém para abraçar todos os dias. Através desta segunda personagem ele se envolve num triângulo amoroso, uma fuga da solidão, o sexo como instrumento de sobrevivência. Após ver o rosto da mulher amada na internet, ele foge e deixa para trás o abraço de todo dia, a amante, em busca do seu amor, na tentativa de refazer a vida, de ir atrás daquele que acreditava ser seu destino. "O amor visto por um homem em o poder e a dor das coisas maiores", aforma a autora Patrícia Reis. Histórias de sexo, amantes que se entrelaçam com lembranças da infância, da mulher misteriosa que recorda a perda da mãe, do alcoolismo do pai, as mentiras, a paixão epla fotografia e a tentativa de suicídio. Patrícia Reis apresenta uma narrativa que alterna histórias de cada personagem, histórias divididas que dialogam entre si.

ISBN: 9788560160129
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 162 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

À LUZ DO INDICO
Francisco Jose Viegas
Editora: Língua Geral

RESENHA

As lembranças da antiga cidade colonial de Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique) num período anterior ao processo de independência, a busca de Miguel por Maria de Lurdes e a inquietude de um assassinato logo nas primeiras páginas caracterizam A luz do Índico, novo romance do escritor português Francisco José Viegas. Vinte e sete anos depois de ter saído de Moçambique, em 1973, Miguel retorna à cidade de Maputo, onde teve seu primeiro amor, Maria de Lurdes. Este retorno de Miguel à cidade de Maputo traz consigo a busca por esta mulher, que ele não vê há cerca de dois anos. Conseqüentemente encontra Pemba, Nampula, o lago Niassa, entre outras localidades de Moçambique. Revela-se então um país totalmente modificado e revirado pela guerra. Um território diferente do que a memória apresentava para Miguel. A narrativa romântica da busca por Maria de Lurdes é entremeada pelo estilo policial que se inicia nas primeiras páginas, com o assassinato de Gustavo Madane, ex-homem forte do regime marxista, que aparece morto nos arredores de Maputo. Durante a viagem, Miguel reencontra Domingos Assor, companheiro de infância e agora investigador policial, responsável pela investigação da morte de Madane. Domingos lhe serve como interlocutor na sua busca por Maria de Lurdes e a partir desse diálogo surge a imagem de uma intensa solidão, resultado de um país com um passado glorioso e um presente devastado.

ISBN: 9788560160204
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 273 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

RIO DOS BONS SINAIS
Nelson Saúte
Editora: Língua Geral

RESENHA

Depois de O homem que não podia olhar para trás, lançado pela Editora Língua Geral e que faz parte da coleção Mama África, voltada para o público infato-juvenil, o moçambicano Nelson Saúte apresenta agora uma literatura um tanto singular. Em Rio dos bons sinais, seu novo livro de contos, a morte permeia todas as histórias, e a realidade e a ficção caminham lado a lado. Eufrigino dos Ídolos, o homem que ia a todos os funerais com seu guarda-chuva amarelo, o enterro da bicicleta do popular deputado que tinha nove filhos, o ministro de Deus, a aldeia dos homens sem sombra, a vovó Mafaduco e a Menina dos Prazos são alguns dos curiosos, batalhadores e cativantes personagens que compõem os enterros, funerais e o luto que servem como cenário para a obra. “Este é um livro de ausências. Sem grandes gestos, grandes batalhas, grandes epopéias, sem grandiloqüências ou arroubos filosóficos. As grandes aventuras estão no quintal da nossa casa, raramente nos horizontes exóticos e são os nossos olhos gulosos buscando o infinito que nos levam para o vazio dos gestos históricos”, afirma o também moçambicano Ruy Guerra, na orelha do livro. Em Rio dos bons sinais, que integra a coleção Ponta-de-Lança, Nelson Saúte apresenta a relação com os mais velhos, a morte sob diversos ângulos, o que também revela as particularidades da cultura africana. No cenário da morte e do luto, Nelson revê os conceitos, a pobreza, o amor, a amizade, recorda a infância e mostra que a morte é um fato da vida e que pode nos ajudar a compreender o que somos.


ISBN: 9788560160198
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 140 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007