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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pepetela - A Sul. O sombreio (lançamento livro RJ)


Lançamento do novo livro do Pepetela, A Sul. O sombreio.
DATA: 10 de maio, quinta-feira
LOCAL: Livraria da Travessa (Shopping Leblon)
HORÁRIO: a partir das 19h

Fonte: e-mail gentilmente enviado pela Profª Drª Iris Amancio em 2 de maio de 2012.

domingo, 21 de agosto de 2011

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Portanto... Pepetela (Tania Macêdo, Rita Chaves) - livro


Portanto... Pepetela
Tania Macêdo, Rita Chaves
ISBN: 978-85-7480-457-6



Este livro procura reduzir a distância que ainda separa a literatura brasileira da africana, trazendo uma série de artigos sobre Pepetela, um dos principais escritores angolanos. O trabalho divide-se em cinco partes: a primeira incide sobre a trajetória do autor, com o registro de alguns dos passos da sua vida e a criação de sua obra, completando-se com um quadro informativo sobre as edições e traduções de seus livros. Na segunda parte, é o autor que nos apresenta um pouco de si mesmo, captado o seu pensamento em entrevistas concedidas nos últimos anos. Na sequência, vem a voz de alguns de seus companheiros – de ofício, de luta, da utopia que, felizmente, foi além da sua geração. Nesses depoimentos transparecem outras dimensões de sua personalidade que o leitor de seus livros há de gostar de descobrir. Na quarta parte a obra de Pepetela é abordada por vários especialistas, professores e estudiosos do Brasil, de Portugal e de Moçambique. Finalmente, oferece-se uma listagem de dissertações de mestrado e teses de doutoramento que têm Pepetela como tema.

Sumário
Pepetela, Entre Nós – Rita Chaves e Tania Macêdo

I. Pepetela: as Estórias na História
◦Cronologia
◦Bibliografia
II. Pepetela pela sua Voz (Fragmentos de Entrevistas)
◦Experiência e Vida
◦Guerrilha
◦Literatura
◦A Obra
◦Política
III. Pepetela por outras Vozes
◦Pepetela, Bem-vindo… – Dario de Melo
◦Reler Pepetela – Gabriela Antunes
◦Até Camões… – Henrique Abranches
◦Pepetela: A Dimensão do Renascimento – José Luís Mendonça
◦O Pepe – Júlio de Almeida
◦Pepetela – A Pestana Vigiando o Olhar – Mia Couto
◦Quarenta Anos de Amizade para Sessenta de Vida – Ndunduma Wé Lepi
◦Pepe – Orlando Senna
IV. Pepetela sob os Olhos de Tantos
◦Fatos de Vida, Feitos de Ficção (Yaka, de Pepetela: História, Mito e Símbolo) – Maria Aparecida Campos Brando Santilli
◦Janus-narrador em A Gloriosa Família de Pepetela, ou o Poder Profético da Palavra Narrativa – Ana Mafalda Leite
◦Mayombe: Um Romance contra Correntes – Rita Chaves
◦Muana Puó: Enigma e Metamorfose – Fernando J. B. Martinho
◦Na Curva Oblonga do Tempo, uma Alegórica Parábola… – Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco
◦Notas sobre a Utopia, em Pepetela – Benjamin Abdala Junior
◦O Desejo de Kianda: Crônica e Fabulação – Maria Thereza Abelha Alves
◦Pepetela: A Releitura da História entre Gestos de Reconstrução – Inocência Mata
◦Pepetela e a Sedução da Montagem Cinematográfica: Breves Recortes – Laura Cavalcante Padilha
◦O Homero Angolano – Lourenço do Rosário
◦As Aventuras de Ngunga: Nas Trilhas da Libertação – Maria do Carmo Sepúlveda Campos
◦Muana Puó: Uma Pequena Leitura da Máscara – Mário César Lugarinho
◦Mayombe: Angola entre o Passado e o Futuro – Marina Ruivo
◦A Corda: Um Convite ao Pensar… – Iris Maria da Costa Amâncio
◦A Revolta da Casa dos Ídolos: Renovação e Tradição – Antonio Hildebrando
◦Yaka: A Construção do Discurso Utópico – Vima Lia Martin
◦O Cão e os Caluandas: O Texto, o Leitor e o Mundo – Maria Teresa Salgado
◦Lueji: O Nascimento de um Império – Fernanda Cavacas
◦Luandando: Uma Cidade no Gerúndio – Érica Antunes
◦A Geração da Utopia: A Lição do Mar – Célia Regina Marinangelo
◦O Desejo de Kianda: Um Cântico de Liberdade – Tania Macêdo
◦Parábola do Cágado Velho: O Cágado Velho e o Pensador – Magdala França Vianna
◦ A Gloriosa Família: O Tempo dos Flamengos – Valéria Maria Borges Teixeira
◦A Montanha Mágica de Pepetela – Ana Luísa Ventura Vieira Pereira
◦Jaime Bunda, Agente Secreto: A Paródia do Mito – Rosangela Manhas Mantolvani
◦Jaime Bunda e a Morte do Americano: O Livro Policial é um Pretexto – Simone Caputo Gomes
◦Pepetela e a Predatória Arte de Narrar – Jorge Valentim
◦O Terrorista de Berkeley, Califórnia: Entre a Modernidade e a Barbárie – Sueli Saraiva
◦O Quase Fim do Mundo – Raquel Silva
◦Contos de Morte: Flashes para Escrever Angola – Lola Geraldes Xavier
V. Pepetela sobre/para o Escritor
◦Teses e Dissertações sobre a Obra de Pepetela nas Universidades Brasileiras

Autor: Rita Chaves
Biografia: Rita Chaves é professora e pesquisadora de literatura da Universidade de São Paulo.

Medidas: 12,5 x 20,5 cm - Páginas: 392 - Edição: 1ª - Ano: 2010 - Acabamento: Brochura
Fonte: http://www.atelie.com.br/shop/detalhe.php?id=522

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Homenagem a Pepetela realizada pelo Senhor Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde

Pepetela, escritor angolano, recebeu na quarta-feira - dia 28/04 - o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Algarve - Portugal.
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos é natural de Benguela, cidade do litoral sul de Angola, onde nasceu em 1941. Licenciado em Sociologia, Pepetela participou activamente do movimento de libertação de Angola, nas fileiras do MPLA.
O seu primeiro romance, Mayombe, retrata as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros em Cabinda, durante a luta de libertação. Da sua bibliografia fazem parte títulos como Yaka, A Geração da Utopia, A Gloriosa Família, Lueji, Jaime Bunda, Predadores, O Quase Fim do Mundo e O Planalto e a Estepe.
Além de escritor, galardoado com diversos prémios internacionais, entre eles o Prémio Camões, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.
A seguir o discurso de Homenagem a Pepetela proferido pelo Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde, Antonio Correia e Silva, gentilmente enviado pelo escritor cabo-verdiano Filinto Elísio. 
 
Ricardo Riso (os parágrafos 2o., 3o. e 4o. foram extraídos da revista África 21)
 
Homenagem a Pepetela realizada pelo Senhor Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde,

Elogio de Pepetela na Cerimónia de Honoris Causa

Senhor Magnífico Reitor da Universidade do Algarve,
Senhor Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior,
Senhor Embaixador da República Popular de Angola,
Senhores Membros dos Órgãos de Governo da Universidade,
Senhor Homenageado, caro afilhado,
Minhas senhoras e meus senhores,

Consintam que as minhas primeiras palavras sejam para expressar, para lá do exercício de mera retórica de circunstância, o quão honrado me sinto em participar nesta cerimónia, mormente na posição de padrinho de um escritor que faz parte integrante das minhas referências literárias, políticas e até afectivas. Em gerações diferentes – e não posso dizer que a minha geração não tenha também as suas utopias e as distopias – ambos sofremos, lutámos e sonhámos com a África. Honrado também, Magnífico Reitor, caro amigo, Prof. João Guerreiro, por estar aqui, na Universidade do Algarve, que é prova provada de que a condição periférica nunca representou a impossibilidade de se construir a excelência científica e pedagógica das Academias. Assumindo eu a condição de Reitor de uma jovem universidade, de um país igualmente jovem e periférico, olho para a universidade que V. Excia preside como um caso inspirador e gerador de esperança.

Por estas razões, e por outras mais, que são de foro íntimo, peço-vos que relevem a emoção que me embarga a voz. Peço-vos, igualmente, que relevem a minha falta de erudição, ou mesmo o meu despreparo, para fazer um elogio à altura dos méritos do meu afiliado que, como sabeis, são muitos, mas mais do que isso, estão sempre a surpreender-nos, livro a livro, numa produtividade notável. Despreparo de que falo não é, como ocorre amiúde em circunstâncias semelhantes, um acto de retórica, uma humildade, digamos assim, vaidosa, própria de académicos, que visa, acima de tudo, agradar ainda mais o ouvinte. Não sendo eu um académico versado em estudos literários (afinal de contas sou um simples sociólogo apaixonado pela História), a literatura para mim tem uma taxonomia simples. Taxonomia que, desconfio, não colher uma grande aprovação dos estudiosos, pois ela divide toda a literatura mundial em apenas duas categorias: a) a que eu gosto; b) a que não gosto. Suspeito, por isso, que eu esteja um pouco desarmado perante uma obra literária complexa que fala do Negro e do Branco, da Paz e da Guerra, da Realidade e da Utopia, do Passado e do Presente, da África e da Europa, do Planalto e da Estepe. Que posso eu então dizer diante de uma literatura que se recusou a encerrar-se em si própria e tem a permanente ambição de reflectir os tempos e, (porque não?), de os reescrever? Com a vossa licença e complacência, queria tecer apenas palavras breves, quiçá, breves de mais acerca da obra do autor, que fui conhecendo sem qualquer pretensão académica ou outra, apenas pelo prazer da leitura, pelo deslumbramento da descoberta e pelo reconhecimento das afinidades existentes entre a realidade que ele narra e a minha história de africano, de ex-colonizado, de falante do português, para só falar destas afinidades. Então, sou a dizer-vos o seguinte:

A despeito de uma ideia que hoje faz escola, entendo que não há como desligar a escrita de Pepetela de um projecto político mais amplo, nascido na periferia do império colonial português – periferia onde eu também nasci, embora num colonialismo já tardio e agonizante, – um projecto político, dizia, que visou justamente transformar as periferias em centros, as subalternidades em protagonistas, os povos a civilizar e a assimilar em nações, os homens que eram então objecto de uma escrita que os deformava, porque produto de uma perspectiva exógena, por isso cultora de exotismos, em actores da História e também autores da escrita sobre si próprios. Como se quem quisesse ser actor da sua própria história tivesse, antes, que começar por ser autor. É que a ruptura, a primeira, consiste precisamente em passar do estatuto de povos sobre quais se escreve ao de povos que escrevem. Eis a subversão instaurada por homens como este que, aqui e agora, a morena Universidade do Algarve homenageia com a atribuição do título de Doutor Honoris Causa. Ele faz parte da subversão histórica que representou “coloniais” a escrever sobre a sua própria realidade e a partir de suas próprias vivências. Realço este criar de uma relação consigo próprio, este acto reflexivo, pois se situa nele o ponto de viragem. Não que antes dos anos 40, 50 e 60 do século XX, os coloniais não escreviam literatura de ficção com base em suas experiências pessoais e sensoriais. Estaria a faltar com a verdade e a induzir em erro se sustentasse tal tese. Fizeram-no, é verdade, contudo maioritariamente vendo a sua própria realidade com lunetas metropolitanas. A assunção da condição de escritor da periferia, a começar da periferia colonial, instaurou a subversão da relação sujeito/objecto da escrita, facto que traz embutido imediatamente outras subversões: de linguagem, de temáticas, de recepção e de públicos.

Como historiador e africano, reputo que não há como escapar deste marco zero, desta espécie de pecado ou virtude política original, já que a história, toda a história, tem pelo menos dois lados. Por mais que agora, e com isso não pretendo polemizar e nem contestar os advogados da autonomia do campo literário ou estético face à dinâmica política, se venha a dizer que literatura é literatura e política é política. Gostaria tão-somente de sublinhar, num esforço de entender devida e completamente a obra do homenageado, a intencionalidade política da sua escrita, a sua voluntária, consciente e desejada inscrição num movimento histórico. Sem isso, nada é compreensível. Mas ao dizer isso, devo igualmente realçar que a maneira como o autor se inscreve neste movimento, a relação entre a sua escrita e a intenção da desconstrução do colonialismo e da construção da nação nova não é mecânica, linear e panfletária, o que, a ser assim, comprometeria eventualmente a qualidade literária do seu texto.

Para mim, o grande potencial libertador, ou, antes disso, subversivo dos melhores escritores cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos da Geração da Casa dos Estudantes do Império, e mesmo posteriores, não reside apenas e nem maioritariamente, como poderia parecer, no acto de denúncia das situações de opressão colonial e de desencontro do pós-independência. Mas no simples facto de terem resgatado e iluminado o que antes era periférico geográfica e literariamente, ou seja, a vida do musseque, do mocambo, das ilhas remotas, das cidades desordenadas, com as suas grandezas e misérias, a vida que antes ficava fora da moldura da escrita prestigiada, e era literal e literariamente obscena. É isso que marca a ruptura. A mudança da relação entre o que é incluído e o excluído, entre o que é digno da palavra literária e o que não o é.

Pepetela faz parte do grupo de escritores que trouxe a periferia para a literatura, mas também para a História. Aliás, um dos pressupostos do colonialismo, tornando-o viável enquanto Projecto Político é justamente a negação da História dos colonizados. É talvez por isso que a sua literatura é essencialmente histórica e, por consequência, anti-colonial. Isso em vários sentidos desta expressão. Como historiador, permitam que me debruce um pouco mais sobre este ponto de vista. O autor mergulha sucessivamente na História profunda de Angola, recriando-a literariamente. É o caso do seu livro A Revolta da Casa dos Ídolos, inspirado, segundo o próprio, numa referência fugaz existente eventualmente no Cavazzi, uma das grandes fontes da história de Angola. Mas talvez a ligação entre a literatura e história atinja maior complexidade num outro livro intitulado, Yaka. Este mergulho na História profunda, inclusive, de uma Angola pré-colonial reflecte eventualmente duas intencionalidades. Uma, consciente e buscada explicitamente, e outra, quiçá, menos consciente.

A primeira tem tudo a ver com a negação da ideia de que a história dos colonizados, a existir, só poderia ser das duas, uma: ou a narrativa dos colonizadores, isto é, dos governadores, dos traficantes de escravos, dos cobradores de impostos metropolitanos levada a cabo fora do seu território de origem, numa versão em que os africanos seriam cifras de escravos vendidos, almas a resgatar da barbárie pela acção missionária, pessoas refractárias à acção civilizadora, ou então o vazio, a repetição, a impossibilidade do movimento hegeliano. O autor mostra a África, neste caso, a Angola – ou o embrião histórico dela –, como portadora de uma história endógena. Própria. Anterior, por um lado, e simultânea, por outro, à aparição dos portugueses, portugueses que chegam, não para iniciar a história, mas sim, para serem mais um elemento a integrar-se nela. Uma história, de resto, marcada sempre, na visão do autor, pelo encontro, quando não mesmo pelo encontrão, das identidades. Todo o encontro não encobre desencontros? Esta dúvida corrosiva assalta-nos permanentemente quando percorremos os livros de Pepetela. Na luta de libertação, em Luanda pós-independência percorrida por um cão, na Geração Utopia a construção do amanhã está eivado de contradições, de horizontes nebulosos? Aliás, este é um dos traços sociológicos da sua literatura. Mas voltemos. A outra intencionalidade inscrita na busca da História, repito, quiçá inconsciente, é a procura do enraizamento, a tentativa de exorcizar a origem exógena dele próprio, numa Angola, apesar da existência de um projecto político postulador da aceitação pacífica da ideia de uma sociedade multi-racial, é traumaticamente dividida pelas fronteiras de cor, de região e de língua. Pior: numa Angola sob a ameaça espectral destas fronteiras, assentes que se encontram sobre falhas de profundidade quase tectónica. O património histórico é, por conseguinte, estratégico às intenções do escritor, pois ele une povos, criando uma genealogia comum para a Nação a construir.

Outra constante dos livros do escritor homenageado é a presença da infância como um tempo de harmonia, de confraternização inter-racial e inter-classista, tempo esse que embora desapareça com a idade, permanece contudo como referência subversiva e crítica da ordem social. O passado, individual ou colectivo, é sempre interpelador do presente.

Talvez na obra de Pepetela tudo seja História. Longínqua ou recente. Mesmo as estórias são história. As Aventuras de Ngunga e o Mayombe, este último sem dúvida o grande romance de referência sobre a Luta de Libertação Nacional, abordam um tema que tem produzido escassa produção literária nos países africanos de expressão portuguesa. Curioso, ou talvez não, contrariamente ao que se esperaria de um antigo guerrilheiro e um posterior ministro de uma Angola independente, Mayombe não é um romance épico, exaltador e apoteótico. O movimento de libertação é um campo de encontro de gente que aspira ao fim da opressão colonial, mas igualmente espaço de desencontros de personalidades, de identidades étnicas, de concepções políticas, por isso, um campo sempre minado de contradições. Com minas que, tais como as outras, são a seu modo profundamente amputantes. O inimigo, passe a expressão, não é apenas exterior, mas também interno à luta. E a luta é múltipla, multidireccional, muldimensional. Neste particular, lembro-me, li Mayombe nos meus 20/21anos e de quando o ter lido, ter-me lembrado das reflexões de Amilcar Cabral, que encarava a luta de libertação como acto de cultura, um processo de desconstrução de antigas divisões étnicas e regionais em favor de novas sociabilidades, um processo de confrontação com práticas e valores menos positivos das nossas tradições, que não boas pelo simples facto de serem populares, africanas e nossas, enfim, que encarava a Luta de Libertação como um processo de auto-crítica e de mudança cultural. A luta de libertação, se pensada deste modo, prolonga-se para lá dos actos de proclamação da independência. Além de 1975, ano do nosso contentamento, mesmo quando as dores de parto foram quase mortais. Há um pós-colonialismo que é uma espécie de encontro de águas oceânicas.

Nesta esteira, é para mim, como sociólogo, amante do fenómeno urbano, simplesmente sublime o livro “O Cão e os Caluandas”; pela sua escrita episódica, caleidoscópica, jornalística, analisando, escalpelizando a Cidade em carne viva. O livro constitui, sem dúvida, um momento alto da sua imensa obra. Permitam-me também salientar aquilo que Gabriel Garcia Marques chamaria de carpintaria. A obra possui uma carpintaria engenhosa, por isso, genialmente simples. De ossatura à mostra, pois, a narrativa é construída de modo aberto, lembrando Orson Wells em Cidadão Kane. O cão e o jornalista no seu encalço devassam a Cidade em tramas e dramas. Mas devo realçar o supremo humor que perpassa o livro. Aliás, o humor é uma das armas deste escritor.

Num dos seus últimos livros, melhor dito, num dos seus mais recentes livros, O Planalto e a Estepe, o autor celebra afinal de contas o mais universal e perene dos valores: o amor. O amor unindo culturas, resistente ao tempo e à idade, esquivando ideologias, o amor como busca persistente, como sentido da vida.

Senhor Magnífico Reitor e caro amigo, creio que a nossa língua comum é mais rica e mais feliz por ter nas suas estantes livros do Pepetela, cujos méritos justificam plenamente a atribuição de um Doutoramento Honoris Causa como este que esta Universidade Morena entendeu por bem lhe conceder, e eu aqui o solicito em nome da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais.

Camarada escritor, por falar em amor, morena e culturas, gostaria em breves palavras de cumprir uma missão singela que me atribuíram. Como sabe, nós, os cabo-verdianos, somos um povo de diáspora e desenvolvemos ao longo de séculos, desde os tempos dos baleeiros americanos, uma cultura de troca de afectos à distância, enviando de um país para outro, latas de atum, grogue e milho di tera. Hoje de madrugada, ao passar pelo controlo das bagagens de mão, antes daquela cena de strip tease de tirar o cinto, os sapatos e ainda assim a máquina continuar a apitar, uma jovem polícia me aguardava com um generoso sorriso. O sorriso e os restantes predicados não deixaram mal a minha auto-estima. Ao aproximar-me, no entanto, ela pediu-me que lhe trouxesse mantenhas e um abraço crioulo. Com estas palavras, considere entregues as mantenhas. E o abraço, espero dar-lhe logo após a cerimónia!

E mais não digo.

Muito Obrigado!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Pepetela - O Planalto e a Estepe (livro)




O Planalto e a Estepe

Autor: Pepetela
Editora: Leya Brasil
Categoria: Literatura Estrangeira / Romance
Lançado no Brasil
JULIO E SARANGEREL eram estudantes em Moscou, no auge da União Soviética, quando se apaixonaram. Ele, um jovem estudante angolano, entusiasmado com a revolução e ansioso por levar os preceitos socialistas ao seu país. Ela, uma jovem da Mongólia, aspirante aos mesmos ideais: um mundo mais justo. Não sabiam eles, porém, que a “união dos povos” não seria algo tão fácil a ser conquistado. Pelo contrário: o amor da juventude tardaria 35 anos a ser concretizado. O autor angolano Pepetela faz um retrato sensível de uma época recente, de um mundo rigidamente dividido por duas ideologias. Um período em que a maioria das decisões eram tomadas na esfera política – até o amor.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pepetela e a elipse do herói, de Robson Dutra (MUDANÇA DE ENDEREÇO LANÇAMENTO LIVRO)


MUDANÇA DE ENDEREÇO

O coquetel de lançamento do livro Pepetela e a elipse do herói, de Robson Dutra, a ser realizado no dia 27 de novembro de 2009, das 16:30 às 20:00h, no SBACE, à Rua Senador Dantas, 19/601, centro, bem próximo ao local original.

O livro será apresentado pelas professoras doutoras Laura Padilha e Ângela Roberti.

Fonte: emai-l enviado pelo Prof. Dr. Robson Dutra em 25/11/2009.

domingo, 15 de novembro de 2009

Pepetela e a elipse do herói, livro de Robson Dutra


O Consulado Geral de Angola no Rio de Janeiro, a União dos Escritores Angolanos e o autor têm o prazer de convidá-lo para o coquetel de lançamento do livro Pepetela e a elipse do herói, de Robson Dutra, a ser realizado no dia 27 de novembro de 2009, das 16:30 às 20:00h, no Espaço Cultural de Angola, à Avenida Rio Branco, 311, Rio de Janeiro.

O livro será apresentado pelas professoras doutoras Laura Padilha e Ângela Roberti.

Fonte: emai-l gentilmente enviado pelo Prof. Dr. Robson Dutra em 13/11/2009.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Pepetela - O Planalto e a Estepe (livro) e site do autor


Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.

Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

ISBN: 978-972-20-3784-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5x23,5 cm
Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado
No site do Pepetela - http://www.pepetela.com.pt/pdf/planalto_estepe.pdf - o primeiro capítulo deste livro está disponível para download.

Site Pepetela: http://www.pepetela.com.pt/

terça-feira, 28 de outubro de 2008

UFRJ - Pepetela, Ondjaki, João Melo e Kiki Lima

ATENÇÃO!!!!
A palestra do pintor Kiki Lima foi cancelada.
Esta informação foi passada pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco em e-mail do dia 30 de outubro, às 19h06.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
dias 17 e 28 de novembro de 2008
Faculdade de Letras da UFRJ - Auditórios E1, E2 e G1
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado



LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
PEPETELA & ONDJAKI
17 de novembro de 2008, no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
poeta e escritor angolano JOÃO MELO lança no Brasil o livro FILHOS DA PÁTRIA
28 de novembro de 2008, às 11h no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado

ATENÇÃO!!!!

A palestra do pintor Kiki Lima foi cancelada.

Esta informação foi passada pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco em e-mail do dia 30 de outubro, às 19h06.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
KIKI LIMA, grande pintor de Cabo Verde
1 de dezembro de 2008 – às 9h, na sala D220
Faculdade de Letras da UFRJ


*E-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco, em 27 de outubro de 2008, às 16h37.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pepetela e Ondjaki na UFRJ

MESA-REDONDA

com os escritores angolanos

PEPETELA


e

ONDJAKI


17 de novembro, às 9h, Aud. G-1
Faculdade de Letras da UFRJ

Apoio Setor Cultural – F. Letras-UFRJ


*E-mail gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco no dia 25 de outubro de 2008, às 11h14.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

UFRJ - LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR


Divulgo e-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco, no dia 22 de outubruo, a respeito do evento Literaturas Africanas: conhecer para amar.

O Pepetela virá à UFRJ no dia 17 de novembro, às 9h; por isso mudamos a programação do evento. Divulguem a nova programação.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
Dia 17 de novembro de 2008 (segunda-feira)

OLHARES SOBRE A POESIA E A FICÇÃO DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE
9:00 - Abertura – Auditório G1
9:15 - Declamações de poemas africanos pelos alunos
9:30 às 11:00 – Palestra do escritor Pepetela – Auditório G1
11:00 às 11:15 - Declamações de poemas africanos pelos alunos
11:15 às 13:00 – Mesa-Redonda sobre Ficção – Auditório G1
1. Otavio Meloni (coordenador): Traços poéticos, fronteiras da língua
2. Renata Flávia: A Literatura Angolana e seus espaços ficcionais
3. Roberta Franco: Luandino Vieira, Pepetela e Ondjaki: infância e violência em três momentos da literatura (e da história) de Angola
4. Robson Dutra: O terrorista de Berkeley, Califórnia, de Pepetela e a cartografia identitária de Angola

13:00 às 14:00 – almoço

14:00 às 15:30 - Mesas de Comunicações

Mesa 1: G1
POESIA E PINTURA EM AUTORES DE CABO VERDE E MOÇAMBIQUE
Coordenador: Diego Alves Moreira
1. Vinícius Antunes da Silva: Parábola caboverdiana: Almada e Figueira entre o Éden e o Hades
2. Giselly Pereira: O mar e a mulher em Cabo Verde através da poesia de Vera Duarte e da pintura de Hileno Barbosa
3. Viviane Mendes de Moraes: Memória, mito e erotismo em José Craveirinha e Malangatana Valente

Mesa 2: G2
A REINVENÇÃO DAS PALAVRAS NA FICÇÂO DE MIA COUTO E LUANDINO VIEIRA
Coordenadora: Roberta Guimarães Franco
1. Ramon Ramos: A terra de hoje e os rios de ontem
2. Fernanda Drummond: Luandino Vieira: umas veredas
3. Paulo José Filho: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra: aspectos da oralidade que geram o real e o fantástico

Mesa 3: E1
POESIA MOÇAMBICANA
Coordenadora: Edna Nazaré Batista Tourão
1. Kim Albano de Barros e Élvio Cotrim : Rui Knopfli e uma poética da citação
2. Thaís Santos: A dinamicidade temporal mítica na poética de José Craveirinha: a cosmogonia de uma nova literatura

Mesa 4: E2
O RISO E A IRONIA EM TEXTOS ANGOLANOS E CABO-VERDIANOS
Coordenadora: Lucimar Francisco Ribeiro
1. Priscila da Silva Campos: Viriato da Cruz e o transcriar irônico da angolanidade
2. Nilzelaine Silva dos Anjos: Aspectos da crônica e da ironia na poesia de Viriato da Cruz
3. André Salviano: João Melo espelhando Machado de Assis


Dia 28 de novembro de 2008 (sexta-feira):
9:00 às 11 h Projeção do filme O Testamento do Sr. Napumoceno –Auditório G1

ANGOLA E CABO VERDE EM DIÁLOGO
11:00 às 12:15 - Vozes representativas da poesia de Angola e Cabo Verde: Corsino Fortes, José Luís Tavares e João Melo.
Coordenação Dra. Laura Padilha – Auditório G1

VOZES E IMAGENS DE UM ARQUIPÉLAGO
12:15 às 13:15 - Vozes femininas de Cabo Verde: Dina Salústio e Fátima Bettencourt .
Coordenação: Dra. Teresa Salgado – Auditório G1
13:15 às 14:00 - Kiki Lima: cor e movimento na Pintura de Cabo Verde.
Coordenação: Dra. Carmen Tindó– Auditório G1
14:00 - Declamações de poesia pelo grupo “Metaforia”

sábado, 5 de julho de 2008

Impressões sobre Pepetela na Flip

Encerrada há poucos instantes a mesa Guerra e Paz, com o angolano Pepetela e a nigeriana Chimamanda N. Adichie, mediada por José Eduardo Agualusa. Como não poderia deixar de ser, a experiência da guerra em ambos os países e a relação dos escritores com o conflito preponderaram durante a palestra.

Após a leitura de trechos das obras publicadas recentemente em nossa país, Pepetela com Predadores (em que homenageou Jorge Amado) e Chimamamda com Meio sol amarelo, Agualusa citou o livro Mayombe, que retrata os conflitos internos entre os angolanos no período final da guerra contra o colonialismo português, para que Pepetela contasse a sua experiência como guerrilheiro. À Chimamanda, o mediador pediu para relatar as conseqüências que a guerra entre a Nigéria e a Biafra causou em seu povo e na sua vida.

A nigeriana contou que não vivenciou o conflito, nasceu após o seu término, mas a guerra esteve presente entre os seus familiares mais velhos. Desde a tenra idade, sempre demonstrou interesse pela maneira como as pessoas lidavam com as adversidades impostas pela situação. Frisou que seu interesse maior era como as pessoas se relacionavam, como criavam seus filhos no decorrer de tantos anos de dificuldades e escassez de alimentos. Para Chimamanda, era necessário conhecer as histórias de vida de quem sobreviveu nesses anos cruéis.

Já Pepetela, aproveitando as situações-limite retratadas em Mayombe, comentou que para quem participou de tais momentos não podia demonstrar fraqueza, devia radicalizar suas posições e mostrar bravura a todo instante. Apesar de todos os guerrilheiros terem em comum o medo.

Em outras passagens, Pepetela narrou com humor como o acaso fez com que passasse de jornalista a guerrilheiro. Relatou como um comandante tinha que agir para ser respeitado, pois havia a crença que um líder deveria ter o “corpo blindado” (o nosso “corpo fechado”) e o inusitado dessa situação. Embora alguns comandantes se declarassem marxistas e ateus, eles passavam pelos rituais religiosos para “blindar” o corpo. Com isso, adquiriam o respeito dos guerrilheiros.

A respeito da época atual, Pepetela valorizou a paz em uma terra que vive em conflito há cinco séculos. Afirmou que “é mais fácil convencer militares da importância da paz do que convencer políticos”. Porém, o preocupa as desigualdades social e econômica em Angola, e que o desafio para o país é buscar alternativas para reduzi-las. O escritor também manifestou pesar pelo crescente retorno do racismo entre os seus compatriotas.

Em relação ao contato entre os escritores africanos, Pepetela mencionou a dificuldade entre os autores conhecerem-se, pois o mercado editorial dos países africanos ainda é pequeno e o contato entre eles, raro. Comentou que conhece livros de autores africanos quando são publicados na Europa e conhece pessoalmente seus autores em feiras naquele continente, ou como na Flip.

Da nova geração de escritores angolanos, elogiou Ondjaki (Bom dia camaradas e Os da minha rua foram lançados no Brasil), que estava presente, entretanto, percebe que há pouco domínio da língua portuguesa na nova geração, apesar de reconhecer boas narrativas e histórias entre os jovens. Citou que há o predomínio do português em relação às outras línguas, que provavelmente ficará uma lacuna não preenchida na literatura angolana, pois os escritores da sua geração, que possuíam maior domínio das outras línguas, pouco as utilizaram como língua literária. E, agora, são raros os jovens que falam uma língua nacional.

Bom, foi o que considerei importante na fala de Pepetela. Agora, aguardo o dia 08/07 para o lançamento de Predadores, na Livraria Argumento – Leblon.

Riso

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pepetela na Livraria Argumento - Rio

Prosa Nas Livrarias (Leblon)

08/07 (3ª feira) às 19h

A Livraria Argumento Leblon e o Prosa & Verso, do Jornal O Globo, apresentam a Prosa nas Livrarias com os autores Pepetela e a portuguesa Inês Pedrosa.

Local:
Livraria Argumento
Rua Dias Ferreira, 417 - Leblon

http://www.livrariaargumento.com.br/

domingo, 29 de junho de 2008

Pepetela no Rio - Palestra

Palestra com o escritor angolano Pepetela, autor de A geração da utopia, Mayombe, Predadores entre outros títulos:

dia 8 de julho - às 19 h

Livraria Argumento, à rua Dias Ferreira, 417 - Leblon.

Agradeço à Professora Carmen Lucia Tindó Secco pela informação.

Riso

sábado, 28 de junho de 2008

Pepetela: Escrever foi tão difícil que valeu uma taça de champanhe

http://jbonline.terra.com.br/editorias/ideias/papel/2008/06/28/ideias20080628005.html

28/06/2008
Escrever foi tão difícil que valeu uma taça de champanhe

Ex-guerrilheiro, Pepetela passa a limpo a recente história de Angola
Alvaro Costa e Silva

Em 2005, ao pôr um ponto final em Os predadores (Língua Geral, 552 páginas, R$ 45), Antônio Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo de Pepetela (palavra que, em umbundo, uma das línguas de Angola, significa pestana), serviu-se de uma taça de champanhe. Um luxo ao qual o ex-guerrilheiro não é chegado.

– Isso foi uma maneira de dizer que me estava a libertar de qualquer coisa que afinal era dolorosa – conta o escritor. – Uma situação de desigualdade social tão forte como a que se vive em Angola não é fácil para quem lutou por uma sociedade mais justa. Os predadores mostra no que se tornou a nossa sociedade.

O livro acompanha a trajetória de Vladimiro Caposso (uma das especialidades de Pepetela, além da clareza de estilo e construção da narrativa, são os nomes), um sujeito disposto a subir na vida a qualquer custo. Na linha dos romances que passam a limpo a história de Angola – de que são exemplos Mayombe, A geração da utopia e Parábola do cágado velho – Os predadores descortinam os últimos 30 anos do país africano, período da guerra colonial. O protagonista, rapaz modesto do Calulo, filho de enfermeiro que tratava a tropa portuguesa, depressa descobre que sobreviver em Luanda em muito depende do vitorioso MPLA e, por isso, muda o nome de José para o mais revolucionário Vladimiro.

Outro personagem chama-se Nacib porque nasceu na altura em que a televisão angolana transmitia pela primeira vez uma telenovela, Gabriela, baseada no livro de Jorge Amado: "Estava combinado há muito na família: se nascesse menina se chamaria Gabriela. Nasceu rapaz e ficou Nacib, podia ser de outra maneira?". Em mais uma das obras do autor – Jaime Bunda: agente secreto, na qual também se investiga a história recente de Angola mas pelas veredas do humor – é descrito o mercado popular Roque Santeiro, o maior a céu aberto que existe no mundo.

– A novela tornou esse nome famoso – explica Pepetela. – A influência do Brasil sobre Angola, e não a podemos restringir apenas à televisão, tem aspectos largamente positivos, mas tem outros que o são menos. Penso que isso acontece sempre com os relacionamentos, quer entre pessoas, quer entre países. Mas dá para notar que se vão reforçando alianças. O aspecto mais importante é que isso permitirá fomentar amizades entre países que falam a mesma língua. Um e outro têm importância crescente nos seus respectivos continentes, também. A influência da televisão toca mais os costumes e os modos de vida. Nesse caso, tem aspectos negativos, por fomentar o consumismo, as modas e modismos, e atitudes estranhas ao que era a vida das pessoas. No entanto, não há como fugir a isso.

Autor de 16 romances (os dois mais recentes, O terrorista de Berkely e O quase fim do mundo, apontam uma guinada na carreira do escritor, pois não se passam em Angola), Pepetela prepara-se para participar da sua primeira Flip: no sábado, divide a mesa Guerra e paz com a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. E avisa: dispensa a champanhe.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Predadores - Lançamento de Pepetela na FLIP 2008


Predadores *
Lançamento de Pepetela na FLIP pela Língua Geral:
DIA 05 de JULHO - SÁBADO - ÀS 10h
Mesa 11 - Guerra e Paz - Pepetela e Chinamada Ngozi Adichie

Com 16 romances publicados, o angolano Pepetela (pseudónimo de Artur Pestana) é um dos mais conhecidos e respeitados escritores da África. Em 1997 foi galardoado com o prémio Camões pelo conjunto da sua obra.

Mediante a ascensão de um homem de origem humilde, Vladimiro Caposso, que se serve da estrutura partidária e do aparelho de Estado para se transformar num poderoso empresário, Predadores desenha um retrato irónico, freqüentemente cáustico, da actual sociedade angolana. A linguagem é simples e direta, o enredo preciso, segurando o leitor da primeira à última página.

Com este romance Pepetela fecha, de certa forma, um ciclo de desencanto com a forma como evoluiu o regime angolano desde 1975. Sabendo-se que Pepetela combateu, de armas na mão, pela independência do seu país, e que integrou os primeiros governos angolanos, compreende-se melhor onde foi buscar a força e a revolta para escrever Predadores, grande sucesso de vendas e de crítica em Portugal.
(José Eduardo Agualusa)

Quem disse o quê

“Predadores não se lê, devora-se. Este trabalho para além de estar embebido de uma ironia formidável, é uma denúncia muito lúcida e muito sofrida ao arrisvismo que tomou conta dos centros de poder angolanos. Hilariante e arrepiente.”
(Francisco Nunes, Planície Heróica, Alentejo)

“Tenho muita admiração e muito respeito por ele [Pepetela]. Pelo homem. E acho que a obra dele é profundamente honesta. Isto é a melhor qualidade que um escritor pode ter.”
(António Lobo Antunes, Ler, maio de 2008, Lisboa)

Sobre o autor

Pepetela nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Tornou-se militante do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola – em 1963. Esteve exilado na França, na Suíça e, por fim, na Argélia, quando graduou-se em Sociologia.

É professor dessa disciplina na faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Em 1975, depois da independência de Angola, foi nomeado vice-ministro da Educação. Recebeu o Prêmio Camões em 1997 pelo conjunto de sua obra. Publicou, entre outros romances, Mayombe (1980), Geração da Utopia (1992), O desejo de Kianda (1995) e Jaime Bunda – o agente secreto (2002).

Título: Predadores
Autor: Pepetela
Coleção: Ponta-de-lança
ISBN: 978-85-60160-27-3
Brochura, 552 p.
R$ 45,00
*Fonte: e-mail da Editora Língua Geral, de 23 de junho de 2008.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Pepetela - O quase fim do mundo (entrevista)

Fonte: Diário de Notícias - Editado por Angola Digital
Tuesday, 11 March 2008
http://www.angoladigital.net/artecultura/index.php?option=com_content&task=view&id=878&Itemid=39

«O Quase Fim do Mundo» de Pepetela

«Este romance podia ter mais 800 páginas». «Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.» Uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.

E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?

Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: "Isto até dava mais umas 800 páginas." Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?

O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.

Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. "Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo"...

Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.

Como dá importância aos nomes...

Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.

A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento...

Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.

Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.

Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?

E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?

Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.

A ironia ajuda na desgraça?

Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.

Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?

Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.

Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse...

Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira... Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.

Essa angústia do resultado termina quando?

Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.

Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?

Agora sim.

Então há uma altura em que passa?

Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer "acertei ou não acertei tão bem..."

O leitor não lhe é indiferente?

De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.

Por exemplo?

Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.

Porque publicou?

Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.

Ainda não se tranquilizou com ele?

Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer...

O que é isso de ter todo o tempo do mundo?

(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.

Antes dos 'Predadores'?

Sim. Há uns 15 anos.

Porque adiou tanto?

Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.

Pepetela - O quase fim do mundo

http://www.dquixote.pt/Livre/Ficha.aspx?id=2001


O QUASE FIM DO MUNDO
Pepetela


Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.

«E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata este romance. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.»



ISBN: 978-972-20-3525-5

Páginas: 384

Dimensões: 15,5x23,5 cm

Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Ano de Edição: 2008

Encadernação: Brochado

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pepetela: entrevista

http://www.portaldaliteratura.com/entrevistas.php?id=18

FOLHEANDO COM
Pepetela
26-03-2008

Nasceu em Angola, licenciou-se em Sociologia, foi guerrilheiro, político, ganhou o Prémio Camões em 1997, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Falamos naturalmente de Pepetela a quem tivemos o prazer de entrevistar.

«E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas? Nunca um fenómeno assim acontecera, bairros inteiros desertos, sem sequer um bebé, com viaturas pelos cantos, algumas de portas abertas. Devia ser outra coisa. E nada boa, disse o meu coração apertado.»
A ideia de sobrevivência a um holocausto, tema do livro, pode ser vista como uma simples ficção ou como um sério aviso para os actuais caminhos da humanidade?

Digamos que é uma ficção, e era isso que queria fazer, uma ficção onde me sentisse livre de inventar o que me desse na gana. Mas como sou um cidadão preocupado com os rumos do Mundo, é evidente que essas preocupações aparecem. Pode ser tomado também como um aviso para as consequências das brincadeiras que nos permitimos fazer com o ambiente.

«Estava mais que provado não ser possível construir uma população a partir de um par original, sem contributos de genes externos, a ciência contrariando as crenças bíblicas de um Adão e Eva serem antepassados únicos de toda a humanidade.»
Ao lermos o livro ficámos sempre com a sensação de uma clara intolerância às crenças religiosas, que de resto justifica. Porém, um dos personagens é um quimbanda (feiticeiro) por quem o narrador tem sempre uma visível tolerância, atribuindo-lhe até conhecimentos ancestrais capazes de o fazerem adivinhar uma gravidez. Não haverá alguma condescendência da sua parte em relação a estes feiticeiros?

Não acho haver intolerância em relação a crenças religiosas, que respeito. Sou intolerante em relação às intolerâncias, o que é diferente. E por que não ter alguma simpatia por práticas ancestrais em que tantos do meu povo acreditam? Não é por aí que vem grande mal ao Mundo…

«Uma civilização desenvolve-se até poder fabricar as armas capazes de a destruir, tal é o seu destino.»
Estará o ser humano irremediavelmente perdido? O que podemos fazer para contrariar este vaticínio?

Perdido não estará irremediavelmente. Mas tem de aprender a usar o enorme poder que tem entre mãos e, sobretudo, a dominar os seus apetites e arrogâncias. Alguma humildade só lhe faria bem.

O leitor vai certamente surpreender-se com a explicação para o quase fim do mundo. A sensação que se tem, quando se acaba de ler o livro, é que o escritor se vai preparar para continuar a história. Como é que a nova humanidade se vai desenvolver, de quem serão as crianças que vão nascer, como é que se compatibilizarão mentalidades tão diferentes como o da Dona Geny, o de Riek ou o de Ísis, ou o do estranho Jan Dippenaar. O Pepetela já terá certamente imaginado, ainda que superficialmente, no que poderia vir a acontecer. Há a possibilidade de retomar o tema?

De facto, já disse que esse livro podia ter outras tantas páginas. A estória pediu-me para terminar ali e eu fiz-lhe a vontade. Mas é evidente que dava para continuar. Até chegarmos a uma nova civilização que se destruísse. Mas não tenho a intenção de retomar o tema, embora nunca diga de uma forma definitiva. Quem sabe?

Que diferença há entre o Pepetela que escreve Predadores e o Pepetela que escreve O Quase Fim do Mundo?

Os livros são diferentes, como devem ser todos os livros de todos os autores. O tema é outro, até mesmo o cenário. Mas, provavelmente, haverá uma mesma preocupação de fundo, o destino das pessoas.

Quais têm sido as suas principais referências literárias? Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado?

Há muito variadas. Na minha juventude foi a literatura brasileira e a norte-americana, com excursões sérias pela francesa, italiana e russa. Mais tarde fui encontrando outros. Ultimamente, um autor que me impressionou muito e de quem já li praticamente toda a obra foi Phillip Roth.

Sabemos que faz parte da União dos Escritores Angolanos. Gostaríamos que resumisse para o Portal a situação actual da literatura angolana, os valores que vão despontando e, finalmente, o que pensa do acordo linguístico recentemente assinado.

A literatura angolana ainda não se afirmou como poderia. Houve períodos em que até era difícil publicar no país e os jovens tinham poucos hábitos de leitura. Isso reflecte-se na actualidade, em que têm aparecido poucos escritores jovens que se afirmam. Um problema sério é o fraco domínio que têm da língua portuguesa, pela fraca qualidade de ensino que enfrentamos. Há talentos, há estórias, muita criatividade, mas por vezes falta a ferramenta linguística ou os apoios necessários ao começo. Mas penso que a literatura se vai desenvolvendo progressivamente.
Quanto ao acordo ortográfico, acho que se está a discutir muito sobre pouco. Ou era um acordo radical, que unificaria de facto a grafia (e só isso) ou então não valeria a pena mexer. Nunca ouvi de alguém não ter conseguido ler um livro brasileiro porque tem tremas ou certas consoantes que caíram no meio das palavras. O importante seria os governos porem-se de acordo para, de uma vez por todas, acertarem uma política comum de desenvolvimento e promoção da língua portuguesa. Isso sim, seria importante.