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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Chacal e a Poesia Marginal

Anos 70, Rápido e Rasteiro: a efervescência poética de Chacal e a momentaneidade da poesia marginal durante as trevas da ditadura

Aula elaborada para a 3ª série do Ensino Médio, por Ricardo Riso

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
(Chacal. rápido e rasteiro. In: Belvedere. Rio de Janeiro: Cosac & Naify, 2007. p. 353)

Ricardo Carvalho de Duarte, o Chacal, teve sua obra poética reunida na antologia “Belvedere”, publicada pela Cosac & Naify em 2007. Composta por treze livros, sendo o primeiro livro lançado em 1971, intitulado “Muito prazer, Ricardo”, que revolucionou a maneira de se publicar poesia no Brasil.

O início da década de 70 vivenciou o mais cruel e sanguinário dos governos militares. A ditadura, liderada pelo gal. Médici iniciava um processo de aniquilar qualquer organização ou pessoa que fosse contra o regime opressor, processo que estava claro desde a proclamação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Data que marcou um longo período de trevas que perdurou até o ano de 1978.

Contudo, não foram apenas as organizações de esquerda que sofreram com a truculência da repressão, mas, principalmente as manifestações culturais nacionais passaram a ser perseguidas, cuja contestação, a arte engajada, politizada e de conscientização era impedida de aparecer em qualquer veículo de comunicação. O espaço das artes era dominado por pessoas com orientação de esquerda e ligadas a causas humanistas, porém, com a chegada dos anos 70, o governo militar passou a ser o principal patrocinador da cultura nacional. Isso quer dizer que a arte passou a ser ufanista. O teatro privilegiou grandes produções, o cinema que era uma das principais artes contra a ditadura graças ao cinema novo, passou a apresentar filmes sem conteúdo político e a incentivar as pornochanchadas. A nossa MPB sofria forte vigília, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas foram obrigados a pegar o caminho do exílio. A imprensa, mais precisamente o Pasquim e o Jornal do Brasil, tinham seus jornalistas presos e edições recolhidas. Ou seja, estamos diante de um momento extremamente infeliz do país, em que as liberdades individuais não eram respeitadas e não havia espaço para questionamentos. Era uma época de intenso radicalismo tanto da direita quanto da esquerda.

Diante desse quadro, onde fica a poesia? Como surgiriam os novos poetas?

Como só era publicado aquilo que valorizasse os bens do país, qualquer vanguarda era desprezada pelo mercado editorial que tinha medo de sofrer represálias dos órgãos do regime. Por isso, Chacal e posteriormente seu amigo e também poeta Charles, revolucionaram a forma de se fazer poesia ao produzirem seus livros de forma mimeografada. Charles elucida como foi o início dessa caminhada:

O Guilherme (Mandaro) foi uma pessoa fundamental. (...) porque ele dava aula num curso pré-vestibular onde tinha um bendito de um mimeógrafo, e foi lá que a gente imprimiu os livros, o meu e o Muito prazer, do Chacal. Nós imprimimos clandestino, foi meio um golpe, indo para lá depois das 11 da noite, quando o cursinho já estava fechado. (COHN, p. 22)

Dessa maneira, os poetas passaram a assumir e a controlar todo o processo que envolve o livro. Além de criarem os poemas, eles editavam, imprimiam pequenas tiragens no mimeógrafo e faziam a distribuição desses livros nos lugares que encontrariam o público ideal para comprá-los. A seguir, Chacal comenta a sua forma de divulgação e como sua poesia foi aparecendo no reduzido, porém agitado meio cultural da época:

Acho que eu estava no lugar certo na hora certa, porque eu circulava onde tudo estava acontecendo, vendia o livro no píer, na porta dos teatros, nos bares do Baixo Leblon. E era por esses lugares que todo mundo passava. (...)
Eu tenho uma mania que é acreditar que existem pessoas que têm a doença de sua época, que conseguem captar e expressar o que está acontecendo, o que está no ar. E talvez, naquele momento, eu fosse uma dessas pessoas. Talvez até por não ter uma tradição literária, foi possível ousar mais, inventar mais e conseguir criar um texto novo que sintetizava bem aquele tempo. Os meus poemas tinham o clima do que estava rolando, do que éramos na nossa vida. Era uma poesia rápida, irreverente, pop.” (Cohn, p. 24)

O livro Muito Prazer chega às mãos de Waly Salomão, que na época dirigia o show Fa-tal, de Gal Costa, sendo este o maior acontecimento cultural do ano de 1972. WS fica entusiasmado com os poemas de Chacal e escreve uma crítica que é publicada na coluna jornalística Geléia Geral, de Torquato Neto, chamada “Cha-cal (carta sobre um jovem poeta)”:

Vejo cada dia mais Oswald de Andrade tornado patrimônio da civilização brasileira. Vejo os artistas cultuarem Oswald de Andrade e produzirem enxurradas de versalhadas (...) Ninguém vi com um entendimento tão afetivo (...) do Caderno do Alumno de Poesia de Oswald de Andrade quanto Chacal, Ricardo, autor deste maravilhoso Muito Prazer - edição mimeografada, mimeografada com desenhos.
Muito Prazer - apresentação de um jovem poeta. Muito Prazer: apresentação de um simples portador duma nova sensibilidade. (...) O livro é dado pelo autor aos corações apaixonados nas escarpas das dunas do barato, praia de Ipanema, Rio de Janeiro, gebê, Brasil. (COHN, p.25)

A referência a Oswald, destacada por Waly, é escancarada pelo poeta, que lança seu primeiro livro exatos cinqüenta anos após a Semana de 22:

Foi o Charles que trouxe um livro que seria um grande marco da minha vida, que era o volume do Oswald de Andrade daquela coleção da Agir, “Nossos Clássicos”. Era um livro pequeno, com apresentação do Haroldo de Campos, e trazia os manifestos, alguns poemas, além de trechos do Serafim Ponte Grande e do Miramar. Aquele livro me fascinou, eu achei aquele mundo ali maravilhoso, porque ao mesmo tempo em que havia toda uma postura de contestação através dos manifestos, tinha um humor e uma irreverência muito grandes nos poemas e nos textos em prosa. Eu fiquei sorvendo aquele livro durante um bom tempo, lendo e relendo... (COHN, p.20)

Da influência declarada, Chacal parodia alguns poemas de seu mestre Oswald, como em “Papo de Índio”:

veio uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui si chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirrum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles. (Belvedere, p. 361)

Além da presença marcante do modernista brasileiro na poiesis de Chacal, depreendemos outras características que também serão encontradas nos poetas que estavam à margem do mercado editorial. Devemos ter em mente que a condição de marginalidade desses poetas não carrega o significado de banditismo, comum aos pós-tropicalistas como Torquato Neto e o já citado Waly Salomão, mas havia o sentido de quem está excluído de um sistema vigente, de uma ordem determinada. Os poetas surgidos nos anos 70 ficariam conhecidos como a geração do mimeógrafo ou como os poetas da poesia marginal.

Com a excelência costumeira, Heloísa Buarque de Hollanda aponta para a relação arte/vida presente na poesia desses autores e na “valorização do presente, do aqui e agora”. De uma poesia que está preocupada em retratar “a poetização de uma vivência” (HOLLANDA, p. 100), de “captar situações no momento em que estão acontecendo, sentimentos que estão sendo vividos e experimentados e fazer com que o próprio processo de elaboração do poema reforce esse caráter de momentaneidade” (HOLLANDA, p. 101). Uma poesia que não toma partido em relação à política, mostrando profundo desinteresse pelos discursos de poder, “os projetos não se fazem mais no sentido de mudar o sistema, de tomar o poder. Cresce, ao contrário, uma desconfiança básica na linguagem do sistema e do poder” (HOLLANDA, p. 100), tanto de direita quanto de esquerda. Entretanto, não podemos chamar essa geração de alienada como foi erroneamente acusada à época, diante de um poema como “SOS”:

tem gente morrendo de medo
tem gente morrendo de esquitossomose
tem gente morrendo de hepatite meningite sifilite
tem gente morrendo de fome
tem gente morrendo por muitas coisas

nós, que não somos médicos, psiquiatras,
nem ao menos bons cristãos,
nos dedicamos a salvar pessoas
que, como nós,
sofrem de um mal misterioso:
o sufoco. (Belvedere, p. 313)

Com a asfixia do regime ditatorial e o desencanto com a sociedade em que vivem, os poetas não querem contestar como as gerações dos anos 60, pois isso representaria a tortura e a morte. Há o sentimento de solidão acompanhado de um profundo mal-estar versado em “Desabutino”:

quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de pena e letras lentas
que passa sábado à noite embriagado
chorando que nem criança a solidão

quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de neil sekada

quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia (Belvedere, p. 305)

Com tanto desencanto, o próprio discurso universitário passa a ser recusado e tratado com desdém. As universidades foram esvaziadas dos seus melhores docentes, que foram presos, exilados ou mortos. Os grêmios estudantis fechados e os estudantes perseguidos. Há uma desconfiança em relação à intelectualidade e às instituições, como no poema “Pra quê?”:

sentado e estudantil, orlando perscrutava o absurdo e o rabo da professora. de repente, passos no corredor atrás da porta fechada. “serão policiais ou alunos atrasados?” takapassou a mulher com giz e abriu a porta. o homem colado com as orelhas entregando saiu de banda. bandeira. suástica caiu no chão. orlando viu o lance achou nada pisou na escada e não apareceu mais por ali.
pra quê? (Belvedere, p. 329)

Se na poesis de Chacal há Oswald, há uma constante ironia predominante em toda a sua obra poética como apreendemos em rápido e rasteiro e como será vista com maestria no poema "Alô, é o quampa?":

- Alô, é o quampa?
- não. é engano.
- Alô, é o quampa?
- não, é do bar do patamar.
- Alô, é o quampa?
- é ele mesmo, quem tá falando?
- é o foca mota da pesquisa do jota brasil. gostaria de saber suas impressões sobre essa tal de poesia marginal.
- ahhh... a poesia. a poesia é magistral. mas marginal pra mim é novidade. você que é bem informado, mi diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou alguma bomba no senado?
- que eu saiba não. mas eu acho que é em relação ao conteúdo.
- mas isso não é novidade. desd'adão... ou você acha que alguém perde o paraíso e fica calado, nem o antonio.
- é verdade. mas deve haver algum motivo pra todos chamarem essa poesia de marginal.
- qual, essa?!? eu tou achando até bem comportada. sem palavrão, sem política, sem atentado à moral cristantã.
- não. não tô falando dessa que se lê aqui. tô falando dessa outra que virou moda.
- ahhhh... dessa eu não tou sabendo. ando meio barro-bosta por isso tenho ficado quieto em casa. rompi meu retiro pra atender esse telefone. e já que ti dei algumas impressões, você vai me trazer as seguintes ervas pra curar meus dissabores: manacá carobinha jurubeba picão da praia amor do campo malva e salsaparrilha. até já foca mota. (Belvedere, p. 293-294)

Os poetas dessa geração não se consideravam marginais e a própria crítica encontrava dificuldades em enquadrá-los nesse termo, daí a insistência claudicante do repórter e da ironia presente em todas as respostas do sujeito lírico.

A intenção nesta aula foi apresentar um rápido panorama da produção poética de Chacal e sua relação com a chamada Poesia Marginal, ou Geração do Mimeógrafo. Inferimos que Chacal e seus pares foram ousados e inovadores na busca por alternativas para a publicação de seus livros, em um momento difícil da recente história brasileira. No decorrer dos anos 70 suas atitudes desencadeariam na Nuvem Cigana, um coletivo de artistas que influenciou diversas áreas artísticas. Contudo, isso é uma outra história.

Exercícios:
1. Destaque qual o poeta e a qual movimento literário brasileiro inspirou-se Chacal para a confecção de sua poesia. Identifique o poema trabalhado em sala que faça essa referência.
2. A produção poética dos jovens nos anos 70 recebeu a alcunha de poesia marginal. A partir do poema “Alô, é o quampa?”, comente a utilização deste termo, o que a caracterizava como marginal e se havia semelhança com a geração anterior, dos tropicalistas e pós-tropicalistas do final dos anos 60.

Bibliografia:
COHN, Sergio (org). Nuvem Cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.

CHACAL. Belvedere (1971-2007). São Paulo: Cosac Naify, 2007 (Coleção Ás de Colete: 18).

HOLLANDA, Heloísa Buarque. Impressões de viagem - CPC, Vanguarda e Desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1980.

Chacal na web:
http://chacalog.zip.net - blog pessoal do poeta
http://cep.zip.net - blog do CEP 20.000

domingo, 12 de outubro de 2008

Nuvem Cigana: poesia e delírio no Rio dos anos 70


Confesso que desde o ano passado cultivei a dor de barriga característica pré-carreira em todos os momentos que lembrava do livro Nuvem Cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70, editado pela carioca Azougue, organizado por Sergio Cohn, enriquecido com mais de uma centena de fotos, e era minha obrigação em comprá-lo.

A Nuvem Cigana foi um coletivo de artistas que modificou as relações entre artistas, público, produção, meios de comunicação e tudo o mais que envolvesse as artes, assim como o comportamento geral no crepúsculo permanente dos anos 1970. Com sua origem na atitude inovadora de dois jovens poetas, Chacal e Charles, que criaram seus próprios livros de poesia mimeografados e foram distribuí-los diretamente ao público que eles julgavam interessados.

A partir daí, os contatos foram crescendo novas pessoas queriam mostrar seus trabalhos, mas não conseguiam devido à forte repressão da ditadura militar, com seu pior representante, Garrastazu Médici. Logo, esses jovens, agora agrupados (Bernardo Vilhena, Cafi, Ronaldo Santos, Ronaldo Bastos, Guilherme Mandaro e outros), partiram para a união, em trabalhos e experiências coletivos, em meio a viagens de maconha, cocaína, muita birita e ácidos, pé na estrada, rock’n’roll e poesia decidiram mostrar seus poemas em apresentações públicas, agregando artes plásticas, teatro, rock e carnaval.

Em um percurso meteórico, que vai do primeiro livro de Chacal, “Muito prazer, Ricardo” em 1972, ao surgimento da Nuvem Cigana em 1975 e aos anos que se passaram, várias histórias são contadas em forma de diálogo pelos diversos integrantes do grupo, que relembram os primeiros contatos, as viagens, prisões, as experiências bem sucedidas ou não, a revitalização do carnaval realizada pelo bloco Charme da Simpatia, a valorização de Oswald de Andrade, a casa de Santa, as famosas artimanhas que moldaram as apresentações da Nuvem etc.

A leitura é prazerosa, por vezes triste, em muitos momentos hilária, bela pela disposição das pessoas em colaborar em prol do grupo... cativa, emociona, faz sonhar...

Entretanto, o caráter coletivo que alimentou a Nuvem Cigana e seus integrantes não resistiu às imposições e frieza do capitalismo, ou seja, tinham que se enquadrar ao sistema. O passar dos anos para os jovens, que já não eram tão jovens assim, foi cruel, e novas responsabilidades como filhos, exigiam outras posturas. Assim como planos, idéias e aspirações próprias foram fragmentando a Nuvem, causando a dispersão natural de seus integrantes.

Todavia, a coragem, o escracho, a criatividade das pessoas que se envolveram na Nuvem Cigana alterou o comportamento cultural brasileiro, desdobrando-se no que melhor se produziu nos anos 1980. Suas inovações desmembraram-se no teatro, nas artes plásticas, na imprensa, no carnaval de rua, na televisão, na música e na literatura. O estilo Nuvem Cigana ainda encontrou fôlego para atingir as décadas de 1990 e 2000. Vale recordar as outras experiências coletivas de contracultura dos Novos Baianos e do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, mostrando a vontade e o espírito do período. E creio que essas influências durarão por muitos e muitos anos... pelo menos enquanto houver criatividade, vontade de agir e solidariedade entre nós.

Trata-se de um excelente livro para compreendermos uma época de trevas profundas, encarada por uma juventude inteligente, criativa, alegre, delirante... principalmente, solidária.

Ricardo Riso


Cohn, Sergio (org.). Nuvem Cigana - poesia & delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.