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domingo, 30 de junho de 2013

Tchalé Figueira - Contos da Basileia (A Nação)

Tchalé Figueira - Contos da Basileia
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 194, de 19 de maio de 2011, p. 23.
As vivências na diáspora cabo-verdiana marcam os textos reunidos em “Contos da Basileia”, este novo livro de Tchalé Figueira. Sua escrita carregada em oralidade, leve e solta apresenta as aventuras e as desventuras no cotidiano de um jovem imigrante que saiu de Cabo Verde - então colonizada por Portugal para não servir às tropas salazaristas -, na cidade suíça da Basileia dos anos 1970/1980. Tal fato se confunde com a própria biografia do autor.
Pela voz do narrador vemos as agruras que passam os cabo-verdianos na terra longe, encarando os subempregos e a vida com parcos recursos: “porque costuma matar-nos in extremis a fome soltando saborosos sanduíches depois da meia-noite quando o local encerra as suas portas. Pãezinhos que sobram todas as noites e se não forem comidos acabam em contentores de lixo. Porra! Aqui na Suíça até o lixo é luxo!”. E as constantes lembranças das ilhas do seu país: “Fomos viver durante semanas junto ao mar que tanta falta me faz na Suíça e me dá fortes saudades de Cabo Verde”.
Momentos históricos dos anos 1970 são retratados, como a felicidade com a independência do país: “Cabo Verde conquistou hoje a sua independência depois de quase quinhentos anos de domínio português, mano, e finalmente somos uma terra livre, mano, e vamos comemorar com uma feijoada”. Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias. “Escuto uma miríade de idiomas que não percebo mas fascinam-me”, diz o narrador.
A literatura é reverenciada pelo narrador ao celebrar o encantamento com o real maravilhoso latino-americano e seus representantes: “Hoje sou fã incondicional do real maravilloso (...)”; ou ao ter contato com um texto de Amílcar Cabral: “Jamais tinha visto ou lido um livro escrito pelo herói da nossa Nação!”, Das artes plásticas, o deslumbre e o olhar sensível: “deparo com as gigantescas pinturas dos abstractos expressionistas americanos e o meu coração bate descompassadamente, fico em transe apreciando as enormes manchas coloridas de Clifford Still, (...) os dripping de Jackson Pollock e de repente vejo-me diante do último quadro que Mark Rotko pintou antes de se suicidar aos oitenta e tal anos da sua vida a minha alma fica de novo angustiada”.
 Entretanto, a maior reverência que há nesses contos é destinada às mulheres, presenças marcantes nas histórias. O narrador não discrimina etnia, religião, posição política etc. Elas são bonitas, inteligentes, cultas, gostosas; bibliotecárias, artistas, mães de seus filhos; suíças, espanholas, cabo-verdianas, americanas; chamam-se Zoe, Bia, Barbara (“a que tem nos olhos a tonalidade azul do mar de Cabo Verde”), Rita, Marta, Claudia, Flora, Liza, Rachel... Elas são as responsáveis pelas situações inusitadas dos contos, como as viagens repentinas; revoltam-se com a sua libertinagem; e o inesperado encontro entre sua mulher e uma amante em um parque com seus filhos mestiços.
Contudo, não é apenas o lado cafajeste que se revela do narrador, há o reconhecimento e a paixão pelas mulheres, assim como a valorização por contribuírem no seu desenvolvimento cultural, como as discussões literárias acerca dos contos de Jorge Luis Borges, o contato com a música erudita e aprendizado para apreciar o jazz.

Bom, após a travessia das páginas de orgias com mulheres, literatura e artes plásticas dentro de um cotidiano imprevisível de um mulherengo contumaz, fica o sorriso por identificar, através de uma escrita despretensiosa, a vivência, as experiências felizes, o choque cultural, as dificuldades encontradas pelo cabo-verdiano na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra longe. “Contos da Basileia” proporciona uma leitura agradável para ser degustada “como um bom copo de grogue de S. Antão”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira no BUALA

O artigo de minha autoria Para não esquecer o passado – Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira foi publicado no portal Buala - cultura contemporânea africana, organizado por Marta Lança. Para acessar o artigo, clique aqui.

RESUMO: A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente em dez pinturas (anexadas ao final do texto) suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tchalê Figueira - Breve História Colonial em África (artigo publicado em Portugal)

REVISTA TRIPLOV de Artes, Religiões e Ciências (Portugal)

Nova Série 2012 Número 23-24
ISSN 2182-147X

Para não esquecer o passado – Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira
Ricardo Riso

RESUMO: A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente em dez pinturas (anexadas ao final do texto) suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.

Artigo completo aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Tchalê Figueira - Breve História Colonial em África

Para não esquecer o passado – Breve História Colonial em África, pinturas de Tchalê Figueira
Ricardo Riso

RESUMO: A sangrenta experiência colonial em África consolidada durante a Conferência de Berlim (1884-1885) é retratada de forma corrosiva nas pinturas da série “Breve História Colonial em África”, do artista plástico Tchalê Figueira, que objetiva não deixar que esse triste passado seja revisto de forma branda ou rasurado da História. Com isso, o artista procura desvelar terríveis personagens e demonstra a agonia dos povos africanos em um expressionismo voraz e de forte impacto. A análise aqui presente pretende mostrar como Tchalê Figueira realiza plasticamente suas denúncias ao sistemático genocídio de negros africanos durante o colonialismo. O suporte teórico escora-se nos historiadores Joseph Ki-Zerbo, Carlos Moore, Albert Memmi, entre outros.

 
Eis-me aqui África/ nas tuas entranhas/
de onde afinal/ nunca saí/
eis-me aqui África/ eis-me aqui/
aqui.
(Mário Fonseca)

Neste início de século XXI vivenciamos perigosos revisionismos históricos com o intuito de suavizar imensas tragédias da história da Humanidade, que encontram espaços generosos nos veículos de comunicação dominantes em uma procura incessante para silenciar as vozes de pesquisadores comprometidos com os estudos pós-coloniais, desveladores de visões que desmascaram os cínicos e hipócritas discursos hegemônicos.

Vários são os agentes nos países pós-coloniais nas diversas áreas do saber e das artes a lutarem contra a história oficial de suas nações. No continente africano essa situação é ainda mais grave, dentre vários motivos, em razão do recente processo de soberania desses países, principalmente as ex-colônias de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Atento ao tempo em que vive e às mazelas que uma perniciosa amnésia induzida em relação à representação do colonialismo em África, o artista plástico e também escritor Tchalê Figueira elaborou a recente série de pinturas intituladas “Breve História Colonial em África”, na qual procura resgatar terríveis passagens vivenciadas pelos africanos na virada do século XIX para o XX.

Atendendo sugestão de G. T. Didial, um dos heterônimos de João Manuel Varela, Carlos Alberto Silva Figueira passa a usar o nome Tchalê (nome pelo qual é conhecido pelos moradores de sua cidade) para designá-lo. Nasceu em 1953, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Viaja pelos mares da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (2005), “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).

Acompanho com extremo interesse as obras plásticas e literárias de Tchalê Figueira através de seu blog “Arco da Velha” – tchale.blogspot.com – ou por redes sociais como o Facebook. Tchalê é um artista inquieto, indignado e revoltado com as injustiças de diversas ordens, principalmente as motivadas por políticos, e não deixa de expor suas opiniões com veemência. Essa vontade de manifestar-se a favor dos oprimidos acompanha suas pinturas, tornando-se uma característica costumeira. Estão lá representados os homens e mulheres marginalizados da cidade do Mindelo, na sua rua da Praia. Prostitutas, bêbados, traficantes, pescadores, pessoas ociosas do cotidiano e esquecidas pelo poder público, mas que ganham representatividade em suas telas. Uma pintura expressionista em suas formas distorcidas da figuração humana – geralmente em primeiro plano –, muitas vezes agressivas na denúncia social, em outras ocasiões apresentam-se irônicas, como também podem ser alegres nas celebrações festivas do cabo-verdiano. Suas cores obedecem a recusa de representação do real típica do fauvismo francês. Os fundos de suas telas costumam ser grandes manchas de cor, abstratizantes e de gestualidade agressiva como os melhores nomes do expressionismo abstrato, dentre tantos, Clifford Stills, são indefinidos e com a intenção de destacar a presença da figuração humana, pois é do homem que a obra deste mindelense se preocupa. Ou seja, Tchalê Figueira possui uma identidade plástica, ou como afirmou G. T. Didial: “há nestas obras uma linguagem própria e uma visão de mundo” (DIDIAL, 1999, p. 98). Traço característico e temáticas de forte contundência social são marcas as telas deste grande pintor.

Breve História Colonial em África

A partir de 1860 o continente africano sofre com os violentos ataques dos europeus, favorecidos por tecnologia bélica avançada à época, que Tchalê Figueira representa nas abomináveis figuras de Leopold II (Anexo I), rei da Bélgica, e incentivador das atrocidades cometidas no Congo, seguidas pelo desbravador e sanguinário Henry Stanley, representado na pintura “Henry Stanley, o monstro” (Anexo II) e “Stanley Cap” (Anexo III), para quem “os selvagens apenas respeitam a força, o poder, a audácia e a decisão” (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216), e pelo não menos abominável Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV) e do odioso Otto Von Bismarck na pintura “Clube alemão das colônias – Peitche und Zuken Brot” (Anexo V), um dos articuladores da Conferência de Berlim.
LEOPOLOD II DA BÉLGICA - O NOVO DONO DO REINO DO CONGO

HENRY STANLEY, O MONSTRO


STANLEY CAP
GUILLAUME VON KERKCHAVEN
CLUBE ALEMÃO DAS COLÔNIAS
Nas telas representativas desses repugnantes seres humanos, Tchalê recorre ao uso do texto para não deixar dúvidas sobre quem está representado. Para além da denúncia, salienta-se o caráter didático e necessário para que esses protagonistas do genocídio étnico não sejam rasurados da história africana. A representação da força e da soberania na figura ornada com suas patentes e designações reais de Leopold II (Anexo I), seu sorriso sádico em rosto típico de máscara africana, contrastam com o pavor dos africanos mortos e da presença predominante do vermelho a sangrar nosso olhar, a esquartejar nossa memória, e a partir daí, a retomada de consciência de um passado desesperador que a História não pode apagar. O pintor reflete em expressões hostis e sorrisos expondo carnívoros dentes as violentas ações desses monstros no período colonial. Aliás, de um modo geral, os sorrisos perversos com dentes escancarados são caracterizadores na obra plástica de Figueira dos líderes repressores da história da Humanidade em suas diversas facetas.

As expressões reveladas nas pinturas de Tchalê demonstram o ódio pelos africanos e o prazer que essas figuras tinham em cumprir as suas cruéis missões. Pinturas agressivas, todavia, jamais ultrapassariam os atos violentos motivados por seus personagens, que, infelizmente, foram reais. E trata-se de uma realidade para a qual não devemos esquecer. Homens que acompanharam o histórico de violência do tráfico negreiro e confirmaram a banalização de atos cruéis aos negros africanos. Cabe a lembrança de um artista ao qual a obra de Tchalê Figueira dialoga com frequência, e nessa série em especial, o inglês Francis Bacon, que também utilizava um expressionismo enfurecido para retratar a violência do cotidiano: “Quando trago a violência para pintura, dizia ele, não se trata da violência da guerra, mas, da violência da realidade por si mesma.” (SYLVESTER, 2007, p. 81).

Violência exacerbada na representação de sadismo e prazer no sorriso de Guillaume Van Kerckhoven (Anexo IV), com sua pose de satisfação em traje militar a exibir todas as suas medalhas ao cumprir a missão de exterminar negros, em contraponto às expressões aterrorizadas de incontáveis rostos de negros amontoados. Nesta pintura, Tchalê Figueira para demonstrar a imensa quantidade de africanos mortos utiliza um procedimento comum e consagrado na pintura do artista plástico moçambicano Malangatana Valente. Malangatana tinha como característica representar uma quantidade impressionante de pessoas espremidas em suas telas, comprimidos no espaço asfixiante da superfície pintada a revelar-nos a irracionalidade e desumanidade do colonialismo, e da desestabilização oriunda da repressão em cores contrastantes e impactantes. Para esta pintura de Tchalê resgato palavras de Mia Couto a respeito da pintura de Malangatana que encaixam com perfeição ao mostrado pelo mindelense:

Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.
Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)
No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...)
Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas. (SECCO, 2003, pp. 224-225)

Como é possível conferir, as assustadoras imagens desses tristes representantes do colonialismo europeu não são mais horríveis do que as atitudes desumanas praticadas durante a conquista militar do continente africano. Figueira simplesmente transfere para suas pinturas as assombrosas ações do colonizador em África. A lembrança de Leopold II não é gratuita, pois promoveu um banho de sangue durante a ocupação do Congo em proporções maiores que o holocausto nazista, e está muito bem representado na pintura do cabo-verdiano. Escorro-me nas afirmações do historiador cubano Carlos Moore para lembrar que o Congo foi o “único caso de um país que fora incorporado à potência colonizadora como propriedade pessoal do chefe de Estado” (MOORE, 2009, p. 30). Ainda de acordo com o Moore, em 76 anos de colonização belga no Congo (1884-1960), estima-se que pereceram 25 milhões de pessoas. A violência desmedida – irracional define melhor – da colonização belga ultrapassa o absurdo, como podemos analisar na passagem abaixo incluída no livro de Moore e que se encontra no Wikipedia:

Para impingir as cotas de borracha, a Force Publique (Força Pública) foi instituida: de uso corrente, policiais, na sua maioria eram canibais do Lualaba. Armados com armas modernas e chicote. A “Força Pública” rotineiramente pegava e torturava reféns (na maioria mulheres), açoitavam, estupravam, incineravam aldeias e, acima de tudo, extirpavam mãos humanas como troféus mostrando que, quando as cotas não eram cumpridas, não estavam tendo vontade o suficiente de cumprir.
Um oficial branco de baixa patente descreveu uma incursão para punir uma aldeia que havia protestado. O oficial branco em comando: "Ordenaram-nos a cortar as cabeças dos homens e as pendurar nas cercas da aldeia, bem como seus membros sexuais, e pendurar as mulheres e crianças em forma de cruz". Após ver um íncola morto pela primeira vez, um missionário dinamarquês escreveu: "O soldado disse: 'Não leve muito a sério. Eles matam 'a nós' se não levarmos a borracha. O comissionário nos prometeu que se tivermos muitas mãos, ele encurtará nosso serviço'" Nas palavras de Peter Forbath:
“As cestas de mão cerradas, postas aos pés do chefe de posto europeus, tornaram-se o símbolo do Estado Livre do Congo. (...) A coleção de mãos se tornou um fim em si mesmo. Os soldados da “Força Pública” as traziam em vez da borracha; eles até mesmo iam colhê-las em lugar de borracha.(...) Elas tornaram-se um tipo de moeda. Elas são usadas para amenizar o déficit das cotas de borracha, substituir(...) o povo ao qual é exigido trabalhar para as gangues de trabalhos forçados; e os soldados da “Força Pública” tinham seus bônus pagos de acordo com quantas mãos eles coletavam. ”
Em teoria, cada mão direita provava um assassinato judicial. Na prática, soldados “trapaceavam”, simplesmente cortando a mão e deixando a vítima para viver ou morrer. Numerosos sobreviventes relataram que eles viveram além de um massacre fingindo de morto, não se movendo nem mesmo quando tinham suas mãos serradas. E esperavam os soldados partirem para então procurar socorro.
Estimativas do total das chacinas variam consideravelmente. O relatório famoso 1904 do diplomata britânico Roger Casement aponta para 3 milhões apenas nos 20 anos que o regime de Leopold durou; Forbath, no mínimo 5 milhões; Adam Hochschild 10 milhões; a Enciclopédia Britânica estima um declínio populacional de 20 ou 30 milhões para 8 milhões. (grifos do autor) (MOORE, 2009, p. 30-32)

A mutilação, a violência sexual e a matança indiscriminada de africanos foi uma prática comum em praticamente todo o continente africano. Milhões de negros foram mortos com sadismo e voracidade jamais vistas. Tchalê retrata a escravidão e o estupro feito com frequência nas mulheres negras, denunciando o caráter violento e forçado do início da miscigenação, principalmente nas colônias portuguesas, como mostram as pinturas “Violação I” (Anexo VI) e “Violação II” (Anexo VII). O detalhe para as expressões de horror e resignação dos oprimidos, assim como o vermelho dos corpos em analogia às batalhas desiguais travadas em solo africano que dizimaram um número incalculável de vítimas.
VIOLAÇÃO I

VIOLAÇÃO II
O historiador Joseph Ki-Zerbo é enfático ao afirmar o que os negros africanos vivenciaram a partir do tráfico negreiro e durante o período da colonização com o incontornável apoio da Igreja Católica:

Nenhuma coletividade humana foi mais inferiorizada do que os negros depois do século XV. Foram encomendados escravos negros aos milhões; utilizaram-se os negros como reprodutores de outros negros, em “coudelarias” constituídas para reproduzir novos negrinhos para o trabalho nas plantações. Quantas crianças africanas foram jogadas dos navios, ou abandonadas nos mercados escravos, longe das mães que eram levadas, porque era preciso muito tempo para alimentá-las até que fossem exploráveis? Os escravos eram comprados às toneladas. Amputava-se e esquartejava-se como carne bruta os rebeldes ditos “negros castanhos”. Durante esse tempo, na Europa, os teólogos debatiam doutamente a questão de saber se os negros tinham alma. Foi uma pergunta que não se fez a propósito de outros grupos humanos (KI-ZERBO, 2009, p. 24).

Como este texto procura desvelar as atrocidades aos povos do continente africano, salientamos que as colonizações realizadas pela Bélgica e Portugal foram marcadas pela violência extrema, em razão da

estrutura capitalista débil na comparação com países como a França e a Inglaterra, viram-se obrigados a recorrer a uma brutalidade maior, e não menor, no trato das populações dominadas. Isso porque, destituídos de capacidade de implantar sistemas dotados com maior composição orgânica de capital, tinham de recorrer, para competir com um mínimo de eficiência diante de nações capitalistas mais desenvolvidas, a todas as formas possíveis de coerção, inclusive as que se aproximavam da escravidão (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.221).

Para além dos assassinatos em série cometidos sob a liderança de Henry Stanley, não devemos esquecer a criação das famigeradas legiões estrangeiras pela França e pela Espanha, ambas marcadas pela agressividade no trato das populações africanas e pela longa folha de serviços prestada ao domínio colonial (SERRANO, WALDMAN, 2008, p.216).

Carlos Moore chama atenção para a limpeza étnica ocorrida no continente africano durante a colonização. Moore afirma que “muitos continuam ignorando ou minimizando o fato de que a colonização da África foi um verdadeiro genocídio contra a raça negra” (MOORE, 2009, p. 29). Por isso, a importância desta série de intervenção realizada com furor expressionista e indignação por Tchalê Figueira.

A Conferência de Berlim (1884-1885) marca o auge da supremacia europeia no continente africano após diversos e sangrentos conflitos onde milhares de vidas foram ceifadas em nome da civilização, da fé e do progresso branco europeu. O desprezo aos africanos e a prepotência colonizadora foi de tal ordem que pode ser sentido na declaração do britânico Lord Salisbury a respeito da partilha realizada: “Traçamos linhas sobre mapas de regiões onde o homem branco nunca tinha pisado. Distribuímos montanhas, rios e lagos entre nós. Ficamos apenas atrapalhados por não sabermos onde ficavam estas montanhas, esses rios e esses lagos” (SERRANO; MUNANGA, 1995, p. 6. Apud: SERRANO, WALDMAN p.212).

A prepotência europeia é retratada na pintura “Com régua e esquadro dividiram o cake” (Anexo VIII), que de forma impactante representa a arbitrariedade do encontro dos países imperialistas assinalados nas cadeiras e do caos civilizador imposto aos africanos. A violência das figuras ilustradas na parte inferior da pintura pode representar a caótica situação e o desespero que se apoderou dos africanos desde o período do tráfico negreiro, alimentado por conflitos criados pelos invasores europeus entre as etnias africanas para assim enfraquecê-las e atingirem com maior rapidez os seus objetivos nefastos. Por outro lado, os colonizadores disputavam entre si as terras africanas. Nesse sentido, deve-se recordar o momento ruim de Portugal com economia fragilizada e pressionado pela Inglaterra, nação hegemônica da época, que

rifou o projeto português do mapa cor de rosa, pelo qual os territórios entre Angola e Moçambique, correspondendo aos atuais Zimbabwe, Malawi e Zâmbia, constavam como um domínio dos lusos. Portugal foi obrigado a recuar diante das pressões britânicas e da ameça de guerra entre os dois países (1890). (SERRANO; WALDMAN, 2008, p.210-211)
COM RÉGUA E ESQUADRO DIVIDIRAM O CAKE
O mapa do terror da ganância europeia foi dividido desconsiderando quaisquer opiniões de líderes africanos e assim demonstrado pela pintura voraz de Figueira em “Assim estava dividido o cake” (Anexo IX). As caveiras fantasmagóricas mostram o estado de espírito do continente africano. Novamente o caráter didático a mostrar a partilha realizada pelos colonizadores, revelando a maneira acintosa a qual o continente foi subjugado. Vale salientar o destaque à Etiópia, única nação que conseguiu manter sua soberania ao preço de muito sangue e de vidas de seus cidadãos.
ASSIM DIVIDIRAM O CAKE
Essa partilha do continente africano não foi bem digerida por Alemanha e Itália, nações atrasadas em seus processos de unificação, por conseguinte, ficaram com colônias menores. As grandes faixas de terra sob dominação portuguesa foram motivo de interesse dos alemães, por exemplo. Para retratar este temor de um eventual ataque alemão às colônias, verificamos a aflição do pré-claridoso Pedro Cardoso n’As Crónicas do AFRO, publicada no jornal A Voz de Cabo Verde de 8 de abril de 1912, e sua posição ambígua em relação ao colonizador luso em uma possível tomada das colônias portuguesas em África pelos alemães:

A armipotente Alemanha, fechando os olhos à conquista da Tripolitana pela sua amiga e aliada transalpina entendeu-se com a França sobre o Marrocos, com a Espanha sobre Fernando Pó, Guiné Espanhola e, quem sabe? sobre Portugal e agora quer entender-se com a Inglaterra...
Todos esses entendimentos visaram desde o seu início as possessões portuguesas. A esperta chancelaria leutónica tem procurado pela condescendência e satisfação às ambições das potências rivais assegurar que a premeditada rapinagem do Ultramar português se faça sem protesto (...)
Quem escreve estas linhas nasceu em África mas é português, não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue.
(...) apesar de saber – pelo confronto – que a administração alemã oferece mais certas garantias de progresso às colónias no estado e circunstâncias portuguesas, não posso fazer calar o meu coração. Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções, destronada, substituída por aquela que escreve Goeth, é certo, mas sabendo a cerveja, desarmoniosa, gutural e arrepiante, como o cavo rugir do urso, ou como o horrendo gargalhar da estrige agoirenta.
Não! Antes mil vezes o pobre e lusitano do que rico e alemão. Não! (BRITO-SEMEDO; MORAIS, 2008, p. 132)

Com a colonização implantada no continente, valores ocidentais distantes dos africanos passam a ser implantados. Eles perdem completamente poderes político, econômico e militar. Seguem décadas de violência e racismo declarado, o homem branco europeu escora-se nas deploráveis teorias positivistas de supremacia racial e inferioridade do negro predominantes na derradeira metade do século XIX, subjugando os africanos ao que havia de mais tenebroso na espécie humana. Para Joseph Ki-Zerbo:

A colonização foi muito mais curta do que o tráfico negreiro, mas foi mais determinante. O colonialismo substituiu inteiramente o sistema africano. Fomos alienados, isto é, substituídos por outros, inclusive no nosso passado. Os colonizadores prepararam um assalto à nossa história. O ‘pacto colonial’ queria que os países africanos produzissem apenas produtos em bruto, matérias-primas a enviar para o Norte, para a indústria europeia. A própria África foi aprisionada, dividida, esquartejada, sendo-lhe imposto esse papel: fornecer matérias-primas. Esse pacto colonial dura até hoje. (KI-ZERBO, 2009, p. 25)

Para justificar a sua postura, o colonizador escora-se na arrogância e na prepotência, elevando os seus feitos e rebaixando tudo o que for relacionado ao colonizado, sendo este atingido moral e fisicamente, conforme diz Memmi:

Como pode a usurpação passar por legitimidade? Duas operações parecem possíveis: demonstrar os méritos eminentes do usurpador, tão eminentes que clamam por semelhante recompensa; ou insistir nos deméritos do usurpado, tão graves que não podem senão suscitar tal desgraça. E esses dois esforços são de fato inseparáveis. Sua inquietude, sua sede de justificação exigem do usurpador, ao mesmo tempo, que se eleve a si mesmo até as nuvens e que afunde o usurpado mais baixo que a terra. (MEMMI, 2007, p. 57)

Como sequência a esse pensamento, o ódio do colonizador age com extrema brutalidade, impõe suas certezas e frisa as diferenças que justificam a submissão do colonizado:

Utilizará para descrevê-lo as cores mais sombrias: agirá, se for preciso, para desvalorizá-lo, para anulá-lo. Mas não sairá jamais deste círculo: é preciso explicar a distância que a colonização estabelece entre ele e o colonizado; ora, a fim de justificar-se, é levado a aumentar mais ainda essa distância, a opor irremediavelmente as duas figuras, a sua tão gloriosa, a do colonizado tão desprezível. (MEMMI, 2007, p. 58)

Retomo Ki-Zerbo para demonstrar como era o ensino nas colônias, comum a todas elas, legando ao ostracismo a história e a cultura dos povos autóctones:

(...) a história africana era desconhecida. Fiz todos os meus estudos no âmbito francês, com manuais franceses. Não havia nada no programa que tratasse da África. Ainda pequenos, tínhamos de utilizar um livro de História francês que começa assim: “Nossos antepassados, os gauleses...” Repetimos maquinalmente o que queriam inculcar-nos. (KI-ZERBO, 2009, p. 14)

Esse colonizador, representante da civilização europeia, demonstrou a pior faceta do homem perante o seu semelhante durante o período da colonização e fez (e faz) do racismo a principal arma para massacrar os africanos. Esse mesmo “bárbaro civilizador” (Anexo X) que caçava, matava ou traficava animais (Anexo XI) da diversificada fauna africana e que permanece com a sua sanha usurpadora das riquezas minerais de todo o continente africano (Anexo XII) agora com a máscara do neoliberalismo, ou o neocolonialismo.
 O BÁRBARO CIVILIZADOR
SEM TÍTULO 4


 SEM TÍTULO
  
Entretanto, boa parte dos africanos jamais aceitou a dominação colonial, exceto as elites vassalas que mantinham a posição subalterna perante o colonizador branco. O racismo à população negra, tanto em África quanto na diáspora, estimulou o surgimento de dois movimentos de alcance mundial: a negritude e o pan-africanismo. Esses dois movimentos tiveram suas ressonâncias na política, na literatura, na história e em demais áreas do conhecimento. Seus líderes e simpatizantes foram agentes históricos em prol do fim do colonialismo em África, por conseguinte, da independência dos países africanos e contra a discriminação racial ao negro no restante do mundo. Esses dois movimentos estimularam líderes cativantes e a população de negros a reivindicar e lutar pela libertação dos países africanos, com maior ênfase a partir do fim da II Guerra Mundial e consequente enfraquecimento dos países europeus. As batalhas pela descolonização foram sangrentas, trazendo a morte para milhões de africanos. Somente de líderes pan-africanistas, Carlos Moore enumera 37 nomes assassinados “entre 1957, data da independência de Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africanista, Thomas Sankara” (MOORE, p. 48). Mas o processo era irreversível, a História foi feita e a duras penas os países africanos conseguiram eliminar o famigerado colonialismo. Infelizmente, as novas nações dizimadas por séculos de opressão e usurpação ainda sofrem as consequências do atraso e estão hoje enfrentando as imposições da política neoliberal e das grandes empresas que praticamente dominam as economias dos países mais ricos do mundo.

Conclui-se que na crueldade retratada na série “Breve História Colonial em África”, o artista e ativista Tchalê Figueira crê na função social da arte como reveladora de vozes adormecidas, escancarando as feridas, sangrando as vísceras do passado colonial de injustiças que se perpetuam no presente, incomodando os olhares daqueles que desejam o esquecimento das atrocidades desse período. Por outro lado, pinceladas como facas a esquartejar as mentes obliteradas dos que não tiveram acesso ou foram obstruídos em sua instrução a esse triste passado colonial, ainda sangrento na crueldade dos dias contemporâneos em África. Pinturas a clamar liberdade e o direito à vida, suprimido de boa parte dos africanos. Pinturas de um humanista ao extremo, seguidor da “postulação irritada da fraternidade” de Aimé Cesaire e parafraseada pelo poeta cabo-verdiano Mário Fonseca. Pinturas que pretendem resgatar a história de sofrimento e dor dos africanos, assim como resgatar o necessário sentido solidário, político, denunciador e combativo do pan-africanismo. Tchalê segue uma tradição de obras de arte denunciatórias contra a Humanidade explicitada em Pablo Picasso com Guernica e as obras feitas durante a II Guerra Mundial, Francisco Goya e a série de gravuras Desastre da Guerra, e as pinturas de Malangatana Valente durante o período colonial em Moçambique e durante a guerra de desestabilização já com a nação independente. Tchalê Figueira integra um grupo de homens cada vez mais raros. Dos inconformados.

Encerro com um poema deste pintor-poeta Tchalê Figueira:

Do lado neutro da trincheira
Contempla a tua obra!...
Canta!... Glorifica teus mortos
Vê as suas frias camas
De poeira vermelha

Corpos radioactivos
Crianças deformadas,
Rostos empobrecidos em urânio
Cabeças rapadas
Hospital de angústias

Mercenários rugindo
Alfabeto de mortos
Artéria podre do paraíso
África encharcada de vírus
Coreografia abominável
Petróleo de sangue
Diamantes brilhantes
Em dedos de abutres.


BIBLIOGRAFIA:
BRITO-SEMEDO, Manuel; MORAIS, Joaquim. Pedro Cardoso – textos jornalísticos e literários: parte I. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2008.

DIDIAL, G. T. Tchalê Figueira – pintor das grandes e pequenas vicissitudes cabo-verdianas. Anais – Associação de Estudos de Culturas Comparadas. Mindelo: Cabo Verde. v. 2. n. 3. dez/2000. pp. 97-99

FONSECA, Mário. Se a luz é para todos. Praia: Publicom, 1998.

KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

MOORE, Carlos. Da África mítica à África real: para uma cooperação realista entre a África e a diáspora. In: A África que incomoda – sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2009. p. 11-65.

RISO, Ricardo. Tchalê Figueira. Disponível em < http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html > Acessado em 6 de dezembro de 2011.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.

SERRANO, Carlos; WALDMAN, Maurício. Memória D’África – a temática africana na sala de aula. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

SYLVESTER, D. (2007). Entrevistas com Francis Bacon. São Paulo: Cosac Naif. In: BORGES, Sonia. Francis Bacon: destituição subjetiva e formalização da obra de arte. Psicanálise & Barroco em revista. v.8, n.2, pp. 38-48, dez.2010

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Tchalê Figueira - poema inédito

Para o Ricardo Riso, no outro lado do Atlantico( um Axé à Bahia)


A ampulheta
media o tempo

Novo Mundo na
sua solitária
música de ondas

rendilhados na
aurífera areia
olhos indígenas
de nocturno azeviche

na linha do horizonte
As caravelas…

Pólvora negra
acendeu relâmpagos
selva violada
homens tombando
cruzes e gládios

o
livro negro
“palavra de Deus”
grilhetas sangrando…

atravessando
o Atlântico
levaram escravos

mas mais vale morrer
do que ser cativo
Zumbi dos Palmares
Oh liberdade!
 
Poema de Tchalê Figueira enviado em 8/11/2011.

Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira

Abaixo a comunicação apresentada por mim para o evento Bahia de Todos - III Encontro de Cultura e Literatura, realizado no dia 8 de novembro, na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca. Meu agradecimento à equipe de apoio e especialmente à Profª Drª Cristina Prates por tão belo e diversificado evento.
Ricardo Riso

Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira
Por Ricardo Riso

Dentro de um processo de afirmação identitária nas antigas colônias africanas sob o jugo de Portugal, é notória a influência do modernismo brasileiro na literatura de Cabo Verde, mais precisamente na geração da revista Claridade (nove edições de 1936 a 1960), representada, dentre tantos outros, por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes. Os claridosos, assim conhecidos, visualizavam no exemplo dos modernistas brasileiros uma vertente para pensar o arquipélago, suas contradições e seus dilemas, distanciando-os da metrópole portuguesa. Surge nos intelectuais desse período, pois a Claridade não era uma revista apenas de literatura e abarcava outras áreas do saber, um olhar aprofundando dos problemas sociais do país, ou como afirma Manuel Ferreira: “Os modernos textos brasileiros andaram de mão em mão no momento em que os jovens intelectuais cabo-verdianos descobriam a urgência de rigorosa objectividade socio-literária” (FERREIRA, 1985, p. 261).

Baltasar Lopes, um dos idealizadores dessa proposta, assim narra a recepção aos textos dos modernistas brasileiros:

Há pouco mais de vinte anos eu e um grupo de reduzidos amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais ‘pro domo nostra’. Na ficção o José Lins do Rego d’O menino de Engenho e do Bangüê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rabelo d’O caso da Mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um ‘alumbramento’ a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. (SANTOS, 1989, p. 43)

O romance regionalista brasileiro tem presença marcante com Jorge Amado, principalmente no que diz respeito aos costumes e às similitudes da cidade de Salvador com Cabo Verde, o que podemos inferir no depoimento do escritor e ensaísta cabo-verdiano Gabriel Mariano:

Em 1947 comecei a conhecer os contos admiráveis do Marques Rebelo (...) Bom, o Jorge Amado em 48. O primeiro livro que li do Jorge Amado foi Terras do Sem Fim... Aquela passagem ‘Eram três marias numa casa de putas pobres’. Nessa altura eu tinha... 20 anos, foi quando conheci o Jorge Amado e o modernismo brasileiro.

(...) Foi um alumbramento porque eu lia um Jorge Amado e estava em Cabo Verde. de Jorge Amado, o Quincas Berro d’Água, quando eu o li pela primeira vez, a personagem, as características psicológicas da personagem, a reacção das pessoas, quando souberam da morte de Quincas Berro d’Água, eu li isso tudo e eu estava a ver a Ilha de São Vicente, Cabo Verde (...) Estava a ver a Rua de Passá Sabe...” (LABAN, pp. 331-2)

Para além dos romances regionalistas, acrescentamos o impacto causado pela poesia de Manuel Bandeira na geração claridosa e “as reverberações do tema de Pasárgada, colhido da poesia de Manuel Bandeira, alçaram-no a matriz poética do arquipélago, tendo como seu principal cultor o poeta Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) que o legou entusiasticamente a outros escritores” (GOMES, 2008, p. 115). Dessa maneira, Osvaldo Alcântara, com maior ênfase, e outros escritores cabo-verdianos, seguem o verso de Bandeira, “Não quero mais saber do lirismo que não é libertador”, e incorporam o pasargadismo que inspirou o desejo de evasão para outro espaço conotado à justiça social e ao poder libertador da palavra poética.

O movimento pasargadista foi fundamental para a afirmação da geração claridosa, por outro lado, seu discurso evasionista sofreu severas e, por vezes, injustas críticas das gerações poéticas posteriores comprometidas com a libertação colonial, e aqui citamos Ovídio Martins e o célebre poema “Anti-Evasão” com o brado “não vou para Pasárgada”, assim como o escritor e ensaísta Onésimo da Silveira, ambos recusavam o evasionismo dos claridosos, como recusavam a emigração de cabo-verdianos. Era necessário ficar para resistir ao colonialismo sob a ditadura salazarista.

Para além das mazelas do colonialismo, vários fatores forçam a emigração do ilhéu, e recorremos ao antropólogo cabo-verdiano Dr. João Lopes Filho que aponta possíveis causas para a emigração do ilhéu:

a) – REPULSÃO – Problemas relacionados com frequentes e prolongadas crises de falta de chuvas, por vezes com consequências catastróficas: - Economia débil e de subsistência; - Elevado crescimento demográfico; - Desequilíbrios socioeconómicos.

b) – ATRACÇÃO – Oferta de melhores condições de vida pelos países hospedeiros: - Necessidade de abundante mão-de-obra barata por parte dos países desenvolvidos; - Espírito de aventura dos ilhéus; - Perspectivas de melhoria das condições de vida.

c) – COMUNICAÇÃO – O peso da tradição (emigração histórica): - Informações veiculadas pelos emigrantes de “torna-viagem”; - O estatuto económico que os emigrantes bem sucedidos são portadores no regresso à terra de origem; - Reportagens apresentadas pela comunicação social sobre os países mais desenvolvidos. (FILHO, p. 14)

Como vemos, em razão dos parcos recursos do arquipélago, são vários os motivos para o cabo-verdiano emigrar, e é a questão da emigração que será um dos motes para apresentarmos a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, do cabo-verdiano Tchalê Figueira. Neste livro pretendemos mostrar as experiências de um ilhéu na diáspora, mais precisamente na cidade de Salvador, Bahia. Mas, antes cabe apresentarmos o autor.

Carlos Alberto Silva Figueira, nome de Tchalê Figueira, nasceu em 1953, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Durante dois anos, opta por realizar a sua aventurosa viagem de circum-navegação, tal como o seu herói Ptolomeu Rodrigues, servindo de copeiro em barcos que rasgam os oceanos da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou a novela “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).

Na novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, publicada pela editora portuguesa Mar da Palavra em 2005, a história do personagem-título confunde-se com a do autor como bem observa Francisco Fortes em apresentação incluída no livro:

Ptolomeu emerge também como alter-ego do pintor Tchalê Figueira. Ambos partilham da ilha na verde juventude e se fizeram marinheiros e aventureiros. Também em ambos há o culto por um conhecimento erudito, um traço psicológico incomum no cidadão que emigra em busca de uma existência mais desafogada. (FIGUEIRA, 2005, pp. 9-10)

Recordamos o contexto histórico de sufoco por ser Cabo Verde uma colônia, colônia sob o fascismo salazarista e em plena guerra de libertação comandada pelo PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné e Cabo Verde) de Amílcar Cabral em terras guineenses. Enquanto isso, Europa e EUA viviam ainda os ecos do flower Power de 1968 e os movimentos sociais e de valorização de minorias, tanto de gênero quanto raciais. Nesse sentido, o prefácio de Germano Almeida, o mais prestigiado romancista de Cabo Verde, é preciso ao mencionar as expectativas de um jovem ilhéu a desvendar o mundo:

Imagine-se, pois, o deslumbramento e as possibilidades de um jovem ilhéu curioso e irreverente, de repente saído de um meio de repressão familiar, social e política para se confrontar para um mundo onde tudo é permitido em termos de liberdade de cultivar e exprimir e inventar, não sem riscos de qualquer sanção, mas, pelo contrário, acarinhado com desvelo, quer pelo público quer pelos poderes (FIGUEIRA, 2005, p. 6).

A narrativa vale-se da oralidade, pois Ptolomeu conta suas aventuras e desventuras para o autor, referido por ele como “artista”, em um banco da praça:

Hoje, já velho e constantemente bêbado, Ptolomeu Rodrigues vai, todos os dias, pela tarde, sentar-se no seu banco favorito, na Praça de S. Pedro. Dali, ele vê o mar e sonha. Fala, quase sempre, sem parar e nos seus monólogos, aparentemente sem sentido, dilui-se nas intermináveis aventuras vividas.

Para soltar a língua, carrega com ele um grogue fedorento, (...) que o faz retroceder no tempo e reviver, de uma forma entusiástica, a atribulada vida de marinheiro. Num terrível vapor de álcool, os seus solilóquios nem tem um verdadeiro sentido cronológico. Mas, eu, o “artista”, fascinado pela capacidade de narração do ancião, todas as tardes, sento-me a seu lado, para ouvir estórias. (FIGUEIRA, 2005, pp. 18-19)

De certa maneira, Tchalê Figueira subverte e atualiza a importante figura, em diferentes culturas africanas, do griot, o contador de histórias tradicionais, ao deslocar este contador para o espaço da diáspora cabo-verdiana e as experiências contadas na terra-longe. Espaço este pouquíssimo documentado na literatura do arquipélago, como bem observa o Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo na ocasião do lançamento em Cabo Verde do mais recente livro de Tchalê, “Contos da Basileia”:

Um dos grandes méritos destes Contos de Basileia é o facto de registar aspectos das vivências da diáspora caboverdiana lá na terra longe, de uma maneira geral ausente na literatura caboverdiana. Compreende-se, até certo ponto, esta falha na nossa literatura, que se justifica, por um lado, por a nossa emigração ser, na sua grande maioria, constituída por homens trabalhadores e não por homens de pena, e por outro, ser preciso uma certa distância física e temporal para se reflectir sobre os factos e as vivências e decantá-las, para se poder produzir arte, quer seja literatura, pintura ou música. (BRITO-SEMEDO, 2011).

O personagem Ptolomeu Rodrigues conta para “seu público invisível” (p. 60) histórias atribuladas, conturbadas e sempre com enredos que envolvem bebedeiras, bordéis, prostitutas, farras sexuais, roubos, brigas, prisões, tortura e interrogatórios, e racismo em diversos portos do mundo. Ptolomeu passa por lugares tais como Roterdã, na Holanda, Vladvostock, na antiga União Soviética, Espanha, Irlanda, Argentina, Japão etc. Essas aventuras são surpreendentes e inusitadas, as quais o então jovem Ptolomeu acaba traído pelo seu impulso sexual incontrolável: “Baixa a cabeça e começa a falar com seu pénis, nestes termos: ‘Sempre foste o meu infortúnio! Naquele tempo, pensei mais com tua cabeça, e não com a cachimônia’” (p. 52). Uma passagem que ilustra a fraqueza do jovem Ptolomeu se dá no relacionamento repentino com duas mulheres – uma irlandesa e a outra, basca – leva-as para o barco no qual trabalha com a promessa de conduzi-las clandestinamente para a Holanda. Entretanto, o plano é descoberto e os três são entregues para a polícia:

A inglesa, filha da mãe, descobriu as senhoritas no meu camarote. (...) Como uma cabra louca, dirige-se ao meu camarote, mete a chave na fechadura e entra de rompante. Com os olhos saindo das órbitas, ela depara com um grande filme de amor... Estou com as gajas na cama. É a desgraça! (...)

E fomos os três conduzidos à ‘casinha de vidro’, nome baptizado pelos meus patrícios a um compartimento onde as autoridades holandesas metem os estrangeiros ilegais que aguardam julgamento. (...) Acredites ou não, artista, meti-me numa encrenca terrível. A polícia criminal, ao investigar sobre as duas mulheres, (...) depois de minuciosamente interrogadas durante horas, descobrem que são simpatizantes dos grupos separatistas IRA e ETA. (FIGUEIRA, 2005, pp. 53-55)

São por esses caminhos tortuosos incluindo prisões e extradições que surgem encontros insólitos, como a vez que encontrou o grande líder da revolução cabo-verdiana Amílcar Cabral em Moscou, na URSS, e posteriormente ao Brasil, “país de seus sonhos” (p. 60), à cidade de Salvador, na Bahia, e chega “ao paraíso das mulheres, da música e do místico” (p. 72) e fica “deslumbrado com aquela cidade, que tem uma arquitetura parecida com esta, da nossa ilha. As pessoas são parecidas com o povo das ilhas...” (p. 73) Em terras baianas, Ptolomeu Rodrigues, vira cafetão de uma prostituta, adere ao candomblé, tornando-se filho de Iemanjá, aprende a jogar capoeira e todos os tipos de jogos de azar, além do envolvimento com várias mulheres. Até que briga com sua prostituta e arruma uma viúva rica, mulher culta e professora, que o acolhe, passa a aturar suas bebedeiras e o faz crescer culturalmente ensinando-lhe a gostar de literatura, pintura e música. Até ter uma recaída, retornar aos prostíbulos, ser preso e extraditado por estadia ilegal, sendo deportado para Cabo Verde.

Assim, encerra-se a viagem de circum-navegação de Ptolomeu que morre afogado por não conseguir subir ao bote que dormiria na noite em que contou a sua última história, a de Salvador, cumprindo o destino que a mãe-de-santo baiana havia traçado, de viver no mar, conhecer o mundo e morrer no mar, que, por sinal, esta mãe-de-santo “disse-me que um dia, viria a encontrar-te e que tu, meu paspalho, irás escrever as minhas memórias” (p. 74), para espanto e incredulidade do artista-ouvinte.

A narrativa termina com uma menção a um célebre poema de Osvaldo Alcântara, pseudônimo de Baltasar Lopes da Silva, “Capitão das Ilhas”. Para Gabriel Mariano, “Osvaldo Alcântara, ‘Capitão das Ilhas’, é um caçador de heranças e, (...) ele é um agente que recebe, enriquece e transmite a herança recebida” (MARIANO, 1991, p. 164). Assim vemos Ptolomeu, que transmite sua sabedoria e conhecimento ao artista-ouvinte, o qual iria repassá-las em livro. Ao encerrar a narrativa retomando Osvaldo Alcântara, temos o evasionismo caro a este poeta e à literatura cabo-verdiana, e que na história se apresenta no fato de o artista-ouvinte viajar pelo mundo conduzido pelas narrativas orais de Ptolomeu, ou seja, sem sair das ilhas, o artista-ouvinte acaba viajando pelo mundo contado por Ptolomeu, que, em analogia ao astrólogo grego homônimo (90? – 168?) considerava a Terra o centro do mundo, e assim como o antigo grego, a personagem Ptolomeu faz de Cabo Verde o centro de seu mundo, pois sai na adolescência, percorre o planeta e encerra sua trajetória na terra-mãe, Cabo Verde. O que consideramos como uma autêntica demonstração de amor ao seu país.

E aqui reproduzimos o poema “Capitão das Ilhas”, de Osvaldo Alcântara:

Morreu hoje o capitão de um navio das ilhas
Não foi porque ele era bom
e puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro
quando falava comigo que eu fui ao seu enterro.
Fui ao enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão pela
riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
e pela sua incorporação no veleiro em que
todos navegamos. (MARIANO, 1991, p. 171)

Parafraseando Osvaldo Alcântara, temos na narrativa de Tchalê Figueira esse impulso tão cabo-verdiano de dimensão desmesurada do mundo, de enriquecer enquanto homem com a contribuição das diversas mulheres com as quais se relacionou e o fizeram crescer intelectual e culturalmente, ampliando os seus limites, ao fim e ao cabo, grato por ser caçador e autor de heranças a nos conduzir no “veleiro em que todos navegamos”.

Para finalizar, o livro Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação estimula a pensarmos na condição do sujeito fragmentado que constrói e enriquece a sua identidade cabo-verdiana na vasta diáspora, encarando os desafios e as dificuldades encontradas na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra-longe. Tchalê Figueira apresenta-nos um sujeito conotado ao seu tempo, e recorrendo a Edward Said e a condição do escritor enquanto intelectual, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação” (SAID, 2005, p. 53).


BIBLIOGRAFIA:

BRITO-SEMEDO, Manuel. Tchalê Figueira e os seus ‘Contos da Basileia’. Disponível em < http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/121473.html  > Acessado em 15/06/2011.

FERREIRA, Manuel. Intertextualidade afro-brasileira. In: O discurso no percurso africano I – contribuição para uma estética africana. Lisboa: Plátano, 1989.

FERREIRA, Manuel. Aventura Crioula. Lisboa: Plátamo, 1985.

FIGUEIRA, Tchalê. Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação. Lisboa: Mar da Palavra, 2005.

FILHO, João Lopes. As migrações de cabo-verdianos. Disponível em < http://www.lopesfilho.com/?ID=4&cod=8B6CD4A5508A03241EA  > Acessado em 04/11/2011

GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

LABAN, Michel. Encontro com Escritores – Cabo Verde. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992. V. 2. pp. 331-332. Apud: Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido. In: GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MARIANO, Gabriel. Cultura Caboverdeana - ensaios. Lisboa: Vega, 1991.

SAID, Edward. Manter nações e tradições à distância. In: Representações do Intelectual – as conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SANTOS, Elsa Rodrigues dos. As máscaras poéticas de Jorge Barbosa e a mundividência cabo-verdiana. Lisboa: Caminho, 1989.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bahia de Todos - UVA/RJ

Prezados,

Participarei do evento BAHIA DE TODOS - III Encontro de Cultura e Literaturas na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, dia 8/11 às 18h15. O evento é organizado pela Profª Drª Cristina Prates. Apresentarei a comunicação "Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira".
Quem puder comparecer, o convite está feito.
Abraços,
Ricardo Riso

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tchalé Figueira - Água Cristalina (blog literário)

Tchalé Figueira, o artista plástica e escritor cabo-verdiano, inicia o ano de 2011 com um novo blog, este dedicado à literatura: o Água Cristalina. O antecessor, Arco da Velha, continua firme na divulgação das obras e do pensamento político do artista.

Abraços,
Ricardo Riso

TCHALÉ FIGUEIRA ‘DO ARCO DA VELHA’ (exposição Lisboa/Portugal)

TCHALÉ FIGUEIRA‘DO ARCO DA VELHA’
26 Fevereiro > 09 Abril 2011
Qua > Sáb 14 h > 19 h

PINTURA INSTALAÇÃO POESIA DO ARCO DA VELHA

O imaginário é, sim, o que existe. O real, se me permitem, é algo puramente inconsequente, algo que não se traduz, algo impossível de concretizar. Conhecemos as geografias e os corpos em nosso redor através da imaginação que cultivamos. Quando a imaginação e o desejo são escassos, os amores e vontades dos outros tornam-se loucuras.

Invariavelmente, nós aqui, neste lugar, somos construídos segundo relações flexíveis entre a miséria e o desejo. O desejo consome e exige a urgência da materialização do faz-de-conta. No Carnaval, tal como no plano multi-dimensional da imaginação, a Rainha e o Rei colocados no cimo do andor desenhado pelo artista, que esta terra quer sempre ter como anónimo, são escravos dos nossos desejos de chegar mais além, de cada vez ser mais outro e o Outro. Esconde-se o feio que engloba gente. Gente que, apesar de ser parte de nós é, inexplicavelmente, considerada diferente.

A irreverência é naturalmente constitutiva da arte que faz perguntas, a arte que exibe o diferente enquanto nosso, a arte que se quer posicionar dentro do campo do político e por isso é Pecadora. O questionar obviamente não desmembra o autocratismo, mas revela desejos de mudança. No caso particular do pintor, revela principalmente a vontade de mudança para estados de sensibilidade e empatia no âmbito de um contexto abrangente em que o Homem, Deus e a Verdade foram declarados mortos no mundo real e que somente vivem no campo do exercício dos poderes. Apenas nos restam as vontades individuais de imaginar os desejos dos outros como nossos.

Desde a Rua da Praia, no Mindelo, num atelier com as portas abertas para o mar, Tchalé Figueira, sempre independente e certo das suas vontades e procuras, compreende o compromisso de ser “agente criativo”, aqui neste lugar insular. O articular de perguntas e desejos em prol de si próprio mas também em prol dos que o sistema define como o “Outro menor”, os que o sistema teimosamente “circum-navega” porque, em hora de eleições, um grogue ou uma T-shirt servem como suficiente sedução.

Tchalé explora a relação entre o acto e a crítica social. Tristan Tzara, Max Weber ou Jean Dubuffet sublinharam algumas directrizes que permitem compreender a posição do pintor: consciente, sensível e critico e, no entanto, determinado na perseguição do exercício da pergunta. Na obra de Tchalé Figueira, o político, a prostituta, o mendigo, o paupérrimo, o medo, a vergonha, a vaidade, a superficialidade, a tensão ou o desejo estão presentes, vivos e pulsantes. As telas gritam-nos perguntas acerca do nosso próprio papel.
Irineu Rocha

Tchalé Figueira nasceu em 1953 na ilha de S. Vicente, Cabo Verde. Pintor, músico e poeta, Tchalé é hoje em dia, indiscutivelmente, um dos ícones principais da Arte Contemporânea em Cabo Verde e seguramente o artista plástico caboverdiano com maior visibilidade internacional. ‘Do Arco da Velha’, é a sua primeira exposição individual na INFLUX CONTEMPORARY ART.

Irineu Rocha nasceu em Santo Antão, Cabo Verde. É licenciado em Belas Artes pela Willem de Kooning Academy, Roterdão e Mestrando em Belas Artes pela Central St. Martins School of Art and Design, Londres. Entre 2002 e 2009 exerceu varias funções em projectos de educação e de arte contemporânea no sector dos museus e galerias publicas em Londres, com especialização progressiva na área de gestão de projectos. Entre 2006 e 2008 foi assistente de curadoria para o New Visions of The Sea, programa internacional de arte contemporânea do National Maritime Museum de Londres. Desde 2009 é director do M_EIA, a primeira instituição de ensino superior dedicada às Artes Visuais e Design em Cabo Verde.


INFLUX CONTEMPORARY ART
Rua Fernando Vaz, 20 B1750-108 Lisboa
+ 351 91 850 1234

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz
Por Ricardo Riso
Consagrado como um dos principais nomes das artes plásticas de Cabo Verde, Tchalé Figueira desde o início dos anos 1990 apresenta a sua verve como escritor, passeando pela poesia, novelas e contos. De sua lavra são “Todos os naufrágios do mundo”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”, “Solitário”, “Contos de Basileia” (este ainda no prelo) e participações em antologias como “Tchuba na desert” para além de publicações em jornais e revistas das ilhas.

“O Azul e a Luz” foi o seu mais recente livro de poesia, publicado em 2002 pelo Instituto da Biblioteca Nacional, composto por trinta e um poemas, oito desenhos do próprio Figueira e prefácio de Isabel Lobo. Nesse livro deparamo-nos com um sujeito lírico angustiado, melancólico, amargurado com o meio e o tempo em que vive, que busca a força da palavra poética, por isso suplica “é urgente a luz...”.

Sim, a luz para o fim da insensibilidade entre os homens, o término das injustiças perpetuadoras do caos e da dor presentes na contemporaneidade, estimuladas por políticos inescrupulosos a determinar o trágico destino de milhões de vida: “Vivo num Planeta azul de fogo/ Onde a hiena e o chacal se beijam/ Esmagando corações e flores”. Sendo assim, “Com fervor, peço à criação/ Que um dia os generais do Mundo/ Acordem-se poetas e os banqueiros/ Da Wall Street Cristos na multiplicação/ Dos peixes”.

O sujeito lírico é ciente da hipocrisia predominante e da bestialização da condição humana, por isso em “Epitáfio a um poeta”: “Sonhou toda a vida acalentando a morte/ Para melhor viver num mundo de mentiras”, conduzindo-o a rememorar nossa ancestralidade e perguntar-se(nos): “Qual foi o erro na evolução de LUCY/ Nestes milhões de anos?...”, da crueldade de um mundo tomado pelo desenvolvimento da tecnologia que não diminui as desigualdades, mas que proporciona o aumento do terror, ceifando vidas na “era cibernética/ Que faz máquinas que não amam/ E impiedosamente matam”.

Contrapondo-se a isso, o sujeito lírico transfigurado em australopiteco trará o novo homem, persistente em seu clamor, deflagrador da mudança para um novo tempo: “Eu sou um australopiteco da era cibernética/ E vivo num planeta triste em sangue// Também sou um australopiteco poeta da era cibernética/ E grito todos os dias a palavra LIBERDADE...”

A insensibilidade predomina entre os seres, ofusca a luz, a impossibilidade do amor apodera-se da poesia: “Beijei constelações de melancolia// Na cegueira de um reencontro triste,/ Desvaneci-me na ilha do meu sentir e/ Naufraguei no frio dos teus beijos,/ Terrivelmente ausentes de luz”. Apesar da melancolia apreendida pelo sujeito lírico diante das atrocidades que dilaceram as pessoas, a “utopia do poeta” determina a sua trajetória, o seu compromisso para com os homens, o seu sentimento solidário permanece intocável: “Irei pelas ruas do Mundo delirando/ Com o cheiro (a)mar das ilhas/ E farei com que meus cabelos/ De mil pássaros voando, sejam/ A anunciação da contiguidade”.

A redenção está no Amor, o lirismo socorre o sujeito lírico: “Hoje acordei com o sabor a pão da tua boca/ E fui ao mar pedir aos Deuses que nos trouxessem/ A purificação no amor.// Regressei a luz com lábios de sal/ E beijei-te num solene baptismo de amantes/ Temperando o alimento da vida”.

O sujeito lírico propõe o retorno à tenra idade, com os “olhos de uma criança/ Encontro a luz lírica do mundo”, para assim reconstruir os caminhos, reformular as escolhas por meio da “serenidade rítmica da luz”, luz que iluminará as consciências e conduzirá os homens a tempos de paz e de igualdade. Da luz para o azul, azul do céu, do infinito, do universo onírico, do sonho que jamais morrerá por um mundo melhor retratado na delicadeza dos desenhos e nos poemas deste incansável contestador, o poeta-pintor Tchalé Figueira.

domingo, 7 de novembro de 2010

Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

NOTA DE IMPRENSA


Exposição de Pintura e Desenho de Tchalê Figueira

Tchalê Figueira está de regresso à Praia para uma exposição promovida conjuntamente pelo Palácio da Cultura Ildo Lobo e pelo IC-Centro Cultural Português que, pela primeira vez, reúne pintura e desenho daquele que é um dos mais internacionais artistas cabo-verdianos.

Partindo do propósito criativo que Tchalê definiu como orientador para a exposição - “Entre a realidade e o onírico, a minha liberdade de intervir e inventar” – foram seleccionados dois acervos de obras que traduzem essa tentativa “de perceber e intervir sobre o tempo e o espaço, seja o destas ilhas, seja do Mundo”, bem como essa mitologia pessoal que o artista constrói, urdindo “bichos estranhos, homens e mulheres, habitantes do meu subconsciente”.

Assim, o Palácio da Cultutra Ildo Lobo acolherá 10 telas de grande dimensão que constituem a mais recente produção de Tchalê Figueira, que já este ano expôs em Zurique (Suíça), na Bollag Galleries, em Pontedera (Itália) e Ponte Sôr (Portugal), no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas e nas Canárias (Espanha) no quadro do projecto “Horizontes Insulares”, bem como numa exposição colectiva sobre José Saramago, em Azinhaga (Portugal), tendo elaborado uma obra tendo por base o livro “As Minhas Pequenas Memórias”, da autoria do escritor recentemente desaparecido.

No IC-CCP serão pela primeira vez exibidos os desenhos produzidos por Tchalê Figueira para a ilustração de 4 obras. Para “Marianinha”, conto infanto-juvenil escrito por Giselle Silva, Tchalê criou os 11 desenhos que acompanham e recriam a história. A longa amizade com Brito Semedo suscitou a sua participação em “Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá”, para o qual produziu 10 ilustrações, o mesmo número de trabalhos criados para a colectânea “Tchuba na Desert”. Finalmente, para “Contos de Basileia”, livro da sua autoria no prelo, Tchalê produziu mais 5 ilustrações. No total, estarão assim exibidos 36 desenhos “reinvenção de outras reinvenções”, como refere o artista.

A abertura da exposição de pintura decorrerá no Palácio da Cultura Ildo Lobo, no dia 9 de Novembro, às 19.00h e estará aberta ao público até dia 28. No dia 11, às 18.30h, terá lugar no auditório do IC-CCP a abertura da exposição de desenho, que ficará até dia 23.

Praia, 02/11/10
 
Fonte: Arco da Velha  - http://www.tchale.blogspot.com/

sábado, 18 de setembro de 2010

Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, por Ricardo Riso


Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação
Por Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 157, 02/09/2010, p. 18.

Consagrado como artista plástico por uma obra que ilustra os desfavorecidos de seu país, poe outro lado, Tchalê Figueira também possui uma forte vertente literária, tendo publicado livros em prosa e poesia, como “Solitário”, “O Azul e o Mar”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Todos os naufrágios do mundo”, para além de publicações em antologias, jornais e revistas como Artiletra.

Ao arriscar-se pela literatura, Tchalê não foge à abordagem das personagens que o consagraram na pintura, ao apresentar a figura do marinheiro que navegou pelos sete mares do mundo, o velho Ptolomeu Rodrigues, protagonista da novela “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (Mindelo: Mar da Palavra, 2005).

Baseando-se na oralidade, com uma escrita descompromissada com as normas da língua culta, o autor utiliza um atento narrador que escuta as peripécias repletas de contratempos do velho marinheiro bêbado, que conta com prazer e algumas boas doses de irritação quando interrompido suas artimanhas pelos diversos bares e prostíbulos das zonas portuárias dos quatro cantos do mundo.

As aventuras de Ptolomeu confundem-se com a história do autor, pois assim como a personagem principal, Tchalê Figueira também fugiu do arquipélago cabo-verdiano durante o final da ditadura salazarista para não ser convocado pelo serviço militar e lutar contra seu povo. Com isso, ainda na adolescência, tornou-se marinheiro e navegou pelo globo.

Cerceado pelos mares, o ilhéu cabo-verdiano possui uma inevitável relação de proximidade com as águas, sendo seu desafio e determinante em seu destino, o que o leva geralmente à emigração por causa das dificuldades trazidas pela seca, fome, miséria e falta de trabalho. E foi exatamente o que aconteceu com Ptolomeu: foi-se embora como clandestino em uma embarcação durante a longa noite do período colonial em busca de outro rumo para a vida, pois sofria com a repressão de ordem familiar, social e política. Logo, encarar o mar significava a liberdade em vários sentidos.

As aventuras e desventuras de Ptolomeu mapeiam, de certa maneira, alguns dos lugares da diáspora cabo-verdiana. Muitos desses emigrantes viram marinheiros ou fixam residência, ou passam pelas cidades as quais o velho Ptolomeu cruzou, tais como Roterdã, Vladvostok e Salvador.

Ptolomeu narra suas histórias a uma plateia imaginária e ao narrador, que se surpreende com os momentos de erudição do velho marujo, suas passagens e encontros inusitados como quando foi salvo em Moscou das cruéis prisões russas pelos camaradas Amílcar Cabral e Pedro Pires (do PAIGC - Partido Africano da Independência de Guiné e Cabo Verde), que lá se encontravam para obter apoio do país comunista para a luta pela independência.

Seu desejo insaciável pelas mulheres é, por conseguinte, o motivo de seus infortúnios em reviravoltas que envolvem chantagens políticas, trapaceiros, policiais corruptos, cafetões, mulheres iradas com sua infidelidade e "cachorros" que cruzam o seu caminho.

Apesar dos percalços vividos pelo velho, as frenéticas viagens de Ptolomeu são saborosas, curiosas, rápidas e irônicas o que torna o pequeno livro uma agradável leitura.

Tchalê Figueira apresenta com a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação como seria a vida de um cabo-verdiano que decidiu encarar os mares e as diversas culturas do mundo, entretanto, a situação diaspórica, motivada pela saudade das ilhas, acaba conduzindo o ilhéu ao seu lugar de origem, ao lugar que ama no mundo, onde termina a sua circum-navegação, Cabo Verde.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia das Crianças em Cabo Verde e livros infanto-juvenis

Hoje, 1o. de junho, é Dia da Criança em Cabo Verde, e o blog Na Esquina do Tempo, do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo, presta uma bela e justa homenagem às crianças que aqui reproduzo parcialmente. Para ver o restante da postagem, clique aqui. Sempre generoso, o cuidadoso Professor elaborou uma pequena lista com livros infanto-juvenis de autores cabo-verdianos com destaque para o recente Marianinha, logo abaixo.
Feliz Dia das Crianças para todos os pequenos cabo-verdianos!
Ricardo Riso

O Club de Na Esquina do Tempo deixa o voto de um Feliz Dia da Criança, uma sugestão de leitura, Marianinha,

A obra Marianinha foi galardoada com o Prémio Literatura Infanto-Juvenil, 2008, um concurso promovido pelo Instituto Camões Centro Cultural Português na Praia, também responsável pela edição da obra.

Este é o primeiro trabalho publicado de Giselle Neves da Silva, natural de S. Vicente, que actualmente estuda Farmácia na Universidade Federal de Ouro Preto no Brasil.

O livro é ilustrado pelo artista plástico Tchalê Figueira.

Autora: Giselle Neves
Ilustrador: Tchalê Figueira
Editor: Instituto Camões – CPP Praia
Ano de edição: 2010

e uma lista, ainda que incompleta, de livros infanto-juvenis de produção nacional:

AMARÍLIS, Orlanda (1996), A Tartaruguinha. Praia: Centro Cultural Português
BETTENCOURT, Fátima (1997), A Cruz do Rufino. Praia: Centro Cultural Português
BRITO, Ineida Kénia (2003), Princesa Laginha. Mindelo: Biblioteca Municipal do Mindelo
COSTA, Mizé, Histórias que eu Contei (1996). Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco
CURADO, Hermínia (2000), Histórias de Encantar. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
CURADO, Hermínia (2003), A Magia das Palavras. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
LOPES FILHO, João (1998), Vamos Conhecer Cabo Verde. Lisboa: Embaixada de Cabo Verde
LOPES, Leão (?). A História de Blimundo. Praia: Centro Cultural Português
LOPES, Leão (1998), Unine. Praia: Centro Cultural Português
LOPES, Leão (2009), Capitão Farel – A Fabulosa História de Tom Farwell, o Pirata de Monte Joana. Mindelo: Ponto & Vírgula, Edições
MAGALHÃES, Natacha (2009), Mãe, Me Conta uma História? Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2000), Bentinho Traquinas. Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2002), 1, 2, 3. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
PEREIRA, Marilene (2007), Aventuras na Cidade Velha. Praia: UNESCO
PEREIRA, Marilene e SALÚSTIO, Dina (2002). Que os Olhos não Vêem. Praia: Centro Cultural Português
QUEIRÓS, Luísa (1998), Saaraci: O Último Gafanhoto do Deserto. Praia: Centro Cultural Português
RAMOS, Ivone (2009), Mam Bia Tita Conta Estória na Criol. Praia: Centro Cultural Português
RODRIGUES, Antónia Luís (2003). Minguim, o Pirata. Mindelo: Biblioteca Municipal do Mindelo
SALÚSTIO, Dina (1998), A Estrelinha Tlim-tlim. Praia: Centro Cultural Português
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Greve dos Animais. Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Sopa da Beleza. Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: O Reino das Rochas. Praia: Editora Isabel Gráfica Lda
SANCHES, Zaida (2009), Colecção Stêra: A Princesa do Mês de Agosto. Praia: Editora Isabel Gráfica Lda
SOUSA, Graça Matos (2001), O Monstrinho da Lagoa Rosa. Praia: Centro Cultural Português
SOUSA, Graça Matos (2002), O Caracol Julião. Praia: Centro Cultural Português