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sábado, 31 de março de 2012

Maus poetas ou a iluminação sapiente da palavra-lâmina hodierna

Maus poetas ou a iluminação sapiente da palavra-lâmina hodierna
Ricardo Riso
O acompanhamento dos proponentes a artífices das artes é um caminho tortuoso, configurado de curvas melindrosas, retas exaustivas, sinalizações turvas por elaborações incipientes, às vezes. Entretanto, trata-se de um exercício de prazer ao descobrir jovens propostos a correr os riscos que a literatura pode oferecer, tendo na palavra poética o desafio da lâmina a descobrir novos caminhos para o encantamento da palavra depurada.
Longo é o tempo para atingir a maturação da tessitura poética, o labor deve ser intenso para buscar a maturação, assim como o comprometimento com as leituras dos grandes nomes impõe-se. Alguns, por autossuficiência ou por não internalizarem a necessidade dessas atividades, ou por falta de talento, costumam precipitar-se e revelam dicções poéticas imaturas e que ainda assim encontram a estampa do livro. Por outro lado, outros agentes, poucos, é verdade, demonstram projetos literários consistentes, audaciosos, de ressignificação da linguagem à procura de novas possibilidades imagéticas e semânticas para o tempo em que vivem, merecedores de leituras criteriosas e atentas, visto que representam o que há de elevada qualidade estética na literatura angolana revelada em livros neste século XXI.
Caso norteador da melhor poesia angolana contemporânea que aqui propomos é o de Abreu Paxe e o seu poemário “O Vento Fede de Luz”, livro que reúne uma linguagem de pura inquietação, “com palavras lavra o corpo”, de sintaxe ímpar, de agilidade estonteante e desestabilizadora pela ausência de pontuação como de conectivos; imagens díspares e insólitas sobrepondo-se de forma ininterrupta, valorizadoras da fragmentação metafórica muito bem elaborada pelo poeta; vocábulos aparentemente dispersos, escrita automática em rico diálogo surrealista, “(...) na intimidade equilibrando horizontes/ no vértice/ da luz sol/ pedra no adro da alma/ sob o mesmo chão o escândalo de pálpebras/ move-se nos sensores/ traduz alguma matéria-prima”; de profunda ressemantização da palavra a rearranjar os sentidos explicitados de forma recorrente por expressões desveladoras do processo de estagnação sociopolítica de nosso tempo, mas que pela escrita incisiva do poeta “transformam o século sem músculo em poesia seguinte”.
A tessitura árdua de Abreu Paxe, “reinventando o silêncio” “duma fala invariavelmente ausente” mostra o comprometimento de um poeta inconformista que faz do labor criativo e radical o espaço para aguçar a percepção, trazer o conflito com a certeza, assim como recapturar o desejo de revelar “sonhos indecifráveis”. Seguidor da poesia simbolista, dos surrealistas e dando continuidade oxigenizante, por sinal também inovadora, à poesia de transformação, de riscos criativos tão fecunda em Angola na linhagem de Jorge Macedo, Lopito Feijó, José Luis Mendonça, E. Bonavena, João Tala, Trajanno Nankhova Trajanno, João Maimona e Fernando Kafukeno. A complexidade metafórica dos poemas e as intencionais imprecisões da linguagem nas experiências estético-formais trazem dinamismo incomum para o livro de Paxe e apresentam os questionamentos angustiantes de um cotidiano cada vez mais insensível e inócuo. Uma publicação de plena maturidade plástica, situando-a entre o que há de melhor neste século e desde já o justo posicionamento entre os clássicos da literatura angolana.
A exposição das contradições de seu tempo, o descortino do desassossego da contemporaneidade por meio da palavra poética reveladora e insurreta contra a suposta impossibilidade do homem agir, encontra espaço cativo na poesia de maturação e impressionante conseguimento estético de Nok Nogueira. Este jovem poeta possui uma obra de profunda inquietação existencial, de crítico olhar aos dilemas ontológicos de seu tempo e de indagações metafísicas, de filiação e de continuidade ao sistema literário angolano no que diz respeito às trajetórias poéticas de Trajanno Nankhova Trajanno e Adriano Botelho de Vasconcelos, para além do rigor estético-formal de divisões em cadernos, do domínio do ritmo para a prosa poética em incessante procura pela palavra depurada constatada após a estimulante leitura de “Jardim das Estações” e de “As Mãos do Tempo”, este ainda no prelo. Este poeta atingiu a maturação necessária para a percepção do instante poético que configura o caráter atemporal da poesia, só para recordar Octávio Paz, a partir da observação arguta e de extrema sensibilidade do Homem, assim plasticamente resolvida: “quando for a vez dos poetas anunciarem a travessia do vento estaremos diante da periferia de nossas vidas para que as palavras nos soem à musicalidade entretanto mais ninguém se esquecera de acentuar sua própria fala e doá-la a quem a quis ouvir por inteiro em passos cerimoniais e em praças municipais quem aprendeu com isso foram as flores e as aves dos campos quem subscreveu diante de nossos olhos foram os próprios homens quem se apresentara diante de nós foram as próprias canções quem se fez ouvir não só interrogara sobre a guerra mas os efeitos da paz quem se entregara ao bailado de carnaval foram as dançarinas do Marçal quem se ergueu de lembranças foram os Invejados e as besanganas quem se prostrou diante do nascer do trigo do pão e da flor foram as crianças”
O profícuo e caudaloso experenciar poético de Nogueira registra o seu nome como um representante consistente da renovação na literatura angolana. Nok Nogueira demonstra coragem para remoer o tempo que lhe coube viver, lirismo para tratar as questões agonizantes que nos afligem na contemporaneidade. Nogueira é Poeta por Excelência. Aqui, a sua ESTAÇÃO PRIMEIRA (as cinzas do tempo levam-nos a catalogar o sorriso): 1. não virei amanhã para que me não despeça  de ninguém que tenha amado um dia  a noção de ausência abala as estações das flores todas as despedidas entardecem pelo principiar da voz da canção as lágrimas envelhecem-nos ao tamanho do grão de areia que vimos pisando enquanto sentirmos a presença das estações em nossas veias como um nobre testemunhar de alegorias passadas nada espero de vós no dia em que decidir visitar a longevidade das canções porque nobre é a voz do poema quando entregue à Vida experimentar o sorriso como um preciso exacto instante de prazer ainda que não sejamos nós mesmos a sorrir por nós a tempo inteiro não espero encontrar na fronteira do caminho uma mão estendida solicitando-me o pouco do que ainda resta de minhas palavras as palavras são outras na extremidade da fala dos homens a voz dos poemas será outra os dias nascerão distintos dos outros cada mãe aconchegará seu filho e oferecerá suas tetas à terra até que a última gota de leite caia seca sobre as cinzas do tempo e se faça nova mente o clarear dos dias em nossas tristes avenidas se alguém quiser se despedir de si terá de o fazer não nos cemitérios mas no umbral dos céus onde suposta mente ainda se deixam ficar muitos dos que nos acenaram ontem a paz com as mãos vazias ao léu”.
Expressão paradigmática ao assumir os desafios da tessitura poética concomitante às denúncias de seu tempo estão presentes na obra do perscrutador da palavra, Pombal Maria. No seu livro “Palavras Lavradas” deparamo-nos com uma subversiva proposta estética dentro do sistema literário angolano ao aproximar-se da visualidade do concretismo, ou melhor seria neoconcretismo brasileiro. De Angola, visualização dialogante com Lopito Feijóo e Frederico Ningi. Maria explora a radicalidade de ler/ver os seus poemas com inovações sintáticas e semânticas, desconstrução morfológica e variação tipográfica, trazendo o componente visual aos poemas e a consequente abolição da linearidade dos versos. Uma poesia que vale pela ousadia extrema como demonstrada em “1ma cruz entre os ver-sos de interrogações”, de interessante ressemantização com versos de Lopito Feijoó, assim como a visualidade muito bem atingida no poema “Estranho Naufrágio”, para além da extrema ironia de “Poema invisível na lavra de palavras”, em que a suspensão do discurso favorece o desarranjo e a impossibilidade da leitura se dá com os diversos sinais de pontuação constituintes do poema, o que demonstra a necessidade de se buscar uma nova forma de discurso para a poesia.


Ainda que se apresente titubeante em alguns momentos, a coragem da subversão da linguagem exigindo do leitor participação ativa para a leitura dos poemas, como se somente a radicalização da linguagem seria possível em um mundo patrulhado e de cerceamento democrático, principalmente no campo da cultura quando outras propostas desafinam a ordem vigente, muito bem representada no poema “Diálogo dos Mudos”, posicionam este “Palavras Lavradas” de Pombal Maria em um novo paradigma para a poesia produzida em Angola. Experimentações e riscos, acertos e erros de um poeta que merece o nosso acompanhamento.
Nome incontornável ao processo de renovação da literatura angolana e um dos melhores da atual geração, caso de Ondjaki. De imensa inserção nos meios literário e acadêmico do Brasil e de Portugal, galardoado nestes países e em Angola, com mais de uma dezena de livros publicados, seus títulos romperam as fronteiras do mundo lusófono e já foram traduzidos para países como Itália, Cuba, Espanha, Suécia, Sérvia e Polônia, Ondjaki é o mais prestigiado escritor de sua geração e passeia com desenvoltura e correção por diversos gêneros literários. Questionar o seu talento é de uma cegueira injustificável. Pode-se questionar, e questiono, a enorme inserção no mercado editorial brasileiro enquanto outros escritores de inegável valor dos anos 1980 e 1990 permanecem inéditos no meu país. Entretanto, essa observação não pretende de maneira nenhuma desprezar o ótimo contador de histórias que evolui a olhos vistos e de merecedora citação os livros “O Assobiador” e “AvóDezanove e o segredo do soviético”. Na poesia, o multifacetado autor percorre um interessante, também ousado e perigoso caminho ao aproximar-se das inovações propostas na poética de Manuel de Barros. A renovação da linguagem por meio de um projeto de extrema sensibilidade para observar o homem e as suas contradições, encontra sua linhagem na língua portuguesa em nomes como Guimarães Rosa, Mia Couto e Luandino Vieira. Ondjaki percorre a trilha aberta por esses grandes nomes, o que valeu uma generosa crítica de José Castello acerca da edição brasileira de “Há prendisajens com o xão”, da qual não concordo do seu conteúdo por identificar ainda uma tessitura poética incipiente na sua “despalavreação”, de ligação excessiva ao mestre assumido pelo poeta, Manoel de Barros.
Contudo, Ondjaki é cultor da palavra-lâmina, logo há uma nítida evolução no poemário seguinte, "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas” (2009), no qual o poeta dá continuidade ao seu projeto inspirado em Barros e começa a apresentar sua própria sintaxe, caminhando a passos largos para o amadurecimento já revelado na prosa, valendo-se de uma criativa ludicidade frutificada em poemas de pura emoção e devoção aos artífices da língua portuguesa, como em “intimidar o poema a ser raiz”: “era um poema lateral aos sentidos./ ganhava formato ébrio/ ao nem ser escrito./ longe dos pensamentos/ imitava uma pedra/ [aí as palavras drummondeavam]./ longe das lógicas/ – com tendência vagabunda –/ o poema driblava lados avessos/ de noites/ e animais/ [aqui as sílabas manoelizam, barrentas]./ mas uma estrela nunca brilha/ tão solitária;/ encarece-se também de luuandinar,/ miar à couto,/ esvair-se para guimarães.../ era um poema carente de afectar-se/ a ramos gracilianos./ assim alcançava/ o estatuto/ de raiz./ cheirado, emitia brilhos tímidos/ – fosse um pirilampo.”
Eis aqui uma pequena amostragem na humildade percepção minha, ainda que restritiva da poesia angolana dada a estampa do livro neste século XXI. Restritiva por não ter acesso a maior quantidade de poetas e preocupante pela impossibilidade de não registrar uma poetisa pelo desconhecimento das novas agentes, simplesmente. Ou seja, uma intervenção menor no debate diante da grandiosidade das propostas poéticas dos quatro nomes aqui expostos, autênticos cultores da palavra-lâmina, que certamente terão seus nomes no mesmo pedestal dos melhores escritores angolanos. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pombal Maria - “Palavras Lavradas”


À procura da concretização de um caminho para a poesia angolana em “Palavras Lavradas”, de Pombal Maria
Por Ricardo Riso, 04 de março de 2011.
“Palavras Lavradas” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2010), título do segundo livro de poesia de Pombal Maria, estimula-nos, pelo que o título indica, a realizar a travessia das páginas em busca de um poeta que não tem receio em experimentar e partir para novos referenciais estético-formais, ou seja, a esperança que as palavras lavradas, como bem anunciou Abreu Paxe no prefácio da obra a respeito da arte da capa e da relação com o título, ofereçam-nos novos significados, caminhos diferenciados para a poesia.
Qual não foi nossa surpresa ao constatarmos uma proposta estética com forte inspiração na Poesia Concreta e as suas naturais ressonâncias nos poemas de Mallarmé e e. e. cummings, uma estética vanguardista de discreta presença na poesia angolana?
São amplas as possibilidades que a Poesia Concreta oferece e que parte considerável do conjunto de poemas de “Palavras Lavradas” procura se encontrar com inovações sintáticas e semânticas, a desconstrução morfológica, a exploração da topografia trazendo o componente visual aos poemas e a consequente abolição da linearidade dos versos.
O interessante da Poesia Concreta é a sua subversão em relação à poesia. Com ela, os experimentalismos propostos pelos concretistas brasileiros – Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e outros – nos anos 1950 ressignificaram a forma de se ler/ver o poema. O poema não era mais sobre algo ou alguma coisa, mas sim autônomo em si, principalmente quando partia para a ruptura com a linguagem, aliando-se às formas geométricas e ao não-verbal. O poeta brasileiro Pedro Xisto, contemporâneo dos concretistas, conseguiu ótimos resultados e podemos citar os seus poemas “Zen” e “Epithalamium – II”:
Pombal Maria explora a visualidade do poema e apresenta um poema que em nosso entendimento vale pela ousadia extrema, um poema que se tornará referência. Trata-se de “1ma cruz entre os ver-sos de interrogações”. Neste, de um quadrado de interrogações simultâneas visualizamos uma cruz que cria um interessante jogo de relações com versos de angolano Lopito Feijoó como epígrafe:

Visualidade que também será explorada com bom resultado no poema “Estranho Naufrágio”:

Encontramos a radicalização e a ironia da proposta poética de Maria em “Poema invisível na lavra de palavras”. Neste, o desarranjo e a impossibilidade da leitura se dá com os diversos sinais de pontuação que constroem o poema, o que demonstra a necessidade de se buscar uma nova forma de discurso para a poesia. Corajosa, frisamos, pois o poeta avisa-nos que a leitura deve ser feita em voz alta, com direito ao aumento dos tipos da palavra “alta”, recurso gráfico que será reutilizado no poema “Dança”, que procura na oscilação do tamanhos das letras o ritmo de uma dança.
Entendemos que as experimentações da Poesia Concreta podem contribuir para a tessitura da poesia angolana, principalmente quando se trata da crítica à ordem estabelecida. Diante do feroz e excludente neoliberalismo da atual política angolana, ficamos, de certa maneira, frustrados com o lirismo de “Fuga”, ainda mais quando lemos os versos “Sombras/ mascam lixo do luxo” e não há como não recordar o célebre poema de Augusto de Campos, “lixo/luxo”:
O discurso utópico permanece no poema “Talvez”, contudo, no plano estético o poema carece de ousadia, pois a subversiva proposta do primeiro verso “SeAsFrasesNãoTivessemEspaço” perde-se com o uso das maiúsculas a cada nova palavra, por que se optasse entre só maiúsculas ou somente minúsculas em todo o poema, isso certamente reforçaria a proposta visual e traria um maior desafio para os leitores. Parece-nos que a indecisão do título se transferiu para a feitura do poema.
Uma outra timidez que devemos pontuar e que merecia ser melhor trabalhada se dá com o uso dos numerais substituindo sílabas ou sintagmas que são fartamente usados por Maria, todavia, com restritiva variação, somente encontramos seus melhores resultados em “Meu amor”. Por isso, é mister recordarmos um belíssimo exemplo dentro da poesia angolana com o “poema alfanumérico”, de Conceição Cristóvão, em “solsalseiosexo”: “eu 20 dizer o seguinte:/ se ele 60/ 100 pejo/ no dorso de sua malva10/ qual 1000ionário/ in100sível/ ou ainda 70/ o inútil desejo de 12ar/ seu c8 incestuoso/ corto-lhe eu o cordão/ 1bilical/ e provoco-lhe uma 5pe./ aí será o final da 9la.”
Apesar do acanhamento apresentado em algumas propostas, e que cabe ao exercício crítico pontuá-los, consideramos que a subversão da linguagem, a ressemantização das palavras em alinhamento com os sinais gráficos, para além do abundante uso dos sinais de pontuação a exigir do leitor participação ativa na construção e leitura dos poemas, como se somente a radicalização da linguagem seria possível em um mundo impossível e insensível, sendo exemplo o ótimo poema “Diálogo dos Mudos”, posicionam este “Palavras Lavradas” de Pombal Maria em um novo paradigma para a poesia produzida em Angola. Um livro que merece nossas atenções e a torcida para que Maria continue a explorar esse vasto mar que a Poesia Concreta ainda pode nos surpreender, principalmente quando inserida nos programas gráficos de computador e sem abandonar o comprometimento crítico ao mundo que o cerca, para “lavrar palavra a palavra (...) pedra a pedra o verbo da noite”. Com seus acertos e erros, “Palavras Lavradas” é um livro necessário e que chega em boa hora para desafinar o coro dos contentes de uma poesia sem riscos.