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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha


Timóteo Tio Tiofe – O Primeiro Livro de Notcha

Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 180, de 10 de fevereiro de 2011, p. 27.
João Manuel Varela é um caso paradigmático na história da literatura de Cabo Verde ao afastar-se da cabo-verdianidade e do telurismo de raiz claridosa, com predomínio da obra de Jorge Barbosa, ainda fortemente influenciando seus pares nova-largadistas e demais nomes que despontaram na virada dos anos 1950/1960.
Varela fragmentou sua obra poética em heterônimos, sendo os poemas atribuídos a João Vário, os “Exemplos”, motivo de negação no meio literário de seu país, “obra por todos nós discriminada” no dizer de Manuel Ferreira em “Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa” (FERREIRA, 1987, p. 63), mas que ainda sofre com a “ostracização literária” como assinala José Luis Hopffer Almada em recente artigo, “Que caminhos para a poesia cabo-verdiana – parte II”. Ostracização estimulada naquele tempo por não acompanhar a temática de luta anticolonial, por privilegiar indagações ontológicas e metafísicas, e por fazer uso do longo poema narrativo com forte ressonância épica, para além das diferentes referências que vão da Bíblia aos clássicos da literatura ocidental.
Por outro lado, paralela à obra de João Vário, Varela cria um outro heterônimo, Timóteo Tio Tiofe, com um discurso cabo-verdiano e que rompe com a influência de Jorge Barbosa e cria “O Primeiro Livro de Notcha”, “um poema de que as minhas ilhas precisam e, em certo sentido, talvez, o poema que a minha geração aguarda ou aguardava de mim” (TIOFE, 2000, p. 13). Fragmentos desse poema vinham sendo publicados desde os anos 1960 até serem refundidos em “O Primeiro e o Segundo Livros de Notcha”, sob a chancela da Edições Pequena Tiragem, em 2000.
“O Primeiro Livro de Notcha” é dividido em três partes, subdivididas em “discursos”. Neles, o poeta retoma características da obra de Vário como a intertextualidade com a Bíblia e aos cânones ocidentais, porém insere o homem cabo-vediano na plenitude de seus anseios, receios, cotidiano, mitos, revoltas, língua materna, rememoração de populares, heróis nacionais e africanos, assim como o farto uso de elementos e expressões da geografia, da história, da botânica do arquipélago.
O narrador insere-se como africano, pois, para ele, “o nosso destino, o destino político do arquipélago, é inconcebível fora do contexto africano” (p. 13). Afinal, é “um homem deste século,/ um homem de África, (...) falando da África deste tempo e de seu povo” (p. 21). Tempo de emigração forçada para o contrato: “Vou dar nome para Angola ou São Tomé. Sabes se ainda recebem contratos para este mês, Cunha?” (p. 34). A respeito da emigração para S. Tomé, Tiofe, na “Primeira Epístola ao meu irmão Antonio”, aponta para a nova realidade submetida ao cabo-verdiano que se depara com “a humilhação, (...) a falta de recursos da terra. (...) é a partida como solução desesperada” (p. 133). Revolta expressa ao relatar a quantidade absurda de mortos nas letras frias das estatísticas pela seca e fome ao longo dos séculos, estimulando o apoio aos revolucionários: “quem não pensa, neste tempo de Sekou Touré, de BenBela, de Guevara, em pegar em armas?” (p. 97).
Esse sofrimento da África sempre foi “ignorado” pela instituição que apoiou a dor dessa população: “Algum tempo mais tarde, o papa Paulo VI recebia em audiência Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Soube-se, então, no Vaticano, que lutar pela independência é também uma maneira de merecer o reino dos céus” (p. 115). Aliás, a única solução para as ex-colônias de Portugal diante da intransigência deste em negociar as independências e indaga: “Ó homens da Europa, homens/ que vos embriagais de orgulho e simonia/ por que não haverá neste mundo/ outra certeza além da vossa?” (p. 119).
É incontestável a depuração da linguagem, o exaustivo e criativo labor com a palavra poética de João Manuel Varela proporcionando plena satisfação para quem ler este livro atribuído a T. T. Tiofe.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Mito Elias - TEMPO DE BICHOS - PRIVATE Z(oo)M

TEMPO DE BICHOS - PRIVATE Z(oo)M

Celebrando as 70 vidas do poeta Arménio Vieira

29 de Janeiro 2011 - 18:30 - Livraria CE BUCHHOLZ - Rua Duque de Palmela, 4 - Lisboa

Mais uma performance do TRIO MAJINA
desta vez sobre os BICHOS na poesia de Conde de Silvenius.

Mito Elias - Poesia, vídeos e sonorizações.
Elmano Caleiro - Contrabaixo e Baixo eléctrico.
José Brazão - Percurssão.
José Cunha - MC & orador residente.

TEMPO DE BICHOS – Projecto MAJINA

O POETA
Que bichos são estes, senão nós mesmos. Sempre o homem, na sua condição mortal e precária, com as suas grandezas e misérias, no centro da obra de Arménio Vieira. Mesmo quando convoca os Bichos do seu animalário, ou sobretudo quando os convoca, para se tornarem no espelho de todas as nossas perplexidades, onde buscamos as impossíveis respostas para este improvável destino de bicho-gente que somos. Para o poeta de Mitografias, à força de querermos ser diferentes transformamo-nos em burros, sem que isso nos dê a dignidade que ser burro, jerico ou asno implica. De tão distraídos, e sonolentos, tornamo-nos “animais de capoeira”. Não galinhas, porque como nos lembra o poeta “as coisas

são o que são”. Fazem de nós galináceos adormecidos e anestesiados. Podemos também ser frustrados e vingativos tubarões, ou tigres sanguinários e sem nobreza. Há uma nobreza de bicho que em nós se transformou em mera animalidade, e que fomos perdendo como em HOMENS-CÃES (E VICE VERSA). Mas desenganem-se. Os homens não são bichos. São meros bichos e animais como os bichos e os animais nunca ousam ser. Sim, porque afinal “as coisas são o que são”, e “mais não digo”, diz o poeta, na forma irónica de quase tudo dizer no que diz não dizer. Irónico, mordaz, corrosivo, com um refinado sentido de humor, são estes alguns dos instrumentos de precisão com que Arménio Vieira nos sonda a alma e põe a nu o sentido da existência. Herdeiro de uma tradição literária maior, Homero, Dante, Shakespear, Camões, Melo Neto ou Sena, é toda uma tradição cultural e literária na qual ele se insere e se assume, “li-os todos” (Arménio dixit), que está no centro da sua obra e nela se prolonga sem angústias.

O PROJECTO
Que nome dar a este espaço de exaltação estética, em que somos convocados para a celebração da palavra, numa ritualização mágica e interactiva, que nos franqueia os domínios do sagrado pela porta profana do fascínio, do prazer e da fruição plásticas?

Domina nestas performances o aparato da sua encenação, e não estamos distantes dos rituais da sagração. Mas sem obediência a um qualquer cânone, que não seja o do improviso, da experimentação, da irrupção do novo. Não faltam também, como nos domínios do sagrado, as técnicas, os instrumentos, os objectos, e até a figura do celebrante, embora aqui estejam estiolados, implodidos na sua missão de ordenamento, regulação e controlo, que dão lugar a uma prática da desobediência, da iconoclastia, de inesperado e até de insólito. É uma atmosfera mais mágica que mística, um território mais estético que religioso mas onde não estão totalmente ausentes o espiritual e o sagrado. Os caminhos é que são outros, diversos, inusuais. Enquanto espaço de ritualização ele obedece a um processo de constante reinvenção, recriação. É a isto que chamamos PERFORMANCE POÉTICA, ou POÉTICA PERFORMATIVA, ou ainda ORAL ACTION (à maneira da Action Painting), território complexo e pluridisciplinar de hibridização pós-moderno, onde as linguagens se fundem num processo fecundo de crioulização e mestiçagem.

O AUTOR
Os trabalhos de Mito obrigam-nos constantemente a um olhar outro sobre a realidade. Um pouco à semelhança de uma certa poesia de Arménio Vieira, aqui celebrada, é um exercício de atenção contra a desatenção a que estamos sujeitos (ver poema ISTO É QUE FAZEM DE NÓS). A procura constante de processos de contaminação, de técnicas e de linguagens, sublinha o carácter experimental de um trajecto ímpar no panorama da arte caboverdiana.

José Cunha

http://www.youtube.com/watch?v=rEUDKQ5Rzqk

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Germano Almeida – Estórias Contadas


Germano Almeida – Estórias Contadas
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 178, de 27 de janeiro de 2011, p. 29.

Detentor de uma consolidada obra em prosa, reconhecido e aclamado nos países de língua portuguesa e no seu país, Cabo Verde, Germano Almeida, natural da ilha de Boavista, possui como principal característica o irreverente humor nos seus textos literários, dentre tantos, destacamos “O testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo” (1989, adaptado para o cinema), “O meu poeta” (1990), “A família Trago” (1998), “O mar na Lajinha” (2004) e as crônicas reunidas em “Estórias Contadas” (1998), objeto desta resenha.

Trata-se da reunião de cinquenta e cinco crônicas publicadas em jornal, possibilitando ao escritor a oportunidade de ampliar seu público leitor e expor sua ideias. Esse gênero caracteriza-se pela apreensão do cotidiano e encontra na verve irônica de Almeida um agradável espaço para relatar fatos comuns e memórias da infância, versar sobre a poesia do cotidiano, o que aproxima a narrativa da sua crônica ao conto curto como acontece na hilariante disputa do narrador com a sogra em “A minha cadeira”: “E assim ficamos com um único pomo de discórdia: a minha cadeira. Ela chega e é como se durante anos tivesse estado a sonhar-se nela enroscada, porque dirige-se directamente a ela e instala-se com um suspiro de proprietária saudosa, nunca se comovendo a partir desse momento com nenhum dos meus ares infelizes” (p. 89).

Rememorar as abruptas mudanças de seu tempo, a conscientização da crueldade imposta pelo colonialismo, refletir a identidade cabo-verdiana são alguns temas abordados em “Uma forma de identidade africana”. Nessa, o narrador recorda os seus estudos orientados para que se mantenha subserviente e exalte a ex-colônia, noções configuradas nos slogans “mais fácil é obedecer que mandar” e “Aqui é Portugal”. Perante essas passagens, deve-se recuperar o que Roland Barthes, em “Aula”, assinalou como o fascismo da língua, “pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”. A seguir, o narrador comenta a disseminação da ideia de “pertença africana” nos “anos 60-70, com a agitada revelação de que Cabo Verde também era África” (p. 15), “um grande sentimento de esvaziamento” causado pela contestação do que distinguia o ilhéu de outros povos. Contudo, o narrador expõe alternativas que demonstram a condição especial de Cabo Verde ao recorrer ao famoso poema de Ovídio Martins, “Flagelados do Vento Leste”, e na afirmação de Baltasar Lopes da Silva, na qual “não éramos nem africanos nem europeus”; conclui o narrador “que criar essa terceira possibilidade é bem do cabo-verdiano (...) E tivemos que aprender que há tantas identidades culturais quantos os povos africanos, e bem perfeitamente que poderíamos pertencer à África desde que levássemos uma etiqueta a assinalar-nos como senhores de uma identidade que nos particulariza como cabo-verdianos” (p. 17).

A condição de marginalidade imposta pela sociedade contemporânea ao escritor enquanto intelectual é bem aproveitada por Germano Almeida nas crônicas. Edward Said, em “Representações do Intelectual”, salienta que o “intelectual no exílio é necessariamente irônico, cético e até mesmo engraçado, mas não cínico”. Em “A saúde de todos no ano 2000”, Almeida revela o seu descrédito frente às propagandas políticas: “Saúde para todos no ano 2000”; “Educação para todos no ano 2000”; e complementa que “de imediato não quisemos acreditar em tal maravilha, sobretudo porque tinha duas características que logo nos fizeram desconfiar da sua seriedade: era de graça e era para todos” (p. 33).

Germano Almeida relata em “Estórias Contadas” passagens do passado colonial na sua infância, situações pitorescas imediatas ao pós-independência e casos recentes da década de 1990. De impostores a presidiários, do apreço ao vinho ao amor ao futebol, essas agradáveis crônicas exaltam o país, o ilhéu e sua cultura: “assim é o cabo-verdiano: orgulhoso da terra onde vive, sofre e labuta contra a permanente estiagem, os olhos no estrangeiro, o coração nas ilhas” (p. 12).

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

José Luis Hopffer Almada: o poeta-intelectual e o tempo em que vive


O poeta-intelectual e o tempo em que vive

por Ricardo Riso
Resenha publicada na seção Artes & Cultura do semanário cabo-verdiano A Nação, nº 176, de 13 a 19/01/2011, p. 29
O dilaceramento da sociedade mascarado pela ordem neoliberal vigente transforma o cotidiano em um simulacro cínico e hipócrita de bem-estar, anula o senso crítico e anestesia os sentidos das pessoas, tornando-as inertes frente às contradições da pós-modernidade. Caberia aos poetas, enquanto intelectuais e perscrutadores do seu tempo, manifestar o descontentamento diante da aparente inevitabilidade de mudança, de desolação pelo passado e de melancolia pelo futuro que se anuncia? A leitura de “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade” (Praia: Spleen Edições, 2009), de José Luis Hopffer Almada, auxilia-nos a tecer breves considerações acerca do papel do poeta-intelectual e o tempo em que vive.

“Em defesa dos intelectuais”, Jean-Paul Sartre afirma que “o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta”, estimulando a sociedade burguesa a afastá-lo, pois suas observações são incômodas e provocativas, tornando-se conveniente desacreditá-lo e legá-lo ao ostracismo. Edward Said no capítulo “Exílio intelectual: expatriados e marginais”, do livro “Representações do Intelectual”, segue as ideias propostas por Sartre e mostra que os intelectuais são conduzidos a conviver à margem da sociedade, pois o exílio “é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros”, por que se afastando “das autoridades centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver coisas que normalmente estão perdidas em mentes que nunca viajaram para além do convencional e do confortável”.

Sendo assim, consideramos que o nome literário Erasmo Cabral de Almada, a faceta corrosiva e voraz de Hopffer Almada, apresenta-se como aquele que importuna a ordem estabelecida e ciente de sua condição: “Eis-me/ entre os papéis/ e estes me dizem:/ é arriscado/ ser-se indagador”. Há o descrédito com o futuro na imagem da criança no lixo, contrapondo-se aos ideais cabralinos de que “as crianças são as flores da revolução/ a razão principal da nossa luta”, tratado de forma crepuscular diante da perpetuação da miséria: “Em aziaga aparência/ debruça-se uma criança/ sobre o contentor de lixo/ e no seu fundo/ surge-lhe/ como o impacto da revelação/ (...) o longo precipício do destino/ o irresistível declínio dos dias...”.

Os poemas atribuídos a Erasmo Cabral de Almada caracterizam-se por um atento olhar das metamorfoses sofridas no Cabo Verde independente. Por isso, temos o desencanto diante das incongruências da política – “com os meus antigos ideais/ perdidos” – expressado por “txibita” (arquétipo do ilhéu): “txibita deixou/ de respirar as palavras dos outros/ (...) por isso/ txibita (...)/ é apátrida/ na sua pátria c.v.”. A indignação do poeta-intelectual com o ocaso dos ideais revolucionários desintegrados com o passar dos anos, demonstra-se no desalento de quem foi partícipe daquele momento histórico: “Também eu/ polícias, vigiei/ vertical/ entre as implacáveis palavras de um ideal/ as verdes folhas de uma promessa/ as reconfortantes falácias de uma utopia/ temendo que/(...) depois somente restassem/ trucidadas sombras da história/ soçobradas recordações do destino”.

Um olhar cáustico e impiedoso sobre a sociedade cabo-verdiana é apresentado em “Cidade VI”, porém um olhar consternado frente às mudanças dilaceradoras da Praia. Novamente, os dirigentes políticos o alvo dileto dos “sobreviventes da cidade” que “cogitam demoradamente na obstinação desses antigos combatentes do mato agora reciclados como sagazes salvadores da pátria”.

Contra a hipocrisia do século XXI, inferimos que o discurso à margem proposto pelo poeta José Luis Hopffer Almada contribui para revelar verdades incômodas à ordem estabelecida em seu país, fazendo da poesia espaço de consciência crítica. Por mais dilacerada que esteja essa consciência, em seu exílio ela sobrevive “de novo/ com os meus ideais”, ainda que desacreditados do PAIGC, porém iluminados pela estrela negra desse intelectual “caçador de estrelas”.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tchalé Figueira - Água Cristalina (blog literário)

Tchalé Figueira, o artista plástica e escritor cabo-verdiano, inicia o ano de 2011 com um novo blog, este dedicado à literatura: o Água Cristalina. O antecessor, Arco da Velha, continua firme na divulgação das obras e do pensamento político do artista.

Abraços,
Ricardo Riso

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pedro Cardoso... a manduco!

Pedro Cardoso... a manduco!
Por Ricardo Riso

Ao Prof. Manuel Brito-Semedo, com elevada estima.

Há uma faceta de extremo interesse e pouco conhecida do poeta pré-claridoso Pedro Monteiro Cardoso (13/09/1883 - 29/10/1942), reveladora de um importante momento das ilhas em razão das profundas mudanças em Portugal com o germinal sistema republicano. Trata-se da atuação de Pedro Cardoso como cronista de jornais. Com o pseudônimo AFRO colaborou em vários jornais cabo-verdianos e portugueses, dentre outros, “O Manduco”, do qual foi fundador, e foi autor da célebre coluna “A Manduco...”, espaço de polêmicas e de um olhar atento aos problemas sociais e políticos do cotidiano da então colônia cabo-verdiana.

As crônicas de “A Manduco...” foram recolhidas e organizadas por Manuel Brito-Semedo e Joaquim Morais em cuidadosa edição do IBNL, sob o título “PEDRO CARDOSO – Textos Jornalísticos e Literários (Parte I)”, no ano de 2008. O livro tem prefácio de Isabel Lima Lobo, é separado por duas seções: a primeira com duas conferências de Cardoso – uma em defesa da língua cabo-verdiana, a outra no Dia de Camões, exaltando o épico, Portugal e a língua portuguesa; a segunda seção conta com 33 crônicas publicadas de 1911 a 1914 no jornal A Voz de Cabo Verde, para além de fundamental ficha com a origem dos textos.

As crônicas de “A Manduco...” impressionam pelo tom incisivo, de marcante e ruidosa intervenção político-social em defesa incontestável dos ilhéus e das ilhas, assim como apresentam e valorizam a atuação pungente dos intelectuais cabo-verdianos durante os primeiros anos da república portuguesa. Em sua estreia, AFRO já demonstra o caráter de sua seção: “(...) ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.

Célebre na poesia de Cardoso a exaltação da pátria lusitana e da mátria terra crioula, porém o autor para reivindicar igual tratamento ao ilhéu recorre à Constituição para combater o racismo: “Artigo 1º - O território de Portugal compreende na África Ocidental o Arquipélago de Cabo Verde; (...) art. 5º - o Estado Português é uma República Unitária baseada na igualdade dos cidadãos perante a Lei. Logo, eu nasci dentro do território português, sou membro constituinte da Nação e igual perante a Lei aos demais cidadãos.”

O problema da educação dos ilhéus é escancarado com indignação, principalmente na quase completa exclusão das mulheres nas escolas por “existir muito maior número de crianças do sexo feminino e não haver para elas escolas, não em proporção às alunas, mas nem mesmo em número aproximado das destinadas ao sexo masculino. A desproporcionalidade é flagrante e provém do exclusivismo de outros tempos”.

Preocupações sociais várias são manifestadas e denunciadas pelo autor, preocupações em sua maioria contemporâneas ao nosso tempo: “O uso e o abuso do álcool e do tabaco, a tuberculose por esse abuso favorecida, as estiagens e o analfabetismo são males que estão afectando intensa e extensamente a província. Urge combatê-las sem descanso (...)”.

A instabilidade política da Europa, a ascensão da belicista Alemanha e seu interesse nas colônias portuguesas em África é tema de “quem nasceu em África mas é português não só pela bandeira como pelo sentimento e sangue”: “(...) Não posso conformar-me à horrorosa ideia de que serei obrigado a não falar, a não cultivar esta formosíssima língua toda feita de harmonia e doçura, em que balbuciei as minhas primeiras canções destronada, substituída por aquela em que escreveu Goeth”.

Pan-africanista convicto, defensor dos negros, demonstra seu apreço ao dedicar crônicas ao brasileiro Luis Gama e ao libertador do Haiti, Toussaint Loverture. Também comunista ferrenho, sobretudo humanista, o nativista Pedro Cardoso revela nas crônicas de AFRO as tensões que nortearam o seu tempo. Jamais omisso, determinado na defesa de suas posições, a pena corrosiva de AFRO apresenta o grande homem e poeta: Pedro Cardoso.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraão Vicente lança "O Trampolim" na Cidade da Praia


O artista plástico, cronista e agora escritor Abraão Vicente lança a sua primeira aventura literária intitulada  “O Trampolim” na livraria Nhô Eugénio, Cidade da Praia, Ilha de Santiago/Cabo Verde, no dia 2 de Dezembro, a partir das 18h30. O autor informa que a apresentação terá a participação especial do músico e compositor Princezito que fará uma leitura dramatizado de um texto, para além de leituras encenadas de alguns diálogos do livro pelos actores Dulce Sequeira, José Pedro Bettencourt, Paulo Silva e Raquel Monteiro.


Sobre o Livro:

“O Trampolim” é um livro feito de estória que não chegam a ser contos, muito menos um romance. Estórias que são antes conversas de um miúdo de várias idades: 5,6,7 ou 8, se calhar até 9 anos. Conversas de um miúdo, que se chama Zé, com o seu amigo imaginário (ou se calhar seu alter ego) também de nome Zé. Por se repetir demasiadas vezes o nome Zé fica-se sem saber quem é a personagem real e quem é a fictícia. Falam da infância e de coisas sérias: Deus, amor, tecnologia, morte, emigração, racismo, dominação, arte. Coisas sérias faladas a brincar. Usam a linguagem da rua, o português mal falado, uma tradução quase literal do crioulo para o português. O livro está escrito em português mas também poderia ter sido em crioulo pela cadência, pelo ritmo e pelo imaginário. Um vocabulário muitas vezes inventado, recriado, enrolado, se calhar um livro para se ler em voz alta.

Como é que dois miúdos, ou se calhar apenas um, sabem tanto do mundo e dos seus mistérios? Não se sabe bem. Mas também não é se para entender. Linha da estória? Se houver uma, é a estória do miúdo que quer aprender a voar e pede ao amigo imaginário (ou será o contrário?) para lhe construir um trampolim. Enquanto esperam que o Trampolim seja construído os dois vão tecendo lembranças.

Este livro foi escrito em 2003 na Assomada. É lançado sob a chancela da editora Kankan Stúdio que, tal como as personagens deste livro, também ela é imaginária.
 
Fonte: e-mail de divulgação para a imprensa enviado pelo autor em 29 de novembro de 2010.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz

Tchalé Figueira – O Azul e a Luz
Por Ricardo Riso
Consagrado como um dos principais nomes das artes plásticas de Cabo Verde, Tchalé Figueira desde o início dos anos 1990 apresenta a sua verve como escritor, passeando pela poesia, novelas e contos. De sua lavra são “Todos os naufrágios do mundo”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação”, “Solitário”, “Contos de Basileia” (este ainda no prelo) e participações em antologias como “Tchuba na desert” para além de publicações em jornais e revistas das ilhas.

“O Azul e a Luz” foi o seu mais recente livro de poesia, publicado em 2002 pelo Instituto da Biblioteca Nacional, composto por trinta e um poemas, oito desenhos do próprio Figueira e prefácio de Isabel Lobo. Nesse livro deparamo-nos com um sujeito lírico angustiado, melancólico, amargurado com o meio e o tempo em que vive, que busca a força da palavra poética, por isso suplica “é urgente a luz...”.

Sim, a luz para o fim da insensibilidade entre os homens, o término das injustiças perpetuadoras do caos e da dor presentes na contemporaneidade, estimuladas por políticos inescrupulosos a determinar o trágico destino de milhões de vida: “Vivo num Planeta azul de fogo/ Onde a hiena e o chacal se beijam/ Esmagando corações e flores”. Sendo assim, “Com fervor, peço à criação/ Que um dia os generais do Mundo/ Acordem-se poetas e os banqueiros/ Da Wall Street Cristos na multiplicação/ Dos peixes”.

O sujeito lírico é ciente da hipocrisia predominante e da bestialização da condição humana, por isso em “Epitáfio a um poeta”: “Sonhou toda a vida acalentando a morte/ Para melhor viver num mundo de mentiras”, conduzindo-o a rememorar nossa ancestralidade e perguntar-se(nos): “Qual foi o erro na evolução de LUCY/ Nestes milhões de anos?...”, da crueldade de um mundo tomado pelo desenvolvimento da tecnologia que não diminui as desigualdades, mas que proporciona o aumento do terror, ceifando vidas na “era cibernética/ Que faz máquinas que não amam/ E impiedosamente matam”.

Contrapondo-se a isso, o sujeito lírico transfigurado em australopiteco trará o novo homem, persistente em seu clamor, deflagrador da mudança para um novo tempo: “Eu sou um australopiteco da era cibernética/ E vivo num planeta triste em sangue// Também sou um australopiteco poeta da era cibernética/ E grito todos os dias a palavra LIBERDADE...”

A insensibilidade predomina entre os seres, ofusca a luz, a impossibilidade do amor apodera-se da poesia: “Beijei constelações de melancolia// Na cegueira de um reencontro triste,/ Desvaneci-me na ilha do meu sentir e/ Naufraguei no frio dos teus beijos,/ Terrivelmente ausentes de luz”. Apesar da melancolia apreendida pelo sujeito lírico diante das atrocidades que dilaceram as pessoas, a “utopia do poeta” determina a sua trajetória, o seu compromisso para com os homens, o seu sentimento solidário permanece intocável: “Irei pelas ruas do Mundo delirando/ Com o cheiro (a)mar das ilhas/ E farei com que meus cabelos/ De mil pássaros voando, sejam/ A anunciação da contiguidade”.

A redenção está no Amor, o lirismo socorre o sujeito lírico: “Hoje acordei com o sabor a pão da tua boca/ E fui ao mar pedir aos Deuses que nos trouxessem/ A purificação no amor.// Regressei a luz com lábios de sal/ E beijei-te num solene baptismo de amantes/ Temperando o alimento da vida”.

O sujeito lírico propõe o retorno à tenra idade, com os “olhos de uma criança/ Encontro a luz lírica do mundo”, para assim reconstruir os caminhos, reformular as escolhas por meio da “serenidade rítmica da luz”, luz que iluminará as consciências e conduzirá os homens a tempos de paz e de igualdade. Da luz para o azul, azul do céu, do infinito, do universo onírico, do sonho que jamais morrerá por um mundo melhor retratado na delicadeza dos desenhos e nos poemas deste incansável contestador, o poeta-pintor Tchalé Figueira.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mário Lúcio Sousa - O Novíssimo Testamento (livro)


E se Jesus ressuscitasse mulher?

No tempo em que os Portugueses imperavam sobre o arquipélago de Cabo Verde, aconteceu num domingo de Páscoa, na minúscula freguesia do Lém, estar a morrer a mulher mais beata que a ilha de Santiago conhecera. Interpelando-a as netas sobre a sua última vontade, não quiz ela, como seria de esperar, chamar o padre, respondendo em vez disso que gostaria de ser fotografada. Porém, assim que o flash disparou, um mistério inexplicável varreu a ilha de lés a lés; e, quando, ao fim de muitas peripécias, a fotografia foi finalmente revelada, a surpresa foi tão impossível que não houve, no mundo inteiro, uma só alma que conseguisse manter a boca fechada. A ilha quase ia ao fundo com a confusão… Se o Antigo Testamento anuncia a vinda do Messias e o Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, este Novíssimo Testamento é uma autêntica revolução: pois dá testemunho da reencarnação de Jesus no corpo de uma mulher – ilhéu e africana – que parece ter vindo inaugurar a Terceira Idade do Mundo mas não está livre de enfrentar os preconceitos sociais, religiosos e políticos do seu tempo.

Mário Lúcio Sousa é autor de uma obra literária que vai da poesia (Sob os Signos da Luz) à ficção (Vidas Paralelas, premiado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, em 2003), passando pelo teatro (Saloon, de 2004). O Novíssimo Testamento é o seu primeiro livro a ser editado em Portugal.


Título: O Novíssimo Testamento
Autor: Mário Lúcio Sousa
Editor: Dom Quixote
Colecção: Autores Língua Portuguesa
Ano de edição: 2010
 
Fonte: Na esquina do tempo, blog do Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo

domingo, 7 de novembro de 2010

IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS

Prezados, estarei no IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE PROFESSORES DE LITERATURAS AFRICANAS, de 8 a 11 de novembro, na UFOP/MG, apresentando a comunicação Memória, pan-africanismo e revisão crítica da história no poema “Australidades”, de José Luis Hopffer C. Almada, no dia 10 de novembro, a partir das 18h no IFAC - sala 1, ao lado dos colegas LETÍCIA NUNES GOMES (UFRG) – Ilha e Ilhéu: fusão do espaço-personagem, em A louca de Serrano, de Dina Salústio; KLEYTON R. W. PEREIRA (FAFIRE) – Identidade, gênero e diáspora – uma análise das personagens femininas nos contos de Lília Momplé, Maria Margarida Mascarenha e Orlanda Amarilis; RUBENS PEREIRA SANTOS (UNESP/Assis) – A novíssima poesia caboverdiana: a poética de José Luis Tavares.
Uma mesa que muito me atrai por apresentar a produção contemporânea de Cabo Verde, a partir das obras de J L Tavares, Dina Salústio (felizmente não será Mornas eram as noites) e José Luis Hopffer Almada.
Até lá!
Abraços,
Ricardo Riso

sábado, 6 de novembro de 2010

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar (resenha)

Filinto Elísio – Outros sais na beira mar e o caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente
Por Ricardo Riso

Em “Outros sais na beira mar”, Filinto Elísio resolve aventurar-se pelo romance. Contudo, seguindo, de certa maneira, as metáforas inusitadas e as experimentações formais e estéticas de sua poesia, o autor subverte o gênero romance (ou antirromance ou um rol de apontamentos esparsos, como questiona ao leitor em dado momento) para construir uma narrativa híbrida, fragmentada por anotações de diários, crônicas de jornal, troca de e-mails, blogs, poemas etc., para além de diversos fatos verificáveis na sua biografia, aproximando-se de uma livre e descomprometida autobiografia, além da intertextualidade com a sua poesia, mais precisamente a do livro “Das frutas serenadas”.

Nesse caleidoscópio da memória em tempos que se cruzam promiscuamente, a alinearidade apresenta-se entre fatos pessoais (como as diversas mulheres que marcaram a vida do narrador) e a história recente de Cabo Verde, porém descompromissada com a verossimilhança, pois, ao citar o Agaton de Aristóteles (e por que não o João Vário de Exemplo Coevo?): “é verossímil que sucedam as coisas contra toda a verossimilhança”; assim como as constantes indagações do narrador ao leitor acerca da verdade dos fatos.

O espaço geográfico do romance (?) é Cabo Verde, a cidade da Praia, mas é também o da diáspora: Brasil, EUA, Itália, Guiné-Bissau etc. Entrecortada por esses lugares, a narrativa passa pela guerra colonial, pelos estranhos acontecimentos que marcaram a morte de Amílcar Cabral, a euforia com o país livre e o temor da contrarrevolução chegando ao extremo de uma baleia encalhada na praia ser alvejada por balas ao ser confundida com um submarino imperialista, os anos de partido único e multipartidarismo até a decadência da Praia e do país no início deste século.

A corrupção e a impunidade dominam a nação. Cabo Verde integra a rota internacional do tráfico de drogas. O narrador-cronista denuncia o caos e a desordem que passam a ser comuns. “Este é um país deveras geoestratégico”, a triste ironia escancara a inescrupulosa aliança Guiné-Bissau-Cabo Verde entre políticos e empresários, interesses que em nada lembram a união justa e nobre proposta por Amílcar Cabral que desencadearia na guerra colonial.

“Só se mete medo a quem tem medo, o que não parece ser o caso deste cronista”, vaticina o narrador em suas “crónicas implacáveis” diante das mazelas que dilaceram o país. Nada passa despercebido pela sua escrita feroz: as drogas inseridas na economia, o enriquecimento ilícito de políticos e “narcoadvogados”, violência urbana, pedofilia e turismo sexual, emigrantes clandestinos, a promíscua relação religião-política, o medo asfixiando a sociedade, deixando-a inerte. “Para que tal se inverta só com uma bomba termonuclear, como aquela da poesia de Arménio Vieira”. Acusações motivadas após uma tentativa de suborno feita por um ministro com o intuito de calá-lo.

Além de homenagear seus amores, “Outros sais na beira mar” celebra poetas que moldaram o apreço de Elísio pela Literatura: Fernando Pessoa, Arménio Vieira, Ovídio Martins, Eugénio Tavares, Charles Baudelaire etc. Ressalte-se a fundamental contribuição desse romance à literatura de Cabo Verde pela via da rememoração da história, aliando-se a nomes como de T. T. Tiofe, José Luiz Tavares e NZé dy Sant’Y’Agu; para além do testemunho da decadência da Praia e do país, aproximando-se das ácidas críticas de Erasmo Cabral D’Almada e do Arménio Vieira de “Caviar, Champagne & Fantasia”, por exemplo.

Corrosivo e irônico com a situação política, desmedido amor pelas mulheres, “Outros sais na beira mar” ratifica o demasiadamente praiense e cabo-verdiano Filinto Elísio entre os melhores de Cabo Verde: “O meu lugar é a cidade da Praia. Fétida cloaca, se me permites dizê-lo. Mas tão minha (...) Aqui, onde nasci, estão todos os ícones da minha fantasia existencial. Aqui, aprendi os relâmpagos da alma, o dom de conversar por metáforas.”


OUTROS SAIS NA BEIRA MAR
de Filinto Elísio
Lisboa: Letras Várias, 2009

sábado, 30 de outubro de 2010

Arménio Vieira – O poema, a viagem, o sonho (resenha de Ricardo Riso)


Arménio Vieira – O poema, a viagem, o sonho
Por Ricardo Riso

Publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 165, p. 13, de 28 de outubro de 2010

Logo após ser justamente galardoado com o Prémio Camões em 2009, tornando-se o 1o. escritor cabo-verdiano a recebê-lo, o praiense Arménio Vieira brinda seus admiradores com “O poema, a viagem, o sonho” (Editorial Caminho), novo livro de poesia.

Neste, o vate das ilhas opta pela tessitura em prosa poética e atinge ótimos resultados acerca de intrigantes indagações existenciais e metafísicas, apropriação e referências várias à literatura e à filosofia ocidental (“Li-os todos”, avisa-nos o poeta, lembrando “No Inferno”), para além da metapoética transgressora, mostrando o pleno domínio da poesia. Assim como a consagrada ironia do poeta e a sua postura independente que aconselha: “Apaga as escrituras. (...) Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve. Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio. Há coisas a que não deves atribuir nomes. A tua ilha não tem nome.”

É a viagem interior proposta ao sujeito que se quer independente, com o “Poema, que é também, mistério”, transportado pelo sonho. O sonho, condição do ilhéu, da evasão do “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes, de que “teve saudades estranhas, de terras estranhas”, motivo de releituras como a de NZé dy Sant’Y’Águ em “Na morte de Baltazar Lopes da Silva, que também é o poeta Osvaldo Alcântara, “nunca divisados na retina dos que partiram/ nunca vistos e encontrados no chão inóspito/ e diaspórico da terra-longe”; é também revisitado por Vieira citando Homero: “O viajante que jamais viaja é quem deveras viaja, pois que, viajando nunca, ele sabe dos múltiplos dons com que o Destino distingue o sonhador. Sendo assim (por arbítrio alheio, é certo), o navegante, que jamais teve navios e nunca os desejou, mesmo assim, ele é o detentor das rotas que levam aos portos por nomear. Diga-se então que o azul de tantos céus, que Ulisses viu, como ninguém houvera visto, mais não é que os sonhos de quem, em terra, os sonhou no mar.”

Subverter a tessitura da poesia é uma especialidade de Vieira. “Escandir o verso é ofício a que se furta o poeta”, afirma o vate, “porém ele se escusa de escandir o verso, pois sabe que é vão meter a faca no que não pode ser cortado”. Parecendo justificar a opção pela prosa poética, o poeta vale-se da ironia para criticar os rimadores de versos fáceis e, em seguida, celebrar António Vieira e Fernando Pessoa: “De repente um pobre homem, sem apoio de mágica ou de alquimia, que também é magia, converte-se num aparelho de fazer poemas. Ele então que os faça, pois assim quis a sina. Se for soneto, (...) que eles saiam mais ou menos bem rimados. Atenção: quem rima choro com cachorro, jamais apanha a chave de ouro, e no fim é o cão que fica a rir-se. (...) Já que o santo era padre e como a poesia é o tema, encerre-se o texto com Vieira, também padre e António, tanto mais que os sermões, a mor das vezes chatos, em Vieira eram poemas. Entendeu-o Pessoa e, a dobrar, também eu. Por me chamar Vieira?”

A poesia ousada deste vate maior das ilhas apresenta belas homenagens à literatura ocidental ao unir poetas de diferentes épocas: Homero/Rimbaud, Safo/Baudelaire; para além das citações a Borges, Camus, aos gregos em “Grécia, mater mundi” etc.

Labiríntica poesia, fascinante leitura. A sonhadora viagem proporcionada pelos poemas deste Vieira, dito Arménio, reafirma-o entre os melhores da lusografia contemporânea.

“Eu, que de Homero recebi o poema no instante em que o poema nasce, e vi o Inferno pela mão de Dante, tal-qual Leopardi mais tarde o viu, e, após me afundar no rio onde Hamlet e Lear beberam o vinho que enlouquece, comecei a ter visões que Rimbaud, De Quincey e Poe registaram em negros textos; eu, que no eterno transportei a bandeira que era peso nas mãos de Elliot, e renovei a charrua com que Pound lavrava os versos, e de Whitman furtei-me ao licor, que em Álvaro, digo Campos, porque dorido e menos doce, sabia melhor; então que falta em mim para de Camões herdar a estrela, que Pessoa deixou fugir?”

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Oswaldo Osório – Clar(a)idade Assombrada (resenha)

Oswaldo Osório – Clar(a)idade Assombrada
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 161, de 30 de setembro de 2010, p. 11

Lançado em 1987 pelo Instituto Caboverdiano do Livro, “Clar(a)idade Assombrada” foi o terceiro livro de poesia de Oswaldo Osório, posterior a “Caboverdeamadamente construção meu amor” (1975) e “Os loucos poemas de amor e outras estações inacabadas” (1977). Merece-se frisar a estreia literária deste vate poético na histórica “Seló – página dos novíssimos” (1962), ao lado dos consagrados Arménio Vieira e Mário Fonseca.

O livro encontra-se dividido em quatro cadernos – cla(a)idade assombrada, percurso, quotidiano e a quinta estação – e reafirma as opções que motivaram a poética de Osório ao longo do tempo, logo presentes o lirismo amoroso – “força de amor que a razão não desfaz/ que houve então entre o meu ser e o ter-te?” (p. 38), as reflexões existenciais e do tempo – “agora o tempo que resta é o que rareia/ das horas consumidas na poesia” (p. 26), o compromisso inabalável ao defender os desfavorecidos – “eu/ que não deixo a minha humanindade/ num balaio furado (...) e o meu poder nisto consiste” (p. 27), entre outros; por outro lado, trata-se de uma verve poética que se distancia do telurismo fácil e de exaltações nacionalistas que adocicam olhos acomodados.

Com a certeza de quem possui uma biografia coerente e de partícipe histórico na criação de seu país independente, “em disparada na imperturbável rota/ de quem quer ser e cumprir/ o que era já tempo” (p. 15), e com a sinceridade exposta em “signo poético” desprezando a hipocrisia da ordem estabelecida, “mas os diplomas e honrarias/ manuscritas impressas a ouro ou em fino pergaminho/ neles limpará o cu”, para ainda assim ter a sapiência para “compreender o teu tempo como nenhum/ e por isso loucamente o amar” (p. 12). Posição que torna inquestionável a celebração e o otimismo recheados de comovente lirismo de “bom dia cabo verde”, o belíssimo poema para o seu país, “lugar de suor pão e alegria” (p. 17).

Para este poeta necessário, “não há lugar para o desânimo/ no peito-pulso caboverdeano” (p. 19). Abnegado, sua poesia encontra estímulo nas adversidades e o uso sucessivo do pronome possessivo em primeira pessoa pontua a certeza de sua posição: “jardineiro aguerrido é o meu nome e é assim mesmo/ cavo a terra submetendo-a ao meu suor total/ e o meu desejo dela se assenhoreia no verde que vai nascer” (p. 18).

No caderno “quotidiano” encontram-se trinta poemas numerados em forma de três tercetos com quatro versos cada, nos quais diversas temáticas são apresentadas e demonstram as constantes inquietações do poeta, tais como a veemência para manifestar-se contra o reducionismo do patrulhamento ideológico e ao fazer ácidas críticas às políticas para perpetuar a ignorância do povo: “escrever para o Povo não é falar-lhe de milho/ nem afoitar-se a uma escrita linear (...) coisas simples para o povo, porque o povo/ se umas coisas compreende outras não, então!/ Mas isso é o resultado do nível de instrução/ e do aparelho educacional e cultural” (p. 59). Assim como indagações várias de ordem ontológica: “se consumasse de ontem para hoje/ a eventualidade possível de eu não amanhecer/ como poderia dar-me conta disso/ à hora em que acordo e me levanto// faço a barba, tomo banho, beijo a Tosca? (p. 46), e a dificuldade de se fazer poesia, pois “as palavras estão gastas e envelheceram (...) Com as palavras gastas como nomear o amanhã?” (p. 72)

O derradeiro caderno é dedicado à utopia que sempre acompanhou a trajetória de Osório. Com a poesia no poder e o “trevo de esperança” (p. 79) por um amanhã fraterno e solidário, o poeta aspira por uma “manhã límpida de encher pulmões/ surpreender-te-ás com esse rio de muitos afluentes/ a nascer da minha para a tua boca” (p. 78).

“Clar(a)idade Assombrada” confirma os compromissos poéticos e sociais de Oswaldo Osório, este poeta necessário que domina a “arte de tear o sonho” (p. 68) e, generoso, oferece aos seus leitores “novos ideais novos sonhos novos amores” (p. 27).

sábado, 18 de setembro de 2010

Filinto Elísio - Outros sais na beira mar (lançamento livro em Fortaleza/CE)

OUTROS SAIS NA BEIRA MAR - O lançamento do livro de Filinto Elísio (Editora Letras Várias, 190 páginas) acontece hoje (18) a partir das 19h no Espaço Cultural Oboé (Avenida Dom Luís, 300 – Aldeota). Aberto ao público. A publicação terá preço especial para o lançamento R$20.

Fonte: e-mail gentilmente enviado pelo escritor Filinto Elísio a partir do endereço http://www.opovo.com.br/app/opovo/vida-e-arte/2010/09/18/internaimpressavidaearte,2043238/literatura-de-beira-do-mar.shtml

João Vário – Exemplos - Exemplo Coevo, por Ricardo Riso


João Vário – Exemplos - Exemplo Coevo
Por Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 159, 16/09/2010, p. 16.

Lançado em 1998 pela Spleen Edições, Exemplos - Exemplo Coevo, de João Vário, é o 9º volume de uma série de 12 exemplos que, segundo o autor em nota introdutória, “narram, ou melhor, tentam narrar o homem na sua exemplar singularidade”.

João Vário é o pseudónimo de maior complexidade de João Manuel Varela, também criador de T. T. Tiofe e G. T. Didial. As profundas indagações de cariz ontológico-metafísico, permeadas por citações de cânones da poesia universal em longos poemas narrativos, para além do intertexto com a Bíblia e da música barroca europeia, valeram à obra de Vário a ostracização literária (assim definida por José Luis Hopffer Almada) por parte da crítica especializada em virtude dos exemplos surgirem no cantalutismo dos anos 1960.

Entretanto, sob a pena de T. T. Tiofe, as críticas são rebatidas na “Segunda Epístola ao meu irmão António” (TIOFE. O Primeiro e o Segundo Livro de Notcha. Mindelo: Edições Pequena Tiragem, 2001. p. 167): “Sirvo-me da cultura ocidental como duma arma miraculosa, como diria Cesaire, para elaborar a partir de coisas nossas, de raízes específicas, uma poesia de interpretação ontológica ou uma poesia cabo-verdiana de vigor novo (...)”

Esclarece ainda o autor na “Oitava Epístola ao meu irmão António” (TIOFE, 2001, p. 302): “Essa poesia ontológica surpreendeu muitos compatriotas ou não foi, simplesmente, aceite (...), espante que um país, como o nosso, com (...) uma história de múltiplas carências várias, tal como o próprio continente, não tenha visto de imediato (...) que tudo isso levaria a seu tempo a uma criação literária de índole ontológica, que poderia dar a impressão de nada ter a ver com o arquipélago, mas que, no entanto, estaria a ele ligado por essa reflexão assim suscitada. (...)” (TIOFE, 2001, p. 302-303).

Em Exemplo Coevo, dividido em 3 cantos, as indagações ontológicas são feitas a partir dos acontecimentos do ano de 1937, ano de nascimento do autor, e de como influenciaram a sua vida: “E as coisas aguardam a chegada da besta apocalíptica”. Um tempo perverso e indaga: “Não há século maior nem mais vil que este vigésimo. (...) Pois que se assiste a grandes criações/ - soluções para a vida e para a morte -,/ era para a morte ou para a vida/ que o homem se erguia/ sobre seus dois escassos pés?”.

Apesar de asseverar que “trata-se dum ano/ de grandes tribulações e de grandes penas”, o pessimismo domina o poeta diante dos fatos relatados, das obras de arte apresentadas e das conquistas das ciências ao longo do poema, além das constatações que ferem a verosimilhança: “Porque também é verosímel/ que vítimas sejam dos molares do homem/ que no meio da sua alma todas as coisas/ desta vida mastigam, patético óbolo/ a um deus desconhecido, vivido na inverosimilhança”, visto que “havíamos passados vários anos a ler os presságios/ e sabíamos que a perversão e o ódio, a humilhação e o desprezo,/ a delação e o homicídio se instalariam/ por muito tempo à cabeceira das vicissitudes dos dias”. É nesse “naufrágio das alternativas” no qual o poeta “aos seus contemporâneos lembre/ a perenidade do mal e a quase impotência/ da generosidade neste mundo”.

Somente o Belo para atenuar a conturbada época: “a beleza é a única unidade revelada”, “nesse ano de grandes infortúnios e de grandes obras (...) o mundo nunca desnudou tanto/ suas maniqueias raízes como em tal tempo”, pelo qual o poeta, desolado, afirma: “a verdade começou a ser uma infeliz inauguração, um incerto medicamento”. Resta ao poeta optar pela solidão “afinal que tudo mostra à bem-aventurança” em um mundo agônico. O mal vence, a agonia perdura na contemporaneidade, e vaticina: “com os homens esteve o poeta/ em fraqueza, em temor e em grande tremor”.

Sendo assim, infere-se a excelência da obra de João Vário que “há já alguns anos que muitos patrícios começaram a aceitar esse tipo de poesia, como a praticá-la. Em suma, mudou-se o paradigma” (TIOFE, 2001, p. 302). Para o melhor da poesia cabo-verdiana, diga-se.

Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação, por Ricardo Riso


Tchalê Figueira - Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação
Por Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 157, 02/09/2010, p. 18.

Consagrado como artista plástico por uma obra que ilustra os desfavorecidos de seu país, poe outro lado, Tchalê Figueira também possui uma forte vertente literária, tendo publicado livros em prosa e poesia, como “Solitário”, “O Azul e o Mar”, “Onde os sentimentos se encontram”, “Todos os naufrágios do mundo”, para além de publicações em antologias, jornais e revistas como Artiletra.

Ao arriscar-se pela literatura, Tchalê não foge à abordagem das personagens que o consagraram na pintura, ao apresentar a figura do marinheiro que navegou pelos sete mares do mundo, o velho Ptolomeu Rodrigues, protagonista da novela “Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação” (Mindelo: Mar da Palavra, 2005).

Baseando-se na oralidade, com uma escrita descompromissada com as normas da língua culta, o autor utiliza um atento narrador que escuta as peripécias repletas de contratempos do velho marinheiro bêbado, que conta com prazer e algumas boas doses de irritação quando interrompido suas artimanhas pelos diversos bares e prostíbulos das zonas portuárias dos quatro cantos do mundo.

As aventuras de Ptolomeu confundem-se com a história do autor, pois assim como a personagem principal, Tchalê Figueira também fugiu do arquipélago cabo-verdiano durante o final da ditadura salazarista para não ser convocado pelo serviço militar e lutar contra seu povo. Com isso, ainda na adolescência, tornou-se marinheiro e navegou pelo globo.

Cerceado pelos mares, o ilhéu cabo-verdiano possui uma inevitável relação de proximidade com as águas, sendo seu desafio e determinante em seu destino, o que o leva geralmente à emigração por causa das dificuldades trazidas pela seca, fome, miséria e falta de trabalho. E foi exatamente o que aconteceu com Ptolomeu: foi-se embora como clandestino em uma embarcação durante a longa noite do período colonial em busca de outro rumo para a vida, pois sofria com a repressão de ordem familiar, social e política. Logo, encarar o mar significava a liberdade em vários sentidos.

As aventuras e desventuras de Ptolomeu mapeiam, de certa maneira, alguns dos lugares da diáspora cabo-verdiana. Muitos desses emigrantes viram marinheiros ou fixam residência, ou passam pelas cidades as quais o velho Ptolomeu cruzou, tais como Roterdã, Vladvostok e Salvador.

Ptolomeu narra suas histórias a uma plateia imaginária e ao narrador, que se surpreende com os momentos de erudição do velho marujo, suas passagens e encontros inusitados como quando foi salvo em Moscou das cruéis prisões russas pelos camaradas Amílcar Cabral e Pedro Pires (do PAIGC - Partido Africano da Independência de Guiné e Cabo Verde), que lá se encontravam para obter apoio do país comunista para a luta pela independência.

Seu desejo insaciável pelas mulheres é, por conseguinte, o motivo de seus infortúnios em reviravoltas que envolvem chantagens políticas, trapaceiros, policiais corruptos, cafetões, mulheres iradas com sua infidelidade e "cachorros" que cruzam o seu caminho.

Apesar dos percalços vividos pelo velho, as frenéticas viagens de Ptolomeu são saborosas, curiosas, rápidas e irônicas o que torna o pequeno livro uma agradável leitura.

Tchalê Figueira apresenta com a novela Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação como seria a vida de um cabo-verdiano que decidiu encarar os mares e as diversas culturas do mundo, entretanto, a situação diaspórica, motivada pela saudade das ilhas, acaba conduzindo o ilhéu ao seu lugar de origem, ao lugar que ama no mundo, onde termina a sua circum-navegação, Cabo Verde.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vera Duarte - Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança

Vera Duarte - Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança

Ricardo Riso
Texto publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 155, 19/08/2010, p. 18.

Em "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança" (Lisboa: Instituto Piaget, 2005), Vera Duarte reafirma sua postura irredutível em prol dos direitos humanos, da mulher e contra toda e qualquer forma de opressão aos desfavorecidos não só da África, mas de todos os países. Trata-se de uma poesia que pretende atingir "todos os que lutam por um mundo de maior justiça e melhor humanidade".

Nascida no Mindelo, ilha de São Vicente, Vera Duarte é juíza desembargadora e foi ministra da Educação. Dentre os prêmios literários, destacam-se Tchicaya U Tam'si de Poesia Africana 2001 e o SONANGOL 2003 pelo romance "A Candidata". Publicou em poesia "Amanhã Amadrugada" e "O Arquipélago da Paixão", entre outros artigos e ensaios.

Com apresentação de Carmen Lúcia T. R. Secco e prefácio de Estela Pinto Ribeiro Lamas, "Preces e Súplicas..." começa com as Súplicas diante "da impotência tamanha" causada pela caótica situação africana: "há homens que não têm água/ há homens que não têm luz/ há homens que não têm casa/ há homens que não têm nada". A seguir, a trajetória de exploração da África, "então vieram caravelas/ trazendo homens de cor estranha/ (e estranhos pensamentos)". No colonialismo a ganância visa o rico solo: "ouro diamante petróleo/(...) cada vez mais queriam possuir teus bens". Até que os tempos mudam, "o vento da revolução/ soprou forte sobre o mundo", e com a independência "cantaremos hinos de súplicas e esperança".

Após as Súplicas, chega-se às Preces. A “Prece Primeira” homenageia o poeta português Eugénio de Andrade e metaforicamente usa a rosa deste e a rosa mirabílica, referência à antologia “Mirabilis – de veias ao sol”: "Em África cresce uma rosa/ É a rosa mirabílica/ Flor de poesia/ uma rosa entre cadáveres".

Na “Prece Segunda” as 7 cabeças de hidra e os 7 pecados originais são atualizados: "a guerra/ a tirania/ a corrupção/ a má governação/ a sida/ a estupidez/ a indiferença". Contra os líderes inescrupulosos, a certeza de agir: "É este o ano/ O dia, o século/ E o milénio" e vislumbrar um futuro digno: "É a esperança que tem que nascer/ É a esperança que vai renascer".

A “Prece Terceira” mostra as utopias destruídas e os sonhos conspurcados perante a ambição desmedida. Todavia, ainda há espaço para o "holocausto redentor": "É preciso uma fé/ Que mova montanhas/ E um holocausto redentor/ Que devolva os homens/ Aos ideais".

A “Prece Quarta” é dedicada a todos que não têm voz nas "Canaãs inacessíveis". Em "titanesca revolta", queixa-se: "Oiçam a minha voz/ Oiçam a minha cólera". A Prece seguinte acompanha o sentimento universal.

A indignação revela-se na “Prece Sexta” ao mostrar as condições subumanas impostas às crianças, que são "Compradas/ Vendidas/ Violadas/ Abusadas/ Exploradas/ Maltratadas/ Seviciadas". A última Prece refere-se à Gorée, ilha senegalesa de onde saíam os escravos na época do tráfico negreiro, e o eu lírico procura "reinventar o outro futuro/ antes que seja este passado".

Depois das Preces, os poemas dedicados à mulher. Exige-se uma nova postura: "Desperta-te mulher!/ Larga toda essa miséria/ e vem lutar pela verdadeira mulher" e, assim, encontrar a "Mulher d'hoje", de "Tempos novos/ ideais recuperados/ brilho no ar e transparência em tudo/ serão espelho/ onde se refletirá/ a imagem/ diferente e subversiva/ da mulher de hoje/ a ganhar forma/ a ganhar corpo/ a crescer/ a viver".

Ao fim, um cântico final e redentor celebra a poesia e a união dos homens contra a opressão: "E esconjuraremos juntos/ As desgraças do/ Tempo que passa/ Gloriosamente recusando/ A sorte/ A morte/ E todos os sacrilégios".

Ao utilizar alegorias bíblicas, Vera Duarte expõe suas preocupações sociais em "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança". Na infatigável defesa dos direitos humanos depreendemos a "holística comunhão" em um futuro possível, de quem ama demasiadamente "a humanidade/ para assistir/ indiferente/ às várias hecatombes/ que sacodem/ o nosso cotidiano".

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

António de Névada – Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas


António de Névada – Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas
por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação Nº 153, de 05 a 11/08/2010, p. 16

 

Apetece a celebração quando se depara com uma poesia que transforma o ato da leitura em uma surpreendente e valorosa experiência. Passam-se os versos, passam-se as páginas e a mescla de interesse e inquietação apodera-se do leitor, ávido pelo que virá. Dessa maneira, entorpecido por um intenso labor criativo e ousado na depuração da palavra, a demonstrar maturidade plena em seu ofício, que se encerra a gratificante leitura de “Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas”, do mindelense António de Névada.

Lançada em 1999, sob a chancela da editora Angelus Novus, “Esteira Cheia...” revela profundas indagações de natureza ontológica em longos poemas narrativos de pungente conotação épica. Particionada em três Canções (meditações, aguarelas do tempo e canto à semeadura) subdivididas por três cantos, precedidas por um Prelúdio (esteira cheia de sol) e finalizadas por um Coro (esteira cheia, ribeira da vida), esse épico, com acerto chamado de épica lírica por Osvaldo Silvestre e que o poeta denomina de drama ou polifonia poética, assemelha-se à estrutura da ópera, tendo a música como um referencial marcante aludido na epígrafe dedicada ao jazzista John Coltrane, por sinal, um artista também preocupado com as questões metafísicas, sendo exemplo maior o seu antológico álbum A Love Supreme.

Ressaltem-se as diferenciadas marcas intertextuais que abrilhantam a poesia de Névada, tais como as explicitadas pelo poeta e que valorizam a literatura de Cabo Verde, casos de João Vário, Timóteo Tio Tiofe e Corsino Fortes, a cultura popular cabo-verdiana e africana, nomes universais como Dante Alligheri e T. S. Elliot, e contemporâneos, caso de Nuno Júdice. Tantas referências são reconfiguradas pela pena criativa do poeta que realiza um mergulho angustiado no âmago do ser, atestado a seguir: “É sabido que o sofrimento/ e a carência são sombras/ que a árvore da vida/ projecta sobre as almas./ Mas como sarar a podridão do corpo,/ como colher da murchidão,/ se a dolência corroeu-nos o espírito,/ se o êxodo levou-nos o canto/ secou-nos o pranto?”(p. 12)

Na incessante busca pelo sentido de estar no mundo, posto que “sua alma cresce entre joios de desespero” (p. 17), “os versos medem a agonia/ e cavamos à procura da essência” (p. 27) em uma época desarranjada que apresenta imagens insólitas como “uma gola sem pescoço/ empunhando punhos de espanto” (p. 25). A poesia refere-se ao homem cabo-verdiano, à sua resistência e à sua “impropícia beatitude” (p. 29) “no chão putrefacto” (p. 31), o sujeito lírico solidariza-se com as dificuldades da vida do ilhéu, “caminhamos em busca do tempo”. Esse tempo que chega a ser quase que tangível, devido à artesania do poeta.

Da impossibilidade da indiferença ao visualizar a abnegação do ilhéu ao cumprir seu dever em lavrar a terra seca, “as lágrimas humedecem os olhos./ Os elementos diluem-se no abismo das coisas” (p. 51), estupefato “sob o peso da angústia” (p. 49), “procurando a ancestralidade/ ou a linha da vida” (p. 44), o sujeito lírico divaga: “E não pensemos/ que o acto de questionar/ o melhor das coisas/ nos levará à grandeza” (p. 50). Ainda impressionado com a insistência do lavrador, “E o homem/ cultiva sobre a terra estéril,/ e sobre ela ajoelha-se/ para louvar ou possuir/ o dom dos deuses.” (p. 60), tanto que “a densidade das palavras/ não encontra/ o discurso necessário” (p. 62) e se questiona: “Será que cavamos a própria sepultura?” (p. 64)

Valendo-se de uma linguagem inovadora e culta, com metáforas arrojadas, forte presença telúrica, pertinentes indagações acerca da existência, “julgaremos o homem, sua essência,/ como quem julga a negação dos deuses,/ o infinito ou a irreferência dos deuses!” (p. 67-68), sobre o tempo e a verossimilhança, elevam o nome de António de Névada como legítimo representante da melhor poesia de Cabo Verde:

Ao recriar o desgaste, o atrito
entre a esperança e a desesperança,
estabelece-se a mais verossímil
das parábolas:
A vida! (p. 71)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Para sempre Amílcar - por Ricardo Riso


Para sempre Amílcar
Por Ricardo Riso
Publicado no semanário cabo-verdiano A Nação, número 149, 08 de julho de 2010, p. 14.

(...) para a exaltação das multidões enraivecidas
exultantes com o herói do povo
aclamado como abel djassi
festejado como messias-fundador
adorado como cristo negro dos rabelados de santiago
sempre gratamente louvado como cabral
sempre simplesmente chamado amílcar
(ALMADA, José Luis Hopffer C. Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade.
Praia: Spleen Edições, 2009. p. )

No eterno combate às desigualdades sociais, à exploração e detrimento de muitos para favorecimento de poucos em uma constante metamorfose da dominação opressora, convém estarmos atentos aos discursos estabelecidos e enfrentarmos a perigosa memória seletiva que tenta conduzir à amnésia coletiva personagens importantes do passado. Por isso, em razão de mais um 5 de julho cabo-verdiano independente, a recordação pertinente de Amílcar Cabral.

Não se pretende neste curto espaço falar dos incontáveis feitos do grande líder da união Guiné-Cabo Verde, do PAIGC, da sua atuação como engenheiro agrônomo, da iluminada intelectualidade e do humanismo exacerbado – africano e universal –, para além de todos esses venerados atributos queremos aqui relembrar os seus poemas e a influência dos seus ideais na poesia.

Da consciência política adquirida desde cedo à afirmação intelectual concretizada na prolífica convivência na Casa dos Estudantes do Império, ao lado de nomes como Alda Lara, Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade, Amílcar, em “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”, percebe na poesia de “Claridade” e “Certeza” as marcas da cabo-verdianidade: “Os seus poetas sentem e sabem que, para além da realidade cabo-verdiana, existe uma realidade humana de que não podem alhear-se. (...) E dizem, querem dizer ‘um canto... que cruze nos mares mais distantes e entre nos corações dos homens... um canto com contornos de paz e relevos de esperança’”.

É na crença na esperança de uma nova luz que o faz versar “para além de um Sol já velho defraudado/ há um puro Sol cruzando os infinitos/ vivificando a Vida. (...) Que amanhã na planície conquistada/ da terra redimida/ libertada/ os Homens irmanados colherão/ o saboroso Pão”. Sol contrapondo-se à noite colonial manifestada pela insularidade aprisionadora: “colinas sem fim de terra vermelha/ – de terra bruta –/ rochas escarpadas tapando os horizontes,/ mar aos quatro cantos prendendo as nossas ânsias!” Mas é na força proposta pela “reafricanização dos espíritos” na qual o insistente e ansioso pedido do poema “Regresso” visualiza a chuva que renova o tempo: “Mamãi Velha, venha ouvir comigo/ o bater da chuva lá no seu portão./ (...) Dizem que o campo se cobriu de verde,/ da cor mais bela, porque é a cor da esp’rança./ Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde/ – É a tempestade que virou bonança...// Venha comigo, Mamãi Velha, venha,/ recobre a força e chegue-se ao portão./ A chuva amiga já falou mantenha/ e bate dentro do meu coração”.

Orientados pelos ideais cabralinos, por um “destino nosso, livremente escolhido”, letras armadas de poetas surgidos ao final dos anos 1950 como Onésimo Silveira e na “postulação irritada da fraterninade” de Mário Fonseca, construíram o seu fazer poético consubstanciado pelo desejo irrevogável de libertação do país, por conseguinte, do continente africano, escancarado por Fonseca em “Eis-me aqui África”.

Sensível não só ao injustificável colonialismo português, mas a todas as formas de opressão aos países africanos e do 3º mundo em geral, esse “Guevara de África”, tão bem alcunhado por Alda Lara, ganhou uma correta homenagem pelo seu legado de homem, político e poeta na antologia temática organizada por Mário Pinto de Andrade, “O Canto Armado”, com uma seleção de poema: Kabral ka morrê.

Na produção contemporânea cabo-verdiana podemos citar as passagens do supracitado “Praianas”, de José Luís Hopffer C. Almada, nas quais o “verbo livre e urgente” do líder é recordado e exaltado. Com isso, concluímos essa pequena homenagem ao homem de “perfil visionário da aura carismática” que foi Amílcar Cabral.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Cabo Verde - 5 de julho, 35 anos de independência




Amílcar Lopes Cabral (Bafatá, Guiné-Bissau, 12 de Setembro de 1924 — Conacri, 20 de janeiro de 1973)

REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!


POEMA

Quem é que não se lembra
Daquele grito que parecia trovão?!
– É que ontem
Soltei meu frito de revolta.
Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,
Atravessou os mares e os oceanos,
Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,
Não respeitou fronteiras
E fez vibrar meu peito...

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,
Confraternizou todos os Homens
E transformou a Vida...

... Ah! O meu grito de revolta que percorreu o Mundo,
Que não transpôs o Mundo,
O Mundo que sou eu!

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,
Muito longe,
Na minha garganta!

Na garganta de todos os Homens



ROSA NEGRA
 
Rosa,
Chamam-te Rosa, minha preta formosa
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.


Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...

Mas temo tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos...
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente
Ser’as uma negra
E eu temo a tua sorte!
 
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!



 ILHA

Tu vives - mãe adormecida-
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som das músicas sem música
das águas que nos prendem...

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Fonte: http://www.didinho.org/apoesiadeamilcarcabral.htm