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terça-feira, 27 de abril de 2010

Exposição Alumbramentos: água, cor, palavra

clique na imagem para ampliá-la

fonte: e-mail gentilmente enviado pela amiga virtual Luana Antunes Costa em 27 de abril de 2010.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Paula Tavares - O cercado e desenho Ricardo Riso


Pano da Costa (da série Dizes-me coisas amargas como os frutos)
pastel s/papel. 29,7 x 21 cm. 2010.
Autor: Ricardo Riso

O cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado

TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como os frutos. In: Poesia. Luanda: Maianga, 2004.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jornal A Nação (Cabo Verde) n. 120 - 17/12/2009 - coluna Ricardo Riso




Para quem quiser receber a versão pdf desta e das futuras edições do jornal A Nação, basta deixar o e-mail para contato neste post ou em qualquer outro do blog, ou enviar e-mail para risoatelie@gmail.com solicitando o jornal.
Abraços,
Ricardo Riso


Passaportes de Abraão Vicente renovam tema caro à literatura: a emigração


Ricardo Riso


A insularidade de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago ou a situações políticas, como o colonialismo português e as desigualdades econômicas que a independência não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar é parte da cultura de Cabo Verde.

A evasão e a emigração são disseminadas na literatura. A geração da Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade, foi acusada de evasiva por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos havia o sentimento nacional independente a Portugal a partir da evasão e do sonho, como no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal / por esse orgulho que tu trazes; / porque este ar de triunfo iluminado / com que voltas...(...)
...Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conheceste... (...)
que nunca viram teus olhos / no mundo que percorreste...

Nos anos 1940, a revista Certeza (1944) explicita o absurdo do colonialismo. Nos 1960, as guerras coloniais levariam à independência.



A crescente revolta e a nova relação com o mar são retratadas por Ovídio Martins em “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos / desesperadamente estendemos as mãos / por sobre o mar
As ondas não são muros / são laços / de sargaços / que servirão de leite / à grande madrugada (...)

Após a independência, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marca a ruptura da literatura com os dilemas do ilhéu. No prefácio, José Luís Hopffer Almada afirma que:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário (...) No deserto, cresce a geração mirabílica (...) Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. (...) Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

Nessa linha, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em “Revolução-evolução”:

Viola a tua tradição / enterra a tua paranóia marítima secular / renega a tua estreita visão interior
E busca / novas formas / novas artes / novos engenhos / nova mente
De / cortar as amarras da estagnação / engravidar a terra de novo sangue / estabelecer nova aliança com o mar

A emigração hoje

É notório o elevado número de emigrantes cabo-verdianos pelo mundo. Porém a xenofobia dificulta o deslocamento de estrangeiros, que se arriscam em embarcações precárias.

Por outro lado, Cabo Verde recebe barcos ilegais africanos impedidos de chegar à Europa, o que gera transtornos ao país, sem estrutura para abrigá-los.

Essa situação denuncia o fracasso do neoliberalismo, em que países do 1o. mundo ignoram a situação caótica da África, em boa parte causada pelas pressões econômicas externas.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Vicente é autor do blog - http://abraaovicenti.blogspot.com -, com diversas séries expostas que surpreendem pela variedade das técnicas. Diversidade que demonstra segurança, conhecimento e ousadia.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes, objeto de desejo do cabo-verdiano, e cria inquietantes obras. Mas, atento ao momento adverso, recorre a um verso dos Rolling Stones: you can’t always get what you want.

Ao despedaçar o passaporte com pinceladas agressivas, figuras fragmentadas e textos caóticos, Vicente denuncia o desespero de quem quer emigrar. Desfigurando-o, mostra, pela impessoalidade das figuras despedaçadas, o cidadão comum que quer sair para um futuro incerto. O dilaceramento do documento, metáfora da dificuldade de alcançar o sonho, a saída do país.

Inquietação e multiplicidade na escolha dos meios deslocam o observador da passividade da contemplação. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões do seu tempo ao renovar e não se omitir em denunciar as novas vertentes de um tema que atravessa a literatura cabo-verdiana: a emigração.

domingo, 23 de novembro de 2008

Abraão Vicente e a emigração em Cabo Verde

Obras de jovem artista relêem tema caro à literatura do arquipélago

Por Ricardo Riso

A condição insular de Cabo Verde impôs ao ilhéu os dilemas “querer ficar e ter que partir” e/ou “ter que partir e querer ficar” em razão das condições adversas do arquipélago, ora devido às condições climáticas e geográficas desfavoráveis com as persistentes secas e solo árido para o plantio, ora com situações políticas e/ou financeiras como o colonialismo português no passado, e as desigualdades sociais e econômicas que a independência do país não conseguiu resolver. Ou seja, emigrar faz parte da cultura de Cabo Verde.

Disseminadas na literatura cabo-verdiana, a evasão e a emigração foram temas que percorreram todo o século XX gerando profundas polêmicas e atritos entre os escritores de diferentes gerações. O caso mais célebre é o da geração que lançou a revista Claridade (1936), marco da cabo-verdianidade. Seus poetas: Jorge Barbosa, Manuel Lopes e Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) foram injustamente acusados de evasivos por seus pares nas décadas seguintes.

Entre os claridosos, como eram conhecidos, não havia crítica explícita ao regime colonial português vigente à época, porém, havia, sim, o surgimento de um sentimento nacional independente a Portugal, de apego à terra, fazendo da evasão a válvula de espace para o sonho, como podemos inferir no “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes:

Eu não te quero mal
por esse orgulho que tu trazes;
porque este ar de triunfo iluminado
com que voltas...

...O mundo não é maior
que a pupila dos teus olhos
tem a grandeza
da tua inquietação e das tuas revoltas.

...Que teu irmão que ficou
sonhou coisas maiores ainda,
mais belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
– bosques de névoas, rios de prata, montanhas de oiro –

que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste...

(ANDRADE, Mario de.
Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 1 – Na Noite Grávida de Punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1977. 2ª ed. p. 27)

Nos anos seguintes, aparece a revista Certeza (1944), de forte tendência marxista, que explicita o absurdo do colonialismo enfatizando o desejo de liberdade. Na década de 1950, nasce o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde) comandado por Amílcar Cabral; na década seguinte começam as guerras coloniais nos cinco países africanos dominados por Portugal que levariam à independência após a Revolução dos Cravos, em terras lusas, no ano de 1974.

O sentimento crescente de revolta e a nova relação com o mar, não mais castrador dos sonhos do ilhéu, são bens retratados por Ovídio Martins no poema “Unidos Venceremos”:

Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
xxxxxxpor sobre o mar
As ondas não são muros
são laços
de sargaços
que servirão de leite
à grande madrugada
Nosso amor de liberdade
xxxxxxxxxxxxe de justiça
será contemplado
e nosso povo terá direito ao pão
Povo que trabalha
xxxxxxxxxxxxMas não come
Povo que sonha
xxxxxxxxxxxxe obterá
Temos a ternura das nossas ilhas
temos as certezas das nossas rochas
Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
caboverdianamente estendemos as mãos
xxxxxxxpor sobre o mar.

(ANDRADE, Mario de.
Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 2 – O canto armado. Lisboa: Sá da Costa, 1979. p. 142)

Conquistada a liberdade da nação, o cantalutismo domina a poesia engessando os temas tratados. Somente no final dos anos 1980, a antologia Mirabilis – de veias ao sol marcará uma ruptura com os eternos dilemas do ilhéu, tantas vezes versados pelos poetas cabo-verdianos. A proposta da antologia fica clara no prefácio de José Luís Hopffer Almada:

Fustigada pelos ventos (da incompreensão!), pelo sol (da hipocrisia!), pelos tempos vários do mau tempo literário, desse tempo querendo-se vegetação literária. No deserto, cresce a geração mirabílica, feita signo na margem desértica do mar. De veias ao sol. As veias da indagação. As veias alagadas da terra das estradas, da poeira do dia-a-dia, do massapé dos campos, do lixo dos caminhos suburbanos, do desespero recoberto de moscas, baratas e outros vermes. As veias loucas do mar, do marítimo lirismo dos dias afogados nos ciúmes dos montes. As veias, veias de vida, de morte, de desespero, das quatro estações místicas do que se medita no refúgio do silêncio. Veias do camponês e da enxada neste coito de séculos com a terra. Ao sol, hipócrita por entre a bruma e os cerros. Sol, signo de luz. Sol que ilumina. Sol que queima e ofusca o caminhar. Sol dependurado da perseverança secular. Mirabilis – de veias ao sol. Geração mirabílica indagando o sol. “No Deserto cresce a Mirabilis”. Diz o poeta Orlando Rodrigues. “Embora de veias ao sol”. Adita Rodrigo de Sousa, para que das imagens do deserto cresçam as palavras da nossa geração e delas reste, ao menos, o cadáver da poesia. Sugere Mito, o poeta plástico, ou que o cadáver se metamorfoseie em flor e espinho, num panorama azul, de onírico, sugere Mito, o plástico poeta. Uma única rosa é a Mirabilis, e dela queda um sol de sangue. O sol da poesia mirabílica.

(ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988. p.26-27)

Seguindo os novos rumos da poesia, Euricles Rodrigues escancara o rompimento com o passado literário em seu poema “Revolução – evolução”:

Viola a tua tradição
xxxxxxxxxxxxxenterra a tua paranóia marítima secular
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxrenega a tua estreita visão interior
E busca
xxxxxxxnovas formas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxnovas artes
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxnovos engenhos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxnova mente
De
xxcortar as amarras da estagnação
xxengravidar a terra de novo sangue
xxestabelecer nova aliança com o mar
(ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988. p.190)

A emigração hoje

Atualmente, Cabo Verde apresenta elevado número de emigrantes espalhados pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos e continente europeu. Devido às dificuldades econômicas, o cabo-verdiano continua a sair do seu país a procura de melhores condições de vida nos lugares citados. Entretanto, a recessão econômica mundial crescente nos últimos anos e com maior evidência nos meses recentes, além do alto número de estrangeiros nos países de primeiro mundo, fez com que a entrada de estrangeiros sofresse sérias restrições e vigilância rigorosa.

Hoje, conseguir o “visto” para entrar em um país desenvolvido é extremamente difícil por causa das inúmeras exigências feitas pelos consulados. A conseqüência desse endurecimento é o aumento do fluxo de pessoas ilegais que arriscam a própria vida em embarcações superlotadas e com péssima estrutura, oriundas do continente africano.

Por outro lado, há um grave problema vivenciado por Cabo Verde. Por sua posição geográfica, o arquipélago acaba recebendo diversas embarcações ilegais que não conseguem atingir o seu destino, o mais comum são as Ilhas Canárias, território espanhol. Tal fluxo de clandestino gera imensos transtornos a Cabo Verde, pois o país não possui estrutura adequada para receber um grande número de pessoas vindos de várias partes da África, como a Mauritânia, Senegal, Mali e outros países. (Para ver algumas matérias sobre este problema, acesse os links relacionados no final deste texto)

Essa situação simplesmente denuncia o fracasso da política neoliberal dominante em nossos dias, onde os países do primeiro mundo fecham-se e ignoram a situação do continente africano, devastado pela miséria que assola seus países em boa parte causada pelas pressões econômicas dos europeus e americanos.

Os passaportes de Vicente

Nascido na ilha de Santiago em 1980, Abraão Aníbal Fernandes Barbosa Vicente, o Abraão Vicente, vive em Portugal desde 1998, onde se formou em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Abraão Vicente possui um blog - http://abraaovicenti.blogspot.com/ - com diversas séries expostas, carecendo das fichas técnicas das obras.

Vicente surpreende pela variedade das técnicas apresentadas, que vão desde fotografias com cenas de batuques, de senhoras e senhores que sofrem a intervenção da pintura, criando um belo efeito plástico na série “Len di li”, a trabalhos extremamente expressivos como seus óleos sobre papel, delicadas cenas de nu em aquarelas, e instigantes trabalhos conceituais em que alia grafismos e imagens. Diversidade que poderia traduzir indecisão em sua produção, porém, felizmente, demonstra segurança, conhecimento e, principalmente, ousadia na trajetória deste jovem artista cabo-verdiano.

Em duas séries, “Retratos” e “Passports Frames”, Vicente apropria-se de passaportes para criar tensas e inquietantes obras acerca de um documento que, se pode dizer, mais do que nunca se tornou objeto de desejo do homem cabo-verdiano. Entretanto, antenado com o momento em que vive, o artista transcreve o sugestivo título de uma música dos Rolling Stones em um de seus trabalhos: you can’t always get what you want.

Despedaçando o documento do passaporte, rasurando-o, contaminando-o com pinceladas e traços de giz agressivos, pedaços de fotografias, partes do corpo humano desenhadas e textos nervosos e caóticos, Vicente denuncia o desespero a que conduz as pessoas a abandonar suas famílias e o país. Estendendo o olhar, podemos dizer que ao desfigurar tão importante documento, o artista levanta profundas discussões a respeito da identidade desse homem e da diáspora cabo-verdiana em diversos países como Suécia, Eslovênia, Estados Unidos, Brasil, Portugal, Cuba e Venezuela.

Dialongando com os traços viscerais e o grafismo neo-expressionista típico do americano Jean-Michel Basquiat – não há como não lembrar de suas obras –, Vicente mostra, pela impessoalidade das figuras representadas, o cabo-verdiano que emigra, o cidadão comum, que busca suprir suas necessidades no estrangeiro. Figuras fragmentadas, nunca representadas de corpo inteiro, despedaçadas como a vida que pretendem abandonar e a incerteza de um futuro promissor no destino pretendido. Assim como o próprio dilaceramento do documento demonstra a dificuldade de alcançar o objetivo, a saída do país. O próprio dilaceramento de Cabo Verde.

Pluralidade, diversidade, multiplicidade na escolha dos meios para expor suas obras. Abraão Vicente é um artista em sintonia com as questões que afligem o seu tempo, renovando e não se omitindo em denunciar as novas vertentes de um tema que sempre atravessou a cultura cabo-verdiana: a emigração. Seus trabalhos são impacientes e inquietos pelo tratamento dado e pelo o que fazem pensar, deslocando o observador da pura passividade da contemplação.

Abraão Vicente, um novo nome das artes plásticas de Cabo Verde que merece estar ao lado de artistas inovadores e ousados como Mito e Tchalê Figueira.


Bibliografia:
ALMADA, David Hopffer. A identidade cultural cabo-verdiana. In: Caboverdianidade & Tropicalismo – 2ª Jornada de Tropicologia. Recife: Massangana, 1992.

ALMADA, José Luís Hopffer (ORG.). Mirabilis – de veias ao sol – antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos. Praia: ICL, 1988.

ANDRADE, Mario de. Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 1 – Na Noite Grávida de Punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1977. 2ª ed.

ANDRADE, Mario de. Antologia Temática de Poesia Africana Vol. 2 – O canto armado. Lisboa: Sá da Costa, 1979.
GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

Sobre Abraão Vicente na Internet:
http://www.confrariadovento.com/revista/numero18/artista.htm
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=195

Textos sobre emigração na Internet:
http://www.cndhc.org/?sec=5&sub=5&art=170
http://arquivo.vozdipovo-online.com/conteudos/cabo_verde/emigracao_ilegal:_cabo_verde_quer_negociar_restricao_a_entrada_de_africanos/
http://noticias.uol.com.br/ultnot/lusa/2006/05/28/ult611u72222.jhtm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u95700.shtml

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Mito e a Sopinha de Alfabeto: renovação nas artes de Cabo Verde

Por Ricardo Riso
Mito, pseudônimo de Fernando Elias Hamilton Barbosa, é um nome inquietante na cultura cabo-verdiana do pós-independência. Artista multifacetado, atua nas letras e nas artes plásticas com desenvoltura e fina ironia. Mito não se prende a gêneros ou estilos, transita por várias linguagens e meios para expor suas obras. A ousadia e a diversidade são algumas das suas características, e o diálogo com as vanguardas contemporâneas aparece com freqüência em seus trabalhos, algo pouco comum entre os artistas do arquipélago.

Com o objetivo de movimentar as artes em Cabo Verde, dominado pelo cantalutismo do país recém-independente e no ano do cinqüentenário da revista Claridade, publicação que marca a moderna poesia cabo-verdiana, em 1986, Mito, acompanhado de Arnaldo Silva, dos poetas Eurico Barros e Filinto Elísio, e do fotógrafo João Nelson, lança a revista Sopinha de Alfabeto.
http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1capa.htm

A Sopinha de Alfabeto surge com a proposta de ampliar os temas artísticos no arquipélago, fazendo do humor e da ironia as suas principais bandeiras. Contudo, tal ousadia desejada por alguns, não seria bem digerida por outros. Em prefácio à reedição de Sopinha de Alfabeto, Lonha Heilmair afirma que:

Se o projecto da Sopinha de Alfabeto foi de molde a suscitar entusiasmos e mudar paradigmas, ele também provocou reacções menos benevolentes por parte de quem se sentia no dever de velar pela manutenção de algum rumo pretensamente sério da criação artística, porque relacionado, por definição, com um discurso oficial institucionalmente progressista. Assim, a Sopinha foi caracterizada como “sinal de decadência infantil”, não tendo a revista “importância nenhuma” (Manuel Delgado in: Michel Laban, Cabo Verde - Encontro com Escritores, tomo II, Porto 1992, p. 758 e 762, respectivamente).

Entretanto, ao visitarmos a publicação em formato eletrônico no site de Mito - http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1capa.htm -, deparamo-nos com uma revista ousada, pretensiosa, híbrida. Não há como negar a proposta de renovação da Sopinha. Atrevida, sai do lugar-comum em meio às comemorações da Claridade, já na primeira página demonstra os caminhos que pretende seguir e a proposta plural e aglutinadora dos que querem mostrar suas obras:

Sopinha de Alfabeto surge com o objectivo de criar ou tentar criar um espaço livre de publicação e divulgação no domínio das Artes e Letras, não estando enfeudado a nada e a ninguém nem representará o compromisso com quaisquer padrões estético-formais e/ou mesmo temáticos.

Neste número publicamos apenas poemas, caricaturas, desenhos e fotografias mas as páginas deste projecto estão disponíveis para qualquer outro género literário, do ensaio às reportagens, da poesia à crítica literária e do desenho à fotografia.
http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag1.htm

Posteriormente, essa postura seria radicalizada e celebrada no início da década de 1990, com a antologia Mirabilis – de veias ao sol, organizada por José Luís Hopffer Almada, o grande marco da renovação literária cabo-verdiana.

Em agradáveis vinte e seis páginas, a Sopinha de Alfabeto apresenta variadas formas de linguagem. Mito comparece, dentre outras ilustrações e poemas, com o belo “Poemito Concreto”, além do desencanto com as conquistas sociais não alcançadas pelo país independente, o curto e agressivo poema cheio de assonância e aliteração “A revolta e sua inflação”:

A vida é cara meu caro
Cara de jarro
Carro de barro
Farejo o meu charro
Fumo o cigarro da farra
E escarro na cara do descarado
(MITO - 11 - 84)

http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag13.htm

O bom poeta Filinto Elísio apresenta poemas em estilos vários: o hai kai, figuras de linguagem como a assonância, a prosa poética estão entre as características formais de sua poesia. Com temáticas inovadoras no panorama literário do país. Utilizando-se da versificação livre futurista, sua matéria poética surge em cenas do cotidiano como no poema “Ao Mito”:

aquela do coveiro boa gente que a Deus pede mais morte
e o recurso de mais pão
aquela do artista travestido de absurdo
e subversivo mefisto das horas substantivas
aquela da mulher náufraga e sem rumo
que como as ondas do mar vem dar às nossas praias íntimas
aquela que nos abre a flor e nos fecunda a alma
aquela do cão vadio que ninguém dá a mínima
mas que o menino triste acompanha e quer adoptar
aquela da estrela cadente na qual "o da passiva"
viaja na ponta do charro
aquela da "luamito" da metalinguagem futurista
aquela da boca do lixo engolindo os nossos titãs
aquela do sol com vergonha de aquecer corações
aquela do coveiro boa gente e etc
aquela cena da vida para ser vivida...
http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag3.htm

Filinto Elísico também lança poemas muito bem elaborados, com no ótimo e metrificado “A poesia do reverso”

lusoáfricas berço terço
o terceto da nova poesia

onde passava a Passargada
passa agora o pássaro da paz

tão linda e ledice lírica
vero verso e vertigem

cantiga antiga do amigo
contigo ate canto o cantar

o trottoir da trova trolley
que troveja tartex e tempo

o silêncio silex do Simas
da sirene morna muda

lá onde a noite atinge
de esfinge o Conde finge

o poeMito faz lexema
no pão da poesia morena

à Cris à cruz à luz
o sufixo e o crucifixo

o lixo o Kitsch o bicho
dura lex pax lua

o perverso e o avesso
na poesia do reverso ...
http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag21.htm

O outro poeta que forma o corpo da Sopinha de Alfabeto, Eurico Barros, possui uma poesia intimista, existencialista, crítica do passado histórico como em “Acidente Danado”:

...e ficou a imagem cósmica
de Titicaca
Tibete

dos deuses que levaram

a outra vida
essa vaga possibilidade de ser feliz,
deixando-nos com o Deus

ocidente

danado.

... e ficou o sofrimento bíblico,
captando a telepoesia

dos espíritos

da antiga

Tibete
Titicaca
... e ficou a imagem religiosa do ÉDEN DESABITADO.
http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag23.htm

Barros experimenta grafismos e ilustrações para seus poemas. O poema “‘o’culto” demonstra a agonia dos tempos de distopia, chamando para a realidade a perplexidade causada pela desilusão com o país:

http://www.tanboru.org/mito/sopinha/SP1Pag11.htm

Para fechar a publicação, uma ilustração de Mito antecipa as reações que Sopinha de Alfabeto cometeria no meio cultural cabo-verdiano:



Neste texto, mencionei apenas o primeiro número da revista, mas está disponível no site o segundo número, este já com participação maior de artistas e outras propostas estéticas estão presentes. Ao digitalizar e disponibilizar a Sopinha de Alfabeto em seu site, Mito presta uma linda homenagem ao percurso recente da literatura de seu país. Para quem admira ou pesquisa a arte do arquipélago, encontra ali um excelente material para compreensão do desenvolvimento literário de Cabo Verde.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Lêdo Ivo: Réquiem, o longo caminho entre dois nada


"A linha que separa a terra do mar fulgura como um raio."

Ao Lêdo Ivo, ao Gonçalo e à família com carinho e admiração
.


Entre as artes, uma distingue-se pelo seu poder insuperável de criar imagens: é a poesia, que reina soberana nos versos recheados de metáforas imprevisíveis feitas pelos poetas.

Feliz o poeta revelador da palavra que “traz a marca / das coisas escondidas para sempre”. Feliz por falar de “Réquiem”, o novo livro de poesia de Lêdo Ivo. Lançado pela Contra Capa em bem cuidada edição, com fotos das obras de Gonçalo Ivo, seu filho, e um desenho visceral de Gianguido Bonfantti. Sobre as dezoito imagens de Gonçalo criadas para este livro propõem um profundo diálogo com os poemas. A fragmentação das imagens pelas fotografias, a serenidade das pinturas sobre machucadas superfícies remetem às reminiscências versadas pelo poeta.

Densa é a travessia de “Réquiem”. São longos poemas com reflexões sobre a trajetória da vida e da proximidade da morte, em espera tranqüila. Árduo o trabalho do poeta que rememora o passado, busca imagens esgarçadas do outrora traduzidas em vocábulos que anunciam a condição do que foi perdido ou restou: “estilhaços”, “escombros”, “sobras”, “destroços”. “Tudo o que perdi, perdi para sempre”, vaticina o poeta.

Diante dos mares recriados das suas alagoas, o poeta repensa a sua caminhada em longos versos contrastando com o tempo exíguo:

“e agora, diante do oceano exato e visível, diante do
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[grande mar prosódico
nada sei sobre a travessia.
Após tantas viagens, esta é a última fronteira
que me cabe transpor.”

Serenidade, sabedoria, paz, despedida... a palavra poética a conduzir a travessia na mente do leitor em belas imagens de um eu lírico profundamente intimista:

“Agora o silêncio do mundo lacra a minha alma.
O róseo raio da rósea alvorada
aponta para a noite escura.
De mim mesmo afastado pela morte,
essa concha que não guarda o barulho do mar,
é aqui que termina, na lama negra dos maceiós,
o meu longo caminho entre dois nadas.”

Sensível e comovente, “Réquiem” nos faz repensar a existência.

Ricardo Riso

Réquiem
Lêdo Ivo
Pinturas de Gonçalo Ivo
Desenho de Gianguido Bonfantti
Editora Contra Capa
64 páginas – 16,8 x 24,5 cm
2008

Imagem extraída de

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Moçambique - literatura e artes plásticas

Ontem, preparei uma apresentação para a disciplina de Estágio de um tema que muito me agrada: as letras e telas moçambicanas. A partir da diversificada produção de Mia Couto, com trechos de romances, contos e crônicas tracei diálogos com as produções dos artistas plásticos Malangatana Valente, Roberto Chichorro e Naguib Abdula.

Comecei com a crônica de Mia Couto, “Perguntas à Língua Portuguesa”. Nesta, apresentei sua postura em relação ao uso da oratura na escrita, os neologismos e suas brincriações, e a emancipação de um falar moçambicano independente à matriz européia.

A seguir, selecionei um trecho inicial de “Terra Sonâmbula” e apontei a característica expressionista do romance, ambientado em tempos de guerra, com intensa presença de cores como o vermelho e com a fragmentação da família, das perdas da raízes. Daí a comparação com a tela “Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros?” de Malangatana. Ambas, tratam de uma busca incessante das raízes perdidas em tempos de horror e inconseqüências desestabilizadoras da sensibilidade humana.

Depois, li trechos da crônica “O Gênio Ingênuo" de Mia Couto a respeito da obra de Malangatana Valente. Basicamente, comentei características formais e temáticas da pintura do pintor da Matalana como o surrealismo e a presença dos sonhos em “Monstros grandes comendo monstros pequenos”, explorando a representação de seres do imaginário da etnia ronga como os shetanis, lumpfanas, xicuembos etc., as cores vibrantes, os excessivos elementos asfixiados no espaço da superfície pintada e a analogia com a situação moçambicana perante o colonialismo português, o sincretismo religioso em “O feitiço”, e a planaridade da tela numa relação próxima com a técnica do all over de Jackson Pollock.

Ao usar o conto “O cego Estrelinho” de “Estórias Abensonhadas”, atentei-me às novas formas de olhar engessadas em meio à voracidade da guerra, expressas no conto quando o cego Estrelinho conduz sua guia além dos vários firmamentos com as pinturas oníricas de Roberto Chichorro. Destaquei o lirismo da narrativa coutiana acompanhado pelas cores e temas expostos por Chichorro. O predomínio da cor azul e a analogia com o infinito, a liberdade e a imaginação criadora, segundo Gaston Bachelard; os olhos também na cor azul, sendo o surrealismo onírico citado por Carmen L. T. Secco, os olhos dos sonhos a imaginar uma vida sem as atrocidades reinantes dilaceradoras da paz entre os homens. Além das alegorias de pássaros, do ar como elemento da natureza, representando os vôos da imaginação e da liberdade.

Ainda com Mia e Chichorro, aproveitei para mostrar dois momentos de esperança na história recente de Moçambique. O primeiro está retratado na tela “sonhar amanhã sem lágrimas”, onde Chichorro transmite toda a euforia do momento de nascimento de Moçambique independente com destaque para a representação de duas personagens lendo livros. Lembro que o idioma português, ou seja, a língua do colonizador, foi utilizado como arma para unificação das etnias contra o regime então vigente. No segundo momento, usei o conto “Chuva: a abensonhada” para falar do encerramento da guerra fratricida, a desconfiança inicial do narrador com o futuro e a entrega feliz, lúdica, com a paz que se inicia.

Para finalizar, abordei possíveis relações da obra coutiana com a arte multifacetada de Naguib. Em texto para catálogo de sua exposição, em que Mia frisa o caráter plural da arte do artista da região do Tete. A respeito da arte deste artista, Mia comenta: “obra de mestiçagem, sem buscar as identidades mas as fronteiras, os cruzamentos e as viagens. Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos do nosso tempo moçambicano, as diversas raças do nosso ser colectivo”.

Foi explorando o multiculturalismo nas obras de Naguib que comentei as múltiplas linguagens utilizadas por ele, como a fotografia, a pintura, o uso de jornais, sites specifics, grafismos como hieróglifos nos remetendo a um passado esgarçado na tentativa de revivê-los. Além disso, sua arte é sensual, erótica, livre e celebradora da vida de um novo tempo moçambicano, com destaque para as mulheres zoomorfas.

Para finalizar a apresentação, entre Mia e Naguib, em comum, a linha tênue da ancestralidade/modernidade. Em Naguib, os procedimentos contemporâneos: fotografias para retratar a árvore sagrada, o embondeiro, com pinturas rupestres. Em Mia, o conto “O embondeiro que sonhava pássaros” de “Cada homem é uma raça”, também aponta para o resgate das raízes perdidas por séculos de colonização, representado pelo menino Tiago, filho de portugueses no tempo da colonização, o seu envolvimento com a cultura local e a presença do animismo africano trabalhado com brilhantismo pelo narrador.

Com isso, procurei mostrar a confluência das artes desses artistas moçambicanos, perseguidores da memória esfacelada, dos sonhos esgarçados, desbravadores das sendas de lirismo da poesia em um mundo dominado por mentes obliteradas. Artistas que prezam por expor um país multicultural, sem omitir os olhares atentos às mazelas sociais e políticas na expectativa de um tempo novo para Moçambique. Um tempo sem a crueldade do outrora e distante da perversidade neoliberal da atualidade.

Para quem quiser acessar a apresentação, basta acessar este endereço:
Ricardo Riso

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Palestras Ricardo Riso - UERJ e UNESA

Farei duas palestras nos próximos dias. A primeira, intitulada Breve panorama da literatura cabo-verdiana, acontecerá nos dias 30/10 - às 17h, e 01/11 - às 10h, na sala RAV-94, em uma mesa-redonda que encerrará o curso de extensão História da África Antiga, ministrado pelo Prof. Ms. Cristiano Bispo, patrocinado pelo Núcleo de Estudos Antigos (NEA)/UERJ.

A segunda será durante a Semana de Letras 2008 – Universidade Estácio de Sá/campus Millôr Fernandes. Apresentarei a palestra Diálogos possíveis: letras e telas de Angola, Cabo Verde e Moçambique, dia 04/11, às 21h (sala ainda não definida).

A seguir, a programação da Semana de Letras 2008.

Abraços,
Ricardo


03/11/2008 - 2ª feira

ABERTURA
LOCAL: Biblioteca
19:30 – Abertura
Prof. DEONÍSIO DA SILVA
DIRETOR DO CURSO DE LETRAS

04/11/2008 – 3ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30: - LEONARDO BERENGER ALVES CARNEIRO
“Mary England”

LOCAL: Sala XXX
19:30: - Profª ANA CRISTINA COUTINHO VIEGAS
“Oficina de Leitura”

LOCAL: Biblioteca
21:00 – Profª MARTA NASCIMENTO FARACO PIMENTEL
“Neologismos nas charges e nas histórias em quadrinhos dos jornais cariocas: uma abordagem léxico-semântico-discursiva”

LOCAL: Sala XXX
21:00 – Aluno RICARDO SILVA RAMOS DE SOUZA
“Diálogos possíveis: letras e telas de Angola, Cabo Verde e Moçambique”


05/11/2008 - 4ª feira

LOCAL: Biblioteca
Prof. CARLOS ALBERTO STOWASSER SANTOS
19:30 - "A identidade feminina na obra de Florbela Espanca".

LOCAL: Sala XXX
19:30 – Profª GILDA KORFF DIEGUEZ
Apresentação do trabalho de pesquisa: “O realismo fantástico na literatura”
Aluna DAYANA MENDES LOPES
Aluna FABIENNE BRUCE OLIVEIRA


“LOCAL: Biblioteca
21:00 - Prof PEDAGOGIA

LOCAL: Sala XXX
21:00 – Aluna ANA PIÑON
“Novela picaresca espanhola” ou “Quixote”

06/11/2008 - 5ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30 – ROSANGELA SALVIANO
“Título”

LOCAL: Sala XXX
19:30 - Profª NORMA LIMA
“O docente e a Lei 10.639, que instituiu o ensino da Cultura Afro-Brasileira nas escolas públicas e privadas”.

LOCAL: Biblioteca
21:00 – Prof. MARIA DA CONCEIÇÃO GUERRA DE MORAES
"Pablo Neruda e Nicolás Guillén: poetas da liberdade"

LOCAL: Sala XXX
21:00h – RUBEN MARCELINO BENTO DA SILVA
“Poesia Práxis: Adailton Medeiros”

07/11/2008 - 6ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30 Prof. IVO LUCCHESI
“Do código verbal ao audiovisual: um caminho sem volta”

LOCAL: Sala XXX
19:30 – Prof. ACCACIO JOSÉ PINTO DE FREITAS
“Oficina de Leitura de Poesia: campo semântico”

Local: Biblioteca
21:00 – Aluno LEONEL ISAC VELLOSO
“Sousândrade: a margem e a errância”

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carmen Tindó: lançamento do livro A Magia das Letras Africanas

A Quartet Editora e a Livraria do Museu da República convidam para o lançamento de A Magia das Letras Africanas, de Carmen Lucia Tindó R. Secco, dia 15 de outubro (quarta-feira), das 17h às 21:30, na Livraria do Museu da República, Rua do Catete, 153 - Rio de Janeiro - RJ.


sexta-feira, 8 de agosto de 2008

E. Bonavena e Pablo Picasso: uma comparação

Um ‘grito abafado’ por ‘ovos metálicos que explodem’: a influência nefasta da guerra na poesia de E. Bonavena e na pintura de Pablo Picasso

Os tempos de guerra demonstram as piores facetas da irracionalidade humana envolvida em uma crueldade desmedida, que dissemina o ódio entre os homens de nações diversas ou em lutas fratricidas. Essas ações geralmente ocultam interesses políticos e econômicos alimentados pelos líderes nacionais, motivados pela incomensurável ganância e total desprezo pela vida das pessoas comuns, cujo desespero é sentido em um cotidiano de caos em períodos de conflitos com curta ou longa duração. Infelizmente, esses desarranjos, independentes do tempo, deixam marcas indeléveis na existência daqueles que os presenciam.

Por outro lado, são nesses tristes momentos da história da Humanidade que o artista surge para revigorar e realimentar a crença na condição humana, apresentando obras que denunciam os terríveis acontecimentos vivenciados pelos seus pares e apontam novos caminhos para a reconstrução da harmonia entre os homens, reconduzindo-os das trevas à luz. O múltiplo e prolífico artista plástico Pablo Diego José Francisco de Paulo Juan Nepomuceno Cipriano de la Santíssima Trindad Ruiz Picasso, considerado por boa parte da crítica especializada como o principal nome das artes no século XX, e o poeta e ensaísta angolano E. Bonavena compartilham do justo sentimento em crer na força solidária do homem para superar as atrocidades causadas por sangrentos conflitos, que tentam destroçar a sensibilidade do ser.

Embora vários nomes representativos do modernismo europeu tenham migrado para os Estados Unidos com o início da Segunda Grande Guerra, Picasso permaneceu na Europa durante todo o conflito. Legou à Humanidade diversas obras detentoras de um expressionismo exorbitante e agrupadas sob a alcunha “Anos de Guerra” (War Years – 1937/1945), sendo o ápice desta fase o mural “Guernica”, realizado em 1937, que será objeto de análise. Enquanto E. Bonavena, pseudônimo literário de Nelson Pestana, em seu livro de poesia “Os limites da luz”, brinda-nos com poemas produzidos na diáspora européia carregados em reminiscências, sonhos e erotismo para propalar o extravio das esperanças angolanas, mediante a barbárie de tantos anos de guerra civil no pós-independência. Restando ao eu lírico, enunciar sendas da utopia que são percorridas e refeitas com persistência pelo poder libertário do Verbo.

Nascido em 26 de fevereiro de 1955, em Luanda, E. Bonavena publicou em poesia “Ulcerado em míngua luz” (1987) e “Os limites da luz” (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003), que será analisado neste texto.

O poeta enquadra-se na “geração das incertezas” da literatura angolana surgida na década de 1980, como definiu o crítico literário e também poeta, Luís Kandjimbo (SECCO, 2006, p. 94). Tal geração é posterior a “geração do silêncio” dos anos 1970, reveladora de nomes como David Mestre, Arlindo Barbeitos e Ruy Duarte de Carvalho. Essa geração era

“voltada para a redescoberta ética e estética da palavra poética (...), tendo-se caracterizado pela consciência crítica em relação ao ato de escrever (...). O poema passou a ser, desse modo, o lugar de encontro do poeta consigo mesmo, o local, portanto, da descoberta existencial, política e literária. Nesse sentido, deu passagem à poética dos anos 1980, que radicalizou, em vários aspectos, as conquistas estéticas da década de 1970, diferenciando-se dela, contudo, por não adotar a práxis do silêncio.” (SECCO, 2006, p. 93-94)

A década de 1980 representa o período de desilusão com a utopia revolucionária de um país independente, causada, dentre outros fatores, pela guerra civil iniciada em 1977, entre MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola, o principal partido na luta contra o colonialismo e liderado pelo poeta Agostinho Neto) e a UNITA (União Nacional para a Libertação Total de Angola, oposicionista e sob o comando de Jonas Savimbi, apoiado pela África do Sul e contrário ao regime socialista imposto em Angola). Com isso, o desencanto, que se estende aos poetas revelados nos anos 1990, leva a poesia a ter,

“como traço marcante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais”. (SECCO, 2006, p. 94)

A Brigada Jovem da Literatura (BJL) criada na cidade de Luanda, em 1980, aparece para lançar nomes da nova geração. Segundo o poeta Lopito Feijóo, “foi a maneira como os jovens encontraram (...) de se organizarem para traçarem linhas comuns e partirem para uma carreira literária, ao mesmo tempo que, também, uma homenagem ao poeta Agostinho Neto” (LEITE, 2006, p. 45). E. Bonavena começa a se destacar no universo literário angolano com a publicação da revista “Archote”, uma dissidência da BJL, em 1986. Ao dar continuidade a esse processo, como explica a ensaísta e poeta moçambicana Ana Mafalda Leite, E. Bonavena

“critica o caráter institucional das Brigadas, cujo nome aliás denuncia um certo arregimentar dos criadores em torno de um programa político, mais do que uma opção verdadeiramente literária, e a forma como estes grupos estavam ligados ao poder, nomeadamente por fazerem parte da Juventude do Partido” (LEITE, 2006, p. 45)

Em “Os limites da luz”, E. Bonavena apresenta-nos um conjunto de vinte e um poemas divididos em três partes rigorosomente iguais, nas quais nos deparamos com referências aos tempos de outrora, motivados por um eu lírico distante de sua terra natal. Na Europa, o eu lírico enunciador recorre aos sonhos para refletir sobre os erros do passado cometidos pelas lideranças políticas e denunciar a situação de desesperança em que o país se encontra. Além disso, busca em seus versos os amores do passado para o seu refúgio tranqüilizador, valendo-se de poemas carregados em erotismo.

A intensa decepção é sentida logo na epígrafe do livro, pois “somente os traidores, mesmo fazendo história,/ estarão ausentes desta memória/ leve” (BONAVENA, 2003, p. 7). O desalento com o caos vivenciado por tantos anos de guerra, somente encerrada em 2002, faz com que o poeta, na distante cidade de Paris, recorde suas influências literárias da geração da histórica revista Mensagem – Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz –, e poetas portugueses, entre eles, Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Almada Negreiros. Assim como os amigos, a presença do elemento primordial da natureza, a água, como recorrência das memórias primeiras, tendo como alegoria o rio Kwanza, símbolo de Angola. Além da constante presença dos rostos dos mortos durante o conflito, que tanto o atormentam e cobram a promessa “de um dia redimir/ a memória da pátria” (p. 12), pois “a memória, como forma de pensamento concreto e unitivo, é o impulso pioneiro e recorrente da atividade primeira” (BOSI, 1977, p. 152):

“Debruço-me
sobre as águas do rio
e ao tocar leve as vagas,
trago entre os dedos
fragmentos da minha vida
e a ressonância dos poetas
da Mensagem.

Falo de Viriato
Pessoa, Neto e Jacinto,
aos quais junto
Negreiros, Sá Carneiro e
os meus amigos. (...)

E me lembro das águas revoltas e escuras
Do Kwanza, sem pontes,
E com elas o rosto dos mortos
Que me dizem que tardo
em cumprir a promessa
que fizera no silêncio,
na Muxima de um dia redimir
A memória da pátria. (...)” (p.11-12)

A aflição com a presença constante dos mortos em sua mente no decorrer do longo poema: “Chatos!/ Que não me deixam/ Dormir” (p. 13), “E a persistência/ dos mortos./ Que teimam.” (p. 16), “Os mortos,/ Retornam e me lembram/ As promessas” (p. 18) é proporcional a quantidade absurda de angolanos exterminados durante o conflito, “os rostos/ que se multiplicam/ aos milhares” (p. 13), que tiveram suas vidas extirpadas na guerra fratricida, fazem o eu lírico dedicar “centenas de velas acesas/ aos nossos mortos e à Paz/ Das suas almas” (p. 16), o que aflora a sensação de impotência: “Apenas tenho entre as mãos,/ ‘A miséria do meu ser’/ Como diria Pessoa” (p. 19).

Os horrores da guerra são indiferentes na escolha de suas vítimas em uma tenebrosa “aritmética da morte”, que ceifa os jovens idealistas e tira o “sonho que lhes soprava a vida” (p. 24) demonstrado em um estudante revolucionário, Kimpwanza, “embalado pelo murmúrio da noite/ e uma bala transpassando-lhe/ a garganta” (p. 21); e, em Wandalinka, “percorrido por um vento frio,/ saraivou à altura do peito,/ medalhando para sempre” (p. 22) o professor primário. Os dois, crentes nas conquistas da revolução apesar das visões diferenciadas em política e religião convergiam na educação. Na conduta atroz dos que lutam na guerra, citamos alguns dos diversos exemplos dos quais o eu lírico se sente obrigado a revisitar:

“Assim,
acreditando na utilidade
desta aritmética da morte,
se finaram os meus amigos,
precoce e nobremente
mas sem construir
o sonho que lhes soprava a vida.

Apenas me legaram
este dever de memória!...” (p. 24)

Os sonhos esgarçados conduzem o eu lírico a recordar as origens do passado literário angolano com a procura do “futuro anterior” (p. 28), um futuro distante que parecia promissor. Além do papel fundamental das manifestações iniciais de identidade e esperança, contudo, ainda tímidas, na imprensa do país, em fins do século XIX:

“Falava alto
para sobrepor
e procurava o futuro
anterior, nas páginas amarelecidas
da imprensa oitocentista,
(...) dando rosto
aos meus sonhos, alimentados
pelo delírio azul do modernismo,
acariciados pela poesia
da identidade e da esperança.

Na noite!, me encontrava
um pouco e voltava
a mim e
esperava de cócoras,
com certeza no futuro! (p. 28)

Entretanto, no poema seguinte o tempo futuro configura-se incerto, alegoria de um país trilhando o tortuoso caminho da reconstrução. Os versos apresentam características típicas de Angola, alertando os cidadãos para que se reúnam em torno dos valores nacionais reforçados pelo verbo “ter”, que ajudarão a apontar os caminhos para a reformulação da nação recém saída da guerra fratricida. Agora, se possível, sem interrupções:

“tenho palha,
barro seco e
um chão de milho
por lavrar! (...)

tenho sede
das paisagens da minha terra
e do bucólico dos rios
que as serpenteam (...)

esta felicidade intermitente,
de um sonho e um país
por refazer

tenho esperança
no futuro que se inscreve
incerto!” (p.30)

Enquanto isso, “Novembro Triste” é um poema de lamentação com a trajetória angolana no pós-independência. Após quase trinta anos, novembro, mês da independência, tornou-se amargurado, sem motivos para comemorações por causa da perda da euforia com o país liberto, as promessas não cumpridas pelos políticos e os problemas sociais não resolvidos deterioraram os sonhos:

“nos olhos correm as imagens
de um sonho vivo,
moldado a barro
misturado de sangue
para soletrar – tropeçando nas letras –
uma palavra triste como o país. (...)

encheram-nos os olhos
de novembro, das acácias
aos poetas, falando do sol
e os discursos prometeicos
dos políticos a fingir país
trouxeram flores murchas,
fogueiras apagadas,
meninos sarmentos,
o marasmo na pele dos ventres,
olhos comidos pelas moscas,
rostos mibangados pelo desespero
e o desencontro de Abel
contra Caim.

novembro virou triste.” (p.33-34)

Na segunda parte, O gesto sagital, o viés erótico associado à memória ganha corpo e dá a tônica na maioria dos poemas. No poema-título desta parte, o eu lírico vaga entre os descaminhos da história guiado pelo “reinventar do coração”, alegoria da reedificação do país:

“fecunda
uma saudade
remota
que faz de mim
pastor errante
entre ideias dispersas.

somente
o reinventar do coração:
com o barro da nossa cacimba
nos traz alento e alimento
para arar o estar
entre os heróis
sem nome,
que dão sentido
ao ser. (p.41-42)

Esperança e erotismo unem-se na reforma nacional com o fim da guerra civil. O tom sereno e lírico do poema substitui as agruras e violências do tempo que se findou. O poema encontra espaço para a renovação do amor, o telúrico e a esperança:

"Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.

Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás a amanhecer (...)

Os dias serão maduros
de azul, os cânticos de amor e pão.

Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!" (p. 45)

Maio foi o mês que estourou a guerra civil angolana, em 1977. O mês que ficou marcado por uma triste lembrança é retrabalhado pela reminiscência erótica do eu lírico, que recorre aos tempos pioneiros na escola “como quando repetíamos o abecedário”, à descoberta do amor “entre beijos ardentes” com o avançar da idade. Enuncia-se eroticamente a renovação do mês de maio com a saudosa lembrança de amores passados, alegoria do recomeço angolano:

“éramos três
eu, tu e o Sócrates
que se sentia triste
quando me via navegar,
de vela desfraldada,
entre as vagas e as tuas coxas,
sorriso largo, procurando
o mais do teu calor.

Maio
é sempre um tempo
de flores e de amores.

Deixa tocar os sinos
do teu corpo –
um após o outro – deixa
que o beijo te traga
aos umbrais da luz
e revive
este Maio, apaixonadamente!" (p.50)

Na última parte, o estilo predominante é o da poesia em prosa, e, no nosso entendimento, o momento maior do belo livro de E. Bonavena. Em “Lua Azul”, o eu lírico justifica o recorrente uso da combinação memória e erotismo: “Um corpo, é sempre uma chama, ardente e interior. Aquece e ilumina. Devolve à memória a seiva no seu sabor de origem” (p. 56).

Todavia, o eu lírico atenta-nos para o desespero do cotidiano angolano. De uma sociedade com valores invertidos, sob o domínio da violência desmedida e da corrupção desenfreada. Caos, distopia e chacinas passaram a ser situações rotineiras, infelizmente. Os “ovos metálicos que explodem”, alegoricamente, são as minas implantadas no solo do país durante a guerra, causando grande número de mutilados entre a população civil; enquanto “o grito abafado de luz” é o grito daqueles que não têm voz, filhos de uma pátria dividida por escusos interesses, à mercê de dirigentes inescrupulosos, os “monstros divinizados”:

“Tudo escorre! Na crista da onda, a loucura por excelência. Escorre este oceano de dor, o verdugo, o inocente, gatunos e vândalos, escorre a mentira nas línguas putrefactas, a ordem no canhão, o rancor, as lágrimas, a solidão, a exaltação do mal em medalhas de bronze da ignomínia, escorre a chacina no Bié. Escorrem na capital os dinheiros em bolsos sem fundo, as palavras em líricas gargantas cacarejantes no Huambo, a escuridão de ovos metálicos que explodem, a densidade, o grito abafado da luz.

Uma pátria sem rosto, de corpo dilacerado, se levanta sonâmbula entre os monstros divinizados que a dividem.” (p. 58-59)

Um “País de sal e luz” é denunciado no poema que desmascara os falsos profetas, com seus discursos persuasivos “usurpando a voz coletiva” (p. 67), que iludiram a nação angolana com os líderes e o desencanto com o fim das utopias:

“E em vez da vontade
contida no peito de
um país feito de verde,
leite e milho,
um país de sal e luz,

Houve gritos sufocados,
corpos mutilados,
sonhos adiados,
utopias perdidas:
a liberdade total,
moldada a barro e sangue
dos heróis e mártires da pátria,
decepada.” (p. 68)

Em a “Soberana brisa da navegação”, as lembranças eróticas da amada de outrora reaparecem ao lado da denúncia de esquecimento dos que lutaram bravamente para a libertação do país do jugo colonial português. O descrédito e a desolação dos angolanos com a situação nacional em incontestável caos social, é escancarado na metáfora da “noite nos olhos”:

“Porque em todos os mercados os corpos amanhecem com noite nos olhos. Na boca fruta sumarenta e doce, e da kianda e da memória, O tempo se esquece dos heróis e toda a fruta na kinda apodrece.

Por isto te falo dos reis derrotados como cinzas mornas da história, umas vezes triste outras gloriosa. Te digo dos escravistas de agora que nos deixam apenas uma pálida lembrança colada à pele da fome. E volto ao morno dos teus beijos para me salvar da loucura irremediável de te trazer ao fogo da genuína inquisição. Porque ninguém sabe onde me levam estas águas correndo sob a ponte. Talvez amanhã!” (p. 71-72)

É o desencanto e a angústia presentes na enunciação do poema, caracterizados pelo problema da fome, de líderes que mantêm as condições desumanas de parte da população, agora sob a opressão de um regime neoliberal excludente. O eu lírico recorre ao erótico libertador, à memória, e aos mitos, como a Kianda - deusa do mar -, a água como elemento primordial da natureza. Sendo que este, na esperança de conduzi-lo corretamente em um rumo incerto. Mas que necessita ser encontrado.


Guernica. óleo s/tela. 760 x 350 cm. 1937. Museu Reina Sofia


Em “Guernica outra vez”, o eu lírico dialoga com a grande tela de Pablo Picasso, “Guernica”, que se tornou um libelo de toda a Humanidade a qualquer forma de opressão. Com “Guernica”, Picasso escandaliza o mundo ao retratar o bárbaro ataque aéreo à pacata cidade espanhola, na região basca, numa perversa parceria entre a força aérea hitleriana, a Legião Condor, com o ditador Franco durante a guerra civil espanhola.

O ataque aconteceu em 26 de abril de 1937. A cidade foi bombardeada por quase três horas em um horário de grande movimento entre os agricultores da região. Estima-se que 40% da população foi morta ou gravemente ferida. Foi a primeira vez na história que uma cidade havia sido bombardeada. Segundo Perktold:

“o fato, por ter ocorrido antes dos horrores da Segunda Guerra Mundial, quando cenas dessa natureza passaram a ser banais e quase diárias, tornou-se emblemático. Com Franco, a humanidade ratificou o que já aprendera na Primeira Guerra Mundial: matar pode ser como algumas atividades capitalistas – por atacado.” (PERKTOLD, 2006, p. 6)

Picasso toma conhecimento do que acontece a Guernica na festa do 1o. de maio parisiense. Indignado com o brutal ataque aos seus conterrâneos, o artista, radicado em Paris há mais de trinta anos, fecha-se em seu ateliê e começa a elaborar o que seria uma de suas maiores obras, só comparável a “As mulheres de Avignon”, feita em 1907. “Guernica” marca também o início de um artista mais politizado, conduzindo-o aos ideais socialistas e ao expressionismo voraz que o acompanharia no decorrer da Grande Guerra.

A genialidade de Picasso em “Guernica”, está no fato de não retratar o bombardeio da cidade basca, mas de um grito. Grito desesperado de todos os elementos da tela, menos o touro. O crítico de arte Fernando Morais ao comentar a obra, esclarece que na tela há:

“Um grito calculado, que carrega atrás de si, ou consigo, uma rigorosa estrutura plástica. Não é a representação anedótica de um fato histórico, mas a sua reinvenção plástica, uma versão pessoal, na primeira pessoa. E, só por isso, ecoa ainda hoje como obra de arte e como denúncia dos bombardeios que continuam sendo feitos contra cidades, aldeias ou populações indefesas em todo o mundo. Comove por sua dimensão especificamente humana, isto é, política, e envolve por sua dimensão artística.

Na simbologia picassiana, o touro representa a força bruta, o mal, por oposição ao cavalo, que representa a inocência, o bem. Se o touro é o homem e o cavalo a mulher, na fase preparatória de Guernica o touro será o fascismo e o cavalo, o povo espanhol. (MORAIS, 1999, p. 22)

A importância de “Guernica” se dá por ser uma obra atemporal, porque “tudo ocorre no espaço fechado – um espaço doméstico. No espaço exíguo, (...) a destruição é maior e a extrema fragmentação e a aproximação de corpos de homens e animais aumenta consideravelmente a sensação de dor” (MORAIS, 1999, p. 22). Por valorizar aquilo que é humano, relacionamos a obra com a estupidez e a selvageria ocorridas entre a população angolana. De acordo com Perktold:

“O painel é dirigido ao gênero humano e transmite esperança. É, também, fruto da mistura de amor às vítimas e de ódio ao inimigo, de indignação, horror, medo, empatia e da compreensão interna percebida pelo artista espanhol da dificuldade que o homem tem para lidar com o seu semelhante e, por isso, paradoxalmente cheio de humanismo. Ele é o registro (...) a impedir que a carnificina seja esquecida. (...)

‘Guernica’ é, antes de tudo, uma manifestação profética do que o homem do século XX, com sua ciência e tecnologia, produziria nos anos seguintes: os mais devastadores artefatos de guerra e as piores idéias totalitárias, de direita e de esquerda.” (PERKTOLD, 2006, p. 6)

Incomoda na tela os gritos inaudíveis e as expressões agonizantes das figuras despedaçadas. Os gritos são de pessoas, animais, objetos e sensações. Todos, impotentes sob a devastação propiciada pelo homem, como invoca o poema de Picasso: “gritos de criança, gritos de mulheres, gritos de pássaros, gritos de flores e de pedras, gritos de camas e cadeiras, de potes, gritos de gatos, de papéis de odores” (MORAIS, 1999, p. 22). Apesar de todo o horror de um grito abafado, o painel apresenta uma lâmpada em sua parte superior, alegoria da ciência e da tecnologia, as mesmas que proporcionaram o desumano ataque serão utilizadas para conduzir o homem ao caminho da paz entre os escombros.

Como o mural feito por Picasso, que nos convida a uma nova forma de olhar a bestialidade humana, os versos de E. Bonavena demonstram a crueldade da realidade exposta de um conflito fratricida e duradouro.

Seguindo o conselho de Henry Matisse, Picasso convenceu-se a pintar o mural como uma “sinfonia monocromática”, o que é compartilhado por E. Bonavena que também não consegue visualizar as cores, no caso, o azul, alegoria do universo onírico, esperança e sonhos inexistentes na Angola dilacerada pela guerra:

"Se os meus olhos
fossem
os olhos de Picasso
estariam transbordantes
de azul,
mas não – não o são." (p. 61)

A desgastante situação de guerra entre seus pares, confunde e dispersa os sentidos do eu lírico que coloca em dúvida suas percepções, como nas divagações relatadas nos versos:

"E se o fossem,
Talvez,
não tivessem percebido
como a menina do Huambo
tem a perna
mais linda do mundo
que a outra se foi
por um dólar.

Talvez, os olhos
de Picasso
não teriam retido
o castanho-luz do seu olhar (...)

Talvez, ou simplesmente
o Bié
sairia da boca dos cavalos
de Guernica,
Outra vez!" (p. 61-62)

A reutilização e atualização de elementos da obra picassiana para a sangrenta realidade angolana são escancaradas, como na menina mutilada, denunciando o grave problema das minas implantadas por todo o país, causando até os dias atuais acidentes e mortes. Como em Bié, cidade próxima a Huambo, que sofreu violentos ataques no período da guerra, ao retomar o grito do cavalo de “Guernica” que passa a ser o “grito abafado” da população.

E. Bonavena encerra “Os Limites da Luz” com o poema dedicado ao amor de outrora e aos ideais não concretizados que perpassam por toda a obra:

Destas lágrimas não te digo porque as verti sem querer. Falar-te-ei da tristeza consciente, desta que alimento como talismã para me salvar da saudade. Deixei o sorriso exilado nos teus lábios. Contigo foram também os sonhos. Resta apenas a tua lembrança, como uma nódoa forte que jamais se vai separar do brim onde mora. (p. 73)

É, de acordo com Alfredo Bosi, no “reinventar imagens da unidade perdida, eis o modo que a poesia do mito e do sonho encontrou para resistir à dor das contradições que a consciência vigilante não pode deixar de ver” (BOSI, 1977, p. 155). Assim, o eu lírico “prisioneiro da saudade” assume o direito ao amor e à imaginação contra as agruras vivenciadas por décadas de uma guerra insana, que destruiu os sonhos por um país melhor. Sendo assim, o eu lírico refaz o passado pelos caminhos da palavra que trilha novos percursos para a poesia angolana do século XXI.

Pablo Picasso e E. Bonavena, vivenciaram, em momentos distintos, a bestialidade humana perante o seu semelhante. Em um século que presenciou a criação de sangrentas e avassaladoras armas de destruição, o século XXI que se inicia se espanta com a voracidade do neoliberalismo das nações dominantes, ao impor sua maneira política, econômica e cultural de agir, excluindo toda e qualquer forma de expressão e autonomia dos países periféricos.

Entretanto, artistas, como os dois analisados aqui, contribuem com seus pares ao denunciar a perversidade com que o poder trata os destinos das populações desfavorecidas. Picasso e E. Bonavena prestam suas colaborações à Humanidade ao fazer ouvir os gritos que suas obras eclodem em nós. Gritos contra a ganância, a estupidez e a violência exacerbada que marcaram e marcam os últimos tempos.

Pablo Picasso e E. Bonavena, dois artistas que renovam a esperança no homem, valorizam a condição humana em suas obras. Dois artistas que nos fazem enxergar a luz.

Ricardo Riso


BIBLIOGRAFIA:
BONAVENA, E. Os limites da luz. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, Universidade de São Paulo, 1977.

LEITE, Ana Mafalda. Poesia angolana: percursos (des)contínuos. In: Revista Poesia Sempre: Angola e Moçambique nº 23. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2006.

MORAIS, Frederico. Mitos e mitologias de Picasso. In: catálogo da exposição Picasso, Anos de Guerra 1937-1945. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de 27 de julho a 07 de setembro de 1999.

PERKTOLD, Carlos. Sinfonia monocromática. In: Jornal Estado de Minas. Caderno Pensar, p. 6, de 29 de abril de 2006.


Picasso. Coleção Gênios da Arte Vol. VI. Barueri: Girassol; Madri: Susaeta Ediciones, 2007. p. 70.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana de hoje). In: CHAVES, Rita; MACEDO, Tânia (ORG). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.








terça-feira, 29 de julho de 2008

Artsambique

Artsambique é um ótimo site voltado para a promoção e divulgação da cultura moçambicana.

Recomendo a visita:

http://www.artsambique.com/

Ricardo Riso

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Elos de Moçambique

Desde o dia 21 de julho este blog integra o portal Elos de Moçambique, que agrupa os mais variados sites, comunidades e blogs ligados àquele país.

Para conhecer o portal, clique em http://groups.msn.com/MoambiqueELOS ou no selo que fica na parte superior da coluna à esquerda.

Ricardo Riso

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Mia Couto: O beijo da palavrinha

Com o lançamento no mercado brasileiro da editora Língua Geral, especializada em divulgar autores da língua portuguesa, e sua coleção intitulada Mama África, direcionada ao público infantil com contos tradicionais africanos escritos por autores consagrados e ilustrado por artistas plásticos igualmente prestigiados, resolvi analisar um título da coleção mencionada, a saber: O beijo da palavrinha, escrito por Mia Couto e ilustrado por Malangatana Valente. Dois artistas moçambicanos comprometidos com a sua terra, com a pluralidade cultural de seu país, com o bem-estar entre os homens das diversas “raças” e crenças, e que fazem do universo onírico o espaço necessário para perpetuar os seus desejos de liberdade, de preservação das culturas autóctones e de uma sociedade plural e pacífica.

Em O beijo da palavrinha, Mia Couto conduz-nos ao interior de sua Moçambique, a um lugar onde vivia uma menina que nunca vira o mar, e para enfatizar a distância da localidade do litoral, afirma: viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz. Logo na primeira página o autor contextualiza, de maneira simples e clara, o ambiente de dificuldades causados pela seca e miséria, que se confirma no próprio nome da personagem principal, Maria Poeirinha, a indicar o flagelo, a vida sem maiores aspirações da menina. Os nomes das personagens são fundamentais para compreender a obra coutiana. O uso da onomástica apresenta características que compõem os personagens de suas estórias. Há de se ressaltar também o trabalho gráfico que faz uso de uma fonte em tamanho reduzido, pequena e discreta na oração em que o nome da menina é apresentado em relação aos outros parágrafos desta página inicial a chamar a atenção do leitor-criança para a condição minúscula da personagem. Ao lado do texto temos a ilustração de Malangatana em uma de suas principais características, a imagem poluída por figuras humanas, confinadas e asfixiadas no espaço limitador da moldura da tela, estilo que brilhantemente representava a condição dos moçambicanos diante da ação colonizadora e da posterior guerra civil que assolou o país em diversas pinturas da sua carreira, além da cor vermelha constante na obra do artista, e principalmente as diversas expressões faciais encarando o leitor, que retratam espanto, tristeza, melancolia, dor e indiferença. O artista ilustra o povo da aldeia, procura valorizar a cultura autóctone, caracterizando suas pessoas com trajes típicos como cordões e ornamentos nas cabeças, e utensílios domésticos como um vaso.

Diante da miséria em que a personagem vivia, até o sonho, espaço libertador dos descaminhos de um sofrido cotidiano, espaço para se escorar no universo onírico para dar asas à imaginação e trazer um pouco de alento a tão triste vida, nem nesse espaço ilimitado e livre a menina consegue desvencilhar-se de sua condição, como relata o autor: até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos. Às vezes se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos. A descrição de seu manto representa o seu viver fragmentado e frágil como grãos de areia, a falta de ambição porque talvez nem saiba o que isto seja, e ausência de qualquer expectativa de melhora, pois o que imagina bom está distante como a princesa de um livro, condição esta que também é motivada pela hostilidade do ambiente em que vive. O seu espaço físico-geográfico hostil, é o que decepa as asas literárias do sonho para rapidamente recolocá-la no seu meio, na sua realidade crua, de pés descalços, intenso calor e rio seco: Mas depressa ela saía do sonho pois seu pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão. Enquanto isso, Malangatana representa em intensas alegorias o sonho da menina, porém percebemos um peixe enorme e furioso pronto para aboncanhá-la e, assim, trazê-la para o seu mundo. E diante dos sonhos interrompidos, mais uma vez o predomínio dos tons avermelhados na ilustração.

Dois coadjuvantes são apresentados. Primeiro, seu único irmão, Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa. A seguir, o tio Jaime Litorânio que achava um absurdo seus familiares não conhecerem o mar, pois este o havia aberto a porta para o infinito. Para Jaime Litorânio o mar era seu universo de liberdade contra as agruras da vida, como acreditava: havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do sol mas das águas profundas. O mar, a porta para o infinito, um infinito de liberdade, sem pobreza, sem miséria que vinha das águas profundas, contrastando com o pélago profundo de Charles Baudelaire em As flores do mal. O mar infinito como lugar de refúgio, abrigo, acalanto, como lugar de toda cura contra as mazelas da vida. Assim pensava Jaime Litorânio, que destaca em seu nome sua paixão pelo mar. O infinito é destacado na diagramação das páginas desta passagem. E Malangatana retrata a luz deste mar profundo em figuras dispersas, apenas rostos, rostos impessoais, fragmentos de rostos flutuando (nadando) no espaço. O mar que exige a alma inteira, entregue para visualizar e reconhecer a mencionada luz, que pode ser a própria luz da pessoa que se dispõe a tal exercício libertário.

Daí o tio crer que a cura da doença da menina, quando esta desenvolve uma terrível enfermidade que a leva à beira da morte, ser o momento exato para que conhecesse a praia e descobrisse outras praias dentro dela. A incredulidade dos moradores da aldeia apresenta-se: Mas o mar cura assim tão de verdade?, entretanto o tio permanece convicto e insiste na salvadora viagem. E Malangatana apresenta um destemido navegante na popa de um barco, cônscio de sua sagrada missão, a de conduzir a pobre Poeirinha que parece nos encarar assustada com a velocidade dos acontecimentos e proporcional rapidez da morte que se aproxima.

Contudo, a viagem não se concretiza em razão da elevada fragilidade da menina. As pessoas não sabem o que fazer e sua mãe começa a entoar as velhas melodias de embalar. Em vão. Momento que Malangatana registra com lirismo comovente o leito de morte de Poeirinha, cercada por conhecidos e sua mãe que pega a sua mão. Todos já se conformam com a morte de Poeirinha, já preparavam as finais despedidas, até que aparece na cena seu irmão Zeca Zonzo com um papel e uma caneta.

Zeca Zonzo informa que vai mostrar o mar para irmã e surpreende a todos ao não desenhar o que esperavam, como um oceano azul cheio de peixes. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra “mar”. Apenas isso: a palavra inteira e por extenso. Zonzo ainda não sabe o que fazer, até que sua irmã murmura em débil suspiro: Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada, tão cansada que já não consegue se levantar. Os olhos, as pálpebras sem forças para se levantar, a luz cansada. Faróis, faróis de luz que iluminam a vida. O olhar distante da menina que olha apenas de soslaio para a discreta claridade no alto a sua esquerda, a remeter características barrocas, como o claro x escuro, o contraste entre o terreno e o sagrado, a posição superior diagonal da luz invadindo a ilustração e o tratamento granulado empregado pelo artista na realização da obra.

Com a fragilidade da irmã, Zeca Zonzo resolve ajudá-la: Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu. Sendo, em seguida, repreendido pelos pais que achavam se tratar de mais um desvario da criança vazia, porém o menino está determinado no seu objetivo e guia o dedo da menina sobre os traços que desenhara. Todavia, Poerinha denuncia sua condição e, entre murmúrios, diz: Estou tocando sombras, só sombras, só. É a vida que se esvai do corpo, desprendendo-se para outro plano, outra vida, como a aura disforme retratada por Malangatana que envolve e se vai do corpo físico para o plano espiritual, a caminhar sozinha em um novo mundo desconhecido, um mundo de sombras, o que é realçado na diagramação do texto com o destaque para a palavra com a fonte em tamanho maior.

Entretanto, Zeca Zonzo insiste e sopra os dedos da irmã como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel. Com o dedo guiado pelo irmão, Poeirinha consegue decifrar a primeira letra, o “m”, momento em que os dois sorriem sem que os outros presentes compreendessem o motivo da alegria. A letra “m” é descrita pelo narrador como feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem, e Poeirinha recorda-se das ondas do rio: Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.

E passa para a letra “a”. É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria. Nesta passagem, Malangatana representa a dor da menina em seu leito com a gaivota imaginária. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela. As pessoas ao redor estavam emudecidas diante das crianças que chegam à última letra: É uma letra tirada da pedra. É o “r” de rocha. E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. Mais uma vez o vermelho ressurge na pintura de Malangatana, os dedos da menina sangram, mas o olhar não revela dor, mas sim, um distanciamento, um vazio, talvez o fim que se anuncia.

Emocionado diante da situação o tio Jaime Litorânio diz: Calem-se todos: já se escuta o marulhar! O som do mar que anuncia a mudança de estado de Poeirinha. E abre-se espaço para o universo onírico de Mia Couto aparecer com a reconhecida maestria: Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. É o vôo da liberdade para uma nova vida sem as agruras da vida terrena. É retomando o sonho da menina transcrito no início do livro e o fantástico surge entre as palavras e viajamos com a gaivota branca ou no rio dos seus sonhos. Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeirinha que se erguia? (...) Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto de remoinhos, remendos e retalhos? A paz, a liberdade e a harmonia sendo conduzidas nas asas de um pássaro, animal que tantas vezes aparece na literatura moçambicana, não só em Mia Couto, mas também nas poemas de Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, e constantemente representado nas pinturas de Roberto Chichorro.

Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra a lenda do flamingo e do nascimento da noite. Conta sobre um flamingo que um dia resolve não mais voar, que está cansado de viver e que deseja ir a um lugar onde só há luz, mas não é dia, e a ave parte e diz aos seus pares: não quero mais pousar, só repousar. E parte em direção ao sol poente:

Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.

Ou seja, os pássaros são tidos como animais sagrados que também fazem essa transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Terna e bela é a última ilustração de Malangatana, ao retratar a menina em seu leito de morte, cercada por seus familiares com olhares complacentes após o seu derradeiro suspiro. O fundo azul simbolizando o mar, a colcha de retalhos, os peixes e a sua passagem desta para outra vida.

Não apenas por ser um livro infantil, mas as crianças são bastante representativas nas literaturas africanas de língua portuguesa, pois estão mais próximas dos antepassados devido a pouca idade, assim como os mais velhos que também estão mais próximos, mas pelo avançar da idade. As crianças são argutas, espertas, observadoras e inocentes, e geralmente ajudam a solucionar conflitos, vivenciam os dramas do período colonial e da guerra. Em O beijo da palavrinha, o personagem Zeca Zonzo era tratado como um menino que nada sabia, nada resolvia, desprovido de juízo, entretanto, partiu dele a idéia de ajuda a irmã, surpreendendo a todos, e mostrando a ela como era o mar, porque nem o tio Jaime Litorânio com todo o seu amor pelo mar conseguiu apresentar à menina como era o oceano, e o menino, de maneira lúdica, teve a felicidade de conduzi-la ao mar através da leitura e da escrita. É importante frisar a presença desses dois últimos componentes na construção de Moçambique independente, e o autor Mia Couto foi um dos participantes nesse processo de divulgação e unificação da nação pela língua portuguesa.

Podemos fazer a seguinte analogia a partir da atitude dos dois irmãos, o estado de saúde de Maria Poeirinha com a palavra “mar” e a tríade início-meio-e-fim. O “m” de mar com suas ondas que sobem e descem, como a condição da menina extremamente doente em seu leito de morte; a letra “a” do mar como a gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria, momento em que todos ao redor haviam se calados pela perplexidade com que a criança vai sendo apresentada ao mar ou pela brisa fria, o vento frio a indicar que algo de ruim estaria por vir, enquanto as crianças, no universo imaginário, preocupavam-se em não demorar com o toque sobre a letra para não espantar o pássaro que ali estava; e quando encerram a leitura e a escrita da palavra mar a menina reconhece a letra “r”, o r da rocha. E os dedos da menina magoaram-se no rugoso r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. A letra “r” muito bem observada pelo autor por causa da sua tipografia. O “r” de rocha que encerra a onda, local de repouso das aves, rocha na beira do mar de vento frio a simbolizar o fim, o término da vida de Maria Poeirinha.

E assim a menina é conduzida pela gaivota e navega no derradeiro sonho.

Eis minha mana Poeirinha que foi beijada pelo mar. E se afogou numa palavrinha.

* análise feita para o módulo Literatura Infanto-Juvenil Africana e Afro-Brasileira, ministrado pela Profa. Dra. Conceição Evaristo, no curso de pós-graduação África/Brasil: Laços e Diferenças (Universidade Castelo Branco).
Fontes:
COUTO, Mia. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
COUTO, Mia. O ultimo voo do flamingo. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2005.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret. 2003.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cabo Verde

É com intensa satisfação que anuncio que este blog - Riso: sonhos não envelhecem - consta nos links sobre Literatura no sítio dedicado a Cabo Verde da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, da Universidade São Paulo (USP). O endereço é http://www.simonecaputogomes.com/

Simone Caputo orienta-me nos assuntos relacionados a Cabo Verde, apresentando pintores, indicando autores e textos sempre com muita gentileza e atenção. Daqui presto meu agradecimento.

Sobre Cabo Verde já postei os seguintes textos:
Tchalê Figueira (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html

Kiki Lima (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/pincelada-rtmica-de-kiki-lima.html

Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Ovídio Martins (poeta)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Dina Salústio (contos)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-liberdade-adiada.html

http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-tabus-em-saldo.html

Ainda este mês, colocarei um texto sobre o livro de contos "Mornas eram as noites", de Dina Salústio.

Riso

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Craveirinha e Malangatana - Comunicação UFRJ

LETRAS E DESENHOS ENCARCERADOS: A RECLUSÃO LIBERTADORA NA ARTE DE JOSÉ CRAVEIRINHA E MALANGATANA VALENTE*
RICARDO SILVA RAMOS DE SOUZA1

RESUMO: A presente comunicação propõe-se a analisar a produção artística de José Craveirinha, com o livro Cela 1, e a série Desenhos de prisão, de Malangatana Valente, que retratam o recrudescimento da violência imposta pelo regime ditatorial português. O objetivo central é estabelecer um diálogo entre as duas obras realizadas quando os artistas eram prisioneiros nas cadeias da pide, e como a experiência da asfixia do cárcere serviu de inspiração para denunciar as mazelas da guerra, a reconstrução da memória coletiva e a afirmação de um Moçambique independente.


*Comunicação apresentada no III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia 22/11/2007.

1 Universidade Federal do Rio de Janeiro

Esta comunicação aborda um período marcante da história moçambicana, iniciado com a guerra colonial em 25 de setembro de 1964, em que os amigos e parceiros de cárcere José Craveirinha, com Cela 1, e Malangatana Valente, com Desenhos de Prisão, em condições adversas, imortalizaram a triste e fundamental passagem da luta pela independência, ao registrar a violência exacerbada nos cárceres do regime ditatorial português em suas obras.

Os poemas de José Craveirinha em Cela 1 referem-se à produção literária que os críticos das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa denominam como a poesia de combate ou de protesto, momento histórico em que os temas políticos e sociais eram necessários. Porém, os dois artistas não reduziram seus trabalhos ao estilo panfletário comum à época. Em meio à revolta justificada por séculos de injustiças sofridas por causa da ação colonizadora, os poemas apresentam a pluralidade cultural que compõe o corpo moçambicano e abordam uma postura contrária ao regime salazarista, que esmagava as manifestações tradicionais locais.

No período citado, o sujeito-lírico versa sobre o desejo de independência da nação. Segundo Alfredo Bosi, “a poesia há muito que não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade”1, enquanto o crítico Manuel Ferreira descreve assim a situação do escritor:

“Nesta fase o escritor pensa a sua terra em termos de pátria, nação, rejeita o Outro – o colonizador –, e está determinado a uma prática literária integrada na nova situação, toda ela voltada, de vez, para a conquista da libertação nacional. Assume-se como homem inteiramente livre, repensa as suas raízes culturais, faz o reencontro consigo próprio e integra-se no destino colectivo de sua gente. (...) o escritor, após ter adquirido a consciência de sua condição de colonizado, liberta-se completamente da alienação e a sua prática literária cria a sua razão de ser na expressão das raízes profundas da realidade social nacional entendida dialecticamente.”2

Os poemas de Cela 1 foram escritos, em sua maioria, na prisão do poeta durante os anos de 1965 a 1969. Apesar de termos o cuidado em não misturar a vida do autor e a obra na análise literária, podemos, como afirma Rita Chaves, dizer que:

“(...) a força da História não deve ser minimizada na abordagem da literatura, em se tratando da produção dos países de língua portuguesa a compreensão desse peso merece atenção especial. Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o contato com os dilemas que a História arma é tão vivo e direto, que a sua dimensão surge visivelmente concreta no cotidiano das pessoas que escrevem e sobre as quais se escreve.”3

No caso de Craveirinha torna-se pertinente esta orientação, pois é com “o poeta e sua experiência que é por ele convertida em matéria poética, o que explica o interesse que ele ganha na abordagem de alguns dos caminhos de sua escrita”4. Logo, a arte é usada como forma de denunciar e conscientizar a sociedade. Segundo Antonio Candido: a “arte coletiva é a arte criada pelo indivíduo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele”5. E é o que depreendemos nas obras do Velho Cravo e de Malangatana, que contam a seguir a experiência no cárcere:

“Lá estive eu na engorda, sem fazer nada. Eu e os amigos também, tão poetas no sentido negativo como eu: por exemplo, Rui Nogar e Malangatana. Só que o Malangatana é para mim um caso muito especial. Estivemos na mesma cela. Quando eu fui para esta cela, era uma cela de castigo, já pequena para mim sozinho; meteram então o Rui, e ficou mais pequena ainda; depois, incrivelmente ainda coube o Malangatana. Desde então, o que me espanta no Malangatana não são os seus quadros: é que ele conseguiu engordar lá dentro (risos). Deve ter havido muito poucos revolucionários na História iguais ao Malangatana. Cantava, assobiava, dormia: mas que grande paz de consciência é essa? (...)”6

“Mesmo na altura de 1961/62 tinha uma actividade política muito grande. Foi quando fiz parte do grupo em que o Craveirinha trabalhava clandestinamente, depois em 1963/64 as atividades crescem, também com o Luís Bernardo Honwana e outros. E somos presos, com o Rui Nogar, (...) Fomos presos juntos, alguns em celas diferentes. (...) fiquei pouco tempo na prisão comparado com muitos correligionários que ficaram de quatro a sete anos. Eu fiquei dezoito meses, (...) A base do julgamento foi pertencermos, sermos simpatizantes, da FRELIMO. (...)”7

O envolvimento com o partido político FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) se dá no início de sua formação, sendo Craveirinha figura capital na sua construção:

“A ligação com a FRELIMO surge muito naturalmente, tinha que surgir (...) Então quem monta a sede da FRELIMO ali no sul fui eu. Desculpe a imodéstia. (...) Então aliciei alguns, como o Rui Nogar, como o José Parente (...) O Malangatana fui eu que o aliciei, e o actual (fevereiro/1990) embaixador moçambicano em Portugal. (...)” 8

Nos poemas e desenhos aqui analisados, veremos o espaço físico do cárcere e o que envolve o cotidiano do preso como fator motivador para os dois artistas. Contra a razão imposta por séculos de colonização européia, o espelhamento dos versos de Craveirinha subverte o barroco tradicional e denuncia as mazelas e fraturas sofridas pelos moçambicanos, escancarando a violência da famigerada polícia política salazarista, a PIDE. O cárcere é exposto de diversas maneiras nos poemas de Craveirinha. Em meio à indignação e revolta, o sujeito-lírico, em ferozes versos, neobarrocamente, mostra este espaço em metáforas insólitas e surreais, em um autêntico surrealismo africano, “bastante diverso do europeu, porque constituído com o esperma da criação e do conjuro cósmico”9:

“(...) E rectangulizados
os pensamentos tuberculizam-se em esquadria
e uns atrás dos outros aos cardumes de náuseas
sangram cotovelos nos ladrilhos.”
10

“Noites enjoadas de um milhão de angústias
racham-me as unhas na lascívia das macias
paredes de cimento (mentira não são macias) caiado
e no amoroso cárcere ensurdecedor de silêncios (...)”
11

A ironia, que beira o sarcasmo, aparece para apresentar a cela. O isolamento é cantado de diversas maneiras e a relação do poeta com o cárcere é exposta com “larga utilização de contrastes, como forma de fazer ressaltar, com maior brutalidade, o sentido dos versos”12.

“O mundo ensurdecedor de moscas de silêncios
os pulsos mata-fomes do grande rato verde do medo
o imaginário omnipotência dos nossos feitiços impossíveis aqui
e o táctil gosto das pontas dos dedos nas paredes (...)
E por dentro a porta ao meio
mais cega
mais surda
e mais muda do que nós
no papel autêntico
de porta fechada.”
13

O pintor Malangatana Valente ilustrará o cárcere em um expressionismo voraz, realizado com parcos recursos. Os desenhos são simples, sem as cores impactantes e os excessos alegóricos que caracterizam as obras do pintor, entretanto apresentam o olhar atento contra o dilaceramento de sua cultura:

“Ora violentos a violência praticada na prisão ora sonhadores o sonho de liberdade de qualquer preso ora com recurso às suas mais fundas origens culturais as da sua aldeia e do seu povo ora evocando as famílias e as tragédias quotidianas ora virados para o futuro imaginando o seu país livre e independente esses desenhos aparecem-nos, na sua diversidade, como um claro retrato da vida e dos sonhos de Malangatana e de seus companheiros de prisão e de luta.”14

Em desenhos como “Sala de castigo da PIDE”, o espaço exíguo ao qual o preso é submetido é contrastado com o seu tamanho desproporcional, denunciando os maus tratos sofridos. Carmen Lucia Tindó Secco cita, a respeito da pintura de Malangatana, a “ausência de vazios que tenta suplementar as lacunas provocadas pelo processo de neutralização das alteridades, ao longo de séculos de submissão”15, que, nesta série, é mostrada nas celas lotadas, em desumana condição. Por outro lado, apresentam a mobilização dos moçambicanos na luta contra o colonialismo, como em “Pavilhão 9 da Cadeia da Machava da PIDE”.

Sala de Castigo da PIDE

No cárcere, Craveirinha mostra-nos um tempo próprio do preso no seu cotidiano de “ausência citadina”. Em uma linguagem paradoxal e muitas vezes sinestésica, o sujeito-lírico versa sobre a angústia da espera, o silêncio e o barulho, as informações passadas sob os olhares dos carcereiros, o breve contato com a família:

“(...) Em centésimos de segundo
os nossos olhos privilegiados
decifram estritas instruções
de mil e duzentas palavras. (...)”
16

“(...) e depois as noites de vinte e quatro horas a fio
ensurdecedoras de silêncio dos ponteiros de angústia (...)”
17

“(...) o chão exausto dos passos
relojoados centímetro a centímetro ida e volta
na perspectiva de mundos de nada todo o dia. (...)”
18

“(...) – ‘São 30 minutos e acabou!’ (...)
Mas a cada visita (...)
Mais sessenta segundos com a família
Não era mais nada
... ERA OURO!”
19


Uma outra presença marcante nestas obras é o nefasto torturador, os agentes da PIDE encarregados de interrogar os presos. Com ódio e violência desmedida, estes agentes “de olhos raiados de sangue”20 procuravam minar a auto-estima dos que ali se encontravam sob suas garras, utilizando variadas e repugnantes práticas de tortura denunciadas na escrita corrosiva do poeta:


“(...) E ao ritmo
da contradança de joelhos nus nem parece
que algures há cartilagens sangrando
a esfolar-se no chão das cadeias.”
21


“(...) Quietos
quatro horas seguidas
comodamente sentados numa cadeira
ao milésimo século de perguntas (...)


Mas...
não falamos!


Nossos
sorrisos moçambicanizados
previamente a carícias
de cacetadas.

E
as bocas inchadas
a sangue natural imitando o vermelho
torna autêntico este verso.”
22

A desprezível figura do torturador foi ilustrada por Malangatana, recebendo a alcunha de “Chico Feio, o espancador da PIDE”. A degradante personagem é mostrada em cenas de violência extrema contra os prisioneiros, violência motivada pela ditadura salazarista, revelando o ódio que os agentes possuíam pelos revolucionários, como em “O prisioneiro” e “A cela”. Na ilustração supracitada, em “Devoragem” e “Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento”, Malangatana substitui os espíritos das religiosidades ancestrais. Os seres fantásticos como os xicuembos, lumpfanas e shetanis que vivem no imaginário fragmentado dos seus compatriotas, tornam-se imensas e assustadoras figuras híbridas, com olhares alucinados, garras e dentes afiados. São monstros materializados, do e no tempo presente, os agentes da PIDE. Como observou Julio Navarro: “sem perder a qualidade estética, pelo contrário, Malangatana começa a integrar no seu imaginário aquela ligação dos seus monstros (...) com o monstro real: o colonialismo”23.

Chico Feio, o espancador da PIDE

O prisioneiro

A cela

Devoragem

Pavilhão da Cadeia da Manchava, espancamento

Entretanto, a resistência à tortura é ilustrada por Malangatana em “Apoio moral aos espancados cela IV” e motivada por Craveirinha com impactantes versos a clamar a união e a afirmação dos moçambicanos, e a inverter a relação com o carcereiro:


“(...) E no sofrimento deste prédio
nós os presos e os que não foram presos
conseguimos o seguinte consenso:
– Voz de prisão aos carcereiros!”
24


“(...) Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!


Será suficiente esta confissão
sr. chefe dos cassetetes
da 2ª brigada?”
25


“(...) Pátria:
o nosso próprio receio
leva-nos ao cúmulo da fúria
mas ao carcereiro o próprio medo
fabrica para toda a polícia
o auge do desespero.”
26


O projeto de nação em sua poesia surge antes da participação na FRELIMO e da guerra colonial. Para Fátima Mendonça o Velho Cravo é “o primeiro escritor a apresentar o espaço geográfico moçambicano em termos de nação”27, e complementa afirmando que:


“O elemento de afirmação nacional que emerge, desde o início, da poesia de José Craveirinha, é pois gerado e produzido por um real definido e marcado, porventura apreendido pelo poeta numa fase em que a sua configuração não é perceptível a muitos: o poeta limitou-se a antecipar-se no tempo, captando e prevendo, assumindo-se finalmente como o ‘fabricante de vaticínios infalíveis’.”28


Portanto, a Pátria é cantada em várias formas, sendo motivo para agregar os moçambicanos sedentos por liberdade:


“(...) Mas
a arma da paixão mais secreta
dos filhos que amam a terra-mãe cem por cento (...)”
29


“(...) Este infinito sentimento
no recíproco amor a homem e mulher
para jamais nos esquecermos de vez
do amor dos amores mais amados
o amor chamado pátria!”
30


“(...) percorro este universo emigrando
diariamente no interior africano
deste território minha pátria
escondido no meu país.”
31


Malangatana Valente recorre aos sonhos para suportar as agruras do colonialismo em desenhos como “Sonho, nota de soltura” e “Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas”. Já José Craveirinha versa sobre o desejo de almoçar com a família em casa “depois do grande sonho conseguido”32. Sonho que somente se concretizaria em 25 de junho de 1975, com a efetiva participação dos dois artistas que viram Moçambique se tornar independente. Com isto, o livro Cela 1 foi publicado em 1980 e a série Desenhos de prisão foi exposta como parte das comemorações do 70º aniversário de Malangatana Valente em 2006, imortalizando em suas obras a terrível experiência do cárcere na luta contra o colonialismo.


Sonho, nota de soltura

Sonho de prisioneiro, almofada de grilhetas


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 88-107, 2002.


BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.


CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.


CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994.


CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.


CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980.


FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989.


LEITE, Ana Mafalda. A fraternidade das palavras. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 20-28, 2002.

NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.


SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 40-51, 2002.



SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.


REFERÊNCIA INTERNET:
FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES.
http://www.fmsoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.

NOTAS:

1 BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 143.
2 FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano 1. Lisboa: Plátano, 1989. pp. 32-33.
3 CHAVES, Rita. José Craveirinha: a poesia em liberdade. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 139.
4 Idem, ibidem. p. 141.
5 CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. p. 35.
6 CHAVES, Rita. Entrevista: José Craveirinha. In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. pp. 241-242.
7 CHABAL, Patrick. Entrevista: Malangatana Valente. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994, pp. 207-208
8 CHABAL, Patrick. Entrevista: José Craveirinha. In: Vozes moçambicanas – literatura e nacionalidade. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Editora Veja, 1994. pp. 99-100.
9 SECCO, Carmen Lucia Tindó. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, p. 45, 2002.
10 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 73.
11 Idem, ibidem, p. 15.
12 BALTAZAR, Rui. Sobre a poética de José Craveirinha. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 100.
13 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 47.
14 FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES. http://www.fmariosoares.pt. Acesso em 26 de outubro de 2006.
15 SECCO, Carmen Lucia Tindó. Craveirinha e Malangatana: cumplicidade e correspondência entre as artes. In: A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as Literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003, p. 226.
16 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 84.
17 Idem, ibidem, p. 76.
18 Idem, ibidem, p. 73.
19 Idem, ibidem, p. 68.
20 Idem, ibidem, p. 49.
21 Idem, ibidem, p. 10.
22 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 14
23 NAVARRO, Julio. Uma gula insaciável. Catálogo da exposição Malangatana: de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões, 1999. p. 51.
24 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 72.
25 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 38.
26 Idem, ibidem, p. 28.
27 MENDONÇA, Fátima. O conceito de nação em José Craveirinha, Rui Knopfli e Sérgio Vieira. Via Atlântica, São Paulo, n. 5, 2002, p. 54.
28 Idem, ibidem, p. 54.
29 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 17.
30 Idem, ibidem, p. 21.
31 Idem, ibidem, p. 81.
32 CRAVEIRINHA, José. Cela 1. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 35.