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segunda-feira, 12 de março de 2012

Lívia Natália - Landê Onawalê e as diásporas íntimas do corpo (resenha)


Landê Onawalê e as diásporas íntimas do corpo
Lívia Natália*
 
As diásporas que titulam o livro de Landê Onawalê são as íntimas, mas poderíamos chamá-las de mínimas. A delicadeza dos deslocamentos representados nos oito contos  reunidos em Sete: Diásporas íntimas (Mazza Edições, 2012, 72pgs) dialoga com a grande diáspora do povo africano e busca flagrar outros movimentos, pensar como se conformaram, na árida paisagem, estes corpos negros, a desenhar, contemporaneamente,  outros percursos.
Neste livro, se encontram infâncias onde a consciência de si amadurece cedo, os jovens de Sete: Diásporas íntimas estão todos partindo ou chegando. Eles são corpos forçados a se descobrir, demarcando os seus limites diante do mundo, jogando com os lugares marcados, fugindo deles, mesmo quando aprisionados pelos seus contornos, como Adalberto de Um amor na diagonal. Este livro é escrito todo na diagonal, é outra forma de andar, um investimento na ruptura com a verticalidade, que limitam os negros, sua literatura e seus temas aos estereótipos rebaixadores, e também com a horizontalidade que ergue as grades da história como muros, ante nossos olhos.
Nas franjas mínimas, no mais íntimo da vida cotidiana o livro inscreve sem mistérios. Elege temas que nos atravessam, retratando, com uma consistência desconcertante, o que de comum ou excepcional há nas travessias de cada um de seus personagens, que somos nós. Nas dobras das histórias desenham-se infâncias perdidas e restauradas, amores desfibrados, a força das Religiões de Matriz Africana no percurso e assunção do lugar sujeito no sagrado como no conto Mukongo e retrata também a história dos quilombos, alegorizada no amor de Romão e Veridiana.
A escrita de Landê Onawalê é a das possibilidades de ser, e, dentre estas, destaco o modo como ele constrói outra forma de ser homem. O que se vê é uma diáspora do masculino, do homem negro, tema de sucessivas discussões entre as escritoras afrobrasileiras, e que encontra resposta ampla em personagens como Jorge e Romão. De um lado, o conto Por sobre as estações nos apresenta um relacionamento falido, conduzido por um homem que, como muitos, se pensa como proprietário da mulher indo, por isto, muito além de qualquer limite: “Mas Regina abandonara o lugar de musa, ao se perceber no alto de uma velha torre inacessível, só tocada pelos delírios do marido”. Por outro, Romão: um homem de intuições, nele o sexto sentido, propaladamente dito ser apenas do feminino, se manifesta com a angústia do amor no conto Veridiana, e o que se deslinda diante do leitor é um masculino sem castrações, pleno de si: “Ainda confuso, ele se apressou em entender, nas meias palavras de Veridiana, o significado de sua vida inteira”.
Também um feminino enraizado se afirma. As mulheres do livro tem uma complexidade sinuosa, e trazem, como marca maior, o silêncio. Elas não se desperdiçam, mergulham em si mesmas, num gesto de profunda reflexão, e é este silêncio que moverá o mundo, como uma engrenagem invisível.
Os textos trazem a limpidez da contística, que, como sabemos, é muito difícil de ser mantida. O conto deve ser uma linha tensionada e firme pela qual o leitor caminha ainda que temeroso de precipitar-se. Neste sentido, Landê Onawalê constrói narrativas íntegras, as personagens são profundamente plausíveis e, como tal, imprevisíveis, o que aumenta a tensão nos textos que lemos capturados, sorvendo cada palavra. Nada transborda ou falta, a seta é certeira. Saímos do livro movidos pelos seus trânsitos, navegando em nós mesmos, intimamente apartados de nossos lugares. O livro é de uma beleza irremediável.


* Lívia Natália é Profª Drª em Letras e poetisa, autora de "Água Negra". Texto compartilhado pela autora em 12 de março de 2012.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Abraão Vicente - e de repente a noite (resenha - A Nação)


Abraão Vicente – e de repente a noite
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 229, de 19/01/2012, p. E15

A recente produção literária de Cabo Verde realizada na diáspora, ou a tendo como tema, apresenta textos de interessante fôlego e com novos paradigmas ao sistema literário do arquipélago nos recentes anos. Para ilustrar tamanha desenvoltura e inovação, temos na poesia a reescritura incessante e ininterrupta de poemas de José Luis Hopffer Almada, os livros “Lisbon Blues” de José Luiz Tavares e “Areias e Ramas” de Maria Helena Sato; enquanto na prosa, assinalamos “Para onde voam as tartarugas” de Joaquim Arena e “Contos da Basileia” de Tchalê Figueira configuram-se agradáveis surpresas.

O multifacetado artista e agora deputado Abraão Vicente, nascido na ilha de Santiago em 1980, lançou a inquietante prosa de “O Trampolim” em 2010. No final de 2011, o seu primeiro livro de poesia, “e de repente a noite”, um enxuto conjunto de 29 poemas pela Kankan Studio.

Neste livro, Abraão Vicente revela-se como cidadão do mundo durante os três anos de vivência na Espanha. A condição diaspórica é sentida em versos por vezes melancólicos e inquietantes do sujeito lírico distante de sua terra. Em uma escrita de profunda introspecção, a recorrência ao silêncio como alegoria da inadaptação ao cotidiano – como em “Renúncia”, “Bastardo e/ estrangeiro/ onde quer/ que eu vá (...) Solidão” – marca as dificuldades da contemporaneidade e da fragmentação do sujeito agoniado com o tempo e o local onde vive: “Tempo de ser nada,/ reinventar o vazio. (...)  Não.// Eufemismo ruído,/ poesia desse tempo/ de se ser coisa alguma”.

A criação poética na diáspora agoniza, o isolamento do cabo-verdiano atinge o fazer poético em pleno diálogo com o Arménio Vieira de “No Inferno”: “A que sabe questionar/ uma folha em branco?” A intertextualidade prossegue com Manuel Bandeira – Pasárgada do campo do prazer físico – e Oswaldo Alcântara – Pasárgada do campo da justiça e da utopia – no poema “Rei”, no qual diferencia as agruras de sua época, “sou rei de coisa nenhuma”, e enfatiza “Sou rei e guerreiro desse/ tempo de perdedores,/ desse momento de quiçá…// …desta página onde rascunho/ meu retrato de louco”.

O comprometimento do sujeito lírico com o fazer poético desvela-se de forma solitária, a expor o comportamento individualista da atualidade e a busca por uma existência digna representada no comovente “Ser poeta”, pois só assim com a morte do silêncio inerte, firme e resistente com sua poesia a combater às agruras do mundo “valerá a pena/ teres existido”. Comprometimento que remete a um poeta histórico, Oswaldo Osório, que vivenciou o tempo da utopia e o belo “Signo Poético”: “levar ao tribunal da Humanidade os crimes/ e as mentiras que são milhões/ mas sobretudo compreender o teu tempo como nenhum / e por isso loucamente o amar”.

Charles Baudelaire consagrou o incômodo do homem moderno com a modernidade, sendo uma sensação permanente em nossos dias, que conduz o sujeito lírico a subverter a máxima cartesiana do “penso, logo existo” perante a dolorosa convivência entre os homens no poema “Pensar ser outra coisa”: “Sou gente penso e/ logo a duvida persiste”.

Apesar da recorrência a um silêncio quase que tangível, matéria bruta e incessante dessa poesia, “Ensina-lhes que/ sua essência/ é o antônimo/ de vazio”, o sujeito lírico revela um lirismo amoroso em “Lembro-me de ti”, por exemplo, e o oposto, a inconcretude do amor em “Talvez”, poema intimista que podemos identificar semelhança aos versos de Mario Lucio Sousa em “Para nunca mais falarmos de amor”.

O sujeito lírico marca a metapoética em “Momento da palavra”, sua origem étnica de negro e africano em “Conversas com Deus” e a necessária reinvenção do ser diante das impossibilidades do hoje, “Reinventa-te/ para ser algo mais…”. Em “e de repente a noite”, com poemas curtos em sua maioria e versos breves, Abraão Vicente desvela uma poesia de raros momentos de lirismo amoroso, muitas vezes melancólica e angustiada com a existência, em uma dicção íntima do eu que merece a atenção dos leitores.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Carlota de Barros - Sonho Sonhado


Carlota de Barros – Sonho Sonhado
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, n. 227, p. E21, de 5 de janeiro de 2012

A primeira percepção positiva do terceiro livro de poesia de Carlota de Barros é a ousadia, que complemento como dever cívico a Cabo Verde, em razão da edição trilingue em língua materna cabo-verdiana, português e inglês. O primeiro livro de poesia com essa característica em seu país. “Sonhu Sunhadu”, “Sonho Sonhado”, “Dreamt Dream” é uma republicação ampliada do IBNL, ano de 2010, contém 55 poemas, prefácio de Teobaldo Virgínio, tradução para a língua materna de Viriato de Barros e Maria Sedovem Kemp, para o inglês.

Carlota de Barros Fermino Areal Alves nasceu na Ilha do Fogo em 24 de Janeiro de 1942. Durante a infância viveu nas Ilhas do Fogo, Brava, S.Nicolau e S.Vicente. Em 1949 mudou-se, com a família, para Moçambique onde permaneceu até 1957, ano em que partiu para Portugal. Neste país licenciou-se em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Mora em Portugal desde 1974, mas visita constantemente o seu país.

Carlota de Barros é colunista do Jornal Artiletra, tem textos publicados na Revista Pré-Textos e em outras revistas de Letras e Artes. Em 2000, lançou o seu primeiro livro de poesia, “A Ternura da Água”; em 2003, “A Minha Alma Corre em Silêncio”.

Em “Sonho Sonhado” aprofunda-se sua escritura melancólica, sensível, terna, com um olhar diaspórico saudoso da terra-mãe, ainda assim crítico às injustiças sociais não solucionadas do passado e aos problemas da contemporaneidade, no qual o sujeito lírico distante por anos de exílio deambula por lugares de sua memória afetiva contaminados pelos novos dramas, como bem inferimos no poema “Regresso à terra”: “caminhões hiaces/ vendedores/ mandjacos e chineses/ raparigas e rapazes ociosos/ olham-te curiosos// ninguém te conhece/ não conheces ninguém”. Porém, sensação de estranhamento logo dissipada com o calor dos antigos amigos: “alguém toca-te/ um abraço familiar (...)// a tua alma alegra-se/ nada mais te dói/ a terra acolhe-te/ sorri-te hospitaleira”.

O retorno é doloroso, composto por lembranças de um triste passado enfatizado na secura da constatação do poema “Seca”: “Não gostaria de ter visto/ os altivos coqueiros de pé/ a morrer sem um gemido/ o esplendor das árvores/ a murchar em silêncio// Não gostaria de ter visto/ mas vi/”. Porém, o olhar transfigura-se em comovente e generoso desejo do sujeito lírico em fornecer o acalanto ao seu alcance, a poesia de afeto: “Se eu pudesse/ também meus versos/ seriam chuva/ e se o mar fosse milho// a nossa terra seria rica”.

Ohar terno, de ternura da água cabo-verdiana da poeta que persiste na vasta diáspora com a notícia das chuvas no arquipélago a motivar recordações afetivas do bem que virá: “Ouvi dizer/ que chove nas ilhas/ e que a terra rejubila de frescura”.

Afeto expandido às mulheres e às influências literárias e culturais do país, passam pela morna e batuque, por músicos como Ildo Lobo e poetas como Eugénio Andrade – admiração celebrada em dois belos poemas em prosa –, Sophia de Mello Andresen e Ovídio Martins, sendo que no poema de contestação social dedicado a este é clara a intertextualidade com “Um poema diferente” de Onésimo da Silveira.

Uma poesia de ternura, de afeto ao seu povo e às suas ilhas, por outro lado, de palavra contestatária e de denúncia social presente em poemas como “Os homens enlouqueceram” e “Dias de traição”, mas, sobretudo, de sonho, de sonho sonhado, talvez por isso, as constantes referências ao azul, cor do céu, do mar, do infinito, por fim e ao cabo, da sensibilidade desmesurada, do lirismo afetuoso, da fraternidade poética a insistir em um sonho possível: “venham todos/ os que partiram/ ergam os braços aos céus/ pelo sonho sonhado/ por uma terra com brilho/ caminhos claros/ esperanças forçadas// levantem-se todos/ por este sonho sonhado”.

*

A Diva dos Pés Descalços – presto minha solidariedade à dor do país nessa hora di bai de Cesária Évora. Cisé de voz cativante, de música para o mundo, expressão máxima da cultura cabo-verdiana.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Jorge Carlos Fonseca - surreal e beat (resenha)


Jorge Carlos Fonseca - surreal e beat
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiana A Nação, nº 224, p. A14, 15 de dezembro de 2011.

A poesia de Jorge Carlos Fonseca, atual Presidente da República de Cabo Verde, consagrou-se pela subversiva experiência com a linguagem e a palavra lapidada por um viés surrealista, absorvendo do movimento articulado por André Breton o que há de contestação à realidade vigente, na procura de transformação do mundo em investigações no inconsciente, na proposta de revolucionar a linguagem para atingir a libertação do homem a qualquer forma de opressão.

Nesse sentido, sua poesia dos livros “Silêncio Acusado de Alta Traição e de Incitamento ao Mau Hálito Geral” (1995), “Porcos em Delírio” (1998) e em diversas antologias e revistas, assume um caráter corrosivo e único no arquipélago ao ressignificar a indignação com a sociedade, ainda que boa parte de sua lírica se afaste de temas tipicamente cabo-verdianos.

Destaca-se um poema de caráter diaspórico, “Quis-te ausente, poesia interdita, para melhor abraçar a América” (de 1978, publicado em Mirabilis – de veias ao sol, antologia organizada por José Luis Hopffer Almada), sobre as deambulações do poeta por Nova York, e propõe-se um diálogo com o beatnick Allen Ginsberg (AL) nos poemas “Uivo” (U) e “América” (A), do livro “Uivo e outros poemas” (1956). Os beatnicks fizeram uma revolução na linguagem e nos valores literários, e eram contrários ao american way of life. Resgatavam Walt Whitmann, os simbolistas franceses, dentre outros. Em textos na primeira pessoa, escancaravam experimentações de diversas ordens, desde sexuais e políticas, ao farto uso de drogas em delirantes viagens ao som do jazz. Ginsberg, Jack Kerouac e W.S. Burroughs foram os grandes nomes dessa geração.

Interessante o título de Quis-te ausente... pois ao mencionar a poesia interdita o sujeito lírico de Fonseca para melhor compreender a América aproxima-se de características marcantes da literatura beatnick sem perder a sua vertente surrealista. Percebe-se a deambulação – “seventy avenue south (...)/ broadway soho Michigan” –, em seus 46 versos as imagens são colagens inusitadas, as metáforas insólitas e a difícil busca pela liberdade – “A mulher longilínea de esporas/ segue loira atenta expedita/ os golpes ágeis doridos/ michael cavin drummer contagiado/ pela dor castanha da liberdade/ momentaneamente conseguida”, enquanto em AL a recusa à ordem estabelecida: “Eu estou cheio de suas exigências malucas (...) Sua maquinaria é demais para mim” (A). JCF expõe a decadência do país: “América/ ferida todas as noites todas as madrugadas/ (...) semanalmente prostituta e lira/ diariamente virgem violentada pintura fantástica seqüestrada”, tal como em AL: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus” (U). Na fusão delirante jazz/sexo bem ao gosto beat em JCF: “enquanto Walter Bishop jr. fabrica/ o frio e o quente/ ora melódicos distantes sexuados/ ora desabridos irreverentes pudicamente revoltados”, e em AL, “na roupagem fantasmagórica do jazz (...) fizeram soar o sofrimento da mente nua da América” (U). A crítica social a desmascarar o sonho americano em JCF: “na escuridão igualitária/ de lobos mendigos alcoolizados/ acompanhando ternos/ os uivos violentos/ orgasmo guilhotinado/ nesta américa elegante vagabunda pulmões vitaminados?”, como em AL: “Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com a minha boa aparência?” e “Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis” (A).

O estilo ágil de Allen Ginsberg favorece a acidez poética de Jorge Carlos Fonseca diante da crise de uma “América em lágrimas” (U). Fonseca, um sujeito deslocado de seu espaço, antropofagicamente, devora características dos beatnicks e mantém intacta a voracidade de seu surrealismo. Assim encerra o vate cabo-verdiano: “confundi teu sorriso roubado e ausente/ com teus gestos fiéis e perfurantes/ (...) américa vistosa e vermelha/ estátua da liberdade solta e de cabelos ao vento”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tânia Tomé - M’bique, conversas com a sombra (lançamento)



POSFÁCIO Uma leitura de “M’bique, conversas com a sombra”
Ricardo Riso, 30 de novembro de 2011.

A expectativa gerada por “Agarra-me o sol por trás”, primeiro livro de poesia de Tânia Tomé, poderá ser saciada por seus leitores com a sua segunda incursão poética que agora se apresenta com o enigmático título: “M’bique, conversas com a sombra”. Após o peso e a pressão da estreia, o livro seguinte de um(a) autor(a) carrega a responsabilidade da confirmação gerada pelo primeiro ou a decepção de um brilho fugaz ao qual o atual não se mostra compatível ao esperado. Caberá ao leitor esse exercício.

Neste novo livro, o conjunto de poemas apresenta questões de ordem ontológica de extremo interesse em um precioso labor com a linguagem, com a palavra poética. No “útero de palavras” aqui proposto, temos a ressignificação dos sentidos inertes empregados no cotidiano a convidar o leitor a refletir a sua existência e por isso as provocações interrogativas direcionadas a nós: “Entendes?”, “Confundiste-te agora?”.

O sujeito lírico de Tânia Tomé expõe suas indagações associando-as a um trabalho de renovação da linguagem, “O meu gosto em falar uma língua que não existe”, o que remete às considerações de Roland Barthes em “Aula” acerca do uso da língua:

Só nos resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. (...) porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto. As forças de liberdade não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, (...) mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua.

O ato de trapacear a língua encontra no fazer poético o seu espaço de excelência, pois o sujeito lírico possui a liberdade para deslocar as palavras do seu sentido usual e, ao mesmo tempo, procurar um novo sentido para a existência: “Aprendi a ser, de maneira difícil,/ sendo à medida que crescia para dentro,/ encolhendo os verbos. Distorcendo-os (...)”. Trata-se de um processo de interiorização do ser, de uma poética do eu para ampliar os sentidos adormecidos das palavras; nessa direção, encontrar a liberdade. Tal procedimento é por demais conhecido e consagrado na literatura moçambicana pelo célebre escritor Mia Couto, mas que neste livro de Tânia Tomé encontramos, em nosso entendimento, ressonâncias maiores na poesia do brasileiro Manoel de Barros.

Barros é autor de uma poesia de extrema criatividade e ludicidade com a palavra, deslocando-a e revelando surpreendentes e inusitados sentidos que espantam por subverter o real de forma radical. Não há como não lembrar do velho Manoel quando lemos o supracitado verso de Tomé: “O meu gosto em falar uma língua que não existe”; enquanto ele versifica da seguinte maneira em seu “Livro das Ignorãças”: “Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.” É nesse processo de desconstruir a linguagem, por conseguinte, descoisificar a realidade que o sujeito lírico de Tomé chama atenção para a urgente necessidade de transgressão do ser, de se ter “jeito de não ser”. Para isso, as imagens retratadas pelo sujeito lírico tornam-se dissonantes, surreais, sendo necessário – e retornamos a Manoel de Barros – desinventar objetos – e que na poesia de Tomé assim aparece: “Na casa tinha um televisor preto e branco. O evidente é que esse televisor só poderia ser de cartolina evidentemente, mais não podia ser.”

Para complementar a visão crítica que se apresenta nesses novos poemas de Tânia Tomé, fundamental é o olhar para as descobertas das crianças: “Há coisas que só as crianças conseguem enxergar. Coisas do acredito”; de um olhar questionador à busca do “criançamento das palavras” de Manoel de Barros, desse olhar para o novo, que se maravilha com o inusitado a ponto do sujeito lírico retomar outro poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, e o seu célebre poema “No meio do caminho”. Para o sujeito lírico, “isso era o mais interessante da pedra, o incerto.” A pedra no meio do caminho como obstáculo para movimentar as dúvidas e inquietações do ser, de se tornar a mola propulsora para a investigação que gerará a descoberta, a elevação para um novo ser indagador e criativo. Poeta.

Na sua intensa vontade de desaprender para ser, mergulhado em suas indagações ontológicas ainda assim o sujeito lírico mostra-se político e preocupado com o tempo e com o meio que vive e demonstra ser extremamente moçambicano, vinculado à terra-mãe ao reverenciar sua cultura e a sua literatura relacionada ao macrotema da ilha – “Eu tenho uma ilha dentro de mim, navegando-me inteiro o todo, o tudo./ Oi ilha, dentro de mim!” –, ao encontrarmos ecos de Eduardo White, Mia Couto, Rui Knopfli e Luis Carlos Patraquim, apenas para citar alguns, e apresenta com virulência que a inquietação do ser também passa pela da nação moçambicana e os caminhos tortuosos desde a independência: “a terra tem sintoma, tem problema de existir,/ sofre de sofrer, e tudo por onde fenda/ vive mora numa hemorragia vermelha/ sem pressa de acabar”.

Uma profunda viagem ao âmago do ser é proposta pelo sujeito lírico, assim como as ressonâncias sociais e políticas que acompanham essa desconstrução do antigo ser para o nascimento de um novo ser a desvelar o “nosso futuro por vir”, espaço da utopia, espaço que encontra abrigo na palavra poética, que conduz o sujeito lírico a recordar o ainda necessário poema de José Craveirinha de recusa do real desigual e desumano. Por isso, aqui compartilhamos o sentimento de reconstrução e dizemos SIA-VUMA!

É essa vocação utópica da poesia que Tânia Tomé em “M’bique – conversas com a sombra” convida à reflexão aos constrangimentos do presente, suas incertezas e desenganos, e por meio da palavra poética pensar nossa existência para assim partirmos à constituição de um novo ser, “e aí, só aí seremos. M’bique.”

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira

Abaixo a comunicação apresentada por mim para o evento Bahia de Todos - III Encontro de Cultura e Literatura, realizado no dia 8 de novembro, na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca. Meu agradecimento à equipe de apoio e especialmente à Profª Drª Cristina Prates por tão belo e diversificado evento.
Ricardo Riso

Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira
Por Ricardo Riso

Dentro de um processo de afirmação identitária nas antigas colônias africanas sob o jugo de Portugal, é notória a influência do modernismo brasileiro na literatura de Cabo Verde, mais precisamente na geração da revista Claridade (nove edições de 1936 a 1960), representada, dentre tantos outros, por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes. Os claridosos, assim conhecidos, visualizavam no exemplo dos modernistas brasileiros uma vertente para pensar o arquipélago, suas contradições e seus dilemas, distanciando-os da metrópole portuguesa. Surge nos intelectuais desse período, pois a Claridade não era uma revista apenas de literatura e abarcava outras áreas do saber, um olhar aprofundando dos problemas sociais do país, ou como afirma Manuel Ferreira: “Os modernos textos brasileiros andaram de mão em mão no momento em que os jovens intelectuais cabo-verdianos descobriam a urgência de rigorosa objectividade socio-literária” (FERREIRA, 1985, p. 261).

Baltasar Lopes, um dos idealizadores dessa proposta, assim narra a recepção aos textos dos modernistas brasileiros:

Há pouco mais de vinte anos eu e um grupo de reduzidos amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais ‘pro domo nostra’. Na ficção o José Lins do Rego d’O menino de Engenho e do Bangüê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rabelo d’O caso da Mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um ‘alumbramento’ a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. (SANTOS, 1989, p. 43)

O romance regionalista brasileiro tem presença marcante com Jorge Amado, principalmente no que diz respeito aos costumes e às similitudes da cidade de Salvador com Cabo Verde, o que podemos inferir no depoimento do escritor e ensaísta cabo-verdiano Gabriel Mariano:

Em 1947 comecei a conhecer os contos admiráveis do Marques Rebelo (...) Bom, o Jorge Amado em 48. O primeiro livro que li do Jorge Amado foi Terras do Sem Fim... Aquela passagem ‘Eram três marias numa casa de putas pobres’. Nessa altura eu tinha... 20 anos, foi quando conheci o Jorge Amado e o modernismo brasileiro.

(...) Foi um alumbramento porque eu lia um Jorge Amado e estava em Cabo Verde. de Jorge Amado, o Quincas Berro d’Água, quando eu o li pela primeira vez, a personagem, as características psicológicas da personagem, a reacção das pessoas, quando souberam da morte de Quincas Berro d’Água, eu li isso tudo e eu estava a ver a Ilha de São Vicente, Cabo Verde (...) Estava a ver a Rua de Passá Sabe...” (LABAN, pp. 331-2)

Para além dos romances regionalistas, acrescentamos o impacto causado pela poesia de Manuel Bandeira na geração claridosa e “as reverberações do tema de Pasárgada, colhido da poesia de Manuel Bandeira, alçaram-no a matriz poética do arquipélago, tendo como seu principal cultor o poeta Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) que o legou entusiasticamente a outros escritores” (GOMES, 2008, p. 115). Dessa maneira, Osvaldo Alcântara, com maior ênfase, e outros escritores cabo-verdianos, seguem o verso de Bandeira, “Não quero mais saber do lirismo que não é libertador”, e incorporam o pasargadismo que inspirou o desejo de evasão para outro espaço conotado à justiça social e ao poder libertador da palavra poética.

O movimento pasargadista foi fundamental para a afirmação da geração claridosa, por outro lado, seu discurso evasionista sofreu severas e, por vezes, injustas críticas das gerações poéticas posteriores comprometidas com a libertação colonial, e aqui citamos Ovídio Martins e o célebre poema “Anti-Evasão” com o brado “não vou para Pasárgada”, assim como o escritor e ensaísta Onésimo da Silveira, ambos recusavam o evasionismo dos claridosos, como recusavam a emigração de cabo-verdianos. Era necessário ficar para resistir ao colonialismo sob a ditadura salazarista.

Para além das mazelas do colonialismo, vários fatores forçam a emigração do ilhéu, e recorremos ao antropólogo cabo-verdiano Dr. João Lopes Filho que aponta possíveis causas para a emigração do ilhéu:

a) – REPULSÃO – Problemas relacionados com frequentes e prolongadas crises de falta de chuvas, por vezes com consequências catastróficas: - Economia débil e de subsistência; - Elevado crescimento demográfico; - Desequilíbrios socioeconómicos.

b) – ATRACÇÃO – Oferta de melhores condições de vida pelos países hospedeiros: - Necessidade de abundante mão-de-obra barata por parte dos países desenvolvidos; - Espírito de aventura dos ilhéus; - Perspectivas de melhoria das condições de vida.

c) – COMUNICAÇÃO – O peso da tradição (emigração histórica): - Informações veiculadas pelos emigrantes de “torna-viagem”; - O estatuto económico que os emigrantes bem sucedidos são portadores no regresso à terra de origem; - Reportagens apresentadas pela comunicação social sobre os países mais desenvolvidos. (FILHO, p. 14)

Como vemos, em razão dos parcos recursos do arquipélago, são vários os motivos para o cabo-verdiano emigrar, e é a questão da emigração que será um dos motes para apresentarmos a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, do cabo-verdiano Tchalê Figueira. Neste livro pretendemos mostrar as experiências de um ilhéu na diáspora, mais precisamente na cidade de Salvador, Bahia. Mas, antes cabe apresentarmos o autor.

Carlos Alberto Silva Figueira, nome de Tchalê Figueira, nasceu em 1953, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aos 17 anos, em meio às guerras de libertação nas colônias africanas dominadas por Portugal, em um ato de rebeldia, Tchalê decide sair clandestinamente de Cabo Verde para não servir ao exército fascista português e assim lutar contra seus pares. Ruma a Roterdã, na Holanda, mas pouco tempo aí permanece. Durante dois anos, opta por realizar a sua aventurosa viagem de circum-navegação, tal como o seu herói Ptolomeu Rodrigues, servindo de copeiro em barcos que rasgam os oceanos da Europa à Ásia e às Américas. Em 1974, fixa-se na cidade da Basileia, Suíça, onde frequenta a escola de belas-artes e torna-se artista plástico. Retorna ao Mindelo somente em 1985 onde encontra-se até hoje. Atualmente é um dos mais prestigiados artistas plásticos de Cabo Verde com obra reconhecida por diversos países. Além disso, já possui uma considerável obra literária com os seguintes livros de poesia: “Todos os náufragos do mundo” (1992), “Onde os sentimentos se encontram” (1998) e “O azul e a luz” (2002); enquanto em prosa publicou a novela “Solitário” (2005) e “Contos da Basileia” (2011).

Na novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, publicada pela editora portuguesa Mar da Palavra em 2005, a história do personagem-título confunde-se com a do autor como bem observa Francisco Fortes em apresentação incluída no livro:

Ptolomeu emerge também como alter-ego do pintor Tchalê Figueira. Ambos partilham da ilha na verde juventude e se fizeram marinheiros e aventureiros. Também em ambos há o culto por um conhecimento erudito, um traço psicológico incomum no cidadão que emigra em busca de uma existência mais desafogada. (FIGUEIRA, 2005, pp. 9-10)

Recordamos o contexto histórico de sufoco por ser Cabo Verde uma colônia, colônia sob o fascismo salazarista e em plena guerra de libertação comandada pelo PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné e Cabo Verde) de Amílcar Cabral em terras guineenses. Enquanto isso, Europa e EUA viviam ainda os ecos do flower Power de 1968 e os movimentos sociais e de valorização de minorias, tanto de gênero quanto raciais. Nesse sentido, o prefácio de Germano Almeida, o mais prestigiado romancista de Cabo Verde, é preciso ao mencionar as expectativas de um jovem ilhéu a desvendar o mundo:

Imagine-se, pois, o deslumbramento e as possibilidades de um jovem ilhéu curioso e irreverente, de repente saído de um meio de repressão familiar, social e política para se confrontar para um mundo onde tudo é permitido em termos de liberdade de cultivar e exprimir e inventar, não sem riscos de qualquer sanção, mas, pelo contrário, acarinhado com desvelo, quer pelo público quer pelos poderes (FIGUEIRA, 2005, p. 6).

A narrativa vale-se da oralidade, pois Ptolomeu conta suas aventuras e desventuras para o autor, referido por ele como “artista”, em um banco da praça:

Hoje, já velho e constantemente bêbado, Ptolomeu Rodrigues vai, todos os dias, pela tarde, sentar-se no seu banco favorito, na Praça de S. Pedro. Dali, ele vê o mar e sonha. Fala, quase sempre, sem parar e nos seus monólogos, aparentemente sem sentido, dilui-se nas intermináveis aventuras vividas.

Para soltar a língua, carrega com ele um grogue fedorento, (...) que o faz retroceder no tempo e reviver, de uma forma entusiástica, a atribulada vida de marinheiro. Num terrível vapor de álcool, os seus solilóquios nem tem um verdadeiro sentido cronológico. Mas, eu, o “artista”, fascinado pela capacidade de narração do ancião, todas as tardes, sento-me a seu lado, para ouvir estórias. (FIGUEIRA, 2005, pp. 18-19)

De certa maneira, Tchalê Figueira subverte e atualiza a importante figura, em diferentes culturas africanas, do griot, o contador de histórias tradicionais, ao deslocar este contador para o espaço da diáspora cabo-verdiana e as experiências contadas na terra-longe. Espaço este pouquíssimo documentado na literatura do arquipélago, como bem observa o Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo na ocasião do lançamento em Cabo Verde do mais recente livro de Tchalê, “Contos da Basileia”:

Um dos grandes méritos destes Contos de Basileia é o facto de registar aspectos das vivências da diáspora caboverdiana lá na terra longe, de uma maneira geral ausente na literatura caboverdiana. Compreende-se, até certo ponto, esta falha na nossa literatura, que se justifica, por um lado, por a nossa emigração ser, na sua grande maioria, constituída por homens trabalhadores e não por homens de pena, e por outro, ser preciso uma certa distância física e temporal para se reflectir sobre os factos e as vivências e decantá-las, para se poder produzir arte, quer seja literatura, pintura ou música. (BRITO-SEMEDO, 2011).

O personagem Ptolomeu Rodrigues conta para “seu público invisível” (p. 60) histórias atribuladas, conturbadas e sempre com enredos que envolvem bebedeiras, bordéis, prostitutas, farras sexuais, roubos, brigas, prisões, tortura e interrogatórios, e racismo em diversos portos do mundo. Ptolomeu passa por lugares tais como Roterdã, na Holanda, Vladvostock, na antiga União Soviética, Espanha, Irlanda, Argentina, Japão etc. Essas aventuras são surpreendentes e inusitadas, as quais o então jovem Ptolomeu acaba traído pelo seu impulso sexual incontrolável: “Baixa a cabeça e começa a falar com seu pénis, nestes termos: ‘Sempre foste o meu infortúnio! Naquele tempo, pensei mais com tua cabeça, e não com a cachimônia’” (p. 52). Uma passagem que ilustra a fraqueza do jovem Ptolomeu se dá no relacionamento repentino com duas mulheres – uma irlandesa e a outra, basca – leva-as para o barco no qual trabalha com a promessa de conduzi-las clandestinamente para a Holanda. Entretanto, o plano é descoberto e os três são entregues para a polícia:

A inglesa, filha da mãe, descobriu as senhoritas no meu camarote. (...) Como uma cabra louca, dirige-se ao meu camarote, mete a chave na fechadura e entra de rompante. Com os olhos saindo das órbitas, ela depara com um grande filme de amor... Estou com as gajas na cama. É a desgraça! (...)

E fomos os três conduzidos à ‘casinha de vidro’, nome baptizado pelos meus patrícios a um compartimento onde as autoridades holandesas metem os estrangeiros ilegais que aguardam julgamento. (...) Acredites ou não, artista, meti-me numa encrenca terrível. A polícia criminal, ao investigar sobre as duas mulheres, (...) depois de minuciosamente interrogadas durante horas, descobrem que são simpatizantes dos grupos separatistas IRA e ETA. (FIGUEIRA, 2005, pp. 53-55)

São por esses caminhos tortuosos incluindo prisões e extradições que surgem encontros insólitos, como a vez que encontrou o grande líder da revolução cabo-verdiana Amílcar Cabral em Moscou, na URSS, e posteriormente ao Brasil, “país de seus sonhos” (p. 60), à cidade de Salvador, na Bahia, e chega “ao paraíso das mulheres, da música e do místico” (p. 72) e fica “deslumbrado com aquela cidade, que tem uma arquitetura parecida com esta, da nossa ilha. As pessoas são parecidas com o povo das ilhas...” (p. 73) Em terras baianas, Ptolomeu Rodrigues, vira cafetão de uma prostituta, adere ao candomblé, tornando-se filho de Iemanjá, aprende a jogar capoeira e todos os tipos de jogos de azar, além do envolvimento com várias mulheres. Até que briga com sua prostituta e arruma uma viúva rica, mulher culta e professora, que o acolhe, passa a aturar suas bebedeiras e o faz crescer culturalmente ensinando-lhe a gostar de literatura, pintura e música. Até ter uma recaída, retornar aos prostíbulos, ser preso e extraditado por estadia ilegal, sendo deportado para Cabo Verde.

Assim, encerra-se a viagem de circum-navegação de Ptolomeu que morre afogado por não conseguir subir ao bote que dormiria na noite em que contou a sua última história, a de Salvador, cumprindo o destino que a mãe-de-santo baiana havia traçado, de viver no mar, conhecer o mundo e morrer no mar, que, por sinal, esta mãe-de-santo “disse-me que um dia, viria a encontrar-te e que tu, meu paspalho, irás escrever as minhas memórias” (p. 74), para espanto e incredulidade do artista-ouvinte.

A narrativa termina com uma menção a um célebre poema de Osvaldo Alcântara, pseudônimo de Baltasar Lopes da Silva, “Capitão das Ilhas”. Para Gabriel Mariano, “Osvaldo Alcântara, ‘Capitão das Ilhas’, é um caçador de heranças e, (...) ele é um agente que recebe, enriquece e transmite a herança recebida” (MARIANO, 1991, p. 164). Assim vemos Ptolomeu, que transmite sua sabedoria e conhecimento ao artista-ouvinte, o qual iria repassá-las em livro. Ao encerrar a narrativa retomando Osvaldo Alcântara, temos o evasionismo caro a este poeta e à literatura cabo-verdiana, e que na história se apresenta no fato de o artista-ouvinte viajar pelo mundo conduzido pelas narrativas orais de Ptolomeu, ou seja, sem sair das ilhas, o artista-ouvinte acaba viajando pelo mundo contado por Ptolomeu, que, em analogia ao astrólogo grego homônimo (90? – 168?) considerava a Terra o centro do mundo, e assim como o antigo grego, a personagem Ptolomeu faz de Cabo Verde o centro de seu mundo, pois sai na adolescência, percorre o planeta e encerra sua trajetória na terra-mãe, Cabo Verde. O que consideramos como uma autêntica demonstração de amor ao seu país.

E aqui reproduzimos o poema “Capitão das Ilhas”, de Osvaldo Alcântara:

Morreu hoje o capitão de um navio das ilhas
Não foi porque ele era bom
e puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro
quando falava comigo que eu fui ao seu enterro.
Fui ao enterro porque sou caçador de heranças
e queria confessar a minha gratidão pela
riqueza que ele me deixou,
pela sua dimensão desmesurada do mundo
e pela sua incorporação no veleiro em que
todos navegamos. (MARIANO, 1991, p. 171)

Parafraseando Osvaldo Alcântara, temos na narrativa de Tchalê Figueira esse impulso tão cabo-verdiano de dimensão desmesurada do mundo, de enriquecer enquanto homem com a contribuição das diversas mulheres com as quais se relacionou e o fizeram crescer intelectual e culturalmente, ampliando os seus limites, ao fim e ao cabo, grato por ser caçador e autor de heranças a nos conduzir no “veleiro em que todos navegamos”.

Para finalizar, o livro Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação estimula a pensarmos na condição do sujeito fragmentado que constrói e enriquece a sua identidade cabo-verdiana na vasta diáspora, encarando os desafios e as dificuldades encontradas na tão sonhada, e às vezes ilusória, terra-longe. Tchalê Figueira apresenta-nos um sujeito conotado ao seu tempo, e recorrendo a Edward Said e a condição do escritor enquanto intelectual, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação” (SAID, 2005, p. 53).


BIBLIOGRAFIA:

BRITO-SEMEDO, Manuel. Tchalê Figueira e os seus ‘Contos da Basileia’. Disponível em < http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/121473.html  > Acessado em 15/06/2011.

FERREIRA, Manuel. Intertextualidade afro-brasileira. In: O discurso no percurso africano I – contribuição para uma estética africana. Lisboa: Plátano, 1989.

FERREIRA, Manuel. Aventura Crioula. Lisboa: Plátamo, 1985.

FIGUEIRA, Tchalê. Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação. Lisboa: Mar da Palavra, 2005.

FILHO, João Lopes. As migrações de cabo-verdianos. Disponível em < http://www.lopesfilho.com/?ID=4&cod=8B6CD4A5508A03241EA  > Acessado em 04/11/2011

GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

LABAN, Michel. Encontro com Escritores – Cabo Verde. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992. V. 2. pp. 331-332. Apud: Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido. In: GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde – literatura em chão de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MARIANO, Gabriel. Cultura Caboverdeana - ensaios. Lisboa: Vega, 1991.

SAID, Edward. Manter nações e tradições à distância. In: Representações do Intelectual – as conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SANTOS, Elsa Rodrigues dos. As máscaras poéticas de Jorge Barbosa e a mundividência cabo-verdiana. Lisboa: Caminho, 1989.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bahia de Todos - UVA/RJ

Prezados,

Participarei do evento BAHIA DE TODOS - III Encontro de Cultura e Literaturas na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, dia 8/11 às 18h15. O evento é organizado pela Profª Drª Cristina Prates. Apresentarei a comunicação "Circum-navegação literária: andanças de um cabo-verdiano em Salvador na novela “Ptolomeu e a viagem de circum-navegação”, de Tchalê Figueira".
Quem puder comparecer, o convite está feito.
Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lia Vieira - Só as mulheres sangram (artigo)

Alguns aspectos de uma escrita negro-brasileira de autoria feminina em “Só as mulheres sangram”, de Lia Vieira

Ricardo Riso, 18 de outubro de 2011.

RESUMO: Os contos de Só as mulheres sangram, de Lia Vieira, procuram revelar diversos aspectos do cotidiano dos negros, em especial o cotidiano das mulheres. Ambientados em diversos espaços, os contos traçam um panorama abrangente dessas experiências negras excluídas do cânone literário brasileiro, apresentando paradigmas ainda não assimilados pela crítica literária tradional. A presente análise aborda os dilemas de um cotidiano negro urbano e rural, a preservação de um passado negro a partir da oralidade e escora-se na importância de uma literatura negro-brasileira, de uma escrita feminina negra, assim como na questão da afetividade entre os negros tendo como suporte teórico ensaístas como Cuti, bell hooks, Miriam Alves, Fernanda Felisberto e Sueli Carneiro.



Lia Vieira, pseudônimo de Eliana Vieira, é uma autora com vasta publicação de contos e poemas editados em “Cadernos Negros”, entre outras antologias no Brasil e no estrangeiro, assim como textos de não-ficção. De sua autoria, os livros “Eu, mulher” – mural de poesias (1990) e “Chica da Silva – a mulher que inventou o mar” (2001) e agora este “Só as mulheres sangram”, sob a chancela da editora mineira Nandyala e com prefácio da escritora e ensaísta Miriam Alves.

Só as mulheres sangram é uma recolha de nove contos que desvelam, em sua maioria, o cotidiano das negras brasileiras, entre outras situações nas quais transparecem as vivências de boa parte de nós, negros, em especial as mulheres, na sociedade brasileira, proclamada de democracia racial pela ordem vigente. Trata-se de um livro que se enquadra na literatura negro-brasileira, assim definida pelo ensaísta e escritor Cuti:

A literatura negro-brasileira nasce na e da população negra que se formou fora da África, e de sua experiência no Brasil. A singularidade é negra e, ao mesmo tempo, brasileira, pois a palavra “negro” aponta para um processo de luta participativa nos destinos da nação e não se presta ao reducionismo contribucionista a uma pretensa brancura que a englobaria como um todo a receber daqui e dali, elementos negros e indígenas para se fortalecer. Por se tratar de participação na vida nacional, o realce a essa vertente literária deve estar referenciado à sua gênese social ativa. O que há de manifestações reivindicatórias apoia-se na palavra “negro”. (CUTI, 2010, p. 44)

Por isso, a pertinência da leitura dos contos reunidos para acompanharmos um eu enunciador negro revelador de espaços de convivência comuns a nós, distante das descrições estereotipadas apresentadas no cânone literário nacional, principalmente por conter um olhar sensível às experiências das mulheres negras. De acordo com a escritora e ensaísta Miriam Alves:

A produção textual das mulheres negras é relevante, pois põe a descoberto muitos aspectos de nossa vivência e condição que não estão presentes nas definições dominantes de realidade e das pesquisas históricas. Partindo de um outro olhar, debatendo-se contra as amarras ideológicas e as imposições históricas, propicia uma reflexão revelando a face de um BrasilAfro (destaque no original) feminino, diferente do que se padronizou, humanizando esta mulher negra, imprimindo um rosto, um corpo e um sentir mulher com características próprias (ALVES, 2010, p. 67).

Com isso, os espaços são o presídio, o morro, a favela, a rua, o interior etc., apresentados por um viés que procura protagonizar a mulher negra, a relação com a afetividade, seus dramas e seus anseios, a luta para manter-se em um mundo opressor, tanto na questão racial quanto na questão de gênero. Luta que vai além do feminismo tradicional (de mulheres brancas), que não considerou as especificidades vivenciadas pelas mulheres negras duplamente subordinadas na sociedade, ser mulher e ser mulher negra. A respeito da não contemplação da mulher negra no movimento feminista, Miriam Alves afirma que:

as lutas e reivindicações femininas conquistaram alguns patamares do direito de cidadania plena, mas não consideraram as questões de raça, consequentemente de preconceito e discriminações, como também das desigualdades entre classes sociais.(...)
A militância feminista negra se distinguiu das bandeiras que impulsionaram o chamado movimento feminista brasileiro, pois para ela seriam outros os obstáculos a superar, em oposição à mentalidade de muitas mulheres brancas para as quais o conceito da feminilidade estava relacionada à brancura e à pureza, as quais não contemplavam as mulheres negras que tinham (e têm) que se desvencilhar de uma variedade de estigmas que correlacionam a cor e a trajetória histórica com inferioridade (...) (pp. 60-61)

Alves complementa que uma das lutas do movimento feminista era com a ruptura da imagem da mulher dona-de-casa, frágil e dedicada ao bem-estar da família, reivindicando outros papéis na esfera pública e a participação no mercado de trabalho. Sendo assim:

Torna-se compreensível porque a questão de identidade racial não fez parte do agenciamento feminista e não abrangeu a totalidade de mulheres, justamente as que já faziam parte do mercado de trabalho, em empregos e subempregos, mal remunerados e sem garantias trabalhistas, trabalhando como empregadas domésticas ou babás. (2010, pp. 62-63)

É essa condição diferenciada das mulheres negras jamais demonstrada nos livros consagrados de nossa literatura que fazem dos textos produzidos por essas autoras negras fundamentais, pois apresentam novos paradigmas ao emergir um mundo oprimido por séculos de repressão revelados no ato da escrita, conforme afirmar Fernanda Figueiredo:

Escrever, para estas mulheres, é ‘ultrapassar’ uma percepção única da vida; é construir mundos e neles apreender, discutir, apontar, enfim, serem agentes imprescindíveis à vida. As vozes-mulheres negras, são, portanto, as vozes, agora audíveis, não somente a própria voz, as vozes ancestrais silenciadas por séculos de exclusão. (...) Elas soltam as mãos e os olhares em seus teares, formando, aos poucos, nova roupagem para a literatura brasileira: a literatura afrobrasileira de autoria feminina. O papel das escritoras é escrever e inscrever a memória do povo negro pelo olhar de dentro; um olhar que recusa as omissões que a sociedade brasileira, sob a égide do mito da democracia social e racial, impôs e ainda impõe à população afrobrasileira (FIGUEIREDO, 2009, p. 105. Apud: ALVES, p. 66).

É na reconfiguração literária do ser feminino negro que outros espaços dedicados à afetividade revelam-se. Uma experiência comum às mulheres negras é a infeliz ambientação em presídios. Ainda que em um espaço rude e marginal, a afetividade da mãe a sua filha permanece intacta como vemos na pequena narrativa de “Por que Nicinha não veio?” Em um presídio, mãe presta solidariedade à filha presa, a segurança e o apoio aos quais precisaria para cumprir a pena, e assim as duas partilham os poucos momentos de união:

Só um alívio entre tantas outras iguais a fazia sobrevivente: a visita de Nicinha, sua mãe. Nicinha jamais fizera julgamento do seu gesto, nunca censurara ou se referira ao acontecido.
Trazia sempre palavras confortadoras, revistas, novidades que ali não tinham eco...
Mas fazia bem o jeito bom de querer que a mãe lhe passava.
Única amiga, cumpriam juntas a pena. Uma dentro, outra fora das grades. Não faltava nunca. Tinha sempre uma “coisinha especial”. (VIEIRA, 2011, p. 10)

Entretanto, o sistema carcerário é cruel, insensível aos sentimentos das pessoas, ou cabe a pergunta: uma presidiária negra possui sentimentos? A frieza parece ser o desdobramento natural para a total ausência de compaixão ao acontecimento seguinte, o motivo da visita não realizada de Nicinha:

Em seu armário, um bilhete pregado:
“Nicinha não virá mais. Foi atropelada no percurso até aqui.
Mais informações na Administração.” (VIEIRA, 2011, p. 11)

O rompimento abrupto da relação afetuosa seguido da desumanidade do gesto revela a maneira como essas mulheres negras são tratadas. Cumpre-se a pena determinada pela justiça, entre outras penas, tais como a da cor da pele, a de ser mulher negra e a de ser pobre. Injustiças e crueldades que também estão na narrativa de “Foram Sete”, na qual a violência sexual à mulher negra, no caso uma menina entrando na adolescência, é demonstrada. Infelizmente, uma situação comum às mulheres negras, tratadas como objeto sexual a serviço do homem branco, ou como muito bem esclarece Sueli Carneiro: “a apropriação sexual das mulheres do grupo derrotado é uns dos momentos emblemáticos de afirmação da superioridade do vencedor” (CARNEIRO, 2003, p. 49. Apud: EVARISTO, 2007, p. 24). A narrativa revela uma cena hedionda que vem desde os tempos da escravidão, aqui representada pelo personagem Safa-Onça: “Já outro (dia) clareava, com seu Safa-Onça em minha cabeça. Branco, macho e rico, seu passatempo era descabaçar menininhas. Assim falavam todos, assim sabiam todos, assim calavam todos” (p. 55).

Para além do abominável gesto de pedofilia, contudo, desvela-se um problema de nossa sociedade: a inércia da população diante de crimes contra à criança e ao adolescente, principalmente quando negros. Justiça que precisou ser feita pela personagem Flor de Liz escorada em seu guia protetor afro-brasileiro, o Seu Sete, desferindo sete facadas no facínora. Flor de Liz é uma dessas mulheres fortes que sempre procurou se manter “limpa, linda e jovem para sobreviver na cidade grande, principalmente no morro” e de como era importante a escolha dos companheiros, nem sempre considerando o amor. Assim imaginava os maridos para suas protegidas: “de preferência PM, para cuidar de nós todas. E Aruanda seria para um enfermeiro dali, bem perto, do Souza Aguiar, que consulta era difícil e remédio nem se fala e, do jeito que havia doença neste mundo, somente uma peixadinha dessa para aliviar” (p. 54). A narradora demonstra o quanto é difícil a vida para uma casa somente de mulheres negras, pobres, e a necessidade de ter homens que as protejam e garantam acesso facilitado à saúde, pensamento prático, pois notórias são as precárias condições de nossos hospitais públicos. Nesse ponto, percebemos a urgência de uma postura que induz a mulher negra, em razão de encontrar-se nas camadas inferiores da sociedade, a optar por uma suposta estabilidade e conforto a um relacionamento calcado na afetividade. Postura que lembra o passado escravocrata dos negros na diáspora, como bem investigou a ensaísta negra Fernanda Felisberto que discorre sobre a descrença no amor entre os negros (2011, p. 113), tendo como suporte teórico a feminista negra norte-americana bell hooks:

O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar. Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Esses sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram nossa habilidade de querer e amar. Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, "feridos até o coração", e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. A vontade de amar tem representado um ato de resistência para os Afro-Americanos. Mas ao fazer essa escolha, muitos de nós descobrimos nossa incapacidade de dar e receber amor. (hooks, 2002,p.1)

Essa incapacidade de amar e o desejo sexual voltam a aparecer por um outro viés em “A paixão e o vento”, no qual um já veterano sambista sente uma irresistível atração por uma jovem passista de sua escola de samba, porém procura combater a sua libido em razão de conhecê-la desde criança e também evitar uma relação extraconjugal. Entretanto, o homem não resiste à tentação e parte para a consumação do ato:

“Sabe, num é por nada, mas achava que tu era uma criança.” Os olhos iam acompanhando-o, estreitando, enquanto Ritinha ia tirando as peças, um corpo desconhecido, embora já o tivesse visto e sentido diversas vezes, mas só que agora parecia diferente, real, tentação sedutora na brejeirice dos anos, viu-a nua, tesão, a ânsia de extravasar o gozo prometido... Bira puxou-a contra seu corpo, rolaram sobre o carpete macio, refez o quadro, a menininha tropeçando na quadra, o sorriso-criança. Ela pediu baixinho, “Faz gostoso, Bira”. A paixão dele era tão grande que, após tanto tempo, se convertera em fogo. Quis fazer... No dia em que finalmente se deram a conhecer, de suas entranhas brotou uma língua flamejante que reduziu o membro tão esperado a um montinho de cinzas.
***
Levantou-se da cama, foi à janela e, do parapeito, com carinho, começou a soprá-las ao vento... “Bira, você brochou...” Ele vestiu a roupa em silêncio, falou para o moço da portaria: “Vê lá o que a menina quer.” Subiu seu morro. No caminho, vendeu o tamborim... (VIEIRA, 2010, pp. 14-15)

Percebe-se que a narrativa subverte o imaginário a respeito das(os) negra(os) tanto na sociedade quanto (principalmente) na literatura canônica, como seres de libido incontrolável e sempre aptos para as relações sexuais. Dessa maneira, ao expor um negro que falha no momento da relação, a ponto de ao final se desfazer do objeto que os unia, e uma negra sedutora e bela que não consegue satisfazer o seu desejo, o(a) narrador(a) de Lia Vieira rompe com maestria essas personagens reais e literárias pré-determinadas, estabelecidas em nossas mentes.

Entretanto, retornaremos à questão da repressão de emoções afetivas entre negros e negras. Em sua tese de doutorado, Fernanda Felisberto, dentre outros assuntos, investiga a repressão de emoções em famílias negras em textos literários afro-estadunidenses e negro-brasileiros que remete à perpetuação desse sentimento como estratégia de sobrevivência ao sistema escravocrata. Felisberto recorre à análise de bell hooks:

A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte (...) Muitos negros têm passado essa idéia de geração a geração: se nos deixarmos levar e render pelas emoções, estaremos comprometendo nossa sobrevivência. Eles acreditam que o amor diminui nossa capacidade de desenvolver uma personalidade sólida. (hooks, 2002, p.4)

Da repressão afetiva à violência. O tema da violência contra a criança negra será aprofundado em “Operação Candelária”, conto que resgata a chacina da Candelária, ocorrida em 1993 e que deixou oito menores mortos. O conto revela a barbárie orquestrada pela alta sociedade e uma organização clandestina pronta para “mostrar de uma vez por todas que sabemos proteger nossas instituições” (VIEIRA, 2011, p. 49). Choca a incerteza da impunidade: “em breve, tudo aquilo não seria mais que notícias que logo deixariam as páginas dos jornais para se transformarem numa lembrança ou talvez numa lição, ou ainda num alerta” (p. 44). Ou ainda a tranquilidade irritante de um executor preparando-se para a ação: “Passa a mão pela face barbuda e gordurosa, vai atender ao telefone, mas o aparelho já emudeceu. Dirige-se ao banheiro e, com a indiferença de alguém que não tem nada urgente a cumprir, faz a barba” (p. 50). Essa tragédia revela a maneira como a alva elite brasileira e a polícia pensam a respeito de direitos humanos: “Agora, naquele momento, fazia-se necessária outra demonstração de força. Se, em 1988, os políticos defendiam os chamados Direitos Humanos, em 1992, a ladainha incluía algo: o Estatuto da Criança e do Adolescente” (p. 46). Inferimos que a ferocidade diante dos menores negros é um projeto elaborado com requinte, mostrando que nossas crianças negras devem ser mortas indiscriminadamente pelas forças de segurança e assim encher os negrotérios, um providencial neologismo inserido em poema de Éle Semog que aqui reproduzimos:

No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios (SEMOG, 2010, p. 52)

Direito à vida, direito à terra como em “Rosa Farinha”, conto ambientado na zona rural de São Pedro d’Aldeia (RJ). A personagem-título é uma mulher-guerreira, conselheira na transmissão da sabedoria oral e líder de sua comunidade na Fazenda Campos Novos. Assim é descrita Rosa Farinha:

Temperamento marcante, vitalidade contagiante, irradiando uma convincente autoridade natural. Seus traços aristocráticos (...) refletem uma fascinante gama de sentimentos: tristeza e dor, alegria e beleza, coragem e esperança. (...)
Vinham para contar-lhe suas mágoas, pedir-lhe conselhos, ouvir-lhe os ensinamentos (...). Era muito simples o que ela ensinava. Dizia que somos maiores do que pensamos e a resistência é o caminho para romper os grilhões. Mas o que mais impressionava não era a doutrina, e sim a mulher, sua benevolência, a grandeza de alma, a determinação. (VIEIRA, 2011, p. 34-35)

Neste conto, há a preocupação na preservação da aprendizagem oral através dos provérbios que Tia Nilzimar herdou da avó – “Serviço de casa é tarefa de formiga: nunca aparece e nunca termina” (p. 36), do conhecimento das plantas medicinais, da preservação do passado escravocrata da família – “É curioso ver tia Mariazinha (assim chamamos tia Nilzimar) e vó Rosa na intimidade. Compartilham as mesmas histórias de engenho, de escravos forros, de passeios em carro de boi, de festas do estrudo, de pastorinhas” (p. 36) –, o cuidado ao resgatar a história dos nossos antepassados negros que foram deslocados para aquela região, traficados pelo porto de Búzios, e de como eram as relações sociais em um quadro marcado pela desigualdade:

Vó Rosa conta histórias ouvidas do desembarque clandestino de escravos na Enseada de Búzios. (...) Os mangues ofereciam boa lenha e os escravos aproveitavam para vendê-la a muita gente. Aceitavam alimentos e aguardentes em troca da lenha, que ia abastecer a cidade do Rio de Janeiro, cujos compradores aproveitaram este comércio por muito tempo. (p. 37)

O engessamento das classes sociais impunha um cotidiano imutável: “As tarefas ficavam estreitamente delimitadas e separadas. A discriminação racial e as distâncias sociais intransponíveis dividiam os mundos coexistentes e superpostos, a garantir a partilha desigual de direitos e deveres” (p. 38).

Contudo, o conto demonstra como a solidariedade marcou essa comunidade de negros e como as mudanças através do tempo foram alterando a rotina da região. A chegada do progresso e suas “melhorias” modificaram os meios de subsistência dessas famílias, triste e comum realidade de diversas áreas quilombolas da Região dos Lagos, espaço do conto, e conforme atestamos nessa passagem de Vó Rosa:

Tudo hoje é dividido. As únicas coisas que ainda se tem em comum são as casas da farinha e alguns poços d’água. Há cinquenta anos, a nossa fonte de alimentação era o peixe do brejo, era gambá, tatu, lagarto, que dava muito. Houve devastação e a coisa foi acabando. As coisas pioraram depois da obra de saneamento. Antes, tinha banana, laranja, quiabo, maracujá, mas o principal era a mandioca. Quando a lavoura estava ruim, a gente se refugiava na salina; quando o tempo melhorava, a gente voltava para a roça. (pp. 38-39)

Entretanto, a atuação de Vó Rosa destacava-se na defesa intransigente da sua terra. Corajosa, enfrentava milícias, tropeiros e coronéis com a ajuda de sua comunidade e escorando-se na cultura de sua gente “manifestando-se em cantos de vida e liberdade”. E assim criava a sua história pessoal, passava a vida e o seu projeto de viver inserido nessa batalha ininterrupta:

Vó Rosa tem passado a maior parte de sua vida nessa luta, tendo sido desafiada e desafiando (...) As ofertas e tentativas de intimidação não têm fim. Como se vive em permanente defensiva? O que a distingue não é apenas o seu carisma pessoal. A beleza desta velha senhora está no engajamento apaixonado e na vontade inquebrantável de uma mulher que se propôs um alvo político: o sistema comum de posse da terra, baseado na descendência dos antigos, seus usos e costumes. (p. 40)

Outra mulher de fibra é retratada no conto “Maria Déia”. Agora, no espaço urbano, no centro do Rio de Janeiro, as questões relacionadas à população negra e à terra são demonstradas pelo lado perverso das remoções de comunidades inteiras a favor do sempre discutível replanejamento urbano e quem são os favorecidos. A nós, negros, jamais. O espaço do conto é no antigo Morro do Santo Antônio, onde hoje abriga “o BNDES, o prédio da Petrobrás, a Caixa Econômica Federal e a Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro”.

Tragédias urbanas que não são levadas em consideração pelo nosso cânone literário, mas que a narrativa de Lia Vieira denuncia o desprezo das autoridades em relação à comunidade que ali vivia – “Não haveria diálogo. Estava tudo decidido”. (p. 64), as promessas dos políticos para convencer a população a ir para um lugar distante e a imprensa associada ao poder político apoiando a mentira – “conseguiram fazer-nos atravessar os noventa quilômetros de estrada esburacada. (...) Chamavam-se conjuntos residenciais. Noticiário na imprensa, do grande projeto do Governador.” (p. 67) –; as condições deploráveis reveladas de imediato à comunidade – “Uma pregação ideológica do engenheiro responsável sobre o nosso lar não desfez a impressão patética; dos rostos anuviados, corriam lágrimas. Construções inacabadas, quatro ou cinco andares de tijolos, nem praça, nem capela, nem água, nem privada” (p. 67). Ou seja, nada diferente do que acontece nas metrópoles brasileiras, mas que somente uma representante da literatura negro-brasileira como Lia Vieira é capaz de expor, de tocar o dedo na ferida e jamais deixá-la cicatrizar ao mostrar a faxina étnica que sempre acompanhou os “desenvolvimentos” urbanos das nossas cidades.

Por outro lado, a narrativa demonstra o re-enquadramento da população negra no espaço urbano carioca, “que o problema apenas podia ser resolvido com a ocupação das terras de outros morros” (p. 68). As comunidades passam a organizar-se à revelia do poder público: “Muitos anos vividos num gênero de vida em comum, sem ter que prestar contas a ninguém, sem obedecer a nenhuma autoridade que não fosse do seu meio. O tempo nos ensinara” (p. 68-69). Maria Déia casa-se com o líder comunitário Greg, que com sua habilidade e percepção associa-se a lideranças religiosas, contraventores, assistentes sociais etc., passa a exercer a segurança local com mão-de-ferro e comanda o tráfico de drogas: “O homem da Fortaleza podia tudo o que desejasse. Tornou-se polêmico, revolucionário, excomungado, inimigo das autoridades, políticos... A quem subornava com grossas propinas para obter as benfeitorias para a comunidade” (p. 70). Tudo sob os olhos de Maria Déia, que, para ela, “suas obras estão acima destas pequenas nuances e eu, como parte envolvida, me abstenho de julgamento” (p. 70). Aliás, como bem assinala o conto, Maria Déia foi o nome dado por sua mãe em homenagem ao casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita. Lampião, um líder que em dado momento da vida tinha apoio dos poderes políticos e religiosos do Nordeste, e tão controvertido quanto Greg. E ao expor a defesa ao seu amor, Maria Déia conduz nossa reflexão do quanto é difícil julgar diante das atrocidades vivenciadas pela comunidade negra carente, abandonada pelos órgãos públicos.

Ainda no conto, chega-se ao combate ao tráfico e seu marido Greg é morto pela polícia, na confusão, com o corpo morto do marido ao seu lado, Maria Déia desnuda a hipocrisia e a invasão de privacidade da imprensa, que adora mostrar a desgraça dos pobres: “Nada de choro e baboseiras! Alteou a voz, deixando a todos atônitos. É isso o que eles querem. Beber nossas lágrimas” (p. 73). Hipocrisia que norteou o enterro de seu esposo por meio das anônimas coroas de flores:

O enterro parou a cidade. Coroas de flores foram enviadas por bicheiros, pastores, umbandistas, comerciantes, políticos, chefões de outros morros e de outros Estados: todas sem identificação. O cortejo se estendeu por quilômetros. Panos pretos nas janelas em sinal de luto. Netos, filhos, afilhados que chegavam perto de cem. Tanta gente para dar o último adeus ao benfeitor, rostos exauridos de sofrimento e admiração. O céu encoberto onde se via uma profusão de fogos de artifício. Isolaram aquela morte. Lançaram-lhe um monte de abafo. Enterro anônimo coberto por um só programa de TV (p. 73).

Assinaláveis os contos “Provas para o capitão” e “He Man”, nos quais outros aspectos que envolvem a difícil rotina dos negros são apresentados. No primeiro, tendo como recurso para desvendar a história a polifonia narrativa, um negro é acusado e condenado injustamente por um assassinato. Sua pena: a cor da pele. A narrativa deixa clara a postura da polícia durante as investigações ao lidar com os negros no diálogo entre o detetive e seu subordinado:

– E o negro?
– Já está preso. Trata-se de um pobre diabo e está muito assustado. Mostrou-se dócil. Não creio que tenha ousado...
– Jamais acredite em nada, tenente... muito menos num negro. Se ele faz cara de infeliz, chora e suplica... são sempre teatrais. Compreendeu o que eu estou dizendo?
– Sim, capitão. É isso mesmo. (76-77)

Em “He Man”, o drama passa-se na noite de Natal. Alijado do consumo exacerbado e estimulado pela intensa propaganda em todos os meios de comunicação durante esse período do ano, um jovem negro decide furtar uma casa para conseguir presentes para sua família. O rapaz frustra-se com todos os cômados da casa trancados, apesar de estar em seu interior: “As lágrimas correm, não é choro verdadeiro, é mais como se fosse um peso insuportável, uma desesperança que queima” (p.18). Na saída, avista uma espada do He Man e a leva para o pequeno da família. É a exposição da desigualdade, da vida perversa fora do consumo, do fracasso de não poder ter e da falta de oportunidades que a maioria negra se enquadra e que são os estimuladores ao crime.

E é assim, atenta aos dilemas contemporâneos submetidos aos negros, preocupada em preservar na literatura o passado dos nossos antepassados negros por meio de sua “herança-memória”, assim como buscar na árdua luta diária de mulheres a afetividade para encarar a vida e em diversas outras situações as quais somos expostos, que as narrativas de Lia Vieira comprometem-se em subverter os códigos estabelecidos em nossa sociedade, por conseguinte, em nossa literatura, deslocando e estremecendo as certezas de uma sociedade injusta, desigual e racista, e que uma autêntica representante das mulheres negras escritoras insiste em revelar. E em incomodar... Assim são os contos de “Só as mulheres sangram”.



BIBLIOGRAFIA:

ALVES, Miriam. BrasilAfro Autorrevelado – literatura brasileira contemporânea. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América latina a partir de uma perspectiva de gênero. Apud: EVARISTO, Conceição. Literatura negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.

CUTI. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.

FELISBERTO, Fernanda. (Escre)vivências na Diáspora: escritoras negras, produção editorial e suas escolhas afetivas. Uma leitura de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Maya Angelou e Zora Neale Hurston. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Letras/Literatura Comparada, Universidade Estadual do Rio de Janeiro/Faculdade de Letras, 2011. (Tese de Doutorado)

FIGUEIREDO, Fernanda Rodrigues de. A mulher negra nos Cadernos Negros: autoria e representações. Belo Horizonte: Programa de Pós-Graduaçao em Letras/Estudos Literários, Universidade Federal de Minas Gerais/Faculdade de Letras, 2009. (Dissertação de Mestrado). In: ALVES, Miriam. BrasilAfro Autorrevelado – literatura brasileira contemporânea. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.


SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010.

VIEIRA, Lia. Só as mulheres sangram. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
hooks, bell. “Vivendo de amor”. IN: WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maysa; EVELYN C. (Org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas Editora / Criola, 2006. IN: FELISBERTO, Fernanda. (Escre)vivências na Diáspora: escritoras negras, produção editorial e suas escolhas afetivas. Uma leitura de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Maya Angelou e Zora Neale Hurston. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Letras/Literatura Comparada, Universidade Estadual do Rio de Janeiro/Faculdade de Letras, 2011. (Tese de Doutorado)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Elio Ferreira: Literatura Afrodescendente (livro)

 

Professores do curso de Letras/Português lançam livro na sexta-feira(14)

Os professores doutores Algemira de Macedo Mendes e Élio Ferreira, do Curso de Letras/Português, do Campus Poeta Torquato Neto, da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) lançarão, no dia 14 de outubro, a partir das 19h, na livraria Entrelivros, localizada na Avenida Dom Severino, Nº 1045, bairro Jockey Clube, zona Leste de Teresina, o livro “Literatura Afrodescendente: memória e construção de identidades. A obra reúne 16 artigos de escritores de todo o Brasil, apresentados por meio de comunicações, durante o Simpósio “Literatura Afrodescentente: memória e construção de identidades”.

domingo, 9 de outubro de 2011

Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica - Eduardo de Assis Duarte (org.)


Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica
Eduardo de Assis Duarte (org.)
Coleção: Humanitas
2011. ISBN: 978-85-7041-904-0

Composto de quatro volumes, Literatura e afrodescendência no Brasil é fruto de pesquisa realizada em todas as regiões do país com vistas ao mapeamento e estudo da literatura produzida pelos afrodescendentes desde o período colonial. Esta antologia crítica envolveu 61 pesquisadores, vinculados a 21 instituições de ensino superior brasileiras e seis estrangeiras. O resultado apresenta a faceta afro da literatura brasileira, num total de 100 escritores oriundos de tempos e espaços diversos, apresentados a partir de ensaios críticos, contendo dados biográficos, estudo de obra, relação de publicações e de fontes de consulta.

Precursores – volume 1 - 583 páginas
É dedicado aos autores afrodescendentes nascidos antes de 1930. Cobre um amplo painel que se inicia no século XVIII com Domingos Caldas Barbosa, passa por Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis, com suas obras pioneiras em meados do século XIX, chega a Machado de Assis, José do Patrocínio, Cruz e Sousa, Lima Barreto e abarca ainda autores do século XX, tais como Nascimento Moraes, Lino Guedes, Solano Trindade, Abdias Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Mestre Didi, Eduardo de Oliveira e Carlos de Assumpção.

Consolidação - volume 2 - 441 páginas
O segundo volume se inicia com o poeta e ficcionista Oswaldo de Camargo e trata de escritores nascidos nas décadas de 1930 e 1940, entre eles Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes, Muniz Sodré, Conceição Evaristo, Adão Ventura, Paulo Colina, Oliveira Silveira, Domício Proença Filho, Geni Mariano Guimarães e Arnaldo Xavier. Aborda ainda o memorialismo angustiado de Francisca Souza da Silva, em sua perambulação pelas cozinhas, ruas e favelas brasileiras.

Contemporaneidade – volume 3 - 565 páginas
Apresenta ensaio de Maria Nazareth Soares Fonseca sobre Cuti – poeta, ficcionista, um dos fundadores da série Cadernos Negros – e abarca um conjunto de 39 escritores nascidos na segunda metade do século XX: Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Esmeralda Ribeiro, Salgado Maranhão, Éle Semog, Lia Vieira, Márcio Barbosa, Ronald Augusto, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, José Carlos Limeira e Jônatas Conceição, entre outros.

História, teoria, polêmica – volume 4 - 419 páginas
Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Soares Fonseca (org.)
Contempla reflexões sobre o projeto de uma literatura negra ou afro-brasileira a partir de visões diferenciadas e contrastantes. Traz depoimentos dos escritores Abdias Nascimento, Oswaldo de Camargo, Cuti, Conceição Evaristo, Márcio Barbosa e Esmeralda Ribeiro, empenhados na construção dessa vertente. Além disso, apresenta textos críticos de Octávio Ianni, Silviano Santiago, Zilá Bernd, Leda Maria Martins, Zahidé Muzart, Maria Nazareth Soares Fonseca, Eduardo de Assis Duarte, Regina Dalcastagnè e Marcos Antônio Alexandre.

Twitter: @editoraufmg


OPINIÃO DO BLOG:
É com imensa satisfação que contribuo para a divulgação desta antologia, de extrema necessidade para uma vertente ainda pouco conhecida da literatura brasileira. Parabéns ao Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte por coordenar uma numerosa equipe de pesquisadores e as congratulações a todos que participaram deste projeto. Desde já, o maior e mais importante título literário do século XXI. Leitura mais que recomendável!
Ricardo Riso

Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo Prof. Dr. Amarino Queiroz em 9 de outubro de 2011.