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terça-feira, 8 de abril de 2008

Mia Couto - crônica

Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.

Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.

Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.

Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.

Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.

Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.

Pepetela - O quase fim do mundo (entrevista)

Fonte: Diário de Notícias - Editado por Angola Digital
Tuesday, 11 March 2008
http://www.angoladigital.net/artecultura/index.php?option=com_content&task=view&id=878&Itemid=39

«O Quase Fim do Mundo» de Pepetela

«Este romance podia ter mais 800 páginas». «Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição.» Uma entrevista do Diário de Notícias ao escritor, a propósito do novo livro.

E se houvesse um holocausto agora? A história começa assim. Quando terminou o romance “Os Predadores”, disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?

Foi diferente. Este livro foi um jogo; espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei pensei: "Isto até dava mais umas 800 páginas." Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?

O livro estava a pedir-me para parar ali. Mas hoje quando releio a parte final, vejo que podia continuar. Mas bastava não pôr ali um epílogo e continuar, reconstruindo a história da humanidade.

Parte de um hipotético holocausto e uma frase que posiciona logo o leitor. "Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo"...

Dou muita importância às primeiras frases e, neste caso particular, foi muito trabalhada.

Como dá importância aos nomes...

Este foi escolhido de modo a nunca se definir muito bem a origem da personagem e a sua situação no terreno. O leitor mais conhecedor de África consegue situar mais ou menos uma região onde é possível estarem cinco países que fazem quase fronteira: Tanzânia, Congo, Burundi, Uganda, Ruanda. É na região dos grandes lagos.
Há uma ou outra referência ao Kilimanjaro. Percebe-se que Nairobi não está assim tão longe. Mas não é importante que o leitor saiba situar. Se não conhecer a região, tanto melhor. Normalmente, como sou angolano, até poderão pensar que é em Angola. Mas não tem nada a ver com Angola. Fiz todos os esforços para que não se percebesse. O importante é que se perceba que é uma parte de África, muito próxima do sítio onde hoje se pensa que terá começado a Humanidade.

A causa do holocausto só é revelada no fim. Até lá só sabemos do repovoamento...

Este livro nasce de uma notícia. Mas hesitei algumas vezes se iria ou não revelar a causa ou se deixaria em suspenso. Depois também achei que era demasiado pesado para o leitor. Acho que o leitor ficaria frustrado, a interrogar-se sobre o que aconteceu. Era pesado demais não saber o que levou a tal destruição.

Quando diz que isto é pura ficção, não é bem verdade. A reflexão política e ecológica, por exemplo, estão muito presentes.

Há uma personagem que diz que cada civilização vive até inventar as armas que a vão liquidar. Estamos próximos disso... Ao mesmo tempo que há um instinto de sobrevivência, há um instinto de destruição. O livro é uma metáfora. Cuidado! Para onde estamos a ir?

E começa com um homem que pensa estar completamente só no mundo, até que um mosquito o pica e ele percebe que tem companhia. Esse sentimento de solidão absoluta tomou conta de si enquanto escritor?

Sim. Se não, não seria capaz de escrever. Mas tentei usar um estilo muito ligeiro. Em qualquer livro há um tactear do próprio autor. Também no meu caso. Nunca sei como é que vai acabar, nem me preocupo muito a não ser a partir do meio. Até lá é um tactear sempre. Daí que talvez neste caso tenha sido mais fácil. Alguém que inicia este livro a tactear e continua por ele fora. No fundo aquele primeiro homem é uma espécie de companhia.

A ironia ajuda na desgraça?

Sim. Nós, os angolanos, agarramo-nos muito ao humor. É a nossa arma principal para sobreviver. Até a sátira em relação a nós próprios, o gozarmos, o rirmos connosco. Isso está aqui. A ideia foi pôr esse lado africano de ver o mundo.

Uma visão que, aqui, tem muito de geográfica e segundo a qual o europeu é alguém de espírito pequeno. É assim que o africano vê o europeu?

Não posso generalizar. Depende do africano e depende do europeu, mas de um modo geral o que nós pensamos, por exemplo dos portugueses, é que os portugueses têm esse espírito pequeno. Os portugueses que viveram África e estão aqui em Portugal falam sempre é da pena de ter perdido a distância, o espaço que tinham lá. Essa saudade ficou.

Este livro foi um exercício diferente para si enquanto escritor, já o disse...

Foi. Era um tema diferente e o próprio facto de ser fora de Angola era novo. Pegar em qualquer coisa que é tremendo, mas poder contar uma história que até parecesse ligeira... Foi isso que quis fazer. Posso não ter atingido.

Essa angústia do resultado termina quando?

Nunca vai terminar. Essa angústia acho que existe sempre.

Por exemplo, em relação aos ‘Predadores’, ficou tranquilo com o resultado?

Agora sim.

Então há uma altura em que passa?

Há. Mas nunca tenho a certeza. O que sei é que tenho de parar e esperar pela reacção dos leitores. Depois posso dizer "acertei ou não acertei tão bem..."

O leitor não lhe é indiferente?

De modo nenhum. Houve livros que escrevi em que o leitor me era indiferente, porque os escrevi para mim, sem pensar em publicar.

Por exemplo?

Os primeiros. Sabia que não tinha hipótese, quando andava na luta pela libertação, etc. Onde é que iria arranjar editor? Aí há um à vontade enorme. Também o penúltimo livro, ‘O Terrorista de Berkeley’, escrevi para mim. Era uma brincadeira, não era para publicar.

Porque publicou?

Começou a haver pressão. Diziam que a história estava gira e não sei o quê, mas até hoje não estou convencido.

Ainda não se tranquilizou com ele?

Não. Era para mim, não era para mais ninguém. Ficou parado dois ou três anos e marcou um salto. Aquilo não tinha nada a ver com Angola. Era só os EUA, só americanos, mais nada. Era para me divertir. Tinha todo o tempo do mundo, não tinha nada para fazer...

O que é isso de ter todo o tempo do mundo?

(risos) É estar numa cidade de que se gosta, por onde já se andou (São Francisco). Dava de manhã um passeio. Estava num hotel, com nada para fazer, e um quarto de hotel é um lugar aborrecido. Tem uma televisão, a pessoa vê um bocado mas cansa-se da língua, tem uma secretária e um computador portátil, que anda sempre comigo. Não tinha nada para fazer e escrevi para passar o tempo. Resolvi escrever uma história. Era sobre aquilo que via todos os dias. Mas acho que marcou uma ruptura para começar a escrever sobre outras coisas e outras paragens.

Antes dos 'Predadores'?

Sim. Há uns 15 anos.

Porque adiou tanto?

Foram aparecendo outros temas que se impunham. Tenho sempre três ou quatro para trabalhar. Às vezes pego num, brinco com outro. Até ao dia em que há uma frase, uma personagem, qualquer coisa que me agarra e começo.

Pepetela - O quase fim do mundo

http://www.dquixote.pt/Livre/Ficha.aspx?id=2001


O QUASE FIM DO MUNDO
Pepetela


Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.

«E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata este romance. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.»



ISBN: 978-972-20-3525-5

Páginas: 384

Dimensões: 15,5x23,5 cm

Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Ano de Edição: 2008

Encadernação: Brochado

sábado, 5 de abril de 2008

Vera Duarte: um tributo à literatura cabo-verdiana em "O Arquipélago da Paixão"

Por Ricardo Riso
O segundo livro de poesia da escritora Vera Duarte, "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo: Artletra, 2001), apresenta, em suas epígrafes, um tema instigante na literatura cabo-verdiana, diferenciando-o dos outros países de literaturas africanas de língua portuguesa: o constante diálogo entre os poetas de gerações posteriores com as tendências temáticas de seus predecessores. Sendo que, muitas vezes, tais exercícios metapoéticos desencadeiam verdadeiras rupturas com os temas predominantes na literatura do país, no decorrer do século XX.

Entretanto, Vera Duarte subverte o habitual caminho de seus pares e não busca o confronto com o passado literário do arquipélago, mas, sim, presta tributo aos escritores que sedimentaram o corpo poético cabo-verdiano, parafraseando os temas que os caracterizaram. Solução condizente com a definição de epígrafe como podemos constatar no Minidicionário Sacconi: epígrafe é "palavra, expressão ou frase usada como título no princípio de livro ou no início de um capítulo para indicar a finalidade ou a inspiração da obra, o tema do assunto, ou declarar os sentimentos do autor".

Todavia, convém primeiro apresentar a poeta, romancista, ensaísta e juíza Vera Duarte. Nascida na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa, em Portugal. É Juíza Desembargadora e presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde. Desempenhou ainda os cargos de Juíza Conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, de Procuradora da República, de Diretora Geral de Estudos, Legislação e Documentação do Ministério da Justiça, de Conselheira do Presidente da República, de Membro do Conselho Superior da Magistratura Judicial e de Directora Geral dos Assuntos Judiciário do Ministério da Justiça. (1)

Na área de Literatura escreve poesia desde a tenra idade, ganhou seu primeiro prêmio literário em 1976, os Jogos Florais 76, em comemoração ao primeiro ano de independência do país. Em 1981 conquistou o 1º Prêmio no Concurso Nacional de Poesia. Em 2001, pelo conjunto da obra conquistou o "Prix Tchicaya U Tam'si de poésie africaine"; ganhou o Prémio Sonangol em 2003, dedicado a escritores de Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Publicou "Amanhã Amadrugada" (Lisboa: Vega, 1993; poesia), "O Arquipélago da Paixão" (Mindelo, Artiletra, 2001; poesia), "A Candidata" (Luanda: UEA, 2003; ficção), "Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança" (Lisboa: Piaget, 2005; poesia), “Construindo a Utopia” (ensaio) entre outros. (2)

Como em seu primeiro livro de poesia, "Amanhã amadrugada", este "O Arquipélago da Paixão" também divide-se em quatro partes, ou "cadernos", como denomina a autora, sendo os dois primeiro em poesia; e os outros, em prosa poética. E percebemos que as homenagens aos poetas cabo-verdianos espalham-se nos quatro cadernos. Todavia, não restringem-se aos compatriotas, mas estendem-se aos portugueses Manuel Alegre e Florbela Espanca, ao angolano Mario de Andrade e ao maior nome da literatura de Angola, Luandino Vieira, ao papa João Paulo II e ao músico de seu país, Tony Pina.

Um momento crucial na afirmação literária do arquipélago se dá com o surgimento da revista Claridade, em 1936, tendo como principais colaboradores Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes, que ficaram conhecidos como claridosos. Para a professora Simone Caputo Gomes (USP): "a revista Claridade (1936-1960) é a primeira manifestação intelectual da elite crioula, traçando uma divisória entre a poética tributária do modelo português e o mergulho nas raízes locais, passando pela leitura do modernismo brasileiro". (GOMES, 2006, p. 165)

A geração pré-claridosa, das primeiras décadas do século XX, procurava alternativas ao modelo português colonizador para a construção da origem de Cabo Verde. Há, nesse momento, o reconhecimento da mãe-terra cabo-verdiana (mátria), porém ainda há vínculo com a pátria lusitana, em uma indefinição nomeada de transpátria lusia por Simone Caputo Gomes. Com isso, apesar de já considerarem a terra como mãe, os escritores recorrem ao terra-longismo para caracterizar suas idéias, constróem um passado próspero e rico, e buscam no mito hesperitano ou mito arsinário um passado de glórias como forma de acalanto ao presente sofrido e opressor.

O recurso a este mito como origem (associado à idéia de pátria) remonta às ilhas do velho Hespério – pai das Hespéridas – que abrigavam jardins repletos de pomos de oiro, guardados pelo dragão de cem cabeças, morto por Hércules. As "ilhas perdidas no meio do mar", destacadas por Jorge Barbosa em seu antológico Arquipélago, 1935, e já eram identificadas por Camões, em Os lusíadas (canto V, VII, VIII, IX), como Cabo Verde (Cabo Arsinário ou Estrabão). Como podemos inferir, a afirmação da identidade ainda é conflitante no período, pois ainda procuram referenciais europeus na reconstituição do passado das ilhas.

O pré-claridoso José Lopes refere-se em seus versos ao poeta português e à descoberta lusa: "Mas somos filhos – nós – de outros gigantes / Que, 'por mares nunca de antes navegados' - / Nossas ilhas tiraram do mistério".
(Hesperitanas, p. 29. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 163)

Já o seu contemporâneo Pedro Cardoso, declara o seu apreço à pátria e à terra-mãe:

"Nasci na Ilha do Fogo
Sou, pois, caboverdeano,
E disso tanto me ufano
Que por nada dera tal.
Se filho de Cabo Verde,
Assevero – fronte erguida –
Que me é honra a mais subida
Ser neto de Portugal."
(Algas e corais, p. 5. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, pp. 163-165)

Como podemos depreender nos versos acima, o aspecto físico do arquipélago está presente. Aliás, característica preponderante nas letras do país. A condição insular de Cabo Verde e suas conseqüências espaciais agindo sobre o homem, limitando-o, marcarão a formação da literatura e da construção da identidade do cabo-verdiano. O espaço hostil ao homem por causa das condições climáticas adversas e pelos dramas da ação opressora do colonizador, serão fecundadores dos poemas. Buscarão no mito da submergida Atlântida um passado de glórias e prosperidade, em contraste com a época vivenciada. Segundo Simone Caputo Gomes:

"o motivo pelo qual o mito relativo a espaços de felicidade foi retomado pelos pré-claridosos consiste numa releitura das concepções românticas, relativas ao mundo pré-diluviano, muito em voga na virada do século XIX para XX. (...) A formulação do mito remontaria às pesquisas de José Lopes e Pedro Cardoso nos alfarrábios e enciclopédias da biblioteca do Liceu de S. Nicolau, do qual foram alunos." (GOMES, 2006, pp. 164-165)

Comprovamos esses aspectos nos títulos das obras de José Lopes e Pedro Cardoso, e nos seguintes versos de Lopes:

"Das vastas extensões assim submersas
Então ficaram estas nossas ilhas".
(Hesperitanas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

Ou neste trecho de Pedro Cardoso:
"pisamos...
talvez a mesma terra que os Atlantes"

(Hespéridas, Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

Na prosa poética dedicada ao claridoso Jorge Barbosa, Vera Duarte abordará um novo paradigma ao terra-longismo dos pré-claridosos: o mito de Pasárgada, inspirado no modernista brasileiro Manuel Bandeira. Sobre a relação com nosso poeta, Simone Caputo Gomes afirma que o "Brasil, recém-independente e com literatura divulgada em terras lusas, passava a ser um modelo de afirmação mestiça no qual Cabo Verde buscava a sua identidade", e cita João Lopes no número inicial de Claridade:

"dada a insuficiência de materiais de estudo que permitam refazer a história econômica e social das ilhas, temos que preencher as lacunas com as ilações tiradas da situação actual e subsidiariamente dos estudos levados a efeito no Brasil, para a explicação do fenômeno brasileiro."
(S. Vicente, março de 1936, p. 9. Apud: retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p. 165)

A aproximação geográfica e as péssimas condições sociais de Cabo Verde serão comparadas com o Nordeste brasileiro. A aridez causando seca e a fome serão exploradas pelos claridosos, que utilizarão da emigração ou da evasão como soluções para encarar as dificuldades. Todavia, não se limitarão à fuga, mas denunciarão a insustentabilidade do sistema colonial português. Jorge Barbosa admira tanto o poeta brasileiro, que o considera seu "irmão atlântico", e faz de Pasárgada o lugar de evasão, o lugar ideal, contrapondo-se à pobreza das ilhas, diferenciando-se de Bandeira, em que sua evasão é motivada pela sua péssima saúde, castrando-o de levar uma vida com maiores sabores.

Em "Os meninos", dedicado a Jorge Barbosa, a autora usa o pasargadismo como evasão, denuncia a condição miserável em que se encontram "os meninos da pobreza, do abandono e do desespero. De ranho no nariz, pés descalços e calções rotos eles passeiam seus corpos esqueléticos" (DUARTE, 2001, p. 81). Como alento à triste situação os meninos "sonharão com terras distantes, glórias inexistentes e banquetes fabulosos até que o romper do sol e a fome crónica os arranque do sossego cúmplice dos botes para mais um dia de desesperanças." (Op. cit. 81) E apenas com a solidariedade, Vera Duarte recorre ao gesto feito pelo poeta claridoso na "sua 'Carta para Manuel Bandeira', e vai empreender uma viagem imaginária em busca da estrela da manhã, para ofertá-la, do outro lado do Atlântico, ao poeta brasileiro, através da porta – o Atlântico, estrada cultural – entreaberta", como menciona Simone Caputo Gomes ao prefaciar O Arquipélago da Paixão. Ou como versa o eu lírico: "Queria então estar ao lado deles e sem qualquer palavra, passar-lhes a Estrela da Manhã". (Op. cit. 81)

Na reflexão seguinte, Vera Duarte homenageia outro relevante claridoso, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), autor do célebre romance Chiquinho. Em "A viagem", como o próprio título sugere, o mito do pasargadismo permanece sendo enfatizado. A imagem de Pasárgada não é motivada pela doença, como acontece nos poemas de Bandeira, mas, sim, pela pobreza do arquipélago. Daí o sentimento de evasão como transposição de limites:

"No seu cotidiano de miséria, dormindo no chão húmido de terra batida, coberto de serapilheira e comendo os restos repartidos, (...)
Aguarda contudo com ânsia o dia da partida.
A viagem. O vapor.
Sabe que um dia, escondido em um navio cargueiro, ele irá demandar novos horizontes, zarpará à procura da terra prometida.
Então sim ele poderá decifrar a angústia que lhe encolhe a alma quando o seu corpo celebra a ânsia da partida."
(Op. cit. 82)

Entretanto, não podemos conceber a evasão proposta pelos claridosos como fuga da realidade. Devemos compreender tal sentimento como recusa e forma de resistência ao sistema opressor do colonizador português agravado pela ditadura salazarista. Gomes cita o crítico e escritor Manuel Ferreira:

"Para Manuel Ferreira, 'esse evasionismo (...) não pode ser, de maneira nenhuma, tido como fuga', como propuseram Onésimo da Silveira e Ovídio Martins. A questão é mais complexa e o pasargadismo, para o grande sistematizador das literaturas africanas Prof. Manuel Ferreira pode ser explicado 'pelo desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encerrava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à caboverdianidade'. Itinerário de Pasárgada, de Osvaldo Alcântara, é um excelente poema da Recusa e da Utopia, segundo Ferreira."
(FERREIRA, Manuel em "A emergência da inter-textualidade afro-brasileira. IN: O discurso no percurso africano I. Lisboa: Plátano, 1989. p. 160. Apud: trecho retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes – Cabo Verde: um amor pleno e correspondido)

A epígrafe de abertura do livro, de Jorge Barbosa, auxilia na elucidação da questão e o quanto são injustas e incorretas as acusações sofridas pelos claridosos:

"Eu trago dentro de mim um pássaro fechado...
Bate asas – quer voar! – em ânsias desmedidas...
Bem o sinto no peito, ardente, alucinado,
Num gigantesco arfar de ondas enfurecidas."

(DUARTE, 2001, p. 33)

Outro problema apontado pela autora inspirado na obra de Lopes é a ausência da figura paterna. Comum em Cabo Verde, lugar em que as mulheres, na verdade adolescentes de 12 ou 13 anos ou até com idade inferior, são forçadas a iniciar a vida sexual prematuramente, depois são abandonadas pelos homens que não assumem a paternidade, ou são obrigados a emigrar do arquipélago em busca de uma condição melhor de vida:

"Para além da linha do horizonte traçado de azul, Pidrim vê imagens confusas e distantes dos portos de desembarque de que lhe falou Nhô J'sê seu avô de mãe pois pai nunca soube se tinha." (Op. cit. 82)

O último grande claridoso celebrado é Manuel Lopes, autor do clássico Flagelados do vento leste. A autora enfatiza a relação do homem com o espaço geográfico e suas conseqüências por causa da seca, de todo o sofrimento perpetrado por ela ao ilhéu, que espera "ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança" (Op. cit. 84) as nuvens chorarem do céu. Expõe a persistente fé que move o cabo-verdiano, da chuva que nunca vem, a resistência à crueldade do clima árido das ilhas na bela metáfora das ondas que estouram insistentemente na praia:

"Num céu de um azul indescritível navegam nuvens carregadas de esperança. (...)
Pouco abaixo uma terra fissurada por anos de seca, desesperadamente espera que as nuvens se precipitem sobre ela abençoando as sementeiras dolorosamente parturientes, as almas ressequidas e as rochas escalabradas. (...)
E os camponeses e os poetas, como as ondas que teimosamente, regularmente e sem desfalecer banham as areias das praias, ano após ano, sementeira após sementeira, esperança após esperança, teimosamente perscrutarão o horizonte à procura dos sinais.
Quando finalmente a esperança sorrir num céu carregado de nuvens e num arrepio da pele mal agasalhada, as águas desabarão violentas e, sem compaixão, arrastarão para o mar profundo tudo o que foi esforço, entrega e devoção, nesta crença irrenunciável e dolorosa da chuva que virá."
(Op. cit. 84)

Podemos depreender pelas letras de Vera Duarte celebrando os claridosos, além da presença de Manuel Bandeira, a forte influência exercida pelos romancistas da Geração de 1930 de nossa literatura. Tratam-se de escritores cujo os problemas sociais do Nordeste são tematizados em textos pungentes. Autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado foram lidos com entusiasmo e admiração pelos cabo-verdianos, que se aproveitaram da semelhança geográfica e da caótica seca, já comentada anteriormente.

Ao aprofundarmos a questão da relação de Cabo Verde com o Brasil, inferimos, ainda, que nosso país serviu, para os claridosos, como modelo de miscigenação e de independência cultural em relação a Portugal, como comenta Gomes:

"Em Cabo Verde, a geração da revista Claridade preferiu imaginar-se não mais à luz do modelo colonizador ou de uma literatura colonial apologética da figura do herói navegador, e escolheu mirar-se em outro paradigma cultural forte, irmão, independente: o Brasil dos mulatos, malandros e heróis ignorados (...)"

Contudo, o pasargadismo sofreu severas críticas de outros poetas de cunho marxista, influenciados pelo realismo social na década de 1940. A princípio, com os integrantes da folha acadêmica Certeza (1944, dois números), surgida durante a Segunda Guerra Mundial, tendo como colaboradores alunos do Liceu Gil Eanes, entre eles Arnaldo França, Nuno Miranda e Tomaz Martins. Posteriormente, com o Suplemento Dominical (1958, um número), ou da Geração da Nova Largada (Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira e outros) os poetas lançam o lema "Não vou para Pasárgada", acusam os claridosos de evasionistas e assumem a postura de "ficar para resistir". Carmen Lucia Tindó Secco comenta esse momento:

"cuja proposta literária era fazer a denúncia político-social da miséria reinante no Arquipélago, houve a dignificação do crioulo e da morabeza como traços caracterizadores da alma cabo-verdiana. (...) a literatura, (...) começou a criticar essa ideologia de que o cabo-verdiano era um ser destinado a emigrar e as gerações seguintes propuseram, então, 'o ficar para resistir'. O mar, que era concebido como meio de evasão, encapelou-se e suas águas revoltas passaram a conotar a necessidade da ação política, do mergulho nas raízes cabo-verdianas." (SECCO, 1999, pp. 11-13)

Para combater as idéias da geração da Claridade, o poeta Ovídio Martins critica, metapoeticamente, o poema "Itinerário de Pasárgada", de Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes), com viscerais e furiosos versos no famoso poema "Anti-evasão":

"Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada"

(ANDRADE, 1977, p. 48)

A radicalização de uma postura comprometida com o social coincide com os primeiros movimentos para libertação das colônias portuguesas, em contrapartida o recrudescimento da repressão da ditadura salazarista pode ser percebido com os parcos números das publicações cabo-verdianas, no decorrer das décadas de 1930 a 1960. Em 1956, é criado o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde), liderado por Amílcar Cabral. O momento exige uma posição determinada, combativa, direta. Os poetas começam a revelar em seus poemas o drama dos contratados que partem para as lavouras de São Tomé e Príncipe, um outro modelo perverso de emigração, forçada, cruel e desumana.

A agonia dos contratados é explorada por diversos autores, tais como Gabriel Mariano:

"Caminho
Caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé
Devia sorrir de outro modo
O Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é."
(ANDRADE, 1977, pp. 240)

A insularidade e a conturbada relação com o mar, ora cantado como beleza ora definido como fator de isolamento e solidão, são os motivadores das polêmicas evasão/emigração, "querer ir e ter que ficar" ou "ter que ficar e querer partir" que perpassam pela literatura do arquipélago.

Contudo, os poetas publicados na antologia Mirabilis – de veias ao sol (Instituto Caboverdiano do Livro, 1991) buscam novas formas de lidar com as questões relacionadas à cabo-verdianidade, a desconstrução dos temas é realizada por todos sendo retomadas em prismas ampliados e universais. Além da releitura dos temas tradicionais, a nova geração apresenta ironia, humor e erotismo.

O contato com a tradição lusitana é refeito com ironia e recusa do passado à procura de novas relações com o mar em Euricles Rodrigues:

"Viola a tua tradição
Enterra a tua paranóia
Marítima secular (...)
E busca
Novas formas
Novas artes
Novos engenhos

De estabelecer nova aliança com o mar"
(Euricles Rodrigues, p. 190. Apud: Poesia Sempre, p. 270)

A chuva, de presença marcante entre os claridosos, é tratada com amargura e rejeitada por José Luís Hopffer Almada:

"Os sonhos fedem à chuva
E os braços apodrecem
Ante o frágil tornozelo dos subúrbios
(...)

os sonhos fedem
no aglomerado acocorado de
desânimo
ante a futilidade dos meses
e a inadiável fome
de todos os dias
e eis-nos, de órbitas alagadas,
sem saber o que fazer
da turva humidade
e do vazio que com os sonhos
fenecem"
(À sombra do sol, p. 16. Apud: Poesia sempre, pp. 271-272)

David Hopffer Almada propõe o abandono do olhar amargurado, triste e conformado sobre a falta de chuva, a seca, a insularidade, a evasão/anti-evasão, e lança um novo canto de esperança e alegria:

"Quero
Um canto diferente
Para Cabo Verde

Já não somos
Os flagelado do vento leste
Dominamos os ventos
Já não somos os contratados
Como animais de carga para o Sul
Conquistamos a dignidade de gente

Por isso
Vou cantar
De forma diferente
Para esta pátria do Meio do Mar
Vou esquecer, enterrar
Os lamentos, as lamúrias
A tristeza
De quem quer ficar
Com o destino de ter de partir
Não vou chorar
A pobreza, a fraqueza
A seca
A natureza madrasta

Canto
Para este povo
Um canto de alegria"

(1988. Apud: trecho de poema retirado de um ensaio de Simone Caputo Gomes publicado em Marcas da diferença, p.168-169.)

Já Mário Fonseca recebe uma bela homenagem em um longo poema dedicado à liberdade, às conquistas de todos os povos e às mulheres. Mário Fonseca foi um dos principais nomes da revista Seló (1962, dois números), de intensa temática social. No poema-manifesto "Ortodoxias em desagregação", o eu lírico agradece a premonição do poeta, sua certeza na Utopia, sua defesa da justiça, sua exaltação nas vitórias diversas em todas as partes e em todas as épocas: "O fascínio vem-me de longe / de tudo o que foi esperança / desde o início dos tempos" (DUARTE, 2001, p. 59). Um poeta em constante luta revolucionária, contrário a qualquer forma do mais forte subjugar os desfavorecidos. O poema celebra as revoltas, as vitórias comunistas, as guerras contra o colonizador português nos anos 1960, as independências:

"O fascínio vem-me
Dos momentos iniciáticos
Que incendiaram o coração dos homens.

Das revoltas dos escravos
Dos outubros de dezassete
Dos maios subversivos
Dos abris
Todos os abris
E das mulheres que ousaram
Das mulheres que fizeram (...)

Quero poder ouvir
Para sempre
As canções heróicas
Que deram som às revoluções
Cantar os hinos
Todos os hinos
De todas as épocas
De todas as gestas libertárias

Quero poder
Por meus pés
Cruzar ares
Cruzar mares
Conhecer gentes
Visitar povos
Cantar independências
E tudo que cheirar a liberdade

(...)
o que quero ter nos braços
é a idéia de ter
e poder cantar abril
e cantar independências
e cantar o orgulho de ser-se Povo
cantar a glória de ser-se Nação"
(Op. cit. 60-61)

Ao colaborador da Claridade, Arnaldo França, que Vera Duarte considera como "o maior intelectual vivo e a viver em Cabo Verde", dedica o poema "A alma - acto primeiro d'A Trilogia do Amor". O eu lírico demonstra todo o seu amor e entrega ao arquipélago, numa viagem intimista após "desvendado o segredo do amor", propõe a evasão apenas no universo onírico: "quero permanecer na ilha / e navegar apenas em sonhos". Assim, o eu lírico ultrapassa a polêmica evasão/emigração, "não quero mais partir!", ao declarar toda a sua paixão a Cabo Verde:

"De malas desfeitas
quebrarei na ilha
a prisão das ilhas
e voarei para lá do horizonte
com os pés fincados na areia
que abrigou nossos corpos em festa."
(Op. cit. 64-65)

Ao poeta participante das revistas Certeza e Seló, Oswaldo Osório, o eu lírico retoma questões tratadas no primeiro caderno, "Da impossibilidade do amor", reflete e denuncia a dor sofrida pela mulher, dos espancamentos feitos pelos companheiros, da estreita relação entre amor e morte. Navega com inquietação, divaga, "confusa me pergunto se o amor rima com escravidão, submissão, humilhação", indaga o destino cruel reservado:

"Até quando
viver prisioneiro
nas malhas da paixão
converter-se de humano a farrapo
no destino caótico de vidas
que a vida nada reservou"
(Op. cit. 94)

A presença de autoria feminina na literatura cabo-verdiana é discreta, como em diversos campos da sociedade apesar da mulher constituir 52% da população do arquipélago, segundo Vera Duarte (3). Constatamos a ausência de escritoras nos movimentos literários em boa parte do século XX, porém a situação começa a ser resolvida com nomes significativos que consolidam seu espaço no pós-independência, dando voz à mulher e à condição feminina, seus anseios e seus dramas com extrema qualidade. Duarte, na já citada entrevista, comenta a participação das mulheres no corpo literário cabo-verdiano:

"A Fátima Bettencourt gosta muito de dizer que 'Nha Claridade só pariu filhos homens', numa clara alusão ao facto de a quase totalidade dos autores claridosos serem homens. Graças a Deus estamos a ajudar a mudar este cenário e a moderna literatura cabo-verdiana já começa a estar profundamente marcada pela presença feminina e há mesmo quem acha (Luandino Vieira, por exemplo) que esta presença é o melhor da literatura cabo-verdiana. Eu entendo, juntamente com Simone Caputo Gomes e Carmem Lucia Tindó Secco, que embora os homens continuem a ser numericamente superiores há já claramente uma literatura de cunho feminino em Cabo Verde." (4)

A última epígrafe analisada neste texto é dedicada à Dina Salústio, escritora contemporânea de Vera Duarte e um dos pilares da literatura do arquipélago. Salústio, em suas obras, aborda os mais variados aspectos da condição feminina. A mulher, sofrida e humilhada, é a sua principal fonte de inspiração e procura, em alguns momentos, subverter temas, posições e comportamentos sociais, mostrando novos paradigmas para velhos problemas.

O poema "A outra", interliga-se com o poema anterior, "A dor", ao abordar a submissão feminina. No novo poema há o conflito existencial de uma mulher simbolizado pelas mulheres bíblicas (antagônicas) Maria – a virgem mãe, e Madalena. A vontade de ser a mulher que se rebela contra as normas sociais em convívio inquietante com a mulher que aceita a submissão, além do questionamento diante de uma "civilização incoerente":

"Quem é essa outra mulher que me habita e abusivamente ocupou quase todos os espaços? (...)
Quem é essa mulher que me oferece as bem-aventuranças e me cega para os precipícios?
Por vezes apetece-me segui-la de olhos vendados, até onde ela quiser levar-me.
A meio do caminho ou antes de iniciar a caminhada.
E fico observando, carente e deliciada, o evoluir das bem-aventuranças, a felicidade suprema, a total insubmissão.
Madalena a mulher espreita e tenta. Ela quer e sabe.
Mas há uma inquietação também por um destino feminino sem subversões, feito de silêncio e de renúncias, que garantem Maria, virgem mãe.
Quantas vezes me quedarei perplexa e angustiada perante as encruzilhadas desta civilização incoerente?"
(DUARTE, 2001, p. 95)

Apreendemos no livro O arquipélago da paixão, o amor incondicional de Vera Duarte a Cabo Verde e, principalmente, à literatura das ilhas através das epígrafes dedicadas aos poetas, ora do passado claridoso, ora aos seus pares contemporâneos. Com esse auxílio, vimos que podemos percorrer o percurso de afirmação da literatura cabo-verdiana no decorrer do século XX. Suas inquietações, conflitos e mudanças temáticas de acordo com os acontecimentos históricos: da colônia à independência, do sonho utópico às frustrações com as irrealizações políticas e sociais da liberdade desejada. É a poesia agindo com olhar crítico aos problemas inerentes a ela e às indefinições de um jovem país em construção.

Depreendemos que a obra de Vera Duarte abrange outros caminhos, apresenta novos paradigmas ao corpo literário cabo-verdiano. A ênfase dada à situação da mulher, oprimida e excluída, sua defesa incontestável dos direitos humanos, da liberdade e da justiça, e a alta qualidade de sua poesia que abrange problemas universais, eleva-a entre os principais destaques das letras do arquipélago. Esta "mulher de causas" possui uma obra relevante que se insere em um quadro mutável, imprevisível e belo, tendo a literatura, a paisagem e a mulher cabo-verdianas como fatores fecundadores na esperança de um novo mundo.

Amparados pelas epígrafes, libertamos o pássaro fechado de Jorge Barbosa e voamos pela magia das letras cabo-verdianas que reescrevem a literatura e a história da nação, percorrem um desconhecido caminho, vislumbram e reinventam um novo futuro para Cabo Verde, de acordo com o lema de vida da autora: Liberdade, Justiça, Paz e Amor.

"Mas sou e acho que vou continuar a ser sempre uma mulher de causas. Antes de mais esta grande causa da emancipação e promoção da mulher mas na realidade de todas as causas de emancipação e promoção do ser humano na permanente busca da felicidade." (5)



NOTAS:
(1) http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm
(2) http://www.acaboverdeana.org.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=55
(3) Entrevista ao jornal A Semana, em 01/10/2005.
(4) Trecho de entrevista retirado de http://www.acaboverdeana.org.pt/
(5) Trecho de entrevista retirado de www.acaboverdeana.org.pt


BIBLIOGRAFIA:
AAVV. Poesia Sempre n° 23 – Angola e Moçambique. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2006.

ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1977.

DUARTE, Vera. O arquipélago da paixão. Mindelo: Artletra, 2001.

GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde e Brasil: um amor pleno e correspondido.
http://www.simonecaputogomes.com/arquivos.htm . Acessado em 20 de dezembro de 2007.

GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Chaves, Rita e Macedo, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

VENÂNCIO, José Carlos. Literatura e poder na África lusófona. Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.


INTERNET:
Vera Duarte, mulher de causas.
http://www.acaboverdeana.org.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=55. Acessado em 27 de março de 2008.

Vera Duarte, Capeverdean poeat
http://www.caboverde.com/artist/vduarte.htm. Acessado em 27 de março de 2008.

Vera Duarte apresenta hoje, na Praia, "Construindo a Utopia"
http://www.vozdipovo-online.com/conteudos/cultura/vera_duarte_apresenta_hoje,_na_praia,_%22construindo_a_utopia%22/

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fátima Bettencourt - blog

Blog da escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt


http://fatimabettencourt.blogspot.com/



Lá, encontramos uma breve resenha sobre o seu livro de contos Mar - caminho adubado de esperança.



quinta-feira, 27 de março de 2008

Pepetela: entrevista

http://www.portaldaliteratura.com/entrevistas.php?id=18

FOLHEANDO COM
Pepetela
26-03-2008

Nasceu em Angola, licenciou-se em Sociologia, foi guerrilheiro, político, ganhou o Prémio Camões em 1997, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Falamos naturalmente de Pepetela a quem tivemos o prazer de entrevistar.

«E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas? Nunca um fenómeno assim acontecera, bairros inteiros desertos, sem sequer um bebé, com viaturas pelos cantos, algumas de portas abertas. Devia ser outra coisa. E nada boa, disse o meu coração apertado.»
A ideia de sobrevivência a um holocausto, tema do livro, pode ser vista como uma simples ficção ou como um sério aviso para os actuais caminhos da humanidade?

Digamos que é uma ficção, e era isso que queria fazer, uma ficção onde me sentisse livre de inventar o que me desse na gana. Mas como sou um cidadão preocupado com os rumos do Mundo, é evidente que essas preocupações aparecem. Pode ser tomado também como um aviso para as consequências das brincadeiras que nos permitimos fazer com o ambiente.

«Estava mais que provado não ser possível construir uma população a partir de um par original, sem contributos de genes externos, a ciência contrariando as crenças bíblicas de um Adão e Eva serem antepassados únicos de toda a humanidade.»
Ao lermos o livro ficámos sempre com a sensação de uma clara intolerância às crenças religiosas, que de resto justifica. Porém, um dos personagens é um quimbanda (feiticeiro) por quem o narrador tem sempre uma visível tolerância, atribuindo-lhe até conhecimentos ancestrais capazes de o fazerem adivinhar uma gravidez. Não haverá alguma condescendência da sua parte em relação a estes feiticeiros?

Não acho haver intolerância em relação a crenças religiosas, que respeito. Sou intolerante em relação às intolerâncias, o que é diferente. E por que não ter alguma simpatia por práticas ancestrais em que tantos do meu povo acreditam? Não é por aí que vem grande mal ao Mundo…

«Uma civilização desenvolve-se até poder fabricar as armas capazes de a destruir, tal é o seu destino.»
Estará o ser humano irremediavelmente perdido? O que podemos fazer para contrariar este vaticínio?

Perdido não estará irremediavelmente. Mas tem de aprender a usar o enorme poder que tem entre mãos e, sobretudo, a dominar os seus apetites e arrogâncias. Alguma humildade só lhe faria bem.

O leitor vai certamente surpreender-se com a explicação para o quase fim do mundo. A sensação que se tem, quando se acaba de ler o livro, é que o escritor se vai preparar para continuar a história. Como é que a nova humanidade se vai desenvolver, de quem serão as crianças que vão nascer, como é que se compatibilizarão mentalidades tão diferentes como o da Dona Geny, o de Riek ou o de Ísis, ou o do estranho Jan Dippenaar. O Pepetela já terá certamente imaginado, ainda que superficialmente, no que poderia vir a acontecer. Há a possibilidade de retomar o tema?

De facto, já disse que esse livro podia ter outras tantas páginas. A estória pediu-me para terminar ali e eu fiz-lhe a vontade. Mas é evidente que dava para continuar. Até chegarmos a uma nova civilização que se destruísse. Mas não tenho a intenção de retomar o tema, embora nunca diga de uma forma definitiva. Quem sabe?

Que diferença há entre o Pepetela que escreve Predadores e o Pepetela que escreve O Quase Fim do Mundo?

Os livros são diferentes, como devem ser todos os livros de todos os autores. O tema é outro, até mesmo o cenário. Mas, provavelmente, haverá uma mesma preocupação de fundo, o destino das pessoas.

Quais têm sido as suas principais referências literárias? Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado?

Há muito variadas. Na minha juventude foi a literatura brasileira e a norte-americana, com excursões sérias pela francesa, italiana e russa. Mais tarde fui encontrando outros. Ultimamente, um autor que me impressionou muito e de quem já li praticamente toda a obra foi Phillip Roth.

Sabemos que faz parte da União dos Escritores Angolanos. Gostaríamos que resumisse para o Portal a situação actual da literatura angolana, os valores que vão despontando e, finalmente, o que pensa do acordo linguístico recentemente assinado.

A literatura angolana ainda não se afirmou como poderia. Houve períodos em que até era difícil publicar no país e os jovens tinham poucos hábitos de leitura. Isso reflecte-se na actualidade, em que têm aparecido poucos escritores jovens que se afirmam. Um problema sério é o fraco domínio que têm da língua portuguesa, pela fraca qualidade de ensino que enfrentamos. Há talentos, há estórias, muita criatividade, mas por vezes falta a ferramenta linguística ou os apoios necessários ao começo. Mas penso que a literatura se vai desenvolvendo progressivamente.
Quanto ao acordo ortográfico, acho que se está a discutir muito sobre pouco. Ou era um acordo radical, que unificaria de facto a grafia (e só isso) ou então não valeria a pena mexer. Nunca ouvi de alguém não ter conseguido ler um livro brasileiro porque tem tremas ou certas consoantes que caíram no meio das palavras. O importante seria os governos porem-se de acordo para, de uma vez por todas, acertarem uma política comum de desenvolvimento e promoção da língua portuguesa. Isso sim, seria importante.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Novos lançamentos

O caderno Idéias, do Jornal do Brasil, de 15 de março de 2008, em sua página I5, informa futuros lançamentos de livros de autores africanos de língua portuguesa:

Mia Couto comparece com dois inéditos por aqui: O fio das missangas e O gato e o escuro, ambos pela Companhia das Letras. A Escrituras publicará O osso côncavo & outros poemas, de Luís Carlos Patraquim. Já a Língua Geral soltará no mercado Sodoma divinizada, organizada por Zetho Cunha Gonçalves; Estação das chuvas, de José Eduardo Agualusa; Chovem amores na rua do matador, de José Eduardo Agualusa e Mia Couto; e Predadores, de Pepetela.

Aguardaremos!

Abraço,
Riso

*Agradecimento especial à Profa. Marta Faraco (UNESA) por me entregar uma cópia do jornal.

terça-feira, 18 de março de 2008

Eduardo White: Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave

Eduardo White é poeta moçambicano. Em sua poesia veremos uma linguagem poética que será levada pelo vôo onírico em questões existenciais, filosóficas e metapoéticas, ou como lembra Mia Couto, o poeta segue a tradição de que a "poesia lírica sempre arriscou em Moçambique" (WHITE, 1992, pp. 9). Essas questões são retomadas pela literatura moçambicana a partir dos anos 1980, com o país independente, porém, arrasado pela guerra de desestabilização realizada entre a Frelimo (partido que liderou a independência do país) e a Renamo (partido apoiado pela Rodésia e África do Sul).

Diante da situação de asfixia de séculos de colonização portuguesa e a posterior libertação de Moçambique, a poesia, principalmente nas décadas de 1960-1970, era engajada, política, doutrinária, não havendo espaço para questões existenciais e metapoéticas, que só seriam retomadas no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim (Monção) e Mia Couto (Raiz do orvalho), e a seguir pela geração da revista Charrua (1984), da qual Eduardo White é contemporâneo.

Selecionei alguns poucos poemas de raríssima beleza do livro Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave (Lisboa: Caminho, 1992). Ao prefaciar a obra, Mia Couto aponta para a relevância da poesia de White diante de um momento delicado pelo qual passava o país, dilacerado e desgastado por tantos anos de uma fratricida guerra:

"Aqui está uma poesia fortemente embrenhada nos conflitos do seus tempo, empenhada com a alma moçambicana. Talvez a abundância da morte, a irracionalidade da tragédia moçambicana alimentem, pela negativa, os versos de Eduardo White. Porque há nestes textos fôlego de esperança que só os magos e adivinhos pressentem. Num mundo de caos e violência é preciso cuidar das palavras como se, no seu ventre, elas trouxessem o núcleo prenunciador de um outro mundo. (...)
Tudo nesta escrita quer voar. A pedra, o fogo, a casa. Porque estes versos sugerem um ritual de iniciação ao belo, uma reaprendizagem do fascínio. O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo. (...) O poeta vai a pedra e lhe concede a respiração. Toca no fogo e lhe empresta a febre da água. Magia de quem recusa a condição terrestre, ilusão da eternidade: as aves não envelhecem. Tradutor de uma caligrafia celestial, essa que só a pluma da asa pode redigir, Eduardo White reinventa as imensas paisagens do seu país, a geografia da ternura que só os pássaros sabem percorrer.
Eduardo não escreve sobre aves. Escreve em aves." (WHITE, 1992, pp. 9-10)

Espero que gostem.
Riso

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Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

(p. 22)


Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania. Um pássaro bebe nu na minha boca e em vão vai querer saber que álcool o comove com tanta frescura. Primeiro pia, limpa as asas robusta ainda húmidas da saliva e depois canta e ferve e sua, e num minuto já todo o corpo lhe estrebucha. Chama por mim. São muito velozes e bruscas as suas tonturas e eu face a isso pergunto-vos por que terá vindo nu um pássaro a beber à minha boca? Que esplendor ou embriaguez ele procura? Que obscuros dons, que vocação, que loucura?
Vamos, entremos agora no mistério onde o poema nos vigia, rente ao murmúrio para que a alegria não retina e podem ver ao fundo, ali, um estábulo onde as palavras se abrigam, acolá, um bebedouro onde a memória bebe, os restos de feno, dois tipos que trabalham em pleno escuro e já visível a farma, a terra em uso. Estão aqui os instrumentos, os moldes da mania de que vos falei há bocado.
Voemos.
Voar não é senão essa ilusão,
fazê-la possível. Tê-la vivendo.
Voar é estender as mãos
a esse desejo que nos dói
como um punhal insurgente.

(p. 26)


Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

(p. 28)


Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.

Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.

O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.

Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

(p. 19)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Dina Salústio: “Mornas eram as noites”

Os contos apresentados pela cabo-verdiana Dina Salústio em “Mornas eram as noites” levam-nos a refletir sobre diversas questões que afligem a condição humana, retratando, sob a ótica feminina, os dramas, anseios, felicidades, medos, angústias, revoltas, cumplicidades e tantos outros estados que perpassam pelo cotidiano da mulher. Tendo Cabo Verde como pano de fundo, em um constante movimento entre o local e o universal, depreendemos que tais relatos ora são específicos da mulher cabo-verdiana, ora atingem as mulheres de todo o mundo.

A própria escolha do termo “morna” no título apreende a importância da condição feminina nos contos do livro, porque a morna é “tradicionalmente canto de mulher (...) Música de mulheres, em que a mulher é a peça principal” (GOMES, 2000, p. 115) A morna é a principal expressão musical de Cabo Verde e a mais importante característica cultural do arquipélago, elemento unificador dos cabo-verdianos em qualquer lugar do planeta. Além disso, mostra a estreita relação que há entre a música e a literatura cabo-verdianas, presente em textos de Corsino Fortes, Jorge Barbosa, Pedro Cardoso, Manuel Lopes entre outros, como analisa a Profa. Dra. Simone Caputo Gomes em seu artigo “Ecos da caboverdianidade: Literatura e Música no Arquipélago” (pp. 4-7).

Dina Salústio é uma das principais representantes da literatura cabo-verdiana contemporânea. Pouco destacada, a autoria feminina encontra-se em ótimas letras nos trabalhos de Orlanda Amarilis, Vera Duarte além da própria Dina apenas para citarmos alguns nomes.

Chamada Bernadina Oliveira Salústio, nasceu em 1941 na ilha de Santo Antão. Sua obra apresenta-se em poesia na antológica coletânea “Mirabilis – veias ao sol” (1991), no romance “A louca do Serrano” (1998), no ensaio “Insularidade na literatura cabo-verdiana” (1998) e nos contos que aqui serão discutidos em “Mornas eram as noites” (1994) entre diversos textos espalhados em várias publicações.

Em entrevista concedida à Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), a escritora conta como elaborou o livro e da:

“necessidade de publicar as inúmeras histórias de mulheres, histórias de vida que passam por mim (...) Não são ficção, é cá um encontro que é verdade, um momento só (...) Não fiz uma seleção desses textos, só o primeiro foi intencional, para querer mostrar o meu reconhecimento a estas mulheres cabo-verdianas que trabalham duro, que fazem o trabalho da pedra, carregar água, trabalham a terra, que têm a obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume. Quis prestar homenagem a esta mulher (...) Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito, falo da prostituta, falo de todas as mulheres que me dão alguma coisa, e que eu tenho alguma coisa delas (...) Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114)

Diante de tais esclarecimentos, quando deparamo-nos com as curtas narrativas de “Mornas eram as noites” percebemos a presença constante de um narrador-personagem que se vale da transmissão oral dos acontecimentos para compor a matéria literária. Para Walter Benjamin, em seu célebre texto O narrador, a sociedade moderna vem perdendo gradativamente a sabedoria de narrar, desaprendemos a ouvir e contar histórias “sempre foi a arte de contá-las de novo” (Benjamin, 1936, p. 205), algo que Dina Salústio realiza com maestria e encantamento, fazendo disso uma forte característica em seu texto, como na passagem a seguir:

“Há amigos que tenho prazer em oferecer um copo. Não pelo facto de só beberem água mas também porque entre um gole e outro contam estórias que me cativam.” (SALÚSTIO, 1999, p. 19)

ou até mesmo quando, com percepção investigadora, narra conversas de outrem e assume com ironia tal condição para o fazer-literário, ou quando se vale da cumplicidade feminina:

“Eu tinha que ouvir. Bom, não necessariamente, porque podia ter-me desligado como habitualmente, mas deixe-me estar, entrando na conversa, ficando de fora, protegida pelos óculos escuros e pelo livro aberto. (...) Optei por escrever esta crônica. Sem remorsos por ter roubado pensamentos.” (Ibid, ibidem, pp. 79-80)

“Não tínhamos pressa e deixámo-nos ficar conversando, interrompidas apenas pelo ruído das carruagens que chegavam e partiam.” (Ibid, ibidem, p. 60)

Assim, apreendemos que esse narrador-personagem aproxima-nos da atmosfera do cotidiano feminino, das confidências, problemas, amores e desejos que atingem impressionante lirismo durante as narrativas.

Um dos principais temas explorados por Dina Salústio é o sexo, mais precisamente, a prematura iniciação sexual e a posterior gravidez precoce das adolescentes cabo-verdianas. Um problema que mostra a opressão sofrida pelas meninas, o desrespeito dos homens e a falta de planejamento familiar. A autora resume com acidez: “Nasceu fêmea é mulher” (Ibid, ibidem, p. 58). O estupro e o abandono são rotineiros no arquipélago. Meninas são obrigadas a ter relações sexuais e, com isto, o fim dos sonhos da adolescência. O texto denuncia a crueldade da vida e reclama à Natureza:

“Aos dezasseis anos não se devia ter filhos. A natureza não soube fazer contas. Aos dezasseis anos não se devia carregar culpas. Nem vergonhas.
Paula perdeu o olhar meigo e livre de adolescente. Agora apenas um rostinho triste e resignado que de longe se abre, quando gargalhadas de menina como ela despertam o resto de menina que ainda existe.” (Ibid, ibidem, p. 42)

O narrador revolta-se com a situação estabelecida, porém sabe que não pode exigir tal comportamento de meninas. Apresenta soluções em meio a sua indignação, percebe a ilusão de esperança que a jovem ainda possui, mas que terminará em breve. Ficará apenas o intenso calor cabo-verdiano e as dificuldades futuras para quem se tornou “forçadamente mulher, forçosamente mãe”:

“Queria vê-la com raiva (...) Mas, por Deus, aos dezasseis anos quem pode ter essa força toda? (...)
Queria que ela e todas elas se juntassem e calassem para sempre os latidos daqueles que perseguem manhosamente as nossas meninas na quietude das noites (...).
Mas Paula chora às escondidas. E tem esperança. Ainda. Porque a esperança aos dezasseis anos é a última coisa a deixar-se ir. Mas secará com o primeiro leite do primeiro filho. Secará com os sonhos da adolescente forçadamente mulher, forçosamente mãe.
Para Setembro haverá calor.” (Ibid, ibidem, pp. 42-43)


Daí resulta a postura agressiva contra a hipocrisia social perante a exploração da prostituição infantil em “Tabus em saldo”, motivada pela miséria que assola as ilhas do arquipélago, afinal “as fêmeas são sempre as mulheres”, e a impotência da sociedade diante da pedofilia, preferindo o silêncio e a indiferença da omissão:

“há outros de nós que as desejam para o folclore das fantasias e para o encobrimento ridículo e camuflado da irracionalidade do estar.” (Ibid, ibidem, p. 58)

“Temos uma juventude tão bonita que há que se retirar os dividendos, transformando-as em objetos de gozo mais sofisticado, em produtos rentáveis (...) e expô-las em fotos aos instintos curiosos de outros.
O negócio rende. Cada espiadela vinte escudos, diz-se. (...) Barato como quase tudo em Cabo Verde. (...)
Desisti de querer ver mais. É o que a maioria faz, por cobardia, vergonha e secretos desejos que as coisas ruins deixem de acontecer.” (Ibid, ibidem, pp. 58-59)


No primeiro conto, “Liberdade Adiada”, a partir de um comentário do narrador-personagem a respeito do desejo de conhecer outros ares, o terra-longismo típico do cabo-verdiano, “de como seria bom montar numa onda e partir rumo a outros destinos”, escuta o relato sofrido de uma mulher que tinha sido iniciada prematuramente no sexo: “Disseram-lhe que tinha perdido a virgindade, mas nunca chegou a saber o que aquilo era”, os vários filhos que nasciam:

“Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria que caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.” (Ibid, ibidem, p. 7)

Com uma vida monótona e de extrema dificuldade financeira análoga às dificuldades geográficas e climáticas do arquipélago, como a busca da água que leva a mulher ao desespero, a odiar os filhos e a cogitar o suicídio diante do barranco:

“Pensou em atirar a lata de água ao chão (...) confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam a sola dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.
Imaginou os filhos que aguardavam e já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava. (...)
O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final. (...)
Atirar-se-ia pelo barranco abaixo. Não perdia nada. Aliás nunca perdeu nada. Nunca teve nada para perder.” (Ibid, ibidem, pp. 7-8)

Entretanto, o amor de mãe cria forças para superar as dificuldades e que viver é preciso:

“À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.
O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos... Como ela os amava, Nossenhor!
Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.
Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.” (Ibid, ibidem, p. 8)

A preocupação com a violência descontrolada na sociedade cabo-verdiana não se restringe apenas às adolescentes, expande-se aos atos agressivos dos jovens e da violência contra as crianças. Nos contos “Para quando crianças de junho a junho?” e “Filho de deus nenhum”, a revolta e a indignação apossam-se do narrador ao relatar dois momentos de crueldade extrema. No primeiro conto citado, um grupo de adolescentes espanca um doente mental sob os olhares inertes dos adultos, enquanto no segundo conto é mostrada a mobilização de segmentos da sociedade contra a morte à dentada de um menino de três anos de idade praticada pela madrasta:

“De repente, uma rua larga, agora espreitada pela violência que transborda e agride os caminhantes. Uma dúzia. Talvez menos de uma dúzia de rapazes da quarta, que deviam ser crianças e que se haviam transformados em feras, perseguindo e atacando um doente mental. Livros e pastas esquecidos na valeta. Nas mãos, pedras. Nos gestos, ódio. Olhares frios. O homem no meio, indefeso, confuso, louco, impotente, cada vez mais agitado pelos uivos dos estudantes que nunca deveriam lançar outros sons que os da alegria e da esperança.” (Ibid, ibidem, p. 28)

“Homens e mulheres enfurecidos atacam a cadeia onde se encontra detida a assassina do pequeno Lizandro, de três anos, morto à dentada. (...) O pequeno Lizandro não resistiu às mordeduras e pancadas da madrasta. (...) Não conheceu alegrias. Para ele, apenas tristezas que o seu corpo cedo recusou.” (Ibid, ibidem, pp. 53-54)

Nos dois contos a violência urbana e a insensibilidade da sociedade estão presentes. Problemas que ocorreram em Cabo Verde, mas poderiam ter acontecido e acontecem em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. É a violência causada por um sistema neoliberal que exclui e oprime as classes menos favorecidas, não dá oportunidade para os jovens que ficam impossibilitados de realizar seus sonhos. Famílias desestruturadas que vivem à beira da miséria, sem perspectivas, sem nada. Apenas indiferença e desencanto. Tempos amargos como o jovem que liderou o espancamento ao doente mental, jovem que reclama a ausência da figura paterna, o vazio da vida:

“‘... Se fosse meu pai, eu não teria pena... Se ele morresse, problema dele... Se eu gosto do meu pai? Se você o vir pergunte-lhe se ele gosta de mim, ou... se... se me conhece.’
Nas últimas palavras um soluço abandonado. Silêncio no grupo. Pedras que caem das mãos. Bando que se desfaz.
E quando o miúdo chefe se mexe e retoma o caminho para casa, arrastando os pés, não há crueldade nos seus olhos. Apenas uma criança amarga que havia parido prematuramente um homem. Desencantado.” (Ibid, ibidem, p. 29)

A sensação de impotência é apontada pela autora, que manifesta sua perplexidade com o crescimento e vulgarização da violência, levando-a a questionar o caráter brando, ameno e feliz do povo cabo-verdiano exaltado por teóricos como Gabriel Mariano, que nos anos 1950 dizia “a sua morabeza; o seu feitio hospitaleiro,de uma hospitalidade amorosa, integral, sem reservas; a sua franqueza, a sua liberalidade ingênua” (MARIANO, 1991, p. 77). Tal posição idealizada sobre o cabo-verdiano, fundamental em um momento de afirmação da cabo-verdianidade em plena ditadura salazarista, não é aceita pela narradora-personagem que procura explicações nas características geográficas do arquipélago diante da barbárie. Questionamentos confusos de um ser que faz da indignação a mola propulsora para não aceitar a situação vigente:

“Aparentemente revoltamo-nos com tudo, desde o aumento dos preços dos bilhetes do cinema, à morte, à dentada, do Lizandro, no Sal, mas vamo-nos habituando, docemente, nos habituando a casos semelhantes que se multiplicam. E vamos perdendo o sentido da tragédia e da relatividade dos crimes.
A sensibilidade que nos caracterizava, existia mesmo? (...)
Éramos um povo de brandos costumes. (...)
Na normalidade do quotidiano a violência ganha espaço e afirma-se. Alguns defendem que a nossa dureza vem das rochas, da fome e das secas. Outros encaixam-na na escravatura.
E vamos fabricando teorias para justificar a insensibilidade e o ser cruel que existem em nós. Em todos nós.” (Ibid, ibidem, pp. 53-54)


A violência atinge os lares, destrói a harmonia do casal que incompreensivelmente permanece junto após anos de brigas e desentendimentos, “num desafio permanente à vida, à morte, ao direito de viver” (p. 21), levando a mulher a assassinar o marido. É a denúncia do conto “Foram as dores que o mataram”. A autora trata de outro problema universal, a violência doméstica. Só que no caso relatado, a mulher rebela-se contra as pancadas e abusos do seu corpo que dilaceraram a sua vida, o seu amor, a sua esperança:

“Via-o partir e ali ficava horas e dias à espera de que as coisas iriam mudar. Nesse dia não lembraria mais os tempos duros, os paus de pedra que me roíam e me desgastavam as entranhas. Mas para mim, não voltava nunca. Apenas para pedaços do meu corpo que esquecia logo. (...)
Ele matou-se. Criou um espaço onde coabitavam a violência, a destruição, a miséria, o animalesco. E nós.
Deu-me as armas e fez-me assassina.” (Ibid, ibidem, p. 22)

No corpus literário cabo-verdiano o espaço físico do arquipélago marca sua presença, sendo a insularidade um dos seus aspectos mais representativos. Em palestra sobre a identidade cultural cabo-verdiana, David Hopffer Almada afirma que:

“A insularidade, dado o caráter arquipelágico das ilhas, circundadas por ar e mar, criando no espírito ilhéu o eterno dilema: ‘querer partir e ter que ficar’ e/ou ‘ter que partir e querer ficar’, a base do espírito evasionista e anti-evasionista tão cantado na literatura cabo-verdiana.” (ALMADA, 1989, p. 65)

Em razão das condições adversas da geografia, clima, desemprego e miséria o ilhéu convive com este impasse: ter que abandonar sua terra, conflitando os sentimentos de evasão e anti-evasão. O escritor e ensaísta Gabriel Mariano aprofunda um pouco mais a questão ao demonstrar o quanto é doloroso para o cabo-verdiano abandonar sua terra:

“É sabido que o isolamento provoca ou excita a ânsia de convivência. (...) a temática da ‘hora di bai’ ou da evasão não são mais do que a contra-prova do desejo de convívio, não são mais do que expressões de quanto é doloroso para o crioulo o corte de raízes, a interrupção do diálogo, a fuga do convívio familiar. (...) Querendo ficar, mas também querendo partir. (...) partindo, mas subordinando a partida ao regresso; não se desprendendo nunca em absoluto do seu solo nativo” (MARIANO, 1991, p. 77)

A insularidade atinge as relações amorosas, demarca os destinos das pessoas. A interrupção do amor é explorada por Dina Salústio no conto “Uma viagem de saudades”. Neste, a autora inverte a situação de despedida, porque a diáspora tem preponderância masculina, ao narrar a partida de uma adolescente que parte da ilha Brava aos dezessete anos, deixando o seu amor, contudo comprometendo-se em retornar brevemente:

“Ela saíra aos dezassete anos, trinta anos atrás. Deixou noivo e a promessa de emigrarem juntos para a América logo que voltasse da viagem que duraria três meses. Ia conhecer o pai, que por causa de uma hipótese de traição tinha jurado nunca mais voltar à Ilha Brava.” (SALÚSTIO, 1999, p. 19)

Após trinta anos, a mulher retorna com a esperança de encontrar o seu antigo amor adolescente. A narradora-personagem apenas escuta as experiências vivenciadas pela mulher no estrangeiro, o desejo de retomar a relação interrompida. Ela não emite opinião para não decepcioná-la, apesar de saber que o homem descrito não corresponde ao aspecto físico atual:

“Voltava agora. Intacta. Para casar com o primeiro namorado, moço bonito, branco e de cabelo fino (...) Voltava e nunca mais, em nome de coisa nenhuma se separariam.
Contou-me todos os sonhos da sua juventude, os segredos, os jogos partilhados com o noivo, as esperanças e as certezas. (...)
Disse-me o nome do homem e teve que o repetir umas duas vezes para eu o ligar à pessoa que conhecia, atarracado pelos anos e pelas gorduras, careca, avermelhado pelo grogue. (...)
Ela casara em França, foi feliz, foi infeliz, viveu e morreu como todos nós nesses anos todos; mas era como se o tempo lhe tivesse poupado o coração; como se a esperança não tivesse sofrido um lanho que fosse, enquanto estivera ausente.
Podia ter-lhe dito que voltasse para a França, para junto da filha e dos netos e que esquecesse os antigos amores que só devem existir na lembrança guardada, mas fiquei calado e nem pude sorrir para ela e desejar-lhe sorte quando se levantou do caixote para embarcar no Furna a caminho da sua ilha e do seu homem.” (Ibid, ibidem, pp. 19-20)

É importante frisar a polêmica questão da insularidade no corpus literário cabo-verdiano, pois sempre foi representada nas letras do arquipélago, causando diversas rupturas no decorrer do século XX, por exemplo: entre a geração da revista Claridade e os pós-claridosos. A autora não foge do embate e tece algumas considerações a respeito:

“A literatura cabo-verdiana revela o cabo-verdiano, ele próprio, que só se compreende na insularidade. (...) E nesta viagem ao encontro da literatura, antes de qualquer outra visa, surge-nos o mar enorme e sem fim, ditando o rumo, traçando rotas, revelando distâncias, marcando o silêncio. Imposições que vão definir as relações entre a ilha e o ilhéu. (...) cheiros do mar que o isola do resto do mundo, (...) e em atitude quase mítica entrega-se desarmado e só à insularidade, relação e sentimentos que constituem um autêntico maná, matéria prima para a escrita. (...) já cheguei a pensar que o recurso à insularidade poderia ser uma forma do escritor se vingar dela.” (Apud: SALÚSTIO, 1998, Insularidade, pp. 33 e 34)

No conto “Please come back to me” a irrealização do amor dar-se de forma inusitada. Novamente, o aspecto insular faz-se presente na narração da relação amorosa de uma mulher por um estrangeiro e a dificuldade de comunicação entre o casal, pois esbarram na barreira da língua:

“Devo confessar que sou dura para a aprendizagem de línguas e do inglês apenas sabia quatro palavras e o meu amigo John que é também fraco de idiomas, igualmente sabia outras quatro em português, e o nosso relacionamento era apenas silêncios e ternuras.” (Ibid, ibidem, p. 51)

É a partir da ausência do amor vivenciado por esta mulher, que recorremos a Roland Barthes, em “Fragmentos de um discurso amoroso”:

“Ora, só há ausência do outro:é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem. Ele é, por vocação, migrador, quanto a mim, que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar , não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica – e não de quem parte. (...) Historicamente, o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária, o Homem é caçador, viajante; a Mulher é fiel (ela espera), o Homem é conquistador (navega e aborda). É a Mulher que dá forma à ausência.” (BARTHES, 1977, p. 27)

Retomando o conto, ao fazer um pedido ao companheiro no seu parco inglês, o estrangeiro espanta-se com a solicitação e ela com a reação dele, o que levou ao fim do relacionamento. Sem compreender o sucedido, pede explicação a um amigo que revela o mal entendido. A partir daí, entra em um curso de inglês, mas já é tarde para uma reconciliação com o amante estrangeiro, porque este já não se encontra mais na ilha:

“Virei-me para o meu companheiro e, no inglês balbuciante que já ousava, pedi-lhe que me abraçasse. (...)
Ao meu pedido, John interrompeu o percurso de um pensamento que me desenhava o corpo, olhou-me espantado como se me estranhasse e quando lhe repeti ‘abraça-me’, (...) começou a bater-me, a princípio suave, muito suavemente, aumentando depois de intensidade e de fúria (...).
Por fim deixei de lhe suplicar que parasse, em português, claro, para apenas ser o momento que vivia.
Depois, sem Lionel, Hello ou pancadas; sem amor, friozinho e sem nada vi o John levantar-se, olhar para mim de modo incompreensível e sair.
Passados dias, ainda confusa, contei a um amigo comum o que acontecera entre nós (...).
Fez uma cara desconsolada, chamou-me burra e explicou-me que em vez de dizer ‘abraça-me’ tinha dito ‘bate-me’(...).
(...) decidi que ia aprender inglês, custasse o que custasse, para poder entender-me com ele (...) inscrevi-me num curso intensivo de inglês e com muita dificuldade, ao fim de cinco meses, aprendi mais cinco palavras ‘Please come back to me’.
Entretanto rebentou a guerra do Golfo e perdi o contato com o Koweit e com o John. Odiei Saddam, o poder e a paixão e soube que nunca mais iria poder dizer-lhe: Por favor, volta para mim.” (SALÚSTIO, 1999, pp. 51-52)

A vida sem maiores perspectivas de uma prostituta é retratada em “Um ilegítimo desejo”. Como muitos navios estrangeiros aportam nas ilhas de Cabo Verde, a prostituição é o caminho encontrado por algumas mulheres para sobreviver. Nha Djina, ou apenas Djina, era saudosa desses amores de porto, amava um francês que nunca mais o viu:

“Um dia ansiou pela volta do francês que colocou na mesa de cabeceira de pinho, em cima dos dólares franceses, um sabonete verde que cheirava a encontro suaves, palavras doces, análises ternas e urgências várias.
O francês não voltou, nem o cheiro e a cor do sabonete.” (Ibid, ibidem, p. 36)

O conto narra as desventuras que tal profissão pode trazer às mulheres que se encontram indefesas diante das vontades e desejos sádicos. Uma vez expôs a um cliente o medo que tinha de cemitérios. O cliente pagou-a e forçou-a a entrar, como não conseguiu superar seu medo, apanhou e perdeu o dinheiro:

“Um dia, distraída, falou do seu medo de entrar no cemitério a um cliente que, sádico, a troco de mais uns trocados, a obrigara a ir com ele até... só até a entrada.
A caveira da porta arrepiou-a e, apesar do dinheiro se ter triplicado, não conseguiu coragem com o desempenho pretendido. Preferiu os bofetões e insultos que apanhou sem refilar. Preferiu ficar também sem a renda da casa. Pelo menos por aquela noite.” (Ibid, ibidem, p. 37)

Certo dia, a vida sofrida de Djina chega ao fim e deixa para seu sobrinho a tarefa de cumprir o seu último desejo, uma música, mas não a morna cabo-verdiana, mas sim algo que lembre o seu amor insular, que represente, talvez, o único momento de alento em sua vida:

“Um dia a esquina acordou sem ela.
No ar, no único gemido, o seu testamento: – Música a acompanhá-la ao cemitério – o seu último e ilegítimo desejo.
O sobrinho (...) ao décimo dia o peito minguado encheu de esperança: um senhor e seu violino choravam na campa de alguém . Raúl arranjou coragem e pediu-lhe, quase soluçando, que tocasse uma música para tia Djina. Uma só. Não a clássica morna hora di bai, mas uma canção francesa que falasse de amor – com todo o respeito, senhor – soluçou o sobrinho. (...)
Djina sorriu no outro mundo e descansou para sempre ao lado de um anjo que falava francês.” (Ibid, ibidem, pp.37-38)

A condição marginalizada da mulher inquieta a narradora-personagem em “Álcool na noite”. No conto, o estado despudorado, obsceno e agressivo de duas mulheres bêbadas que choram suas mágoas e revoltas enquanto cantam uma morna, assustam a narradora-personagem que não compreende o comportamento de ambas e o seu próprio:

“(...) De lá das bandas do cemitério uma voz canta uma morna. Tudo normal se a voz não parecesse sair dos intestinos de algum bicho em vez de uma garganta humana, por muito desafinada que fosse. (...) Aliás, eram as vozes de duas mulheres. A segunda faz coro com obscenidades e a desarmonia, o desleixo transparecido e o despudor agridem os ouvidos. Há um sentimento incomportável nas palavras quotidianas. Vêm-se aproximando. E estão bêbadas. Depois um palavrão. Talvez o eco de uma topada. E outro. E gargalhadas. Não consegui entender a felicidade dos risos debochados. Mas haveria mesmo felicidade? Quem me encomendou o sermão? Sinto raiva. (...)” (Ibid, ibidem, p. 56)

A deplorável situação das mulheres agride a narradora-personagem que se impressiona ainda mais com os maus tratos dados à filha de uma das mulheres. Tamanha amargura de tal passagem aumenta a sua angústia, a crise instala-se diante de vidas desperdiçadas, e pensa em um problema universal da condição feminina:

“– Mamã, és tu mamã? – Angústia e alívio na filha que encontra a mãe.
– Que mania essa de andares atrás de mim feito cachorro? Qualquer dia ainda te desfaço. – Mais insultos. (...)
A noite não tinha mais magia. Acho que nem estrelas. Apenas uma ferida num sentimento antigo de ver nas mulheres, para além de tudo, seres diferentes. Porque um estatuto de pureza para elas? Porque esta incompreensão para sua embriaguês? Porque o preconceito contra as fraquezas que não são as minhas? E vou pensando, enquanto desço as escadas.
E os passos falam vergonha, humilhação e revolta. E pena.” (Ibid, ibidem, pp. 56-57)

Dina Salústio narra outro problema universal: a crise de uma mulher de meia-idade é abordada em “O que é isso de liberdade”. Trata-se de uma mulher recém-separada após vinte anos de relacionamento. Agora, aos quarenta anos de idade, busca adaptar-se à nova vida sem o companheiro, mesmo tendo-o ainda na memória. O tempo cronometrado do início da separação é recebido com ironia pela narradora-personagem; a mulher procura mudar o comportamento, amigas, tudo na tentativa de recomeçar:

“Estou mais magra, vês? Perdi doze quilos. Foi o divórcio, sabes? Há treze meses e onze dias que me divorciei. Agora não estou a sofrer, mas a princípio custou muito. Foram vinte anos juntos...
(...) mentalmente concordei com um amigo que diz que ser-se inteligente é tirar proveito dos desaires. Há mil anos que o não vejo. Mil anos e sete horas.
(...) pensei para mim que afinal ela ainda não estava divorciada, porque entre as várias fases de um divórcio há duas absolutamente decisivas: o veredicto e a conscientização de que a cena acabou. Para ela, a última ainda não chegara.
Tem quarenta anos, imagina-se com vinte e só anda com miúdas de dezassete. Vê lá o disparate.” (Ibid, ibidem, pp. 60-61)

Como uma nau sem rumo, a mulher tenta convencer-se de que está melhor. Contudo, o recomeço é dolorido, as lembranças do ex-marido são constantes, quer crer na sensação de liberdade adquirida rompendo antigas castrações. Porém a metáfora do barulho do comboio demonstra que ainda está presa ao passado, seu discurso não é escutado:

“(...) Estou livre e faço tudo o que quero sem ter que dar satisfações a ninguém, sem medos, sem culpas. (...)
... ouço as músicas que eu gosto e abro as janelas e deixo entrar o sol e o frio. Ele detestava abrir janelas e eu fazia-lhe a vontade. Para o poupar, sabes? Durante vinte anos. Agora abro as janelas. Agora sou livre.
O barulho do comboio que chegava abafou a sua declaração de liberdade.
Hoje, dias depois do nosso encontro, penso nela. Terá dançado na passagem de ano ou apenas abriu a janela para imaginar a vida lá fora?” (Ibid, ibidem, p.61)

A sensibilidade em lidar com os problemas femininos e discorrer sobre eles prendem a atenção do leitor em “Mornas eram as noites”. Como boa ouvinte e excelente narradora, valendo-se do lirismo imposto aos textos a encantar as situações cotidianas. O amor, a dificuldade em lidar com o ser amado e as crises existenciais são discutidos abertamente em “O conhecimento em debate”:
“(...) - O conhecimento destrói a fantasia, o vocabulário irracional e os sentimentos. Amor é ingenuidade, é vulnerabilidade, é incerteza. É ficção. Conhecimento é transparência, nudez e crueza e actua sobre o estímulo esvaziando-o, reduzindo-o ao nada existente antes do desejo.
- É cruel dissecar a coisa do amor. Penso que o conhecimento dá a possibilidade de não se violentar o outro.
- Engano. Enquanto há amor ninguém violenta ninguém para além do que a normalidade exige. E isso tem outro nome. (...)
Um amigo disse-me que o conhecimento dá nojo – disse uma voz vinda de um interior sofrido.
Nojo? É isso. Nojo é a palavra certa. Quando nos conhecemos uns aos outros, sentimos nojo porque o tempo todo fingimos o que não somos, o que não podemos ser, o que desejaríamos ser e o conhecimento mostra a realidade, as tripas fora, a pequenês. É por isso que querer conhecer alguém é querer violentá-lo, despir-lhe a armadura, exibir-lhe as cicatrizes, o intestino.” (Ibid, ibidem, p. 46)


Já em “Conversa de comadres”, a cumplicidade feminina dá a tônica do conto. Um grupo de amigas preocupa-se com o estado arredio, porém feliz de uma companheira, exige que compartilhe o que está sentindo, o que não é aceito por ela:

"Era uma verdade grande, bonita e tão minha que a escondia de toda a gente, incluindo os compadres e comadres com quem compartilho os segredos mais secretos. (...)
Alguns dias depois, à minha volta, comecei a notar uns cochichos, uns olhares desastrados e até certas reservas nos mais próximos. (...)
Como estava lá alguém que desconhece o tacto social, aliás despreza tudo o que é tacto, ao ver-me disse:
- Estamos preocupadas, porque já não és mais a mesma e damos conta que algo de grave se passa contigo. (...)
acordei. Afinal a lengalenga era comigo e procurei logo cortar as suas preocupações, afirmando e jurando que estava tudo bem e que não havia crise.
Muito bem até. Isso estamos a ver e que aqui é que está o problema – Sempre fomos todas uma por uma e uma por todas e agora com o teu alheamento, sentimo-nos penalizadas, porque sem dúvida, e isto é facto assente, tu estás feliz e nós resolvemos que devemos participar. (...)
Elas queriam participar para se sentirem vivas, concluí rapidamente, e, dispus-me a contar-lhes algo da minha felicidade." (Ibid, ibidem, pp. 83-84)

O clima adverso de Cabo Verde a flagelar o crioulo é o tema de a “Traição do tempo”. A escassez de chuva é um sério problema no arquipélago, como lembra a Professora Simone Caputo em suas aulas, Cabo Verde tem 360 dias de sol ao ano. Durante muitas décadas o clima hostil do país foi acusado pelo sofrimento do cabo-verdiano, mas Dina Salústio renega tal acomodação e questiona o fatalismo da ausência das águas do céu e a conseqüente seca:

"Não sei se pescado no discurso oficial, se por conta própria , a verdade é que a jornalista disse ao longo da reportagem que os problemas de São Nicolau e, quiçá, os problemas de Cabo Verde só se resolverão com as chuvas. Possivelmente nem terá dito isso e eu ouvi mal, ainda pensando na notícia anterior. Mas, se ela fez de facto a afirmação acima e se referia ao desemprego sem fim, à falta de bens e a inúmeras outras situações ligadas à pobreza, então eu não estou de acordo porque seria condenar desnecessariamente todo um povo à dependência de uma incógnita que há muito deixou de o ser para tomar corpo de uma certeza. Somos um país seco, de seca garantida. Se ela se referia aos humores do crioulo, então sim, tem razão, porque, cá entre nós, pensando como eu penso, só poderia estar certa. (...)" (Ibid, ibidem, p. 72)

Salústio ataca a postura conformista que acusa a seca como a desgraça maior, para isso aponta os problemas sociais e econômicos que revoltam o ilhéu. Rompe com a antiga afirmação de que o cabo-verdiano seria um ser pacato e benevolente como justificava Gabriel Mariano nos seus ensaios dos anos 1950. Esclarece que o crioulo rebela-se contra as agruras do tempo, com as chuvas que não vêm na estação esperada e transfere sua indignação para outras situações ou pessoas:

"O crioulo, a partir de Junho, começa a incubar dentro de si um ser ruim, desconfiado, medroso, inseguro. (...) resmungando por tudo e nada sobre a ingratidão das chuvas, a maldição das ilhas, os pecados cometidos. Traído, porque as nuvens maninhas mais uma vez cumpriram o seu destino de negar à terra o consolo da água, o crioulo enraivece-se contra tudo o que o rodeia. Torna-se insuportável de tão intolerante, tão feio, tão desamado. (...)
Eu fujo dos meus patrícios nos meses das águas frustradas. (...)" (Ibid, ibidem, pp. 72-73)

Como já mencionamos anteriormente, as condições climáticas ruins, os limites geográficos impostos pela insularidade participam ativamente da literatura do arquipélago, o que é constatado em diversos autores. O desejo de evasão aparece diante de tantos transtornos e dificuldades às quais o crioulo é obrigado a suportar, e a narradora busca a fuga, no sonho o lugar da utopia:

"Eu fujo de mim. (...)
Afasto-me e, no engano do sonho que me ensinaram a sonhar, vejo uma rua, uma aldeia, uma ilha, todas as ilhas do regadas, verdes de chuva clara, com gargalhadas de chuva na boca dos meninos, com risos de chuva nos olhos dos homens, com o perfume da chuva nos corpos das mulheres.
Tudo fica calmo.
Depois, recuso acordar, temendo enfrentar a cidade seca, as gentes secas, os amores secos." (Ibid, ibidem, p. 73)

A crise econômica e as adversidades por que passam a população também são denunciados nos contos de Dina. A exclusão social, os sonhos que não se realizam, os pequenos desejos de consumo de crianças à beira da miséria são mostrados nos textos que expõem a indiferença da sociedade. Indiferença não compartilhada pela autora no conto “Natal”, em que descreve com sensibilidade a entrada de um pequeno grupo de crianças humildes, fascinadas, ao entrar em uma loja no período das festas natalinas:

"Três mocinhos semi-esfarrapados entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos. Os olhitos passam de um brinquedo para o outro e neles vejo o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.
Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroçaria de um camião. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, aventura de uma corrida." (Ibid, ibidem, p. 68)

Quando são percebidos na loja pelos clientes, explode o preconceito, insatisfeitos com a presença de moribundos, autênticos representantes do refugo humano citado pelo filósofo contemporâneo Zigmuth Baumann, pequenos ladrões que ameaçam as compras, suas consciências tranqüilas que não podem ter contato com a miséria:

“Um dos miúdos distrai-se e solta uma exclamação. Os clientes olham para ele, para eles e para vendedora e apertam com mais força os embrulhinhos de Natal. E a raiva e as frustrações que a contabilidade provoca soltam-se e aparecem nos olhos e nos murmúrios. São gente de bem que não podem aceitar a vadiagem que os fatinhos rotos deixam perceber.” (Ibid, ibidem, p. 69)

Tal situação leva a autora a questionar a hipocrisia da festa natalina, do consumo exacerbado ao qual as pessoas se sentem obrigadas a satisfazer, e a atitude tomada pelas crianças redimensiona o problema, porque estão acostumadas a enfrentar semelhantes situações e à margem da festa católica curtem “o seu Natal, tecido com olhares e imaginação: um Natal de espreita”.

“(...) o que os compradores queriam era que as lojas fechassem, que não houvesse coisas para comprar e que um decreto proibisse aquela mascarada toda. A sua consciência ficaria tranqüila, o orgulho salvo. Talvez o natal passasse a ser mais humano, mais de compromisso, porque não artificial.
Há um sorriso nos mocinhos que eu não percebo, como se não fizessem parte de nós. Como se fôssemos uns palhaços para os divertir. Ou quem sabe, uma certa nostalgia de não serem palhaços como nós.
Tranqüilamente saem, em busca de outras lojas de sonhos.” (Ibid, ibidem, p. 69)

Há espaço para as tradições crioulas nos contos de Dina Salústio. Em “A indústria dos tambores” apreendemos o conflito entre tradição e modernidade representado pela comunicação feita por tambores. Através dos sonhos uma personagem deseja recriar a tradição de sua ilha: do tambor como canal de informação. Pelo tambor, o renascer de antigos hábitos cabo-verdianos, tambor como intermediador de conflitos sociais, em sintonia com o canto do galo, ajudando a valorizar a comida local e comunicando breves assuntos entre as pessoas. O tambor como expressão destacada da cultura cabo-verdiana:

“... Sonhei um Cabo Verde despertado cada manhãzinha pelo som repicado do tambor, substituindo a horrenda música do programa radiofônico Bom dia Cabo Verde, abafando para sempre a inestética publicidade, rivalizando harmoniosamente com o cantar dos galos, o riso das galinhas, os motores, catchupa na frigideira, trapiches e computadores.
Sonhei que a tradição seria reposta e o jornal e a rádio não seriam os veículos monopolizadores das gostosas fofocas e mal dizeres e o tambor retomaria o seu tan tan para trazer e levar mensagens, mantenhas, recados, avisos, boas novas e também as más, porque infelizmente a vida é assim, Sr. Diretor.
Sonhei que o tambor voltaria a ser um complemento do aparelho judiciário e (meu Deus, como sonhei!) que cada indivíduo que ofendesse a moral, a sublime nobreza do parceiro, conhecido ou desconhecido, viria para a rua atrelado ao seu tambor e desdiria nas praças, nas ruas, nos largos, nos becos e avenidas o que houvera dito. (...)
‘... desdigue o que tenho digue, desdigue o que tenho digue sobre fulano ou beltrano.’” (Ibid, ibidem, pp. 48-49)

Até a atitude masculina é reavaliada no conto “Campeão de qualquer coisa”, em que o comportamento masculino é tratado por um prisma distante do lugar-comum e esteriotipado do homem. Apresentando um personagem discreto que não se vangloria de seus feitos, que não segue a tradição de poder comum aos homens, a autora redimensiona não só a masculinidade, mas também a postura feminina da narradora-personagem em relação ao homem, mostrando que novos caminhos podem ser trilhados na relação homem/mulher sendo apenas o que de fato são: homens ou mulheres.

"A noite ia a mais de meio. Grupo de homens e grupo de mulheres convenientemente estabelecidos. Eu fazia o protocolo e chegaste e como manda a praxe, fui-te passando um copo para as mãos e porque não te conhecia disse-te: os campeões das anedotas estão ao fundo, ao lado, os campeões da política internacional, à esquerda os do futebol, os do sexo, debaixo do abacateiro, os do copo, junto ao bar (...)
Espantado com o acolhimento (...) foi então que me disseste que não eras campeão de coisa nenhuma e nem sequer eras bom em qualquer coisa e que eras um tipo normal.
Não havia tristeza nas tuas palavras e, como pensei que um homem normal o mínimo que se devia sentir era triste pela revelação e porque já havia percorrido vários grupos onde cada um era melhor que todos e estava com uma espécie de raiva concentrada, disse-te não te preocupes, pois há um campo onde não precisas provar nada. Vai para debaixo do abateiro. (...) Conta as tuas fantasias e os teus fantasmas. Os teus e os dos outros, como coisa resolvida. Incarna os atores do hardcore. Inventa situações, viagens e encontros, princesas e prostitutas, virgens e lésbicas, homossexuais, mulheres casadas, ninfomaníacas, colegiais e o resto. Inventa. Inventa o mais que puderes. Faz como os outros. Dá nomes e moradas e não te preocupes porque não vão te julgar pela baixeza porque é prática aceite. (...) Mente. Mente muito. E sobretudo exagera. Exagera até o impossível. Vá. Campeão é assim.
Teimosamente dissste que não podias, que não querias fazer-te de atleta de façanhas tantas, porque eras adulto e há muito passaras os dezassete anos e que as tuas necessidades e os teus interesses eram outros e que as tuas fantasias eram as tuas parceiras e expô-las em público seria como veres-te ao avesso num grande écran. (...)
Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de auto afirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. (...)
Alguém chamou-me porque o meu carro estava impedindo a saída. A conversa não podia ser retomada. Hoje lembrei-me de ti e pensei como podemos ser tão bonitos quando conseguimos ser nós próprios: homens ou mulheres." (Ibid, ibidem, pp. 13-15)

E é assim, inferindo diversos aspectos da condição feminina, “de mulher que se pensa e se escreve, procurando, além de expressar a intimidade de uma voz, dar voz a todas as mulheres” (GOMES, Ecos... p. 11) ora tratando um drama local, ora universalizando os sentimentos da mulher cabo-verdiana, lidando com problemas masculinos, dialogando com a insularidade e o eterno dilema evasão e anti-evasão, com os flagelos da seca e as características geográficas do arquipélago são alguns dos condutores da prazerosa leitura das curtas, porém belas e surpreendentes, narrativas de “Mornas eram as noites”.

Os contos deste delicado livro vão muito além da modesta declaração da autora que afirma: “Sou uma mulher que escreve umas coisas”. Contos que celebram o ato de narrar, distinguem Dina Salústio como uma voz marcante da literatura de autoria feminina de seu país e a equiparam aos grandes nomes das literaturas africanas de língua portuguesa. São contos que falam, sim, de Cabo Verde, mas, ultrapassam as fronteiras geográficas, e, sobretudo, nos fazem refletir sobre a condição humana:

“Se eu algum dia estive presa à cabo-verdianidade, acho que já ultrapassei esta fase (...) Ser cabo-verdiano é assumir um lado bonito, mas assumir também todos os lados horríveis (...) É uma sociedade de stress, de conflitos, porque somos de raças diferentes e pobres, pelos ciclos de fome. Mas eu não acho que sejamos diferentes, acho que todas as outras gentes têm os mesmos lados. Não tenho tido necessidade de afirma-me como cabo-verdiana. (...) As nacionalidades são defesas que nos afastam de outras pessoas.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 123)


BIBLIOGRAFIA:
ALMADA, David Hopffer. A identidade cultural cabo-verdiana. In: Caboverdianidade & Tropicalismo – 2ª Jornada de Tropicologia. Recife: Massangana, 1992.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Franscico Alves, 1986.

BAUMANN, Zigmuth. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia, Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas – Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985.

GOMES, Simone Caputo. Mulher com paisagem ao fundo: Dina Salústio apresenta Cabo Verde. In: SEPÚLVEDA, M. C. & SALGADO, M. T. (ORGs). África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000.

MARIANO, GABRIEL. Mestiçagem: seu papel na formação da sociedade caboverdeana. In: Cultura Caboverdeana – ensaios. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Vega, 1991.

SALÚSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999.

SALÚSTIO, Dina. Insularidade na literatura cabo-verdiana. In: Cabo Verde: insularidade e literatura. Paris: Karthala, 1998. p. 33-34.

INTERNET:
GOMES, Simone Caputo. Ecos da caboverdianidade: Literatura e Música no Arquipélago. Artigo acessado em
www.simonecaputogomes.com no dia 28/01/2008.