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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CONTRAVENTO, PEDRA-A-PEDRA: um marco nos estudos cabo-verdianos


À Profa. Dra. Norma Lima (UNESA), amiga que me inseriu nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e minha principal incentivadora
À Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), que sempre estimulou minhas pesquisas acerca dos artistas de Cabo Verde, cedendo imagens e passando informações, além de ser uma das principais divulgadoras deste blog
À Profa. Dra. Carmen Lúcia Tindó Secco (UFRJ), por todo o carinho, orientação, incentivo e atenção desde que nos conhecemos
À Profa. Dra. Maria Teresa Salgado, pelo carinho e oportunidade oferecida no início de minha trajetória
Aos amigos cabo-verdianos Mito e Filinto Elísio, que demonstraram felicidade extrema com o meu texto sobre a "Sopinha de Alfabeto"

De 25 a 27 de novembro, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), graças à competência, à determinação e à dedicação da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, organizadora do CONTRAVENTO, PEDRA-A-PEDRA – I Seminário de Internacional de Estudos Cabo-Verdianos, que proporcionou a nós, estudantes e professores, dias de intenso contato com a cultura cabo-verdiana representada por importantes pesquisadores daqui e de lá nas áreas de História, Antropologia, Música, Lingüística, Artes Plásticas e, principalmente, Literatura.

Primeiro dia

A organizadora do seminário Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP) na palestra de abertura

O primeiro dia começou com homenagens à Profa. Dra. Simone Caputo Gomes e à Ministra da Educação de Cabo Verde, Vera Duarte. A seguir, o historiador e embaixador de Cabo Verde no Brasil, Daniel António Pereira, ministrou palestra sobre a relação do arquipélago com o nordeste brasileiro. Logo depois, o Prof. Manuel Brito-Semedo (Universidade Jean Piaget de Cabo Verde) traçou uma concisa trajetória da construção da identidade nacional cabo-verdiana. Nesta mesa, os debatedores foram o Prof. Dr. Benjamin Abdala Jr. (USP), a Profa. Dra. Rita Chaves (USP) e o Prof. Sérgio Paulo Adolfo (UEL).


Riso e Vera Duarte após autografar o seu primeiro livro de poesia "Amanhã Amadrugada"


Na próxima mesa, a lingüista Dulce Almada Duarte brindou-nos com uma palestra sobre o crioulo cabo-verdiano.

Ao centro, a lingüista Dulce Almada Duarte proferindo a palestra "Do pidgin de 500 ao crioulo cabo-verdiano"


À tarde, o antropólogo João Lopes Filho nos mostrou algumas manifestações culturais do arquipélago, com ênfase no sincretismo religioso. Entretanto, sua exposição acelerada prejudicou a compreensão de algumas passagens importantes. Depois, Moacyr Rodrigues ministrou palestra sobre a presença do terra-longismo na música e na literatura de Cabo Verde.

O antropólogo João Lopes Filho (Universidade de Cabo Verde), Prof. Moacyr Rodrigues, Profa. Dra. Sonia Santos (FAFIMA/Macaé), Profa. Vima Lia de R. Martin (USP) e Prof. Jorge Valentim (UFSCAR)

Para encerrar o dia, uma mesa composta pela competentíssima Profa. Dra. Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC/MG), a Profa. Salete Cara (USP) e os conferencistas Tomé Varela da Silva (poeta e pesquisador) e José Maria Semedo (Universidade de Cabo Verde). Silva abordou diversos aspectos das tradições orais do arquipélago e Semedo apresentou o batuque do século XIX até os dias atuais, contaminado por instrumentos elétricos, participação masculina etc.

A Profa. Dra. Maria Nazareth Soares da Costa (PUC/MG), o pesquisador e poeta Tomé Varela da Silva, o Prof. José Maria Semedo (Universidade de Cabo Verde) e a Profa. Salete Cara (USP)


No calçadão do MAC/USP: Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ), Fátima Fernandes (Universidade de Cabo Verde), Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC/MG), Norma Lima (UNESA) e Tânia Macedo (USP)

Segundo dia

O segundo dia começou com a bela comunicação de Vera Duarte sobre a presença das mulheres desde os primórdios da literatura cabo-verdiana e a relação de afetos entre as literaturas de Cabo Verde e Brasil. Sua fala, concisa e segura, foi um dos grandes momentos do Seminário.


Profa. Dra. Sonia Santos (FAFIMA/Macaé) e Ricardo Riso


Na mesa em que as mulheres reinaram, o momento mais belo e lírico de todo o Seminário deve-se à escritora Fátima Bettencourt após a leitura de uma crônica sinestesicamente linda sobre a cultura crioula, relacionando-a com cheiros e sabores do milho. Com voz suave, pausada e elegante, Bettencourt envolveu a todos em um profundo silêncio encerrando sua participação com a leitura do poema “Oração ao milho” de Cora Coralina, que aqui transcrevo:

Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos
e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo
e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consasgrou Pão de Vida, nem
lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que
trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre,
alimento de rústicos e animais de jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
quando os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Eito o trigo dos faraós,
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na
exaustão o eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica o proletário.
Sou a polenta do imigrante e
a miga dos que começam
a vida em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta
comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura penosa e
despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória
do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras
à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,
que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.
(http://www.lilianreinhardt.prosaeverso.net/blog.php?idb=11665)


Prof. Emerson Soares (USP) e a escritora Fátima Bettencourt. Foto de Norma Lima.

Na parte da tarde, as ações concentraram-se no CINUSP com três documentários realizados pela jornalista Margarida Fontes. O primeiro mostrava aspectos históricos da Cidade da Praia; o segundo era uma bonita biografia sobre o claridoso Manuel Lopes; e o terceiro tratava sobre o crônico problema da água potável em Cabo Verde, apresentando alternativas para acentuar o drama do arquipélago.


Profa. Dra. Norma Lima, a documentarista Margarida Fontes e o artista plástico Mito em debate no CINUSP.

Após um rápido intervalo, tivemos uma séria de clips do meu amigo, o artista plástico Mito. Experimentar é uma boa definição para o ousado Mito, artista único no panorama cabo-verdiano. Seus vídeos inquietantes e não-lineares – alguns lembram os works in progress de Hélio Oiticica e Neville de Almeida (que será abordado por mim em um futuro texto) –, revelam as múltiplas facetas de sua obra que retrata temas típicos de Cabo Verde, porém, com tendências universais, e altamente antenados com as propostas contemporâneas dos principais centros de arte do mundo. Destaque absoluto para o clip em que uma batida de drum’bass faz o fundo para a voz da tradicional cantadeira de batuque Nácia Gomi, sendo as imagens de um estádio de futebol lotado, comemorando a vitória da seleção do país.

O artista plástico e poeta Mito, Ricardo Riso e o poeta Filinto Elísio na entrada do MAC/USP


Em seguida, o debate com a claridosa participação da Profa. Dra. Norma Lima (UNESA), que com segurança e seu olhar perspicaz abrilhantou as discussões com suas observações. Enquanto Mito revelou o seu inquietante processo criativo, que mescla diversos meios de linguagem e referências de estilos artísticos. Aproveito para agradecer a generosidade de Mito ao citar o texto que fiz para a Sopinha de Alfabeto durante a sua fala.

Profa. Dra. Norma Lima (UNESA)


Nesta mesa ainda tivemos intervenções calorosas e coerentes dos poetas Filinto Elísio e Mário Fonseca acerca de um olhar amplo da produção literária cabo-verdiana pós-Claridade, antecipando o que viria no debate do dia seguinte.

Terceiro dia

No último dia de debates, a Profa. Dra. Maria Teresa Salgado (UFRJ), a Profa. Dra. Rejane Vecchia (USP) e o Prof. Dr. Mário César Lugarinho (USP) formaram a mesa inicial com os conferencistas Profa. Fátima Fernandes (Universidade de Cabo Verde) e o poeta Filinto Elísio. A Profa. Fernandes comentou sobre a importância dos escritores João Vário (que ainda não conheço), Corsino Fortes e José Luís Tavares na literatura do arquipélago. Depois, o incisivo Filinto Elísio (o grande destaque do Seminário) falou sobre a poesia surgida a partir dos anos 1980 com forte presença existencialista, diferindo-a da tradição claridosa dominante no cenário literário do arquipélago. Elísio criticou a insistência das temáticas da Claridade, que engessam o desenvolvimento da literatura em Cabo Verde, contudo, reconhece o valor da poesia dos claridosos e frisou que sua contestação se refere “não a Cristo, mas aos cristãos”. Suas declarações deixaram os ânimos inflamados e poetas como Mário Fonseca e Corsino Fortes expuseram suas opiniões contrárias. Esta mesa foi o grande momento do Seminário.


O poeta Filinto Elísio com o tema "A literatura não claridosa de Cabo Verde: a deriva existencialista da nova poesia cabo-verdiana" e a Profa. Fátima Fernandes (Universidade de Cabo Verde)


Para finalizar a manhã, Corsino Fortes e Mário Fonseca foram mediados por Tania Macedo. Corsino, com sua fala pausada e serena, recitou alguns de seus belos poemas. Já Fonseca, com sua fala expressionista, foi severo com a fragilidade da nova produção literária cabo-verdiana, segundo ele de baixíssima qualidade.

Profa. Dra. Tania Macedo (USP), o poeta Mario Fonseca e o poeta Corsino Fortes


Para encerrar o ciclo de debates, a aguardada palestra de Kiki Lima, tendo à mesa a Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, a Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ) e o jornalista e pesquisador da música cabo-verdiana Alveno Figueiredo e Silva. Este, apresentou as relações entre a música do arquipélago e a influência dos nossos cantores de rádio no período colonial, com belas fotos e boas canções selecionadas.

A organizadora do Seminário, Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó R. Secco (UFRJ) e o pintor-músico-poeta Kiki Lima


Já Kiki Lima teorizou sobre as suas idéias do que é fazer pintura, do que representar, como e por quê. Apresentou imagens que percorreram toda a sua obra e as fases pelas quais passou: a princípio com uma forte crítica social, lembrando os muralistas mexicanos, até chegar na fase impressionista, por congelar o tempo, e expressionista ensolarada, por seu gestual agressivo que concilia ritmo as suas pinceladas, a “pincelada rítmica” à qual citei em um artigo aqui no blog e que foi mencionada pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco. Kiki ainda apresentou suas composições ao violão e cantou suas músicas que emocionaram a todos, encerrando sua participação.


Riso e Mito na exposição de pinturas de Kiki Lima, anexo MAC/USP (foto oficial do Seminário)

Para finalizar o Seminário, no anexo do MAC/USP houve um desfile de moda cabo-verdiana tradicional e moderna, coordenado pela estilista Teodora Neves.


Desfile de Moda Cabo-Verdiana. Foto de Norma Lima.

A confirmação

Parece-me que foi para lá de positivo o CONTRAVENTO, PEDRA-A-PEDRA: I Seminário Internacional de Estudos Cabo-Verdianos. Ótimo em vários sentidos, pois revi professores de outras Instituições e conheci outros, fiz contatos com diversos escritores, comprei livros que jamais pensaria em tê-los e participei de palestras que contribuíram para a minha compreensão de diversos aspectos da cultura cabo-verdiana.

CONTRAVENTO, PEDRA-A-PEDRA serviu para consolidar e dar maior visibilidade aos estudos sobre Cabo Verde em nosso país, coroando todo o esforço da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes ao longo de mais de três décadas.

Ricardo Riso e Norma Lima

Parabéns, Profa. Simone! Parabéns aos conferencistas e toda equipe que trabalhou para a realização deste evento!

CONTRAVENTO, PEDRA-A-PEDRA foi um momento histórico. Aguardo o próximo.

Ricardo Riso

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cabo Verde

É com intensa satisfação que anuncio que este blog - Riso: sonhos não envelhecem - consta nos links sobre Literatura no sítio dedicado a Cabo Verde da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, da Universidade São Paulo (USP). O endereço é http://www.simonecaputogomes.com/

Simone Caputo orienta-me nos assuntos relacionados a Cabo Verde, apresentando pintores, indicando autores e textos sempre com muita gentileza e atenção. Daqui presto meu agradecimento.

Sobre Cabo Verde já postei os seguintes textos:
Tchalê Figueira (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html

Kiki Lima (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/pincelada-rtmica-de-kiki-lima.html

Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Ovídio Martins (poeta)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Dina Salústio (contos)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-liberdade-adiada.html

http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-tabus-em-saldo.html

Ainda este mês, colocarei um texto sobre o livro de contos "Mornas eram as noites", de Dina Salústio.

Riso

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

CABO VERDE: Profa. Dra. Simone Caputo Gomes

Já está no ar sítio da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (Universidade de São Paulo) sobre a literatura e cultura de Cabo Verde:

http://www.simonecaputogomes.com/

A Profa. Simone, generosa como sempre, disponibiliza seus textos, mapas, fotos, links sobre o país e muito mais.

Visita obrigatória para quem quer se aprofundar na cultura de Cabo Verde.

sábado, 7 de julho de 2007

Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX

Ainda na comemoração do 32º aniversário de Cabo Verde independente, tentei elaborar um texto apresentando alguns aspectos da poesia cabo-verdiana que tanto interesse e espanto me causaram. Vamos a eles.

Quando estudei a disciplina de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, ministrada pela Profa. Norma Lima, algumas peculiaridades no percurso da poesia cabo-verdiana instigaram-me a curiosidade, tais como a maneira como foi tratada a colonização pelos portugueses, diferenciada das outras quatro colônias (Angola, Guiné, Moçambique e São Tomé e Príncipe), pois as ilhas não eram habitadas o que fez os navegadores das naus levarem escravos de Guiné para lá; a mestiçagem populacional; o bilingüismo com intensa presença do crioulo no falar local; as difíceis condições climáticas; o aspetcto geográfico reforçado pela insularidade do arquipélago causando um sentimento contraditório nos homens de sua terra em relação ao mar, em querer ficar, mas ter que partir, ou seja, a evasão e a posterior anti-evasão. Foram basicamente estes pontos que auxiliaram na reivindicação de uma identidade independente e a maneira como eram tratados pelos poetas que fizeram soprar o vento desbravador em mim.

No início do século XX, os poetas tentam criar uma história, um passado para o arquipélago diferenciando-o do português colonizador, o pai, e que valorizasse a mãe-terra crioula, a mátria. Entretanto, os escritores ainda recorrem a referências européias na busca de um passado heróico para sua pátria e, assim, chegam ao mito hesperitano. As origens do mito são descritas por Simone Caputo:

Aqui pontuamos um topos interessante do percurso de busca de identidade crioula: o recurso ao mito arsanário ou hesperitano como origem (associado à idéia de pátria). As obras de José Lopes e de Pedro Cardoso, já nos seus títulos (Hesperitanas, 1928, e Hespérides, 1929; Jardim das Hespérides, 1926, e Hespéridas, 1930, respectivamente) interpretam a origem como: ilhas do velho Hespério – pai das Hespéridas – que abrigavam jardins repletos de pomos de oiro, guardados pelo dragão de cem cabeças, morto por Hércules. As “ilhas perdidas no meio do mar”, destacadas por Jorge Barbosa em seu antológico Arquipélago, 1935, e já eram identificadas por Camões, em Os lusíadas (canto V, VII, VIII, IX) como Cabo Verde (Cabo Arsinário ou Estrabão).

Os poetas recorrem ao passado de glórias do paraíso perdido de Atlântida como uma maneira de acalanto à situação em que se encontravam, diante da miséria perpetrada pelas condições climáticas adversas das ilhas. Porém, apresentam ainda uma situação confusa, onde ora assumem a pátria lusitana, ora almejam “a terra onde nascemos” (ilha-mãe) como podemos constatar nos trechos a seguir.

Camões surge nos versos de José Lopes:

Mas somos filhos, nós, de outros gigantes
Que, “por mares nunca dantes navegados”
Nossas Ilhas tiraram do mistério

(Hesperitanas. p.29. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.163.)

Todavia, clama as “ilhas nossas mães” (Hesperitanas. p.25. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.163.)

Já Pedro Cardoso canta a pátria portuguesa, mas não se esquece da sua pátria crioula:

A minha pátria é uma montanha olímpica
Tamanha! (...)
Na verdade, escutai! – chama-se
Fogo!
(Hespéridas. p.57-58. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.163.)

Nasci na Ilha do Fogo,
Sou, pois, caboverdeano,
E disso tanto me ufano
Que por nada dera tal.
Ser filho de Cabo Verde,
Assevero – fronte erguida –
Que me é honra a mais subida
Ser neto de Portugal.
(Algas e corais. p. 5. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.163-164.)

Devemos frisar que a referência ao mito hesperitano foi motivada pelas “pesquisas de José Lopes e Pedro Cardoso nos alfarrábios e enciclopédias da biblioteca do Liceu de S. Nicolau, do qual foram alunos”. (GOMES, 2006)

Até mesmo a submersão de Atlântida, após os cataclismos, encontra justificativa nos versos de José Lopes, e com isso afirma que o arquipélago de Cabo Verde é o que sobrou da antiga civilização:

Das vastas extensões assim submersas
Então ficaram estas nossas ilhas
(Hesperitanas. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.165.)

aos “Irmãos caboverdeanos”, Pedro Cardoso conclama:

pisamos...
talvez a mesma terra que os Atlantes
(Hespéridas. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.165.)

Depreendemos que este recurso ao mito hesperitano já propõe uma alternativa para a terra-mãe, renegando a pátria portuguesa. Todavia, a referência a este mito ainda apresenta uma solução longe daquilo que é vivenciado, o sentimento de evasão está presente e também aparecerá em outro movimento literário surgido com os poetas que formaram o corpo da revista Claridade a partir de 1936, e será conhecido como Pasargadismo.

A revista Claridade (1936-1960) é liderada por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes, integrantes da elite intelectual crioula cabo-verdiana, sendo acompanhados por Corsino Fortes, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira entre outros. Esse grupo de escritores passa a assumir suas raízes locais e admiram as inovações literárias propostas pelo modernismo brasileiro. Vêm o Brasil como modelo de país mestiço independente de Portugal, com uma língua diferenciada do colonizador (cito “Pronominais”, de Oswald de Andrade), a semelhança climática com o Nordeste brasileiro, e o conhecimento de nossa literatura, como podemos inferir no poema “Você, Brasil”, de Jorge Barbosa:

Eu gosto de você, Brasil,
Porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
E que a minha terra são
Dez ilhas perdidas no Atlântico,
Sem nenhuma importância no mapa.
(...)

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...
(...)

havia então de botar uma fala
ao poeta Manuel Bandeira
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.
Havia de falar como Você
Com um i no si
– “si faz um favor –
de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos
– “mi dá um cigarro!”
(...)

Os claridosos terão como temas os flagelos sentidos pela população, a seca, a fome, assim como a presença constante da insaluridade e a conseqüente evasão para solucionar este drama. Podemos citar na prosa, o livro “Flagelados do vento leste”, de Manuel Lopes, como representante deste período.

Mas é com Manuel Bandeira e a sua busca da felicidade tendo como imagem a ida para Pasárgada, que os poetas assumirão a evasão como principal característica. Sua influência é tamanha que faz escritores como Jorge Barbosa considerá-lo como um irmão brasileiro citando-o em diversos textos, e outro importante admirador claridoso é Osvaldo Alcântara (Baltazar Lopes). Assim comenta Simone Caputo Gomes:

A imagem de Pasárgada fecunda seus textos, não mais motivada pela doença, como nos poemas do brasileiro, mas pela pobreza do arquipélago. A nova Pasárgada não se resume a um espaço único, mas propõe-se, por meio da evasão, sempre como transposição de limites: “Eu vou-me embora, / não vou mais ficar / avassalado pela Astral Inferior” (Rapsódia da ponta da praia. Claridade, n. 5, p.13.)

Ou como espaço perdido (e não lugar a conquistar, em Bandeira). No seu “Itinerário de Pasárgada”, Osvaldo Alcântara nos fala da “saudade fina de Pasárgada”.

Entretanto, a evasão proposta pelo pasargadismo será contestada pelos escritores das gerações seguintes, anunciar-se-á o sentimento de anti-evasão e tendo como lema o dito “Não vou mais para Pasárgada”, os poetas do Suplemento Cultural (1958) e da Geração da Nova Largada (Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Aguinaldo Fonseca entre outros) recusam o mito pasargadista e propõem a permanência em Cabo Verde como forma de resistência e ação, postura esta que já vinha sendo discutida pelos representantes da revista Certeza (1944, dois números).

Ovídio Martins retrata o momento de ruptura nos versos que seguem.

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
e prenderei nas mãos convulsas
ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada
(Anti-evasão. apud: Antologia temática da poesia africana, Mário de Andrade, p. 48.)


Morremos e ressucitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens
E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do Vento Leste!
(Flagelados do Vento Leste. Apud: Antologia temática da poesia africana, Mário de Andrade, p. 46-7.)


Onésimo Silveira apresenta o gosto pela origem cabo-verdiana, seus ritmos, suas mulheres.

O povo das Ilhas quer um poema diferente
para o povo das Ilhas:
Um poema com seiva nascendo no coração da ORIGEM
Um poema com batuque e tchabéta e badias de Santa Catarina
Um poema com saracoteio d’ancas e gargalhadas de marfim!
O povo das Ilhas quer um poema diferente
para o povo das Ilhas:
Um poema sem homens que percam a graça do mar
E a fantasia dos pontos cardeais!
(Um poema diferente. Apud: Antologia temática da poesia africana, Mário de Andrade, p. 56.)


Depreendemos que a procura identitária na poesia cabo-verdiana vai se desenvolvendo com o passar dos anos. O início do percurso trilhado em sinuosos versos entre a “transpátria lusa”, o resgate do mito hesperitano como pátria, a terra-mãe, a evasão do pasargadismo até chegar à poesia atual ainda na incansável busca pela identidade, Almada passeia pela temática típica dos seus predecessores e propõe um novo canto:

Quero
Um canto diferente
Para Cabo Verde

Já não somos
Os flagelado do vento leste
Dominamos os ventos
Já não somos os contratados
Como animais de carga para o Sul
Conquistamos a dignidade de gente

Por isso
Vou cantar
De forma diferente
Para esta pátria do Meio do Mar
Vou esquecer, enterrar
Os lamentos, as lamúrias
A tristeza
De quem quer ficar
Com o destino de ter de partir
Não vou chorar
A pobreza, a fraqueza
A seca
A natureza madrasta

Canto
Para este povo
Um canto de alegria
(1988. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença p.168-169.)



Bibliografia:
ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Sá da Costa Editora, Lisboa. 1977.

GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Chaves, Rita e Macedo, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo, Alameda, 2006.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Tchalê Figueira

Cabo Verde completou 32 anos de sua independência no dia 05 de julho, ontem. Daqui celebro a data falando um pouquinho das artes do arquipélago.

Tchalê Figueira é um dos principais nomes da pintura cabo-verdiana na atualidade. Além do relacionamento com pincéis e tintas, Tchalê também atua como poeta, tendo já publicado em poesia “Todos os náufragos do mundo” (1992) e “Onde os sentimentos se encontram” (1998), além de arriscar-se na música, pois adora percussão. É irmão do pintor-poeta Manuel Figueira, outro importante nome da pintura cabo-verdiana que realizou obras de grande apelo durante a luta contra o colonialismo.

Nasceu na ilha de São Vicente, em 1963. Quando estava próximo da idade para o alistamento militar no exército português em 1970, antes da independência colonial, aos dezessete anos Tchalê conseguiu embarcar em um navio rumo à Holanda, seguindo, de certa maneira, o sentimento de evasão que tantas vezes aparece na literatura de seu país em nomes como Jorge Barbosa e Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes). Virou marinheiro e retratou essa experiência no romance “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”. Após dois anos vivendo sobre os mares fixou residência na Suíça. Lá, matriculou-se na Escola de Belas-Artes da Basiléia entre os anos de 1976-79, onde aprimorou as técnicas das vanguardas européias.

Dono de um acentuado expressionismo em suas pinturas, percebemos cores e formas da figuração humana descomprometidas com a verossimilhança. Suas cores são saturadas, como que para escandalizar a presença dos seres marginalizados pela sociedade; sua gestualidade alterna momentos de intensa agressividade, fluidez e certa precisão nos traços das faces humanas, que ora remetem às tradicionais máscaras africanas, seja na forma à qual Pablo Picasso se inspirou ou na zoomorfização; e há ausência de rigor na perspectiva acadêmica problematizando a relação figura e fundo, sendo este último geralmente indefinido em vastas áreas em uma paleta reduzidíssima de cores.

A figura humana apresenta formas exageradas, grotescas e toscas em situações eróticas e, às vezes, surreais. Tchalê mostra-nos pinturas que subvertem a representação erótica feminina, pois se apresentam em poses sensuais, porém passam desconforto, são repugnantes tanto pelas cores como pelo tratamento masculinizado dado às mulheres, como podemos notar nas prostitutas de “Tele(come)”. Nesta pintura o artista faz um interessante trabalho com os significados que o título pode demonstrar: o uso do telemóvel (o aparelho de celular como é chamado em Cabo Verde), o nome da operadora de celular no país (Telecom) e a finalidade dos serviços para quem liga.

Trata-se de uma pintura de denúncia a procurar desmascarar a representação das classes menos favorecidas que ambientam a Rua da Praia, local de seu ateliê no Mindelo. São prostitutas, contrabandistas, bandidos, pescadores, artistas, loucos e ociosos em cenas do cotidiano, onde depreendemos a busca incessante do pintor em dar visibilidade e escancarar a condição de desigualdade dessa camada de excluídos da sociedade de sua terra.

Segundo Mário Lúcio Sousa, “A pintura de Tchalê é ficção permanente, nua e crua realidade cotidiana. Surrealismo na esquina. Tchalê trouxe um dos mais importantes elementos estéticos da arte caboverdeana do séc. XX: ele cria personagens, (...) mas que têm a virtude de representar toda a gente, de ditadores a mendigos, de proletário (pobretário é um termo do Tchalê) a apaixonado.”

Em sua fase mais recente, o pintor revela-nos pinturas menores, delicadas, com lirismo e simplicidade, descartando o excesso característico de trabalhos anteriores. São pequenas peças, na maior parte em preto e valorizando o branco do papel, com traços ora elegantes a remeter aos desenhos de Henri Matisse.

Um novo caminho que mostra a ousadia que também se apresenta em suas contundentes opiniões, que vão desde os rumos indefinidos da arte caboverdiana aos desajustes sociais, passando pelo despreparo dos governantes do país deste importante pintor contemporâneo e na sua inquietante busca em retratar os seus pares. Assim é a obra de Tchalê Figueira.


Réplica e Rebeldia: artistas de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna / Rio de Janeiro.
Caputo, Simone. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. Alameda Casa Editorial. São Paulo, 2006.
Caputo, Simone. A poesia de Cabo Verde: um trajeto identitário. In: Revista Poesia Sempre n° 23. Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 2006

Imagens:
Rainha do carnaval. Acrílica s/tela. 250 x 150 cm. 2004.
Bem vinda na bicicleta. Acrílica s/tela. 200 x 150 cm. 2004.
Tele (come). Acrílica s/tela. 200 x 150 cm. 2004.
Com um boy na cama. Acrílica s/tela. 200 x 150 cm. 2004.