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domingo, 30 de junho de 2013

ODETE COSTA SEMEDO – NO FUNDO DO CANTO (A Nação)

ODETE COSTA SEMEDO – NO FUNDO DO CANTO
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 295, de 25 de abril de 2013, p. A40.

A Guiné-Bissau é um país de parca produção literária e Odete Costa Semedo traz uma excelente contribuição para a poesia guineense com o seu livro “No fundo do canto”, de 2003.
Após o trauma do sangrento conflito armado entre 07/06/1998 e 07/05/1999, Semedo utilizou a experiência vivenciada como matéria poética para o canto-poema de seu livro: é “o desabafo escancarado de uma situação” (SEMEDO, 2007, p. 13) em que o país havia mergulhado por causa dos vários descaminhos políticos após a independência, em 1974.
“No fundo do canto” trata da história recente do país e do horror da guerra, e, a partir daí, afirmar a identidade nacional, buscando desconstruir a nação para reconstruí-la poeticamente. Para isso, Semedo nos introduz na multifacetada cultura das etnias guineenses, valendo-se do retorno às tradições, do culto aos antepassados e ao uso constante de vocábulos da língua crioulo que se misturam ao português.

Em poemas curtos ou longos; ora épicos, ora líricos; o sujeito lírico narra em primeira pessoa a guerra ou em terceira pessoa descreve fatos e determina vaticínios. Logo, apreendemos a crescente tensão política do país em quatro partes que se completam no decorrer da leitura, a saber: “No fundo... no fundo”, “A história dos trezentos e trinta e três dias”, “Consílio dos irans” e “Os embrulhos”.

Na primeira parte somos convocados pelo tcholonadur, o mensageiro, que se autoafirma o intermediário que narrará os acontecimentos: “Não te afastes / aproxima-te de mim / (...) pede-me que te mostre / o caminho do desassossego / o canto do sofrimento / porque sou eu o teu mensageiro / (...) vem... / senta-te que a história não é curta”.

O afastamento da cultura tradicional para que o país se enquadrasse na política internacional, exigia a modernização da nação em detrimento das promessas da revolução: “Veio a tecnologia / espreitou / mas não entrou / tropeçou num buraco / estava escuro / não deu com a entrada / e continuou na rua ao pé da casa / à espera de luz “.

“A história dos trezentos e trinta e três dias” denuncia a agonia dos guineenses com o cruel conflito. O caos estabelecido pela violência dos militares nacionais e estrangeiros acompanha o horror da poetisa: “venceram a ganância / a violência / e o desespero / E nós? / não acredito / no que os meus olhos vêem”. O vaticínio se cumpriu; os ideais da libertação, minados: “Um mundo de promessas / foi deixado para trás”. Surge a distopia: “Bissau não quis acreditar / que estava sendo violada / violentada / adulterada (...) / nua deitou-se de bruços / para receber chicotadas / para receber açoite”.

No “Consílio dos Irans”, a convocação das entidades de todas as etnias e subetnias, seus irans e totens em rituais, mostra a pluralidade cultural guineense. As linhagens anunciam-se, é feita a kontrada (grande reunião) com irans (divindades protetoras) de todas as djorsons (linhagens), porque “há culpados... / Que não fiquem mudos / nem impunes”. Semedo recorre à religiosidade tradicional para reconstruir a fragmentada identidade nacional através da identidade coletiva e procura salvar a nação da guerra.

Entretanto, o rompimento com a exploração se dá quando todas as etnias se unem, ou seja, o país se recompõe pela reconciliação de seus filhos, sem apoio estrangeiro. A força dos antepassados e das entidades emerge a nação: “Os irans das djorsons sentiram / Guiné e Bissau uma só / erguendo-se com vigor / reafirmando sua força (...) / invocaram todas as energias / do alto às profundezas do mar / e o chão foi abençoado”.


Depreendemos após a leitura de “No fundo do canto”, que, Odete Semedo, testemunha do conflito de 1998/1999, denuncia o horror da guerra, usa a ironia para desmascarar o discurso da classe dominante e o mal que o neoliberalismo encoberta. Em seu texto, propõe, através de alegorias e da desconstrução da realidade do país, a revalorização da multifacetada cultura guineense em favor da identidade e soberania nacionais. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Revista TriploV nº 7 - resenha de No fundo do canto (Ricardo Riso)

Prezados,
Na atual edição da Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências - Nova Série, nº 07 compareço com uma resenha crítica de No Fundo do Canto, livro de poesia da escritora guineense Odete Costa Semedo. Para ler este artigo, clique aqui.

Abraços,
Ricardo Riso

ÁFRICA
José Luís Almada - Alguns apontamentos a propósito de recentes polémicas sobre a identidade literária caboverdiana
Artur Augusto Silva = O cativeiro dos bichos
Ricardo Riso - Odete Costa Semedo - «No fundo do canto»
José Luís Almada - Exílio
O "Chão de Papel" de Maria Estela Guedes
Adelto Gonçalves = Poesia que brota de Bissau
Ana Haddad = «Chão de Papel»: Estrelas de uma memória ressignificada
Maria Estela Guedes = Notas da direção: Guiné-Bissau (2) - Exotismo e endotismo na literatura pós-independência

***

PORTUGAL

João Silva de Sousa - Sintra e Torres Vedras: vilas privilegiadas no século XV
Manuel Almeida e Sousa - Poemas de um Verão quente
José do Carmo Francisco - 15 Poemas do Sol e da Cal – Uma Leitura
Flávia de Almeida Fernandes - Armando de Almeida Fernandes: O investigador em família
Maria Morbey Henriques - O autocarro
António Justo - Curar é Santificar
Luís Reis - A Invenção da Escrita – Um Novo Rumo para a Humanidade
João Rasteiro - "No ano da morte de José Saramago" e "Poema verde"
Joaquim Simões - Seis canções
Luís Estrela de Matos - Triste fim de um jovem poeta
José Pinto Casquilho - Esteios da lusofonia - O culto do Espírito Santo
Especial Nicolau Saião = Nos vinte anos de «Os objectos inquietantes»
Uma peça de teatro em edição integral: «Aldeia das cavernas», de Graciete Nobre

***

AMÉRICA
Fernando Sorrentino - Existe um homem que tem o costume de me bater com um guarda-chuva na cabeça
Belvedere Bruno - Pássaros, ondas e flores
Ana Romano - Descartable y otros poemas
Rodrigo Novaes de Almeida - Rahakanariwa

***

Há novidades em
http://www.triplov.com/

e no blog do Triplov, em:
http://triplov.com/triplo2/

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Odete Semedo: Língua Esvoaçante

Artigo publicado em http://djambadon.blogspot.com/2006_03_01_archive.html

Língua esvoaçante
Odete Semedo*

A língua nasceu solta e desenvolta. Nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silêncio, próprio da caverna onde livremente se encontra enclausurada. A língua serve-se dos olhos, de tudo ao seu alcance e fora dele para, sem papas, testemunhar a nossa relação com a vida. A língua é assim aquela coisa que nos permite, dentro do nosso silêncio, dizer tudo sem nada ter dito. Pois em língua e só nela carpimos os nossos mortos, contamos as nossas histórias e estórias, cantamos as nossas noivas quando rumo à casa do futuro marido deixa para trás a casa que a viu nascer e crescer. E só a língua permite a cada um dizer tudo, menos aquilo que se pensa, num jogo social em que cada um, munido do disfarce que julgar ideal, vai passando pelos círculos que a teia tece.

A língua, essa coisa esguia, nem sempre severa, guiada pela mente, vestida de uma mão ou, por vezes, de apenas três dedos - que podem ser de conversa -, vai dando largas às fantasias e aos sonhos.

A língua, na sua fantasia, tem vestidos: vestidos requintados e com enfeites de lantejoulas; vestidos com contornos de emoção, roupa de mendigo com remendos - mas nada para botar defeito; vestidos com bordados e afrontas que para muitos são heranças que os séculos lhe foram juntando num pé-de-meia. E com todos estes vestidos chega a bifurcar-se em língua do coração, do sentir, da alma e língua de contacto com o resto do mundo. Mas como a dificuldade é um mal dividido pelas aldeias, as línguas não são excepções à regra, lá têm elas o seu estilo de cooperação: a língua de viagens, a do contacto, acaba pedindo emprestadas as roupas de emoção da língua do sentimento; esta por sua vez vai deixando que a língua do sentimento faça uso de suas letras - com a permissão alfabetizada, é claro, de quem dita as regras do jogo.

Apesar de ter nascido solta e desenvolta, livre, ainda há quem pense ser dela o dono policiando no escuro a língua, não vá um mal-intencionado beliscar um acento ou acrescentar uma abertura em lugar incerto ou, ainda, quem sabe?, virgular o que deve ser pontofinalizado. Mas a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado; o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha.

Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?

Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?

Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?

Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século

Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem

Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo

Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século

Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem

Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo

E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos

E, assim, as mensagens vão passando porque a língua também vai permitindo, assumindo-se como portador de mensagens, voando nos ecos dos que ainda podem gritar pela liberdade, deslizando nas lágrimas invisíveis dos que apenas com seus olhares denunciam a pobreza extrema.


* Maria Odete da Costa Semedo nasceu em Bissau a 7 de Novembro de 1959. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Fundadora da "Revista de Letras, Artes e Cultura Tcholona". Publicou um livro de poemas "Entre o Ser e o Amar", em Bissau (1996). É actualmente investigadora, na capital guineense, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, para as áreas de Educação e Formação.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Odete Semedo: o desassossego do ser

Nas literaturas africanas de língua portuguesa a participação da mulher como voz criadora é discreta se compararmos à produção realizada pelos homens. Embora a mulher, especificamente a negra, tenha sido cantada e exaltada desde as primeiras manifestações literárias com Cordeiro da Mata e Caetano da Costa Alegre, por exemplo, a voz feminina propriamente dita somente viria a surgir já em meados do século XX com a são-tomense Alda Espírito Santo e a moçambicana Noémia de Sousa. Estas duas poetisas demonstraram em seus poemas as adversidades vivenciadas pelas mulheres dos seus países, as agressões do sistema colonial, o drama dos maridos contratados, a miséria e a dor encaradas com os ‘olhos secos’, prova de resistência a um quadro desigual.

A partir do pós-independência desses países as mulheres foram gradativamente conquistando seu espaço, aumentando a sua participação, diversificando e enriquecendo o corpo das referidas literaturas. Hoje, temos nomes respeitados como Paulina Chiziane e Livia Momplé em Moçambique, Ana Paula Tavares em Angola, Dina Salústio e Vera Duarte em Cabo Verde, e Odete Semedo em Guiné-Bissau. Esta última a motivadora deste texto.

Contudo, antes de comentarmos a poesia de Odete Semedo, vemos a necessidade em tecer breves considerações para compreendermos melhor a discreta atividade literária de Guiné-Bissau.

A literatura guineense surge tardiamente e em pouca quantidade em relação às outras colônias portuguesas – Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe – mas, como afirma Inocência Mata, há razões históricas e culturais para tal ausência, pois Guiné não recebia apoio financeiro da metrópole portuguesa, além da resistência ao colonialismo ter ocorrido até a segunda década do século XX, o que dificultou a instalação de uma elite colonial. Diante da dificuldade em estabilizar seus valores, o sistema educacional português foi implantado tardiamente.

Como era administrado por Cabo Verde, parte da elite em Guiné era formada por representantes do arquipélago, que era incentivada a se instalar no novo país para promover a miscigenação entre portugueses e guineenses. Em Guiné, assim como em Cabo Verde, o idioma oficial é o português, mas a língua falada no cotidiano é o kriol (crioulo). Língua esta que viria a ser fundamental na luta colonial a partir de 1963, como afirma Amílcar Cabral, fundador do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde):

"O português (língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua é senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros... A língua é um instrumento que o homem criou através do trabalho, da luta para comunicar com os outros (...) a nossa língua tem que ser o português. E isso é uma honra. É a única coisa que podemos agradecer ao tuga." (CUNHA, 1977, pp. 80-81)

Apesar de Inocência Mata apontar para as décadas de 20 e 30 como precursoras da literatura guineense, partiremos para as manifestações poéticas de Vasco Cabral e Amílcar Cabral a partir dos anos 50 e, com maior intensidade, após o início da guerra colonial, com a poesia de combate, que o corpus literário guineense começa timidamente a criar forma. No período supracitado, os temas giram em torno das desigualdades sociais, da valorização da terra e do cidadão local, numa poesia que apresentava termos em kriol e ritmo inspirado na tradição oral. Nesse quadro, são publicadas as primeiras antologias, motivadas pelos escassos recursos financeiros dos escritores, e poucos livros individuais, onde despontam nomes como Hélder Proença, Antonio Baticã Ferreira entre outros. As antologias configurar-se-ão importante espaço para a divulgação dos poetas já com o país independente, como Mantenhas para quem luta!, fundamental historicamente por registrar o primeiro momento literário de um novo país, sem nenhuma tradição nas letras. Desde então, a opção por poemas feitos em kriol afirma-se com mais intensidade.

Em seu primeiro livro de poesia, Entre o ser e o amar, Odete Costa Semedo explora o bilingüismo do seu país ao publicar os poemas em português e kriol, “de modo a proporcionar aos leitores um espaço de lazer, reflexão, crítica e encontro consigo mesmo”, segundo a poetisa. Todavia, ressalta, “nem todos os poemas são apresentados em duas versões, dado que uns foram escritos originalmente em kriol e outros em português. E a tradução fá-los-ia perder a autenticidade” (SEMEDO, 1996, p. 7).

Segundo a própria Semedo em artigo intitulado ‘Língua esvoaçada’, “existe uma língua franca falada por cerca de 70 por cento da população de todo o país, o crioulo de base portuguesa, e uma língua oficial utilizada na administração e no ensino, o português, dominado por cerca de 12 por cento da população guineense”. O relato da poetisa vai ao encontro do que Celso Cunha afirmou nos anos 1970 de que "o máximo a que pode aspirar a língua portuguesa em África, especialmente em Cabo Verde e Guiné Bissau: a de ser oficialmente o que ela sempre foi: não a língua transmitida, maternal, mas a língua adquirida, a segunda língua, veicular da administração, aprendida na escola e elo de ligação da elite cultural com um mundo maior." (CUNHA, 1977, p. 80) Essa situação imposta pelo colonizador é geradora de grandes transtornos, pois, segundo Albert Memmi, “munido apenas de sua língua o colonizado é um estrangeiro dentro do seu próprio país” (MEMMI, 1977, p. 97), que está obrigado a dominá-la para ter acesso ao poder.

Sabemos que toda a língua pode ser e é usada como instrumento de poder, ou pode ser fascista como afirma Roland Barthes: “a língua, como desempenho de toda a linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (BARTHES, 1977, p. 14). Para solucionar tal impasse, Barthes propõe que a língua seja trapaceada através da arte, pois somente esta conseguirá quebrar o fascismo da língua:

Só nos resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. (...) porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto. As forças de liberdade não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, (...) mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua. (BARTHES, 2004, pp. 16-17)

A questão da língua é tratada e pensada com rigor por Odete Semedo, que assume o caráter híbrido de sua formação cultural. Não é à toa que a primeira parte do livro se chama "Oscilações", um conjunto de poemas que tratam de indefinições, da “incerteza dos sonhos”, de quem, como versa, “Oscilo tristemente / Entre a sombra e a penumbra” (SEMEDO, 1996, p. 15). E o problema da língua é apresentado logo no primeiro poema do livro:

Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?

Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Falarei em crioulo!
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?

Ou terei que falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem

Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos
(SEMEDO, 1996, p. 11)

A opção do crioulo, ou kriol, como resistência e manifestação dos costumes do povo guineense é escancarada pela poetisa, além da preocupação em manter viva as tradições para as gerações futuras. A inquietação do ser começa na escolha da língua, que, ao mesmo tempo, une e segrega. Aceita a língua portuguesa, porém não desmerece a cultura da sua terra, as histórias e os homens do seu chão.

Poesia que trata das irrealizações do pós-independência, a distopia por causa dos ideais não atingidos, das incertezas dos caminhos trilhados por um país em formação:

“(...) Entre sonhos e utopias
Oscilo na miragem do macaréu
Que balança e engoda
O meu tormento

Entre o constante querer
E a incerteza dos sonhos
Da natureza morna... oscilo (...)”
(Ibidem, p. 15)

São incertezas, inquietações próprias da existência que empurram o eu-lírico para a metalinguagem:

“Queria ser poeta
Ser humilde
Ser...
Tocar-me
Sentir-me envolta
Num manto de desassossego
E assim entender o ser (...)”
(Ibidem, p. 17)

O poema reforça o vínculo do eu-lírico com a terra a que pertence, de uma identidade fraturada por séculos de ação repressora oriunda do sistema colonial, que sofre com as adversidades do tempo presente:

“Sou parte desta natureza
Tão gasta
Desta face da terra
Tão frágil e vasta
Sou o rio que corre
Tropeçando em pedras e vales
Para chegar ao seu destino
Não sou mulher nem homem
Sou apenas mais uma desta geração
Não sou homem nem mulher
Apenas um pedaço deste chão”
(Ibidem, p. 31)

A instabilidade política guineense é sentida nos versos, situação que teria suas conseqüências no conflito armado de 1998/1999. A violência, a miséria e a dor de um povo que passa a possuir “olhos-que-já-não-acreditam”. O surrealismo da situação guineense inverte o ditado de São Thomé, o “ver para crer”:

“Meus olhos
Ilhas sem nome
Maré alta a transbordar no oceano
Ondas salgadas
Que insuportam o acordar
Vazias de vida
Meus olhos
Olhos sem nome
Precipitam e atentam
Contra o impávido
Meus olhos, nossos olhos
Ilhas sem nome
Aprisionados pelas mãos, pelos dedos
Soltam raios
Reconhecem outros olhos
E inacreditam esqueletos ousados
Abandonados pela carne
Espreitando
Meus olhos
Nossos olhos, todos os olhos
Ilhas sem nome
Ganharam um nome
Passaram a ser
Olhos-que-já-não-acreditam”
(Ibidem, p. 63)

As contradições da vida são mostradas no vazio da distopia “da incerteza de um sonho indefinido”. Tristes são os versos, tristes são os olhos a buscar os sonhos esgarçados de uma existência dilacerada:

“Teus olhos...
Tristes e perdidos
Quase inocentes
Olhos tristes
Olhar longínquo
Não da dor do amor perdido
Mas da incerteza
De um sonho indefinido
Teus olhos
Perdidos no horizonte
Espelham a dor
De um sonho incerto
Teus olhos... tristes
Quase inocentes
Buscam a razão
Do incerto”
(Ibidem, p. 75)

Entretanto, a poesia de Odete Costa Semedo não restringe-se apenas às dores da vida e às reflexões metafísicas, o desejo de ser mulher, a voz feminina do eu-lírico canta para o ser amado a vontade de protagonizar seus sentimentos:

“Quero ser a heroína
Do conto que inventares
Que firme segue o seu destino
Quero ser uma mortal
Guiada pelo teu poder
E pela tua voz
(...)
Quero ser a deusa lua no teu conto
Acompanhar as crianças
Nas suas fantasias
E no sonho seguir os seus desígnios

Quero ser a heroína do teu conto
Ou apenas um verso do teu canto”
(Ibidem, p. 45)

“No desassossego do ser”, metapoeticamente, Odete Semedo tece versos que procuram a ruptura com um passado de sofrimento e angústia em uma “vida sem gosto”, e evoca a criança despersonalizada, ou o próprio eu-lírico, a caminhar na “aventura de palavras” em busca da esperança na “magia da poesia”. E, assim, redescobrir valores como amor, solidariedade e bondade:

“Vem comigo
Criança sem rosto
Segue-se nesta cantiga
E esquece a vida sem gosto

Vem criança
Amiga de ninguém
Dá-me a tua mão
E descobre comigo
A voz da esperança

Dá-me a tua mão, menino
Criança sem rosto
E caminha comigo
Nesta aventura de palavras
E vamos descobrir
Juntos
O enredo do pão
O encanto do amor
A suavidade do carinho
E as peripécias da paixão

Vem criança sem rosto
E sem rumo
Viajar comigo
Na magia da poesia
E vamos juntos
Descobrir um rosto
E a mão amiga”
(Ibidem, p. 49)

Constatamos que é cantando a esperança, apresentando as inquietações de sua geração e denunciando a insensibilidade de um mundo de injustiças sociais que Odete Costa Semedo contribuiu e contribui com valores humanistas para a construção de uma literatura e identidade guineenses, consolidando-se como uma das destacadas vozes femininas dos países africanos de língua portuguesa.

“Flor sem nome
Em chão árido e seco
No deserto envolvente
Um fundo verde
De esperança longínqua...
Eu sou essa flor (...)”
(Ibidem, p. 33)

Riso


OUTRAS POESIAS

SILHUETA DA DESVENTURA
Sou a sombra dum corpo que não existe
Sou o choro desesperado
Sou o eco de um grito articulado
Numa garganta sem forças
Sou um ponto no infinito
Silhueta da desventura

Perdida neste espaço
Vagueando... finjo existir
Insistem chamar-me criança
E eu insisto ser
A esperança do incerto

O meu tantã é de outros tempos
A melodia que oiço
É o crepitar de chamas
Confundindo-se com o roncar da fome
E o chão onde piso
É uma ilha de fogo

A minha nuvem é a fumaça
Da bala disparada
Gotas salgadas orvalham
O meu pequeno rosto
Enquanto choro
Na esperança do incerto (Ibidem, p. 27)


EU E A POESIA
Eu e a poesia
A confissão
O prazer
O gosto de dizer
Sem reprimir
O prazer de dar
O que se quer
A viagem segura
Num mundo incerto
A magia do som
Da música, do ritmo
O prazer da viagem
A visão da natureza
Pura ou não
A Providência sempre
Ou nunca presente
Poesia amor
Construção
Fuga e reencontro (Ibidem, p. 53)


VOZ
Olhos que falam por mim
Com voz de benjamim
Mãos de gestos seguros
Perturbando a insegurança
Da mente
Do espírito
E da alma desventurada
Pés que caminham
A passos largos
Desafiando o tempo
Caminhando...
A passos largos e firmes
Olhos
Mãos
Pés
Olhos meus
Sonhos teus
Que firmes
Descompassam
E fogem à desventura
Olhos, pés, mãos
Mãos e olhos
Num conjunto seguro
Insurgem
No desassossego do ser (Ibidem, p. 77)


ÑA ROSTU
Ña rostu bida lagua
Iagu di mare mansu
Na buska kamiñu di bom turpesa

Salus terbesan garganti
Ña pitu intchi dur
Fala ka pudi tustumuña pa mi

Iagu di mare mansu ku bida makare
Spidju di kasabi
Tustumuñu di ña flema
Tadja pa mi
Dja ku ña fala falsian (Ibidem, p. 100)


DJON GAGU
Sintidu ramangam
Korson n djutim
N pirdi susego
Ña sonu bua na bentu
Es i ke nubdadi?

N karga djon gago
Di dufuntu ku n ka n terá
N na iari iari
Sol fitcha pa mi

Ña blaña bida
Lala di ñara sikidu
Nin pa mermeri
Boka ka ten (Ibidem, p. 102)


NÃO DISSE NADA
Falei da língua
Da míngua
Da letra
(So)letrei a minha nostalgia
Lendo pasmado
Nos olhos desmesurados
O infinito (Ibidem, p. 107)


Bibliografia:
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 12ª edição, 2004.

CUNHA, Celso. Língua, nação, alienação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

MATA, Inocência. A literatura de Guiné-Bissau. In: LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

SEMEDO, Odete Costa. Entre o ser e o amar. Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.


SEMEDO, Odete Costa. Língua esvoaçante. Acessado em 22/10/2007 In: http://djambadon.blogspot.com/2006_03_01_archive.html