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domingo, 20 de março de 2011

XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais (UFBA)

AMPLIADO O PRAZO DE INSCRIÇÃO PARA OS TRABALHOS INDIVIDUAIS ATÉ 30 DE MARÇO DE 2011

Grupo de trabalho:  
INTERSECÇÕES ENTRE RAÇA, ETNICIDADE E GÊNERO: AFRICANOS(AS) E AFRO-BRASILEIROS(AS), CONEXÕES DIFERENCIADAS E / OU DESIGUAIS

Convidamos a todas e todos para O XI CONGRESSO LUSO AFRO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS 
SOCIAIS – AGOSTO – SALVADOR -BAHIA

Nos dias 07, 08, 09 e 10  de Agosto de 2011 com o tema as "Diversidades e (Des)Igualdades", que serão discutidos em 11 eixos temáticos. Durante os quatro dias de evento, especialistas em ciências sociais e humanidades de diversos países estarão reunidos para debater a diversidade e a complexidade de sociedades diferenciadas, nos mais variados aspectos, como é o caso dos países de língua portuguesa

GT 40: INTERSECÇÕES ENTRE RAÇA, ETNICIDADE E GÊNERO: AFRICANOS (AS) E AFRO-BRASILEIROS (AS), CONEXÕES DIFERENCIADAS E OU DESIGUAIS.
Coordenadores: Joselina da Silva (UFC); João Batista Lukombo (Universidade Agostinho Neto); 
Alecsandro Ratts (UFG)

RESUMO:
A primeira década do século XX traz como marco para os afro- brasileiros dois grandes eventos que nos ajudam a pensar e estruturar este GT. O primeiro deles refere-se à realização da Terceira Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata, ocorrida na África do Sul, em 2001. A presença da delegação brasileira composta por mais de cinco dezenas de integrantes, em que a expressiva maioria era oriunda dos movimentos sociais, demarcou um novo limiar, nas relações raciais brasileiras, sobretudo com os documentos em que o país foi um dos signatários. Ainda neste mesmo decênio, no âmbito das políticas públicas, a promulgação da lei 10639/03 que institui a obrigatoriedade do ensino de História Africana e Cultura Afro-Brasileira, pode ser analisada como mais um passo na direção da oportunidade de estreitamento das relações entre brasileiros e africanos de diferentes nações. Neste sentido, podemos observar a ampliação da área de investigação envolvendo temáticas de raça, etnicidade e gênero, num olhar comparativo que busca entender os deslocamentos - voluntários ou forçados- e as suas diásporas criadas como construto de sociedades globalizadas, em que africanos e brasileiros são parte integrante há vários séculos. Inseridas nestes novos campus de estudos das Áfricas no Brasil e na América Latina localizamos as representações das africanidades, as relações raciais, os estudos sobre desigualdades, as manifestações culturais, bem como os aspectos históricos sociais, aliados aqueles que se dedicam aos territórios africanizados. Estas intercessões analíticas, teóricas e discursivas e passaram então, a ocupar ampliada visibilidade e abrigo nas cátedras acadêmicas dos continentes americano e africano. Nestes contextos os saberes produzidos nestas interações, bem como as conexões diferenciadas ou as desigualdades produzidas, por consequência passam a ser alvo de nosso olhar, neste GT que se insere no eixo temático: Cultura, sociabilidades e pluralismos culturais: interseções de gênero, classe, família, raça e etnia.

Objetivos:
- Privilegiar a apresentação de trabalhos que apresentem leituras plurais atuantes nos diversos imaginários nacionais e nas políticas multiculturais, atualmente em vigor, na maior parte dos países africanos e suas diásporas.
- Estimular a reflexão crítica e a troca de saberes entre os participantes do GT visando futuros trabalhos, pesquisas e publicações conjuntas. 

Justificativa:
África e sua diáspora, aqui considerada em particular para os territórios brasileiro e português, constituem regiões que permitem examinar de forma privilegiada as intersecções entre raça, etnicidade, gênero e deslocamentos dada a importância que tem recebido no estudo das identidades locais e nacionais. Consideramos de grande interesse confrontar as diferentes maneiras em que as distintas sociedades dessa grande região - África, Europa (Portugal) e América (Brasil) - tem entendido e lidado com estas variáveis. Também buscamos compreender os problemas políticos e culturais específicos que provocam a aproximação ou desarticulação dos interesses e direitos de gênero e sexualidade com os étnico-raciais nas políticas públicas e programas de desenvolvimento, que em muito podem contribuir com as configurações de deslocamento individuais ou coletivas.
AS INSCRIÇÕES PARA OS TRABALHOS INDIVIDUAIS VÃO ATÉ 30 DE MARÇO DE 2011  

Fonte: e-mail enviado pela Profa. Dra. Joselina da Silva (UFC), coordenadora do Congresso.

quinta-feira, 10 de março de 2011

III Festival Alagoano das Palavras Pretas





III Festival Alagoano das Palavras Pretas acontece em 21 de março.*
Arísia Barros


A 3ª edição do Festival Alagoano das Palavras Pretas acontece no Dia Internacional de Luta Contra o Racismo, o 21 de março, como um prosseguimento da experiência de plantar espaços mais amplos e democráticos, para a palavra despir-se da roupagem convencional, invadindo continentes alheios ao nosso conhecimento cotidiano, criando sinergias, articulando as muitas e diversas gentes que gostam de gostar da emoção do encontro com poesia.
Será mais uma noite especialmente poética de uma segunda-feira, 21 de março, com o cheiro e sabor das palavras despindo as amarras: “minha-mãe-não-deixa-não”, rasgando alguns silêncios sociais.
III Festival Alagoano das Palavras Pretas conta com o “apadrinhamento artístico” do ator e militante do movimento negro, Milton Gonçalves e experimenta algo novo.
O novo assusta?
O Festival tem a intenção de criar uma maior intimidade com os diversos mundos existentes na palavra-poesia. Mundos que quebram barreiras,promovem a abolição de códigos caducos, racistas e sexistas, renovam a arte de poetar.
Mundos que propõem formas alternativas de “pensar” o racismo brasileiro, potencializando a diversidade de poemas africanos e afro-brasileiros ou de gente que escreve sobre a questão afro alagoana ou brasileira.
Quantos poemas africanos ou afro-brasileiros você conhece?
Ficou na dúvida? Pois é, está aí um momento ímpar para conhecê-los.
Como estamos em março o III Festival Alagoano das Palavras Pretas terá o sugestivo título de “Palavras com Cor e Gênero” e nesta noite a grande protagonista é a mulher que cerze o verbo, bordando histórias de determinação, possibilidades, oportunidades, continuidade...
Poetisas que em seu lugar e tempo, são marcos de referência.
Você escreve sobre a temática?
Manda seu poema para gente divulgar no Festival, ou caso não, venha participar da oportunidade de raptar a palavra do papel dando-lhe voz e vida.
O palco do III Festival das Palavras Pretas: Palavras com Cor e Gênero é o Teatro Abelardo Lopes/SESI- Galeria Arte Center. Av. Antonio Gouveia, 1113, Pajuçara.Ah! nessa terceira versão teremos um olhar especial para os poemas estrategicamente espalhados ao longo do Teatro para serem colhidos por você. É que no II Festival eles simplesmente sumiram.
Após uns dias de encucação-o-que-foi-que-aconteceu?-uma senhora nos ligou agradecendo pelo convite, teceu elogios e afirmou que graças ao II Festival ela agora tinha um “monte” de poemas africanos e afrobrasileiros colados em um caderno.
Como um livro!
Que bom!
Para inscrever-se basta enviar um e-mail para raizesdeafricas@gmail.com dizendo:quero-participar-do-III-festival-das-palavras-pretas, com os seguintes dados: nome, instituição, celular, endereço.
Até lá!

* Contribuição enviada por Marize Conceição de Jesus para este blog em  09/03/2011.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Crítica ao ostracismo do negro na literatura, a Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Crítica ao ostracismo do negro na literatura, a Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Lamentável! Foi o meu sentimento após a leitura da matéria “Negro: imagem e semelhança de quem” de Sônia Marta Coelho Pereira, inserida no caderno especial “A trajetória dos personagens negros, da África ao Brasil” da revista Conhecimento Prático: Literatura, nº 34 – janeiro/2011, páginas 27 a 38. É triste constatar que uma das raras revistas dedicadas à Literatura no mercado editorial brasileiro exclui a participação dos escritores negros no corpus literário nacional, orientação claramente seguida pela autora do artigo supracitado e que me remete ao que Roland Barthes definiu como “fascimo da língua”, pois a língua está “a serviço de um poder”. No caso, o poder da discriminação racial aos negros que norteia o pensamento brasileiro.

A proposta do artigo é demonstrar a discriminação que sofreram – e ainda sofrem – os personagens negros da literatura brasileira e como esse processo tem sido revisto na contemporaneidade. As personagens esteriotipadas, apresentando-se nos textos literários em posições sulbaternas, coisificadas, animalizadas e ridicularizadas por causa do fenótipo foi uma constante em nossa literatura e reforçaram o preconceito racial que perdura em nossa sociedade.

A autora até inicia o artigo reconhecendo “que por séculos o negro foi literariamente representado sob a ótica do preconceito”, contudo, o grave erro de sua explanação é não mencionar em nenhum momento autores(as) negros(as), recordando que a crítica brasileira mantinha absoluto silêncio a respeito do preconceito do negro na literatura como bem assinala o escritor e ensaísta, Cuti, em O leitor e o texto afro-brasileiro:

foi preciso que os brasilianistas aqui viessem para desvendar o como se dava a tematização do negro brasileiro. Os intelectuais brancos do País sempre se mostraram avessos a esse empenho. Os primeiros livros que surgiram, questionando e fazendo levantamento de obras para o estudo da questão racial no âmbito literário, foram: A Poesia Afro-Brasileira, de Roger Bastide (1943); O Negro na Literatura Brasileira, de Raymond S. Sayers (1956-58) e O Negro na Ficção Brasileira, de Gregory Rabassa (1965).

Sendo assim, após escancarada a postura do cânone literário brasileiro pela crítica estrangeira, a crítica nacional continua ignorando o fato de que temos escritores negros, relegando-os ao completo ostracismo nos grandes – e são tão poucos – meios literários do país. Essa postura é acompanhada pela autora do artigo aqui referenciado, pois recorre ao incompreensível erro de somente apresentar os personagens negros apropriados e interpretados por quem não é negro e que não oferece a esse personagem o papel de protagonista de suas narrativas nem expõe as vivências comuns a nós, negros.

Seria de imensa valia que a autora fizesse um contraponto com a visão de um personagem negro sendo escrito por um autor negro, tornando, assim, o negro protagonista de sua história, revelando seus anseios, desejos, medos e principalmente expondo o seu ponto de vista frente ao racismo diário que todos nós sofremos neste país. É fundamental a leitura por esse viés como esclarece a Profa. Dra. Maria Nazareth Soares Fonseca em seu artigo Poesia afro-brasileira – vertentes e feições:

A proposta de transgressão, que se efetiva também em textos da chamada literatura afro-brasileira, não pretende iluminar os lugares já indicados pela própria sociedade. Procura ultrapassar mesmo algumas posturas que, embora mais críticas, ainda se ligam a visão do negro “tutelado”, pois, ao falar por ele, silenciam a sua voz e imobilizam reações concretas para desarticular os papéis estabelecidos pela sociedade. (Fonseca, 2000, p.95)

Durante a matéria aqui referenciada, a Profa. Coelho Pereira aponta a mudança de paradigma que se dá a partir de 1980, período em que os títulos “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, e “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, como livros que procuraram “resgatar a imagem do personagem negro”. Talvez por desconhecimento, o artigo da autora ganharia em riqueza se revelasse e discutisse os diversos títulos lançados por escritores negros, principalmente a partir do final dos anos 1970 com a publicação das antologias “Cadernos Negros”, do coletivo Quilombhoje, que lança, desde 1978, anualmente e de forma ininterrupta uma coletânea de poesia e no ano seguinte, contos, somente de autores negros. Grandes nomes foram ali publicados e consagrados, tais como Cuti, Oliveira Silveira, Éle Semog, Miriam Alves, Lia Vieira, Lande Onawale, Conceição Evaristo, entre outros.

Conceição Evaristo talvez seja o caso mais surpreendente e inexplicável caso desse ostracismo, já com vários prêmios literários e traduções em diversas línguas de seus poemas, contos e romances. Seus poemas demonstram o cotidiano da mulher negra, a consciência de sua condição em nosso país como muito bem assinala Eduardo de Assis Duarte, eles

enfatizam a necessidade do eu poético de falar por si e pelos seus. Esse sujeito de enunciação, ao mesmo tempo individual e coletivo, caracteriza não apenas os escritos de Conceição Evaristo, mas da grande maioria dos autores afro-brasileiros, voltados para a construção de uma imagem do povo negro infensa dos estereótipos e empenhada em não deixar esquecer o passado de sofrimentos, mas, igualmente de resistência à opressão.

É essa escrevivência, termo cunhado pela própria autora, que sempre foi excluída do cânone literário nacional, escrevivência típica de um eu enunciador negro que aparece nos textos literários dos escritores(as) negros(as), por isso a importância que uma publicação como a Conhecimento Prático: Literatura possua a sensibilidade e ofereça o seu prestigiado espaço para esses(as) autores(as), até então ignorados do cenário nacional e dessa maneira contribuir, de forma positiva e inclusiva, para a inserção do negro em nossa sociedade.

A Lei 10.639/2003, o afro-brasileiro e a África

Um outro ponto da matéria da Profa. Coelho Pereira que gostaria de abordar é no que diz respeito à implementação da Lei 10.639/2003 nas escolas. Preocupa-me abordagens excludentes das manifestações culturais afro-brasileiras. A lei, uma conquista histórica e que contou com a participação efetiva de vários movimentos negros organizados ao longo de décadas de militância, afirma que “torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”, assim como incluir “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”. Entretanto, venho percebendo a sutileza perversa do racismo à brasileira no contato com alguns professores, por conseguinte a má vontade das escolas em implementar a Lei. As justificativas são diversas, tais como a de que não há racismo no Brasil e isso seria uma forma de acirrar as diferenças étnicas – como se o(a) estudante negro(a) não fosse discriminado de maneira ostensiva e cotidiana no espaço escolar – e também o preconceito manifestado em relação às religiosidades afro-brasileiras.

Bom, se uma Lei é criada para dar visibilidade à cultura afro-brasileira, por que ainda assim os escritores(as) negros(as) são excluídos das escolas e de uma matéria em uma revista especializada em Literatura como a Conhecimento Prático? A Profa. Coelho Pereira afirma que “apesar de essa lei não ter saído do papel em muitas escolas brasileiras, ela é uma grande conquista”, por que “a literatura negra começa a ganhar espaço nas escolas”. Mas para qual literatura negra aponta a autora, quais são seus agentes se no artigo de sua autoria nenhum escritor negro é apresentado? Esse é ponto crucial: a invisibilidade dos(as) escritores(as) negros(as). Por causa dessa incompreensível ausência, escorando-me em seu artigo e tratando-se do segmento infanto-juvenil, friso que não tenho nada contra a obra de Rogério Andrade Barbosa, aliás, aprecio bastante, porém faço questão de citar alguns bons livros e seus autores – todos negros – publicados, a maioria recentemente, que seguem as diretrizes da lei 10.639/2003: “A cor da ternura” de Geny Guimarães, “Betina” de Nilma Lino Rodrigues, “Os ibejis e o carnaval” de Helena Theodoro, “Kofi e o menino de fogo” de Nei Lopes, “Omo-obá: histórias de princesas” de Kiussam Oliveira e “Os nove pentes da África” de Cidinha da Silva. Para não ficar exaustiva, encerro a lista apenas para demonstrar que temos escritores(as) negros(as) lançando ótimos títulos nesse segmento.

Faço uma consideração próxima aos autores africanos. Há na matéria “Negro: imagem e semelhança de quem”, pequenas seções nas laterais das páginas. Em uma delas, com o sugestivo título “Curioso”, lê-se o seguinte: “Muitos ficam espantados quando se deparam pela primeira vez com uma fotografia de Mia Couto: embora seja um dos mais proeminentes escritores africanos dos nossos dias, ele é branco” (p. 34). Pois é, o cânone das literaturas africanas de língua portuguesa é praticamente formado por escritores brancos.

Entretanto, quando se olha atentamente para o mercado editorial brasileiro, constata-se que os livros publicados desse segmento são próximos daqueles publicados em Portugal, ou seja, segue-se a política racista dos portugueses em publicar escritores brancos, quando muito, mestiços. Mia Couto, apesar da exaustiva redundância de seus últimos romances, é um excelente escritor como no livro citado na matéria, “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, em “Terra sonâmbula”, e nos contos de “Estórias Abensonhadas” e “Vozes anoitecidas”. Sem motivo aparente, as editoras brasileiras ignoram autores, dentre tantos outros, como os angolanos João Maimona e João Tala; os novíssimos moçambicanos Sangare Okapi e Andes Chivangue; e o cabo-verdiano José Luis Hopffer Almada. Apenas para citar excelentes nomes consagrados, respeitados e premiados da produção contemporânea nos seus países. Sendo assim, bastaria um olhar sensível às obras desses e de outros autores por parte de nossos editores para que em uma apresentação de escritores africanos em sala de aula, a cor da pele não causasse espanto aos alunos. Quem é professor e que já mostrou fotos de autores africanos compreende o que estou falando.

Para finalizar, a contundência de minhas observações é motivada por uma postura sincera, posso dizer indignada, diante de um artigo que se demonstra equivocado em seu conteúdo, e que, por isso, almeja o respeito que nossos escritores negros merecem no meio literário brasileiro. Não poderia ter uma posição de indiferença pelo que li, ainda assim continuarei torcendo para que uma revista respeitável como a Conhecimento Prático: Literatura atente-se para os agentes da literatura afro-brasileira e contribua para retirá-los da invisibilidade que lhes é imposta.

Sem mais,
Ricardo Riso
Pesquisador de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa


i CUTI. O leitor e o texto afro-brasileiro. In: < http://www.cuti.com.br/ > Acessado em 24 de janeiro de 2011.

ii FONSECA, Maria Nazareth Soares. Poesia afro-brasileira – vertentes e feições. In: SOUZA, Florentina Souza, LIMA, Maria Nazaré (orgs.). Literatura afro-brasileira. Fundação Palmares e Centro de Estudos Afro-orientais (CEAO), 2006.

iii DUARTE, Eduardo de Assis. “O BILDONGSROMAN afro-brasileiro de Conceição Evaristo.” ALEXANDRE, Marco Antônio (Org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.




sábado, 4 de dezembro de 2010

CADERNOS NEGROS VOLUME 33 - POEMAS AFRO-BRASILEIROS

CADERNOS NEGROS VOLUME 33
POEMAS AFRO-BRASILEIROS

DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2010 (sexta-feira) - às 19h
Na sala Olido - Av. São João, 473 – (293 lugares) entrada franca.

Para maior conforto de todos os que quiserem participar, solicitamos fazer o cadastramento no link abaixo:
http://www.quilombhoje.com.br/cadastrocn33.html

Autores do livro: Adilson Augusto, Akins Kinte, Ana Celia, Claudia Walleska, Cristiane Sobral, Cuti, Décio Vieira, Edson Robson, Elio Ferreira, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Flávia Martins, Jairo Pinto,Jamu Minka, Lepê Correia, Luís Carlos de Oliveira ‘Aseokaýnha’, Márcio Barbosa, Mel Adún, Miriam Alves, Ruth Saleme, Serafina Machado, Sidney de Paula Oliveira, Thyko de Souza.

Haverá o seguinte bate-papo:
*Cadernos Negros e Literatura Periférica
ÉRICA PEÇANHA (Antropóloga e Pesquisadora - SP)

*Identidade Étnico-Racial na Poesia de Cadernos Negros
PROF. DR. CUTI (Luiz Silva) (Escritor - SP)

E as intervenções poéticas e musicais com o ator e atrizes:
ANDRÉ PERSAN - (Novela "Água na Boca" - TV Bandeirantes).
LUCÉLIA SERGIO - (Os Crespos).
NARUNA COSTA - (Novela "Tempos Modernos" - TV Globo).
e as cantoras e músicos:
CAROL ANICETO - Cantora (A Quatro Vozes e Ilú Obá De Min).
COSME ALVES (Djambé).
GIOVANNI DI GANZÁ (Instrumentista do Duo Abanã).
LIAH JONNES (Cantora e Atriz).
Direção: EDUARDO SILVA - Ator de teatro, novela e cinema (Novela "Uma Rosa com Amor" - SBT e ganhador de dois prêmios como melhor ator nos Festivais Nacional e Internacional de Belém e Salvador).
Assistente de direção: FERNANDO FAGERSTON.
Stand Up - HELTON FESAN (Escritor)

Música e Dança Afro:
BLOCO AFRO ILU OBÁ DE MIN – Percussão Feminina
Apresentação: MC Levy e MC Mafalda Pequenino

Apoios:
Cone/Sala e Galeria Olido(PMSP)
Deputados Estaduais: José Cândido / Vicente Cândido
Vereadores: Juliana Cardoso / Netinho de Paula / Italo Cardoso / Jamil Murad Coletivo de Negros do Sindicato dos Bancários
Sindicato dos Quimícos
Secretaria da Diversidade do Sindicato dos Comércios
ANID - Ação Negra de Integração e Desenvolvimento - Barueri
Gold Feet Podologia.

Cadernos Negros é uma série que, criada em 1978, vem proporcionando a autores e leitores uma nova experiência em termos de literatura e informação. Este volume 33 denota um amadurecimento de ideias, ao mesmo tempo em que temas e estilos mantêm a vitalidade de sempre. Vários novos autores participam do livro, assim com há a volta de poetas que há algum tempo não publicavam. É de se notar que poemas românticos e sensuais (eróticos até) encontram espaço nesta edição, além dos textos que refletem sobre a existência afro-brasileira contemporânea.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra 2010 - Conceição Evaristo, Éle Semog, Cuti e Lande Onawale

Meu Rosário

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. p. 16-17)

torpedo
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!

e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares
(CUTI. Negroesia - antologia poética. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 92-94)


BLACK POWER
eles ficam se perguntando
como posso me fazer bonito
com tudo aquilo que acham feio
como posso regritar meu grito
depois de tanta opressão
eles não sabem como chego até você irmão

o que pensam que sabem de nós
é só o que pode ser escrito
o que pode ser falado
mas a nossa força é indescritível brother

emerge dos séculos
de luta por liberdade
para ser cúmplices olhares
ou apertos de mão
(ONAWALE, Lande. O Vento. Salvador: Ed. do Autor, 2003. p. 51)

A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(SEMOG, Éle. Tudo que está solto. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. p. 110-111)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção

Éle Semog afirmando outras versões da história, uma poesia de tensão e de intenção
Por Ricardo Riso

que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro
(Éle Semog. A chave da cor brasileira. p. 111)

Após um longo tempo, Éle Semog, pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, lança em 2010 um novo livro de poesia, Tudo que está solto, pela editora carioca Letra Capital. O livro conta com prefácio de Nelson Olokofá Inocencio e texto de aba de capa de Salgado Maranhão.

Tudo que está solto é formado por um conjunto de cento e dez poemas, subdivididos em seis partes temáticas de emblemáticos títulos, só para citar algumas: Um cotidiano de ironias e fatalidades, Contrários contrastes do tempo e Afirmando outras versões da história. Generoso, o poeta introduz cada parte com um excerto de nomes consagrados da literatura afrobrasileira e angolana, tais como Cuti, Miriam Alves, Arlindo Barbeitos e Lia Vieira.

Gratificante constatar a maturidade da poesia semoguiana no decorrer das páginas deste livro. A poesia permanece corrosiva, aliás, aprimora-se nesse quesito, mostrando o caráter de “negro insurreto” intransigente ao racismo que se perpetua em nossa sociedade. O sujeito lírico demonstra voracidade perante a hipocrisia: “Basta de brancos e negros assimilados/ como penduricalhos da tolerância e integração./ A riqueza da nação não mente/ e não deixa mentir:/ branco é branco, negro é negro/ e isso não tem nada de irmão” (p. 68). Não foge do olhar ácido do sujeito lírico a perversidade da nossa democracia racial, que impõe o embranquecimento do negro, a negação de suas raízes, para ser aceito nas camadas altas da nossa sociedade, é o tema do poema “A chave da cor brasileira”: “uma outra razão turva e pesada,/ insinuosa e despudorada/ oferece uma das chaves/ que abre o mundo dos brancos.../ É para eu entrar, mas sozinho/ e lá poderei ser pitoresco e faceiro,/ desde que deixe os meus no caminho/ e tranque para sempre o negro/ que também sou, fora de mim” (p. 111).

Chocou-se? Que bom! Como afirma Inocencio no prefácio: “muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas” (p.11-12). O sujeito lírico semoguiano posiciona-se aberta mente a favor de nós, negros, com veemência revisita o nosso passado e procura reformular a nossa história, dando-nos o lugar de agente ao qual nos foi usurpado pela história oficial e o consequente ato de elevar a nossa autoestima: “(...) Não me curvo ao silêncio/ dessa versão perversa e lúcida, que torna invisível tudo que estou,/ como se o que penso pudesse ser/ desconstruído, pela expressão estúpida/ desses alcoviteiros cheios de estórias,/ que roubam detalhes, fingem fatos,/ e inumanos desfiguram vidas e verdades./ (...) Pertenço a uma História/ feita pelo meu povo/ e penso como meu povo,/ (...) Sou um negro como tantos outros/ negros e negras que esbanjam respeito/ mas que também atiçam o seu medo./ E é melhor assim.” (p. 77-78)

Dentro desse processo de reconstrução da história brasileira, os poemas reunidos em “Afirmando outras versões da história” são simbólicos, de extrema criatividade e rigor na pesquisa ao passado, vide a maneira poética como se dá a explicação da origem do nome Rio de Janeiro para a cidade. Sob o título “Ralando faz tempo no BR”, temos uma sequência de poemas que buscam reconstruir a trajetória da nossa colonização, sendo emocionantes os longos poemas que reescrevem a história da Bahia (Bahia dos vice-reis), Pernambuco (Terra pernambucana) e Rio de Janeiro (Carioca do Rio), sobrelevado pelo caráter didático configurando-se um ótimo material para professores trabalharem em sala de aula as nossas questões etnicorraciais. Cáustico, o sujeito lírico escancara as nossas feridas jamais cicatrizadas: “Com sincera fé católica e voraz volúpia/ por quase quatro séculos Portugal,/ seu rei, suas elites/ construíram a história mais triste/ que a humanidade tem para contar/ (...) de lucrar com a carne do negro/ como se não houvesse amanhã./ Comprar e vender aquela gente negra/ que ao embarcar o clero batizava por dinheiro,/ e em nome dos céus dava o inferno inteiro” (p. 80-81). O sujeito lírico ainda atenta-se aos perigosos revisionismos da elite branca contemporânea que pretende minimizar o cruel processo escravocrata: “Restam poucos documentos sobre isto,/ ninguém sabe, ninguém viu,/ como se aquelas multidões nos portos,/ nos porões, nos pelourinhos,/ fossem no tempo e na história uma miragem,/ e o algoz um erro acidental, um descaminho” (p. 81).

Resgatar a nossa história negra implica a coragem em desconstruir os cânones literários impostos pelo poder, tarefa que o sujeito lírico assume, cumprindo o fundamental papel destinado ao escritor negro comprometido com seus pares: “Vide o que vi e li/ do padre Antonio Vieira,/ quando fazia sermão/ quase perdia a estribeira,/ puxando o saco do papa e do rei,/ falando um montão de besteira./ Dentre outras sandices/ foi esse padre que disse,/ que a Senhora do Rosário/ abençoava a escravidão” (p. 85).

Sempre provocativo, os poemas lembram-nos as imutáveis violências as quais somos submetidos, “desde o tempo que o Direito/ tirou o direito da gente” (p. 105). O direito ao negro, a nossa condição humana até os dias atuais não é plenamente aceita. No passado, até o leite materno das mães negras era negado aos nossos antepassados: “É saber que os bebês negros,/ desde cedo, muito cedo,/ eram filhos, mas viravam bichos/ e perdiam do aconchego do seio/ o direito do alimento perfeito” (p. 73). Para nós, há o direito sim de sermos exterminados por uma polícia racista, programada e orientada para dizimar nossa juventude negra, principalmente a que vive em áreas carentes, por sinal e estranha coincidência, de maioria negra. Novamente o sujeito lírico versa a sua ferocidade, denuncia o triste óbvio do nosso cotidiano democraticorracial e, em feliz neologismo, apresenta os negrotérios: “No meu país tão democrático,/ tão religioso e tão caridoso/ toda criança negra/ é um anjo vestido de morte./ De zero aos dezessete anos/ são precoces condenados/ para entrar no céu./ Para confirmar não precisa/ perder tempo perguntando a Deus/ é só olhar nos jornais/ ou ir ver a cor das mães/ nas portas dos negrotérios” (p. 52).

Essa tensão típica do caos urbano da contemporaneidade, “que sufocam a minha lógica tribal” (p. 70), mostra a insensibilidade social do poder perante os seus pares, impondo deveres mas jamais oferecendo direitos: “Estou cercado por deveres,/ obrigações, tensões urbanas/ (...) Às vezes me respingam/ manchas de sangue, noutras/ multas, e impostos, e juros,/ e crianças mortas./ Muitas crianças mortas/ na lama dessa democracia./ Enchentes, roubos, gente cão,/ e filhos aspirados por essa/ ideologia global” (p. 70).

Apesar de todo o comprometimento de Éle Semog com a justiça social, a denúncia do racismo e a valorização do negro, é importante frisar a versatilidade formal e estética deste poeta que utiliza com desenvoltura o recurso aos versos livres; de intensa ironia – “Não escrevo/ como se fossse um/ necrófilo./ Sinto isto em cada letra./ Mesmo quando/ os poemas se espalham/ feito coisas mortas” (p. 17). o lirismo amoroso e negro: “Essa beleza inteira negra,/ delicadas tranças e carapinha,/ coloridas curvas ímpares/ que eu sei pegar com os olhos/ faz-me pensar que mulheres/ lindas assim, iguais a você, são mais raras” (p. 107); poemas longos e curtos que lembram os da poesia marginal dos anos 1970 e a urgência do ‘aqui e agora’: “...Falo de sensações/ passageiras./ Aquelas eternas naquele momento.” (p. 23) ; a própria tessitura poética, a dificuldade de fazê-la e da sua importância frente à perda de sensibilidade dos homens versada por um amargurado sujeito lírico: “a poesia me irrita (...)/ A poesia me consome inteiro/ como um beijo aflito/ que quer ser visto/ na boca de quem ama/ Sou poeta e também sou assim,/ deformado, que se resume poema,/ que se expressa pela natureza/ dos limites do porvir./ (...) A poesia me elucida/ - isto tem sido tão raro -/ quando o amor que vejo entre as pessoas,/ é um defeito, um acaso./ Deixo-me imolar pelo silêncio/ até que uma lágrima perigosa/ vasa ao limbo do pranto,/ como se o meu espírito lamentasse/ pelos mortos construídos/ com radicais banalidades,/ que todas as poesias evitam evitar” (p. 52-54); e o recurso criativo da metapoética com seus próprios poemas, “O drama afro de Bigu e Juliana” e “Anotações sobre o ato de escrever”, versando a respeito da força do verbo poético, da libertação da palavra que conduz o poeta em um embate no qual a palavra sempre sai vencedora: “o poema é o que eu quero,/ não o que a inspiração tem vontade/ (...) Não gosto quando/ o texto me ilude,/ engole e me abafa.../ não gosto mesmo/ quando o texto é mais/ vaidoso que eu./ E foi isto que aconteceu/ nesse poema afro/ do drama de Bigu e Juliana” (p. 109-110).

Para concluir, é necessário celebrar este Tudo que está solto, a palavra depurada e madura, a versatilidade formal e temática deste militante negro de Nova Iguaçu (RJ), participante de diversas antologias como “Cadernos Negros” e “Ebulição da escrivatura”, com textos publicados na Alemanha, Estados Unidos e Itália, para além dos seus, dentre outros, “Curetragem – poemas doloridos” e a biografia de Abdias Nascimento, “O griot e as muralhas”. Corrosivo sim, agressivo também, sobretudo, verdadeiro e sincero nas suas intenções. Éle Semog brinda-nos com um livro obrigatório, de excelente qualidade poética, de confirmação do seu nome entre os maiores da literatura negra brasileira, por conseguinte, entre os melhores da literatura brasileira. Um brado poético contra o racismo em nossa sociedade, uma feliz leitura para nós negros. É o que tenho a dizer a respeito de Tudo que está solto e agradecer ao seu autor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Éle Semog lança Tudo que está solto na Funemac/Macaé, dia 18/11, 18h (participação Ricardo Riso)

O escritor afrobrasileiro Éle Semog lançará TUDO QUE ESTÁ SOLTO (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010), seu recente livro de poesia na FUNEMAC/Macaé no dia 18 de novembro, a partir das 18h. Além do escritor, a mesa será composta pela Profa. Dra. Sonia Santos e por mim.

Abraços,
Ricardo Riso

Alguns poemas do livro de Éle Semog.

VOLTANDO DE GRAMACHO PELA LINHA VERMELHA
A cidade cresceu ao meu redor
e agora me devora pra fora,
como acontece com um botão
na casa de uma camisa...
Mas sou um negro insurreto,
que não se dobra aos infernos
que me oferecem.
Estou cercado por deveres,
obrigações, tensões urbanas
e municipalistas,
que sufocam a minha lógica tribal.
Mesmo vivendo isto,
com essas coisas tão naturais
não consigo ser cidadão.
Às vezes me respingam
manchas de sangue, noutras,
multas, e impostos, e juros,
e crianças mortas
na lama dessa democracia.
Enchentes, roubos, gente caô,
e filhos aspirados por essa
ideologia global.
Ainda assim, dia desses,
peguei um por do sol com uma lua tão linda,
ali pelos lados da ponte Rio Niterói,
que até Deus se assombrou
com a emoção que expressei,
só com esse restinho de gente
guardado dentro de mim,
que não sabia que estar viva.
Eu sou um desses homens
que cuida da casa, das crianças e da mulher.
Já sei me libertar, só não preciso saber
para que ser livre.
(p. 70-71)


A CHAVE DA COR BRASILEIRA
Todos os dias, a vida inteira
uma razão interior, harmoniosa,
que herdei de gente da minha gente,
e veio por séculos a fio da meada,
me conduz e anuncia,
sem ser oráculo ou magia,
que sou vida porque sou negro,
que sou pleno porque sou negro,
que sou feliz porque sou negro.
Em toda a minha volta,
na versão dos outros,
na exclusão, no sofrimento,
no preconceito esplêndido
nada de mim pode Ser
além do branco, o possível.
E todos os dias me espreitando,
esperando chegar alguma dor,
ou ruptura no fio da meada,
uma outra razão turva e pesada,
insinuosa e despudorada
oferece uma das chaves
que abre o mundo dos brancos...
É para eu entrar, mas sozinho
e lá poderei ser pitoresco e faceiro,
desde que deixe os meus no caminho
e tranque para sempre o negro
que também sou, fora de mim.
(p. 110-111)

Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos (resenha)


Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos
Por Ricardo Riso


Hoje não é nenhum absurdo nem exagero afirma que Conceição Evaristo é a principal voz feminina da nossa literatura afro-brasileira. Por isso, devemos celebrar o lançamento de “Poemas de recordação e outros movimentos”, pela editora Nandyala, em 2008, antologia poética que reúne poemas do passado e inéditos dessa mineira de Belo Horizonte, nascida em 29 de novembro de 1946.

Desde os anos 1970 radicada no Rio de Janeiro, formada em Letras, Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e Doutora em Literatura Comparada pela UFF/RJ, Evaristo teve sua estreia literária em 1990, na série Cadernos Negros, publicação anual editada pelo Grupo Quilombhoje com o intuito de lançar escritores afro-brasileiros, projeto iniciado em 1978. A partir daí, a poeta começou a ter seus textos, que navegam entre a poesia, o conto e o romance, em diversas antologias nacionais e estrangeiras. Individualmente, publicou os seguintes romances: “Ponciá Vicêncio” (2003 e já na segunda edição) e “Becos da Memória” (2006).

A obra de Conceição Evaristo conduz-nos a um profundo mergulho na memória que navega entre as recordações individual e coletiva, “a memória bravia lança o leme:/ Recordar é preciso”. Logo somos banhados pelas “águas-lembranças” de Evaristo que se posiciona como mulher negra e da comunidade negra em geral para transformar em poesia as suas “escrevivências”. Estas são motivadas pelas lembranças familiares, formadoras do binômio vida-poesia, destacando-se a convivência com a mãe, “mulher de pôr reparo nas coisas,/ e de assuntar a vida”, e que “me ensinou,/ insisto, foi ela,/ a fazer da palavra/ artifício/ arte e ofício/ do meu canto/ da minha fala”, o aprendizado oral pelos provérbios, “quando se anda descalço/ cada dedo olha a estrada”, e também do contato frutífero com a Tia Lia que “temperando os meus dias/ misturava o real e os sonhos/ inventando alquimias./ (...) Houve um tempo/ em que a velha/ me buscava/ e eu menina/ com os olhos/ que ela me emprestava,/ via por inteiro/ o coração da vida”.

O cruel desenvolvimento das adversidades pelas quais passam as mulheres negras através dos tempos, configurando a dor e as experiências de injustiças sociais, são demonstrados no poema “Vozes-Mulheres”, no qual o sujeito lírico retoma as dores sofridas pela bisavó no passado de violenta escravidão, como ecos na memória de “lamentos/ de uma infância perdida”. Relembra a submissão sofrida pela avó ainda escrava diante da “obediência/ aos brancos-donos de tudo”, recorda os ecos das dores de sua mãe “no fundo das cozinhas alheias/ debaixo de trouxas/ roupagens sujas dos brancos”. Até chegar no tempo presente, na sua voz que ainda “ecoa versos perplexos/ com rimas de sangue/ e/ fome”, para atingir a consciência madura de sua filha, voz que “recorre todas as nossas vozes” e que se quer livre: “Na voz de minha filha/ se fará ouvir a ressonância/ o eco da vida-liberdade”.

A condição feminina aparece com frequência em seus poemas. Em “Do fogo que em mim arde” a coisificação da mulher é combatida: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ não aquele que te apraz”; conduzindo à metapoesia e à afirmação de um sujeito feminino pleno: “Sim, eu trago o fogo,/ o outro/ aquele que me faz,/ e que molda a dura pena/ de minha escrita./ É este o fogo/ o meu,/ o que me arde/ e cunha a minha face/ na letra-desenho/ do auto-retrato meu”. Portanto, verifica-se a rigidez de um sujeito lírico que possui a força de dar a vida, por fim, dar movimento ao mundo e que diz: “Eu fêmea-matriz/ Eu força-motriz/ Eu-mulher”.

Ao posicionar-se como negra e ao fazer literatura com cariz afro-brasileiro, torna-se inevitável apresentar temas que não integram o cânone e são excluídos por ele, tal como a denúncia do racismo presente em nossa sociedade que a ordem estabelecida insiste em negar e persiste com a mentira de que vivemos em uma democracia racial. Os poemas de Evaristo invocam este e outros assuntos referentes ao nosso cotidiano de cidadão negro e o poema “Meu Rosário” é um excelente exemplo por tratar da religiosidade híbrida brasileira – “Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo/ padres-nossos, ave-marias” –, a discriminação permanente que o negro é submetido em uma cerimônia cristã – “As coroações da Senhora, em que as meninas negras,/ apesar do desejo de coroar a Rainha,/ tinham de se contentar em ficar ao pé do altar/ lançando flores” –, escancara o subemprego dos nossos pares – “As contas do meu rosário fizeram calos/ nas minhas mãos/ pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,/ nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo”. Entretanto, permanecem os “sonhos de esperanças” e a transformação do verbo em poesia – “E neste andar de contas-pedras,/ o meu rosário se transmuta em tinta,/ me guia o dedo,/ me insinua a poesia”.

Intertextualizando com Carlos Drummond de Andrade, para nós negros há sempre incontáveis “pedras no meio do caminho”. Para suportar e superar “a áspera intempérie/ dos dias”, necessita-se assumir “a ousada esperança/ de quem marcha cordilheiras/ triturando todas as pedras/ da primeira à derradeira”, “moldando fortalezas-esperanças” para sobreviver diante de tantas desigualdades e perseguições ao nosso povo, principalmente aos jovens, vítimas constantes da violência policial e demonstrada com sutileza pelo sujeito lírico: “E pedimos/ que as balas perdidas/ percam o rumo/ e não façam do corpo nosso,/ os nossos filhos,/ o alvo”. Fatos recorrentes que revoltam, o incômodo por séculos de opressão não segura mais a língua metamorfoseando a conjungação dos verbos: “E não há mais/ quem morda a nossa língua/ o nosso verbo solto/ conjugou antes/ o tempo de todas as dores”. Sendo assim, o sujeito lírico atua como agente de mudança da História e propõe o seu grito de liberdade: “E o silêncio escapou/ ferindo a ordenança/ e hoje o anverso/ da mudez é a nudez/ do nosso gritante verso/ que se quer livre”.

Devemos frisar que o poeta afro-brasileiro é um partícipe ativo – e por sinal, incômodo – da presença negra na literatura brasileira, assim como possui plena consciência da necessidade de uma revisão crítica da História oficial que minimiza o passado de séculos de escravidão e a exclusão social que se perpetua para a maioria de nossos pares na contemporaneidade. Só resta ao sujeito lírico cumprir seu papel e assumir essa condição, ou seja, denunciar “o que os livros escondem,/ as palavras ditas libertam. E não há quem ponha/ um ponto final na história”.

Com isso, os poemas de Conceição Evaristo possuem o predomínio temático das diversas e urgentes questões afro-brasileiras e também da mulher, todavia, sua poesia navega com desenvoltura pela metapoética, demonstrando reverência ao verbo poético, transbordando lirismo e emocionando as retinas: “Quando eu morder/ a palavra,/ por favor/ não me apressem,/ quero mascar,/ rasgar entre os dentes,/ a pele, os ossos, o tutano/ do verbo,/ para assim versejar/ o âmago das coisas”.

E é assim “crivando buscas/ cavando sonhos/ aquilombando esperanças/ na escuridão da noite” e cosendo “a rede/ de nossa milenar resistência” que a poesia de Conceição Evaristo insiste na defesa inquestionável dos negros, persiste com as denúncias às condições discriminatórias sofridas por nós e amadurece em sua estrutura estético-formal. “Poemas da recordação e outros movimentos” mostram um verbo depurado de uma autêntica artífice da linguagem, marcando a sua posição destacada na construção de uma literatura afro-brasileira autônoma, para além de configurar a inclusão do nome de Conceição Evaristo entre o que vem sendo produzido de melhor qualidade na literatura brasileira contemporânea.

Literacia e a Semana da Consciência Negra

Prezados(as),
No Literacia compareço com duas resenhas de livros de escritores afrobrasileiros, Cuti e a antologia poética Negroesia, e Conceição Evaristo com o seu Poemas de Recordação e outros movimentos. A seguir, o informe da revista.
Abraços,
Ricardo Riso

Caros Amigos de Literacia,
O Dia da Consciência Negra é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história, desde a
época da colonização do Brasil, tentando garantir seus direitos sociais.

O Dia da Consciência Negra também é marcado pela luta contra o preconceito racial, além de temas como mercado de trabalho, discriminação política, etnias,e homenagens aos negros que se destacaram na construção de nossa História.

Nesta Semana da Consciência Negra, publicamos artigos, ensaios, resenhas e teses, que julgamos merecem leitura atenta e reflexiva , tais como:

I.*Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil [Registros Históricos]

II.*A importância do Negro -Teodoro Sampaio-[Engenheiro , Geógrafo e Historiador Brasileiro]

III.*Diferentes na cor, iguais em OPORTUNIDADES?-por Sonia Regina Lourenço

IV.*Carolina Maria de Jesus-Favelada,Escritora, publicou seu primeiro livro Quarto de Despejo em 1960. [Obra que foi traduzida para 13 idiomas]

V.*Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos- por Ricardo Riso

VI.*Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira- por Ricardo Riso

VII.*Negrice- por Lilian Maial

Ler em: http://literaciaracismoecrime.blogspot.com/

anadeabrãomerij
[Literacia]

sábado, 6 de novembro de 2010

Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira


Cuti – compromisso com a afirmação da consciência negra na poesia afro-brasileira

por Ricardo Riso

sou a ave da noite / sou ávida noite / que bate asas de vento / e traz um canto agourento / ao sonho dos opressores / e traz um canto suave / a despertar outras aves / pro revoar da justiça
 (CUTI. Ave. p. 76)

A epígrafe assinala o compromisso de Cuti, pseudônimo de Luís Silva, na conscientização do negro brasileiro. Além de ser um dos criadores e mantenedores da importante publicação “Cadernos Negros”, Cuti tornou-se nome de referência destacando-se no panorama literário, social e intelectual brasileiro por sua expressiva produção literária, pela coerente defesa dos seus ideais e reivindicações em prol da população afro-descendente, massacrada por séculos de submissão e opressão.

Com uma produção multifacetada, Cuti passeia com desenvoltura, rigor e excelência pela poesia, prosa, teatro, ensaios etc. sempre tendo como preocupação primeira revelar as desigualdades impostas pelas relações étnico-raciais e em elevar a autoestima do afro-descendente brasileiro. Com isso, o reconhecimento e o respeito ao seu trabalho ultrapassa as barreiras “invisíveis” da sociedade brasileira impondo-se pela ótima qualidade de sua escritura, o que fica evidente na leitura dos 84 poemas selecionados pelo autor na antologia “Negroesia” (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007).

Abrangendo sua produção poética desde 1978, ano de sua estreia, Cuti acrescenta dez poemas inéditos na edição de “Negroesia”. Dividida em quatro partes: Cochicho, Aluvião, Chamego e Axé, anunciam as temáticas que perpassam os textos reunidos por um sujeito lírico criativo, inovador e dissonante na maneira como subverte o discurso da ordem estabelecida, reformulando pensamentos e atitudes, chamando atenção para as injustas condições sociais e sendo incisivo na crítica à consciência submissa do negro.

A preocupação em denunciar as mazelas da língua revela-se em diversos poemas, sendo enfrentadas pelo sujeito lírico que recorre a figuras de linguagem como anáforas, assonâncias e aliterações; ora é lúdico, ora é lírico; às vezes irônico e sarcástico; ora polissêmico, ora em surpreendentes neologismos. Em relação à forma, encontramos poemas curtos e longos, alguns em prosa demonstrando a versatilidade do autor.

A perversidade do racismo à brasileira é escancarada na constante autocensura do negro em várias situações humilhantes do cotidiano: “às vezes sou o policial que me suspeito / me peço documentos / e mesmo de posse deles / me prendo / e me dou porrada (...) / às vezes sou o meu próprio delito / o corpo de jurados / a punição que vem com o veredicto (...)” (p. 53). Tal consciência do negro, reveladora de sua baixa autoestima, torna-o incapaz de ser agente da história e conquistar sua dignidade, mostrando o quanto é pernicioso o discurso dominante. O curto poema “Medo Medular” expõe esse problema: “todo mundo tem medo / da vingança do preto / até o preto” (p. 48).

Por outro lado, o sujeito lírico está “atento / contra o jogo da humilhação e / do cansaço” (p. 39), em sua luta diária para afirmar sua identidade negra desprezada por séculos pela elite social branca. Não se entrega, resiste, faz da fruição poética o espaço para almejar os novos tempos conduzidos por um novo homem negro, “o negro pronto (...) com suor dilui espinhos / do horizonte cria músculos / e semeia o novo no crepúsculo” (p. 39-40). Como “está se fazendo sempre” (p. 39), o sujeito lírico, como “um peixe fora d’água”, insurge contra manifestações aparentemente inofensivas de desprezo a sua etnia, recorre à polissemia para demonstrar sua posição em “Para ouvir e entender ‘estrela’”: “se o papai-noel / não trouxer boneca preta / neste natal / meta-lhe o pé no saco!” (p. 42)

No seu papel de conscientização e de elevar a moral do negro, o sujeito lírico utiliza a metapoesia em diversas situações, reconfigurando as significações, abalando os sentidos, desestruturando as certezas e rebelando-se contra a linguagem opressiva busca metáforas impactantes para eliminar a autocensura, cria neologismo (poesídios) para libertar-se do encarceramento imposto, como em “Negroesia”:

“enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos / por onde passam carroções de palavras duras / com seus respectivos instrumentos de tortura // entre silêncios / augúrios de mar e rios / o poema acende seus pavios / e se desata / do vernáculo que mata // ao relento das estrofes / acolhe os risos afros / embriagados de esquecimento e suicídio / no horizonte do delírio // e do âmago do desencanto contesta as máscaras / lançando explosivas metáforas pelas brechas dos poesídios / contra o arsenal do genocídio.” (p. 29)

Mostrando-se atento ao seu tempo e compromissado em diminuir as injustiças até então perpetuadas a seus pares, o sujeito lírico revolta-se contra a hipocrisia da classe dominante que destina espaços específicos e limitados para suas reivindicações, e manifesta sua indignação em “A Trajehistória”:

“então dirigi meu verbo indignado aos palacetes onde anos a fio passei a desfiar meu rosário de denúncias com a fé inabalável de que as flores brotariam em maio e os frutos em novembro. distintas senhoras e senhores conversavam na varanda ouviam meus discursos aplaudiam e quando minhas palavras secavam ordenavam que me servissem bebidas finas. e diziam: – estamos estudando... estamos estudando... estamos estudando... as suas reivindicações... (p. 79)

Quando “a noite entrou toda nua e decidida com seus versos iansânicos” (p. 79), o sujeito lírico apreende que jamais terá suas reivindicações atendidas pelos caminhos liberados pelo poder. Resta o abandono à submissão, o sofrimento com as consequências de sua decisão; porém, retorna ao passado e recria com afeto o quilombo, o local que seus antepassados conseguiam manter a autonomia da identidade negra, ainda o espaço simbólico de libertação para os dias atuais e para unir os seus pares nas lutas vindouras:

por isso eu fugi e criei este quilombo no lado esquerdo do peito. Aqui flores e alimento nascem de janeiro a janeiro e outros fugitivos são recebidos com um canto guerreiro e podem adormecer com uma cantiga de ninar. (p. 80)

Apesar da poesia cutiana ser incisiva ao defender o negro, o afeto é frequente como forma de acalanto às dores sofridas por séculos de desprezo e humilhações, fragmentando e dilacerando o negro. Ler os poemas de Cuti é como receber um “abraço fraterno” (p. 67); com lirismo, os versos procuram recompor a história do negro:

eu vou ao mar pedir à maré-cheia / que despeje no meu coração tudo o que é meu / dessa longa e interminável viagem / de ser preso de um lado / retalhado do outro / e desacreditado depois // (...) eu vou ao mar lançar minha rede / tecida em caminhos de fuga / quilombola / pois minha falta de mim / minha falta de tribo / saímos de madrugada em busca de raízes afogadas / raízes suculentas no coração da história (p. 61-62)

Sensível ao problema da educação brasileira, pois “a corte sempre ordena / que se barre a nossa gente” (p. 57), que não se esforça em elaborar um plano educacional inclusivo, a fim de respeitar e considerar a diversidade étnico-racial do país, o sujeito lírico, “em secular esforço / de superar-se coisa e se fazer pessoa” (p. 73), apresenta a defesa coerente do regime de cotas e ações afirmativas: “cota é só a gota afrouxando botas / de um exército / para o exército da equidade // cota não reforça derrota / equilibra / entre ponto de partida / e ponto de chegada / a vitória coletiva / reinventada” (p. 74).

Ao percorrer as páginas de “Negroesia” deparamo-nos com poemas que são como “foice aparando o coice da prepotência” (p. 16) do discurso vigente, de um sujeito lírico que explora os extremos das potencialidades da língua para desmascarar as artimanhas do racismo e fazer da tessitura poética o local para “quebrar todo os elos dessa corrente de desesperos” (p. 50). Por ser “daqueles que cobram o leite derramado” (p. 46), a poesia de Cuti ensina-nos a abrir “a porta enferrujada do silêncio” (p. 70), a abandonarmos nossas angústias, medos e pesadelos. Cuti crê na força do verbo poético atuando na transformação de novas consciências, na afirmação da identidade negra, na valorização da sua história coletiva, na justiça social que um dia se fará.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Afrodestinos, de Ricardo Riso

AFRODESTINOS*
Ricardo Riso

E o Ben dos bens sons cantou assim:

"Arthur Miro,
Diga lá, menino,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser jogador de futebol
Jogador de futebol
Anabela Gorda,
Diga lá, menina,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário
Dona de casa atuante ou mulher de milionário
Jesus Correia,
Diga lá, menino,
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser tesoureiro-presidente ou liberal como você
Tesoureiro-presidente ou liberal como você"

O sonho e a chegada da realidade.
Arthut Miró, craque da bola, idolatrado na comunidade em que viveu, caiu nas garras do empresário branco (versão contemporânea do traficante de escravos). Das categorias de base no Flamengo, promessa de craque, à aventura no obscuro futebol dos Emirados Árabes. Transação de cifras estratosféricas ponta-pé para sonhada estabilidade, dinheiro que não viu, concentrado nas mãos do empresário. Grave contusão, retorno ao Brasil, abandono empresário, portas grandes clubes fechadas. Arthur Miró estava bichado, cochichavam. Hoje, camisa 10 do ABC do Rio Branco do Acre, une o futebol aos serviços de ajudante de pedreiro, uma das poucas profissões para quem apenas aprendeu a escrever o nome e apostou no esférico sonho de gols e dinheiro como tantos nossos irmãos de cor.
Anabela Gorda enamorou-se de um milionário, Zé Milionário, antigo garimpeiro de Serra Pelada que conseguiu fazer alguma fortuna, boa parte detonada em bebidas e mulheres, ainda assim conseguiu juntar algum, veio para a cidade outrora maravilhosa tentar mudar de vida e comprou uma casa própria no Rio das Pedras. Anabela Gorda tornou-se dona-de-casa atuante, Zé Milionário deu-lhe uma casa, seis filhos, diversos quilos a mais, o convívio com a embriaguez permanente e a perda das poucas economias devoradas pelas máquinas de jogo dos bares, outro vício de Milionário. O único prazer de Anabela Gorda se dá quando senta para ver as novelas do plim-plim, fábricas de ilusão, momento em que ela sonha ser doméstica na casa de um outro milionário do Leblon ou da Barra da Tijuca.
Jesus Correia, garoto esperto, sagaz, ambicioso, revoltado com a polícia que tantas vezes na sua cara bateu, nas de seus amigos também, quase sempre sem motivo nenhum, algo como se fosse mais um ritual do trabalho do policial, tal como bater o cartão-de-ponto na entrada e na saída. Quando mais um brother preto morreu sem justo motivo pelos homens da lei, exterminadores de negros, cansou-se de ver suas tias em lágrimas negras e decidiu assumir sua habilidade com o dinheiro e com a valentia adquirida por tantos anos de discriminação para o bicho entrou. Jesus Correia encontrou a sua forma de ser liberal, tornou-se tesoureiro da boca. Jesus Correia adora queimar vacilão alcaguete, sabe que essa vida não é longa e canta, em meio às orações para seu orixá, “Eu vou torcer, eu vou/ Eu vou torcer pela paz/ Pela alegria, pelo amor” e espera o dia da morte chegar em um provável confronto com a polícia.

* poema inspirado na música “Meus filhos, meu tesouro” de Jorge Ben, do álbum África/Brasil, de 1976.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Palestra Literatura Afro-Brasileira, com Miriam Alves e Ricardo Riso - Colégio Pedro II/Centro - 14/10/2010

Pedro II de Portas Abertas
Dias 13 e 14 de Outubro de 2010
FESTA LITERÁRIA

Prezados(as),

A escritora e pesquisadora Miriam Alves e eu comporemos a mesa Literatura Afro-Brasileira na Festa Literária do Colégio Pedro II - Unidade Centro, dia 14 de outubro, às 15h. Na ocasião, Miriam Alves lançará o livro Brasilafro autorrevelado – Literatura brasileira contemporânea. A mesa terá a mediação do Prof. Tarcísio Motta de Carvalho.

O evento terá participações de:
• Sebos da região e exposição de livros;
• Editoras e autores;
• Mesas, saraus, lançamento de livros;
• Lançamentos de livros;

Quem puder comparecer e ajudar na divulgação, desde já agradeço.

Abraços,
Ricardo Riso

Colégio Pedro II − Unidade Centro
End.: Rua Marechal Floriano nº 80 - Centro – RJ
Tel: (21) 3213-3101 - FAX: (21) 2253-8340
Site: http://www.cp2centro.net/

Miriam Alves - BRASILAFRO AUTORREVELADO: Literatura Brasileira Contemporânea (lançamento RJ)

A Kitabu Livraria Negra e a Nandyala Editora convidam para a noite de autógrafos do livro


BRASILAFRO AUTORREVELADO:

Literatura Brasileira Contemporânea

De Miriam Alves*

Iniciaremos o projeto Palavra Preta**, com um sarau com a autora.

Serviço:
Local: Kitabu Livraria Negra
Endereço: Rua Joaquim Silva, N. 17 – Loja – Lapa – RJ
Data: 14 de outubro, próxima 5ª feira.
Horário: 18:30
Tel: 2252-0533

* Mirian Alves é escritora e pesquisadora da literatura afro-brasileira, tem importante participação nos Cadernos Negros com seus contos e poesias.


** Palavra Preta é novo projeto da Kitabu Livraria Negra, para aproximar escritores e pesquisadores de seu público leitor, sendo um espaço destinado ao debate, à reflexão e à confraternização. Sua periodicidade será mensal, contamos com a sua presença.
 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Palestra Literatura Afro-Brasileira, com Miriam Alves e Ricardo Riso - Colégio Pedro II/Centro - 14/10

Pedro II de Portas Abertas
Dias 13 e 14 de Outubro de 2010
FESTA LITERÁRIA

Prezados(as),
A escritora e pesquisadora Miriam Alves e eu comporemos a mesa Literatura Afro-Brasileira na Festa Literária do Colégio Pedro II - Unidade Centro, dia 14 de outubro, às 15h. Na ocasião Miriam Alves lançará o livro Brasilafro autorrevelado – Literatura brasileira contemporânea. A mesa terá a mediação do Prof. Tarcísio Motta de Carvalho.
Quem puder comparecer e ajudar na divulgação, desde já agradeço.
Abraços,
Ricardo Riso


DIA 13/10 - 4ª FEIRA


8:00h : ABERTURA
Leitura dramatizada de O Santo e a Porca (8º ano) - Profª Rita Codá - Biblioteca

8h30min: Recital Rosas de Piéria (8º ano) - Profª Rita Codá - Biblioteca

9:00h: Declamação de um excerto da obra Aulularia de Plauto, em latim (Alunos do Curso de Latim) - Profª Rita Codá - Biblioteca

10:00h Ferreira Gullar: homenagem aos 80 anos do poeta e lançamento do seu mais novo livro Alguma parte alguma. Convidada especial: Adriana Calcanhoto; Participação do Coral de Alunos da Unidade Centro

12:00h Sopa de Letras – sarau literário com apresentação de alunos de séries variadas e Convidados - Profa Dilma Mesquita – Pátio Central

13h:30min – 14h:30min – ALMOÇO

14h:30min – Dramatização de Os saltimbancos (7ºano) Profª Marina Mansur – Biblioteca

15:00h – Café com autores. Convidados: Rosa Amanda Strausz, George Campista e Luiza Martins. Sala 03

15h:30min: Literatura e Entretenimento - Felipe Pena e Luís Eduardo Matta. Mediadora: Rosa Amanda Strausz. Salão Nobre

17:00h: Literatura e Música: Legião Urbana. Henrique Rodrigues e Angélica Castilho. Mediadora: Profa Elaine Barbosa. Participação do aluno Wesley Guimarães ao violão.

19h:30min: Jantar Poético: sarau de poesia com alunos do PROEJA. Poeta convidada: Celi Luz e amigos

DIA 14/10 5ª FEIRA

9:00h : Exibição de vídeo e relato de experiências – oficina de cinema. (9º ano). Profª Dilma Mesquita. Auditório novo

10:00h: Leitura dramatizada de O auto da Compadecida (9º ano). Profª Dilma Mesquita.Salão Nobre

13h:30min – 14h:30min ALMOÇO

14h:30min – Contação de histórias de suspense: Edgard Allan Poe (aberto a todas as séries). Profª Teresa Ventura (SCI). Sala 3

15:00h – Literatura Afro-brasileira. Miriam Alves e Ricardo Riso. Lançamento do livro Brasilafro autorrevelado – Literatura brasileira contemporânea. Mediador: Prof Tarcísio Motta de Carvalho

16:00h – Literatura e o Samba: Noel, o poeta da Vila. Prof. Antonio Martins de Araújo (UFRJ). Danilo Garcia e Raoni Ventapane compositores de sambas-enredo da Vila Isabel. Participação do grupo de samba dos alunos da Unidade. Mediador: Prof. Marcos

17h:30min – Conversa com o cantor e compositor Pedro Luís e uma homenagem ao Prof. Fernando Lemos, mestre que o incentivou a gostar de Literatura. Mediadora: Profª Marina Mansur

“A literatura é necessária porque a vida não basta.” (Ferreira Gullar)

Celebrando o prazer da leitura, o valor da literatura e suas relações com todas as manifestações culturais.

O evento terá participações de:
• Sebos da região e exposição de livros;
• Editoras e autores;
• Mesas, saraus, lançamento de livros;
• Lançamentos de livros;

Colégio Pedro II − Unidade Centro
End.: Rua Marechal Floriano nº 80 - Centro – RJ
Tel: (21) 3213-3101
FAX: (21) 2253-8340
Site: http://www.cp2centro.net/

domingo, 26 de setembro de 2010

Éle Semog - Tudo que está solto (livro)

Lançamento do novo livro de Éle Semog, “Tudo que está solto” (editora Letra Capital), no Centro Afrocarioca de Cinema, à rua Joaquim Silva, 40 – Lapa – Rio de Janeiro. Dia 27 de setembro de 2010, a partir das 18h30.


A respeito do conteúdo do livro, Nelson Olokofá Inocencio frisa que “o movimento negro adverte: muito cuidado ao abrir este livro, pois ele contém substâncias altamente inflamáveis, compostas de consciência e indignação que podem causar danos irreparáveis àquelas mentes retrógadas. Caso ocorra alguma reação alérgica não suspenda o uso, todo tratamento exige uma boa dose de esforço da pessoa enferma. Persistindo os sintomas procure o autor e seus comparsas. A eles pertence a fórmula que produz tanta inquietação."



COISAS DESSA GENTE QUE SOU

Pertenço a uma História que existe
na memória dos tempos,
suturada no útero desse povo,
ao modo de ferro e fogo,
que o próprio tempo pariu.
E pelo tempo que há de vir
se expandirá sem fronteira
tal qual a gênese de um orixá.
Não me curvo ao silêncio
dessa versão perversa e lúcida,
que torna invisível tudo que estou,
como se o que penso pudesse ser
desconstruído, pela expressão estúpida
desses alcoviteiros cheios de estórias,
que roubam detalhes, fingem fatos,
e inumanos desfiguram vidas e verdades.
Busco no tempo um tempo
maior que ele mesmo,
que se abra em inevitável caos,
e deixe fluir toda a insurreição do silêncio
como uma eufórica sangria na memória.
Pertenço a uma História
feita pelo meu povo
e penso como o meu povo,
que pertence e perturba
a estória dos donos e seus danos,
e que por isso está muito além
de seu próprio construir-se.
Sou um negro como tantos outros
negros e negras que esbanjam respeito
mas que também atiçam o seu medo.
E é melhor assim.

(Éle Semog)

sábado, 25 de setembro de 2010

Júlio Emílio Braz – Sikulume e outros contos africanos


Júlio Emílio Braz – Sikulume e outros contos africanos
Por Ricardo Riso

Desprezados e suprimidos do imaginário nacional por causa de uma sociedade que não assume a porção afro-descendente em sua formação e tenta renegar qualquer manifestação da cultura negra, as lendas e contos africanos até hoje são ignorados por nossas escolas. As justificativas vão desde a falta de conhecimento dessa literatura a absurdos ataques referentes à bruxaria, magia negra etc., que tais narrativas podem conter, o que escancara o preconceito no país da democracia racial.

Diante de um quadro desigual, torna-se fundamental destacar a relevância de um livro como Sikulume e outros contos africanos, adaptado por Júlio Emílio Braz e ilustrado por Luciana Justiniani. O livro é composto por sete contos que resgatam uma África ancestral, na qual habitantes de pequenas aldeias convivem com animais falantes, monstros imensos e assustadores que engolem aldeias inteiras, canibais agressivos e de apetite insaciável, para além de explicar o surgimento de astros como o sol e a lua, e questões de ordem ontológica como a origem da morte.

Os contos demonstram ao pequeno leitor a importância de se respeitar as tradições, as orientações dos mais velhos e os castigos quando elas são descumpridas; são destacadas qualidades como a lealdade, a coragem para se enfrentar os perigos e defender os seus pares; as consequências da má conduta e de um comportamento orgulhoso, assim como o uso da mentira, dentre várias outras situações que ajudam a instruir os pequeninos. Também são inseridas cenas do cotidiano de pequenas aldeias, suas relações sociais, a importância dos líderes e a sapiência em conduzir seus povos.

Embora as ilustrações de Luciana Justiniani sejam formadas por traços sem excessos, figuras cruas e objetivas, elas alcançam ótimos resultados, pois mostram passagens essenciais das narrativas, demonstram com clareza o horror dos monstros e destacam cenas do cotidiano.

As felizes adaptações de Júlio Emílio Braz para o livro Sikulume e outros contos africanos renovam o compromisso da Pallas Editora de divulgar as matrizes africanas em nossa cultura. Portanto, trata-se de mais um título que atende aos textos das leis 10.639/2003 e 11.645/2008.


Sikulume e outros contos africanos
De Júlio Emílio Braz
Ilustrações de Luciana Justiniani
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Adilson Martins - Erinlé, o caçador e outros contos africanos (livro)


Adilson Martins – Erinlé, o caçador e outros contos africanos

Em sua terceira incursão pelo universo infantil com o livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008), o escritor Adilson Martins comprova sua extrema habilidade narrativa ao recriar contos de matrizes africanas.

Possuidor de uma escrita envolvente, clara e suave, os oito agradáveis contos que compõem o livro fascinam pequenos leitores e adultos pelo encantamento das situações apresentadas. As histórias são profundas pelo que pretendem ensinar e pelo caráter universal, mostrando passagens que, apesar de africanas, encaixam-se em quaisquer culturas, pois falam de códigos de conduta, da perseverança na boa ação, no encantamento ao ajudar animais mágicos etc. Além disso, há um grande destaque à cultura Yorubá, apresentando seus orixás, como Xangô e Oxum, e demais fatores culturais dessa etnia.

Ao final de cada narrativa, o autor tece relevantes comentários relacionados a aspectos diversos como sociais, geográficos e históricos que aparecem nos textos, aprofundando a compreensão e aguçando a curiosidade dos leitores.

As ilustrações ficam a cargo da sempre competente Luciana Justiniani Hees. Elas são atraentes e ricas em detalhes do cotidiano, vestimentas, armas de caça e demais objetos, animais etc., tornando-se um delicado complemento à leitura. Destaque também para a cuidadosa diagramação e cores utilizadas.

O livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos ajuda a disseminar as lendas africanas em nossa sociedade, que estão à margem das lendas europeias e excluídas do currículo escolar. Trata-se de um excelente material para introduzir a história, as crenças e os costumes africanos para o conhecimento das crianças, contribuindo, assim, para que elas tenham dimensão da diversidade da formação cultural brasileira, assim como é um ótimo livro para os professores que pretendem implementar as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 em sala de aula, em razão das curtas narrativas e da diversidade temática apresentada.

Leitura agradável e singela, seguindo os anteriores Lendas de Exú e O papagaio que não gostava de mentiras e outras fábulas africanas (ambos pela Pallas Editora), Adilson Martins, este incansável divulgador das culturas africanas e afro-brasileira, novamente ensina-nos com saber e sabor.


Erinlé, o caçador e outros contos africanos
De Adilson Martins
Ilustrações de Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2008.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras


Raul Lody – As Gueledés - a festa das máscaras

Profundo pesquisador das religiões afro-brasileiras, tendo vários livros que abordam o tema, dentre tantos o Dicionário de arte sacra e técnicas afro-brasileiras, o antropólogo, museólogo, autor e ilustrador Raul Lody realiza sua segunda incursão na literatura infantil, antes havia publicado Seis pequenos contos africanos sobre a criação do mundo e do homem, agora volta-se para a cultura Yorubá e lança As Gueledés – a festa das máscaras, pela Pallas Editora.

A partir da importância das mulheres na sociedade Yorubá e do poder que possuem, dentre tantos, um dos principais é o de ser mãe, o autor narra diferentes aspectos que desvendam a participação feminina nas atividades cotidianas, nas artes e na magia. Neste, conta-se a história das Senhoras da Noite (as Yás, em Yorubá, ou seja, mães) e o incrível poder que possuíam, como transformarem-se em animais e realizarem reuniões secretas durante a noite, o que as faziam ser temidas e respeitadas pelos homens.

Diante disso, os homens procuravam uma forma de neutralizar o poder dessas mulheres e criaram máscaras fascinantes e roupas coloridíssimas, nascendo, assim, a festa diurna das Gueledés como forma de distrair, com muita música e dança a atenção das mulheres feiticeiras, deixando-as exaustas e entregues ao sono no período noturno. Dessa maneira, evitava-se que elas se reunissem à noite e aumentassem seus poderes.

No decorrer da narrativa, o pequeno leitor atenta-se às atividades dedicadas às mulheres Yorubás, como as de vendedoras e os alimentos e objetos que constavam em suas barracas. O autor relaciona-as às famosas baianas que vendem acarajé e como elas perpetuam as tradições africanas na atualidade, presentes, também, nas vestimentas e religião, assim como o fundamental papel na educação dos filhos e na narração das histórias dos antepassados.

Ao final do livro, Raul Lody acrescenta diversas informações enriquecedoras acerca dos Yorubá para as crianças que ficam conhecendo as origens desse povo no continente africano, sua relação com a arte, aspectos sociais, a divisão do trabalho entre homem e mulher etc.

Por seu caráter instrutivo a respeito de uma importante manifestação afro-brasileira, As Gueledés – a festa das máscaras presta um fundamental papel ao tratar da permanência das tradições Yorubá e da valorização em nossa cultura, mostrando o quanto foi importante a participação dessa etnia africana na formação e diversidade do nosso país.



As Gueledés – a festa das máscaras
De e ilustrado por Raul Lody
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2010.