Mostrando postagens com marcador literatura infanto-juvenil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura infanto-juvenil. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira (livro)

O mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira e ilustrado por Taisa Borges
Descrição
O mundo no Black Power de Tayó
Ilustrações de Taisa Borges

https://www.facebook.com/blackpowerdetayo?fref=ts

O mundo no black-power de Tayó é a história de uma menina negra que tem orgulho do seu cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta uma personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe, que dizem que seu cabelo é “ruim”. Mas como pode ser ruim um cab...elo “fofo, lindo e cheiroso”? “Vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos”, responde a garota para os colegas.
Com essa narrativa, a autora transforma o enorme cabelo crespo de Tayó numa metáfora para a riqueza cultural de um povo e para a riqueza da imaginação de uma menina saudável.

Apresentação
Não é por acaso que os cabelos Black Power têm o formato circular do universo. A circularidade é a base fundamental das culturas de matriz africana. Deixar os cabelos crescerem livres, soltos, redondos, harmônicos em todos os sentidos, foi a forma encontrada, na distante década de 1960, pela juventude afro-americana e, depois, por homens e mulheres afros do mundo todo, de marcar sua identidade e o orgulho de sua origem africana.
Mesmo tão pequenina, sem esses conhecimentos históricos, Tayó sente isso – sentir é muito mais profundo do que saber. E sente porque se espelha nos cabelos da mãe, para quem “ser bela” é sinônimo de se reconhecer e de ser feliz. Para as pessoas realmente felizes não há limites na criatividade de “brincar” com a própria beleza, tornando-a ainda mais esplendorosa. Sentir a necessidade de buscar outros padrões de beleza pode estar associado a uma insatisfação causada pelo desconhecimento de referências positivas em nossa própria origem. E o Black Power de Tayó é uma boa referência.
Tayó é uma princesinha que chega em forma de espelho para que outras princesinhas se mirem, se reconheçam e cresçam, cumprindo a única missão que nos foi dada, ao virmos viver nesse planeta: a de sermos felizes.
Mais uma vez Kiusam de Oliveira nos presenteia com uma linda história de princesa, como aquelas que ela já contou e muitas outras que, certamente, nascerão da criatividade e dos conhecimentos dessa grande escritora que, há muito tempo, também se descobriu Tayó.

Oswaldo Faustino, jornalista e escritor

Agradecimento
Para escrever uma história como esta, eu precisei percorrer caminhos com o coração nos pés. E caminhar com o coração nos pés não é fácil, você bem deve saber. Exige um caminhar que valorize a jornada épica de cada um, reconhecendo a si próprio como herói ou heroína que luta bravamente para manter-se firme diante de tudo e de todos.
É com o coração nos pés que pulso, agradecendo fontes cristalinas de inspiração: crianças adultas e adultos crianças que me impulsionaram de alguma forma nesse sonho: Dona Erdi (in memorian), Edleuza Ferreira da Silva, Ciciá, Kayo Odê , Iasmin, Isabella, Jardel Coimbra, King Nino Brown, Airton Santos Pinto, José Geraldo Neres, Heloísa Pires Lima e Oswaldo Faustino, além de todas as crianças que compartilham seus conhecimentos comigo, como educadoras e aprendizes que são, e todas as vozes do outro mundo que povoam o meu Black Power até mesmo quando escrevo.

Kiusam de Oliveira
Sobre a autora:
Kiusam de Oliveira é artista multimídia, arte-educadora, bailarina, coreógrafa e contadora de histórias. Doutora em Educação e Mestre em Psicologia pela USP, tem ampla experiência em sala de aula, da educação infantil ao nível superior. Especialista nas temáticas das relações etnicorraciais, de gênero, da corporeidade e candomblé de ketu e educação é ativista do movimento negro há quase 30 anos. Trabalhou pela implementação da lei 10.639/03 (2005-2009) na Secretaria de Educação de Diadema. Especialista na Educação Especial - Deficiência Intelectual. Criadora e diretora do Programa de Rádio Povinho de Ketu – As Africanidades Brasileiras no Ar, transmitido pelas rádios públicas do país. Bailarina do show Tecnomacumba, de Rita Ribeiro há 6 anos. É autora de Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009), selecionado pela FNLIJ/2010 e pelo PNBE/2011. Orientadora Espiritual.

Sobre a ilustradora:
Taisa Borges é natural de Sao Paulo, onde mora atualmente. Após cursar artes plásticas na capital paulistana, mudou-se para França, onde deu continuidade aos estudos de pintura na faculdade de Beaux-Arts de Paris. No mesmo período cursou estilismo no Studio Berçot. De volta a São Paulo, desenvolveu desenhos de estamparia para diversas confecções e para sua própria marca a “Motivos Brasileiros”. Desde 2006 dedica-se a ilustração.
É autora de cinco “livros de imagem” e um livro em HQ, “Frankenstein” este que integra a coleção da Editora Peirópolis dos “clássicos em quadrinhos”.
Para conhecer mais o trabalho de Taisa Borges, navegue pelo site: http://taisaborges.com/

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

4º Debate: Literatura Negra e Ilustração: que risco é esse? (IPCN)

Os debates propostos no SEMINÁRIO DE ESCRITORES E ESCRITORAS PARA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL estão crescendo a cada sessão, contagiante a participação ativa do público instigando discussões enriquecedoras sobre os rumos da literatura negra contemporânea.
A próxima sessão promete, pois o tema é um dos mais interessantes para a luta antirracista: LITERATURA NEGRA E ILUSTRAÇÃO: QUE RISCO É ESSE? A mesa será formada por nomes consagrados: Iléa Ferraz, Ykenga e Togo Ioruba. A mediação será feita pela Drª Azoilda Loretto da Trindade.
Local? IPCN. Quando? 15 de agosto. Horário? 19h.
Até lá!
Ricardo Riso

INSTITUTO DE PESQUISA DAS CULTURAS NEGRAS - IPCN
SEMINÁRIO DE ESCRITORES E ESCRITORAS PARA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL 
MAIO/2012 - ABRIL/2013

O objetivo da 4ª sessão do seminário intitulada – LITERATURA NEGRA E ILUSTRAÇÃO: QUE RISCO É ESSE? - é de expor, discutir e avaliar o enfoque e adimensão crítica dos traços de ilustradores negros e negras quando ilustram texto de literatura afro-brasileira. O papel ideológico e pedagógico da ilustração, o comportamento do mercado de trabalho e o racismo expresso na imagem da personagem negra ilustrada nos livros didáticos, charges e quadrinhos.

Dia 15 de agosto de 2012 (quarta-feira)
Horário:19h00 às 22h00
Local: IPCN - Av.Mem de Sá 208, Cruz Vermelha.

Programação:
Literatura Negra e Ilustração: que risco é esse?

Expositores :
TOGO IORUBA - Cartunista e ilustrador
ILÉA FERRAZ - Atriz e ilustradora
YKENGA - Cartunista e Ilustrador

Mediadora:
Profª Drª AZOILDA LORETTO DA TRINDADE
A partir das 18:00h exposição e venda de livros de autores afro-brasileiros e africanos.
Realização: Instituto de Pesquisa das Culturas Negras
Coordenação: Lia Vieira, Éle Semog e Ricardo Riso

Parcerias: ESTIMATIVA, Kitabu Livraria Negra, Centro AfroCarioca de Cinema e Associação Cultural República do Samba

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sonia Rosa - Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta (resenha)


Sonia Rosa - Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta
Por Ricardo Riso

Revelar personagens históricos negros durante o Brasil Colônia é fundamental para mostrar a resistência de nossos antepassados, quebrar o estereótipo de que os negros aceitaram passivamente a escravidão e dar o devido valor de destaque a esses homens negros e mulheres negras rasurados da história oficial para a construção de um país justo e que respeite a diversidade étnica de sua população.

Em mais uma caprichada edição da editora Pallas para o segmento infantil, a renomada escritora Sonia Rosa agora apresenta a cativante história “Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta”. Trata-se da história real da escrava Esperança Garcia que, em 6 de setembro de 1770, juntou forças e coragem para escrever uma carta para o governador da capitania do Maranhão relatando os maus tratos sofridos por ordem de seu feitor na fazenda onde vivia. Na época a fazenda localizava-se no Piauí, então integrante da capitania do Maranhão.

Com a habitual escrita envolvente, a narrativa de Sonia Rosa apresenta diversos aspectos do cotidiano escravocrata, favorecendo a compreensão das injustiças e dos horrores submetidos aos escravos e escravas. Porém, a grande especificidade dessa história é que Esperança Garcia era uma escrava alfabetizada. Uma das raras mulheres que sabia escrever e ler em seu tempo, como frisa a personagem em dado momento. Esperança Garcia foi escrava em uma fazenda comandada por padres jesuítas da Companhia de Jesus, portanto, deve-se a isso o fato de saber escrever.

Entretanto, o drama, como se o fato de ser escrava já não fosse o maior dos dramas, acontece quando os padres jesuítas são expulsos do Brasil colônia por Marquês de Pombal no século XVIII. Com isso, Esperança Garcia, mulher casada e com filhos, vê sua família ser forçadamente separada de seu marido e filhos maiores. Ela e as crianças pequenas são transferidas para outra fazenda, ou seja, mais uma dispersão na vida dos escravizados, alijados da convivência entre seus entes, comprometendo as relações afetivas. Dispersão e vidas fragmentadas que marcaram e marcam as vidas dos negros nesse país.

Na nova fazenda, a violência física aos escravos torna-se rotineira e não alivia mulheres e crianças, para além do afastamento total da religião católica, a qual Esperança Garcia aprendeu e praticava com fervor. Com isso, o texto revela outra fragmentação imposta aos negros e negras com a dispersão da espiritualidade, na qual a assimilação com o aprendizado forçado da religião do opressor foi vitorioso, levando a personagem a reclamar do descumprimento de preceitos católicos, tais como a ausência do batismo dos filhos e o fato de não se confessar.

Ainda no campo das fragmentações dos corpos e mentes dos negros e das negras, podemos citar o nome cristão da escrava, Esperança Garcia, e o fato de desconhecer o significado de uma canção da língua de seus antepassados africanos que cantava para seu filho, como sua mãe cantava para ela, assim como sua avó cantava para sua mãe. O texto mostra a língua oral de sua etnia diluindo-se com o passar dos anos.

Contudo, uma mulher, ainda que escravizada, que sabia ler e escrever, tinha plena consciência das injustiças e dos malefícios do sistema escravocrata. Sendo assim, não poderia aceitar passivamente a sua vida de adversidades, o que estimulava a indignação, a revolta e o desejo de revelar os seus pensamentos, pois como afirma a personagem: “Saber ler e escrever é uma maneira de esticar, bem esticada, a voz da gente, fazendo com que ela chegue a tempos e lugares distantes, nunca antes imaginados”. Certa do seu comportamento insubmisso, resolve escrever uma carta para o governador e contar o seu sofrimento, a sua indignação e o seu desejo de mudanças. Na carta, dentre outros, relata os maus tratos aos escravos e a vontade maior de conviver novamente com seu marido e filhos.

A partir desse momento, o onomástico prevalece e Esperança Garcia passa a esperar a resposta do governador. A angústia aumenta enquanto a narrativa apresenta o cotidiano da escrava na fazenda. E Esperança Garcia espera a sua resposta, e espera, e espera, e espera...

Esse fato verídico foi descoberto pelo historiador Luiz Mott, posteriormente, por força da Lei nº 5.046, de 07 de janeiro de 1999, ficou instituído o dia 06 de setembro como sendo o “Dia Estadual da Consciência Negra” no Piauí. Além disso, o nome de Esperança Garcia foi dado a um hospital em Nazaré do Piauí, dá título ao Coletivo de Mulheres Negras de Teresina, dá nome a uma maternidade em São João do Piauí e inspira os negros e as negras do estado como exemplo da resistência e conscientização para a erradicação da discriminação racial no estado. Deve-se frisar também que a negra e escrava Esperança Garcia escreveu a primeira carta-petição do Brasil.

Complemento espetacular para a narrativa são as ilustrações da sempre competente Luciana Justiniani Hees, que muito engrandecem o livro, tornando-o uma verdadeira obra de arte. Para finalizar, talvez o maior mérito de “Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta” seja o de mais uma vez revelar a importância do ato da escrita para demonstrar as vivências sofridas das mulheres negras, já que suas vozes sempre foram silenciadas ao longo da história, por isso Esperança Garcia valoriza o fato da escrita atravessar lugares e desafiar o tempo, procedimento que depois seria consagrado com o livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, e com as escritoras negras brasileiras contemporâneas, tais como Conceição Evaristo, Miriam Alves, Cristiane Sobral, Lia Vieira... ou seja, essas escrevivências vêm de longe... Um excelente livro de Sonia Rosa e recomendado para todas as idades.



Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta
Autora: Sonia Rosa
Ilustração: Luciana Justiniani Hees
Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2012


Para conhecer um pouco o historiador Luiz Mott e ler o original da carta de Esperança Garcia, visite o link a seguir:
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-rosto-para-esperanca-garcia

Entrevista com o historiador Luiz Mott:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/luiz-mott

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nana & Nilo – que jogo é esse?, de Renato Noguera (resenha)


foto da página Nana & Nilo no Facebook


Nana & Nilo – que jogo é esse?, de Renato Noguera
por Ricardo Riso

Apresentar novas maneiras de brincadeiras para as crianças longe do estímulo à competição presente em nossa sociedade, assim como valores de solidariedade e de partilha de brinquedos, são os desafios aos quais se propôs o autor Renato Noguera para idealizar a coleção Nana & Nilo para o público infantil. Os dois primeiros volumes da coleção acabam de sair: “Aprendendo a Dividir” e “Que jogo é esse?”, sendo este o apresentado aqui.

Integram a coleção os gêmeos Nana e Nilo; Mulemba, a árvore sábia; e Gino, o pássaro amigo. Este quarteto é o responsável pelas viagens por diferentes culturas, apresentando diversas formas de relacionamento, o que fica muito bem demonstrado em “Que jogo é esse?”. Neste, Nilo fica entristecido por não conhecer um jogo no qual todas as crianças ganhem e fiquem felizes ao seu final, pois, a partir do momento em que há um campeão, os outros, os perdedores, sentem-se tristes ou até com sentimento de raiva, o que estimula a competição e a vitória a qualquer preço. Isso é extremamente ruim e desde cedo adestra os pequeninos para a busca pelo sucesso, visto que somente os vencedores são dignos de congratulações em nossa sociedade dominada pelo consumo. De acordo com Zigmuth Bauman, isso determina o “critério de inclusão e exclusão, assim como orientam a distribuição do apreço e do estigma sociais, e também de fatias de atenção do público” (BAUMAN, p. 71).

Nessa sociedade competitiva de consumidores, qualquer forma de cultura alternativa que não siga as regras do mercado e do consumo são prontamente rejeitadas, por isso as crianças são direcionadas por essa ideologia na qual “tão logo aprendem a ler, ou talvez bem antes, a ‘dependência das compras’ se estabelece nas crianças. (...) Numa sociedade de consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um consumidor por vocação” (BAUMAN, p. 73). Como forma de provocação ao comportamento que temos, a Mulemba decide levar os gêmeos ao continente africano para conhecer a etnia Batwa, onde as crianças têm jogos nos quais todos são vencedores. Estranho, não? Que jogo é esse em que todos são ganhadores e felizes ao seu final? Inadmissível para a nossa cultura. Destaca-se a maneira como a simbologia da Mulemba é reconfigurada pelo autor, pois a árvore representa a ancestralidade, lugar de encontro da natureza e da espiritualidade, também da transmissão de sabedoria dos mais velhos para os mais novos que se aproveitam da sombra proporcionada por sua grande copa.

O retorno feliz dos gêmeos mostra a importância de resgatar valores simples da vida, da convivência harmoniosa dificultada pela ambição desenfreada que somos expostos desde novos. Sendo assim, desvela-se a relevância de conhecer as culturas africanas para contrapormos a maneira como vivemos e refletirmos se é essa a forma como queremos ensinar as nossas crianças. Mérito do autor Renato Noguera, doutor em Filosofia e professor da UFRRJ, ao proporcionar essas reflexões com a leitura desse livro, e para as simpáticas ilustrações de Sandro Lopes. “Nana & Nilo – Que jogo é esse?” é mais um título que atende com louvor a lei 10.639/2003, assim como deve-se destacar o ambicioso projeto que inclui um site – nanaenilo.com.br – com diversas atividades para as crianças, sendo um passo fundamental para a diversidade e a popularização da produção literária infantil negro-brasileira  inserida nas novas tecnologias. Portanto, grande expectativa para ver as animações com os voos da árvore Mulemba conduzindo os gêmeos para os mais diversos cantos do planeta. Uma excelente ideia a partir da força da nossa ancestralidade africana.


Nana & Nilo – Que jogo é esse?
Autor: Renato Noguera
Ilustrações de Sandro Lopes
Hexis Editora
2012

Bibliografia:
BAUMAN, Zigmuth. Vida para consumo – a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sonia Rosa - Quando a escrava Esperança Garcia... (livro)

Mais um novo livro da amiga Sonia Rosa. "Esperança Garcia foi uma escrava piauiense, alfabetizada, que corajosamente escreveu uma carta para o governador no dia 6 de setembro de 1770."

domingo, 1 de abril de 2012

Patrícia Santana - Cheirinho de neném (livro)

Patrícia Santana - Cheirinho de neném


ISBN: 9788571605503
Autor(es): Patrícia Santana
Ilustrador(es): Thiago Amormino
Dimensões: 21 x 21 cm - NºPág.: 24

Sinopse
O livro "Cheirinho de neném" fala da emoção de se receber um novo irmãozinho. Ao contrário do ciúme, medo e insegurança que muitas crianças sentem quando chega o irmão e a irmã, para o personagem do livro o sentimento é de comemoração e alegria. É inspirado em Víctor, filho da autora, que aguardou ansiosamente o nascimento de sua irmã.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

“Vida que voa”, de Lena Martins (resenha)



“Vida que voa”, de Lena Martins
Ricardo Riso

Já com uma consolidada trajetória como artesã afro-brasileira, graças à inovação de suas delicadas Bonecas Abayomi, que são personagens negras sem expressões faciais exatamente para contemplar as diversas etnias africanas forçadas a vir para o Brasil pelo criminoso tráfico negreiro, as Bonecas Abayomi são confeccionadas sem cola ou costura, retratam o cotidiano afro-brasileiro, a mitologia, os orixás, os aspectos culturais etc., são criações de Lena Martins que agora investe na literatura infanto-juvenil e lança “Vida que voa”, sob a chancela da novíssima editora carioca Escrita Fina Edições.

A agora autora Lena Martins acerta ao ilustrar a breve história de “Vida que voa” com painéis criados para acompanhar a narrativa que possui duas personagens: a avó e a sua netinha Isadora. Esses painéis estão conotados à maneira singela, serena e clara do desenvolvimento da narrativa, transportam para o pequeno leitor e também para o adulto a delicadeza de contar história e, principalmente, a afetividade entre avó e neta, sendo a questão do afeto, em nosso entendimento, o grande destaque dessa curta história.

O espaço da narrativa resgata a nossa ancestralidade afro-indígena, o Jardim Boiuna, ou o jardim das cobras grandes, onde avó e neta ficam deitadas em uma rede à frente de uma floresta. Nesse cenário, destacamos as personagens negras fora do espaço das atividades domésticas, do trabalho, dessa maneira, o narrador de Lena Martins subverte os espaços comuns às personagens negras em nosso cânone literário trazendo-as para o espaço do relaxamento, do repouso e da contemplação da paisagem, do direito ao lazer, da companhia familiar e da relação afetiva que ainda assim estimula o aprendizado oral da anciã para a criança através de canções bucólicas “que falam de pássaros, borboletas, vida que voa”.

Voo da vida, do tempo que passa no ritmo das canções embaladas na rede. E no balanço da rede se dá o crescimento, muitas vezes, imperceptível da menina: “E o tempo passa... Passa num tempo que não se sabe se foi só um balançar...” A menina começa a falar, apresenta seus questionamentos e observações à avó, a continuidade do aprendizado, a permanência do espaço e a temporalidade atravessando os anos fortalecem os laços familiares, a cumplicidade entre avó e neta nesse espaço afetivo. E a menina conclui: “A gente tem asa, vovó, é a rede...” Algures, o poeta Manoel de Barros disse, “Poesia é voar fora da asa”. A expansão do mundo proporcionada pelo aprendizado oral desvela a poesia dessa relação afetiva. As canções e as conversas que voam como os pássaros instigam a menina; a asa, símbolo máximo do voo, é associada pela criança ao movimento suspenso da rede. A rede como metáfora da liberdade de pensar, imaginar, criar, conhecer.

Destacamos a escrita concisa, também precisa da autora, muito bem distribuídas pelas páginas em harmonia com as imagens das bonecas. Um grande acerto da equipe de diagramação. Reforçamos a importância do espaço de lazer e da graciosa relação entre avó e neta, destacando a afetividade entre as personagens negras e a relevância de uma história com tal cariz, lembrando que lazer e afeto infelizmente ainda não são vivenciados em sua plenitude pela maioria de nossa comunidade negra. Por esses pontos assinalados, embalados pela intensa afetividade das personagens negras da doce narrativa de “Vida que voa”, celebramos a gratificante estreia literária de Lena Martins em uma caprichada produção gráfica da Escrita Fina Edições.


Vida que voa
Lena Martins
Fotografias de Ivone Perez
Ilustrações de Carolina Figueiredo, Luciana Grether Carvalho e Lena Martins
Escrita Fina Edições
Rio de Janeiro, 2011
www.escritafinaedicoes.com.br


Sobre as Bonecas Abayomi
www.bonecasabayomi.com.br

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pedro Matos – Midju di Fogu (resenha)


Pedro Matos – Midju di Fogu

Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 204, p. 21, de 28/07/2011.

Pedro Andrade Matos nasceu em 15 de novembro de 1987 na Ilha do Fogo. Fez os estudos secundários na ilha-mãe e graduou-se em Relações Internacionais (Puc-Minas/Brasil). Hoje é mestrando em Ciência Política na UFMG (Brasil).

Sua estreia literária aconteceu em 2010 com o livro de poesia “Midju di Fogu – Azágua e outras memórias de Cabo Verde”, sob a chancela da brasileira Nandyala – Livraria e Editora, reunindo cinquenta e um poemas voltados para o público infanto-juvenil nas suas trintas e seis páginas. O livro ainda contém um importante glossário com a definição das diversas palavras em língua materna cabo-verdiana, para além de notas de contracapa da Profª Drª Simone Caputo Gomes (USP) e deste que aqui escreve.

Inspirada na condição diaspórica do autor, os poemas de “Midju di Fogu” trazem a saudade das tradições do arquipélago, a rememoração de sua terra e de sua gente sofrida no seu cotidiano simples de resistência desmesurada para vencer as agruras da vida: “Txuba d’azágua é molhada e traz/ A sabura quebrando a sodadi,/ Dando sperança a Eulália e Raimundo/ Povo di coragi, povo de padjigal”.

Tradições que a pena do poeta tenta manter acesas, “pois lá em baixo a nossa cultura/ grita...” para “que valorizem a cultura nacional”. Tradições que revelam sob a “luss di podogó” as carências da população pobre, mostradas na medição cruel da fome: “Rasora servia para nivelar os cereais/ Na cooperativa do Sr. Morais,/ Onde as pessoas idosas iam receber as kinzena/ Em forma de alimentos básicos.// Nem todo mundo gostava da rasora,/ Principalmente quando era para partir os alimentos/ Nos tempos da crise...” Crise econômica da Ilha do Fogo representada na purguera: “Do óleo zarpava o barco, combustível/ Do óleo debulhava o milho, comestível./ Do óleo trabalhava o homem, possível./ Do óleo sustentava o homem, impossível.” Representação que difere da relatada em “Ilhéu da Contenda”, romance de Teixeira de Sousa que retrata os tempos áureos desse comércio: “Ouvia contar ao pai que outrora exportavam purgueira para Marselha por bom preço. Depois que a indústria nacional se assenhoreara dessa oleaginosa, o preço desceu escandalosamente. Antigamente a purgueira era o mealheiro do pobre e a burra do negociante. O povinho vestia-se com a purgueira que colhia. O comerciante pagava em tecidos a purgueira que comprava. Vinham grandes lugres e patachos carregar purgueira. E era negócio que não falhava, quer chovesse, quer não (SOUSA, s.d., p. 26-27).

Entretanto, são nas carinhosas descrições dos pratos típicos, símbolos do arquipélago, que o poeta sacia a sua sodadi. Estão lá a katxupa – “depois de amassado o milho, colocava para secar ao sol”; “Batanga era feita com sal, água e farinha”; “do milho branco do campo do Sr. Dai/ Extraía a farinha, junto ao feijão./ Servida ao molho de garopa, comia-se a djagacida”; a “scaldada era simples de fazer com farinha, água e sal”. Afetuosas também as lembranças dos utensílios domésticos do homem do campo, tanto para o trabalho quanto para o conforto: balai de tente, garrafon, bidja, kankaran, tagarra, solidor, manduco e o kanhotu, que ajuda o camponês a esquecer “das amarguras do passado e do presente”. As bebidas são recordadas como “o manecon de uva para os senhores de bom codjon” e o grogu: “Rogue a Deus o mokeru por ter como beber o grogu”, assim como os ritmos musicais da tabanca, morna, batuque, talaia-baxu e funaná.

O drama da seca que “seca a minha alma”, da emigração forçada, do mar que “partilha a alegria daqueles que vão e voltam,/ transbordando nos calhaus as mágoas/ dos que foram e não voltaram” e tantas outras experiências do cabo-verdiano recriadas na poesia de Pedro Matos desvelam a saudade de um poeta que, longe de seus pares, mostra o seu apego à sua terra, por vezes madrasta, mas para sempre materna, e fazem da leitura de “Midju di Fogu”, por sinal, o milho como metáfora de perseverança, um singelo aprendizado da indescritível capacidade de resistência desse povo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Literatura Infantil de Cabo Verde à venda na Kitabu

Agora à venda na Kitabu Livraria Negra a Colecção Stera, de Zaida Sanches, formada por quatro livrinhos infantis.
É mais uma parceria realizada com os cabo-verdianos e contribuindo para disseminação da literatura das ilhas no Brasil. A Colecção Stera, de Zaida Sanches, une-se ao livro de poesia Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas, de António de Névada, e aos livros da Artiletra Edições (Valentinous Velhinho, Mario Lucio Sousa, entre outros).
Ricardo Riso


clique na imagem para ampliá-la

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Maria Celestina Fernandes – A Árvore dos Gingongos (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – A Árvore dos Gingongos (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso
Agradecimento especial à autora.

É com inenarrável satisfação que se celebra a publicação de A Árvore dos Gingongos, de Maria Celestina Fernandes, ilustrações de Jô Silveira, sob a chancela da Difusão Cultural do Livro para os pequeninos leitores brasileiros. Em caprichada edição, apresentação a cargo da Profa. Edna Bueno e um glossário muito bem elaborado elucidando os significados das palavras em quimbundo, etnia da autora, que aprendemos os sentidos de vocábulos estranhos para nós. Por outro lado, descobrimos a origem de outras tão próximas, caso de canjica.

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945, é uma renomada autora de livros infantis em Angola, tendo lançado mais de uma dezena de títulos para esse segmento com destaque para “As Amigas em Kalandula”, vencedor do Prêmio Literário Jardim do Livro Infantil em sua edição de 2010. Além disso, consta em seu currículo várias publicações para os adultos que passam pela poesia, romance e crônica, além de participação em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Celestina Fernandes também é membro da União dos Escritores Angolanos e recebeu o prêmio de Mérito do Ministério da Cultura de 2009.

O enredo do livro é sobre os gingongos, os gêmeos aludidos no título. Considerados seres especiais, tanto para o bem quanto para o mal, que não devem ser contrariados. Além disso, de acordo com a mitologia dos quimbundos foram os primeiros habitantes de Angola. A história se passa em uma numerosa família que moram em uma casa simples de um musseque (favela), consagrado espaço de resistência dos angolanos no período colonial, sendo os gingongos os caçulês (caçulas), assim como acontecimentos do cotidiano familiar são apresentados ao longo do texto.

Aqui começamos a perceber a habilidade de contar histórias de Celestina Fernandes ao se valer do hibridismo na narrativa que se inspira na tradição oral, recriando-a e concretizando a sua própria escritura infantil. Esse procedimento remete ao que Walter Benjamin desenvolve em “O narrador”, no qual o intelectual afirma que “contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo”. Os gingongos são recebidos com grande festa, pois se “são mal recebidos, ficam zangados, podem adoecer a ponto de morrer! Assim falam os mais velhos...” (p. 9). Em seguida recebem o tratamento de uma velha curandeira para espantar os maus espíritos e a descrição desse ritual, e que depois será complementado pelo batismo na igreja católica. Aqui temos a presença do sincretismo religioso. Nesta cerimônia, recebem os nomes de Manuel e Manuela, entretanto, todos os chamam de Adão e Eva. Novamente, entrecruzam-se as origens africanas e as impostas nos tempos do colonialismo português, mesclam-se o mito quimbundu dos gêmeos como os habitantes primeiros de Angola e o mito bíblico, que aponta Adão e Eva como os seres originais.

Hibridismo que também encontramos no uso da língua portuguesa, do enfrentamento do passado e imposição do idioma do colonizador. Porém o grande conflito se deu no texto escrito em língua portuguesa que passou a ser contaminado com a oralidade própria das etnias angolanas, o que remete ao célebre artigo de Manuel Rui, “Eu e o outro invasor”: “No texto oral já disse não toco e não o deixo minar pela escrita arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto”. É o que apreendemos na narrativa de Celestina Fernandes enriquecida com os diversos vocábulos em quimbundu no seu decorrer, como no primeiro parágrafo da história: “Nga (senhora) Maria era uma senhora muito conhecida lá no musseque (favela). O marido dela, o senhor Policarpo, homem catita (elegante) em tempos idos, era ainda grande dançarino de rebita (dança tradicional), apesar da idade já um pouco avançada” (p. 7).

Outro ponto de resistência da cultura tradicional quimbundu acontece na passagem da Vovó Chica, mantendo acesa a sabedoria ancestral e a crença de que os gingongos são seres especiais, podendo ser perigosos, por isso a referência aos muloji (feiticeiros), repassando-as às crianças em forma de reprimenda por implicarem com os gingongos: “Xé, cuidado ehn! Faz favor não trazer desgraça aqui, deixem lá as crianças. Vocês não sabem que zanga dos gingongos traz azar? Essa gente são muloji, deixem-nos em paz” (p. 15).

Exatamente por considerarem-nos seres especiais, os gingongos são criados cheios de mimos e em razão desses mimos que se dá a grande maka (confusão, discussão) da história. Havia uma enorme mangueira no terreno da casa e um dia os gêmeos decidem pedir aos pais a árvore só para eles, juntamente com seus saborosos frutos. Os pais, crentes nos poderes sobrenaturais dos gingongos, acatam o desejo. Porém, com a chegada das frutas as outras crianças começam a pegá-las, os gêmeos se sentem contrariados e adoecem com gravidade. Como os seus desejos são sempre atendidos, prevalece o comportamento egoísta dos gingongos e todas as outras crianças afastam-se da árvore. Contudo, é óbvio que tal decisão não dura muito tempo e todos passam a conviver em harmonia.

Apesar de a narrativa estimular a importante reflexão do egoísmo aos pequenos leitores, A Árvore dos Gingongos fascina por apresentar diversas manifestações tradicionais da cultural da etnia quimbundu, suas crenças e mitos, a vivência no musseque e o cotidiano de uma família simples. Uma história que encanta por mostrar às crianças brasileiras um pedacinho de Angola, do caráter híbrido da formação identitária angolana com leveza e delicadeza. Encantamento facilitado pelas excelentes ilustrações de Jô Oliveira e um formidável trabalho de diagramação que harmoniza texto e imagens. Um livro essencial de Maria Celestina Fernandes, merecedor de congratulações à Difusão Cultural do Livro ao proporcionar este lançamento e incentivar a aproximação Brasil-Angola. Aliás, um exemplo que deveria ser seguido por outras editoras brasileiras que ainda ignoram as literaturas africanas de língua portuguesa. Para finalizar, A Árvore dos Gingongos, que recebeu “Menção Altamente Recomendável” pela Fundação Brasileira do Livro Para Crianças e Jovens, precisa ser considerado como uma ferramenta fundamental para os professores da Educação Básica que pretendem implantar as matrizes africanas em suas disciplinas, de acordo com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008.



A Árvore dos Gingongos
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Jô Oliveira
São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 2009.


















terça-feira, 31 de maio de 2011

Maria Celestina Fernandes – As Amigas em Kalandula (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – As Amigas em Kalandula (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso

Agradecimento especial à autora.


O merecido reconhecimento da diversificada obra de Maria Celestina Fernandes para o público infanto-juvenil atingiu um dos seus melhores momentos com o livro As Amigas em Kalandula, ilustrado pelo competente Victorino Kiala e editado pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais de Angola no ano passado. Por isso a justa escolha do Prêmio Literário Jardim do Livro Infantil em sua edição de 2010, consagrando Celestina Fernandes como das principais partícipes na formação literária dos pequenos angolanos. Afinal, já são mais de dez títulos para este segmento desta autora nascida no Lubango, Angola, em 1945, que também atua na poesia, romance e crônica. Devido à longa trajetória, recebeu o prêmio de Mérito do Ministério da Cultura de 2009.


A contagiante narrativa de As Amigas em Kalandula tece uma viagem de magia e sonhos por meio da palavra, da palavra oral tal como um griot, o narrador de Fernandes possui extrema habilidade ao não se distanciar, oferecendo com maestria o espaço adequado para os seus apontamentos e para as falas das personagens dando vida ao que narra. É nesse fio envolvente da tradição oral que a autora a reinventa e a transpõe para a literatura infantil. Esse procedimento remete ao que Walter Benjamin aponta em “O narrador”, no qual o intelectual afirma que “contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo”, e aqui deparamo-nos com o encantamento da narrativa escrita de Celestina Fernandes que se aproxima ao máximo de uma narrativa oral.


O enredo é simples e fascinante: um pequeno grupo de formigas encanta-se com uma matéria de televisão sobre as quedas d’água de Kalandula, um dos pontos turísticos de Angola. Devido à distância, sonham com a possibilidade de conhecerem o lugar e contam com a ajuda de duas rãs para procura uma maneira de fazer a viagem de Luanda ao lugar paradisíaco. A solução encontrada para a travessia é que as formigas embarquem em uma caravana rumo a Kalandula. Dessa maneira chegam às quedas d’água e para felicidade completa o passeio ganha novo itinerário, dirigindo-se às grandes pedras negras de Pungo Andongo. Ao final, a plena satisfação com a viagem e o retorno para Luanda.


A beleza da narrativa de Celestina Fernandes se dá com a valorização dos aspectos geográficos angolanos durante a descrição da travessia até Malange e a vegetação tropical, o cruzamento por riachos e rios como o grande Kwanza e o rio Lucala (o rio das quedas); as observações que estimulam a atenção para as diferenças, inclusive para aspectos sociais, e incentivam o olhar aguçado dos pequeninos por causa das “várias localidades, umas mais pitorescas, outras mais povoadas, umas mais pobres de arvoredo e de plantações e por todo o lado as pessoas sorriam, até as crianças de aspecto mais debilitado sorriam” (p. 14). O deslumbramento com a visão das quedas d’água, o arco-íris que se forma e a visão das grandes pedras negras de Pungo Andongo, além da imponência das pedras trata-se de um lugar mítico em razão das possíveis pegadas da rainha Njinga Mbandi, célebre por sua luta de resistência contra o colonialismo português.


Outro ponto de destaque é a empolgação com a paz oriunda pelo fim da guerra registrada nos comentários dos personagens humanos, deslumbrando um futuro próximo com a possibilidade do turismo e de que outras pessoas possam cruzar o país e conhecer Kalandula: “Estou mesmo a imaginar a quantidade de pessoas que virá até estas bandas quando melhorarem as condições (...)/ – Ah! Vai ser mesmo turismo a sério.../ – Será, com a santa paz tudo é possível, senão não estaríamos aqui tão à vontade!” (p. 19). Fato de igual emoção repete-se diante da maravilha que é contemplar as pedras negras, a consequente valorização do país incentivando as crianças a conhecerem o sítio e assim acarinhar a autoestima dos jovens angolanos: “Que espanto! Adorei ver as grandes quedas da nossa terra, mas a verdade é que existem outras cataratas pelo país e no estrangeiro, agora estes monstros assim, não sei se voltarei a encontrar coisa parecida em algum lugar...” (p. 22)


Por outro lado, a narrativa não deixa de mencionar algumas mazelas do país como as marcas de dor de um passado ainda recente, presente na estupidez violenta das minas, que permanecem na memória coletiva ainda se curando das fraturas daquele tempo: “Meninas, cuidado hein! Olhem bem onde pisam, pode haver ainda minas por aqui, estão a ouvir? – e foi com toda a precaução que circularam pelos sítios mais afastados.” (p. 17); e sociais, como a combinação inadequada de consumo excessivo de bebidas alcoólicas e trânsito: “Que loucura! Ainda há a estrada de regresso e essa gente nunca mais pára de beber? É por isso que a festa acaba muitas vezes em choro e lamentações, que bem poderiam ser evitados se acatassem o conselho ‘beber ou conduzir há que escolher’” (p. 20).


Para além do exposto acima, ficamos sabendo um pouco do comportamento das rãs e das formigas, do trânsito caótico de Luanda e a “condução do arranca-trava, trava-arranca...” Ou seja, estamos diante de uma narrativa rica, diversificada e encantadora. Envolvente na perseverança do sonho e na alegria em realizá-los, fascinante nas manifestações de contentamento diante das belezas das diferentes paisagens de Angola a estimular as crianças, por conseguinte os adultos, a conhecê-los. As Amigas em Kalandula de Maria Celestina Fernandes consagra o seu marcante percurso literário com uma história muitíssima bem contada, uma bela homenagem e um convite a conhecermos este exuberante país que é Angola.


As Amigas em Kalandula
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Victorino Kiala
Luanda: Instituto Nacional das Indústrias Culturais, Coleção Sol Nascente, 2010.

Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – Os Dois Amigos (livro infantil angolano)

Por Ricardo Riso

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945. É membro da União dos Escritores Angolanos e possui uma vasta obra voltada para o segmento infanto-juvenil, dentre os quais destacamos: A Árvore dos Gingongos, A Rainha Tartaruga e As Amigas em Kalandula. Consta na bibliografia da autora em poesia: Poemas e O Meu Canto; os romances Os Panos Brancos e A Muxiluanda; o livro de crônicas, Retalhos da Vida; para além de participação em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Celestina Fernandes recebeu o diploma de Mérito do Ministério da Cultura em 2009 e foi vencedora do Prêmio Jardim do Livro Infantil – 2010 com As Amigas em Kalandula.


Em 2010, compondo a coleção Pitanga da União dos Escritores Angolanos, Celestina Fernandes lança Os Dois Amigos, breve narrativa ilustrada por Victorino Kiala. Neste, a grande personagem é um sentimento universal: a amizade. Marito é um menino solitário que “sentia a falta de alguém com quem pudesse falar à vontade, alguém para partilhar as coisas boas e as más que aconteciam no dia a dia”, até que encontra a menina Ju. A afinidade acontece de imediato, durante a conversa falam onde moram, demonstram solidariedade ao compartilhar os doces e frutas que cada um tem. Em seguida, partem para as brincadeiras como o tradicional jogo da kiela e o da macaca. O dia passa, o sol se pondo, chega a hora da despedida e com ele a certeza de que iniciavam uma amizade.


A importância do livro infantil é introduzir a criança no mundo literário, ter a sensibilidade narrativa para cativar e aguçar a curiosidade do pequeno leitor, evitando o didatismo excessivo que subestime a sua inteligência. Por ter a amizade como a protagonista da história, Celestina Fernandes presta uma pertinente contribuição ao valorizar esse sentimento, a importância de saber ouvir e respeitar o outro. Condições que deveriam ser obrigatórias em nossas relações, mas que se tornam cada vez mais distantes de nós em um mundo de celebridades e de competição extrema.


Esse Os Dois Amigos de Maria Celestina Fernandes é um ótimo exemplo de como a literatura pode formar novos leitores e ser uma ferramenta fundamental para a formação do indivíduo com a sua maneira deliciosa de contar uma história, auxiliada pelas criativas e corretas ilustrações de Victorino Kiala, de caprichada e elegante edição, e de uma bem cuidada diagramação – apesar de tímida –, para além de atrair o interesse de um público estrangeiro, como o brasileiro, que se familiariza com as brincadeiras e as frutas angolanas, assim como as expressões em quimbundu inseridas no texto.

Os Dois Amigos
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Victorino Kiala
Luanda: União dos Escritores Angolanos, Coleção Pitanga, 2010

Maria Celestina Fernandes – A Rainha Tartaruga (livro infantil angolano)


Maria Celestina Fernandes – A Rainha Tartaruga (livro infantil angolano)
Por Ricardo Riso

A habilidade narrativa de Maria Celestina Fernandes para os pequeninos confirma-se na singela história A Rainha Tartaruga, editada pela INALD no ano de 2008 e ilustrado por Abraão Eba. Já com vários títulos direcionados ao público infantil, Celestina Fernandes possui uma escrita envolvente e precisa que estimula o imaginário do pequeno leitor, para além de passar ensinamentos com leveza e ludicidade.

A história de A Rainha Tartaruga se passa em uma floresta liderada pelo rei Leão, reconhecido por sua liderança sapiente e extrema generosidade. Este organiza o casamento de sua filha com um leão de outra família. Com isso, ficamos conhecendo como é um casamento de acordo com os costumes tradicionais, tais como a data de cerimônia de entrega do alembamento (dote), as festividades que duram dias, os instrumentos musicais como o quissange e a marimba, a comida farta e a “bebida para todos os gostos, desde o maruvo de palmeira à quissângua”, assim como a longa duração das comemorações: cerca de um mês.

O momento de tensão acontece quando a jovem leoa engravida e na hora do parto passa por dificuldades terríveis. Diversas curandeiras de várias partes da floresta vêm socorrer a parturiente, mas sem sucesso. O rei Leão desespera-se, até que por último chega a humilde tartaruga. Valendo-se de “seus dons misteriosos” e conhecimento das plantas medicinais, ela consegue realizar o parto com sucesso e ainda salvar a vida da leoa.

A felicidade do rei Leão é desmedida e com o seu bom coração resolve oferecer o trono à tartaruga, “pois reconhecia nela humildade e sabedoria suficiente para bem desempenhar o cargo”. Diante da insistência do rei, a tartaruga não consegue recusar a proposta. Mesmo com a morte do rei, a tartaruga ainda comandou o reino por longos anos e foi respeitada por todos, vencendo a inveja e a resistência dos animais que não aceitavam a liderança de uma fêmea.

O domínio da narrativa apresentado por Maria Celestina Fernandes impressiona por ter a medida certa de didatismo para as crianças sem importuná-las com lições de moral, mas sim demonstrar que o bom caráter, a generosidade, a humildade e o respeito ao próximo devem compor o cidadão independente de sua origem social.

Apesar de ter um formato agradável, excelentes e simpáticas ilustrações com cores sóbrias de Abraão Eba, o único senão fica para a diagramação sem ousadia e por três páginas seguidas de texto, o que pode tornar a leitura exaustiva para os pequenos que estão iniciando suas aventuras literárias.

Maria Celestina Fernandes nasceu no Lubango, Angola, em 1945. É membro da União dos Escritores Angolanos e possui uma vasta obra voltada para o segmento infanto-juvenil, com destaque para As Amigas em Kalandula, vencedora do Prêmio Jardim do Livro Infantil – 2010. A autora tem livros em poesia, romances, crônicas e participações em coletâneas no seu país e no estrangeiro. Recebeu o diploma de Mérito do Ministério da Cultura em 2009.


A Rainha Tartaruga
de Maria Celestina Fernandes
Ilustrações de Abraão Eba
Luanda: INALD, Coleção Sol Nascente, 2008.

terça-feira, 8 de março de 2011

Pedro Matos - Midju di Fogu (livro ed. Nandyala)



Lançamento do livro Midju di Fogu - 'Azágua' e outras memórias de Cabo Verde, do jovem Pedro Matos, natural da Ilha do Fogo - Cabo Verde. Além dos poemas do autor, o prefácio é da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP) e o texto de contracapa é de Ricardo Riso. O livro é mais um lançamento da Nandyala, gratificante editora mineira que atua nas temáticas afro-brasileiras e africanas.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pedro Matos - "Midju di Fogu" (livro)

"Midju di Fogu", de Pedro Andrade Matos, é lançado em Cabo Verde

"Pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos", escreve Simone Caputo Gomes, da USP.

Da Redação

Praia - "Midju di Fogu" é o título do livro de memória e afectos de Pedro Andrade Matos que é lançado nesta quinta-feira (24) na Casa de Memória da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, com apresentação de Alberto Nunes e Fausto do Rosário.

Natural da Ilha do Fogo, no arquipélago de Cabo Verde, Pedro Andrade Matos é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Minas Gerais (PUC) e mestrando em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), residindo actualmente em Belo Horizonte.

No próximo sábado (26),"Midju di Fogu" (Milho de Fogo), livro de estreia de Pedro Matos, um natural da "ilha do vulcão", será apresentado no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na Cidade da Praia, capital do país, pelo escritor caboverdiano Filinto Elísio.

Nas palavras de Simone Caputo Gomes, professora de Literaturas Africanas da Universidade de São Paulo (USP), "pelos meandros do texto, o vinho Manecon brota das uvas nascidas em meio à pedra negra e vulcânica que domina as paisagens áridas, entre mar e rochedos, entre arbustos (como a purgueira) balançados pelo louco vento".

"Os homens cavam a terra, as mulheres jogam as sementes do milho e as crianças cobrem as covas com os pés, num djuntamô (juntar as mãos) para que o chão, fecundado, possa “vestir o povo de água” e conceder-lhe a abundância na “terra molhada”, lê-se no texto de apresentação de "Midju di Fogu", um livro que "promete ao leitor uma bela sementeira", diz Simone Caputo Gomes.