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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pedro Matos – Midju di Fogu (resenha)


Pedro Matos – Midju di Fogu

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 204, p. 21, de 28/07/2011.

Pedro Andrade Matos nasceu em 15 de novembro de 1987 na Ilha do Fogo. Fez os estudos secundários na ilha-mãe e graduou-se em Relações Internacionais (Puc-Minas/Brasil). Hoje é mestrando em Ciência Política na UFMG (Brasil).

Sua estreia literária aconteceu em 2010 com o livro de poesia “Midju di Fogu – Azágua e outras memórias de Cabo Verde”, sob a chancela da brasileira Nandyala – Livraria e Editora, reunindo cinquenta e um poemas voltados para o público infanto-juvenil nas suas trintas e seis páginas. O livro ainda contém um importante glossário com a definição das diversas palavras em língua materna cabo-verdiana, para além de notas de contracapa da Profª Drª Simone Caputo Gomes (USP) e deste que aqui escreve.

Inspirada na condição diaspórica do autor, os poemas de “Midju di Fogu” trazem a saudade das tradições do arquipélago, a rememoração de sua terra e de sua gente sofrida no seu cotidiano simples de resistência desmesurada para vencer as agruras da vida: “Txuba d’azágua é molhada e traz/ A sabura quebrando a sodadi,/ Dando sperança a Eulália e Raimundo/ Povo di coragi, povo de padjigal”.

Tradições que a pena do poeta tenta manter acesas, “pois lá em baixo a nossa cultura/ grita...” para “que valorizem a cultura nacional”. Tradições que revelam sob a “luss di podogó” as carências da população pobre, mostradas na medição cruel da fome: “Rasora servia para nivelar os cereais/ Na cooperativa do Sr. Morais,/ Onde as pessoas idosas iam receber as kinzena/ Em forma de alimentos básicos.// Nem todo mundo gostava da rasora,/ Principalmente quando era para partir os alimentos/ Nos tempos da crise...” Crise econômica da Ilha do Fogo representada na purguera: “Do óleo zarpava o barco, combustível/ Do óleo debulhava o milho, comestível./ Do óleo trabalhava o homem, possível./ Do óleo sustentava o homem, impossível.” Representação que difere da relatada em “Ilhéu da Contenda”, romance de Teixeira de Sousa que retrata os tempos áureos desse comércio: “Ouvia contar ao pai que outrora exportavam purgueira para Marselha por bom preço. Depois que a indústria nacional se assenhoreara dessa oleaginosa, o preço desceu escandalosamente. Antigamente a purgueira era o mealheiro do pobre e a burra do negociante. O povinho vestia-se com a purgueira que colhia. O comerciante pagava em tecidos a purgueira que comprava. Vinham grandes lugres e patachos carregar purgueira. E era negócio que não falhava, quer chovesse, quer não (SOUSA, s.d., p. 26-27).

Entretanto, são nas carinhosas descrições dos pratos típicos, símbolos do arquipélago, que o poeta sacia a sua sodadi. Estão lá a katxupa – “depois de amassado o milho, colocava para secar ao sol”; “Batanga era feita com sal, água e farinha”; “do milho branco do campo do Sr. Dai/ Extraía a farinha, junto ao feijão./ Servida ao molho de garopa, comia-se a djagacida”; a “scaldada era simples de fazer com farinha, água e sal”. Afetuosas também as lembranças dos utensílios domésticos do homem do campo, tanto para o trabalho quanto para o conforto: balai de tente, garrafon, bidja, kankaran, tagarra, solidor, manduco e o kanhotu, que ajuda o camponês a esquecer “das amarguras do passado e do presente”. As bebidas são recordadas como “o manecon de uva para os senhores de bom codjon” e o grogu: “Rogue a Deus o mokeru por ter como beber o grogu”, assim como os ritmos musicais da tabanca, morna, batuque, talaia-baxu e funaná.

O drama da seca que “seca a minha alma”, da emigração forçada, do mar que “partilha a alegria daqueles que vão e voltam,/ transbordando nos calhaus as mágoas/ dos que foram e não voltaram” e tantas outras experiências do cabo-verdiano recriadas na poesia de Pedro Matos desvelam a saudade de um poeta que, longe de seus pares, mostra o seu apego à sua terra, por vezes madrasta, mas para sempre materna, e fazem da leitura de “Midju di Fogu”, por sinal, o milho como metáfora de perseverança, um singelo aprendizado da indescritível capacidade de resistência desse povo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Pedro Matos - Midju di Fogu (livro ed. Nandyala)



Lançamento do livro Midju di Fogu - 'Azágua' e outras memórias de Cabo Verde, do jovem Pedro Matos, natural da Ilha do Fogo - Cabo Verde. Além dos poemas do autor, o prefácio é da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP) e o texto de contracapa é de Ricardo Riso. O livro é mais um lançamento da Nandyala, gratificante editora mineira que atua nas temáticas afro-brasileiras e africanas.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pedro Matos - "Midju di Fogu" (livro)

"Midju di Fogu", de Pedro Andrade Matos, é lançado em Cabo Verde

"Pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos", escreve Simone Caputo Gomes, da USP.

Da Redação

Praia - "Midju di Fogu" é o título do livro de memória e afectos de Pedro Andrade Matos que é lançado nesta quinta-feira (24) na Casa de Memória da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, com apresentação de Alberto Nunes e Fausto do Rosário.

Natural da Ilha do Fogo, no arquipélago de Cabo Verde, Pedro Andrade Matos é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Minas Gerais (PUC) e mestrando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), residindo actualmente em Belo Horizonte.

No próximo sábado (26),"Midju di Fogu" (Milho de Fogo), livro de estreia de Pedro Matos, um natural da "ilha do vulcão", será apresentado no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Cidade da Praia, capital do país, pelo escritor caboverdiano Filinto Elísio.

Nas palavras de Simone Caputo Gomes, professora de Literaturas Africanas da Universidade de São Paulo (USP), "pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos, entre arbustos (como a purgueira) balançados pelo louco vento".

"Os homens cavam a terra, as mulheres jogam as sementes do milho e as crianças cobrem as covas com os pés, num djuntamô (juntar as mãos) para que o chão, fecundado, possa “vestir o povo de água” e conceder-lhe a abundância na “terra molhada”, lê-se no texto de apresentação de "Midju di Fogu", um livro que "promete ao leitor uma bela sementeira", diz Simone Caputo Gomes.