Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
sábado, 31 de março de 2012
Maus poetas ou a iluminação sapiente da palavra-lâmina hodierna
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Ondjaki - Há prendisajens com o xão (livro)
do chão promovido a almofada, do nosso limite a ele, do nosso encontro sob ele em algum tempo desconhecido, ondjaki nos transporta para um diálogo com o tempo, com a palavra, com a liberdade da escrita, com a imaginação de seres misteriosos. descrições de uma natureza em brisa de jangada e zunzum de abelha. e há também o encontro do sentimento com os seres que somos. os lugares e as descoisas.mais conhecido como prosador aqui no Brasil, dessa vez o autor nos oferece sua escrita em poesia construindo (ou desconstruindo) com muita intimidade cada palavra, cada verso, à sombra das árvores, pela alma das gaivotas, perto de um cardume de tardes. ou do chão
Pallas Editora
Páginas: 72
ISBN: 978-85-347-0464-9
Idioma: Português
Formato: 13,0x18,0cm
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Ha_prendisajens_com_o_xao/216/13/
domingo, 21 de agosto de 2011
Pepetela e Ondjaki na UFRJ - 05/09/2011
E-mail gentilmente enviado pela Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco em 21/08/2011.
sábado, 2 de outubro de 2010
I Encontro de Literatura e de Estudos Multiculturais - 14 e 16/10/2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Ondjaki - Avódezanove e o segredo do soviético - Prêmio Jabuti 2010 (Juvenil)
Parabéns ao angolano Ondjaki pelo Prêmio Jabuti - categoria Juvenil para o seu Avódezanove e o segredo do soviético (Cia. das Letras).
Ricardo Riso
sábado, 11 de setembro de 2010
Ondjaki - e se amanhã o medo (lançamento livro RJ)
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Ondjaki - Quantas madrugadas tem a noite (livro)
domingo, 29 de novembro de 2009
Nelson Saúte e Ondjaki - crônicas no PNETLiteratura
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Ondjaki e Léonora Miana - Prosa nas Livrarias
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Ondjaki - O Leão e o Coelho Saltitão (lançamento Travessa, Rio de Janeiro)
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Ondjaki na FLIP 2009

Fonte: e-mail enviado em 1 de julho de 2009, às 18:09, por Carolina Casarin, da Editora Língua Geral. Rua Jardim Botânico, 600/ 502 - Rio de Janeiro - RJ22461-000tel.: (21) 2279-6184 (21) 9398-8649
www.linguageral.com.br
domingo, 21 de junho de 2009
Ondjaki - Avódezanove e o segredo soviético (lançamento do livro - RJ)

quinta-feira, 18 de junho de 2009
Ondjaki - Avódezanove e o Segredo do Soviético (livro)
A PraiaDoBispo é um bairro tranquilo de Luanda: o VelhoPescador cuida de sua rede, o VendedorDeGasolina espera um cliente que nunca chega, AvóAgnette e AvóCatarina conversam com a vizinha e ralham com os miúdos. As obras de um mausoléu, porém, transformam e ameaçam o cotidiano: soldados soviéticos comandam a construção, e o projeto ameaça desalojar os moradores.As crianças da PraiaDoBispo assistem a tudo com seus olhos inocentes mas agudos, e divertem-se com as brincadeiras de rua e a extravagância dos estrangeiros. Elas desconfiam que os “lagostas azuis”, como chamam os soviéticos, tramam algo confidencial. Mas o segredo do soviético pode ter a ver com outras coisas: a enorme quantidade de sal grosso encontrada no depósito da construção, os pássaros de plumagens coloridas presos em gaiolas ou a dinamite nos barracões das obras.
AvóDezanove e o segredo do soviético é um romance que ultrapassa o horizonte histórico e biográfico para resultar num relato ficcional amparado na poesia da imaginação, no humor inocente da infância e na linguagem que combina o sabor da oralidade do português angolano ao talento narrativo de um jovem escritor africano.
Ondjaki
Companhia das Letras
192 páginas
R$ 36,00
http://www.companhiadasletras.com.br/
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Ondjaki - Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas (poesia)
...Segundo Paulinho Assunção (escritor brasileiro):«Você pode imaginar uma esquina do mundo onde Ondjaki encontra Manoel de Barros, Luandino Vieira, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Raduan Nassar. [...] Você também pode imaginar o que eu imagino ao ler este novo livro de Ondjaki. É um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las. E acho que o Ondjaki não tem medo de trazer para o seu livro os seus afetos todos literários. E faz bem o Ondjaki não ter medo disso porque é uma coisa muito bocó a gente esconder os afetos e as dívidas e os tributos aos que, também, como Ondjaki, gostam e gostaram de apalpar a polpa da língua como quem apalpa o dorso de uma fruta.»
Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 88
Peso: 0 g Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2029-6
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 10,50 €
Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72478__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm
pequeno espanador de tristezas “[a derradeira confissão?]”
há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.
se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.
às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].
sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...
«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.
quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.
há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].
às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].
foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.
se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.
as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.
seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.
há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.
vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...
uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.
Fonte: http://www.kazukuta.com/LIVROS/espanador_de_tristezas.html
terça-feira, 28 de outubro de 2008
UFRJ - Pepetela, Ondjaki, João Melo e Kiki Lima
LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
PEPETELA & ONDJAKI
17 de novembro de 2008, no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado
LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
poeta e escritor angolano JOÃO MELO lança no Brasil o livro FILHOS DA PÁTRIA
28 de novembro de 2008, às 11h no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado
ATENÇÃO!!!!
A palestra do pintor Kiki Lima foi cancelada.
Esta informação foi passada pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco em e-mail do dia 30 de outubro, às 19h06.
LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
KIKI LIMA, grande pintor de Cabo Verde
1 de dezembro de 2008 – às 9h, na sala D220
Faculdade de Letras da UFRJ
*E-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco, em 27 de outubro de 2008, às 16h37.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Pepetela e Ondjaki na UFRJ
com os escritores angolanos
PEPETELA
e
ONDJAKI
17 de novembro, às 9h, Aud. G-1
Faculdade de Letras da UFRJ
Apoio Setor Cultural – F. Letras-UFRJ
*E-mail gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco no dia 25 de outubro de 2008, às 11h14.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Ondjaki - Bom dia camaradas (excerto)
Neste pequeno excerto de Bom dia camaradas, deparamo-nos com o lirismo característico das suas narrativas. O retorno às recordações da infância é tecido com leveza e simplicidade nas observações da criança. Encontramos a presença da oralidade subvertendo a sintaxe da língua portuguesa (influência de Luandino Vieira); uso corrente de termos de um governo de vertente socialista; as condições miseráveis que boa parte da população era obrigada a viver, demonstrando que as promessas da revolução para a construção de um novo país não foram cumpridas; a escola no cotidiano dos então pioneiros; e a presença do elemental água, representado pela chuva. Chuva e sonho... Chuva como elemento fecundador da terra a germinar uma nova vida, um novo país. A evasão do artista ao tentar visualizar uma outra realidade diante do caos, das incertezas e frustrações do cotidiano angolano dos anos 1980.
Ricardo Riso
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Depois do almoço fui deitar-me naquela cadeira verde, comprida, lá no quintal. Estava a ventar um bocado, o que era bom, porque assim eu podia adormecer rápido, com o barulho das folhas do abacateiro a chocalharem.
Nos dias em que o céu não estava tão escuro, eu gostava de imitar as lesmas do meu jardim, e deitar-me ali mesmo ao sol. Lá na cozinha, o camarada António fazia barulho com os pratos e com os copos, ele sempre demorava muito tempo a lavar a loiça. Esse barulho é que acostumava me adormecer. “Menino, acorda então... Faz mal ficar com a cabeça ao sol... Depois a mãe vai ralhar com o menino...”, ele gostava de dizer. “Mas já passou quanto tempo, António?... Ainda nem adormeci um bocadinho...”, eu queria refilar. “Ê menino!, passou mais de vinte minuto...”
Acordei com os pingos da chuva a me bombardearem as pernas e as bochechas. De repente, começou a cair uma carga d’água daquelas valentes. Fui pra baixo do telheiro e fiquei a ver a água cair. Lembrei-me imediatamente do Murtala: na casa dele, quando chove, só podem dormir sete de cada vez, os outros cinco esperam todos encostados na parede onde há um tectozinho que lhes protege. Depois é a vez dos outros dormirem, assim mesmo, juro, sete de cada vez. Sempre que chove de noite, o Murtala, no dia seguinte, dorme nos três primeiros tempos.
Ao ver aquela tanta água, lembrei-me das redacções que fazíamos sobre a chuva, o solo, a importância da água. Uma camarada professora que tinha a mania que era poeta dizia que a água é que traz todo aquele cheiro que a terra cheira depois de chover, a água é que faz crescer novas coisas na terra, embora também alimente as raízes dela, a água faz “eclodir um novo ciclo”, enfim, ela queria dizer que a água faz o chão dar folhas novas. Então pensei: “Epá... E se chovesse aqui em Angola toda...?” Depois sorri. Sorri só.
Ondjaki. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006. p. 136-137.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Ondjaki - novo livro + entrevista
por Luís Ricardo Duarte - 21 Mai 2008
http://clix.visao.pt/EdicoesJL/Pages/Infanciarevisitada.aspx
Não é daqueles que olha para o passado com saudosismo ou com a mágoa de um tempo irremediavelmente perdido. Interessa-lhe, antes, a celebração de uma época que as memórias vão refazendo. Para Ondjaki «regressar à infância é também estar com uma gente que não existe, incluindo nós mesmos». O seu novo romance, AvóDezanove e o Segredo do Soviético, volta a esse universo «bonito» e «mágico» que já tinha surpreendido os leitores em Bom Dia Camaradas, Momentos de Aqui ou Os da Minha Rua. Na mesma PraiaDoBispo em que brincou na infância, um mistério vai sendo descoberto e ao mesmo tempo urdido pelas crianças do bairro. E entre evocações e aventuras, o escritor desfia uma extraordinária galeria de personagens, como AvóDezanove, AvóCatarina, VendedorDeGasolina, EspumaDoMar, CamaradaBotardov, VelhoPescador, SenhorTuares, RafaelTruzTruz ou os amigos do narrador, 3,14 e Charlita.
Nascido em 1977, Ondjaki é hoje um dos principais nomes da Literatura Angolana. O seu primeiro livro é de 2000 e, desde então, tem vindo a publicar a um ritmo regular, tanto romance, como poesia, contos e teatro. A par do lançamento de AvóDezanove e o Segredo do Soviético (ver caixa), a Caminho vai reeditar quatro obras suas, um sinal do seu sucesso junto dos leitores, também confirmado pelas inúmeras traduções que o levam a vários pontos do mundo: Espanha, Itália, Uruguai, Suíça, Inglaterra, Canadá, México e futuramente à China (Macau). «São dados a ter em conta, sobretudo para alertar e progredir», dirá Ondjaki nesta entrevista. Mas também «armadilhas para o ego. Cabe ao escritor estar atento e voltar a descobrir sempre o seu caminho». E só o conduz um objectivo: «Ir sonhando e escrevendo enquanto fizer sentido.»
Jornal de Letras: AvóDezanove e o Segredo do Soviético é povoado de memórias de infância, como Bom Dia Camaradas ou Os da minha rua. Esse é o seu território literário de eleição?
Ondjaki: Não necessariamente... Trata-se de mundos semelhantes, os desses três livros, com espaços reais e literários que se complementam. Como ainda virão livros que vão complementar o Quantas Madrugadas Tem a Noite. Mas a infância tem sido uma forte fonte de inspiração.
Como foi a sua infância?
Devo começar por dizer que foi bonita. E que foi vivida e alimentada sempre por muitas pessoas: os da minha rua, os da minha casa, também a casa da Avó e da Tia Rosa. E muitos deles povoam agora os meus livros com uma ternura que eu quero ver transformada em literatura. E essa infância de «todos nós», aconteceu em Luanda, nos anos 80. Diferente, portanto, do que terá sido a infância de outras crianças no Huambo, Kuíto ou Luena.
Qual a memória mais antiga que guarda?
Não saberia especificar... Deve ter a ver com a minha casa, os meus pais, obviamente, as brincadeiras no mar, mas tudo isso já deriva das chamadas «memórias inventadas» que se vão refazendo com as fotos que vemos e as estórias que ouvimos. A memória é, em si, uma armadilha constante, criativa, bela e traiçoeira. O futuro é também esse processo de sabermos lidar com o presente inventando o passado que se escolhe querer lembrar.
A PraiaDoBispo, cenário deste romance, está presente em muitas dessas recordações?
Era o bairro onde vivia a minha Avó Agnette (conhecida literariamente por AvóDezanove), essa que surge em tantos contos, em tantas estórias, e que está presente mesmo quando não surge explicitamente. Também brinquei muito nesse bairro, passei lá muitas tardes, alguns fins-de-semana, algumas férias. Era outro dos «meus» bairros. E era, sim, um bairro cheio de personagens, como o maluco, os soviéticos, a DonaLibânia, o senhor Tuarles, a própria poeira...
A escrita nasceu da vontade de recordar essa infância, de reencontrar o tempo perdido?
Penso que a escrita tem de ser sobretudo literária. Contar estórias, transmitir sonhos, exercer algumas necessidades artísticas e estéticas. Se a vida real serve para alimentar a literatura, pois muito bem, esse é um dos caminhos. Não quero reencontrar o tempo perdido, apenas quero celebrá-lo, intimamente, ou através do que vai virando literatura. Regressar à infância é também estar com uma gente que não existe, incluindo nós mesmos.
À laia de arte poética, afirma, numa carta que dirige a Ana Paula Tavares, publicada no final do livro, que convoca «memórias distorcidas para inventar estórias»…
É quase isso, se a lucidez me permite essa análise... E se a análise está correcta. Inventar estórias é o que todos escritores fazem. Até os historiadores e sobretudo os políticos. Parece uma necessidade da condição humana. Tem a ver com um desejo poético de inscrever no tempo, tempos que não tinham sido falados com palavras de dizer ou de escrever. Além de as convocar, gosto de ser assaltado por memórias. Mantêm-me desperto, atento e trazem-me ao quotidiano uma certa magia.
Também há uma personagem do romance que diz: «O futuro está cheio de coisas difíceis a acontecerem de modo cada vez diferente. Gosto mais de adivinhar o passado». Esta fala poderia ser sua?
Não, esta fala é mesmo da AvóCatarina. É uma brincadeira poética também... É a minha imaginação julgando que pode saber o que a AvóCatarina terá dito em certas circunstâncias. E, finalmente, é talvez a imagem que retive da sabedoria da AvóCatarina, com quem na realidade passei pouco tempo. Muito do que sei dela já foi sendo inventado em criança ou em adulto. Julgo assim, quando escrevo e a cito, que ela me está a dizer coisas. Gosto dessa sensação de a ouvir para escrever.
O futuro de Angola
Escrever sobre o passado não é também escrever sobre o presente? Podemos ver em AvóDezanove e o Segredo do Soviético uma metáfora sobre a actualidade angolana?
Não quis que fosse, nem quero que seja essa metáfora. Mas cada um é livre de ler o livro do modo que o quiser receber... Mas o passado sempre prediz o futuro, e o presente é bem testemunha disso. O que quis foi contar uma estória «com» crianças. Não necessariamente «para» crianças. Continuo fascinado pelo modo inocente, cruel e sincero com que as crianças lidam com a vida. Todas as vidas: a privada, a social, a real e a imaginária. Esse potencial de efabulação do real, o tempo rouba-nos a cada minuto que passa. Gosto de escutar as crianças, mesmo aquelas que imagino.
Como vê Angola hoje em dia?
Vejo como um país do qual não se pode falar sem o inserir num contexto histórico e social que é muito antigo. Por isso causam-me arrepios algumas análises precipitadas, superficiais e, às vezes, mal intencionadas que se fazem sobre Angola. Não existem fórmulas simples para explicar um país ou um continente. E África muitas vezes é vítima dessa simplificação. Cabe a todos mudarmos isso aos poucos. Angola sai de um período (para só falar do que é mais recente) muito conturbado e todas as adaptações serão difíceis e levarão tempo. A pressão social e cívica é cada vez mais forte e isso só pode ser bom. Mas há um caminho a ser percorrido. Há muita coisa a ser corrigida, aperfeiçoada, alterada, mas é sem dúvida um país com um potencial humano muito forte. Teremos que privilegiar obviamente os sectores da Educação e da Saúde, para vermos o país crescer de modo correcto. Mas há toda uma nova geração com vontade de trabalhar e altas expectativas em relação ao futuro. Há dias perguntaram-me se eu fazia parte de uma geração desencantada. Pelo contrário, acho que somos uma geração capaz, empenhada e sonhadora.
Agostinho Neto, para quem se constrói o mausoléu que existe hoje em Luanda, acaba por ser uma das personagens do seu livro, embora sempre ausente. Como acompanhou a polémica em torno da sua poesia, desencadeada por uma entrevista de José Eduardo Agualusa?
Acompanhei com naturalidade, discordo da opinião do Agualusa no que toca à poesia de Agostinho Neto. E eu aqui refiro-me mesmo ao poeta. Pessoalmente, nunca apelidaria a poesia de Neto de medíocre. Mas o Agualusa tem a sua opinião, como cada um terá a sua. Agora, é evidentemente delicado dizer-se certas coisas sobre personalidades de carisma nacional tão elevado. Eu li a poesia de Neto ainda em miúdo e depois já em adulto, em ambas ocasiões fiquei emocionado e reconheço nela uma carga poética muito forte, que tanto descreve quanto emociona. Foi um homem ocupado, viajado, sofrido, não pode ser visto unicamente como poeta. E em Angola ele não é visto apenas como um poeta, daí talvez a polémica. Mas gostaria de esclarecer que o camarada Agostinho Neto não entra como personagem no meu livro, apenas se encontram referências ao Mausoléu.
Interessa-lhe uma literatura politicamente empenhada?
Interessa-me uma literatura literariamente empenhada. A que parte do sonho, dos conteúdos literários que o escritor escolhe e nos quais crê. Isso, de um modo bem feito, há-de ser político, no sentido que a arte é quase sempre interventiva. Mas o ponto de partida do artista deve ser o que ele escolher. E o de chegada também. As minhas motivações usualmente são literárias.
Na última entrevista ao JL disse que escrevia «num formato imbuído de energias positivas». Em que sentido?
É talvez uma questão pessoal, mas que eu gostaria que fosse geracional. Quero reagir positivamente a todas as dificuldades, a todos os desafios. É uma das coisas que persigo na cultura angolana, a força cultural positiva, o riso como opção primeira às dificuldades. E a acção social que permita e que traga mudanças. Mas há coisas que não se explicam. Com a excepção de alguma poesia, normalmente os meus livros aparecem-me imbuídos dessas energias positivas. Ainda bem. Nem sempre é isso que vai cá dentro.
A reinvenção da escrita
Ou seja, contagiar o leitor positivamente, mesmo quando o assunto é duro, negativo?
Talvez, mais do que o leitor, contagiar o mundo a ser mais positivo. Perseguir as coisas boas, as simples. Apontar para os outros, para as sociedades que precisam do nosso labor tanto criativo quanto político ou social.
É isso que explica uma certa reinvenção da escrita e da oralidade?
Não. Isso é percurso, necessidade, vontade. Tento adequar o que quero dizer ao formato que melhor me serve. Assim a escrita flui de modo natural. A reinvenção da escrita é um percurso, um chamamento, não é um plano literário.
Mia Couto, na última edição das Correntes d’Escritas, falava na necessidade de moldar a escrita à realidade, como um lençol que se ajusta ao corpo…
Sim, um ajuste que faça sentido para a escrita e para o sonhos de cada um. O diálogo é permanente entre a realidade e a escrita. A permeabilidade é real, a troca é recíproca. É só estar perto, captar ou inventar que se captou, vai dar a lugares parecidos.
A paisagem africana – com as suas cores, cheiros, idiossincrasias – exige uma semântica diferente?
Penso que não. Há cores e cheiros em todos os continentes, e mesmo África é um continente cheio de lugares diversos entre si. A semântica e os outros aspectos da escrita devem ter a ver com o modo de cada um sonhar o que depois quer escrever.
É possível falar numa língua angolana, como defende uma personagem de AvóDezanove e o Segredo do Soviético?
Isso caberá a outros dizer... Talvez já, em alguns livros nossos, se reconheça imediatamente a sua proveniência. Mas o que seria a identidade da língua angolana? Só se for algo diversificado e englobante de tantas tendências. Angola não é só uma nação em Língua Portuguesa, como usualmente se pensa. Isso é coisa da cidade, e pensamento de caluanda [natural de Luanda]. Há outras línguas e linguagens que, felizmente, ainda existem. A identidade da língua angolana ganhará muito se não nos esquecermos de todas as culturas e todas as línguas que fazem parte da nação cultural angolana.
Vida de escritor
A sua obra tem oscilado entre a poesia, o conto, a novela e o romance. O que determina a opção por cada género? Responde a necessidades diferentes?
Sim, necessidades, momentos, projectos. São modos distintos de contar e de dizer. Também é preciso não esquecer, como diria Ruy Duarte de Carvalho, que o escritor é «um arquitecto do simbólico», um animal de buscas também instintivas. Uma jangada é feita de muitas madeiras e cordas...
E para onde ruma a sua jangada?
Nem sei ainda... Quando se tem como referência o instinto criativo e uma abertura estética bem arejada, o futuro é sempre uma porta aberta. Ou uma janela por abrir. Desejo um percurso honesto e tranquilo, com intensidade literária mas com responsabilidade também. Enfim, como na vida, nada será gratuito. Há muito trabalho pela frente.
Foi deliberado a sua estreia literária ter sido pela porta da Poesia, com Actu Sanguíneu, em 2000?
Não, foi apenas uma casualidade. Eu já havia escrito Momentos de Aqui, mas Actu Sanguíneu acabou por ser publicado primeiro, na sequência de uma menção honrosa. Continuo a escrever poesia, mas não a publico.
Porquê?
Por motivos que a vida determina, por ritmos que o destino inventa. Amanhã tudo poderá mudar.
Com AvóDezanove e o Segredo do Soviético, vão ser também reeditados quatro livros seus (Momentos de aqui, Há prendisajens com o xão, Quantas madrugadas tem a noite, E se amanhã o medo). Para um jovem autor, são dados impressionantes…
São dados a ter em conta, sobretudo para alertar e progredir. São armadilhas para o ego. Cabe ao escritor estar atento e voltar a descobrir sempre o seu caminho.
O que se pode esperar dos livros que vão complementar o Quantas Madrugadas Tem a Noite?
Eu espero conseguir escrevê-los. Já sonho com eles há alguns anos. Já existia essa relação com o Quantas Madrugadas... quando o escrevi. Em princípio faltam dois. Dialogam um pouco, dão visões do mesmo lugar: Luanda, a cidade que não consegue dormir. A cidade bonita com as suas cicatrizes. A cidade do caos e do futuro. A cidade da poesia e da ternura...
Considera-se um escritor profissional?
Não me quero considerar nada. Só ir sonhando e escrevendo enquanto fizer sentido. Também o tempo tem os seus ensinamentos e a sua sabedoria. Há que saber escutar.
Tem viajado muito. Como é essa vida de escritor?
Às vezes é cansativo. Mas faz parte da modernidade, da tal globalização. É bom para a divulgação dos livros e da língua, mas não sei se é tão importante essa divulgação... O que as viagens têm de muito bom é o aprendizado que delas se retira. Os outros mundos, as outras culturas, os outros olhares poéticos sobre as mesmas coisas. Viajar sem dúvida diminui os preconceitos acumulados. Isso costuma ser bom.
Viajar é importante para a sua escrita ou são ossos do ofício?
Para os meus processos internos de reflexão, sim, viajar é importante. Isso mais tarde afectará a escrita, não tenho dúvidas.
Equaciona a hipótese de situar um romance noutras latitudes?
Sim, se fizer sentido, se fizer parte das minhas necessidades literárias, não vejo mal nenhum. Já escrevi uma peça de teatro (Os vivos, o morto e o peixe-frito) que o Teatro Nacional D. Maria II teve a pressa de anunciar mas logo de seguida cometeu a indelicadeza de abandonar. Esse texto retrata precisamente a vida social e privada de alguns africanos em Lisboa. Fala dos dinamismos de convívio e do confronto de culturas. É até possível que esse projecto venha a aparecer em livro num futuro próximo.
Literatura sem fronteiras
Nos seus livros encontramos muitas epígrafes de autores brasileiros, como agora em AvóDezanove e o Segredo do Soviético, com Clarice Lispector. A Literatura Brasileira é uma referência para si?
No fundo, diria que sim. Embora as outras não deixem de ser. Acho que ainda ando muito mergulhado na fascinante temperatura da literatura latino americana. Clarice é para se ir lendo, Guimarães Rosa também. São pesadelos deliciosos que nunca terminaremos. Mas Dostoiévski, Thomas Mann ou Ruy Duarte de Carvalho também são gigantes...
Sente-se mais próximo literariamente do Brasil do que de Portugal?
Sinto-me mais próximo de uma literatura que me faça vibrar, sonhar, pensar, sofrer, reinventar, reflectir, crescer. Não acredito muito na nacionalidade das literaturas. Creio em boas estórias, em bons livros.
E qual a sua relação com a Literatura Africana de Expressão Portuguesa?
É muito saudável, sempre foi, desde criança. Cresci lendo Joaquim Dias Cordeiro da Mata, Agostinho Neto, António Jacinto, Luís B. Honwana, Manuel Rui, Luandino, Pepetela. Mais tarde, alguns deles tornaram-se amigos, companheiros de viagem e de escrita. Tenho um carinho muito profundo pela nossa língua. Adoro essa frase do Mia Couto, «a minha pátria é a minha língua portuguesa». A língua portuguesa plural fica sempre mais bonita, parece um sonho esculpido com os modos e as cores do arco-íris. Deve ser uma língua feliz, a tal de Língua Portuguesa...
Mostra muitas reservas em relação ao Acordo Ortográfico e à própria ideia de CPLP. Porquê?
Apenas porque acho que deveríamos estar mais informados e que o tema deveria ser mais discutido. Sobretudo por instâncias próprias. No fundo, sou a favor de um acordo ortográfico que fizesse sentido, e que servisse a todos, não apenas a políticos e livreiros. A questão da CPLP é que acho que ninguém sabe muito bem qual é o seu intuito e sobretudo a sua função concreta. Vamos ser uma Comunidade de Língua Portuguesa (termo que prefiro à tal de «lusofonia»)? Então que o sejamos a sério, não apenas para encontros de hotel e abolição de vistos em passaportes diplomáticos. Vamos falar de circulação cultural, de línguas vivas, de gente humana que se quer conhecer e celebrar.
Realizou um documentário sobre Luanda e trabalhou no último filme de Tabajara Ruas. O que o atrai no cinema?
Atrai-me a linguagem, a possibilidade de contar estórias noutros formatos, de aliar à imagem a força da música. Não tenho muito mais tempo, mas hei-de voltar ao cinema. É um mundo difícil, árduo mas atraentemente mágico. E já ando com saudades do teatro também... Mas a vida é mais larga que comprida, como diria um amigo meu.
A Arte é a melhor forma de a percorrer?
É só uma das formas de atravessar a vida. Mas é uma expressão muito potente da nossa condição humana. Reflecte os nossos anseios e os nossos sonhos. Permite fixar em imagem, texto, música, etc., o que de subjectivo nos passa pela mente, o modo de sermos o mundo que vamos sendo ou inventando. Sem falar das potencialidades psicológicas e políticas da arte. A vida está espalhada por aí, a arte em geral faz lembrar uma bússola robusta e ao mesmo tempo delicada, que nos vai guiando pela escuridão brilhante. Ou, como diria o maluco EspumaDoMar, «o céu está cheio de brilhos apagados à espera que a gente humana sopre uma pontinha de luz». Os loucos são muito sabedores. Também as crianças. Também os mais-velhos.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Ondjaki, Rita Chaves e Tania Macedo
O universo literário e cultural de Angola
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=070409
Essa edição percorre o universo literário e cultural de Angola. Ele foi realizado na companhia de Rita Chaves e Tânia Macedo que organizaram, juntamente com Carmen Lucia Tindó Secco, a coletânea Brasil, África: como se o mar fosse mentira. Este livro foi publicado pela Editora UNESP em co-edição com a Edições Chá de Caxinde. Apoio cultural: Odebrecht.
Novos Ficcionistas: Brasil e África
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=071123
Nessa edição temos: Paulo Bloise autor do romance Sobre Humanos eHeloisa Prieto, coordenadora da coleção Primeira Pessoa, publicada pela Editora Moderna.
Antes, nas duas primeiras partes do programa, Ondjaki que escreveu o livro Bom Dia Camaradas. A crítica literária e professora da USP, Rita Chaves também participa dessa edição dialogando com o escritor angolano.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
ONDJAKI - O homem mais magro de Luanda.
– Não, pá. Foi o Chico que me deu um apertão.
Palavras do Vaz, dias depois do apertão.
Não me lembro bem se os toques eram diferentes ou não, mas o tio Chico sabia quem estava no portão pelo modo como a campainha tocava. As pessoas iam chegando.
– Ó Rosa, traz aí uns torresmos e o jindungo malandro.
Dois toques rápidos “é o Osório, vai abrir, Dalinho”, um toque suave tipo tímido “é o Mogofores, e vem com sede”, toque longo e palmas “é o Lima, ó Rosa dá aí um jeito”, a mesa enchia-se de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.
O tio Chico gostava de fazer obras no quintal, acho eu. Ao lado da enorme gaiola de rolas ele construiu dois quartos. Pensei que era quarto de gente, afinal era para guardar carne, peixe e o barril de cerveja que ficava lá dentro. Um quarto era tipo geleira, o outro era arca de congelar tudo.
Naquele tempo o tio Chico tinha um contacto para ir buscar barris de cerveja e podia haver maka se não houvesse aquela botija fininha de dar pressão aos finos. Ficava tudo dentro do quartinho-geleira. Cá fora havia a torneira da cerveja e um banquinho para eu chegar lá e poder encher os copos. Eu então gostava bué dessa minha missão de finos.
No quintal do tio Chico eu já não contava os finos, era perda de tempo. Depois do fino 77 as pessoas riam muito e já não havia quase torresmos no pires. Os olhos brilhavam mais e eu até já podia contar anedotas sem graça nenhuma que todos riam mesmo só à toa.
A campainha tocou. Só que o tio Chico não disse quem era. Olhei logo na direcção do portão, para saber se ia já a correr abrir. O Lima pousou o copo. O Mogofores parou de rir, ainda por cima arrotou sem pedir desculpa. O Osório puxou as calças para cima como sempre gostava de fazer mesmo que o cinto já estivesse perto do sovaco. A tia Rosa também esperou. A campainha tocou mais. Eu já só mexia os olhos.
– Vai lá ver – o tio Chico falou.
– O miúdo não vai sozinho – a tia Rosa agarrou-me no braço.
Os outros ficaram com cara de não-sei-quê. Era sempre assim, se houvesse uma pequena maka entre a tia Rosa e o tio Chico, todos paravam de beber. A tia Rosa levantou-se, fomos juntos. Era o Vaz.
O Vaz era um senhor muito alto, também camba do tio Chico, talvez o homem mais magro de Luanda.
– Boa noite, dona Rosa, o senhor Chico ta? – a tia abriu o portão para ele entrar.
No quintal já havia barulho de novo. Todos riram quando o Vaz entrou nessa maneira desajeitada de cumprimentar as pessoas.
– Ó meu sacana, então tu não sabes tocar a campainha como deve ser?
O Vaz não disse nada, cumprimentou todos e no fim aproximou-se com receio do tio Chico.
– Não me digas que tás outra vez com medo de me apertar a mão?
Não sei, eu era só uma crianças dessas a olhar os mais-velhos, mas muita gente não gostava assim muito de cumprimentar o tio Chico.
– Anda cá, meu sacana, andas a tocar a minha campainha com toques secretos, tu quase que entras pela racha do muro.
O Vaz, com medo, chegou perto do tio Chico. Quando foi abraçado, o tio Chico fez questão de lhe dar um apertozito. As costas do Vaz fizeram um ruído tipo estalido de porta enferrujada.
– Ó Dalinho, traz aí um fino bem tirado pra este sacana do Vaz.
Atravessei o quintal com o copo de vidro na mão, na direcção da torneira da cerveja pendurada na parede. Na cozinha aberta, cá fora, a tia Rosa, com o avental dela azul e bonito, com chinelas abertas e antigas, fritava mais torresmos e controlava o peixe grosso no forno. Durante muitos anos, para mim o mundo teve o cheiro daquele quintal maluco: as cervejas, as comidas e as mãos da tia Rosa a emprestrarem cheiros de cozinha aos meus cabelos despenteados.
De longe olhei o Vaz fazer caretas de dor. Tentava disfarçar, mas desconseguiu. Trouxe-lhe o fino bem gelado e ele bebeu tudo assim num gesto de matar a dor.
- Tavas cheio de sede, meu sacana.
Depois do jantar, as filhas do tio Chico já tinham ido dormir e a telenovela estava quase a acabar. Acordei com a voz do Sinhôzinho Malta a dizer “tou certo ou tou errado...?”, e o telefone tocou. O tio Chico atendeu. Primeiro ficou preocupado, depois riu devagarinho.
– Tá bem, tá bem, espero que corra tudo bem com esse sacana.
Eu e a tia Rosa também queríamos saber do caso. O tio andou devagar, de propósito, sentou-se.
– Ó Rosa, vai-me lá buscar um fino, filha – o tio Chico fechou as janelas da sala, recebeu o copo e bebeu de penalty. – À saúde do Vaz – ainda disse, enquanto ia para o quarto.
A tia Rosa apagou a luz da sala e fomos juntos para o quarto.
– O sacana do Vaz tá no hospital, tem duas costelas partidas.
Eu ainda queria perguntar se isso de costelas era o quê, mas já era tarde.
– Amanhã vamos lá ver o gajo, e tu podes mexer na manivela da cama, Dalinho.
O tio apagou o candeeiro, enquanto a tia Rosa fez-me uma festinha na bochecha e endireitou o lençol, como fazia sempre há tantos anos, para os mosquitos não me ferrarem nos braços e não me atrapalharem nos meus sonhos de falar durante a noite.
ONDJAKI. O homem mais magro de Luanda. In: Os da minha rua. Rio de Janeiro: Editora Língua Geral, 2007. pp. 53-57.









