Mostrando postagens com marcador Ricardo Riso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Riso. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de maio de 2011

Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)

Por Ricardo Riso

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945. É membro da União dos Escritores Angolanos e possui uma vasta obra voltada para o segmento infanto-juvenil, dentre os quais destacamos: A Árvore dos Gingongos, A Rainha Tartaruga e As Amigas em Kalandula. Consta na bibliografia da autora em poesia: Poemas e O Meu Canto; os romances Os Panos Brancos e A Muxiluanda; o livro de crônicas, Retalhos da Vida; para além de participação em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Celestina Fernandes recebeu o diploma de Mérito do Ministério da Cultura em 2009 e foi vencedora do Prêmio Jardim do Livro Infantil – 2010 com As Amigas em Kalandula.


Em 2010, compondo a coleção Pitanga da União dos Escritores Angolanos, Celestina Fernandes lança Os Dois Amigos, breve narrativa ilustrada por Victorino Kiala. Neste, a grande personagem é um sentimento universal: a amizade. Marito é um menino solitário que “sentia a falta de alguém com quem pudesse falar à vontade, alguém para partilhar as coisas boas e as más que aconteciam no dia a dia”, até que encontra a menina Ju. A afinidade acontece de imediato, durante a conversa falam onde moram, demonstram solidariedade ao compartilhar os doces e frutas que cada um tem. Em seguida, partem para as brincadeiras como o tradicional jogo da kiela e o da macaca. O dia passa, o sol se pondo, chega a hora da despedida e com ele a certeza de que iniciavam uma amizade.


A importância do livro infantil é introduzir a criança no mundo literário, ter a sensibilidade narrativa para cativar e aguçar a curiosidade do pequeno leitor, evitando o didatismo excessivo que subestime a sua inteligência. Por ter a amizade como a protagonista da história, Celestina Fernandes presta uma pertinente contribuição ao valorizar esse sentimento, a importância de saber ouvir e respeitar o outro. Condições que deveriam ser obrigatórias em nossas relações, mas que se tornam cada vez mais distantes de nós em um mundo de celebridades e de competição extrema.


Esse Os Dois Amigos de Maria Celestina Fernandes é um ótimo exemplo de como a literatura pode formar novos leitores e ser uma ferramenta fundamental para a formação do indivíduo com a sua maneira deliciosa de contar uma história, auxiliada pelas criativas e corretas ilustrações de Victorino Kiala, de caprichada e elegante edição, e de uma bem cuidada diagramação – apesar de tímida –, para além de atrair o interesse de um público estrangeiro, como o brasileiro, que se familiariza com as brincadeiras e as frutas angolanas, assim como as expressões em quimbundu inseridas no texto.

Os Dois Amigos
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Victorino Kiala
Luanda: União dos Escritores Angolanos, Coleção Pitanga, 2010

domingo, 15 de maio de 2011

PALESTRA E LANÇAMENTO DE "CABO VERDE: ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA"

DIA 19 de maio, às 19h, no Campus Millôr Fernandes - Universidade Estácio de Sá/Rio de Janeiro, ministrarei a palestra para os alunos do curso de Letras: A POESIA DE CABO VERDE. Na sequência haverá o lançamento de “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, de Ricardo Riso (Organizador).


Ano III, nº 13 – maio de 2011 – ISSN 1983-2354

CABO VERDE: ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA
António de Névada – Carlota de Barros – Danny Spínola – Dina Salústio – Filinto Elísio – José Luis Hopffer C. Almada – Margarida Fontes – Maria Helena Sato – Mario Lucio Sousa – Oswaldo Osório – Paula Vasconcelos – Vasco Martins – Vera Duarte


ILUSTRAÇÕES
Abraão Vicente e Mito Elias

ORGANIZAÇÃO
Ricardo Riso

Campus Millôr Fernandes - Universidade Estácio de Sá
Rua Dias da Cruz, 255/3º piso - Méier (Shopping Méier)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Contos Negreiros” de Marcelino Freire ou a vã tentativa de um eu enunciador negro


“Contos Negreiros” de Marcelino Freire ou a vã tentativa de um eu enunciador negro
Ricardo Riso
O pernambucano Marcelino Freire é hoje um nome consolidado no meio literário nacional, sendo uma das vozes celebradas por apresentar temas marginais ao texto literário, trazendo os desajustados sociais, escancarando as desigualdades sociais e econômicas do país. De sua lavra são, dentre outros, BaléRalé, Rasif e Contos Negreiros. Este, objeto desta análise.
“Contos Negreiros” recebeu caprichada edição da Record, em capa dura e formato reduzido. Reúne dezesseis pequenos contos aqui chamados de cantos em razão da marcante oralidade, do falar popular e também de associações ao repente nordestino, intenso uso da prosódia, frases curtas e dinâmicas, imagens breves e com certa virulência.
Antes de entrarmos em seu conteúdo, o livro apresenta uma capa intrigante e estimuladora de considerações que precisam de nossa exposição.  Temos, à frente, a fotografia de um homem negro, nu, de costa para nós, com o título escondendo suas nádegas. Enquanto a contracapa mostra o mesmo homem de frente, mas agora com o registro ISBN sobre a genitália como mais uma marca tatuada no corpo vilipendiado dos negros. As imagens circundadas e confinadas por um branco intenso, analogia à condição do negro na sociedade brasileira. Imagens de gosto duvidoso, expondo o corpo do negro de forma desnecessária.
O título adotado para esta obra merece algumas considerações. O adjetivo “negreiro” é, em nosso entendimento, no mínimo controverso para um livro que aparenta ter os negros como tema ou dar voz para nós. Negreiro associa-se ao tráfico de nossos antepassados, violentamente forçados a fazer a travessia do Atlântico; negreiro também era a maneira como se denominava a pessoa que tinha essa cruel atividade como seu emprego. Diante disso, o título do livro de Freire parece não levar em consideração às décadas de discussão a respeito dos vocábulos para referenciar a literatura produzida por escritores negros brasileiros excluídos do cânone nacional. “Literatura negra”, “literatura negro-brasileira” ou “literatura afro-brasileira” são alguns dos exemplos da complexidade dessa discussão, pois “essas expressões permitem destacar sentidos ocultados pela generalização do termo ‘literatura’. E tais sentidos dizem respeito aos valores de um segmento social que luta contra a exclusão imposta pela sociedade” (FONSECA, 2006, p. 13), afirma a ensaísta Maria Nazareth Soares Fonseca.
A ensaísta continua:
“essas discussões são importantes para que possamos compreender os mecanismos de exclusão legitimados pela sociedade. Por exemplo, quando nos referimos à literatura brasileira, não precisamos usar a expressão “literatura branca”, porém, é fácil perceber que, entre os textos consagrados pelo “cânone literário”, o autor e autora negra aparecem muito pouco, e, quando aparecem, são quase sempre caracterizados pelos modos inferirorizantes como a sociedade os percebe” (FONSECA, 2006, p. 13).
Segundo Eduardo Assis Duarte, o termo literatura afro-brasileira é “um conceito em construção, processo e devir. Além de segmento ou linguagem, é componente de amplo encadeamento discursivo (...) Constitui-se a partir de textos que apresentam temas, autores, linguagem, mas, sobretudo, um ponto de vista culturalmente identificado com a afrodescendência” (Apud: ALVES, 2010, p. 42).
Miriam Alves dá seguimento ao pensamento de Assis, pois esse conceito em construção
“consiste numa prática existencial para os seus produtores, que ressignifica a palavra negro, retirando-a de sua conotação negativa, construída desde os tempos coloniais, e que permanece até hoje, para fazê-la significar autorreconhecimento da própria identidade e pertencimento étnico-racial. Coloca em discussão a formação da identidade brasileira e desnuda o mito da democracia racial” (ALVES, 2010, p. 42).
Ou seja, a criação literária do escritor negro ultrapassa os limites do texto, “subverte não só o sistema literário brasileiro, mas também contesta a escrita da História brasileira” (EVARISTO, 2007, p. 12). Sendo assim, apreendemos que há toda uma história de luta de conscientização do negro e da afirmação do autor ou autora negro(a) na literatura brasileira, principalmente na forma de se expressar, de se autorreferenciar. Por isso, causa-nos perplexidade o título escolhido por Freire até quando pensamos em uma maneira de denunciar as condições desfavoráveis impostas e perpetuadas aos nossos irmãos na sociedade brasileira. É claro que somente isso não seria motivo para reprovarmos o equivocado nome da obra, mas, ainda assim, incomoda-nos a forma branda como a discriminação racial aos negros é tratada nos contos, o que pretendemos demonstrar a seguir.
Os curtíssimos contos (cantos) de Freire infelizmente apresentam visões estereotipadas de nossos irmãos, situações cotidianas nas quais o racismo à brasileira é escancarado, mas que não buscam a reflexão crítica das personagens nem do narrador. Surpreende a maneira banal como as ações acontecem, choca a estupidez das personagens e a incapacidade de raciocinar frente ao injustificável e cruel racismo e descobrir formas para sobrepujá-lo, como em “Curso Superior”. Neste, a personagem apresenta um medo irracional que a impossibilita de agir ao preconceito na faculdade – omitindo que o espaço educacional brasileiro é hostil em todos os seus segmentos ao cidadão negro que não se encontra representado positivamente durante a vida escolar: “O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei” (p. 97); o medo da namorada (loura) e os conflitos de aceitação que essa situação acarreta em uma sociedade que não vê com bons olhos os relacionamentos inter-raciais. Reflexões que o conto não estimula, mostrando a incapacidade de um diploma de alterar a realidade. Tristeza maior ao deparamo-nos com uma personagem que não consegue se libertar das amarras da autocensura.
A animalização do negro ganha contornos visíveis em “Totonha”, conto que a personagem se recusa a aprender a ler e não percebe nenhuma vantagem com a possibilidade de obter escolaridade. “O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico” (p. 79). O conto propõe a manutenção das desiguais divisões sociais, o negro deve ficar na posição subalterna que sempre ocupou. “Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior” (p. 80). A truculência e o comportamento animal são mantidos. Não satisfeito ao ridicularizar os negros que não tiveram acesso à educação, a voz da personagem, tática nociva do narrador, continua: “Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O prefeito que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber ler o que assinou. Eu é que não vou baixar a minha cabeça para escrever” (p. 81). Ou seja, propõe-se a absurda escolha pela ignorância, algo que nós negros sabemos que não é o caminho a ser seguido e é combatido por nós. Lamentável, simplesmente. Desrespeitosa a escolha de Freire ao colocar esta fala a uma personagem negra.
Corriqueiro, vergonhoso e baixo recorrer ao homem negro como objeto sexual no conto “Meu negro de estimação”. Novamente o autor demonstra despreocupação em ressignificar as marcas da nossa gente negra na sociedade brasileira. Os notórios exemplos de embranquecimento para ser aceito entre os brancos, a falta de instrução e o desprezo pelo passado são apresentados: “Se não entende de poesia, não fala. Quando o assunto é política, sai da sala. (...) Meu homem é uma outra pessoa. Não quer mais saber de samba. Nem de futebol. Não gosta de feijoada. Meu homem não quer voltar para casa” (p. 101-102). Em nosso entendimento, somente um escritor com uma mente presa ao passado escravocrata e que não consegue incorporar ao seu texto um eu enunciador negro seria capaz de utilizar abomináveis exemplos como os apontados até aqui e os que virão.
Vitupério maior se dá à mulher negra, historicamente discriminada, vilipendiada do direito ao desejo, aviltada do prazer para ser tratada como objeto sexual a serviço do homem branco, ou como muito bem esclarece Sueli Carneiro: “a apropriação sexual das mulheres do grupo derrotado é uns dos momentos emblemáticos de afirmação da superioridade do vencedor” (CARNEIRO, 2003, p. 49. Apud: EVARISTO, 2007, p. 24). A mulher negra e o seu corpo carregam marcas jamais lembradas, sendo necessário um profundo processo de aceitação e reconhecimento. A esse respeito, Miriam Alves afirma que:
“tendo em vista o aviltamento do qual foi vítima esse corpo negro que passou pela coisificação, mutilação, primeiro pela força da escravização, e depois seguido da automutilação, para aproximá-lo da estética branca alienígena à sua feição natural. Antes de tudo, é um corpo vitimado que necessita se desvencilhar das marcas da sexualização, racialização e punição nele inscritas para redefini-lo numa ação de afirmação e autoafirmação de identidade (...)” (ALVES, 2010, p. 71).
Diante das preocupações da escritora negra, cônscia de seu papel social transcendendo o literário, causa-nos repúdio a narrativa “Alemães vão à guerra” a explorar o turismo sexual – “Como as negrras do Nepal, tem. Das ilhas Virrgens também. É só ir. Feito as mocinhas da Guiana.” (p. 37) – e o menosprezo dos estrangeiros com a mulher negra brasileira registrado em um contato por telefone. Não à toa a preocupação com o corpo fragmentado por séculos de violência da mulher negra que Miriam Alves versa no poema “Compor, decompor, recompor”: “Olho-me/ espelhos/ Imagens/ que não me contêm./ Decomponho-me/ Apalpo-me” (FONSECA, 2006, p. 20).
Nossa indignação permanece ao constatar a insensibilidade ao tratar de uma prostituta, as situações maniqueístas de quem aguardou o casamento com um estrangeiro, mesmo ciente da possibilidade de ser escrava – “Mas valia. Menos pior que essa vida de bosta arrependida” (p. 41). A narrativa explora a violência policial e doméstica, mas trata de forma crua, apresenta a violência por si. “A vida dele é me chamar de piranha e vagabunda. E tirar sangue de mim. Cadê os meus dentes? Nem vê que eu estou esperando uma criança. Agora, disso ninguém tem ciência. Ninguém dá um fim. // Mulher como eu ser tratada assim” (p. 42). Triste realidade das mulheres negras, excluídas do padrão nacional de beleza. Avançando nessa questão, Conceição Evaristo frisa que esse corpo feminino negro
“de corpo-procriação e/ou corpo-objeto de prazer do macho senhor, não desenha para ela, a imagem de mulher-mãe, perfil delineado para as mulheres brancas, em geral. Observando que o imaginário sobre a mulher na cultura ocidental constrói-se na dialética do bem e do mal, (...) simbolizada pelas figuras de Eva e de Maria, e que o corpo da mulher se salva pela maternidade, a ausência de tal representação para a mulher negra, acaba por fixá-la no lugar de um mal não redimido” (EVARISTO, 2007, p. 21).
Insensibilidade maior e mais perversa por ser a protagonista uma criança encontramos no conto “Nossa rainha”. Uma menina idolatra a apresentadora Xuxa, “Eu quero ser Xuxa. Eu quero ser Xuxa. Eu quero ser Xuxa.” (p. 74). Entretanto, o conto omite-se ao não denunciar a perversidade de tal expectativa ilusória à criança negra, impossibilidade imposta por seu fenótipo, maldade que a criança não compreende e terá sua esperança minada ao longo do crescimento quando se deparará com as diferenças do fenótipo, distanciando-a do padrão de beleza brasileiro, assumidamente branco. De forma tímida e sem querer entrar na questão racial, na voz da mãe da menina, afirma: “Fazer isso com filha de pobre. Que horror! (...) Xuxa, Xuxa, Xuxa. Diz pra ela pensar em outra coisa, sonhar com os pés nos chão” (p.74-75). De novo a narração omite-se de apresentar os problemas raciais que nós vivemos, principalmente a criança negra que não encontra referenciais nos quais se espelhe e sonha o impossível, algo que no futuro gerará imensa frustração.
Diante de tantas omissões frente aos preconceitos que sofremos no cotidiano, não estranhamos que o preconceito racial seja escancarado entre personagens negras, como acontece em “Solar dos Príncipes”. Vemos com pesar o eu enunciador (branco) utilizar o célebre recurso defensivo do racismo à brasileira, aquele que insiste em afirmar que não há racismo do branco para o negro, mas que adora apontar o racismo entre nós. O conto narra a vontade de um grupo de jovens moradores de uma comunidade de fazer uma filmagem do cotidiano de quem vive em um prédio de classe média – “A ideia é entrar num apartamento do prédio, de supetão, e filmar, fazer uma entrevista com o morador” (p. 24). Contudo, os jovens são barrados na portaria por um assustado porteiro: “O porteiro apertou o apartamento 101, 102, 108. Foi mexendo em tudo que é andar. Estou sendo assaltado, pressionado, liguem para o 190, sei lá. (...) Esse porteiro nem parece preto, deixando a gente preso do lado de fora” (p. 25). Deplorável a escolha do autor.
Após a leitura de “Contos Negreiros” constatamos a incapacidade do eu enunciador de Marcelino Freire querer-se negro, incapaz de apresentar reflexões críticas aos dilemas, conflitos, anseios e dramas que nós, negros, vivenciamos. Os contos enfatizam o mundo cão, a violência desmedida, a mesma violência a qual foram submetidos nossos antepassados na saída forçada do continente africano e que persiste nos dias atuais. Denunciar a dureza da vida da maioria de nossos irmãos é pouco, muito pouco. Ainda mais com a visão estereotipada que as personagens apresentam, para além das situações inviáveis que tornam os protagonistas reféns dos destinos traçados, mantendo a forma pejorativa como o cânone literário brasileiro sempre tratou as personagens negras, assim como não busca interferir na rígida divisão social que sempre legou à população negra o seu espaço inserido na miséria e na falta de oportunidades.
Para finalizar, não precisamos de um livro que somente exponha nossas dores e fracassos, não apresente soluções para resistirmos à exclusão, não procure valorizar nossa autoestima tão massacrada, não respeite tantos escritores(as) negros(as) que no passado lutaram dignamente e hoje ainda continuam lutando para combater o atroz racismo que sofremos. Precisamos de escritores(as) que tenham comprometimento com a valorização e afirmação do negro, buscando uma palavra depurada e um criativo trabalho da linguagem literária que ressignifiquem nosso papel na sociedade, ressemantizem as máscaras do racismo, ampliem e renovem o termo “negro” longe dos significados negativos impostos no decorrer da história. Ou seja, privilegiando um apurado trabalho estético, esperamos nos defrontar com textos que rompam com a hipocrisia imposta envolvente das nossas relações inter-raciais e contribuam para o fim do litígio que nos oprime nesta sociedade. Caminho trilhado com brilhantismo por autores(as) como Cuti, Conceição Evaristo, Éle Semog, Miriam Alves, Cristiane Sobral, Carlos de Assumpção, Lia Vieira, Jamu Minka, Jônatas Conceição, Esmeralda Ribeiro e tantos(as) outros(as). Caminho que Marcelino Freire passou à margem, para além do desrespeito com a nossa história literária e social.


BIBLIOGRAFIA:
ALVES, Miriam. BrasilAfro autorrevelado: literatura brasileira contemporânea. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo. In: Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Ashoka Empreendedores Sociais/Takano Cidadania, 2003. Apud: EVARISTO, Conceição. Literatura Negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.
EVARISTO, Conceição. Literatura Negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.
FONSECA, Maria Nazareth Soares Fonseca. Literatura Negra, Literatura Afro-Brasileira: como responder à polêmica? In: Literatura Afro-Brasileira. Salvador/Brasília: Centro de estudos afro-orientais/Fundação Cultural Palmares. 2006. p. 9 – 38.
FREIRE, Marcelino. Contos Negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.

WEBGRAFIA:
DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e Afrodescendência. Disponível em www.letras.ufmg.br/literafro Apud: ALVES, Miriam. BrasilAfro autorrevelado: literatura brasileira contemporânea. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.

quinta-feira, 24 de março de 2011

José Luiz Tavares - Lisbon Blues


José Luiz Tavares - Lisbon Blues
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 186, p. 10, de 24 de maio de 2011.
A mudança de paradigma na poesia cabo-verdiana atestada por T. T. Tiofe em uma de suas epístolas publicadas no “Primeiro e Segundo Livro de Notcha” em razão de novos caminhos estético-formais, por uma poesia de indagações ontológicas e metafísicas assim consagradas nos “Exemplos” de João Vário, encontra, dentre vários poetas revelados dos anos 1980 para cá, o logro da superação na legítima e autêntica produção poética de José Luiz Tavares.
O livro “Lisbon Blues seguido de Desarmonia” (2008), da editora Escrituras (São Paulo/Brasil), tem posfácio de José Luis Hopffer C. Almada e ilustrações de Fernando Pacheco.
Ao vagar pelas ruas de Lisboa, Tavares apresenta sua cartografia da cidade. Peculiar é o olhar do poeta, de estrangeiro, de “moreno das ilhas”. “A mão que escreve inflama-se” ao passar por diversos lugares, passeios no elétrico, mulheres, turistas, desejos e anseios do poeta beirando o onipresente Tejo. E assim o “poeta duro” transfigura a “agreste matéria” “deste pobre ofício de palavras a que me entrego”.
O extremo rigor com o seu ofício e a exasperação da palavra poética depurada é a busca de Tavares, fazendo da agonia da tessitura poética motivo para explanar com elegância a trivialidade do cotidiano: “Apesar da ignorância da rota desses navios/ que descem o tejo, da mulher que nos subúrbios; os vê passar tão rente à sua mágoa,/ da moça tímida espiando o mundo/ da janela que em breve o escuro virá selar,// ficam bem os sinos esvoaçando sobre a tarde/ de inverno em que busca a justa palavra/ e não vê deus a tua aflição: o que cala,/ o que finge, o que mente – agreste destino/ que te cabe, tingindo pelo clarão da dúvida”.
Exacerbação da linguagem a serviço de uma incessante procura para melhor atingir uma estética rigorosa, inovadora e própria, aliando formas renascentistas, como o soneto, à versificação livre moderna. Para este “arqueólogo da língua”, no dizer de António Cabrita, que faz uso corrente de vocábulos raros e de “palavras que quase só têm lugar nos dicionários do português”, conforme declara Fátima Monteiro citada por Almada: “Entre a tusa e o lumbago arfa, insone, o polegar. O esmalte/ com que disfarça a ciática,/ que mesureiro caronte lho afiança?”. É com essa estética da expressão manifestada pelo requinte da linguagem, por vezes pictórica, que não impede a associação ao vulgar configurando fortes imagens: “A reboque de frases póstumas, num semáforo,/ à rapariga de cu redondo fescenino soneto// prometi”.
Em “Desarmonia” “me entreguei feito escravo do soneto”, diz. Mas para um poeta duro e que “leva a vida em riste” a metapoética é virulenta, o ofício torna-se ofegante transpiração e coerente com a aspereza da “Oficina irritada”, de Drummond, o soneto de abertura deste livro. Tavares demonstra destreza nas aliterações, assonâncias, rimas internas, prosódias, procura transgredir imagens e “busca o incerto elo// que une o tigre e seu modelo (...)// no ser e parecer”. Tal como Drummond, “Eu quero compor um soneto duro”, Tavares afirma que “Não fala esta poesia de coisa casta”. Logo, expandir a rigidez do soneto é uma preocupação constante, seja pela temática: “Flitena, eritema, eczema – pra soneto/ não serão baixo tema?”; seja na inspiração em Drummond: “E agora, josé, estribado vais num/ único pé, para loja e para o café// (...) mas, nas dores que os versos reinventam,// atenção ao metro, que este soneto, apesar/ de louvor ao manco pé, ao bardo aretino/ tira o boné”. Obsessiva é a transgressão do fazer poético e ironiza a rigidez das regras: “em que o metro é o polícia sinaleiro,/ quase divindade que em outra vida/ hei temido (por isso este jeito mesureiro)”.
Lê-se: “digam lá se a poesia fez ou não progressos”. Sim para este multipremiado poeta comprometido com a reinvenção da linguagem, ampliando os limites da poesia com sintaxe e semântica próprias. José Luiz Tavares é um nome incontestável da contemporaneidade e substantivo esse “Lisbon Blues seguido de Desarmonia”.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Resenha d'A Febre dos Deuses no jornal Notícias (Moçambique)

Minha resenha para o livro de contos A FEBRE DOS DEUSES, do jovem moçambicano Andes Chivangue foi publicada no caderno cultural do jornal Notícias (Moçambique), do dia 9 de março de 2011. Para fazer a leitura do texto, clique aqui.
Meu agradecimento especial ao Andes Chivangue e ao Manecas Cândido.
Ricardo Riso

Mario Lucio Sousa – Para nunca mais falarmos de amor (resenha)

Mario Lucio Sousa – Para nunca mais falarmos de amor

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 184, p. 10, de 10 de março de 2011.
O poeta Mario Lucio Sousa, pseudônimo de Lúcio Matias de Sousa Mendes, nasceu a 21 de outubro de 1964, no Tarrafal, Ilha de Santiago. Já possui uma considerável obra literária que tem se destacado pela variedade estética. De sua lavra são os títulos: Nascimento de Um Mundo (poesia, 1991); Sob os Signos da Luz (poesia, 1992), Para Nunca Mais Falarmos de Amor (poesia, 1999), Os Trinta Dias do Homem mais Pobre do Mundo (ficção, 2000 – prêmio do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa) e O Novíssimo Testamento (ficção, 2010). Além disso, o poeta também atua no teatro e na música, sendo nesta atividade um dos principais nomes de Cabo Verde no estrangeiro.
Em “Para nunca mais falarmos de amor”, sob a chancela da Edições Artiletra, o poeta brinda-nos com uma temática destelurizada do cânone literário cabo-verdiano, poemas breves e concisos em dísticos, tercetos e quadras, para além de agradáveis experiências com os hai-kais e a poesia zen. Destacamos a capa do livro que merece atenção especial por se tratar de uma carta do poeta escrita à mão, indicando o que poderia ser uma dolorosa viagem intimista no decorrer das páginas, condição que somente a leitura avaliará.
Neste livro, em razão das formas curtas optadas pelo poeta, o instante poético é captado com extrema sensibilidade em imagens inusitadas, por vezes irônicas, e em muitos poemas prevalece a melancolia e a amargura. A fugacidade da inspiração é sentida na observação da simplicidade do cotidiano, na harmonia plena com a natureza: “Quando a ave voa/ o vento espreita e monta”. Neste, inferimos a leveza do sujeito lírico apropriando-se do voo e do ar, símbolos da liberdade incorporados à poesia. Liberdade para vivenciar e expressar em matéria poética o que para muitos poderia ser considerado banal: “Manhã/ Palavra que nunca adormece”.
A influência da poesia oriental nos poemas de Mario Lucio é pertinente por apresentar questões que desestabilizam nossos sentidos. O ato de se sentir no mundo é questionado, há uma preocupação de demonstrar a “consciência da nossa fragilidade e da precariedade da nossa existência” no mundo, conforme afirma Octávio Paz no artigo “A tradição do haiku”. Sensação que fica ainda mais evidenciada pelo uso da linguagem coloquial e pela brevidade do poema: “Tudo pode mudar/ o que não sabemos/ é que não”.
Beleza enobrecedora do instante poético, o corte abrupto, perplexidade, silêncio. A dificuldade de dizer conduz à reflexão sobre a linguagem: “Nunca usei esta palavra./ Não há de agora ser. Não há/ Sofro em silêncio”. Obstáculo que transporta para a livre associação, para o absurdo zen: “Voltarei a nadar como dantes/ nem que seja numa mão d’água sobre/ a minha cabeça”.
A dor da perda amorosa gera melancólicos poemas. A brevidade dos versos contrapõe-se ao sofrimento imensurável: “A luz, essa/ fugiu dos teus olhos./ Não vês” ou “Hoje, tenho comigo todas as tristezas do Mundo./ – São assim tantas?” O lirismo amoroso comparece acompanhado de tristeza e solidão: “Mesmo que acabe o amor/ eu estarei aqui./ Fui amado. Amei”. Do angustiante sentir, a continuidade após os estilhaços da dor: “Viverei sozinho esta Eternidade./ Ninguém saberá o que dizer/ que o Mundo quase acabou para mim”.
Assim atravessamos com satisfação os oitenta e quatro pequenos poemas de “Para nunca mais falarmos de amor”, carregados de sinceridade, em alguns momentos dolorosos, reveladores de um artista com a sensibilidade à flor da pele e pronto para desnudar o belo da poesia, o bom de viver. Trata-se de mais uma interessante e gratificante investida de Mario Lucio Sousa na literatura.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Arménio Vieira e Filinto Elísio no Cronópios

Neste final de semana tive meus dois primeiros textos publicados no Cronópios, influente portal de literatura brasileira. São as minhas resenhas para Li Cores & Ad Vinhos, de Filinto Elísio, e O Poema, a Viagem, o Sonho, de Arménio Vieira. Fico feliz por contribuir à visibilidade da literatura cabo-verdiana contemporânea em um outro e amplo espaço dedicado à literatura.
Abraços,
Ricardo Riso

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Manuel Bandeira e Filinto Elísio – transgressão e ironia em prol da poesia


Manuel Bandeira e Filinto Elísio – transgressão e ironia em prol da poesia
Ricardo Riso
24-26 de fevereiro de 2011
RESUMO: Incontestável a influência de Manuel Bandeira na poesia cabo-verdiana, motivando imagens de esperança como a “estrela da manhã” e movimentos literários como o pasargadismo evasionista e utópico assumido pelos escritores da revista Claridade, assim como reações contrárias, como o antipasargadismo, da geração da Nova Largada, de intensa reivindicação político-social. Por causa da emergência histórica da luta anticolonial, a ironia, figura marcante na poética de Bandeira, e o jogo lúdico com as palavras foram relegados no decorrer das décadas. Filinto Elísio, poeta revelado nos anos 1980, recupera essas características de Bandeira e mostra-nos o quanto um olhar ampliado para a obra do poeta brasileiro ainda pode apresentar novos referenciais para a poesia de Cabo Verde.

É notória a influência do modernismo brasileiro na literatura de Cabo Verde, mais precisamente na geração da revista Claridade (1936-1960), representanda, dentre tantos outros, por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes. Os claridosos, assim conhecidos, visualizavam no exemplo dos modernistas brasileiros uma vertente para pensar o arquipélago, suas contradições e dilemas distanciando-os da metrópole portuguesa. Surge nos intelectuais desse período, pois a Claridade não era uma revista apenas de literatura e abarcava outras áreas do saber, um olhar aprofundando dos problemas sociais do país, ou como afirma Manuel Ferreira: “Os modernos textos brasileiros andaram de mão em mão no momento em que os jovens intelectuais cabo-verdianos descobriam a urgência de rigorosa objectividade socio-literária” (FERREIRA, 1985, p. 261).
Baltasar Lopes, um dos idealizadores dessa proposta, assim narra a recepção dos textos dos modernistas brasileiros:
Há pouco mais de vinte anos eu e um grupo de reduzidos amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção o José Lins do Rego d’O menino de Engenho e do Bangüê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rabelo d’O caso da Mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um ‘alumbramento’ a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. (idem, p. 259)

Para além dos romances regionalistas – e aqui podemos acrescentar “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos –, percebemos o impacto causado pela poesia de Manuel Bandeira na geração claridosa e “as reverberações do tema de Pasárgada, colhido da poesia de Manuel Bandeira, alçaram-no a matriz poética do arquipélago, tendo como seu principal cultor o poeta Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) que o legou entusiasticamente a outros escritores” (GOMES, 2008, p. 115). Dessa maneira, Osvaldo Alcântara, com maior ênfase, e outros escritores cabo-verdianos seguem o verso de Bandeira, “Não quero mais saber do lirismo que não é libertador”, e incorporam o pasargadismo que inspirou o desejo de evasão para outro espaço conotado a justiça social e no poder libertador da palavra poética.
Entretanto, o evasionismo proposto pelo pasargadismo e o desejo de emigrar sofreram severas críticas com o passar dos anos em razão da insustentável submissão colonial, já com a revista Certeza (1944), de cariz marxista, e a geração da Nova Largada contrária ao pasargadismo, ao evasionismo e ao terra-longismo, porém a favor de um olhar que recuperava as raízes crioulas e de veementes críticas ao colonialismo, para dissabor da metrópole, mas ainda assim “conservando a lição do quotidiano e o substracto telúrico veiculados pelos claridosos” (ALMADA, 2010, p. 3). Vários são os poetas da Nova Largada, dentre tantos, Aguinaldo Fonseca, António Nunes, Yolanda Morazzo, Ovídio Martins, chegando a atingir nomes revelados ao final dos anos 1950, tais como Onésimo Silveira, Mário Fonseca, Oswaldo Osório, Arménio Vieira e Kaoberdiano Dambará. Essa postura radicalizada dos novalargadistas é muito bem exposta no poema Anti-evasão de Ovídio Martins, que é enfático no seu antipasargadismo: Pedirei/ Suplicarei/ Chorarei// Não vou para Pasárgada// Atirar-me-ei ao chão/ e prenderei nas mãos convulsas/ ervas e pedras de sangue// Não vou para Pasárgada/ Gritarei/ Berrarei/ Matarei// Não vou para Pasárgada (ANDRADE, 1977, p. 48.)
Na década de 1950, as guerras de libertação das colônias africanas tornaram-se uma realidade e revelavam ao mundo o absurdo do colonialismo, os ideais pan-africanistas espalhavam-se pelos continentes, fundava-se o PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné e Cabo Verde) sob a liderança de Amílcar Cabral, mas antes este jovem lançava um importante texto “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”[i] (1952), premonitório no dizer de Manuel Ferreira (FERREIRA, 1985, p. 304), acerca dos novos rumos que caberiam aos futuros atores da literatura cabo-verdiana assumirem após o chão fecundado por Claridade e Certeza:
Os seus poetas – o contato com o mundo é cada vez maior – sentem e sabem que, para além da realidade caboverdiana, existe uma outra realidade humana de que não podem alhear-se. Sentem e sabem que não é apenas em Cabo Verde que há “gritos lancinantes pela noite silenciosa” e “homens vagabundos” que “fitam estrelas que a madrugada esculpiu”. (...)
Mas a evolução da poesia cabo-verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a “resignação” e a “esperança. A “insularidade total” e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene. As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho da evasão, o desejo de “querer partir” não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos poetas – os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum – compete cantá-lo. O caboverdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos poetas. (CABRAL, 1976, p. 21)

Na virada dos anos 1950 para 1960 a intransigência da ditadura salazarista também seria sentida, a repressão aumentaria sua escala desencadeando as guerras coloniais. Por outro lado, poetas como Mário Fonseca, que parafrasearia a “postulação irritada da fraternidade” (FONSECA, 1998, p. 166) de Aimé Cesaire, marcam a mudança de postura de sua geração e o antipasagardismo seria radicalizado em suplementos literários como Suplemento Cultural (1958), Boletim Gil Eanes (1959) e Seló (1962). Ruptura que seria escancarada por Onésimo da Silveira, representante da “geração que não vai para Pasárgada”, no seu “Consciencialização da literatura caboverdiana”, livro com severas críticas – e injustas, frisamos – aos claridosos, motivando o poeta e ensaísta a afirmar que:
a literatura caboverdiana, estando profundamente ferida de inautenticidade, não traduz nem produziu uma mentalidade consciencializada e daí se ter tornado, como não é difícil verificar, em título de prestígio da elite que a vem encabeçando e não em força ao serviço de Cabo Verde e suas gentes. (SILVEIRA, 1963, p. 8)

O cantalutismo passaria a prevalecer na poesia, a independência das duas pátrias-irmãs assim sonhada por Amílcar Cabral se concretizaria.
Entretanto, com as décadas de 1980/1990, as transformações político-sociais não se realizam e os escritores começam a sentir a necessidade de discutir os rumos que a nação seguiu, assim como os caminhos da poesia, estagnados desde então. Segundo Carmen Lucia Tindó Secco:
Após a euforia da independência, no final dos anos 80 e início de 90, a novíssima “geração” de escritores começou a denunciar o vazio cultural no Arquipélago, além de constatar que a fome e a miséria não foram extintas. Houve uma desilusão em relação aos valores cantalutistas que animaram a poética da independência. A poesia então, deixou de cantar apenas o social e passou a operar também com os sentimentos individuais, com o existencial e o universal. Esse novo lirismo se caracterizou por construções metapoéticas e passou a repensar tanto os caminhos sociais, como os da própria poesia. (SECCO, 1999. p. 20)

Salutar recordarmos as pertinentes observações contidas nas epístolas de Timóteo Tio Tiofe (heterônimo de João Manuel Varela) e merecedoras de nosso logro acerca das responsabilidades das gerações posteriores à Claridade – nesse momento por um prisma diferente do mencionado por Cabral –, como muito bem apontou o poeta em sua “Primeira Epístola ao irmão António”, datada do ano de 1974. As críticas são incisivas diante do panorama literário do país, pois Tiofe aspira que
(...) os nossos poetas sejam mais exigentes na sua preparação cultural e na factura da sua poesia que os seus predecessores. A poesia cabo-verdiana está numa encruzilhada. Possuímos um antepassado de valor Jorge Barbosa. Precisamos ultrapassá-lo para fazer progredir a poesia do nosso país. (TIOFE, 2001, p. 136)
e assim encerra:
Nunca me cansarei de proclamar: para nós, escritores de hoje, tal é a maior herança que nos deixaram os homens da Claridade. Ela não é pequena, mas, justamente porque reconhecemos a nossa dívida, é importante saber onde pararam, até onde chegaram, para podermos ir mais longe. E aqui recordo: eles lançaram as bases duma “escrita cabo-verdiana” e cabe agora aos que seguem dar uma certa envergadura a essa escrita específica e estruturá-la, torná-la, numa palavra, digna do nome de literatura. (idem, 2001,  p. 144)
Posteriormente, Tiofe, na “Oitava Epístola ao irmão António”, atestaria a transformação da poesia cabo-verdiana e a compreensão da poesia de cariz metafísico de seu outro heterônimo, João Vário. “Há já alguns anos que muitos patrícios começaram a aceitar esse tipo de poesia, como a praticá-la. Em suma, mudou-se o paradigma” (TIOFE, p. 303). A poesia de Vário sofreu pesadas críticas e foi legada ao ostracismo como bem apontou o poeta e ensaísta José Luis Hopffer Almada no artigo “Que caminhos para a poesia cabo-verdiana? Parte II – O Exemplo já antigo de João Vário” (ALMADA, 2010), desde que sua escrita veio à luz em pleno período cantalutista. Tal discriminação já havia sido relatada por Manuel Ferreira e que reclamava a reintegração de João Vário às letras do arquipélago:
Trata-se de um corpus a ser reintegrado, como se disse, na literatura cabo-verdiana, ainda que os temas, as mensagens, a linguagem, independentemente da sua importância e qualidade, não se ajustem àquilo que se vem convencionando chamar-se a cabo-verdianidade. Mas (...) não há mais fundamento para uma discriminação deste teor, exclusivamente de caráter estético-ideológico. (FERREIRA, 1986, p. 63-64)
Como veio a emergir nas décadas de 1980/1990, o panorama mudou com a empolgação de uma nova geração de poetas que começava a se revelar em publicações diversas como Sopinha de Alfabeto, Voz di Letra, Ponto e Vírgula, Aríope, Raízes, Fragmentos etc. até serem reunidos na Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas caboverdianos, organizada por José Luis Hopffer C. Almada. No prefácio da obra, Almada faz analogia à flor do deserto, a mirabilis, e procura mostrar a força de uma geração amargurada com os descumprimentos das promessas feitas pela revolução, e assim exprimir a força do verbo poético como local de reflexão do tempo em que vive:
Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário, desse tempo querendo-se vegetação literária. No deserto, cresce a geração mirabílica, feita signo na margem desértica do mar. De veias ao sol. As veias da indagação. As veias alagadas da terra das estradas, da poeira do dia-a-dia, do massapé dos campos, do lixo dos caminhos suburbanos, do desespero recoberto de moscas, baratas e outros vermes. As veias loucas do mar, do marítimo lirismo dos dias afogados nos ciúmes dos montes. As veias, veias de vida, de morte, de desespero, das quatro estações místicas do que se medita no refúgio do silêncio. Veias do camponês e da enxada neste coito de séculos com a terra. Ao sol, hipócrita por entre a bruma e os cerros. Sol, signo de luz. Sol que ilumina. Sol que queima e ofusca o caminhar. Sol dependurado da perseverança secular.
Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol.
“No Deserto cresce a Mirabilis”. Diz o poeta Orlando Rodrigues. “Embora de veias ao sol”. Adita Rodrigo de Sousa, para que das imagens do deserto cresçam as palavras da nossa geração e delas reste, ao menos, o cadáver da poesia. Sugere Mito, o poeta plástico, ou que o cadáver se metamorfoseie em flor e espinho, num panorama azul, de onírico, sugere Mito, o plástico poeta. Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica. (ALMADA, 1991. pp. 26-27)

Hoje é com bom grado que “a existência de um sistema literário cabo-verdiano consolidado tem servido de esteio aos novos poetas e ficcionistas para trilharem caminhos diferenciados”, como afirma Hopffer Almada (ALMADA, 2010, p. 3). Sendo assim, ter a liberdade para revisitar a obra de Manuel Bandeira sem as referências à “estrela da manhã” ou ao pasargadismo, ou ao antipasargadismo, podemos dizer que é uma conquista consolidada pela chamada geração mirabílica, frisando sempre a heterogeneidade dessa geração que jamais se configurou um grupo unificado. Fato este que não impede de receber críticas daqueles que acusam esses poetas de “inautenticidade e apatridia literárias”, pois se deveria respeitar
uma imaginada ou real autenticidade literária caboverdiana, devendo ser, por isso, tratada como património e causa intocáveis e devidamente preservada de malfazejos desvios, contaminações e outras conspurcações estéticas, estético-ideológicas e temáticas (ALMADA, 2010, p. 1).

No entendimento dessa crítica, isso seria assaz grave, pois esse “novo evasionismo teria como característica diferenciadora e distintiva a fuga pura e simples ao tratamento de temáticas tipicamente caboverdianas” (ALMADA, 2010, p. 1).
Todavia, a arte é feita de transgressão, de desafios ao cânone estabelecido e ninguém melhor que o cabo-verdiano da ilha de Santiago, Filinto Elísio Correia e Silva, para representar essa postura em seu já longo percurso literário, que passa pela poesia, crônica e romance com enorme desenvoltura e excelência. Dentre tantos títulos, destacamos Li Cores & Ad Vinhos (poesia, 2009) e Outros sais na beira mar (romance, 2010).
O sempre ousado Filinto Elísio recupera uma característica de Manuel Bandeira que foi pouco explorada na literatura cabo-verdiana, trata-se da verve irônica que tanto marcou a versátil obra poética do modernista brasileiro. A ironia e o seu poder de desestabilizar, ampliando e ressignificando os sentidos anestesiados pelo cotidiano encaixa-se perfeitamente na subversão da linguagem, naquilo que Roland Barthes assim enuncia como “trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem” (BARTHES, 1977, p. 16). Trapaça praticada por Elísio desde a saudosa e provocadora revista Sopinha do Alfabeto (1986), idealizada pelo artista plástico e poeta Mito Elias, que foi lançada durante o cinquentenário da revista Claridade e “contribuindo assim para o combate à quase letargia cultural em que nos mergulhamos.”
Nos poemas de Bandeira a ironia aparece de diversas formas. Portanto, é importante recordarmos a sua presença na poesia como ao final de “Pneumotórax”: “ – O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado./ – Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?/ – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino” (BANDEIRA, 1976, p. 63).
Ou seja, diante do inevitável mal, a ironia faz-se presente e eleva a pertinência da arte na vida. De outra maneira, o sujeito lírico recorre à banalidade do cotidiano para expor a tragicidade do homem no “Poema tirado de uma notícia de jornal” e com o seu final inesperado que, de tão estúpido, chega a ser irônico: “João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número / Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/ Bebeu/ Cantou/ Dançou/ Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.” (idem, p. 73).
Célebres são os poemas onomásticos reunidos no livro Mafuá do Malungo, como se o poeta quisesse decifrar signos ocultos nos nomes, sente-se estimulado a criar poemas inteiros a partir de antropônimos, desvelando a ludicidade com que trata a poesia, como no singelo Eunice: “Eunice meiga,/ Eunice linda.../ Que mais ainda?/ – Eunice Veiga!” (idem, p. 197). Decifração que o faz apelar para o neologismo, diante daquilo que a vivência diária está impossibilitada de oferecer e das regras normativas e restritivas da língua determinam, que somente a palavra poética, libertária por si, pode manifestar: “Beijo pouco, falo menos ainda./ Mas invento palavras/ Que traduzem a ternura mais funda/ E mais cotidiana./ Inventei, por exemplo, o verbo teadorar./ Intransitivo:/ Teadoro, Teodora. (idem, p. 136).
As figuras de som como a onomatopeia e as propostas modernistas de transgressão irônica apropriam-se de temas populares e do folclore, alimentando o fazer poético e tornando-se marcantes no poema “Berimbau”: “Os aguapés dos aguaçais/ Nos igapós dos Japurás/ Bolem, bolem, bolem./ Chama o saci: - Si si si si!/ - Ui ui ui ui ui! uiva a iara/ Nos aguaçais dos igapós/ Dos Japurás e dos Purus.” (idem, p. 56).
O jogo lúdico com as palavras possui uma associação fundamental na poesia de Bandeira, a musicalidade. Esta originada da própria essência da poesia, ainda assim recriada pelo poeta que se apropria de canções populares para transformá-las em poemas, tais como “Na rua do sabão” com os seus versos iniciais “Cai cai balão” e em “Rondó do Capitão” e o seu “Bão balalão”. Nos dois poemas a ironia se apresenta de forma melancólica. No primeiro, um menino pobre monta o seu balão e o solta, só que as outras crianças da sua rua tentam derrubar o seu balão, mas “como se o enchesse o soprinho tísico do José”, alcançando o céu e caindo longe dali, “caiu no mar – nas águas puras do mar alto” (idem, p. 55). Enquanto no segundo, versa-se a partir do suplicante pedido para que o senhor capitão retire o peso do coração do sujeito lírico, a amargurada esperança.
Após essa breve apresentação das manifestações transgressoras da ironia e da ludicidade com as palavras na poesia de Manuel Bandeira dentro do panorama literário brasileiro de sua época, podemos passar para o poema “arre_pendência” do seu novo livro, Me_xendo no Baú, de Filinto Elísio, e tentarmos demonstrar como a vertente irônica está presente na obra deste praiense, quais os recursos utilizados e quais as associações com Bandeira.
Filinto Elísio tem pleno domínio do ritmo, da métrica, da musicalidade da palavra poética, assim como Manuel Bandeira. No poema “arre_pendência”, a transgressão da linguagem proposta por Elísio remete-nos à ironia e à musicalidade do brasileiro, mas a transgressão da linguagem se anuncia na contaminação de termos e sinais gráficos da internet na poesia. Elísio criativamente faz farto uso das consoantes, o que nos faz recordar Bandeira no celebradíssimo poema “Os Sapos”: “O meu verso é bom/ Frumeto sem joio./ Faço rimas com/ Consoantes de apoio” (idem, p. 25). Esse predomínio das consoantes é uma característica da linguagem usada pelos jovens que suprimem as vogais em seus textos na internet. Enquanto isso, o sujeito lírico elisiano associa o som dos fonemas ao sentido das palavras: “S exílio/ S lírio/ C de cílio/ e de você/ esse delírio” (ELÍSIO, 2011, p. 49). Valendo-se da ironia e da ludicidade com as palavras, Elísio nos apresenta esse delírio surrealista de fortes conotações concretistas e assim incorporando a importância do aspecto visual ao poema. Para além do exposto, contemporâneo que é e procurando expandir os limites do fazer poético, apropria-se da maneira como as consoantes são empregadas na web: “acha o povo/ seu/ k/ minho” (idem, p. 49).
O seu propósito de “desoficinar a poesia” neste Me_xendo no Baú chama atenção pelo farto uso da tecla “underscore”  - “_” - (ou underline), deslocando nossos sentidos como no título do poema, um neologismo que já nos impressiona por si, mas também pela carga de ironia que contém, “arre_pendência”. E não há arrependimentos nos riscos aos quais o poeta se submete.
Depreendemos que a poesia elisiana se propõe inovadora, por isso o sujeito lírico afirma aos leitores: “existencializa-te/ cristaliza-te/ upgrada-te” (idem, p. 49); ou seja, há uma necessidade de renovar os olhares perante as novas tecnologias que pertencem ao nosso cotidiano, procurar absolver a revitalização da linguagem poética e assim encarar as experiências que o sujeito lírico anuncia. Entretanto, parecendo prever o apedrejamento que será exposto com suas transgressões, o sujeito lírico protege-se inserido no caminho vanguardista escolhido, provoca com as novas manifestações da arte – o grafitti e a webart – e solicita: “mas/ não me piches/ no graffiti/ nem me_gapixels/ em photoshop” (idem, p. 49).
Além do diálogo com a ironia e a ludicidade de Bandeira, este “arre_pendência” de Filinto Elísio apropria-se dos versos iniciais do poema “Rondó do Capitão” do poeta brasileiro. Este poema foi mais um dentre vários inspirados nas cantigas infantis e temas folclóricos. Elísio, que brinca com as palavras como Bandeira, recria os versos da cantiga, “bão balalão/ senhor capitão”, fazendo deste uma anáfora e renovando o segundo verso: “bão balalão/ cabeça de cão” e “bão balalão/ não tem coração” (idem, p. 49) para em seguida expor livres associações de ideias, típicas do automatismo surrealista.
Consciente de que “broxa rima” (idem, p. 49), o sujeito lírico experimenta a onomatopeia em “ta te ti to tu/ ou/ tu to ti te ta” (idem, p. 49) para logo após incorporar o olhar crítico e castrador dos que rejeitam as inovações, “(andas maluco tu)” (idem, p. 49). O sujeito lírico segue fazendo arte com as palavras, explorando a polissemia, homenageando pensadores, degustando o sabor da palavra, “viva sartre/ arte/ tarte de limão” (idem, p. 49), para encerrar de forma inusitada e irônica essa grata transgressão poética: “consorte// queres beijo/ ou/ pão de queijo?” (idem, p. 49).
Assumir a transgressão da linguagem poética requer uma dose excessiva de coragem, algo que a obra literária de Filinto Elísio vem demonstrando com enorme escala ao longo dos anos. Neste arre_pendência, e podemos estender para todo o conteúdo de Me_xendo no Baú, Elísio parece estimulado pelos versos do poema-manifesto “Poética”, de Manuel Bandeira, no qual o vate brasileiro afirma estar “farto do lirismo comedido/ Do lirismo bem comportado”, portanto vaticina: “Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbedos/ O lirismo difícil e pungente dos bêbedos/ O lirismo dos clowns de Shakespeare// - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” (BANDEIRA, 1976, p. 63-64).
Sendo assim, explorando novas possibilidades semânticas que os recentes meios de comunicação podem oferecer, mantendo a preocupação e a busca incessante por uma palavra cada vez mais depurada, Filinto Elísio navega com desenvoltura entre a tradição e a modernidade do sistema literário cabo-verdiano com uma escrita que recupera de Manuel Bandeira a sua ironia e a sua ludicidade, de maneira desassombrada das reivindicações sociais da “estrela da manhã” ou de quaisquer referências pasargadista ou antipasargadista comuns às letras do arquipélago, porém de extrema necessidade em suas épocas.
Com seu “hino de liberdade”, o poeta apresenta-nos uma original proposta poética que provavelmente incitará e incidirá aos mais jovens a busca por novos caminhos, mostrando-os a vitalidade da poesia produzida em Cabo Verde, da possibilidade de se percorrer uma trajetória que pode se afastar do telurismo evasionista identitário ou de reivindicações sociais novalargadistas e dialogar com propostas vanguardistas distantes daquelas que determinada crítica de alguns em algures, de natureza tradicionalista, pretende manter engessadas. O poeta praiense demonstra que ainda há um vasto mar a ser navegado, transgredindo e ressemantizando palavras, deslocando imagens e sons, desestabilizando os sentidos inertes e esmorecendo aqueles que querem uma poesia sem riscos. Filinto Elísio, este vate, faz da sua insularidade na literatura de Cabo Verde um vasto mar a ser navegado. Sem medo.



BIBLIOGRAFIA:
ALMADA, José Luis Hopffer C. Mirabilis – de veias ao sol. Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Lisboa: Caminho, 1999.
ALMADA, José Luis Hopffer C. Problemáticas lusógrafas e o papel da língua portuguesa na emergência da identidade literária caboverdiana e na universalização da poesia caboverdiana contemporânea. África e Africanidades. Rio de Janeiro, Ano 3, n. 11, p. 1-43, novembro, 2010.
ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais – Volume I. Lisboa: Sá da Costa, 1977.
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1977.
BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
CABRAL, Amílcar. Apontamentos sobre a poesia caboverdiana. In: Vozes. Petrópolis, n. 1, p. 15-21, 1976.
ELÍSIO, Filinto. Me_xendo no Baú. Lisboa: Letras Várias, 2011.
FERREIRA, Manuel. Aventura Crioula. Lisboa: Plátamo, 1985.
FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.
FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1998.
GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.
SILVEIRA, Onésimo. Consciencialização na literatura caboverdiana. Lisboa: Edição da Casa dos Estudantes do Império, 1963.
TIOFE, Timóteo Tio. O Primeiro e o Segundo Livro de Notcha. Mindelo: Pequenas Tiragens, 2001.

WEBGRAFIA:
ALMADA, José Luis Hopffer C. Breves apontamentos a propósito de recentes polémicas sobre a identidade literária caboverdiana. Disponível em < http://tertuliacrioula.com/2010/08/que-caminhos-para-a-poesia-caboverdiana-parte-1/ > Acessado em 27 de agosto de 2010.
ALMADA, José Luis Hopffer C. Que caminhos para a poesia cabo-verdiana? Parte II – O exemplo já antigo de João Vário. Disponível em < http://tertuliacrioula.com/2010/08/que-caminhos-para-a-poesia-caboverdiana-parte-2/ > Acessado em 27 de agosto de 2010.
SOPINHA DE ALFABETO. n. 1, p. 1, 1986. Disponível em < http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag1.htm > Acessado em 24 de fevereiro de 2011.





[i] Amílcar Cabral, “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”, in Cabo Verde – Boletim e Propaganda e Informação, ano III, nº 28. Praia, Cabo Verde, 1 de janeiro de 1952.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Filinto Elísio e os novos caminhos para “desoficinar a poesia”


Filinto Elísio e os novos caminhos para “desoficinar a poesia”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 182, p. 13, de 24/02/2011.
Meu primeiro contato com a poesia de Filinto Elísio se deu com o livro Das Frutas Serenadas, ocasião que tive oportunidade de conhecê-lo na USP, Brasil. Com o avanço das páginas do referido livro, vi que estava à frente de uma poesis que vivenciava sua insularidade dentro da literatura cabo-verdiana. Deparei-me com um vigor surpreendente que privilegiava a metapoética aliada a uma deliciosa união de sinestesia e exacerbado erotismo, para além do pleno uso das rimas internas, assonâncias e aliterações subvertendo a estrutura do soneto, configurando o poeta como um excelente sonetista. Evidências que seriam aperfeiçoadas com o livro seguinte, Li Cores & Ad Vinhos, e a plena maturidade de Filinto em seu ofício.
Entretanto, o inquieto poeta resolveu aventurar-se pelo romance, aliás, o antirromance, rompendo com tudo o que já tinha sido escrito até então em seu país, e jogou nas ruas Outros Sais na Beira-Mar. Um outro assombro, como sempre prazeroso, diante do audacioso hibridismo proposto pela narrativa fragmentada de Elísio, mesclando diferentes gêneros literários e incorporando características textuais da internet, como os e-mails.
Em sua permanente desassossegada criação literária o autor decide retornar à poesia. O que esperar de um novo livro de poesia de Filinto Elísio? Algo transgressivo, no mínimo, assim o escritor habituou-me.
Recebo Me_xendo no baú que sairá pela portuguesa Letras Várias, em caprichada edição com pinturas do português Luís Geraldes e um CD com os poemas declamados por João Branco e Nancy Vieira. Passo rapidamente os olhos pelas páginas e percebo que Filinto retoma características do passado e os sonetos, predominantes nos dois últimos livros, são abandonados, ou melhor, há apenas um. Agora os versos são curtos, breves, a lembrar os tempos Do lado de cá da rosa.
Me_xendo no baú está dividido em cinco cadernos, totalizando 35 poemas. Os cadernos possuem títulos curiosos em razão da grafia escolhida pelo poeta, deslocando nossos sentidos sendo reconfigurados pela sonoridade das palavras, arte na qual Elísio é mestre como são os grandes nomes da poesia: Ó de ceia das i_lhas. Formado por dez poemas, este primeiro caderno propõe-se uma peculiar leitura das ilhas de Cabo Verde “antes do verbo”. Diante dos sentidos desgastados das palavras pela insensibilidade da contemporaneidade, o poeta “pensa palavras primordiais” para ressignificar a história das ilhas em forma de poesia, esmaecidas pelos fragmentos da memória e dignificá-las com a força libertadora do verbo poético. O derradeiro caderno retorna ao país e o poeta celebra as manifestações musicais das ilhas em belíssimos poemas. Estão lá a morna (reatualizada), a coladeira, a tabanka, o cola son jon, o funaná, o batuque – e a comovente homenagem às mulheres: “na re_tina de aquém & mar/ mulheres da grande ilha/ tam_borilam entre suas coxas/ o destino de serem outras deusas/ a_finação das máguas – suas lem_branças…”. Surpreendo-me com o criativo neologismo “máguas”, a unir a mágoa das mulheres abandonadas por seus homens e a água do mar, esse mar que leva os companheiros para a terra-longe.
Desarranjar os estáticos sentidos semânticos dos nossos tempos, perscrutador das palavras, poeta. Palavra, erotismo, poesia, a geografia das ilhas a serviço da poeisis de Elísio, navegador de uma linha tênue que invoca exclamações. “São o caos querendo o cosmos” para a peculiar grafia de sua poesia. Não por acaso, o ar, elemento da natureza representando o voo, a liberdade da palavra poética, presentifica-se. Percepções inertes na agitação dilaceradora do cotidiano. Cabe ao poeta restaurar as “coisas levi_tantes” e fecundar “lavra_s novas”.
“Persistem em mim todas as fomes”. A fome que devastou o povo das ilhas em tempos idos se demonstra insaciável na incessante recriação do verbo poético. A sinestesia permanece marcante, a erotização estonteante, palavra poética de puro desejo, versos surgidos na efemeridade da vida, o que o leva a dessacralizar o desejo, sendo fiel ao seu instinto masculino: “versejo-te sendo este desejo/ uma estranha forma de cruz”.
A celebração simbolista nas metáforas inusitadas, a intertextualidade com Arthur Rimbaud e com a própria obra: “rosa do lado de cá?”; as referências obrigatórias do poeta: o Fernando Pessoa de “Ode Marítima” e “Autopsicografia”, e o mineiro Carlos Drummond de Andrade das Gerais de tanto agrado do poeta de Santiago, para além do universal expresso nas citações da mitologia egípcia.
Em seu “tabu_leiro” de palavras, a investigação ininterrupta dos sons e a sua musicalidade em diferentes grafias – “em mi fá sol lá da melo dia” e “musicar fonemas” –, substancia-se com o farto recurso de termos e maneiras de escrita apropriados da internet, “S grafema impreciso/ VC de vossemecê”; na supressão de vogais e a crítica ao empobrecimento da língua portuguesa tratada de forma invertida: “amiúde sem vogais/ de ataúde consoantes:/ amar-te em MR-T/ FDR-T gemendo assaz letras/ CMR-T engolindo-as todas”; assim como, a ironia de um surrealismo delirante que somente um poeta transgressor como Elísio poderia proporcionar: “S exílio/ S lírio/ C de cílio/ e de você/ esse delírio”.
Por outro lado, a reverência a um cânone da literatura de Cabo Verde, profundo admirador da expressão máxima da poesia, a sua musicalidade. Falo de Corsino Fortes de “Pão & Fonema” e “Árvore e Tambor”: “aliterando em T/ (corsino verseja tambor)/ metaforizando em P/ (cor & sino tal poesia)”.
Criatividade extrema, ludicidade com as palavras, o poeta a cantar o seu “hino de liberdade”, a criar inusitadas pontes com um mestre da sonoridade das palavras como Manuel Bandeira – em desassombro de qualquer pasargadismo ou antipasagardismo da história literária cabo-verdiana – e o seu poema “Rondó do Capitão”, utilizando versos livres, imagens automáticas e surreais, onomatopeias, versos impregnados por temos da computação – “mas/ não me piches/ no graffiti/ nem me_gapixels/ em photoshop”. Por isso o poeta afirma para mim, para o leitor, “upgrada-te”. Sentimento necessário para acompanhar o intenso uso da tecla “underscore” (ou underline) fartamente aplicado na internet, que ora serve para reforçar o gozo sexual em “den_goso”, ora para jogos lúdicos como as “equações estéticas” de “Intradoxos”: “a_barco/ b_arco/ c_rco/ ...de circo meu bem”. Transgressão na linguagem que procura restaurar sentidos profundos dissolvidos pelo tempo, lucidamente reconstruídos no processo constante de “desoficinar a poesia”.
Me_xendo no baú revela a ludicidade em harmonia com a complexidade criativa de um poeta que se atreve a inovar, a se apropriar de referenciais contemporâneos para sua escrita. Não é por menos que afirma: “querem de mim ainda as transgressões”. Filinto, todas, se possível. Que continue “vasculhando o ú” de sua poesia, deslocando as imagens, recriando palavras e sons, desestabilizando os incautos da poesia sem tesão, revisitando as ilhas do arquipélago, celebrando suas músicas, esfarpando “metrificações e versos”, valorizando os poetas que o formaram... por arriscar novos caminhos para a sua poesia, Filinto Elísio amplia a vastidão de seu mar e fortalece a insularidade de sua trajetória na literatura cabo-verdiana, tornando-se um obrigatório mar a ser navegado. Com prazer, sempre.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Arménio Vieira por Ricardo Riso na revista Triplov (Portugal)



Publicada na revista portuguesa Triplov, minha resenha do livro O poema, a viagem, o sonho, de Arménio Vieira, primeiro cabo-verdiano a ser galardoado com o Prêmio Camões, em sua edição de 2009.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha


Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha

Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 180, de 10 de fevereiro de 2011, p. 27.
João Manuel Varela é um caso paradigmático na história da literatura de Cabo Verde ao afastar-se da cabo-verdianidade e do telurismo de raiz claridosa, com predomínio da obra de Jorge Barbosa, ainda fortemente influenciando seus pares nova-largadistas e demais nomes que despontaram na virada dos anos 1950/1960.
Varela fragmentou sua obra poética em heterônimos, sendo os poemas atribuídos a João Vário, os “Exemplos”, motivo de negação no meio literário de seu país, “obra por todos nós discriminada” no dizer de Manuel Ferreira em “Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa” (FERREIRA, 1987, p. 63), mas que ainda sofre com a “ostracização literária” como assinala José Luis Hopffer Almada em recente artigo, “Que caminhos para a poesia cabo-verdiana – parte II”. Ostracização estimulada naquele tempo por não acompanhar a temática de luta anticolonial, por privilegiar indagações ontológicas e metafísicas, e por fazer uso do longo poema narrativo com forte ressonância épica, para além das diferentes referências que vão da Bíblia aos clássicos da literatura ocidental.
Por outro lado, paralela à obra de João Vário, Varela cria um outro heterônimo, Timóteo Tio Tiofe, com um discurso cabo-verdiano e que rompe com a influência de Jorge Barbosa e cria “O Primeiro Livro de Notcha”, “um poema de que as minhas ilhas precisam e, em certo sentido, talvez, o poema que a minha geração aguarda ou aguardava de mim” (TIOFE, 2000, p. 13). Fragmentos desse poema vinham sendo publicados desde os anos 1960 até serem refundidos em “O Primeiro e o Segundo Livros de Notcha”, sob a chancela da Edições Pequena Tiragem, em 2000.
“O Primeiro Livro de Notcha” é dividido em três partes, subdivididas em “discursos”. Neles, o poeta retoma características da obra de Vário como a intertextualidade com a Bíblia e aos cânones ocidentais, porém insere o homem cabo-vediano na plenitude de seus anseios, receios, cotidiano, mitos, revoltas, língua materna, rememoração de populares, heróis nacionais e africanos, assim como o farto uso de elementos e expressões da geografia, da história, da botânica do arquipélago.
O narrador insere-se como africano, pois, para ele, “o nosso destino, o destino político do arquipélago, é inconcebível fora do contexto africano” (p. 13). Afinal, é “um homem deste século,/ um homem de África, (...) falando da África deste tempo e de seu povo” (p. 21). Tempo de emigração forçada para o contrato: “Vou dar nome para Angola ou São Tomé. Sabes se ainda recebem contratos para este mês, Cunha?” (p. 34). A respeito da emigração para S. Tomé, Tiofe, na “Primeira Epístola ao meu irmão Antonio”, aponta para a nova realidade submetida ao cabo-verdiano que se depara com “a humilhação, (...) a falta de recursos da terra. (...) é a partida como solução desesperada” (p. 133). Revolta expressa ao relatar a quantidade absurda de mortos nas letras frias das estatísticas pela seca e fome ao longo dos séculos, estimulando o apoio aos revolucionários: “quem não pensa, neste tempo de Sekou Touré, de BenBela, de Guevara, em pegar em armas?” (p. 97).
Esse sofrimento da África sempre foi “ignorado” pela instituição que apoiou a dor dessa população: “Algum tempo mais tarde, o papa Paulo VI recebia em audiência Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Soube-se, então, no Vaticano, que lutar pela independência é também uma maneira de merecer o reino dos céus” (p. 115). Aliás, a única solução para as ex-colônias de Portugal diante da intransigência deste em negociar as independências e indaga: “Ó homens da Europa, homens/ que vos embriagais de orgulho e simonia/ por que não haverá neste mundo/ outra certeza além da vossa?” (p. 119).
É incontestável a depuração da linguagem, o exaustivo e criativo labor com a palavra poética de João Manuel Varela proporcionando plena satisfação para quem ler este livro atribuído a T. T. Tiofe.