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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ondjaki na FLIP 2009



Fonte: e-mail enviado em 1 de julho de 2009, às 18:09, por Carolina Casarin, da Editora Língua Geral. Rua Jardim Botânico, 600/ 502 - Rio de Janeiro - RJ22461-000tel.: (21) 2279-6184 (21) 9398-8649
www.linguageral.com.br

quarta-feira, 24 de junho de 2009

José Eduardo Agualusa - Barroco Tropical (livro)


BARROCO TROPICAL
de José Eduardo Agualusa

Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020.

http://www.youtube.com/watch?v=Z7Q7bsov-I8

http://www.agualusa.info/


ISBN: 978-972-20-3822-5
Páginas: 344
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm

Colecção: Autores de Língua Portuguesa

Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado

Preço com IVA: 16.65 €
Preço sem IVA: 15.86 €

Fonte: http://www.dquixote.pt/novidades.html?page=1&q=

domingo, 21 de junho de 2009

Ondjaki - Avódezanove e o segredo soviético (lançamento do livro - RJ)


O novo livro de Ondjaki, Avódezanove e o segredo soviético, terá noite de autógrafos na quinta-feira - dia 25/06, na Livraria Travessa Shopping Leblon - Av. Afranio de Melo Franco, 290 - Leblon - Rio de Janeiro/RJ.


Fonte: maillist da Livraria Travessa, dia 20/06/2009.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ondjaki - Avódezanove e o Segredo do Soviético (livro)

A PraiaDoBispo é um bairro tranquilo de Luanda: o VelhoPescador cuida de sua rede, o VendedorDeGasolina espera um cliente que nunca chega, AvóAgnette e AvóCatarina conversam com a vizinha e ralham com os miúdos. As obras de um mausoléu, porém, transformam e ameaçam o cotidiano: soldados soviéticos comandam a construção, e o projeto ameaça desalojar os moradores.

As crianças da PraiaDoBispo assistem a tudo com seus olhos inocentes mas agudos, e divertem-se com as brincadeiras de rua e a extravagância dos estrangeiros. Elas desconfiam que os “lagostas azuis”, como chamam os soviéticos, tramam algo confidencial. Mas o segredo do soviético pode ter a ver com outras coisas: a enorme quantidade de sal grosso encontrada no depósito da construção, os pássaros de plumagens coloridas presos em gaiolas ou a dinamite nos barracões das obras.

AvóDezanove e o segredo do soviético é um romance que ultrapassa o horizonte histórico e biográfico para resultar num relato ficcional amparado na poesia da imaginação, no humor inocente da infância e na linguagem que combina o sabor da oralidade do português angolano ao talento narrativo de um jovem escritor africano.
Avódezanove e o Segredo do Soviético
Ondjaki
Companhia das Letras
192 páginas
R$ 36,00
http://www.companhiadasletras.com.br/

terça-feira, 12 de maio de 2009

Pepetela - O Planalto e a Estepe (livro) e site do autor


Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.

Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno.

Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

ISBN: 978-972-20-3784-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5x23,5 cm
Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Ano de Edição: 2009
Encadernação: Brochado
No site do Pepetela - http://www.pepetela.com.pt/pdf/planalto_estepe.pdf - o primeiro capítulo deste livro está disponível para download.

Site Pepetela: http://www.pepetela.com.pt/

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Roderick Nehone – Uma Bóia na Tormenta (RESENHA)


Por Ricardo Riso

Quase trinta e cinco anos após a conquista de sua independência, Angola vivenciou momentos ora felizes, ora conturbados. Imprecisos e tortuosos como deveriam ser os caminhos de uma nação periférica que procura se posicionar na aparente calmaria do modelo neoliberal vigente no mundo. Da euforia comunista dos primeiros anos do país à grave crise que se espalhou nas décadas de 1980/90, motivada pela guerra civil, ao fim do sangrento conflito no início deste século, com a entrada desenfreada do capital estrangeiro aproveitando-se da estabilidade política, Angola, mais precisamente sua capital Luanda, com suas peculiaridades e contradições, sempre foi um terreno fértil para os escritores. Que o digam, apenas para citar alguns prosadores, José Luandino Vieira, João Melo, o jovem Ondjaki e Roderick Nehone.

O mais recente lançamento de Roderick Nehone, “Uma bóia na tormenta” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007) apresenta doze histórias em suas 103 páginas, onde a cidade de Luanda é também protagonista. Todavia, antes de iniciarmos os comentários sobre os contos, cabe aqui um breve resumo do autor.

Roderick Nehone é o pseudônimo literário de Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso. Nasceu em Luanda a 26 de março de 1965. Aos 24 anos concluiu a licenciatura em Direito na Universidade Central de Las Villas, Cuba. Foi docente na Universidade Agostinho Neto de 1991 a 2004. É membro da Ordem dos Advogados de Angola e vice-presidente da União dos Escritores Angolanos (UEA). Nehone vive em Luanda. É autor das seguintes obras: “Génese (poesia - Prémio António Jacinto de Literatura, 1996), “Estórias Dispersas da Vida de Um Reino (Contos-Prémio Sonangol de Literatura, 1996), “ O ano do Cão (Romance-Prémio Sonagol de Literatura, 1998), “Peugadas de Musa (Poesia, 2001) e “Tempos sem Véu (Romance, 2003).

Em entrevista disponível no site da UEA – http://www.uea-angola.org/ –, Roderick Nehone (RN) faz uma declaração que corresponde bem ao que será encontrado em seus contos: “É fundamentalmente o retrato de um cidadão interessado nos problemas da sociedade que o rodeia. É o retrato de um homem preocupado com os problemas da época que lhe corresponde viver.”

É a partir deste olhar atento à sociedade de sua cidade, às dificuldades econômicas, aos problemas sociais adicionados a uma percepção sutil e acusatória da atuação dos políticos angolanos que Nehone realiza o leitmotiv de suas narrativas. Valendo-se de um narrador onisciente e onipresente que procura privilegiar os valores éticos e passar a mensagem de uma vida digna distante da corrupção, ganância e insensatez predominante entre as classes abastadas de Angola, vorazes e sedentas com os altos investimentos feitos pelas empresas estrangeiras, o autor busca contrapor com sua literatura. Tarefa encarada por quem crê no poder transformador do Verbo.

Utilizando-se de certo didatismo para expor situações adversas, porém encaradas com perseverança e elevada autoestima pela personagem Lalito em “O salto”, o narrador conta a história de um jovem deslocado pela guerra que chega a Luanda, mora sob a marquise de um prédio e faz bicos como guardador de carro e outros pequenos serviços manuais. Contudo, jamais perdeu a esperança de um dia retomar os estudos, pois sabe da importância da formação educacional para alcançar seus sonhos:

Não sei se pelos meus sonhos, ou por uma coisa de espírito forte, eu creio que aquilo que me proponho vou alcançar. Penso forte na coisa, penso sempre, penso com energia e ajo no sentido de realizar o que penso. Demora às vezes, mas já aconteceram comigo muitas coisas que pensei. É preciso acreditar que podemos e, depois, lutar para alcançar. (p. 23)

O conto “O angolano também pode” explora a desconfiança daqueles que não creem que um angolano pode obter sucesso sem ajuda estrangeira ou tendo uma postura subserviente perante este. Trata-se da história de dois homens que cresceram juntos, mas a vida foi ora afastando-os, ora aproximando-os. Até que atingem a idade adulta no pós-guerra civil angolano e se reencontram. Um se tornou professor universitário com salário humilde e aspira uma carreira política de sucesso, enquanto o outro se transformou em um importante empresário que construiu seu império atuando em diversas áreas. Entretanto, jamais se submeteu ao capital estrangeiro, comandando seus negócios e trabalhando apenas com angolanos, o que gera incredulidade no antigo companheiro, que pensa, como a maioria dos angolanos, ser impossível um patrício obter sucesso por conta própria:

Está fácil de mais fazer dinheiro nesta terra. Os brancos têm razão. Mas, eles vêm com bancos atrás e com tecnologia (...) Com faro para detectarem as oportunidades de negócio aqui no mercado e, naturalmente, é só chegar e facturar. Agora, um patrício? (...) afinal de contas, deve ser apenas um movimentador nativo do cumbu (dinheiro) do estrangeiro, pras compras e vendas locais. O dinheiro de bolso para pagar os empregados nativos, comprar combustível, dar umas gorjetas aos fiscais, e liquidar mais uns etecéteras para que os seus próprios conterras não lhe perturbem o negócio. Um estafeta bem vestido, afinal de contas. Um mwangolê (angolano) atrevido fantasiado de empresário. (p. 37-38)

Dando continuidade às críticas ao modo de pensar do angolano, em “Nós temos que estar lá” a personagem Jangolê, o bem-sucedido empresário do conto anterior, cobra uma mudança de postura de seu primo quando este obtém ascensão social. Jangolê encontra-o e fica feliz ao saber que está muito bem conduzido em sua carreira. Entretanto, não frequenta os lugares que sua atual condição financeira permite. O empresário convence-o que tais ambientes devem ser ocupados pelos angolanos também – uma questão de afirmação social (p. 44) –, como mostra a passagem abaixo em um restaurante:

Há muitos que podem cá vir, mas não vêm. Não desenvolveram o hábito de progredir. Preferem a quantidade de vida à qualidade de vida. E, isso, tem as suas conseqüências, também políticas. (...) Olha, agora, ao nosso redor. Estamos aqui em minoria. E podíamos fazer maioria aqui. Porque os mwangolês que têm alguma coisa, seriam bastantes para fazerem maioria em todos os restaurantes e esplanadas deste país. (...) O que importa é estar. (...) Nós temos que estar aqui, para tornamos, de facto, nosso país este, que por direito é nosso. (p. 47)

A preocupação com os valores éticos e com o comportamento do angolano por parte do narrador, justifica-se por causa dos péssimos exemplos da classe política do país que se mostra prepotente, arrogante, inconsequente e irresponsável quando se trata dos interesses da nação, colocados em segundo plano diante de escusos interesses pessoais. O uso da força, o abuso de poder e a certeza da impunidade são evidenciados no conto “Aqui é só vusar”, ao apresentar a postura dos dirigentes angolanos a partir de uma caravana conduzida de forma irresponsável por uma estrada. Valendo-se da posição oficial, seus motoristas cometem as maiores barbaridades no trânsito, causando indignação e revolta em um simples cidadão:

O sacana do condutor, sem batedor, nem nada à frente do carro dele, acelerava, driblava, como se a estrada fosse um corredor da casa dele. Mas, o carro feio não vinha só. Era o primeiro de uma caravana de seis, com matrículas anormais, não interessa agora, detalhar mesmo qual era o defeito igual de todas elas, todos trungungueiros (brutamontes), a quererem mandar na estrada, como se esta Luanda e o país inteiro fosse deles. (...) Afinal de contas, este país é de todos nós. Só a força das armas procurou tornar uns mais angolanos do que os outros. Só a coação, a impunidade, pode fazer com que uns se sintam obrigados a ver com impotência os seus direitos serem vilipendiados. (p. 27-29)

“O enterro de Burrocrata” é o mais contundente, áspero e feroz conto contra a burocracia que emperra o país. Trata-se dos estranhos acontecimentos no enterro da personagem-título, funcionário público odiado por todos em razão da sua total falta de escrúpulos e solidariedade com o próximo, que se aproveita da sua posição privilegiada para criar todo e qualquer tipo de entrave nas vidas das pessoas e das empresas que querem regularizar suas pendências com os órgãos públicos. O livro de condolências é preenchido por várias pessoas, tornando-se o espaço para as descrições das atrocidades cometidas pela personagem ao longo de sua vida e dos constantes abusos realizados por ela.

Para qualquer coisinha de nada, pedia o Registo Criminal. (...) Se não fosse o Registo Criminal, era o Atestado de Saúde. Como se isso não bastasse, o requerimento tinha de ser em papel de vinte e cinco linhas, selado e sem rasuras. A fotocópia do Bilhete de Identidade não podia faltar. Noutros casos, exigia o Atestado Médico, mesmo sabendo que este podia ser facilmente falsificado por um falso médico no Roque Santeiro. E, enquanto andávamos de um lado para o outro, a tratar de toda a papelada, a oportunidade do negócio passava, às vezes, sem deixar mais rasto. (p. 65)

Durante o enterro, cai uma chuva torrencial simbolizando o novo tempo de um Estado em prol do desenvolvimento do país e em harmonia com os interesses de seus cidadãos: “Era uma chuva alegre, colorida, que parecia estar contente com o fim de Burrocrata. (...) Que depois da morte de Burrocrata, a vida deles fluiu melhor (...) Houve mais negócios, mais trabalho e mais dinheiro nas mãos, até do mais anônimo cidadão.” (p. 67-68)

Os problemas gerados pelo superpovoamento e pelo cotidiano caótico da cidade de Luanda são retratados por Nehone no conto “Catrapus!”. A partir da iniciativa da personagem Zazalí, um canguleiro (carregador) que trabalha no mercado Roque Santeiro (famoso mercado popular de Luanda, seu nome foi inspirado na novela homônima brasileira), e sua visão comercial ao investir em cangulos (carrinhos-de-mão) para transportar as compras dos clientes. Zazalí obtém rápida ascensão social aumentando o número de seus carros e funcionários, até se tornar o Rei dos Cangulos, valendo-se da força física e da influência que passou a exercer dentro do mercado: “como tal, era respeitado, idolatrado por uns e odiado por outros” (p. 10).

Zazalí passa a ter centenas de cangulos e os que não eram seus somente circulavam no Roque se seus donos pagassem uma taxa a ele. Com o tempo, investiu na fabricação de cangulos para carregar passageiros e determinou que todos os clientes deveriam ser carregados pelo mercado. Essa situação levou-o a pensar no trânsito caótico da cidade e seus “engarrafamentos intermináveis”, que faziam com que as pessoas levassem horas para chegar aos seus destinos:

“a pontualidade já era. A assiduidade era mandada para as urtigas. (...) Ninguém tinha moral para exigir pontualidade a ninguém, nem mesmo os chefes, porque estes também se atrasavam. (...) Como ninguém se sentia culpado pelo que estava a acontecer, ninguém justificava nada a ninguém. Como todos se sentiam prejudicados, não aparecia nenhum culpado. Era a total paralisia, enquanto a cidade definhava, porque deixaram de produzir. Porque todos estavam atrasados, tudo ficara atrasado. Toda a vida das pessoas era, agora, refém do engarrafamento (p.12-13)”.

Diante desse quadro, “era, então, aí que, de repente, surgia nas ruas um caricato show de retrocesso” (p. 12), o narrador começa a descrever como os cangulos de Zazalí expandiram-se do Roque Santeiro para as ruas de Luanda:

Circulavam entre os carros, subiam para os passeios, desciam novamente para a estrada, deixavam os passageiros nos lugares acertados e prosseguiam com a nova carga. De tão estreitos que eram, e movidos à tração humana, não necessitavam de espaços largos para passarem, nem de gasolina para se moverem. (...) A lentidão do transporte de cangulo era tal que, na verdade, a velocidade era mesmo a do passo humano. A única diferença era a de que o cangulado chegava menos cansado que o canguleiro. Mas, tudo a passo de homem. (p. 14)

Com isso, o Rei Zazalí toma uma decisão insólita ao perceber que os luandenses não precisam mais de relógios: “Deu-se conta de que com aquele passo, pelo menos durante o sufoco dos engarrafamentos, o tempo deixara de ter sentido nas fábricas, gabinetes, escritórios, enfim, na vida das pessoas. (p. 14)” E passa a comprá-los a preços baratíssimos com a intenção de revendê-los quando a situação voltasse ao normal.

A desordem de Luanda leva o narrador a fazer uma alusão aos tempos em que Angola era colonizada por Portugal, quando o branco era carregado pelos negros, o narrador reflete o retrocesso vivenciado em seu sonho e termina, de forma abrupta, o conto:

Sem transporte moderno que andasse, sem sentido de tempo, amordaçada pelas dificuldades daí decorrentes e submissa à omnipresença de toscos monocicles de madeira à tracção humana nas suas ruas entupidas, a cidade deu-nos o fatídico sinal de que, em pouco tempo, sucumbiria. Não querendo ser cúmplice, preferi abandonar o trágico sonho e pôr fim, aqui e agora, a este conto. (p. 15)

As preocupações do autor com o inchaço populacional da capital angolana não finalizam. O insólito retorna e prevalece em “Luanda a duas velocidades”. Neste conto a cidade é dividida em dois turnos rigorosos por seu prefeito, que visa com essa medida reduzir os problemas de uma cidade superpovoada. Os percalços submetidos à população são narrados com ironia, obrigando famílias e os serviços públicos e privados a se dividirem em dois turnos. Trata-se de uma metáfora angustiante do caos urbano da cidade de Luanda.

As pessoas, as empresas e as instituições fizeram as suas opções e, em função disso construíram todas as suas demais relações.
Famílias inteiras optavam “por viver” de dia ou à noite e, segundo a sua escolha, estabeleciam a sua convivência, cresciam e multiplicavam-se com os demais que “vivessem” no mesmo período.
Em poucas palavras, a cidade “vivia” intensamente as vinte e quatro horas, mudando apenas de actores. Na mesma cidade havia dois grupos de cidadãos que viviam a mesma época, mas em momentos diferentes. (p.82)

O período comunista da república angolana é relembrado no conto “Um Ifa no cafriqui”. O texto relata um kota (mais velho) que consegue adquirir um caminhão, o IFA do título, popularmente conhecidos como: IFA – Independência Fodeu Angola ou IFA – Indústria Funerária de Angola (p. 49). Esse carro, que não era confiável – “o IFA era alto e capotava muito” (p. 49) – tanto pela sua mecânica quanto por seus motoristas, era importado da então Alemanha Oriental (RDA). O IFA virou objeto de desejo da sociedade da época que pretendia ter alguma forma de ganhar dinheiro extra, longe do controle do Estado. Em razão disso, o caminhão era alvo de seguidas tentativas de assalto deixando desassossegado seu dono:

Entretanto, poucos eram os IFAs para todos que queriam tê-los. Virar empresário angolano, em época de predominância da propriedade social ou estatal sobre os meios de produção, era um privilégio arriscado, mas intimamente invejado e desejado. Ter um IFA já bastava para se denominar empresário. Porque ter um camião num mercado onde o omnipresente concorrente era o Estado, bem podia dar o estatuto de pequeno empresário. (p. 49)

O didatismo retorna em “O kota Meu está em parampas”. Em intenso diálogo, um personagem demonstra ao seu chefe o por quê da maioria da população permanecer longe das boas oportunidades, restritas a um pequeno grupo que detém o controle e o acesso à informação, legando ao resto da população uma vida sofrida e sem maiores perspectivas.

Aqui nem todos sabem de tudo. A informação não circula para todos. Por isso é que, às vezes, as coisas boas acontecem num lugar, onde estão os que sabem que vão acontecer, e todos os que não sabem continuam distraídos com o que já existe, com o que já não dá mais sumo. O kota deve masê ter o canal de informação do que vai acontecer. Por isso é que se posiciona. Porque ninguém muda de posição à toa. (...) Agora, para subir é preciso saber para onde. É preciso saber como! E tudo começa com a circulação de informação! (p. 72)

O conto que encerra o livro, “Era uma vez um peixe que não sabia nadar”, trata-se de uma bela metáfora do período colonial e do pouco mais de trinta anos de Angola independente, narrando alguns momentos da história conturbada do país. O narrador apresenta todas as lutas enfrentadas pelo peixe para defender seu pedaço de mar, o que fez desenvolver e privilegiar determinadas habilidades de guerra em detrimento do seu bem-estar e da sua existência. Somente com a paz e a soberania da sua parte do oceano asseguradas, que o peixe se deu conta do que falta para sua vida:

Só nessa altura, o nosso peixe pôde dar conta de que havia, ao longo da vida, aprendido muito, havia aprendido quase tudo, mas o pouco que lhe faltava para poder dizer que sabia tudo era o passinho mais importante da sua vida. O nosso peixe havia dado conto de que afinal não sabia nadar.
Tudo quanto fez, daí em diante, foi aprender a nadar, para melhor desfrutar das bênçãos que Deus havia colocado no seu pedaço de mar, do mundo vasto dos oceanos e da época em que tinha o privilégio de viver.
E assim foi. Pode crer! (p. 99)

Roderick Nehone denuncia os males da sociedade e da política angolanas, fazendo da sua literatura o espaço para desmascarar as atrocidades cometidas contra o país, sem deixar de valorizar a autoestima do cidadão angolano, apresentado-o novas maneiras de conduta perante os caminhos tortuosos que a História revela. Os contos de Nehone são boias salvadoras em meio às tormentas que insistem em permanecer em Angola. E que não farão a nação submergir.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Manuel Rui – Cinco dias depois da independência

Por Ricardo Riso

Manuel Rui Monteiro, ou Manuel Rui, é um escritor multifacetado, pois passeia por diversos gêneros literários como o conto, a poesia, a novela, o romance, além de escrever ensaios, músicas populares, cabe aqui ressaltar a intensa amizade com o compositor brasileiro Martinho da Vila, além de ter participado da luta de libertação contra o jugo colonial português e ser o autor do hino nacional de Angola. Só esta última citação já nos dá ideia da importância deste escritor para o seu país.

Lançado originalmente no livro Sim camarada! (Luanda: UEA, 1977), o conto Cinco dias depois da independência foi publicado em formato de bolso na série 2K da União dos Escritores Angolanos, em 1979, e será o objeto analisado neste texto.

Publicado próximo à independência de Angola, conquistada em 1975, Cinco dias depois da independência focaliza sua ação no comportamento das crianças durante o longo conflito contra as forças colonizadoras. As crianças, ou melhor, os pioneiros, como eram conhecidos pelos militantes do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), formavam “uma frente paralela, insubmissa e dispersa, (...) regida por leis que escapam à compreensão imediata dos adultos (...), contra o invasor das suas ruas, contra o estrangeiro que se atrevera a calcar o sonho de liberdade novinho em folha (...)” (contracapa do livro).

Influenciados e encantados com a maciça propaganda e os lemas – O Éme-Pé-Lá é o povo, o povo é o Éme-Pé-Lá (p. 20) –, esses pioneiros vivenciam intensamente os acontecimentos da guerra e participam de maneira limitada, de pequenas ações contra o inimigo, que aliam coragem e astúcia, sendo exaltadas pela população assim como pelos combatentes das Faplas, o braço armado do MPLA. Os pioneiros representam a utopia, a confiança nos ideais da revolução – A vitória é certa! –, repetem todo momento.

Entretanto, o cotidiano da guerra caótico somado aos parcos recursos das forças angolanas demonstra que nem sempre a presença dos pioneiros representa ajuda, como na chegada de graves feridos a um hospital que não tinha condições de atendimento: “Mas para quê que trazem camaradas mortos e camaradas que necessitam de intervenção cirúrgica? (...) Estou farto de dizer, nestas condições não podemos ir além de primeiros-socorros e pequena cirurgia” (p. 16). Em situações assim, os pioneiros para nada serviam e deveriam sair dali, causando desapontamento ao líder do pequeno esquadrão:

Comandante Kwenha cabisbaixo. Como um general de maiores condecorações a quem, injustamente e em público, desprezaram as estrelas de comando. Mas as condecorações, essas, permaneciam bem dentro do peito.
Pela primeira vez o grupo era desautorizado ali. Na delegação do MPLA. E pelo simples fato de nomadizarem chamavam-lhes vadios. Eles que tinham cinco bases. Presentes, sem uma baixa, em quase todas as confusões. Eles que recuperaram duas armas à fnla entregando-as à primeira patrulha de Fapla que passou. Aquele esquadrão! Que, ainda sem nome, assistiu e ajudou no desalojamento dos chipendas.
(p. 22)

Em sua inocência, os pioneiros compreendiam os símbolos da luta de libertação, fitavam as propagandas encontradas no caminho, e admirados prestavam homenagens mesmo não sabendo ler:

Em frente ao dip, mudaram de passeio para aproveitarem ver o jornal da parede, parando deslumbrados nos recortes onde vinha a fotografia do camarada Presidente e pioneiros a marchar com espingardinhas de fisga e bala. Um ritual. Mesmo que as colagens não fossem substituídas durante dias, eles repetiam a contemplação que já fazia parte das regras do grupo. Entendiam pelas fotografias. Ninguém sabia ler no pelotão. (p. 23)

Com as vidas entremeadas ao dia-a-dia da guerra, os pioneiros sabiam identificar as armas das Faplas e dos inimigos pelos sons que emitiam: “Eles não falhavam nos sons. Distinguiam bazuka, metralhadora anti-aérea ou canhão” (p. 29), ou como transcreve o narrador amargurado: “O tempo tinha posto assim as crianças nessa precocidade de aceitar a guerra como uma brincadeira séria a salvar a vida” (p. 31).

Acostumados à brutalidade de tempos de conflito, ao convívio constante com a morte, à insensibilidade dominante os pioneiros ficavam ávidos para agir próximos às zonas de combate:

“A rua estava deserta. Os pioneiros apenas. Naquela progressão de corpo vergado procurando a proteção das paredes e muros dos quintais. Para eles a direção só podia ser uma: o sítio de onde vinha o tiroteio” (p. 35).

Um diálogo travado entre uma jovem grávida e um pioneiro, escondidos em tubo de esgoto, traduz o espírito de luta que guiava esses destemidos pequenos combatentes:

– E essa arma mata o quê?
– Tudo – respondeu o miúdo segurando a arma com as duas mãos – lacaios do imperialismo.
– E se for blindado?
– Entro nele e estoiro o maquinista. Blindado sem homem não anda. Um camarada falou num comício o homem é que faz andar a máquina.
– E se for barco?
– Qual barco?
– De guerra?
– Aqui não estamos no mar mas o meu esquadrão completo afunda.
– Mas já afundaram?
– Não. Porque o inimigo não vem no mar. Ainda, os pescadores organizados tudo ÉME. Se vierem vamos afundar.
– E se for avião?
– Abato. Deixa só ele voar baixo, também um camarada me contou ele abateu licóptero na primeira. (...)
– E se eles param aí perto?
– Aqui não tem perigo. Isto é zona libertada. Base número cinco do esquadrão Kwenha. (...)
A salientar não só a confiança como também a responsabilidade e a argúcia necessária à situação. (...) Ganhava confiança nas afirmações do miúdo, lembrando-se, por instantes, de todas as histórias de heroísmo que ouvira sobre pioneiros. (...) Pensou na hipótese de conseguir sair sã e salva e sentiu um singular orgulho por se encontrar ali com um pioneiro, naquela situação de perigo e guerra.
(p. 47-52)
Apreende-se que o tubo de esgoto é uma metáfora do útero, da gestação e do nascimento da nação, pois quando a dupla consegue sair dali é praticamente o momento em que a vitória pela independência se consolida.

A frieza do corajoso pioneiro assusta-nos, mas trata-se de um ambiente de radicalização diante de uma situação colonial insuportável e agonizante. A postura desses pioneiros retrata o meio violento que os gerou, ou seja, as crianças são consequência de uma época crucial para a futura nação angolana, são sujeitos da história na guerra de libertação de um país que estava nascendo. Nesse sentido, o texto de Manuel Rui é de importância extrema ao captar o momento da utopia fortalecida e de como as crianças lidavam com esses acontecimentos, com a chegada da independência. “A vitória é certa! A luta continua”, o lema repetido diversas vezes no decorrer do texto concretizou-se.

Por outro lado, Cinco dias depois da independência chama-nos atenção para o foco de mudança da luta, que não passa mais a ser apenas contra o colonizador português, mas entre os angolanos que não se submetem à ideologia do MPLA. Novamente o pioneiro, com sua sabedoria e experiência, no conflito armado aponta para a dissidência do povo angolano ao identificar os sons das armas:

É deles
é nosso
é nosso
é nosso
é deles (p. 66)

Essa passagem ilustra as fissuras que viriam a dilacerar o país, desencadeando uma longa e tenebrosa guerra civil.

Como bem observou a Profa. Dra. Tania Macêdo, a descrição do amanhecer durante o primeiro dia de Angola independente com a rajada de balas dada por um guerrilheiro saudando os novos tempos, demonstra as dificuldades que deveriam ser encaradas pelo país, como a continuação da guerra que perdurou até esta década (MACÊDO, 2007, p. 366-367):

E a noite, fustigada pelo tiroteio de glória, estendia já seus braços de fadiga nos contornos da aurora. Estrelas que fugiam para seu repouso diurno. Ruídos matinais desabrochavam do corpo das plantas. Flores, tocadas pelo sabido vento de tantos heróis, desprendiam o orvalho fresco e doce na boca da terra. Então, quando o sol se levantou do mar antigo e ultrajado dantes, desprendendo sua solta cabeleira de luz e força, Carlota ficou que instante a contemplá-lo. Era o primeiro sol em liberdade.
– Já nasceu o sol. Primeiro dia depois da independência! Parece um soldado camarada.
O guerrilheiro ergueu-se num salto, deu dois passos em frente, apontou a espingarda nos esconderijos da lua e de rajada limpou o carregador.
– Sim camarada. – Disse depois de assoprar o fumo do cano.
E nas narinas de Carlota, o cheiro de pólvora entrava parecia um perfume.
(p. 94)

A tragicidade da guerra após percorrer todo o texto, faz sua última vítima ao final da história, mostrando a sua faceta mais cruel e onipresente em um tempo de horror: o pequeno e audaz pioneiro é morto pelas tropas inimigas. Esse acontecimento mostra com clareza o que se poderia esperar dos novos duros e difíceis tempos para esses jovens pioneiros (MACÊDO, 2007, p. 367), as incertezas que encarariam na reconstrução de um país sofrendo com os recursos escassos, as pressões de países como a África do Sul e os EUA que alimentavam a Unita, guerrilha contrária ao MPLA. Por conseguinte, a guerra civil que devastou a nação, ceifando milhares de vidas, muito contribuiu para destroçar os sonhos de uma geração que tanto acreditou na vitória e nas conquistas da revolução.

Cinco dias depois da independência é uma bela e comovente história das raízes primeiras da nação angolana, da participação determinada desses pequenos anôminos que atendiam pela alcunha de pioneiros, pois, como afirma o narrador, "dois ou três anos antes, as pessoas perguntavam-se sempre os nomes. Agora tudo mudara. Bastava pioneiro." (p. 58) Infelizmente, a História foi cruel com os caminhos trilhados pelo país nos anos seguintes dilacerando a utopia revolucionária.


Bibliografia:
RUI, Manuel. Cinco dias depois da independência. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1979. Coleção 2K.

MACÊDO, Tania. Monandengues, pioneiros e catorzinhas: crianças de Angola. CHAVES, Rita, MACÊDO, Tania, VECCHIA, Regina (orgs.). A kinda e a missanga – encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda: Angola, Nizla, 2007. p. 357-374

quinta-feira, 19 de março de 2009

Manuel Rui na UFRJ

MANUEL RUI NA FACULDADE DE LETRAS DA UFRJ

Dia 24 de março (terça-feira), às 11h, sala D220


Falará sobre o livro Quem Me Dera Ser Onda.
A Editora dele vai levar livros para vender e ele autografar.

Fonte: e-mail enviado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco em 18/03/2009

sábado, 14 de março de 2009

Tania Macedo - Luanda, Cidade e Literatura


LUANDA, CIDADE E LITERATURA

Tania Macêdo
Editora UNESP

SINOPSE:
Este livro analisa as formas de representação da cidade de Luanda - capital de Angola - e sua predominância na literatura desse país. Desde o período anterior à chegada dos europeus até os últimos cinqüenta anos são recuperadas todas as formas de produção literária em Angola, com destaque para aquelas que enfocam espaços e tipos de personagem que percorrem "a cidade da escrita", Luanda, e em que podem ser vistas diversas faces do início da tomada de consciência da colônia que luta por tornar-se sujeito de sua própria história. Por último, há um exame sobre alguns romances em língua portuguesa que tomaram a cidade de Luanda como cenário privilegiado de ação.

ISBN: 9788571398597
Assunto: Literatura
Coleção: PROPG
Idioma: Português
Formato: 14 x 21cm
Páginas: 240
Edição: 1ª
Ano: 2008
Acabamento: Brochura com orelhas
Peso: 285g

Fonte: http://www.editoraunesp.com.br/titulo_view.asp?IDT=876

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ondjaki - Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas (poesia)

...Segundo Paulinho Assunção (escritor brasileiro):

«Você pode imaginar uma esquina do mundo onde Ondjaki encontra Manoel de Barros, Luandino Vieira, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Raduan Nassar. [...] Você também pode imaginar o que eu imagino ao ler este novo livro de Ondjaki. É um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las. E acho que o Ondjaki não tem medo de trazer para o seu livro os seus afetos todos literários. E faz bem o Ondjaki não ter medo disso porque é uma coisa muito bocó a gente esconder os afetos e as dívidas e os tributos aos que, também, como Ondjaki, gostam e gostaram de apalpar a polpa da língua como quem apalpa o dorso de uma fruta.»


Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 88
Peso: 0 g Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2029-6
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 10,50 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72478__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm



pequeno espanador de tristezas “[a derradeira confissão?]”

há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.

se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.

às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].

sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...

«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.

quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.

há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].

às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].

foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.

se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.

as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.

seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.

há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.

vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...

uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.


Fonte: http://www.kazukuta.com/LIVROS/espanador_de_tristezas.html

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

João Melo autografa "Filhos da Pátria" no Rio de Janeiro


Foto tirada por mim no lançamento do livro “Filhos da Pátria” (Editora Record) do escritor angolano João Melo, na Biblioteca Nacional, dia 03/11/2008.

João Melo é poeta, contista, cronista e ensaísta. “Filhos da Pátria” é o seu primeiro lançamento no Brasil, tendo sido lançado em Angola, no ano de 2001, pela editora Nzila, e em Portugal, pela editora Caminho.

É formado em Direito pela Universidade de Coimbra/Portugal, em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. No período que aqui esteve, meados dos anos 1980 e início de 1990, trabalhou como correspondente de imprensa. Atualmente, participa da revista África 21 – http://www.africa21digital.com/

Ricardo Riso

As informações a seguir foram retiradas de http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1area_--_3Dcatalogo__--_3D_obj_--_3D35948__q236__q30__q41__q5.htm

Filhos da Pátria
João Melo

«Até onde é capaz de ir a capacidade de humilhação do ser humano?» É com esta interrogação que João Melo inicia a sua mais recente viagem pelas estórias do quotidiano angolano. A cada virar de página somos surpreendidos com a sua forma clara e honesta de apresentar os diferentes personagens, homens e mulheres que a todo o momento se movem entre uma realidade extremamente dura e os sonhos sempre adiados face à severidade do dia-a-dia, num movimento que se torna muitas vezes demasiado alucinante, demasiado presente. Utilizando, como ele mesmo diz, uma «prosa rápida e rasteira», o autor prende-nos pela acção ritmada que contém em si mesma muito da alma africana, pela ironia simples (embora não simplista...) e todavia plenamente ligada a uma reflexão profunda e cuidada das questões que são o ponto central de cada um dos dez contos, onde a palavra e a imagem se entrelaçam de forma admirável numa dança que abre diferentes caminhos (conforme a sensibilidade e a opinião do leitor), sem que nela se intrometa qualquer tipo de decadência, mesmo quando esta parece evidente.

Género(s): Literatura/ Ficção
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,5x21 cm
Páginas: 174
Peso: 211 g
Colecção: «Uma Terra Sem Amos», n.º 121
Código: 06.121
ISBN: 972-21-1419-0
1.ª edição: Outubro 2001

terça-feira, 28 de outubro de 2008

UFRJ - Pepetela, Ondjaki, João Melo e Kiki Lima

ATENÇÃO!!!!
A palestra do pintor Kiki Lima foi cancelada.
Esta informação foi passada pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco em e-mail do dia 30 de outubro, às 19h06.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
dias 17 e 28 de novembro de 2008
Faculdade de Letras da UFRJ - Auditórios E1, E2 e G1
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado



LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
PEPETELA & ONDJAKI
17 de novembro de 2008, no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
poeta e escritor angolano JOÃO MELO lança no Brasil o livro FILHOS DA PÁTRIA
28 de novembro de 2008, às 11h no G1
Faculdade de Letras da UFRJ
inscrições só para ouvintes até 17 de novembro, na Cátedra Jorge de Sena
preço: R$ 5,00 com direito a certificado

ATENÇÃO!!!!

A palestra do pintor Kiki Lima foi cancelada.

Esta informação foi passada pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco em e-mail do dia 30 de outubro, às 19h06.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
KIKI LIMA, grande pintor de Cabo Verde
1 de dezembro de 2008 – às 9h, na sala D220
Faculdade de Letras da UFRJ


*E-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco, em 27 de outubro de 2008, às 16h37.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pepetela e Ondjaki na UFRJ

MESA-REDONDA

com os escritores angolanos

PEPETELA


e

ONDJAKI


17 de novembro, às 9h, Aud. G-1
Faculdade de Letras da UFRJ

Apoio Setor Cultural – F. Letras-UFRJ


*E-mail gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco no dia 25 de outubro de 2008, às 11h14.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

João Melo - Filhos da Pátria (lançamento do livro)*

No dia 03 de novembro - segunda-feira, às 16h, na Biblioteca Nacional, o escritor e ensaísta angolano João Melo lançará o seu livro Filhos da Pátria, pela editora Record. Neste dia, João Melo será apresentado por Muniz Sodré.


Lançamento livro Filhos da Pátria, de João Melo
Biblioteca Nacional
Av. rio Branco, 219 - Cinelândia - Centro
Rio de Janeiro - RJ
Tel: 3095-3879
http://www.bn.br/

*E-mail gentilmente enviado por João Melo no dia 23 de outubro de 2008, às 14h45.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

UFRJ - LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR


Divulgo e-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco, no dia 22 de outubruo, a respeito do evento Literaturas Africanas: conhecer para amar.

O Pepetela virá à UFRJ no dia 17 de novembro, às 9h; por isso mudamos a programação do evento. Divulguem a nova programação.

LITERATURAS AFRICANAS: CONHECER PARA AMAR
Dia 17 de novembro de 2008 (segunda-feira)

OLHARES SOBRE A POESIA E A FICÇÃO DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE
9:00 - Abertura – Auditório G1
9:15 - Declamações de poemas africanos pelos alunos
9:30 às 11:00 – Palestra do escritor Pepetela – Auditório G1
11:00 às 11:15 - Declamações de poemas africanos pelos alunos
11:15 às 13:00 – Mesa-Redonda sobre Ficção – Auditório G1
1. Otavio Meloni (coordenador): Traços poéticos, fronteiras da língua
2. Renata Flávia: A Literatura Angolana e seus espaços ficcionais
3. Roberta Franco: Luandino Vieira, Pepetela e Ondjaki: infância e violência em três momentos da literatura (e da história) de Angola
4. Robson Dutra: O terrorista de Berkeley, Califórnia, de Pepetela e a cartografia identitária de Angola

13:00 às 14:00 – almoço

14:00 às 15:30 - Mesas de Comunicações

Mesa 1: G1
POESIA E PINTURA EM AUTORES DE CABO VERDE E MOÇAMBIQUE
Coordenador: Diego Alves Moreira
1. Vinícius Antunes da Silva: Parábola caboverdiana: Almada e Figueira entre o Éden e o Hades
2. Giselly Pereira: O mar e a mulher em Cabo Verde através da poesia de Vera Duarte e da pintura de Hileno Barbosa
3. Viviane Mendes de Moraes: Memória, mito e erotismo em José Craveirinha e Malangatana Valente

Mesa 2: G2
A REINVENÇÃO DAS PALAVRAS NA FICÇÂO DE MIA COUTO E LUANDINO VIEIRA
Coordenadora: Roberta Guimarães Franco
1. Ramon Ramos: A terra de hoje e os rios de ontem
2. Fernanda Drummond: Luandino Vieira: umas veredas
3. Paulo José Filho: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra: aspectos da oralidade que geram o real e o fantástico

Mesa 3: E1
POESIA MOÇAMBICANA
Coordenadora: Edna Nazaré Batista Tourão
1. Kim Albano de Barros e Élvio Cotrim : Rui Knopfli e uma poética da citação
2. Thaís Santos: A dinamicidade temporal mítica na poética de José Craveirinha: a cosmogonia de uma nova literatura

Mesa 4: E2
O RISO E A IRONIA EM TEXTOS ANGOLANOS E CABO-VERDIANOS
Coordenadora: Lucimar Francisco Ribeiro
1. Priscila da Silva Campos: Viriato da Cruz e o transcriar irônico da angolanidade
2. Nilzelaine Silva dos Anjos: Aspectos da crônica e da ironia na poesia de Viriato da Cruz
3. André Salviano: João Melo espelhando Machado de Assis


Dia 28 de novembro de 2008 (sexta-feira):
9:00 às 11 h Projeção do filme O Testamento do Sr. Napumoceno –Auditório G1

ANGOLA E CABO VERDE EM DIÁLOGO
11:00 às 12:15 - Vozes representativas da poesia de Angola e Cabo Verde: Corsino Fortes, José Luís Tavares e João Melo.
Coordenação Dra. Laura Padilha – Auditório G1

VOZES E IMAGENS DE UM ARQUIPÉLAGO
12:15 às 13:15 - Vozes femininas de Cabo Verde: Dina Salústio e Fátima Bettencourt .
Coordenação: Dra. Teresa Salgado – Auditório G1
13:15 às 14:00 - Kiki Lima: cor e movimento na Pintura de Cabo Verde.
Coordenação: Dra. Carmen Tindó– Auditório G1
14:00 - Declamações de poesia pelo grupo “Metaforia”

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Carmen Lucia Tindó R. Secco - A Magia das Letras Africanas

A Quartet Editora e a Livraria do Museu da República convidam para o lançamento de A Magia das Letras Africanas, de Carmen Lucia Tindó R. Secco, dia 15 de outubro (quarta-feira), das 17h às 21:30, na Livraria do Museu da República, Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro - RJ.



*E-mail enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó R. Secco em 03 de outubro de 2008, às 14h53.

Publica-se no Brasil, em 2008, a obra ensaística A magia das letras africanas, que, desde seu aparecimento em Portugal há cinco anos, se tornou uma contribuição imprescindível para aqueles que não se conformam com a existência da teia de silenciamento imposta sobre as literaturas africanas, em geral, e sobre as de Angola e Moçambique, em particular, em nosso meio acadêmico-cultural. Penetrar no denso labirinto dessas literaturas é percorrer um espaço que se quer sempre cúmplice da ancestralidade emanada de um saber tão antigo, como antigo é o tempo africano. E fazê-lo, pelas mãos e sensibilidade de Carmen Lucia Tindó Secco, é, para além de tudo, pactuar com a beleza de um texto que, não abdicando de sua seriedade epistemológica, não se nega a deixar-se tocar pela maga vara de condão da poesia, pela qual tudo se transforma. Os textos críticos nascem, desse modo, da confluência sígnica entre as vozes dos autores africanos, que a ensaísta elege como base de suas leituras, e a sua própria voz que parece sempre emergir do lago profundo que só a poesia é capaz de criar.Sabemos que o exercício crítico não é uma tarefa fácil. No caso específico do trabalho com as Literaturas Africanas, tal exercício se torna ainda mais complexo, pelo fato mesmo de que é difícil ler o outro, tendo em conta nossos próprios referenciais teóricos, herdados do Ocidente hegemônico. No entanto, a cumplicidade de Carmen com esse outro rompe o pesado silêncio e o corpo simbólico da alteridade acaba por emergir, com força, de sua fala também em diferença, tanto no que concerne estritamente à expressão literária quanto a outras interlocuções que a pesquisadora surpreende. Com a sabedoria das filhas da Kianda, ela vai decifrando os sinais, reordenando-os para, sempre segurando seu próprio fio de Ariadne, vencer as artimanhas impostas pelo labirinto linguajeiro de Angola e Moçambique......

Por tudo isso, como leitora de Carmen Lucia Tindó Secco, só me resta reconhecer as “várias faces e formas” da “magia das letras de Angola e Moçambique”, entregando-me – e espero que outros o façam comigo – “ao exercício, ao desfrute e ao sortilégio delas!”
Laura Cavalcante Padilha - Professora de Literaturas Africanasde Língua Portuguesa na UniversidadeFederal Fluminense (UFF)

http://www.quartet.com.br/Principal_Editora.htm

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Fernando Kafukeno – o lirismo sublime da nova poesia angolana


Agradecimento especial à Professora Rosângela Freitas (UNESA), que me presenteou com o meu primeiro e solitário livro de Fernando Kafukeno.

A cada livro lançado, o angolano Fernando Kafukeno aprimora a sua verve poética calcada em lirismo, sinestesia, oralidade, erotismo, surrealismo e memória, surpreendendo seus leitores com imagens inusitadas que procuram resgatar a sensibilidade perdida em uma época crepuscular. Assim se apresentam os poemas de “Sublimação de Aresta” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006, coleção Guaches da Vida nº 35).

Fernando Kafukeno nasceu em 18 de Novembro de 1962, na cidade de Luanda, capital de Angola. Lá, estudou e foi membro da Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Seus primeiros poemas foram publicados no suplemento cultural do Jornal de Angola e seu primeiro livro de poesia foi “Boneca do Bê-Ó” (1993), seguido de “Na Máscara do Litoral” (1997), “Sobre o Grafite da Cera” (2000) e “Missangas! Kituta” (2000).

Kafukeno é contemporâneo dos poetas nascidos entre os anos de 1955 e 1965. Essa geração foi denominada como a “geração das incertezas” pelo também poeta e conceituado crítico literário angolano Luís Kandjimbo, em virtude de “na obra de todos eles, os temas mencionados emergem de uma profunda experiência geracional avassaladora e catastrófica, em que pesa a revolução, a guerra, a intolerância política” (SECCO, 2003, p. 189).

Ao radicalizar as propostas estéticas dos anos 1970 da “geração do silêncio” de Ruy Duarte de Carvalho, David Mestre e outros, a poesia angolana dos anos 1980/1990 abandona o cantalutismo até então predominante, diante das irrealizações políticas e sociais do país independente e das agruras e terror trazidos por uma violenta e duradoura guerra civil. Carmen Lucia Tindó Secco afirma que a nova geração apresenta um

“novo lirismo, reagindo a esse desencanto dominante no contexto social do país, abandona a utopia do nós coletivo e o engajamento revolucionário da poesia de combate. Funda uma poesis que dá vazão ao amor e às emoções individuais, assumindo um viés existencial e uma dicção universalista. Sob o signo de Eros, os poetas buscam exorcizar a morte e a dor. Operando uma revolução no âmago da linguagem, levam às últimas conseqüências a metaconsciência poética já praticada, desde os anos 70, por alguns dos poetas de Angola. (...) Ao suspender a prática cantalutista, lança na consciência dos leitores imagens do mundo mais humanas do que as tecidas pelas ideologias, desencadeando o desejo por uma vida mais autêntica e livre, pela qual vale a pena lutar” (SECCO, 2003, p. 189).

No início dos anos 1980 exerceu importante papel a Brigada Jovem de Literatura de Luanda, que motivou a criação de novas brigadas espalhadas por diversas cidades do país, como na Huíla e no Huambo. Nessas Brigadas, deparamo-nos com algumas características marcantes dos novos poetas assinaladas por Ana Mafalda Leite:

“As tendências de quase todos esses autores marcam-se pela procura de um rigor formal, aliado em maior ou menor grau a pesquisas temáticas, etno-antropológicas, lingüístico-regionais e ético-ideológicas. Oscilações entre a procura equilibrada de um nativismo universalizante, ou o encontro da casa própria aberta ao mundo. Procurando em simultâneo uma des(continuidade) com as gerações anteriores, verifica-se uma tentativa de balanço e compreensão da angolanidade na sua componente social e cultural, ao mesmo tempo que se tenta o desprendimento dos liames óbvios de sentido” (LEITE, 2006, p. 46).

É no campo da pesquisa lingüístico-regional que o livro “Sublimação de Aresta” de Fernando Kafukeno chama-nos a atenção. Leite recorre ao estudo de Salvato Trigo, “As literaturas africanas de expressão portuguesa – um fenômeno urbanístico”, para mencionar:

“a origem urbana dos textos das modernas literaturas africanas de língua portuguesa e o seu relativo isolamento da ruralidade. (...) A maioria dos escritores das literaturas africanas de língua portuguesa são assimilados, uma parte significativa de ascendência européia, quase todos de origem urbana, sem contacto directo com o campo, e não dominam, salvo raras excepções, as línguas africanas. Esse facto não é comum nos outros países africanos, onde a ligação com o ‘terroir’ se mantém desde a infância e os escritores geralmente são, pelo menos, bilíngües” (LEITE, 1998, p. 30).

Além do exposto acima, Leite considera o endurecimento da política salazarista, o desenvolvimento urbano, o início da guerra colonial nos anos 1960 e as guerras civis do pós-colonialismo “verifica-se que a relação das cidades com o mundo clânico e do interior, onde as tradições orais mais vivamente se mantêm, foi sendo cada vez mais perturbada e alterada” (LEITE, 1998, p. 31).

Com isso, inferimos o interesse dos escritores angolanos pelo falar dos musseques de Luanda. Dos representantes da angolanidade como António Cardoso ao jovem Ondjaki, passando pelo expoente máximo da subversão da língua portuguesa na literatura angolana, Luandino Vieira, constatamos que

“a oralidade é, à partida, uma relação em ‘segunda mão’, resultante, na maioria dos casos, não de uma experiência vivida, mas filtrada, apreendida, estudada. Mesmo a oralidade ‘mucéquica’, suburbana, para usar o termo de Salvato Trigo, é já parcialmente aculturada e híbrida, distante e diferente daquela que encontraríamos no campo” (LEITE, 1998, p. 31).

Os musseques reúnem pessoas de diversas regiões de Angola, de várias etnias, por isso convém utilizarmos o plural para “oralidade”, pois

“o plural serve-nos para significar o processo transformativo que a urbe provocou nas tradições rurais modelando-as e recriando-as. E usamo-lo ainda, para acrescentar outros elementos, provenientes de outras oralidades, de que a língua matriz é portadora na sua origem cultural. (...) O plural de ‘oralidades’ permite-nos (...) distinguir o modo de relacionamento dos escritores com a textualidade oral e com as línguas” (LEITE, 1998, p. 35).

A literatura angolana, assim como as demais literaturas africanas de língua portuguesa, apresenta uma especificidade em relação às outras literaturas africanas, pois, segundo Leite: “faz coexistir na maleabilidade da língua, o novo com o antigo, a escrita com a oralidade, numa harmonia híbrida, mais ou menos imparável, que os textos literários nos deixam fruir” (LEITE, 1998, p. 34).

Remetendo-nos ao que Roland Barthes afirmou em “Aula” a respeito do fascismo da língua, “pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (BARTHES, 1977, p. 15). Para resolver esse impasse, Barthes propõe que a língua seja trapaceada através da arte, pois somente esta conseguirá quebrar o fascismo da língua:

“Só nos resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. (...) porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto. As forças de liberdade não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, (...) mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua.” (BARTHES, 1977, p. 16-17)

Trapacear a língua, subverter a sintaxe da língua portuguesa, contaminá-la com elementos das línguas nacionais angolanas, ou como salientou Édouard Glissant: “a questão sobre a escrita e a oralidade gera, nos dias de hoje, uma situação de angústia vivificante para o poeta, o escritor” (GLISSANT, 2005, p. 48). O angolano Fernando Kafukeno enquadra-se nessa angústia vivificante de fazer poesia em seus livros, pois percorre um caminho inovador nas letras angolanas que “se efetiva pela condensação metafórica e pelas metamorfoses gráficas de sua linguagem poética, onde texto, som e desenho se acumpliciam, numa permanente busca de corporização plástica e sonora da palavra, do verso e da estrofe” (SECCO, 2003, p. 191).

Na primeira parte de poemas de “Sublimação de Aresta”, intitulada Akualuanda, que em quimbundo quer dizer algo como natural de Luanda, apreendemos o mergulho na oralidade dos musseques reelaborados com criatividade pelo poeta. Utilizando metáforas inusitadas e surreais, em poemas, em sua maioria concisos, contaminados pelos falares das pessoas simples, Kafukeno “exacerba o exercício do aproveitamento das potencialidades intrínsecas da língua, primando, entretanto, por uma economia capaz de debastar o verbo poético de excessos” (SECCO, 2003, p. 190).

arreiou!... arreiou!...

aproveita agora
questou maluca

arreiou no
meu espelho
é cinquenta

aproveita agora
que tem
muito sol

arreiou!... arreiou
é dez no sumo

aproveita agora
questá chover

arreiou!... arreiou!...
é cem o balde

arreiou!... arreiou!...

compra agora
que tenho fome (p. 25)

No poema acima, depreendemos a feroz crítica social ao estado de penúria em que se encontram os angolanos e a revolução mostrou-se incapaz de solucionar os problemas sociais. Uma vendedora desespera-se com sua condição, e o eu lírico revisita um tema trabalho pela geração da Mensagem, geração responsável por sedimentar o sentimento de angolanidade nas letras, como no poema “Quitandeira” de Agostinho Neto:

(...) A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

– Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

(...) Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
– Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
– sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

– Compra laranjas! (NETO, 1986, p. 31-33)

Por outro lado, apesar de todas as agruras passadas pelos angolanos, em “Sublimação da Aresta” há a valorização das quitandeiras como presença genuína de identidade, do orgulho com a paisagem local e com os frutos da terra:

quando fores
ao mercado s. paulo
compra maboque

fruta docinha
da nossa terra

e terás de oferta
o sorriso pitanga
das kitandeiras

quando fores
ao mercado s. paulo

compra sape-sape

fruta saborosa
da nossa terra

e terás de oferta
aroma gajaja das
kitandeiras (p. 23)

A oralidade também se faz presente em poemas acerca das lembranças das brincadeiras da tenra idade, época de espontaneidade e vigor do falar híbrido nos musseques, metonimizados nos jogos infantis, como a cassambula, e nos conflitos entre os ndengues (meninos). Conflitos que fazem alusão aos tenebrosos anos de guerra fratricida ainda intensos na memória do poeta em razão dos poucos anos do seu fim, em 2002:

cassumbula!

– tá!
o som da
bofa

e a xandula
do avilo

no bucho (p. 11)

vais ver só:
(o gesto da
língua na palma
da mão mostrada
em seguida
ao adversário)

desforra marcada
– ninguém acode!...
exalta de ânimo
: a assistência

e a peleja evolui
entre cafriques
bassulas e quedas
à pescador

e os ndengues berram:
bilóóó!... bilóóó!... bilóóó!... (p. 19)


– abeçaite! – abeçaite! – abeçaite!
– arevista ninguém marevista!

os haveres do revistado
transitam de dono

– fala acum!
– acum!
– bate café!

o afrontado bate na mão
adversária cheia de areia

a peleja fulmina

– abeçaite! – abeçaite! – abeçaite!
– arevista ninguém marevista! (p. 18)

Em uma linguagem espiralada rememorando a infância e refazendo seus diálogos, o eu lírico apresenta um acalanto às cruéis pelejas dos caóticos tempos de guerra. Refazer as tradições esgarçadas, recriar poeticamente a oralidade angolana massacrada por séculos de opressão é o belo e fecundo exercício que se dispõe a poética de Fernando Kafukeno. Segundo Laura Cavalcante Padilha,

a oralidade é (...) o alicerce sobre o qual se construiu o edifício da cultura nacional angolana nos moldes como hoje se identifica. Praticá-la foi mais que uma arte: foi um grito de resistência e uma forma de auto-preservação dos referenciais autóctones, frente à esmagadora força do colonialismo português. (PADILHA, 1995, p. 17)

A força da palavra oral é utilizada pelo eu lírico kafukeniano para denunciar o crescimento urbano de Luanda, que modifica a paisagem tradicional, conseqüentemente, dissipa as tradições, fragilizadas por tantos anos de amarga repressão:

samba kimongua era
musseque com beiço de mar (...)

em samba kimongua o comboio
já não apita está estático embelezado
virou restaurante

samba kimongua de dia navega em barcos
de noite acende as luzes do mar

em samba kimongua chilreiam pássaros
nos jardins com sabor a piscina e charuto (p. 24)

O poema “estória.estória” é um dos grandes momentos do uso da oralidade em “Sublimação de Aresta”. Neste poema, há o início das estrofes com os versos “vou-vos pôr a estória que me contaram no tempo em que Luanda tinha”, chamando a atenção do ouvinte para o ensinamento do passado que será transmitido, há também a repetição do estribilho “estória. estória”. Sendo assim, visualizamos a ruptura do passado dos musseques, sendo engolidos pela sanha da modernidade, expelindo os rituais religiosos, a vegetação local com a urbanização, a mudança de comportamento das crianças.

vou-vos pôr a estória que me
contaram no tempo em que Luanda
tinha jimbondo e a makua comia-se
pouca com medo do mbumbi

estória. estória

vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha mulembas

estória. estória

e nesse tempo Luanda era
cidade da baixa e do musseque
nos jimbondos e mulembas
que estavam nos musseques
fazia-se umbanda e uanga

estória. estória

vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha
cajueiros pitangueiras maboqueiros
gajajeiras romãzeiras figueiras e macieiras da índia
e os ndengues do musseque jogavam bola de meia
e tomavam banho nas cacimbas

estória. estória

e os prédios e as vivendas estavam pouco a pouco
a entrar na barriga do musseque

vou-vos pôr a estória... (p. 26-27)

ou seja, depreendemos as lembranças de um tempo do outrora que resiste na memória do griot a cumprir o seu papel de transmitir a cultura local, que é reconstruída e reintroduzida na vida angolana contemporânea poeticamente pelo eu lírico kafukeniano. Nele, inferimos o resgate pelo caminho das letras da tradicional narrativa oral na tentativa de perpetuar essa forma de comunicação, conforme denunciou Walter Benjamin ao dizer que uma das características perversas da modernidade era a perda da narrativa oral. Com isso, vemos singelas imagens do passado descritas pelo eu lírico, transfigurado em griot, que refaz a participação do público ouvinte, agora, leitor, valendo-se do estribilho. Essa relação entre o griot e seus ouvintes é esclarecida por Laura Padilha:

Na festa do prazer coletivo da narração oral, entre os grupos iletrados africanos, é pela voz do contador, do griot, que se põe a circular a carga simbólica da cultura autóctone, permitindo-se a sua manutenção e contribuindo-se para que esta mesma cultura possa resistir ao impacto daquela outra que lhe foi imposta pelo dominador branco-europeu e que tem na letra a sua mais forte aliada. A milenar arte da oralidade difunde as vozes ancestrais, procura manter a lei do grupo, fazendo-se por isso, um exercício de sabedoria.
O contador e seus ouvintes são seres em interação para quem o dito cria a necessária cumplicidade e reitera que é preciso ser, na força da diferença, preservando-se, com isso, o vasto manancial do saber autóctone. Do ponto de vista da produção cultural, a arte de contar é uma prática ritualística, um ato de iniciação ao universo da africanidade, e tal prática e ato são, sobretudo, um gesto de prazer pelo qual o mundo real dá lugar ao momento meramente possível que, feito voz, desengrena a realidade e desata a fantasia. (PADILHA, 1995, p. 15)

A valorização da cultural tradicional de Luanda expressa-se sinestesicamente com as referências aos hábitos alimentares da população dos musseques, que já aparecia no poema “mercado s. paulo”, mas é re-elaborada em outros poemas com imagens surreais a recordar os angolanos dos costumes esgarçados da terra, como apreendemos nos dois exemplos abaixo:

mufete

lambula assada ao lume
carvão vegetal com escama
guelra e tripas

suco de limão
sal e gindungo na
gula do paladar (p. 13)

kitaba

ginguba torrada
com areia musseque
descasca
se
e

pisa
se no
pilão com gindungo

a gosto (p. 14)

A descrição da dieta alimentar dos musseques é corriqueira na literatura angolana, outro expoente da “Mensagem”, António Cardoso, no conto “Contratado” do livro “Baixa & Musseques” relata:

“Entretanto, a mulher colocara na esteira dos pratos de barro, um, com peixe seco em molho de água, óleo de palma, jindungo e sal, noutro, a fubá de bombo cozida que estivera a remexer no final da conversa, com todo o carinho como se a operação fosse preciosa” (CARDOSO, 1985, p. 199).

Para encerrar a primeira parte, dois poemas retratam as brincadeiras com os papagaios dos tempos de criança. Reminiscências da tenra idade, alegoria dos projetos inacabados da revolução angolana, incapazes de acabar com o abismo social da nação no pós-colonialismo, cuja a imagem dos papagaios sendo levados pelo vento e a corrida (ndengue) infrutífera dos meninos representam:

meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum...

e os ndengues na berrida solidária
pelos becos do musseque olhando
o papagaio de papel que esvoaça

meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum...

e os ndengues regressam suados
só com a imagem do
papagaio de papel a esvoaçar

meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum... (p. 32)

Nos poemas da segunda parte, Malanje e canções II, o eu lírico kafukeniano invoca a força do elemento primordial da natureza, a água (que aparece em todo o livro), sendo representada pelos rios nacionais Malanje e Kinaxixi, e figuras mitológicas do mar como a Kianda, e históricas da resistência angolana como a Rainha Ginga e Ngola Kiluanje. De acordo com notas da edição do livro “Sagrada Esperança” de Agostinho Neto, aqui utilizado por nós, a primeira era uma “rainha corajosa e hábil que liderou a guerra de resistência contra o domínio português, durante mais de trinta anos” (NETO, 1986, p. 119), e viveu de 1581 a 1663. Enquanto Ngola Kiluanje foi “rei da região do Ndongo que em 1590 chefiou a primeira coligação, conduzindo o seu povo na luta de resistência ao colonialismo português até a sua morte em 1617” (NETO, 1986, p. 119).

Para celebrar o passado ancestral de resistência contra a colonização, três poemas são dedicados à Rainha Ginga e aqui citamos apenas um. O eu lírico inspira-se na força guerreira, na força do rio e no mito da Kianda para direcionar o presente na reconstrução nacional:

rainha

aí estás
de rosto severo

impondo o machado
e trajada de vestes

soberana

no kinaxixi
da nossa kianda

aí estás
de rosto severo

resplandecendo
força e poder aos
seres e aos astros (p. 40)

Em “malanje e guerra”, o universo onírico é convocado para libertar o eu lírico enunciador dos traumas da guerra, conduzindo-o de um tom crepuscular ao recomeço de um país que teve seus sonhos abortados:

a cidade tomava
a forma da noite

o sol caía no rio malanje
e incendiava o susto
da imaginação

o orvalho gotejava
fogo sobre cangandala

e as palancas negras
se abrigavam nas quedas
de monte condo

no xauande homens
decapitados e manietados

dos olhos da fuga
falavam com as imbambas

e sonhavam
o renascer da flora
e da fauna

no incêndio do sol
sobre o rio malanje (p. 35)

Na última parte do livro, “mar e aves”, os poemas são breves, compostos de metáforas insólitas e inusitadas. O uso corrente da sinestesia busca aguçar a sensibilidade esgarçada dos angolanos, valendo-se de um eu lírico surrealista que surpreende com imagens impactantes, desconexas e rápidas reapresentando a possibilidade de sonhar, como nos quatro poemas a seguir:

os mochos cantam
no tempo o som da puíta

os mochos no tempo
tocam o ngoma e vestem (p. 49)


surda a penumbra
habita o lago

da flora. a seca
surda colhe vales (p. 52)


máscara: olhos sem
riso e sem som

máscara: feitio de areia
nos lábios da fuga (p. 53)


eu oiço: as vozes
das janelas que não
falam: são janelas
de areia no vidro
do ar (p. 54)

As imagens insólitas, sombrias e fraturadas confundem os sentidos. A fragmentação do sonho angolano dilacerado pelos sangrentos conflitos é tratada crepuscularmente pelo eu lírico em “luar sem lobos”:

a insígnia
da noite

calça
me a tese
do mar

em retalhos (p. 57)

Através do poder da palavra, a tessitura melancólica dos versos marca a trajetória esgarçada do país. Travestido em desencanto, o poema “quadro 30”, alegoricamente, representa os trinta anos da independência angolana e o percurso da euforia até a distopia com os rumos desencontrados durante o pós-colonialismo, agora mergulhado na inescrupulosa ordem neoliberal:

saibam que a bonança
esburacou este quadro
a sua tela já foi de argamassa
agora é papelão qualquer
captando audiência quando
apresenta o filme em que a
pintura sai da tela e viaja para lua (p. 48)

Testemunha ocular do conturbado processo de reconstrução da nação angolana, Fernando Kafukeno alegoriza o desespero diante dos pesadelos atuais, motivado pelo dilaceramento das propostas do país independente:

de tijolo e cimento
nasceste dei-te água e funge

e nada sei da tua nova miséria
ou do que te tolhe a alma

morri antes da notícia
dos cães no vidro do sítio (p. 50)

A situação vivenciada por Angola nas últimas três décadas faz com que o eu lírico recorra ao surrealismo e explore metáforas insólitas com seres e elementos cósmicos para despertar a sensibilidade perdida, esfacelada por tantos anos de angústia, medo e opressão:

agora vivo impregnado
sob o diálogo dos veleiros
é tão assustador e eu nem
sequer sei quando há de
terminar porém vejo neste

diálogo balas cor de rosa a
povoarem o céu do meu encanto
o sol também fala aos peixes
acerca da impregnação dos
veleiros na brisa do dia

é terrível viver sob a impregnação
do diálogo dos veleiros porque a lua
foge do mar e se refugia na fenda a
estrela escurece e o arco-íris imola
seres humanos no sangue da chuva (p. 47)

No caos estabelecido em Angola, a tessitura poética de Kafukeno pretende reagrupar os fios partidos, reconstruir os escombros deixados pela guerra. Ao criar imagens inusitadas, o poeta denuncia os caminhos dolorosos aos quais os ideais da revolução foram preteridos pela sanha de dirigentes corruptos de um tempo em suspensão:

o relógio destrói
a ausência

e se
debruça sobre

a colina do ponteiro (p. 59)

Ciente da condição catastrófica angolana “impregnada sob o diálogo dos veleiros” (p. 47), os ventos da oralidade presentes na poesia de Kafukeno conduzem-nos às arestas entre as palavras e a voz ancestral, ao poder surpreendente das metáforas na insistente vontade de sonhar, para escancarar a opressão, a cruel política excludente e as desigualdades sociais às quais o povo angolano está submetido. A poesia de Fernando Kafukeno atenta-se às mazelas do seu tempo, desmascara a miséria, a hipocrisia, o descaso e incomoda a classe dominante do país.

A “Sublimação de Aresta” aponta as novas sendas da poesia angolana e consolida o nome de Fernando Kafukeno como um dos seus dignos representantes.

Ricardo Riso


BIBLIOGRAFIA:
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1977.

BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e Técnica, Arte e Política - Obras Escolhidas - Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1996.

CARDOSO, António. Baixa & Musseques. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985.

GLISSANT, Edouard. Introdução a uma poética da adversidade. Juiz de Fora: UFMG, 2005.

KAFUKENO, Fernando. Sublimação da Aresta. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. Colecção Guaches da Vida, nº 35. 1 ed.

KANDJIMBO, Luís. Breve Panorâmica das Recentes Tendências da Poesia Angolana. In: Austral, Revista de Bordo da TAAG, nº 22, 1997, p. 27. Apud: SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & Escrituras nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa: Colibri, 1998.

LEITE, Ana Mafalda. Poesia angolana: percursos (des)contínuos. In: Revista Poesia Sempre: Angola e Moçambique nº 23. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2006.

NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1986.

PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói: EDUFF, 1995.

SECCO, Carmen Lucia Tindó R. A haste e a ostra: uma poética da catástrofe e do sonho. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003. p. 188-197.

TRIGO, Salvato. As literaturas africanas de expressão portuguesa – um fenômeno urbanístico. In: Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso-Brasileira. Lisboa: Vega, S/D. p. 53-60. Apud: LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & Escrituras nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa: Colibri, 1998.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carmen Tindó: lançamento do livro A Magia das Letras Africanas

A Quartet Editora e a Livraria do Museu da República convidam para o lançamento de A Magia das Letras Africanas, de Carmen Lucia Tindó R. Secco, dia 15 de outubro (quarta-feira), das 17h às 21:30, na Livraria do Museu da República, Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro - RJ.


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

vou-vos pôr a estória que me contaram (Ricardo Riso)


vou-vos pôr a estória que me contaram (Ricardo Riso)
pastel s/papel. 59,4 x 42 cm. 08/2008



estória. estória

vou-vos pôr a estória que me
contaram no tempo em que Luanda
tinha jimbondo e a makua comia-se
pouca com medo do mbumbi

estória. estória

vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha mulembas

estória. estória

e nesse tempo Luanda era
cidade da baixa e do musseque
nos jimbondos e mulembas
que estavam nos musseques
fazia-se umbanda e uanga


estória. estória

vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha
cajueiros pitangueiras maboqueiros
gajajeiras romãzeiras figueiras e macieiras da índia
e os ndengues do musseque jogavam bola de meia
e tomavam banho nas cacimbas

estória. estória

e os prédios e as vivendas estavam pouco a pouco
a entrar na barriga do musseque

vou-vos pôr a estória...

Kafukeno, Fernando. Sublimação da Aresta. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 1ª ed. Colecção Guaches da Vida, nº 35. p. 26-27

domingo, 24 de agosto de 2008

Maria Celestina Fernandes: contra a grande desilusão da utopia, a poesia


À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente

(Agostinho Neto – Havemos de Voltar)

É essa ansiedade obstinada
De ver os meus irmãos
Renunciar a destruição generalizada
Que se propuseram edificar,
Dessa forma tão obstinada...
(Maria Celestina Fernandes – Angústia)


As duas epígrafes contrapondo anseios distintos da poesia angolana, demonstram que os poetas revelados a partir da década de 1980 tecem um profundo e tenso diálogo com as gerações anteriores, mais precisamente com os que sedimentaram a poesia de cariz nacional, ou seja, os pioneiros do sentimento de angolanidade representado na revista Mensagem, dentre os quais, podemos citar além de Agostinho Neto, Viriato da Cruz e António Jacinto. Da “geração das certezas” à “geração das incertezas”, ou como menciona Inocência Mata: da “espera esperançosa” à “espera desencantada” (MATA, 2006). Que fatores motivaram essas mudanças? O pequeno livro de poemas “O meu canto” (Luanda: UEA, 2004) de Maria Celestina Fernandes, pode ajudar-nos a refletir o desencanto presente na produção literária angolana atual.

Maria Celestina Fernandes é integrante da geração que cresceu durante a guerra colonial e atingiu a juventude na independência angolana, em 1975. Sua formação literária se deu com a leitura dos contundentes poemas em amor e exaltação ao país e à liberdade, sentimento que não pode ser compartilhado por ela e seus contemporâneos em razão da decepção causada pelos descaminhos da revolução. Luís Kandjimbo, poeta e crítico literário, alcunhou a produção de poesia angolana dos anos 1980 como a da “geração das incertezas”, posterior à “geração do silêncio”, surgida nos anos 1970, que revelou nomes como Arlindo Barbeitos e Ruy Duarte de Carvalho. Carmen Lucia Tindó Secco esclarece as renovações trazidas ao corpus literário angolano nas duas décadas supracitadas:

“voltada para a redescoberta ética e estética da palavra poética (...), tendo-se caracterizado pela consciência crítica em relação ao ato de escrever (...). O poema passou a ser, desse modo, o lugar de encontro do poeta consigo mesmo, o local, portanto, da descoberta existencial, política e literária. Nesse sentido, deu passagem à poética dos anos 1980, que radicalizou, em vários aspectos, as conquistas estéticas da década de 1970, diferenciando-se dela, contudo, por não adotar a práxis do silêncio.” (SECCO, 2006, p. 93-94)

Replanejar o país, repensar a poesia e valorizar a cidadania são algumas das atitudes assumidas pelos novos poetas no período pós-colonial que, segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

“Muitos dos poetas da poesia angolana das últimas décadas fazem de seus poemas lugares de novas memórias pelas quais buscam repensar o cotidiano da sociedade, refletindo sobre a persistência das tradições, a fragilidade das mudanças sociais e as novas formas de relações humanas existentes nos tempos atuais. Transformam, desse modo, suas composições poéticas em locais políticos, onde o amor, os sonhos e a amizade surgem como alternativas críticas para libertar o pensamento e os sentimentos de cada cidadão dos paradigmas partidários utópicos e fechados, característicos dos tempos regidos por um ethos revolucionário.” (SECCO, 2007, p. 160)

Diferente da geração que sentiu com maior intensidade o jugo colonial, notabilizada por “uma retórica que buscou partilhar memórias imaginariamente históricas e sociais e coletivizar angústias e aspirações (...), que intentava a construção de um corpo uno e coeso, dentro dos propósitos do nacionalismo” (MATA, 2006, p. 26), a poesia contemporânea recorre a temáticas do passado rebuscando os sonhos irrealizados da nação independente, com ampla diversidade estética. Entretanto,

“operando um processo canibalesco, no sentido da devoração como metáfora da assimilação crítica dos elementos da estética fundacional, com a condição de esses elementos retirados serem reelaborados em moldes do contexto histórico, sob a urgência das várias tensões fraturantes da sociedade angolana atual”. (MATA, 2006, p. 27)

Há semelhanças nas temáticas abordadas pela nova geração. Embora o discurso dos poetas do pós-colonialismo continue a versar o espaço geográfico angolano, este não reaparece como exaltação de suas belezas aliado ao nós coletivo, mas sim, em ruínas, ruínas da capital do país dilacerado pela guerra associada às ruínas da condição humana deste início de século:

Oh, Luanda! Bela capital
Desta Angola grandiosa, (...)

Que das águas do Atlântico emerge graciosa,
Impulsionada pela força mágica da Kianda matriarcal
De onde retira resistência assombrosa.

Desafortunadamente, sobre a natural beldade
Foram semeando em abundância o caos, cidade linda,
Emergindo, assim, pelos teus cantos e recantos, qual
cogumelos, fealdade...

mas com toda a dignidade
reergue-te bravamente, Luanda,
para que não sintas, nunca, vergonha de te mostrar em
plenitude... (p. 20)

Para resistir aos séculos de opressão colonial e às fraturas da guerra pós-colonial, o eu lírico revisita o passado mítico do povo angolano e convoca a força da Kianda, deusa do mar, para auxiliar na reconstrução nacional. Ao rememorar o passado, Inocência Mata afirma que para a atual geração “o redimensionamento crítico do discurso sobre a nação” é alimentado pelos sonhos irrealizados da revolução, “embora sempre ainda a partir das coordenadas do projeto nacional” mostra que o “‘país real’ já não permite a euforia do canto celebrativo” (MATA, 2006, p. 38).

Depreendemos que o poema de Fernades é um contraponto ao poema “Havemos de voltar” de Agostinho Neto. Enquanto neste, Angola, com suas belezas e riquezas: “Às nossas minas de diamantes (...)/ Aos nossos rios, nossos lagos/ às montanhas, às florestas” (NETO, 1986, p. 126), opõe-se à invasão do colonizador, Fernandes reatualiza a resistência contra o inimigo interno, os próprios angolanos, apoiados pelas potências da então Guerra Fria, e posteriormente pelo neoliberalismo.

Dor intensa é sentida pelo eu lírico com os terríveis acontecimentos consumados em tempos de exceção, da destruição exacerbada realizada pelos angolanos que destroem vidas indiscriminadamente:

Por entre os destroços
das carruagens do combóio em chamas,
ateadas por mãos fétidas,
a vida se acasalou com os horrores do inferno:
fogo, sangue, grito e lágrimas = morteeeeeeeeee...
No ar o odor irrespirável de carne abrasada
dos filhos da pátria traiçoeiramente trucidados.
desconseguimos chorar com olhos secos,
Poeta Maior...

No Zenza do Itombe
Massacre!

Vítimas de Zenza do Itombe: - Presentes!
Os irmãos angolanos jamais vos esquecerão... (p. 35)

Os ‘olhos secos’ evocados pelo eu lírico foram sugeridos pelo Poeta Maior Agostinho Neto, contudo, em um contexto em que a violência desmedida era aplicada pelo colonizador português. No poema “Criar”, Neto invoca os angolanos a resistir à opressão colonial:

Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar (...)
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas

criar
criar amor com os olhos secos (NETO, 1986, p. 81-82)


Destruído o país, assolado pela ganância desmedida de seus governantes e pela estupidez de um conflito fratricida, o eu lírico, em súplicas, questiona “Para onde remeteram teus sonhos/ do promissor futuro para todos?” (FERNANDES, p. 33). O desejo da terra livre, tantas vezes decantado nos versos dos contemporâneos de Neto, acompanhado por suas belezas geográficas, seus costumes e conclamando o povo angolano a se unir por uma causa libertária que traria a promessa de um novo tempo, foram substituídos pela tristeza e melancolia motivados pela perpetuação da miséria no pós-independência:

Em cada canto alguém suspirando
a cada passo um mendigo
a cada instante alguém agonizando
em cada encruzilhada um assalto
em cada boca um lamento
no seio do povo
lamento uníssono... (p. 31)

Os flagelos da violência desmedida por anos de horror fixam marcas indeléveis na população indefesa, deixando as pessoas desnorteadas, em estado de torpor:

Caminhantes que vão e vêm
e vêm por caminhos tortuosos,
caminhantes que sobem
e descem por infindáveis degraus nebulosos,
sem mesmo saberem o que buscam,
em seus ombros trouxas pesadas que nada carregam,
sua fala é o silêncio,
no olhar só desesperança. (p. 30)

Do sonho libertário de uma nova nação para o pesadelo há tempos enraizado entre os angolanos dilacerando as esperanças, é denunciado pelo eu lírico: “Inviável se torna o sonho, por demais adiado,/ de um melhor amanhã...” (p. 29). Nem as metáforas relacionadas ao elemento primordial ar conseguem suprimir o desespero atingido pela situação angolana. Não há espaço para a paz e o vôo livre do verso não consegue ser alçado diante da ferocidade que devasta o país. Com isso, o desencanto predomina nos poemas, como depreendemos nos dois exemplos a seguir:

POMBA
Era uma pomba imaculada
quando chegou ao meu pombal;
Uma pomba vitalizada,
portadora de mensagens de fé/paz

partiu, voou pelos lugarejos mais próximos,
arribou em paragens bem mais distantes
deste desafortunado país;

era uma pomba vermelha de sangue
quando regressou ao meu pombal;
Uma pomba desvitalizada,
mensageira de terror/medo. (p. 34)

AQUELE ROUXINOL
Aquele rouxinol
morava na gaiola
do meu peito,
eu sentia suas canções
ora tristes, ora alegres
pelo pulsar do coração;

mas o pulsar do coração
deixou de anunciar
os cantares de rouxinol,
alarmei-me: - esperei, esperei e nada mais senti

Desesperada bati fortemente em meu peito
e suas entranhas libertaram aquele rouxinol;
arribou em plena palma da minha mão
quedo e mudo,
- sem vida

sem vida também
ficou para sempre o pulsar
do meu coração. (p. 42)

A desesperança pela longa duração da guerra entre os angolanos exige que o eu lírico procure uma difícil e necessária reconciliação entre os povos, árdua tarefa diante dos excessos cometidos e das máculas nas mentes daqueles que viveram as bestialidades do conflito. Recorre-se aos tempos do outrora para celebrar a união ao redor da fogueira, local de confraternização e aprendizado com as histórias contadas pelos mais velhos e, assim, reparar as nódoas entre etnias para iniciar a restauração do país:

Irmão!
Não importa de que lado estás
ou mesmo o que pensas,
vamos todos colher lenha
para acender a fogueira da paz...
entrelacemos vigorosamente nossas mãos
de modo que ninguém possa apartá-las
e, à volta da fogueira,
rodando e cantando, cantando e rodando,
como em tempos de meninice,
façamos uma corrente de fé,
para despojar de nossos corações
os muitos rancores há muito enraizados (p. 32)

Apesar da chegada da paz com o fim da guerra encerrada recentemente, a insegurança permanece no ar, impera uma atmosfera de desconfiança entre os cidadãos com décadas de conflitos e acordos que não foram cumpridos. A paz precisará de tempo para que as pessoas possam retomar o ritmo normal de suas vidas, ou como esclarece Carmen Lucia Tindó Secco: “os poetas começam a perceber que a paz é recente e é urgente ocupar os lugares de cinza deixados pelos longos anos de guerra” (SECCO, 2007, p. 169). Todavia, o eu lírico ainda incerto e desconfiado com a serenidade presente, e calejado por anos de turbulência e intolerância, alerta:

És feliz agora?
Então goza intensamente cada segundo
Disto que pensas ser a tua felicidade,
Pois pode ser momento efémero e singular (...) (p. 17)

Revitalizar os relacionamentos com os seus afetos, é o caminho traçado pelo eu lírico para dissipar a insensibilidade causada pelos infortúnios vivenciados. Por isso, celebra as mulheres: “a fonte geradora da vida” (p. 38); a família: “Tenho duas lindas pérolas (...)/ Tão raras são as minhas pérolas/ Que, para seguramente as proteger,/ em meu coração as encofrei” (p. 37), a mãe não mais presente: “Sonho/ Sonhos tão doces, mãe!” (p. 43); e roga o retorno à paz do passado em um esforço criativo de refazer os tempos felizes e tranqüilos do outrora:

Fica comigo, amigo,
Vamos recordar o passado
Porque vale sempre a pena rememorar
O que se viveu, para avaliar o que se vive. (...)

Repousaremos despreocupadamente como nos velhos tempos
Da nossa ingénua /feliz adolescência.

Fica comigo, amigo! (p. 43)

Lançado em 2004, vinte e nove anos após a independência angolana e somente dois anos depois da duradoura guerra civil, ainda sob seus ruidosos e sangrentos ecos, podemos explorar a multiplicidade interpretativa do título do livro de Maria Celestina Fernandes. Os poemas reunidos em “O meu canto” questionam-nos a respeito da polissemia da palavra ‘canto’. Qual canto o eu lírico versa? Será o canto do espaço físico, o canto de uma casa? O canto geométrico? O canto de um pugilista que faz das palavras suas armas de combate? O canto oprimido do poema, confinado às margens do livro? Ou é um canto polifônico de pranto, de dor, de esperança?

O pequeno livro de Maria Celestina Fernandes inicia-se e encerra-se com poemas que valorizam o Amor. Amor aos seus conterrâneos, amor ao seu país tão sofrido por tantas opressões e fraturas ao longo dos séculos. Amor à história literária angolana, amor ao desejo de paz e união entre os homens para finalmente concretizar o projeto de reconstrução da nação angolana.

‘O meu canto’ é um canto de resistência, é um canto de amor à poesia, aos homens, à paz.

O meu canto é acordar
todos os dias
e ter a certeza de continuar a sonhar (...)

O meu canto é acordar
todos os dias
e ter a certeza que vale a pena continuar a amar. (p.13-14)

Quando eu morrer (...)

Honrem tão somente a minha memória
Perdoando o mal que alguma vez causei,
Preservando tudo o que de bom pude transmitir
- Sobretudo, nunca se cansem de Amar! (p. 48)


Ricardo Riso


BIBLIOGRAFIA:
FERNANDES, Maria Celestina. O meu canto. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.

MATA, Inocência. Sob o signo de uma nostalgia projetiva: a poesia angolana nacionalista e a poesia pós-colonial. In: Belo Horizonte: Scripta, v. 10, n. 19, p. 25-42, 2º sem. 2006.

NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1986.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana de hoje). In: CHAVES, Rita; MACEDO, Tânia (ORG). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

SECCO, Carmen L. T. R. A poesia angolana atual e a procura por outras formas de politização. In: CHAVES, Rita; MACEDO, Tânia et alli. (orgs). A kinda e a missanga: encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda: Nzila, 2007.