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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Mia Couto - A cantadeira (conto)



Acabei a minha sessão de canto, estou triste, flor depois das pétalas. Reponho sobre meu corpo suado o vestido de que me tinha libertado. Canto sempre assim, despida. Os homens, se calhar, só me vêm ver por causa disso: sempre me dispo quando canto. Estranha-se? Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Porque não ficar nua para outros amores? A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.

Outros cantadores, quando actuam em público, se trajam de enfeites e reluzências. Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenitinha, destamanhada. Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem. Era um apanhador de pérolas, um vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.

Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória. Lembro apenas de quanto estive viva. Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulando de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. Contudo, estou fadada apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse uma taça que, logo após o lábio, se estilhaça. Sempre aspirei ser árvore. Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.

Em certo momento, me extraviei de sua presença, perdi o búzio e o mar que ecoava dentro. Ele embarcou para as ilhas de Bazaruto, destinado a arrancar riquezas das conchas. Apanhador de pérolas, certeiro a capturar, entre as rochas, os brilhos delas. Só falhou me apanhar a mim, rasteirinha que vivi, encrostada entre rochas.

Na despedida, ele me pediu que cantasse. Não houve choradeiras. Lágrima era prova gasta. Vejam-se as aves quando migram. Choram? O que elas não prescindem é do canto.

– E porquê? – perguntou o peroleiro.

O gorjeio, explicou ele, é a âncora que os pássaros lançam para prenderem o tempo, para que as estações vão e regressem como marés.

– Você cante para chamar meu regresso.

Minha vida foi um esperadouro. Estive assim, inclinada como praia, mar desaguando em rio, Índico exilado, mar naufragado. Estive na sombra mas não fiquei sombria. Pelo menos, nas primeiras esperas. Valia-me cantar. Espraiei minha voz por mais lugares que tem o mundo.

– Esse homem me lançou um bom-olhado?

Demorasse assim sua ausência, a espera não se sujava com desespero. Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar.

Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, em enfeitei de lembrança.

Mas o homem de minha paixão se foi demorando tanto que receio me acontecer como à ostra que vai engrossando tanto a casca que morre dentro de sua própria prisão. Certamente, ele passará por mim e não me reconhecerá. Minha única salvação será, então, cantar, cantar como ele me pediu. Entoarei a mesma canção da despedida. Para que ele me confirme entre as demais conchas e se debruce em mim para me levar.

Mas, na barraca do mercado, eu canto e não encanto ninguém. Ao inviés, todos se riem de mim, toquinhando o dedo indicador nas respectivas cabeças. Sugerem assim que esteja louca, incapazes que são de me explicar.

Esta noite, como todas as noites antes desta, apanho minhas roupas enquanto escuto os comentários jocosos da assistência. Afinal, a mesma humilhação de todas as exibições anteriores. Desta vez, porém, aquela gozação me magoa como ferroada em minha alma.

Nas traseiras do palco, uma mulher me aborda, amiga, admirada do meu estado. Me estende uma folha de papel, pedindo que escrevesse o que sentia. Fico com a caneta gaguejando em meus dedos, incapaz de uma única letra. Pela primeira vez, me dói ser muda, me aleija ter perdido a voz na sucessiva convocação de meu amado. Me castigam não as gargalhadas dos que me fingiam escutar mas um estranho presságio. É então que, das traseiras do escuro, chega um pescador que me faz sinal, em respeitoso chamamento. Sabendo que não falo, ele também pouco fala.

– Lhe trago isto.

Suas mãos se abrem na concha das minhas. Deixa tombar uma pequena luminosidade que rola entre os meus dedos. É uma pérola, luzinhando como gota de uma estrela. Lhe mostro o papel onde rabisquei a angustiosa pergunta:

– Foi quando?

Ele apenas abana a cabeça. Interessava o quando? Aquela era a maneira de o mensageiro me dizer que o meu antigo amor se tinha desacontecido, exilado do tempo, emigrado do corpo.

– Enterraram-no?

Mas a interrogação, rabiscada na folha, não cumpre seu destino. Silencioso, o pescador se afunda nas trevas com a educação de ave nocturna. Fico eu, enfrentando sozinha o todo firmamento, monteplicado em pequenas pérolas. E escuto, como se fosse vinda de dentro, a voz desse peroleiro:

– Cante! Cante aquela canção em que eu parti.

E lanço, primeiro sem força, os acordes dessa antiga melodia. E me inespero quando noto que o mensageiro regressa, arrepiado do caminho que tomara. No seu rosto se acendia o espanto de me escutar, como se, em mim, voz e peito se houvessem reencontrado.


COUTO, Mia. Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos. Lisboa: Editorial Caminho, 2001, pp. 109-112.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Eduardo White - As mãos estão trêmulas...

As mãos estão trêmulas, nervosas, arrepiadas. Pensam comigo na solidão da casa. Há uma existência que não está, que não vive aqui. Temos ambos saudades dela. Eu queria dar as mãos a sua manualidade. Poder desenhar carícias, poder afagar um rosto, poder levá-las ao beijo.

Minhas mãos, meninas minhas. Só elas vivendo esta dor incontornável quando eu digo ou penso esta palavra: MULHER.

Nenhuma outra diria a casa do Mundo que é. A vida que por dentro a trata e prepara, aquela visão cósmica que azula o barro, a terra plástica e húmida a sonhar o molde.

Nenhuma canção é mais forte que a matéria da sua música, o brilho, a força, a limpeza de cada timbre. Casulo profundo para o amor nascer, água e sede casadas para se não morrer. Inventando (i)limite quando sucedemos definir o chão natal, bandeira com cunho carnal, pátria primeira, país com vocação para crescer. Ave a fio no céu-da-boca, pronúncia com sal e suor ou Sol, voo, fábula, matriz do amor a dividir.

Um barco nos olhos.

Sabem, é dele que viajo para a memória que tenho dela. Que imagem plena eu posso ainda guardar quando havia em nós a alegria de brincar. Esse lugar tão aéreo da liberdade. A voz encantada com que dizia: eu amo-te. Arrepio-me só de pensar ouvi-la em sua musical generosidade.

Eu bocejava as tardes para ela entrar vinda da escola e com aquele cheiro infantil da borracha e dos lápis efemeramente transcritos para os cadernos. Era lilás por dentro, tinha espaço e chão e, quantas vezes, desse milagre da sua adulta menstruação eu sorria para a menina que era com caroços no peito. Doíam-lhe se gargalhava, ainda me lembro.

Pois é. Era assim que eu via a mulher profunda que amo. Um dia jurei plantá-la no meu urbano jardim. Daqueles que a cidade abriga em vasos de barro com terra comprada nos supermercados. Afligia-me isso, comprar com o mecânico cartão de débito um punhado de terra que nos lembrasse a gratuidade da nossa África. Pobre, mas verdadeiramente primária em sua pureza.

Bom, voltando ao vaso. Aqui o vejo sobre a mesa. Haviam, na sala, outros com cores e flores diversas, mas instantâneas. Eu lembrei-me de uma com a qual adorava compará-la quando entregava o corpo ao soalho do quarto e às minhas mãos derrapantes. A de maracujá. Que fruta tão fresca, que pevides tão mágicas, que suco tão espesso.

Mas a flor cordial que a anunciava, tinha escrito outros feitiços. Os seus poros acentuados no leve da pele. A cor, por exemplo, febril e escura dos lábios, ou, então, as luas espantadas e cheias nos seus olhos. Negras e luminosamente assustadas.

Que bom puder, depois de tudo, esboçar essa imagem gratificante dela. Lúdica como uma sonata num desenho animado.

Certa noite, eu esperei-a com o boom da surpresa que eu julgava fosse explodir logo que olhasse o jardim dentro de casa. Inquieto percorria-a e figurava as hipóteses de amá-la sobre a banca em mármore da cozinha.

Porém, o tempo passava. As horas doíam-me como a lâmina afiada de uma navalha. Sibilinamente cortantes. E ela não vinha e uma mina de carvão descia, com os cigarros, pelo meu peito apertado junto ao corpo esponjoso dos pulmões. A cabeça a supor. O suor a lavar-me. E ela ausente, cada vez mais, pelo dentro das horas. O choro desesperado a conter-se-me.

Meu animal engravidado de mim, não vinha.

Lembro-me, depois, do telefone a gritar no quarto, da flor de maracujá tão alvamente a murchar, a previsão do desastre que eu adivinhava vir a acontecer.

- Alô?

Respondeste:

- Não volto, estás alcoolizado!

Sei que pousei a mão sobre uma mesinha de pau-preto. Olhei-a partir, depois, para o tabaco, para o dourado do whisky que havia trazido num copo com o seu nome no aroma. O cigarro voou volatilizado nas pulsações da tragédia e o queimar da bebida foi devagar arder no desastre.

Não disse nada. Também, assim, as palavras não são para dizer-se. Fui descansá-las para algum poema, fazê-las beberem-no.

Nostálgico, chamei as mãos para o Caetano Veloso e pedi-lhe que me fizesse chorar – é sempre assim quando acontece eu estar triste. A voz mulata foi subindo devagar para as paredes da casa, como se as fosse limpar do que dela, agora sobrava.

Uma fotografia a preto e branco, um recado que me havia dado pela manhã, no batom do beijo, um poema emoldurado na parede e um colar de missangas minúsculas com que a havia de casar. E, ao lado, eu infeliz a descobrir o que ela não havia descoberto: que tinha parido um poeta.

Foi bom. Apenas estou infeliz por ela não ter podido ganhar com a tristeza da paciência. Hoje eu bebo, faço amor, choro muito e escrevo versos.

É a vida.

White, Eduardo. O manual das mãos. Porto: Campo das Letras, 2004. pp. 57-60.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mia Couto: A resistência da ancestralidade espiritual em O adeus da sombra

A resistência da ancestralidade espiritual em O adeus da sombra, de Mia Couto

Ricardo Riso

A preservação da cultura autóctone moçambicana é uma constante na produção do escritor Mia Couto. Em O adeus da sombra, um dos contos de Estórias abensonhadas, o autor não faz diferente e mais uma vez nos apresenta sua genialidade no choque entre o regional e o universal, em travar o embate do cotidiano contemporâneo global que tanto afasta os moçambicanos de suas tradições seculares, e estes resistindo às inovações dos novos tempos.

A partir da doença que parece ser fulminante a vitimar sua vizinha, causada pelo desaparecimento de seu amado companheiro, o narrador conduz-nos a uma instigante reflexão entre a medicina do homem ocidental inserida em Moçambique pelo colonizador português, e o conhecimento tradicional do povo moçambicano que recorre aos homens mais velhos, sabedores dos poderes das plantas curadoras. Além de demonstrar como a questão da Saúde é tratada no país.

O conto passa-se durante o período da guerra civil moçambicana entre a FRELIMO (grupo político que permaneceu no poder no pós-independência) e a RENAMO (grupo armado apoiado pela Rodésia e África do Sul); e como não poderia deixar de ser, a guerra atua como pano de fundo para o conflito das tradições moçambicanas e o conturbado mundo moderno.

Uma menina adoece com a ausência inesperada e inexplicável do amado que pode ter sido morto em um ataque qualquer. Rotineiro, infelizmente. A mãe desesperada após ministrar “essências, queimando incensos, rezando bênçãos”[1] e com a sentença dada por um médico que decretou a proximidade da morte, procura o vizinho para ajudá-la, pois sabe que este adentrará as matas e entrega-lhe um exemplar de uma planta “capaz de descrucificar Jesus”[2]. Aqui encontramos o sincretismo religioso e o primeiro sinal de resistência da cultura moçambicana, apesar de assimilada pela religião católica trazida pelos portugueses ainda recorre às antigas tradições de cura das plantas medicinais.

O vizinho-narrador, que posteriormente apresenta-se como um biólogo (profissão de formação do autor), compromete-se em trazer a milagrosa planta e parte para a mata acompanhado de um guia, Julinho Casa’beto, recém ex-presidiário, que está sedento por conversa e não respeita o caráter sagrado da palavra: “A palavra é divinamente exata, e o homem deve ser exato como ela. Falar pouco é sinal de boa educação e nobreza.”[3] O motivo de sua prisão foi o assassinato de um homem, porém não foi um assassinato qualquer, matou para pegar a “moya” a pedido da mulher que amava. Ele justifica a moya como: “o respirar da vida”[4]; e o narrador espanta-se: “Aquele moço não era, afinal, o comum assassino. Ele matara não um ser mas a sua sombra, esse barco que nos faz navegar por pessoas e tempos”[5]. Segundo Nei Lopes, Mooyo (a energia vital), e não moya, diz: “todos os seres do Universo têm sua própria força vital, e esta é o valor supremo da existência. Possuir a maior força vital é a única forma de felicidade e bem-estar.”[6]. Quando o corpo acomete-se de doenças, ou há morte, “é conseqüência de uma diminuição da força vital, causada por um agente externo dotado de uma força vital superior. O remédio contra a morte e os sofrimentos é, portanto, reforçar a energia vital, para resistir às forças nocivas externas.”[7] E a respeito da sombra, Lopes comenta que: “Entre os elementos que compõem o ser humano, há o corpo físico, que desaparece após a morte e é uma exteriorização de sua riqueza interior e o receptáculo de suas sensações. Esse corpo vive acompanhado de uma sombra, que é a sua irradiação para o exterior e que também se desvanece com a morte”[8].

O narrador explica o motivo de sua ida à mata, a “agnóstica paisagem”: conhecer as plantas medicinais. Contudo, a pesquisa será cancelada por falta de investimento dos órgãos competentes. “Os dinheiros foram retirados, a coisa foi tida sem importância. Prioridades são outras (...)”[9] Ele critica abertamente o descaso com que a Aids (Sida) é tratada no seu país e no continente africano: “Proliferam as ciências desumanas e os cientistas ocultos. Que posso eu contrafazer?”[10], que afastam-se gradativamente da essência do homem, do descaso para com o próximo. A desterritorialização do narrador é sentida por seu guia ao questionar: “que anda fazer, abichando-se por estas selvas? (...) Mas o senhor sai do jardim para entrar no capim? É que cada um no seu buraco.”[11] Para enfatizar sua declaração, a ironia, largamente utilizada pelo autor, surge na inversão de provérbios: “Me diga, peço a desculpa: jibóia usa chinelos?”[12]

Podemos até pensar que há uma conspiração para que a situação desoladora da África fique como está ou até piore, pois, ao se manter o vírus da doença incurável, a indústria farmacêutica permanece com a produção e venda dos seus medicamentos, e encontra justificativa para a continuidade dos vultosos orçamentos para as pesquisas. Porém, descompromissada com a urgência em salvar vidas porque a descoberta da cura quebrará a perniciosa cadeia vigente.

A dupla chega ao lugar onde encontrariam uma curandeira, em um muti[13], tradicional aglomerado de casas de um mesmo grupo familiar, nas zonas rurais de Moçambique. O muti poderia ser o local que, segundo Bauman, “a reconstrução cultural tem limites que nenhum esforço poderia transcender. Certas pessoas nunca serão convertidas em alguma coisa mais do que são. Estão, por assim dizer, fora do alcance do reparo. Não se pode livrá-las de seus defeitos: só se pode deixá-las livres delas próprias, acabadas, com suas inatas e eternas esquisitices e seus males.”[14] E no muti outras tradições permanecem, como: “Ficamos sentados na entrada do muti, conforme os pedidos de licença. Em boa casa africana o dia transcorre fora da casa, no pátio. Por ali rondam as crianças, ciscam as galinhas.”[15] Até que chega a curandeira Nãozinha de Jesus[16]. A onomástica, outra característica da obra coutiana, apresenta-se. Na referida personagem, trata-se de um sinal de resistência à cultura invasora, à religião do colonizador apesar da assimilação do nome, que mesmo assim a nega. Contrária ao catolicismo imposto, procura perpetuar a tradição do conhecimento passado através da oralidade. Nãozinha de Jesus conhece a magia das plantas e “a magia é manipulação das forças e pode se revelar útil ou nociva, de acordo com o uso que dela se faz. (...) A boa magia, (...) visa a purificação dos seres, para recolocar as forças em ordem e evitar a morte”[17].

Nãozinha, com generosidade, inicia o narrador, e este com a humildade devida, no aprendizado das plantas medicinais. Assim é a passagem de conhecimento entre os povos africanos, cultura em que os mais velhos escoram-se em suas experiências de vida e a proximidade com os antepassados marcam a fundamental importância na sociedade, à qual Nãozinha é a curandeira de seu muti, sabedora das plantas curadoras que vêm do chão, cujo o avançar da idade está mais próxima dos antepassados que estão no chão. E a energia vital está no chão.

Sendo assim, o narrador revela a ela o motivo da aparição: que seria a última visita e mostra a planta pedida pela mãe da menina que está no leito de morte. Nãozinha não aceita a despedida: “Lhe prometera combatermos juntos, ambos querendo salvar os seus vitais materiais, guardar em mundo suas antigas sabedorias.”[18] Dessa maneira quebra-se o elo entre o arcaico e o moderno, a cura pelas plantas medicinais e a medicina “científica”. Na cultura tradicional o conhecimento é passado pela tradição oral, Nãozinha passava os seus conhecimentos para o narrador, e o conhecimento das plantas curadoras não poderia encerrar-se com ela, alguém tinha que continuar a tradição, mesmo que fosse um de fora, um que tenha estudado a medicina do homem branco como o narrador, conforme diz Lopes: “A transmissão oral do conhecimento é o veículo do poder e da força das palavras, que permanecem sem efeito em um texto escrito, (...) o Verbo Atuante, tem o valor de uma iniciação, que não está no nível da compreensão, porém na dinâmica do comportamento. Essa iniciação é baseada em reflexos que operam no raciocínio e que são induzidos por impulsos nascidos no fundamento cultural da sociedade.”[19]

Dessa maneira, será uma tradição que se perderá diante da avançada idade da curandeira e, que, talvez, com a obrigatória desistência do narrador, ninguém na aldeia queira se iniciar nas plantas medicinais. Assim, atua a cultura daqueles que estão no poder, através da assimilação desencorajando as novas gerações a conhecer a cultura dos antepassados, ou seja, tornar a diferença semelhante. Como diz Bauman: “em vez de se manter intacta a maneira como as coisas existiam, tornou-se mudar a maneira como as coisas ontem costumavam ser, criar uma nova ordem que desafiasse a presente (...) De fato, pode-se definir a modernidade como a época, ou estilo de vida, em que a colocação em ordem depende do desmantelamento da ordem ‘tradicional’, herdada e recebida; em que ser significa um novo começo permanente.”[20] O narrador ainda tenta uma última tentativa de aprender mais: “se andarmos juntos, nas devidas pressas”[21]; mas não é atendido pela curandeira: “Eu já não tenho após, meu filho. Para que as pressas?”[22] O processo de iniciação não pode ser acelerado, pois na cultura africana o aprendizado deve ser vivenciado, sentido, compartilhado às tarefas do cotidiano, o que leva a um acúmulo de conhecimento contínuo e constante. Porém, o desânimo de Nãozinha é evidente porque perde o seu discípulo e as plantas cada vez mais raras diante da depredação, ganância e descontrole dos que ‘vem de fora’: “Agora já não dá mais tempo. É que nos levam tudo, esses que vem da cidade cortam tudo, nem raízes nos deixam...”[23], e que provavelmente estão a serviço das indústrias farmacêuticas, entretanto, ignoram o conhecimento dos curandeiros locais, pois tratam-se de competidores, e por se incluírem nesta posição devem ser desacreditados e, se possível, aniquilados, por que na ordem vigente são estranhos que não aceitam as mudanças impostas. Diante dessa postura, a planta pedida já quase não se encontra: “Essas folhas, já há muito tempo que foram, voaram, borboletaram-se por aí.”[24] E realmente não é encontrada: “Até ali os vendedeiros haviam chegado. Até dali eles haviam arrancando, levado em carradas para a cidade”[25]. Por conseguinte, o narrador não poderá cumprir o prometido à mãe.

Ao chegar na casa da menina doente sem a planta, a mãe percebe o insucesso da missão e conduz o narrador ao quarto da menina, com seus momentos de vivente próximos do fim: “fitava o que não há, paisagens de nenhures.”[26]

Entretanto, a menina visualiza a chegada de Julinho Casa’beto, o assassino, que apunhala com uma faca o coração do narrador, “em golpe de raiz”. Repete o que o levou ao cárcere. A menina abraça Julinho “e se debruçam, ambos, para recolher a minha sombra”[27]. A sombra é integrante da energia vital: “Entre os elementos que compõem o ser humano, há o corpo físico que desaparece após a morte e é uma exteriorização de sua riqueza interior e o receptáculo de suas sensações. Esse corpo vive acompanhado de uma sombra, que é a sua irradiação para o exterior e que também se desvanece com a morte”[28].

A respeito do assassinato do narrador algumas considerações podem ser tecidas. Julinho Casa’beto havia matado um homem para salvar a mulher que estava à beira da morte, como a vizinha do narrador; o fato da mãe da menina saber que o narrador iria para a mata atrás das plantas de cura e o ex-presidiário servir como guia faz-nos pensar em um possível crime premeditado contra o narrador; a repentina felicidade da menina quando percebe a sua chegada e a sua intenção, será a menina conhecedora das tradições?; o “golpe de raiz” remete-nos ao duelo travado por Julinho e Nãozinha de Jesus, vencido por esta, que acertou o tronco de uma árvore sagrada com sua faca, pois este símbolo pode ter servido como indicação do que viria acontecer diante do insucesso da missão do narrador. Podemos interpretar o narrador como a planta curadora (a moya) a ser utilizada para fortalecer a energia da vizinha doente, pois ele é um aprendiz dos sagrados conhecimentos das plantas medicinais, assim o ato de Nãozinha serviu, indiretamente (ou não?), como uma maneira de Julinho compreender o que deveria ser feito para salvar a menina. Ou seria simplesmente uma tentativa dos moradores locais por não concordarem que um “de fora”, um estranho, conhecesse as tradições locais, mesmo sendo um moçambicano, todavia infectado pela cultura do colonizador branco, pois este estranho “significa o desmantelamento da ordem existente e sua substituição por um novo modelo de pureza”[29]. As plantas podem ser consideradas patrimônio daquela cultura, a pureza daquela cultura, e eles não podem permitir que até isso caia no poder da classe dominante.

Esse problema de resistência local com o outro, o que vem “de fora”, das grandes cidades, é retomado sistematicamente na obra de Mia Couto, foi assim n’A varanda do frangipani, em que o investigador Izidine Naíta precisou do auxílio da enfermeira Marta Gimo para compreender a cultura daquele afastado povo, que se recusavam a lhe ajudar a elucidar um assassinato; também em O último voo do flamingo, o investigador Massimo Rissi necessita de um tradutor nascido em Tizingara para entender os costumes locais e, a partir daí, tentar desvendar os mistérios que se apresentam entre os viventes locais. Com isso, o autor procura mostrar a dificuldade dos que não conhecem as tradições moçambicanas em compreendê-las.

Assim, Mia Couto nos apresenta o abismo que há entre as tradições moçambicanas e o mundo globalizado que não respeita a cultura africana. Mundo que vagarosamente afasta os moçambicanos de suas origens e conhecimentos passados pela tradição oral, prejudicada por governantes entreguistas e corrompidos. A literatura de Mia Couto atua como resistência, como defensora da ancestralidade espiritual de um povo, que desmascara a destruição criativa[30] do poder globalizante, que pretende demolir e construir ao mesmo tempo, num estado de extinção contida[31] que deixa as novas gerações confusas num permanente estado de incerteza. Por isso, sua literatura compromete-se com a denúncia e a afirmação das manifestações de moçambicanidades, diante do agressivo avançar da ordem globalizante neoliberal. É uma literatura atenta aos dilemas da contemporaneidade, que oprime as diferenças, subjuga o excluído e aniquila o fraco. O fazer literário em Mia Couto é o espaço em que cada homem é uma raça, a religiosidade surge sem religião, local de sonho e lirismo aliados na incansável espera da chuva abensonhada que trará um novo tempo com uma sociedade igualitária, em favor da paz, em favor da vida.
NOTAS:
[1] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 125.
[2] Idem. Ibidem. p. 126.
[3] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 31.
[4] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 128.
[5] Idem. Ibidem. p. 128.
[6] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 28.
[7] Idem. Ibidem. p. 28.
[8] Idem. Ibidem. p. 26.
[9] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 127.
[10] Idem. Ibidem. p. 127.
[11] Idem. Ibidem. p. 127.
[12] Idem. Ibidem. p. 127.
[13] Idem. Ibidem. p. 128.
[14] Bauman, Zigmuth. A criação e anulação dos estranhos. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 29.
[15] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 128.
[16] O nome Nãozinha repete-se no romance A varanda do frangipani, de Mia Couto. Neste, a personagem é uma feiticeira.
[17] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 30.
[18] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[19] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 31.
[20] Bauman, Zigmuth. O sonho da pureza. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 19-20.
[21] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[22] Ibid. Ibidem. p. 129.
[23] Couto, Mia. O adeus da sombra. In: Estórias abensonhadas. Editora Nova Fronteira. p. 129.
[24] Idem. Ibidem. p. 129.
[25] Idem. Ibidem. p. 129.
[26] Idem. Ibidem. p. 130.
[27] Idem. Ibidem. p. 130.
[28] Lopes, Nei. Kitábu. Senac Rio Editora. p. 26.
[29] Bauman, Zigmuth. O sonho da pureza. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 20.
[30] Bauman, Zigmuth. A criação e anulação dos estranhos. In: O mal-estar da pós-modernidade. p. 29.
[31] Ibid. Ibidem. p. 30.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

José Craveirinha: Depoimento Autobiográfico

28 de maio de 1997.
José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Completa hoje 75 anos!!!
Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano", e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50.
Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa, não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Outra parte permanece inédita.
Esteve preso pela Pide, de 1965 a 1969, na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar, entre outros.
Tem muitas obras publicadas, sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa.

Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:

"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."
FONTE:
Lenamarve (Mensagem original) Enviado: 29/5/2007 03:40
Date: Wed, 28 May 1997 15:42:23 gmt+0200 From: Joaquim Fale' <> To: <>

terça-feira, 8 de abril de 2008

Mia Couto - crônica

Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.

Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.

Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.

Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.

Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.

Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz

http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D71151__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

Paulina Chiziane - O Alegre Canto da Perdiz
Editorial Caminho
Delfina é uma mulher bonita, «uma negra daquelas que os brancos gostam». A história de vida desta Delfina, «dos contrates, dos conflitos, das confusões e contradições», é a história da mulher africana, a história da apocalíptica perda do sonho. Esta mulher debate-se entre «escolher o caminho do sofrimento», o amor que sente por José dos Montes, e eliminar a sua raça para ganhar a liberdade», procurando o homem branco que lhe dará o alimento e o conforto que deseja. Mas o que é o amor para a mulher negra? Na terra onde as mulheres se casam por encomenda na adolescência? O problema arrasta-se ao longo do livro, aparentemente sem solução: «viver em dois mundos é o mesmo que viver em dois corpos, não se pode. Tu és negra, jamais serás branca». Mesmo assim a mulher negra «procura um filho mulato, para aliviar o negro da sua pele como quem alivia as roupas de luto».O sufoco das palavras outrora silenciadas, a valentia e a frontalidade gritam alto nos romances de Paulina Chiziane. Neste diálogo consigo própria, a conhecida escritora moçambicana, mistura imaginação, fantástico, misticismo, num retrato poderoso e peculiar da sociedade e da mulher africanas.

Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 342
Peso: 425 g
Colecção: «Outras Margens», n.º 0Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-1976-4
1.ª edição: Março 2008
Data: Março 2008

terça-feira, 18 de março de 2008

Eduardo White: Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave

Eduardo White é poeta moçambicano. Em sua poesia veremos uma linguagem poética que será levada pelo vôo onírico em questões existenciais, filosóficas e metapoéticas, ou como lembra Mia Couto, o poeta segue a tradição de que a "poesia lírica sempre arriscou em Moçambique" (WHITE, 1992, pp. 9). Essas questões são retomadas pela literatura moçambicana a partir dos anos 1980, com o país independente, porém, arrasado pela guerra de desestabilização realizada entre a Frelimo (partido que liderou a independência do país) e a Renamo (partido apoiado pela Rodésia e África do Sul).

Diante da situação de asfixia de séculos de colonização portuguesa e a posterior libertação de Moçambique, a poesia, principalmente nas décadas de 1960-1970, era engajada, política, doutrinária, não havendo espaço para questões existenciais e metapoéticas, que só seriam retomadas no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim (Monção) e Mia Couto (Raiz do orvalho), e a seguir pela geração da revista Charrua (1984), da qual Eduardo White é contemporâneo.

Selecionei alguns poucos poemas de raríssima beleza do livro Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave (Lisboa: Caminho, 1992). Ao prefaciar a obra, Mia Couto aponta para a relevância da poesia de White diante de um momento delicado pelo qual passava o país, dilacerado e desgastado por tantos anos de uma fratricida guerra:

"Aqui está uma poesia fortemente embrenhada nos conflitos do seus tempo, empenhada com a alma moçambicana. Talvez a abundância da morte, a irracionalidade da tragédia moçambicana alimentem, pela negativa, os versos de Eduardo White. Porque há nestes textos fôlego de esperança que só os magos e adivinhos pressentem. Num mundo de caos e violência é preciso cuidar das palavras como se, no seu ventre, elas trouxessem o núcleo prenunciador de um outro mundo. (...)
Tudo nesta escrita quer voar. A pedra, o fogo, a casa. Porque estes versos sugerem um ritual de iniciação ao belo, uma reaprendizagem do fascínio. O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo. (...) O poeta vai a pedra e lhe concede a respiração. Toca no fogo e lhe empresta a febre da água. Magia de quem recusa a condição terrestre, ilusão da eternidade: as aves não envelhecem. Tradutor de uma caligrafia celestial, essa que só a pluma da asa pode redigir, Eduardo White reinventa as imensas paisagens do seu país, a geografia da ternura que só os pássaros sabem percorrer.
Eduardo não escreve sobre aves. Escreve em aves." (WHITE, 1992, pp. 9-10)

Espero que gostem.
Riso

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Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

(p. 22)


Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania. Um pássaro bebe nu na minha boca e em vão vai querer saber que álcool o comove com tanta frescura. Primeiro pia, limpa as asas robusta ainda húmidas da saliva e depois canta e ferve e sua, e num minuto já todo o corpo lhe estrebucha. Chama por mim. São muito velozes e bruscas as suas tonturas e eu face a isso pergunto-vos por que terá vindo nu um pássaro a beber à minha boca? Que esplendor ou embriaguez ele procura? Que obscuros dons, que vocação, que loucura?
Vamos, entremos agora no mistério onde o poema nos vigia, rente ao murmúrio para que a alegria não retina e podem ver ao fundo, ali, um estábulo onde as palavras se abrigam, acolá, um bebedouro onde a memória bebe, os restos de feno, dois tipos que trabalham em pleno escuro e já visível a farma, a terra em uso. Estão aqui os instrumentos, os moldes da mania de que vos falei há bocado.
Voemos.
Voar não é senão essa ilusão,
fazê-la possível. Tê-la vivendo.
Voar é estender as mãos
a esse desejo que nos dói
como um punhal insurgente.

(p. 26)


Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

(p. 28)


Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.

Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.

O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.

Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

(p. 19)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mia Couto revisitado (entrevista)

Quinta-feira, 14/9/2006
Elisa Andrade Buzzo
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2047

Ele tinha mãos calmas e as apoiava em cima do gravador. O tempo quente não o impedia de vestir uma camisa - fora rendido pelo calor, indicavam as leves dobras em cada manga.

Ouvir a fita cassete, gravada em 29 de agosto de 2004 no Hotel Luzeiros, traz inevitavelmente à tona o ambiente da noite. A maciez da fita magnética premida pela pequena almofada traz mistérios, completa o ar de sons amortecidos, que agora ressoam novamente. As palavras do escritor moçambicano Mia Couto inundam o cômodo.

A entrevista que irá se seguir a este texto foi feita na ocasião de uma viagem à Bienal Internacional do Livro de Fortaleza, em 2004. No entanto, a conversa com o escritor não havia sido publicada até o momento. Recuperada a fita cassete, transcrevi apenas as perguntas feitas por mim e respondidas por Mia, abstendo-me de incluir a parte de um jornalista de Pernambuco também presente.

Em junho deste ano Mia Couto esteve novamente no Brasil, desta vez para lançar o livro O outro pé da sereia pela editora Companhia das Letras. Lá estavam, mais uma vez, as mãos em calmaria no teatro do Sesc Vila Mariana, onde Mia fez uma pequena conferência ao público, seguida de uma seção de autógrafos.

António Emílio Leite Couto nasceu em 1955 na cidade de Beira, em Moçambique. O "Mia" é apelido que veio da infância. Trabalhou como jornalista dirigindo a Agência de Informação de Moçambique, a revista Tempo, e o jornal Notícias de Maputo; foi militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Atualmente trabalha como biólogo.

O escritor foi editado no Brasil inicialmente pela Nova Fronteira, na década de 1990. As edições dos livros Terra sonâmbula, Histórias abensonhadas e Cada homem é uma raça estão esgotadas. Mais três livros foram editados nos últimos anos, desta vez pela Companhia das Letras: Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra, O último vôo do flamingo e O outro pé da sereia.

Também vale a pena conferir livros do autor não-publicados no Brasil, no site da editora portuguesa Caminho Editorial.

Elisa – Posso te chamar de António... Mia?

Mia Couto – Ah, Mia! António já não existe [risos].

Elisa – Estive lendo algo sobre quinze livros ser a média de publicações por ano em Moçambique. Você sabe se esse número aumentou, se há hoje uma vida literária mais intensa no país?

M. C. – Eu imagino que quinze livros é o que está a ser publicado agora. Quinze, vinte livros, que deve ser aquilo que o Brasil publica em meio dia ou algumas horas só, né? [risos] Uma situação recente esta, porque nós, até sete anos atrás, publicávamos só dois, três por ano. Então isso origina um círculo vicioso porque a pouca produção não estimula que novos valores nasçam. Mas é algo que eu acho que realmente é contingente, quer dizer, é uma herança de um país que, ao mesmo tempo, é um dos países mais pobres do mundo. Moçambique está dentre os dez mais pobres do mundo; e é também uma herança de uma guerra que demorou dezesseis anos e que paralisou por completo o pouco que havia. Então, nós estamos a sair disso, estamos emergindo de alguma coisa que foi uma espécie de uma noite apocalíptica quase.

Elisa - Você acha que o país agora está caminhando para...

M.C. – O problema é esse “para”. Está caminhando, mas está para onde? Não sabemos. Porque ali tudo é muito frágil, nós vamos ter eleições agora em novembro e o grande drama é este, uma eleição aqui é alguma coisa que não pode alterar profundamente muito, não precisa já ter rotinas, já tem procedimentos, tem esquemas que funcionam independentemente da política, quer dizer independentemente da política não tanto assim, mas que não estão tão dependentes da política como no nosso caso. No nosso caso, nós dependemos absolutamente do que vai a passar numa eleição. E isso pode terminar que este caminho, que é um caminho de estabilidade, que é um caminho de crescimento que temos tido desde... a independência foi em 1975, depois tivemos paz em 92, desde 92 nós temos um caminho que é um caminho de crescimento, de consolidação desta paz. E esta turbulência que o país foi vivendo é tão ligada à vida de cada um, que nossos escritos percorrem um caminho que é quase paralelo a isso. No meu caso, por exemplo, eu escrevi aquilo que era antes da guerra, durante a guerra, depois da guerra. Os meus livros seguem muito próximos a essa espécie de crônica do fazer e desfazer de um país.

Elisa – Você sempre morou em Moçambique?

M.C. – Sempre morei em Moçambique. Mesmo durante a guerra eu nunca saí.

Elisa – A gente aqui no Brasil tem uma visão da África que muitas vezes é estereotipada. Agora, qual é a visão que você acredita que Moçambique tem do Brasil?

M.C. – Olha, há visões diferentes. Mas em geral é uma visão estereotipada também, né? Eu acho que os moçambicanos em geral, os moçambicanos urbanos, sabem o que é o Brasil, sabem que há o Brasil, sabem um bocadinho da história do Brasil, sabem que o Brasil fala português. E mesmo os menos escolarizados têm essa consciência de que está ali alguém da família do outro lado. O reverso já não é tão verdadeiro, eu vejo que muitos brasileiros com quem eu falo na rua, etc, quando eu me apresento como moçambicano, eles às vezes perguntam, “Moçambique"? E perguntam coisas extraordinárias, sobre onde é que fica... Ambos os que olhamos para o outro lado e vemos alguma coisa, vemos alguma coisa que não há. Vemos um Brasil que não há, vocês vêem um Moçambique que não há; mas os que vêem, mesmo essa imagem mistificada, são mais os moçambicanos que têm esse acesso a um Brasil. Há que se dizer, por exemplo, o moçambicano comum, o que ele sabe do Brasil é um bocadinho daquilo que o Brasil sabe exportar, sabe exportar a si mesmo. E conhece muito da música, embora provavelmente não seja a de maior qualidade, mas conhece, sabe o que se passa. Os discos mais vendidos em Moçambique, a música mais ouvida na rádio é provavelmente música brasileira. As novelas chegam lá, chega lá a Igreja Universal do Reino de Deus, um grande canal de comunicação [risos] internacional.

Elisa – Que tipo de música chega até lá?

M.C. – Olha, uma das cantoras mais vendidas é a Roberta Miranda, por exemplo. Duplas sertanejas, Chitãozinho e Xororó... era o Roberto Carlos, foi o Nelson Ned, estes nomes assim, Agnaldo Timóteo. Chegam estes com uma certa hegemonia, depois os outros como o Chico [Buarque], como o Caetano [Veloso], como o Milton [Nascimento]... tocam um pequeno grupo só, não são tão populares assim. Algumas canções deles conseguiram, mas não têm a popularidade que têm estes outros cantores.

Elisa – Mia, eu queria muito ter lido alguma coisa de sua poesia para hoje... [no entanto não pude ter acesso ao livro de estréia de Mia Couto]

M.C. – Melhor não... [risos]

Elisa – Você não gosta mais da sua poesia?

M.C. – Eu fiz um livro de poesia só. Foi o meu primeiro livro, chama-se Raiz de orvalho. Foi publicado em Moçambique e depois em Portugal. Eu não me revejo muito ali, eu acho que eu sou um poeta que escreve em prosa. O que eu estou fazendo é poesia, em grande medida. Aquela é uma poesia datada, eu queria dizer qualquer coisa contra o que estava passando e o verso era a minha arma. Mas não, não me envergonho, mas não acho que é a melhor maneira de começar por travar conhecimento com a minha escrita.

Elisa – Você acredita que escreve uma prosa poética?

M.C. – Ou uma poesia em prosa. Quem sabe o que é que é uma coisa e outra, onde é que está a fronteira, né? Mas eu me considero um poeta, por exemplo, se me dissessem que eu sou um escritor, eu tenho uma certa resistência, se alguém me disser que eu sou um poeta, eu acho que isso me honra muito.

Elisa – Como foi pra você essa transição da poesia para a prosa, apesar dessas relações?

M.C. – Eu era jornalista naquela altura, tanto que eu comecei a trabalhar como jornalista em 74. E por volta de 85, eu já tinha percorrido muito do meu país, das zonas interiores, aquilo que é o nosso sertão, que lá se chama savana. E eu recolhi muitas histórias, enfim, uma instigação forte daquilo que eram as vozes rurais que ecoavam na minha cabeça. E eu escrevi o primeiro livro de contos que se chamava Vozes anoitecidas, exatamente porque era um livro de vozes, era alguma coisa que me chegava do outro lado do mundo e que, digamos, que estavam veladas pela noite e que a minha operação era simplesmente desocultar isto. Eu não era um autor, eu era uma espécie de caixa de som. E essa foi a minha forte motivação para passar a contar histórias e contá-las usando a prosa, mas sendo uma prosa premiada pela poesia.

Elisa – Que é seu grande diferencial...

M.C. – Ah, eu não sei fazer de outra maneira. Não é um mérito, eu não sei fazer de outra maneira.

Elisa – Então, você acha que o jornalismo talvez tenha te ajudado de alguma forma a caminhar para a prosa?

M.C. – Eu acho que o jornalismo ajuda muito a perceber como é que se comunica com os outros, mas é um mestre que tem que se matar rapidamente porque senão nos aprisionam num certo tipo de linguagem, e nós ficamos olhando os outros de uma maneira que eu acabo por não gostar. Uma das razões pela qual eu deixei o jornalismo foi porque entrei em ruptura com certos tipos de atitude. Como posso explicar? Não fiquem magoados comigo porque eu ainda sou jornalista, nunca deixei de ser jornalista. Mas ali há uma certa tentação de arrogância, quer dizer, o jornalista não tem tempo. Não tinha o tempo que eu queria. Nós somos enviados para um lugar ou para um acontecimento e não podemos telefonar para a redação dizendo “olha, eu preciso de um mês para ganhar o espírito e para ir fundo, para mergulhar nas coisas”. Ninguém nos autoriza a uma coisa dessas. Então, isto é um certo convite à uma certa mentira, pois temos que dizer que somos supostos transmissores de uma certa idéia do mundo. E tinha uma outra coisa, ter mais tempo, viajar mais fundo, não ir a correr nesta espécie de ditadura do estar lá e estar em cima do acontecimento. Essa idéia de tempo é uma idéia fatal, é uma idéia que nos acaba por matar.

Elisa – Mia, queria pensar numa questão, você se considera um escritor moçambicano ou um escritor português nascido em Moçambique?

M.C. – Não, sou um escritor moçambicano, eu não me considero português. Quer dizer, eu sei que eu tenho um lado português, mas não sou português. Não por uma razão de nascimento no sentido geográfico, mas porque eu só me concebo... aquilo que me falta ainda nascer só pode nascer lá [Moçambique], nesse sentido. As vezes que eu nasci, todas elas foram lá e acho que ainda eu vou nascer, são lá. É mais nesse território da fé, no território da minha geografia cultural que está ali em Moçambique. Obviamente não tenho nenhuma briga com aquilo que é minha herança portuguesa, gosto dela. Se há alguma coisa que eu possa dizer que eu sou, eu sou dali, daquela Moçambique, sim.

Elisa – Há escritores brasileiros que você sente ter influenciado sua obra? Ou o que escreve veio apenas de si, um jeito seu?

M.C. – Ah, não, não, um jeito meu, não. Agora é meu, mas começou por ser de outros. É uma influência muito marcada por João Cabral de Melo Neto, pelo [Carlos] Drummond de Andrade, pelo Manoel de Barros, pelo Guimarães Rosa. Eu deixei por último este, embora seja a influência que mais me fascinou. Eu comecei escrevendo recriando o português muito na esteira daquilo que pessoas como o Guimarães Rosa fez. Mas sem saber que existia o João Guimarães Rosa. Eu conhecia alguém que foi muito influenciado por ele, que foi Luandino Vieira, um angolano, que depois numa entrevista que eu li, escreveu que ele tinha sido marcado pelo Guimarães Rosa. Eu comecei a perseguir este Guimarães. E aquilo foi um incêndio, foi uma coisa cataclística. Muito importante pra mim, impressionante como uma espécie de caução, havia ali um sancionar, é possível fazer isto, há uma luz verde. Mas não é um caso que acontece só comigo, acho que a literatura moçambicana, toda ela, está marcada por uma influência brasileira fortíssima e muitas vezes mais forte do que a portuguesa ou qualquer outra africana.

Elisa – Por que acha que isso aconteceu?

M.C. – Porque a maneira como a língua brasileira, variante da língua portuguesa, se aproxima mais de nós, da maneira como uma outra cultura está a trabalhar na língua portuguesa e, portanto ela tem que reformular, tem que vestir de uma outra forma. E quando nós descobrimos o Brasil, nesse sentido, foi como uma descoberta de nós próprios. E o Brasil tinha, desde o Manuel Bandeira, o Mário de Andrade, essa preocupação também de encontrar linhas de ruptura com a literatura portuguesa, com a língua portuguesa. Havia esta idéia do abrasileiramento da linguagem, que era a nossa preocupação também, nós vamos buscar socorro à literatura brasileira durante muito tempo. Depois foi Jorge Amado, Graciliano Ramos, a Rachel de Queiroz, num ou noutro momento, foram fontes de inspiração muito, muito grandes. Não há escritor moçambicano, não há geração de escritores moçambicanos que não tenha vindo beber aqui com muita força. Eu sempre digo isto porque é uma espécie de homenagem que eu faço a vocês, ao Brasil.

Elisa – Quero falar um pouco sobre o Primeiras Estórias e seu livro da Companhia das Letras, eu sempre confundo o nome, é Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra...

M.C. – Sim. Eu também confundo.

Elisa – Enquanto eu estava lendo o livro, pensei na “Terceira margem do rio” [conto do livro de Guimarães Rosa], o rio é a parte central, e no seu livro o rio também é um elemento bastante importante, não é? É esse componente do maravilhoso que vejo, assim como no Guimarães.

M.C. – É provável que haja qualquer coisa ali, não refuto, mas acho que ali há duas coisas. A primeira coisa é que eu atravessava um rio, durante três anos trabalhei numa estação de biologia que ficava na outra margem do Maputo e era preciso atravessar o estuário do rio para chegar ao outro lado, e eu não sabia nadar, não sei nadar até agora. E aquilo pra mim era uma viagem, sei lá, num limiar, era uma viagem numa condição extrema. E esse outro lado, é aí que eu fui buscar a minha inspiração para construir essa pequena vida onde se passa essa história, o Luar-do-Chão. E depois, o maravilhoso é uma coisa que está completamente presente na realidade moçambicana, a fronteira entre aquilo que nós podemos dizer que é o fantástico e a realidade está toda reformulada lá. Portanto, eu acho que mesmo que um escritor moçambicano não tenha nenhuma relação com qualquer autor, eu não falo no Guimarães Rosa, mas qualquer autor latino-americano da escola do realismo mágico... ele só pode fazer isso, ele não pode escrever de outra maneira porque ali, aquilo que é percepção do mundo, aquela racionalidade é uma outra racionalidade. Os meus colegas que são bons cientistas, que são geneticistas, são gente da ciência, da linha de ponta da ciência, se lhe dissessem que de noite tu conversas com o mar eles acreditam que é possível.

Elisa – Neste livro, por exemplo, você tem tanto o componente rural, quanto o urbano.

M.C. – Em tantos livros passa sempre essa questão desse trabalho de alfaiate, dessa costura, dos mundos distintos que hoje existem em Moçambique, que não se conhecem, que nem sequer sabem como falar uns com os outros. Então, o mundo rural e o mundo urbano, meio que são mundos que se desconhecem. E, provavelmente, se é que a escrita tem alguma missão, o que os escritores podem fazer é desfazer, dissolver esses medos. Até convidar, neste sentido que essa viagem nos dá intenso prazer de entrar com realidade, urbanidade. E, entrar modernidade e a tradição, é uma espécie de convite para que os outros façam essa viagem sem temor. Uma coisa que me aflige, que me aflige muito, é que Moçambique passou estes dezesseis anos de guerra, perdeu um milhão de pessoas e nós somos só dezessete milhões, portanto foi um momento muito sofrido, um momento de luto. Nós ainda não fizemos o luto e de repente Moçambique esqueceu-se, se fores hoje a Moçambique ninguém fala do que se passou. É uma esponja que passou ali, não há resquícios. E isso não é bom, quer dizer, isso significa que nós perdemos aquilo que deixou de ser nosso, nós temos que ter acesso àquela memória. E os escritores podem ter aqui um outro papel ao escrever, ao abrir portas, ao fazer uma espécie de catarse sobre esse momento.

Elisa – Tem muito, então, de autobiográfico nesse livro?

M.C. – Sim, esse Marianinho sou um bocadinho eu [risos]. Eu também nunca conheci um avô meu, então é uma espécie de tentativa de escrever a minha própria história.

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Mia Couto: O beijo da palavrinha

Com o lançamento no mercado brasileiro da editora Língua Geral, especializada em divulgar autores da língua portuguesa, e sua coleção intitulada Mama África, direcionada ao público infantil com contos tradicionais africanos escritos por autores consagrados e ilustrado por artistas plásticos igualmente prestigiados, resolvi analisar um título da coleção mencionada, a saber: O beijo da palavrinha, escrito por Mia Couto e ilustrado por Malangatana Valente. Dois artistas moçambicanos comprometidos com a sua terra, com a pluralidade cultural de seu país, com o bem-estar entre os homens das diversas “raças” e crenças, e que fazem do universo onírico o espaço necessário para perpetuar os seus desejos de liberdade, de preservação das culturas autóctones e de uma sociedade plural e pacífica.

Em O beijo da palavrinha, Mia Couto conduz-nos ao interior de sua Moçambique, a um lugar onde vivia uma menina que nunca vira o mar, e para enfatizar a distância da localidade do litoral, afirma: viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz. Logo na primeira página o autor contextualiza, de maneira simples e clara, o ambiente de dificuldades causados pela seca e miséria, que se confirma no próprio nome da personagem principal, Maria Poeirinha, a indicar o flagelo, a vida sem maiores aspirações da menina. Os nomes das personagens são fundamentais para compreender a obra coutiana. O uso da onomástica apresenta características que compõem os personagens de suas estórias. Há de se ressaltar também o trabalho gráfico que faz uso de uma fonte em tamanho reduzido, pequena e discreta na oração em que o nome da menina é apresentado em relação aos outros parágrafos desta página inicial a chamar a atenção do leitor-criança para a condição minúscula da personagem. Ao lado do texto temos a ilustração de Malangatana em uma de suas principais características, a imagem poluída por figuras humanas, confinadas e asfixiadas no espaço limitador da moldura da tela, estilo que brilhantemente representava a condição dos moçambicanos diante da ação colonizadora e da posterior guerra civil que assolou o país em diversas pinturas da sua carreira, além da cor vermelha constante na obra do artista, e principalmente as diversas expressões faciais encarando o leitor, que retratam espanto, tristeza, melancolia, dor e indiferença. O artista ilustra o povo da aldeia, procura valorizar a cultura autóctone, caracterizando suas pessoas com trajes típicos como cordões e ornamentos nas cabeças, e utensílios domésticos como um vaso.

Diante da miséria em que a personagem vivia, até o sonho, espaço libertador dos descaminhos de um sofrido cotidiano, espaço para se escorar no universo onírico para dar asas à imaginação e trazer um pouco de alento a tão triste vida, nem nesse espaço ilimitado e livre a menina consegue desvencilhar-se de sua condição, como relata o autor: até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos. Às vezes se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos. A descrição de seu manto representa o seu viver fragmentado e frágil como grãos de areia, a falta de ambição porque talvez nem saiba o que isto seja, e ausência de qualquer expectativa de melhora, pois o que imagina bom está distante como a princesa de um livro, condição esta que também é motivada pela hostilidade do ambiente em que vive. O seu espaço físico-geográfico hostil, é o que decepa as asas literárias do sonho para rapidamente recolocá-la no seu meio, na sua realidade crua, de pés descalços, intenso calor e rio seco: Mas depressa ela saía do sonho pois seu pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão. Enquanto isso, Malangatana representa em intensas alegorias o sonho da menina, porém percebemos um peixe enorme e furioso pronto para aboncanhá-la e, assim, trazê-la para o seu mundo. E diante dos sonhos interrompidos, mais uma vez o predomínio dos tons avermelhados na ilustração.

Dois coadjuvantes são apresentados. Primeiro, seu único irmão, Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa. A seguir, o tio Jaime Litorânio que achava um absurdo seus familiares não conhecerem o mar, pois este o havia aberto a porta para o infinito. Para Jaime Litorânio o mar era seu universo de liberdade contra as agruras da vida, como acreditava: havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do sol mas das águas profundas. O mar, a porta para o infinito, um infinito de liberdade, sem pobreza, sem miséria que vinha das águas profundas, contrastando com o pélago profundo de Charles Baudelaire em As flores do mal. O mar infinito como lugar de refúgio, abrigo, acalanto, como lugar de toda cura contra as mazelas da vida. Assim pensava Jaime Litorânio, que destaca em seu nome sua paixão pelo mar. O infinito é destacado na diagramação das páginas desta passagem. E Malangatana retrata a luz deste mar profundo em figuras dispersas, apenas rostos, rostos impessoais, fragmentos de rostos flutuando (nadando) no espaço. O mar que exige a alma inteira, entregue para visualizar e reconhecer a mencionada luz, que pode ser a própria luz da pessoa que se dispõe a tal exercício libertário.

Daí o tio crer que a cura da doença da menina, quando esta desenvolve uma terrível enfermidade que a leva à beira da morte, ser o momento exato para que conhecesse a praia e descobrisse outras praias dentro dela. A incredulidade dos moradores da aldeia apresenta-se: Mas o mar cura assim tão de verdade?, entretanto o tio permanece convicto e insiste na salvadora viagem. E Malangatana apresenta um destemido navegante na popa de um barco, cônscio de sua sagrada missão, a de conduzir a pobre Poeirinha que parece nos encarar assustada com a velocidade dos acontecimentos e proporcional rapidez da morte que se aproxima.

Contudo, a viagem não se concretiza em razão da elevada fragilidade da menina. As pessoas não sabem o que fazer e sua mãe começa a entoar as velhas melodias de embalar. Em vão. Momento que Malangatana registra com lirismo comovente o leito de morte de Poeirinha, cercada por conhecidos e sua mãe que pega a sua mão. Todos já se conformam com a morte de Poeirinha, já preparavam as finais despedidas, até que aparece na cena seu irmão Zeca Zonzo com um papel e uma caneta.

Zeca Zonzo informa que vai mostrar o mar para irmã e surpreende a todos ao não desenhar o que esperavam, como um oceano azul cheio de peixes. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra “mar”. Apenas isso: a palavra inteira e por extenso. Zonzo ainda não sabe o que fazer, até que sua irmã murmura em débil suspiro: Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada, tão cansada que já não consegue se levantar. Os olhos, as pálpebras sem forças para se levantar, a luz cansada. Faróis, faróis de luz que iluminam a vida. O olhar distante da menina que olha apenas de soslaio para a discreta claridade no alto a sua esquerda, a remeter características barrocas, como o claro x escuro, o contraste entre o terreno e o sagrado, a posição superior diagonal da luz invadindo a ilustração e o tratamento granulado empregado pelo artista na realização da obra.

Com a fragilidade da irmã, Zeca Zonzo resolve ajudá-la: Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu. Sendo, em seguida, repreendido pelos pais que achavam se tratar de mais um desvario da criança vazia, porém o menino está determinado no seu objetivo e guia o dedo da menina sobre os traços que desenhara. Todavia, Poerinha denuncia sua condição e, entre murmúrios, diz: Estou tocando sombras, só sombras, só. É a vida que se esvai do corpo, desprendendo-se para outro plano, outra vida, como a aura disforme retratada por Malangatana que envolve e se vai do corpo físico para o plano espiritual, a caminhar sozinha em um novo mundo desconhecido, um mundo de sombras, o que é realçado na diagramação do texto com o destaque para a palavra com a fonte em tamanho maior.

Entretanto, Zeca Zonzo insiste e sopra os dedos da irmã como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel. Com o dedo guiado pelo irmão, Poeirinha consegue decifrar a primeira letra, o “m”, momento em que os dois sorriem sem que os outros presentes compreendessem o motivo da alegria. A letra “m” é descrita pelo narrador como feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem, e Poeirinha recorda-se das ondas do rio: Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.

E passa para a letra “a”. É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria. Nesta passagem, Malangatana representa a dor da menina em seu leito com a gaivota imaginária. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela. As pessoas ao redor estavam emudecidas diante das crianças que chegam à última letra: É uma letra tirada da pedra. É o “r” de rocha. E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. Mais uma vez o vermelho ressurge na pintura de Malangatana, os dedos da menina sangram, mas o olhar não revela dor, mas sim, um distanciamento, um vazio, talvez o fim que se anuncia.

Emocionado diante da situação o tio Jaime Litorânio diz: Calem-se todos: já se escuta o marulhar! O som do mar que anuncia a mudança de estado de Poeirinha. E abre-se espaço para o universo onírico de Mia Couto aparecer com a reconhecida maestria: Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. É o vôo da liberdade para uma nova vida sem as agruras da vida terrena. É retomando o sonho da menina transcrito no início do livro e o fantástico surge entre as palavras e viajamos com a gaivota branca ou no rio dos seus sonhos. Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeirinha que se erguia? (...) Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto de remoinhos, remendos e retalhos? A paz, a liberdade e a harmonia sendo conduzidas nas asas de um pássaro, animal que tantas vezes aparece na literatura moçambicana, não só em Mia Couto, mas também nas poemas de Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, e constantemente representado nas pinturas de Roberto Chichorro.

Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra a lenda do flamingo e do nascimento da noite. Conta sobre um flamingo que um dia resolve não mais voar, que está cansado de viver e que deseja ir a um lugar onde só há luz, mas não é dia, e a ave parte e diz aos seus pares: não quero mais pousar, só repousar. E parte em direção ao sol poente:

Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.

Ou seja, os pássaros são tidos como animais sagrados que também fazem essa transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Terna e bela é a última ilustração de Malangatana, ao retratar a menina em seu leito de morte, cercada por seus familiares com olhares complacentes após o seu derradeiro suspiro. O fundo azul simbolizando o mar, a colcha de retalhos, os peixes e a sua passagem desta para outra vida.

Não apenas por ser um livro infantil, mas as crianças são bastante representativas nas literaturas africanas de língua portuguesa, pois estão mais próximas dos antepassados devido a pouca idade, assim como os mais velhos que também estão mais próximos, mas pelo avançar da idade. As crianças são argutas, espertas, observadoras e inocentes, e geralmente ajudam a solucionar conflitos, vivenciam os dramas do período colonial e da guerra. Em O beijo da palavrinha, o personagem Zeca Zonzo era tratado como um menino que nada sabia, nada resolvia, desprovido de juízo, entretanto, partiu dele a idéia de ajuda a irmã, surpreendendo a todos, e mostrando a ela como era o mar, porque nem o tio Jaime Litorânio com todo o seu amor pelo mar conseguiu apresentar à menina como era o oceano, e o menino, de maneira lúdica, teve a felicidade de conduzi-la ao mar através da leitura e da escrita. É importante frisar a presença desses dois últimos componentes na construção de Moçambique independente, e o autor Mia Couto foi um dos participantes nesse processo de divulgação e unificação da nação pela língua portuguesa.

Podemos fazer a seguinte analogia a partir da atitude dos dois irmãos, o estado de saúde de Maria Poeirinha com a palavra “mar” e a tríade início-meio-e-fim. O “m” de mar com suas ondas que sobem e descem, como a condição da menina extremamente doente em seu leito de morte; a letra “a” do mar como a gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria, momento em que todos ao redor haviam se calados pela perplexidade com que a criança vai sendo apresentada ao mar ou pela brisa fria, o vento frio a indicar que algo de ruim estaria por vir, enquanto as crianças, no universo imaginário, preocupavam-se em não demorar com o toque sobre a letra para não espantar o pássaro que ali estava; e quando encerram a leitura e a escrita da palavra mar a menina reconhece a letra “r”, o r da rocha. E os dedos da menina magoaram-se no rugoso r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. A letra “r” muito bem observada pelo autor por causa da sua tipografia. O “r” de rocha que encerra a onda, local de repouso das aves, rocha na beira do mar de vento frio a simbolizar o fim, o término da vida de Maria Poeirinha.

E assim a menina é conduzida pela gaivota e navega no derradeiro sonho.

Eis minha mana Poeirinha que foi beijada pelo mar. E se afogou numa palavrinha.

* análise feita para o módulo Literatura Infanto-Juvenil Africana e Afro-Brasileira, ministrado pela Profa. Dra. Conceição Evaristo, no curso de pós-graduação África/Brasil: Laços e Diferenças (Universidade Castelo Branco).
Fontes:
COUTO, Mia. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
COUTO, Mia. O ultimo voo do flamingo. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2005.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret. 2003.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Mia Couto - entrevista na Rádio USP

a crítica e a criação

Entrevista realizada pelas Professoras Tania Macedo e Rita Chaves com o escritor Mia Couto na Rádio USP apresentada em 14/08/2006.

"Essa edição tem como convidado Mia Couto autor do Romance O Outro Pé da Sereia , publicado pela Companhia das Letras. O ficcionista conversou a respeito do seu trabalho literário com as professoras Rita Chaves e Tânia Macedo Antes, porém o programa apresenta uma homenagem ao professor e crítico literário João Alexandre Barbosa, que faleceu recentemente. O intelectual também foi o re-fundador da EDUSP e graças a sua atuação em poucos anos essa casa tornou-se a principal editora universitária do país."

Clique em:
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=060814

Riso

sábado, 5 de janeiro de 2008

Mia Couto: uma brincriação


Arte digital - 28/01/2007


Fiz esta brincriação com a personagem Nãozinha de Jesus, curandeira e conhecedora das plantas medicinais, do conto "O adeus da sombra" do livro Estórias Abensonhadas (Editora Nova Fronteira), de Mia Couto, com as caixas de remédios da indústria farmacêutica.

A brincriação feita fala da pressão que a indústria farmacêutica exerce sobre os países periféricos e a propaganda para desacreditar o conhecimento ancestral das plantas de cura. Trata-se de uma questão que aparece com freqüência na obra de Mia Couto.

Riso

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Malangatana Valente - poemas

Além de ser o principal nome da pintura moçambicana, Malangatana Valente também passa pela poesia.
Para conhecer a pintura de Malangatana, visite http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/estar-se-no-stio-como-moambicano-como.html
e a relação dele com o poeta moçambicano José Craveirinha, visite
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/11/craveirinha-e-malangatana-comunicao.html

A seguir, alguns poemas deste multifacetado artista.

A coruja
A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;

O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana* Muhlonga
apitava o Kulungwana* mortal;

Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.

Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.

In Livro "Vinte e quatro poemas" de Malangatana Valente Ngwenya, edição do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, 1996 pag.35


A Mamã preocupada
Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?

Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita

Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó

Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas

Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha

In livro de Malangatana Valente NGWENYA "Vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Portugal,página 24


Amor Verde
Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom

Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.

In Do livro "Malangatana - vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Instituto Superior de Psicologia Aplicada-CRL, Lisboa, em 1996, o poema na página 32.


Pensar alto
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer

mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.

http://kafekultura.blogspot.com/2007/06/valente-malangatana-pintura-poesia.html