Uma excelente dica para adquirir livros cabo-verdianos do Instituto Biblioteca Nacional (IBNL) são os e-books à venda em http://www.recortes.cv/eBooks/ Títulos de Manuel Brito-Semedo, Carlota de Barros, Baltasar Lopes, Ondina Ferreira, entre outros.
Abraços,
Ricardo Riso
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
E-books cabo-verdianos (IBNL)
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Vera Duarte
domingo, 16 de outubro de 2011
Oráfrica: revista de oralidad africana - CONVOCATÓRIA PARA ARTIGOS
Oráfrica: revista de oralidad africana - CONVOCATÓRIA PARA ARTIGOS
Encontra-se em preparação a publicação do número 8 da revista ORÁFRICA: REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, pelo que convidamos os professores, investigadores e outras pessoas interessadas a redigir artigos relacionados com qualquer aspeto oral das culturas africanas, assim como recensões bibliográficas sobre o mesmo tema. A publicação da revista está prevista para Abril de 2012. Os artigos deverão ser enviados sob forma eletrónica para o endereço orafrica@ceiba.cat antes de 31 de Dezembro de 2011.
Os textos deverão ser apresentados em formato Word, utilizando preferentemente o tipo de letra Times New Roman de tamanho 11, com espaçamento simples e texto justificado sem indentações.
Na primeira página, deverá ser incluído o nome do autor (tal como quer que conste), o título do artigo e a instituição (ou a menção que queira fazer constar).
Deverá ser enviado igualmente um resumo do artigo (máximo 10 linhas) iniciado por uma breve apresentação do autor (2 linhas), em espanhol e em inglês.
A extensão máxima dos artigos é de 25 páginas.
As recensões bibliográficas seguem os mesmos critérios formais. Não deverão incluir notas e a sua extensão máxima é de 3 páginas.
A revista ORÁFRICA publica-se em catalão, espanhol, francês, inglês e português. Os artigos apresentados em outras línguas serão traduzidos livremente pelo conselho editorial da revista.
CALL FOR PAPERS
We are preparing the number 8 of the Review Orafrica: Revista de Oralidad Africana and we want to invite to professors, lecturers, researchers and other persons to write articles about any oral subject of African cultures and also critics of recent books published. The publication of the number 3 will be in April of 2012. The articles must be sent by internet to the electronic address orafrica@ceiba.cat before 31 of December of 2011.
The articles must be presented in Word, using Times New Roman 11 points, with simple interlineal, text justified, and no indentation.
In the page of the title must appear the name of the author, the title of the article, and the Institution.
Must be sent too an abstract of the article (10 lines) and a brief presentation of the author (2 lines), in Spanish and English.
The maximum extension of the articles is 25 pages.
The critics of bibliography must be the same criteria. They cannot incorporate footnotes. The maximum extension is 3 pages.
Orafrica is published in Catalan, Spanish, French, Portuguese and English. The articles presented in other languages will be translated freely by the Review.
APPEL À COLLABORATION
En prévision de la publication du nº 8 de la revue ORÁFRICA : REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, nous invitons aux professeurs, chercheurs et autres personnes intéressées à rédiger des articles en rapport avec tout aspect oral des cultures africaines, ainsi qu’à rédiger des recensions bibliographiques du même sujet. La publication de la revue est prévue pour le mois d’avril 2012. Les articles doivent être envoyés par voie télématique à notre direction électronique (orafrica@ceiba.cat) avant le 31 décembre 2011.
Les textes doivent être présentés en format Word, en utilisant, de préférence, Times New Roman de 11 pt., avec interligne simple.
Il faut ajouter, dans la page du titre, le nom de l’auteur (de la façon dont on veut qu’il apparaisse), le titre de l’article et l’Institution d’origine (ou la mention que l’on veuille faire figurer).
Il faut ajouter aussi un bref résumé de l’article (10 lignes) entamé par une brève présentation de l’auteur (2 lignes), en Espagnol et en Anglais.
L’extension maximale des articles est de 25 pages.
Les recensions bibliographiques suivront les mêmes critères formels. Celles-ci ne doivent pas porter des notes, et son extension maximale sera de 3 pages.
ORÁFRICA est publiée en Catalan, Espagnol, Français, Anglais et Portugais. Les articles présentés dans d’autres langues seront librement traduits par la revue.
CONVOCATORIA PARA LA PUBLICACIÓN DE ARTÍCULOS
En previsión de la publicación del número 8 de la revista ORÁFRICA: REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, invitamos a los profesores, investigadores y otras personas interesadas a redactar artículos relacionados con cualquier aspecto oral de las culturas africanas, así como recensiones bibliográficas del mismo tema. La publicación de la revista está prevista para el mes de abril de 2012. Los artículos deben enviarse por vía telemática a la dirección electrónica orafrica@ceiba.cat antes del 31 de diciembre de 2011.
Los textos deben presentarse en formato Word, utilizando preferentemente el tipo de letra Times New Roman de 11 pt., con interlineado sencillo y texto justificado y sin sangrías.
En la página de título debe constar el nombre del autor (tal como se quiere que conste, el título del artículo y la Institución de origen (o la mención que se quiera hacer constar).
Se adjuntará un breve resumen del artículo (10 líneas) iniciado por una breve presentación del autor (2 líneas), en español y en inglés.
La extensión máxima de los artículos es de 25 páginas.
Las recensiones bibliográficas seguirán los mismos criterios formales. No deben llevar notas, y su extensión máxima será de 3 páginas.
ORÁFRICA se publica en catalán, español, francés, inglés y portugués. Los artículos presentados en otras lenguas serán traducidos libremente por la revista.
Fonte: Dá Fala
Encontra-se em preparação a publicação do número 8 da revista ORÁFRICA: REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, pelo que convidamos os professores, investigadores e outras pessoas interessadas a redigir artigos relacionados com qualquer aspeto oral das culturas africanas, assim como recensões bibliográficas sobre o mesmo tema. A publicação da revista está prevista para Abril de 2012. Os artigos deverão ser enviados sob forma eletrónica para o endereço orafrica@ceiba.cat antes de 31 de Dezembro de 2011.
Os textos deverão ser apresentados em formato Word, utilizando preferentemente o tipo de letra Times New Roman de tamanho 11, com espaçamento simples e texto justificado sem indentações.
Na primeira página, deverá ser incluído o nome do autor (tal como quer que conste), o título do artigo e a instituição (ou a menção que queira fazer constar).
Deverá ser enviado igualmente um resumo do artigo (máximo 10 linhas) iniciado por uma breve apresentação do autor (2 linhas), em espanhol e em inglês.
A extensão máxima dos artigos é de 25 páginas.
As recensões bibliográficas seguem os mesmos critérios formais. Não deverão incluir notas e a sua extensão máxima é de 3 páginas.
A revista ORÁFRICA publica-se em catalão, espanhol, francês, inglês e português. Os artigos apresentados em outras línguas serão traduzidos livremente pelo conselho editorial da revista.
CALL FOR PAPERS
We are preparing the number 8 of the Review Orafrica: Revista de Oralidad Africana and we want to invite to professors, lecturers, researchers and other persons to write articles about any oral subject of African cultures and also critics of recent books published. The publication of the number 3 will be in April of 2012. The articles must be sent by internet to the electronic address orafrica@ceiba.cat before 31 of December of 2011.
The articles must be presented in Word, using Times New Roman 11 points, with simple interlineal, text justified, and no indentation.
In the page of the title must appear the name of the author, the title of the article, and the Institution.
Must be sent too an abstract of the article (10 lines) and a brief presentation of the author (2 lines), in Spanish and English.
The maximum extension of the articles is 25 pages.
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APPEL À COLLABORATION
En prévision de la publication du nº 8 de la revue ORÁFRICA : REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, nous invitons aux professeurs, chercheurs et autres personnes intéressées à rédiger des articles en rapport avec tout aspect oral des cultures africaines, ainsi qu’à rédiger des recensions bibliographiques du même sujet. La publication de la revue est prévue pour le mois d’avril 2012. Les articles doivent être envoyés par voie télématique à notre direction électronique (orafrica@ceiba.cat) avant le 31 décembre 2011.
Les textes doivent être présentés en format Word, en utilisant, de préférence, Times New Roman de 11 pt., avec interligne simple.
Il faut ajouter, dans la page du titre, le nom de l’auteur (de la façon dont on veut qu’il apparaisse), le titre de l’article et l’Institution d’origine (ou la mention que l’on veuille faire figurer).
Il faut ajouter aussi un bref résumé de l’article (10 lignes) entamé par une brève présentation de l’auteur (2 lignes), en Espagnol et en Anglais.
L’extension maximale des articles est de 25 pages.
Les recensions bibliographiques suivront les mêmes critères formels. Celles-ci ne doivent pas porter des notes, et son extension maximale sera de 3 pages.
ORÁFRICA est publiée en Catalan, Espagnol, Français, Anglais et Portugais. Les articles présentés dans d’autres langues seront librement traduits par la revue.
CONVOCATORIA PARA LA PUBLICACIÓN DE ARTÍCULOS
En previsión de la publicación del número 8 de la revista ORÁFRICA: REVISTA DE ORALIDAD AFRICANA, invitamos a los profesores, investigadores y otras personas interesadas a redactar artículos relacionados con cualquier aspecto oral de las culturas africanas, así como recensiones bibliográficas del mismo tema. La publicación de la revista está prevista para el mes de abril de 2012. Los artículos deben enviarse por vía telemática a la dirección electrónica orafrica@ceiba.cat antes del 31 de diciembre de 2011.
Los textos deben presentarse en formato Word, utilizando preferentemente el tipo de letra Times New Roman de 11 pt., con interlineado sencillo y texto justificado y sin sangrías.
En la página de título debe constar el nombre del autor (tal como se quiere que conste, el título del artículo y la Institución de origen (o la mención que se quiera hacer constar).
Se adjuntará un breve resumen del artículo (10 líneas) iniciado por una breve presentación del autor (2 líneas), en español y en inglés.
La extensión máxima de los artículos es de 25 páginas.
Las recensiones bibliográficas seguirán los mismos criterios formales. No deben llevar notas, y su extensión máxima será de 3 páginas.
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Fonte: Dá Fala
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
João Tala - “Conto os meus mortos e revejo as cicatrizes” (entrevista)
“Conto os meus mortos e revejo as cicatrizes”
O poeta e ficcionista João Tala lançou, recentemente, na União dos Escritores Angolanos, o livro de contos “Rosas & Munhungo”. Tala é autor dos livros “A Forma dos Desejos”, poesia, prémio Primeiro Livro da UEA, 1997, “O Gasto da Semente”, poesia, menção honrosa do Prémio Sagrada Esperança do INALD, 2000, “A forma dos Desejos II”, Chá de Caxinde, 2003, “Lugar Assim”, poesia, UEA, 2004, “Os Dias e os Tumultos”, contos, Grande Prémio de Ficção da UEA, 2004, “A Vitória é Uma Ilusão de Filósofos e de Loucos”, Grande Prémio de Poesia da UEA, 2005, “Surreambulando”, contos, UEA, 2007, e “Forno Feminino”, poesia, Kilombelombe, 2009.
Isaquiel Cori, 09 de outubro de 2011
Vida Cultural - Cada conto refere-se a uma mulher. São curtas mas grandes estórias de amor. Amores vividos ou sonhados?
João Tala - As personagens principais dos contos em Rosas & Munhungo são mulheres distintas que vivem diversas situações, ou são reconhecidas num cenário do pós-guerra imediato. Um traço comum entre essas mulheres é a superação de traumas e outros estados psicológicos daí decorrentes, pelo amor. A característica estilística tem uma grande carga onírica onde o real vivido se revê na composição do sonho.
VC - O título "Rosas & Munhungo" sugere amor e boemia. Quer comentar?
JT - Rosas, como sendo flores, é simbologia feminina, portanto, associada à mulher. Essas personagens, a maioria delas, adaptaram-se a ambientes que lhes eram hostis, ou então a carência cede-lhes o argumento para “ir à rua”. Daí a expressão kimbundo munhungo que é sinónimo de libertinagem, num sentido mais ousado da boemia.
Foto: Jornal de Angola
VC - A proveniência médica do autor está muito presente pelo uso notório de termos do jargão médico. Este uso é propositado ou decorre, digamos, de deformação profissional?
JT - Deformação profissional e porque a personagem representa gente. A essência da medicina são as pessoas.
VC - No estrito sentido do texto pressentem-se algumas ressonâncias intertextuais que fazem lembrar o argentino Jorge Luis Borges, o moçambicano Mia Couto, o angolano Boaventura Cardoso e mais remotamente o também angolano Luandino Vieira. Assume essas influências?
JT - Leio muitos escritores. Mas, no interesse da minha escrita, são os latino-americanos que mais me inspiram. Começou, esse interesse, com a leitura da colecção “Vozes da América Latina” que o nosso INALD dava à estampa nos primórdios de 80 do século passado, principalmente quando li “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo. Seguiram-se depois “O Trovão entre Folhas”, de Roa Bastos, os livros de Gabriel Garcia Marques, entre outros. Do Boaventura Cardoso fascinou-me mais “A Morte do Velho Kipacaça”. Já Luandino Vieira e Mia Couto, salvas as diferenças, parecem enquadrados dentro da mesma dinâmica de reinvenção que a mim fascina, mas não creio que perceba na minha escrita esse modo de conceber o texto. Borges é uma leitura mais recente.
VC - Desde “A Forma dos Desejos I” a mulher tem um lugar muito especial nas suas obras. É seu propósito constante homenagear a mulher? As mulheres tiveram ou têm um papel determinante na sua vida?
JT - Esclarecer sobre isto seria mais do domínio da psicanálise, já que é quase uma constante também na minha poesia. Evidentemente, não vou passar o filme da minha infância e flagrar o papel delas no meu “esquecimento”. Fica para depois.
VC - O contar recorrente de estórias e histórias humanas do tempo da guerra faz parte dos seus livros? Acredita que isso faz falta à reconciliação nacional?
JT - Não o faço pela reconciliação. Faço-o pelo hábito de contar. O militar que conte os cartuchos e o que ainda resta para esmagar. Eu conto os meus mortos, revejo as cicatrizes, teço sonhos, amo e amargo-me. Não fui voluntário quando um dia me cangaram para a tropa onde eu conviviria mais de perto com a guerra. Isso assim, é também matéria para poesia. Escrevo sobre aquilo que vivi e o que me está mais próximo é a guerra. Se analisar bem, saberá que só falta aos políticos reconciliarem-se e deixarem de arrastar os militantes dos partidos nas suas paranóias. De resto, nem a Bíblia reconciliaria. Por exemplo, não acredito que o malanjino não se dê bem com um bieno ou que um bakongo seja inimigo de um umbundo. Só entre militantes de uns e de outros é que se destilam ódios. É maka deles, os políticos.
VC - Sendo um dos autores mais premiados no país, a sua obra não deveria ter uma maior divulgação em Angola e no estrangeiro?
JT - Para tal, falta ao João Tala a cunha. Dizem que isso se faz com a imprensa e com agregação a grupos privilegiados. São coisas de acontecer.
VC - O que o faz escrever? O que o move enquanto escritor?
JT - A leitura. Eu leio mais do que escrevo e isso me inspira, insufla no meu cérebro imagens que persigo no acto da escrita. Depois há o hábito de contar, há a beleza da poesia.
VC - Na qualidade de poeta, que avaliação faz do legado poético de Agostinho Neto?
JT - Posta a pergunta em termos de “legado” fica difícil responder. Agostinho Neto concebeu belas criações poéticas, com um simbolismo que se remetia aos conteúdos da sua época, com plena satisfação estética. No seu tempo o neo-realismo fazia escola com preocupações que tinham no centro a vida simples dos homens mais simples. E no seu caso, a sua terra então colonizada e oprimida, estava no centro das suas inquietações.
VC - A literatura angolana está robusta? Vê nela sinais de renovação?
JT - A geração à qual pertenço, iniciou nos anos 80 uma movimentação que daria em fartos acontecimentos literários. Essa inspiração colectivista, depois que o tempo fez a sua natural selecção, permite hoje distinguir a maturidade dos que jamais se despojaram do interesse pelo estudo e trabalho. Sim, essa literatura está mais robusta. Quanto aos sintomas de renovação ou inovação costumam estar mais associados ao desempenho universal da literatura. Somos apenas peças dessa grande engrenagem, cada um contribuindo para o produto final. Só o génio é outra coisa.
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Filinto Elísio - Torpor da nova poética cabo-verdiana (artigo)
Um pertinente artigo do escritor e cronista cabo-verdiano Filinto Elísio acerca dos novos rumos da poesia cabo-verdiana. Leitura recomendável.
Ricardo Riso
Torpor da nova poética cabo-verdiana
Filinto Elísio
http://www.buala.org/pt/a-ler/torpor-da-nova-poetica-cabo-verdiana
À necessária exegese a que nos convidou o Museu de São Roque, colocando a África e a Cultura no centro da reflexão e do debate, será mais um importante contributo para, juntos e de mãos concêntricas, pensarmos a Cultura, ou se quisermos as Culturas Africanas na sua condição estruturante e na sua realidade circunstancial.
Participar da reflexão e do diálogo em torno da produção cultural africana na contemporaneidade, em particular nos países de língua oficial portuguesa, constitui uma forma de darmos o nosso modesto contributo para o problematizar à luz das outras culturas do Mundo, nomeadamente, quando por indicação do presente enfoque, das Culturas de matriz Ocidental.
Cientes de que os encontros não são inocentes, nem derivam de insólitos, mas sim resultantes de opções e de escolhas, pelo que afirmam produções de pensares e de saberes em prol de causas e de objectivos pré definidos. Por conseguinte, o apelo do Museu de São Roque para que reflictamos e debatamos Africanidades, suas correlações e articulações - abrindo espaço para que, no vaticínio de Amílcar Cabral, o possamos fazer com as nossas próprias cabeças -, é importante, relevante e consequente. Este apelo vem resignificar, de forma muito particular e assertiva, a razão efectiva (e não inocente, repita-se) de estarmos aqui e agora neste encontro.
Perante temática tão vasta quão caudalosa, guardarei as minhas margens pela literatura cabo-verdiana, onde me encontro, com ressalva de escritor, puro esteta se preferirem, e não como estudioso, campo de labor de personalidades como Simone Caputo Gomes, Alberto Carvalho, Elsa Rodrigues, José Luís Pires Laranjeira, Fátima Fernandes, Benjamin Abdala Jr., João Lopes Filho, Manuel Brito-Semedo, Ricardo Riso e José Luís Hopffer Almada, entre vários outros pesquisadores, estudiosos e ensaístas que tanto admiro. A mesma admiração que em mim percorrem os textos críticos sobre as letras cabo-verdianas de Jaime de Figueiredo, Amílcar Cabral, Manuel Duarte, Onésimo Silveira e Manuel Ferreira, sobre outros prismas e por outas temporalidades.
Não sendo apologista de classificar a Literatura Cabo-verdiana pelo viés cronológico, nem acreditando haver suficiente virtude que a literatura em Cabo Verde esteja estratificada em três grandes períodos – pré-Claridoso, Claridoso e Pós Claridoso -, quero crer que há outras e múltiplas formas de olhar esta produção literária que, há mais de dois séculos, tem vindo a marcar o seu espaço no contexto da lusofonia e que, desde a Independência Nacional, há pouco mais de trinta e seis anos, se densifica por produções mais modernistas e mais «aggiornadas» com as letras de recorte universalista.
Abordo aqui de uma literatura que não se pontifica como pós Claridosa, mas que é assumidamente não Claridosa, isto é que não tem a Claridosidade como seu eixo central e muito menos seu fio condutor. Aliás, esta não é apartada daquela, em sua correlação, mas, fazendo jus a alguma identidade, o dom de não ter mote, nem modo claridosos, não se policiando pelos cânones nem dos precoces nativistas, parnasianos e românticos, nem dos realistas, neo-realistas e nacionalistas que compõem as várias gerações que trocam testemunhos na brilhante estafeta do fazer literário até os anos setenta do século XX.
Mesmo a geração transicional do Cabo Verde colonial ao Cabo Verde soberano – onde se pontificam escritores como Mário Fonseca, Arnaldo França, Oswaldo Osório, Onésimo Silveira, Joao Vário, Corsino Fortes e Arménio Vieira -, ao cumprirem a travessia da Independência Nacional, refazem o seu lócus poético que já não fica incólume à nova realidade/ambiente, que entorna o esteta das letras.
Tal geração, assumindo novas trincheiras da alma, tal qual no-la explica Octávio Paz, em «O Arco e a Lira», se torna demiurgo de uma nova luz que questiona a escuridão geral do universo pós Independência. E faz, por ventura nossa, a tormentosa pergunta (o que é a poesia?), e todas as respostas levam-na a uma interrogação ainda mais esfíngica, porque ontológica e existencial. Uma pequena incursão pelo livro «Mon Pays Est Une Musique», de Mário Fonseca, nos deixa perceber que os novos sangramentos da alma poética crioula já são de dilema entre a comunhão ontológica e a alteridade existencial.
E o que acontece depois do Movimento Pró Cultura, nova primavera literária cabo-verdiana, liderada em meados dos anos 80, do século passado, por José Luís Hopffer Almada?
Ainda sem estudos consequentes (tanto da academia, como da fortuna crítica), deste Movimento de maior respaldo cultural no período pós Independência, dele resultam alguns dos poetas cabo-verdianos do momento, tais como o próprio Hopffer Almada, Daniel Spinola, Jorge Carlos Fonseca, Filinto Elísio, Mário Lúcio, Valentinous Velhinho, José Vicente Lopes, António de Névada e José Luís Tavares, entre os mais conhecidos.
O Jornal Arteletra, o Caderno Folha de Letras do Jornal Voz di Povo e as revistas Fragmentos e Sopinha do Alfabeto, mas antes Ponto & Vírgula, importantes publicações literárias (et pour cause, culturais) cabo-verdianas revelaram talentos surpreendentes, como o de Germano Almeida, Jorge Carlos Fonseca, Vera Duarte, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, Vasco Martins, José Vicente Lopes, Luís Silva e Mário Lúcio, por exemplo.
Já a revista Raízes disseminou poetas como Corsino Fortes, João Varela/G.T.Didial, Arménio Vieira, Vera Duarte, Oswaldo Osório ou Paula, pseudónimo de Paula Vasconcelos.
Apesar de propostas e projectos literários ousados, crê-se ainda cedo para assegurar a grandeza desta nossa nova geração. Entretanto, se declinasse as minhas preferências por dois poetas cabo-verdianos, eu não teria dúvida de incluir entre eles o nome do meu contemporâneo José Luis Tavares.
A sua obra, desde O Paraíso Apagado por um Trovão, induz-me a que nela encontre a moldura para espelhar a dimensão desta nova geração consolidada à margem do rio Claridoso, tendência nascida de alguns da geração da transição como em João Vário, Arménio Vieira, Mário Fonseca e Corsino Fortes.
Estes se posicionam, de uma banda, no lapidar da palavra pela impassibilidade, resistência à porosidade, com alguma impermeabilidade ao sentimentalismo nas suas toadas e, de outra banda, se alinham na concepção da palavra enquanto organismo vivo: a palavra-homem, a antropo-palavra, a palavra-vegetal, a palavra-animal, biodiversidade em toda a dimensão, inclusive social e política.
Resume-se que seja uma geração presente e premente, uma geração ainda «on call», de modo que, mau grado alguns rasgos que nos interpelam à euforia, não nos impressionemos com as análises apressadas, com a troca de favores valorativos da imprensa e com os circuitos de marketing editorial, ora que se nos afrontam a Academia de Letras Cabo-verdianas (ideário a ser projecto) e a feitura da História da Literatura Cabo-verdiana, já de conhecimento público. Aqui as escolhas precisam ser cuidadosas e ponderosas para que não tenham efeitos perversos e turvem a água benta da literatura que os cabo-verdianos hoje fazem.
Certo é que o artesanato dos novos poemas está seguramente comprometido com os padrões de qualidade da modernidade literária. Portanto, estão aqui uns cabo-verdianos não claridosos que fazem uma poesia inquieta e inquietante, que levam os leitores a olhar Cabo Verde, através do texto, com seriedade e ansiedade.
Sereno e ciente de ficar aquém do que se espera de um texto de estudioso, pois que, para meu alegre espanto, os novos dados são o afrontamento permanente. Leio Cabo Verde: Antologia da Poesia Contemporânea, de Ricardo Riso, com a participação de «novos poetas»: Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Margaridas Fontes e Maria Helena Sato.
Antes, tivera em mãos «Destino di Bai: Antologia de Poesia Inédita de Cabo-verdiana», de Francisco Fontes, com Carlos Araújo, Eileen Barbosa, Paulino Dias, Anita Faria, Tchalê Figueira, Margarida Fontes, Adriano Gominho, Lay Lobo, , Chissana Magalhães, Jorge Miranda, Valdemar Pereira, Maria Helena Sato, Luiz Silva, Artur Vieira, José Maria Neves e Elisa Schneble. Novos fluíres poéticos, em que os originários do Movimento Pró-Cultura - alguns: Danny Spínola, Filinto Elísio, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio Sousa, José Vicente Lopes, Kaká Barbosa, Vasco Martins, G. T. Didial, Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca, e também do “movimento” actual dos blogues literários – outros, onde se incluem Paulino Dias, Chissana Magalhães, Lay Lobo, Eileen Barbosa e Margarida Fontes – há sim clara imparabilidade das letras cabo-verdianas.
Despretensioso, humilde e talvez imperfeito, ficam estas linhas, mera tentativa de fixar um olhar novo, e quem sabe diferente sobre as letras cabo-verdianas, que é rica hoje por ter a Claridade e a Não Claridade, algo que ainda escapa à generosidade de um certo olhar que insiste no exotismo e no folclorismos para com a escritas dos nossos homens grandes, como o foram outrora Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Gabriel Mariano e Ovídio Martins e ora são Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio, Valentionous Velhinho e José Luís Tavares.
E será com esta nova gente que nos alinhamos na nova África, na renascença de uma Africanidade diferente, outra e emancipada, que não tem pejos, nem esteios de colonizados, nem complexos encravados de identidade; será com esta gente de liberto pensamento e de discurso livre, enquanto África múlplica e plural, ao tempo que assume suas especificidades, que nos assumimos, transculturais e mestiços, prontos para a intermediação do diálogo entre todos os mundos, inclusive com aquele que também nos é de pertença, que é o da Cultura de matriz Ocidental, pela sua vertente também da lusofonia, pátria maior de Fernando Pessoa e de todos nós poetas que inquilinos também desta língua que transcende.
Espero ter entrado na essência da questão, com a antropofagia que me move, enquanto ser cultural dos mundos, ou bem no diapasão do poeta Manoel de Barros, um dos expoentes que me ilumina, em como «Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto».
Ricardo Riso
Torpor da nova poética cabo-verdiana
Filinto Elísio
http://www.buala.org/pt/a-ler/torpor-da-nova-poetica-cabo-verdiana
À necessária exegese a que nos convidou o Museu de São Roque, colocando a África e a Cultura no centro da reflexão e do debate, será mais um importante contributo para, juntos e de mãos concêntricas, pensarmos a Cultura, ou se quisermos as Culturas Africanas na sua condição estruturante e na sua realidade circunstancial.
Participar da reflexão e do diálogo em torno da produção cultural africana na contemporaneidade, em particular nos países de língua oficial portuguesa, constitui uma forma de darmos o nosso modesto contributo para o problematizar à luz das outras culturas do Mundo, nomeadamente, quando por indicação do presente enfoque, das Culturas de matriz Ocidental.
Cientes de que os encontros não são inocentes, nem derivam de insólitos, mas sim resultantes de opções e de escolhas, pelo que afirmam produções de pensares e de saberes em prol de causas e de objectivos pré definidos. Por conseguinte, o apelo do Museu de São Roque para que reflictamos e debatamos Africanidades, suas correlações e articulações - abrindo espaço para que, no vaticínio de Amílcar Cabral, o possamos fazer com as nossas próprias cabeças -, é importante, relevante e consequente. Este apelo vem resignificar, de forma muito particular e assertiva, a razão efectiva (e não inocente, repita-se) de estarmos aqui e agora neste encontro.
Perante temática tão vasta quão caudalosa, guardarei as minhas margens pela literatura cabo-verdiana, onde me encontro, com ressalva de escritor, puro esteta se preferirem, e não como estudioso, campo de labor de personalidades como Simone Caputo Gomes, Alberto Carvalho, Elsa Rodrigues, José Luís Pires Laranjeira, Fátima Fernandes, Benjamin Abdala Jr., João Lopes Filho, Manuel Brito-Semedo, Ricardo Riso e José Luís Hopffer Almada, entre vários outros pesquisadores, estudiosos e ensaístas que tanto admiro. A mesma admiração que em mim percorrem os textos críticos sobre as letras cabo-verdianas de Jaime de Figueiredo, Amílcar Cabral, Manuel Duarte, Onésimo Silveira e Manuel Ferreira, sobre outros prismas e por outas temporalidades.
Não sendo apologista de classificar a Literatura Cabo-verdiana pelo viés cronológico, nem acreditando haver suficiente virtude que a literatura em Cabo Verde esteja estratificada em três grandes períodos – pré-Claridoso, Claridoso e Pós Claridoso -, quero crer que há outras e múltiplas formas de olhar esta produção literária que, há mais de dois séculos, tem vindo a marcar o seu espaço no contexto da lusofonia e que, desde a Independência Nacional, há pouco mais de trinta e seis anos, se densifica por produções mais modernistas e mais «aggiornadas» com as letras de recorte universalista.
Abordo aqui de uma literatura que não se pontifica como pós Claridosa, mas que é assumidamente não Claridosa, isto é que não tem a Claridosidade como seu eixo central e muito menos seu fio condutor. Aliás, esta não é apartada daquela, em sua correlação, mas, fazendo jus a alguma identidade, o dom de não ter mote, nem modo claridosos, não se policiando pelos cânones nem dos precoces nativistas, parnasianos e românticos, nem dos realistas, neo-realistas e nacionalistas que compõem as várias gerações que trocam testemunhos na brilhante estafeta do fazer literário até os anos setenta do século XX.
Mesmo a geração transicional do Cabo Verde colonial ao Cabo Verde soberano – onde se pontificam escritores como Mário Fonseca, Arnaldo França, Oswaldo Osório, Onésimo Silveira, Joao Vário, Corsino Fortes e Arménio Vieira -, ao cumprirem a travessia da Independência Nacional, refazem o seu lócus poético que já não fica incólume à nova realidade/ambiente, que entorna o esteta das letras.
Tal geração, assumindo novas trincheiras da alma, tal qual no-la explica Octávio Paz, em «O Arco e a Lira», se torna demiurgo de uma nova luz que questiona a escuridão geral do universo pós Independência. E faz, por ventura nossa, a tormentosa pergunta (o que é a poesia?), e todas as respostas levam-na a uma interrogação ainda mais esfíngica, porque ontológica e existencial. Uma pequena incursão pelo livro «Mon Pays Est Une Musique», de Mário Fonseca, nos deixa perceber que os novos sangramentos da alma poética crioula já são de dilema entre a comunhão ontológica e a alteridade existencial.
E o que acontece depois do Movimento Pró Cultura, nova primavera literária cabo-verdiana, liderada em meados dos anos 80, do século passado, por José Luís Hopffer Almada?
Ainda sem estudos consequentes (tanto da academia, como da fortuna crítica), deste Movimento de maior respaldo cultural no período pós Independência, dele resultam alguns dos poetas cabo-verdianos do momento, tais como o próprio Hopffer Almada, Daniel Spinola, Jorge Carlos Fonseca, Filinto Elísio, Mário Lúcio, Valentinous Velhinho, José Vicente Lopes, António de Névada e José Luís Tavares, entre os mais conhecidos.
O Jornal Arteletra, o Caderno Folha de Letras do Jornal Voz di Povo e as revistas Fragmentos e Sopinha do Alfabeto, mas antes Ponto & Vírgula, importantes publicações literárias (et pour cause, culturais) cabo-verdianas revelaram talentos surpreendentes, como o de Germano Almeida, Jorge Carlos Fonseca, Vera Duarte, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, Vasco Martins, José Vicente Lopes, Luís Silva e Mário Lúcio, por exemplo.
Já a revista Raízes disseminou poetas como Corsino Fortes, João Varela/G.T.Didial, Arménio Vieira, Vera Duarte, Oswaldo Osório ou Paula, pseudónimo de Paula Vasconcelos.
Apesar de propostas e projectos literários ousados, crê-se ainda cedo para assegurar a grandeza desta nossa nova geração. Entretanto, se declinasse as minhas preferências por dois poetas cabo-verdianos, eu não teria dúvida de incluir entre eles o nome do meu contemporâneo José Luis Tavares.
A sua obra, desde O Paraíso Apagado por um Trovão, induz-me a que nela encontre a moldura para espelhar a dimensão desta nova geração consolidada à margem do rio Claridoso, tendência nascida de alguns da geração da transição como em João Vário, Arménio Vieira, Mário Fonseca e Corsino Fortes.
Estes se posicionam, de uma banda, no lapidar da palavra pela impassibilidade, resistência à porosidade, com alguma impermeabilidade ao sentimentalismo nas suas toadas e, de outra banda, se alinham na concepção da palavra enquanto organismo vivo: a palavra-homem, a antropo-palavra, a palavra-vegetal, a palavra-animal, biodiversidade em toda a dimensão, inclusive social e política.
Resume-se que seja uma geração presente e premente, uma geração ainda «on call», de modo que, mau grado alguns rasgos que nos interpelam à euforia, não nos impressionemos com as análises apressadas, com a troca de favores valorativos da imprensa e com os circuitos de marketing editorial, ora que se nos afrontam a Academia de Letras Cabo-verdianas (ideário a ser projecto) e a feitura da História da Literatura Cabo-verdiana, já de conhecimento público. Aqui as escolhas precisam ser cuidadosas e ponderosas para que não tenham efeitos perversos e turvem a água benta da literatura que os cabo-verdianos hoje fazem.
Certo é que o artesanato dos novos poemas está seguramente comprometido com os padrões de qualidade da modernidade literária. Portanto, estão aqui uns cabo-verdianos não claridosos que fazem uma poesia inquieta e inquietante, que levam os leitores a olhar Cabo Verde, através do texto, com seriedade e ansiedade.
Sereno e ciente de ficar aquém do que se espera de um texto de estudioso, pois que, para meu alegre espanto, os novos dados são o afrontamento permanente. Leio Cabo Verde: Antologia da Poesia Contemporânea, de Ricardo Riso, com a participação de «novos poetas»: Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Margaridas Fontes e Maria Helena Sato.
Antes, tivera em mãos «Destino di Bai: Antologia de Poesia Inédita de Cabo-verdiana», de Francisco Fontes, com Carlos Araújo, Eileen Barbosa, Paulino Dias, Anita Faria, Tchalê Figueira, Margarida Fontes, Adriano Gominho, Lay Lobo, , Chissana Magalhães, Jorge Miranda, Valdemar Pereira, Maria Helena Sato, Luiz Silva, Artur Vieira, José Maria Neves e Elisa Schneble. Novos fluíres poéticos, em que os originários do Movimento Pró-Cultura - alguns: Danny Spínola, Filinto Elísio, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio Sousa, José Vicente Lopes, Kaká Barbosa, Vasco Martins, G. T. Didial, Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca, e também do “movimento” actual dos blogues literários – outros, onde se incluem Paulino Dias, Chissana Magalhães, Lay Lobo, Eileen Barbosa e Margarida Fontes – há sim clara imparabilidade das letras cabo-verdianas.
Despretensioso, humilde e talvez imperfeito, ficam estas linhas, mera tentativa de fixar um olhar novo, e quem sabe diferente sobre as letras cabo-verdianas, que é rica hoje por ter a Claridade e a Não Claridade, algo que ainda escapa à generosidade de um certo olhar que insiste no exotismo e no folclorismos para com a escritas dos nossos homens grandes, como o foram outrora Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Gabriel Mariano e Ovídio Martins e ora são Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Hopffer Almada, Mário Lúcio, Valentionous Velhinho e José Luís Tavares.
E será com esta nova gente que nos alinhamos na nova África, na renascença de uma Africanidade diferente, outra e emancipada, que não tem pejos, nem esteios de colonizados, nem complexos encravados de identidade; será com esta gente de liberto pensamento e de discurso livre, enquanto África múlplica e plural, ao tempo que assume suas especificidades, que nos assumimos, transculturais e mestiços, prontos para a intermediação do diálogo entre todos os mundos, inclusive com aquele que também nos é de pertença, que é o da Cultura de matriz Ocidental, pela sua vertente também da lusofonia, pátria maior de Fernando Pessoa e de todos nós poetas que inquilinos também desta língua que transcende.
Espero ter entrado na essência da questão, com a antropofagia que me move, enquanto ser cultural dos mundos, ou bem no diapasão do poeta Manoel de Barros, um dos expoentes que me ilumina, em como «Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto».
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Poetas de Moçambique, antologia de Amosse Mucavele
Prezados,
Já foi publicada a antologia da nova poesia moçambicana - POETAS DE MOÇAMBIQUE - na nova edição da Revista Zunai, com seleção e organização de Amosse Mucavele (Movimento Kuphaluxa), nota introdutória de Ricardo Riso e poemas de Tânia Tomé, Sangare Okapi, Ruy Ligeiro, Emmy Xyx - Manuela Xavier, Manecas Cândido, Helder Faife, Dinis Muhai, Andes Chivangue, Celso Manguana, Amin Nordine e Mbate Pedro.
Segue o link direto para a antologia POETAS DE MOÇAMBIQUE:
Abaixo reproduzo a introdução que fiz para a antologia.
Peço ajuda para a divulgação.
Abraços para todos,
Ricardo Riso
----x----
UM PAÍS DE POESIA
Ricardo Riso
25 de julho de 2011.http://www.revistazunai.com/poemas/ricardo_riso_introducao.htm
Em boa hora chega para o público brasileiro esta antologia de poesia moçambicana organizada por este jovem guerreiro das letras chamado Amosse Mucavele, que esse novo canal de comunicação, a internet, e o amor pela literatura fizeram o prazer de nos apresentar.
Com pouco mais de cem anos, a poesia moçambicana pode se orgulhar de sua trajetória vigorosa escorada em nomes que se consagraram através de uma lírica contundente e crítica do triste passado colonial, tais como de Noémia de Sousa, Rui Knopfli e José Craveirinha, e mais recentemente Mia Couto, sem dúvida, um dos principais escritores do universo lusófono. Dentre tantos outros poetas que poderia citar, estes quatro são dignos representantes do consolidado sistema literário moçambicano e de reconhecimento entre os amantes da poesia em língua portuguesa.
Entretanto, a poesia moçambicana carece de maior disseminação entre nós, ainda mais quando se trata de agentes contemporâneos, pois por aqui temos apenas Paulina Chiziane, Nelson Saúte, Eduardo White e Luís Carlos Patraquim. Estes, já com alguma fortuna crítica em nossas universidades, porém restritos ao mundo acadêmico apesar dos dois primeiros possuírem títulos publicados no país. Por isso, a pertinência dos nomes selecionados por Amosse Mucavele para oferecer um panorama, ainda que breve, da poesia moçambicana contemporânea.
O leitor perceberá que um macrotema é desenvolvido com frequência pelos poetas aqui reunidos: o país, assim como as implicações do destino que tomou com a independência e de como a população absorveu irrealizações dos sonhos da revolução. Enquanto para José Craveirinha a noção de pertencimento à terra vinculava-se ao direito legítimo e incondicional da pátria livre do jugo colonial, basta lembrar o “Poema do futuro cidadão” e seus versos, “Homem qualquer/ cidadão de uma Nação que ainda não existe”, lemos em Celso Manguana o desencanto da contemporaneidade, “A nenhuma/ cidadania/ pertenço”, de um país à mercê da corrupção e da submissão ao neoliberalismo imposto pelos países desenvolvidos, situação de indignação do poeta por essa “pátria que me pariu”. O canto sofrido desse poeta revela-se na grave crise que assola famílias, “Dividida a pátria/ entre o coração/ e o estômago”, e recorre à intertextualidade ao livro de Nelson Saúte, “A pátria dividida” (1993), para demonstrar a inércia do quadro socioeconômico da nação desde o fim da guerra de desestabilização em 1992. Um país dilacerado entregue a esses jovens como demonstra Manecas Cândido: “Logo que nasci/ deram-me presentes/ de pobreza e um país/ de angústias”.
Refletir poeticamente sobre o país é recorrente na poesia moçambicana. A intertextualidade com esse macrotema vem desde Rui Knopfli e o clássico “O País dos Outros”, no final dos anos 1980 Eduardo White lança “País de Mim”, já Ruy Ligeiro publica “O País de Medo” (2003) sinalizando para as incertezas que dominam o moçambicano na atualidade. Novamente, a referência ao Velho Cravo se apresenta em Ruy Ligeiro: “volto a um país que não existe/ senão quando o habito/ entre abutres de sonhos/ que vêm enovelados/ em galerias de medo”.
Sonhos dilacerados por uma elite corrupta são mostrados pelo olhar ácido aos desvios éticos e políticos de Amin Nordine: “Um a outro os sabores desejados/ Com muitas regalias ministrados/ Banqueiros de banquete obsequiados/ Milhentas vezes da colheita graúda/ Cintilar grandes pratos arrojados;/ Melhorem o celeiro da fome aguda/ Ou vire trigo o grito nos acuda/ Em nome da plebe implorar ajuda”. Descaso e descaminhos que geram a indecisão dessa geração, Mbate Pedro desvela o seu medo diante da amargura de seus pares, “a geografia dos meus medos/ é limitada (em toda a sua extensão)/ pela angústia do meu povo”, enquanto Sangare Okapi desnuda o seu interior em conflito: “há um pequeno país/ no meu país:/ chama-se angústia”.
Entretanto, nem só de críticas ao país versam os poetas como o leitor poderá verificar em “Meu Moçambique” de Tânia Tomé. Neste, tal como em “Hino à minha terra” de José Craveirinha, a celebração ao país se apresenta e assim canta Tomé, “Eu sei Moçambique,/ no cume das árvores, na sede incontinente/ da minha falange, Rovuma ao Incomati,/ no xigubo terrestre dos pés descalços/ e em todos tambores que surdem/ das mãos coloridas nos braços em chaga”.
Concentrei-me na maneira como os poetas contemporâneos pensam poeticamente a nação moçambicana, mas outros temas e vertentes literárias são trabalhados pelos poetas desta antologia. Vale ressalta o simbolismo corrosivo repleto de metapoética e erotismo de Andes Chivangue, nome que merece maior visibilidade, assim como a maneira como Sangare Okapi e Mbate Pedro trabalham o lirismo erótico e a metapoética. Estas características também estão nos poemas de Tânia Tomé, Dinis Muhai, Manecas Cândido, para além do intimismo e das metáforas inusitadas e bem construídas de Helder Faifer e Manuela Xavier (Emmy Xyx).
Para finalizar, parabenizo a revista Zunai por esta bela iniciativa ao abrir espaço para os novos agentes deste país de poesia, tão perto e tão distante de nós, Moçambique.
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UESPI e Nepa realizam II Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-Brasileiras e Africanas
UESPI e Nepa realizam II Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-Brasileiras e Africanas
O África Brasil – II Encontro Internacional De Literaturas, Histórias e Culturas Afro-Brasileiras e Africanas e IV Colóquio de Literatura Afro-Brasileira e Africana é uma realização do Mestrado em Letras da Universidade Estadual do Piauí- UESPI e do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro – NEPA e terá como tema: Memória e Construções Literárias.
As atividades se estenderão durante os dias 15, 16, 17 e 18 de novembro do corrente ano, nos turnos da manhã, tarde e noite. Este evento oportuniza a comunidade acadêmica e a sociedade em geral conhecimentos de Literatura, História e Cultura da África e da Diáspora negra, bem como de temas relacionados a Gênero e à Cultura Indígena, que constitui uma das ações estratégias e indispensáveis à inclusão dos conteúdos disciplinares referidos pela Lei 11.645/2008, do Presidente da República.
Na oportunidade será realizado o I Salão do Livro Universitário – SALIU que contará com a presença de editoras universitárias de todo o Brasil. As inscrições para o evento deverão ser efetuadas por meio de depositado identificado na conta do evento – Banco do Brasil – e o comprovante deverá ser digitalizado e enviado para o e-mail do evento (nepauespi@yahoo.com.br) juntamente com a ficha de inscrição. Agência Bancária: 3178-X / Número da Conta: 41.607-X
O participante deverá ainda atentar-se aos seguintes prazos:
15 de agosto a 14 de outubro: inscrições nas modalidades de COMUNICAÇÃO
15 de agosto a 04 de novembro: inscrição para ouvintes
21 de outubro: divulgação dos trabalhos selecionados
Para os participantes que se inscreverem na modalidade de COMUNICAÇÃO será exigido o envio da FICHA RESUMO juntamente com o boleto digitalizado e a ficha de inscrição devidamente preenchida. As normas para formatação dos trabalhos bem como de todo o evento está disponível no blog do evento: http://nepauespi.wordpress.com/
Os valores das inscrições seguem a seguinte tabela:
DATA GRADUAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO E OUTROS PROFISSIONAIS
até 30 de setembro R$ 40,00 - R$ 60, 00
até 21 de outubro R$ 50,00 - R$ 80, 00
até 04 de novembro R$ 60,00 - R$ 90,00
Para mais informações, poderão consultar o blog do evento ou encaminhar e-mail para nepauesi@yahoo.com.br
CONFERENCISTAS CONFIRMADOS:
Prof. Dr. Eduardo Assis Duarte – UFMG
Prof. Dr. Roland Walter – UFPE
Profa. Dra. Maria Anória – UNEB
Prof. Dr. Luiz Silva (Cuti) – Escritor dos Cadernos Negros e crítico literário – São Paulo
Profa. Viviane Fernandes Farias – Representante do MEC
Prof. Dr. Henrique Cunha Júnior – UFC
Miriam Alves – Escritora/São Paulo
Prof. Dr. Múleka Ditoka Wa Kalenga – República Democrática do Congo
Fonte: http://www.uespi.br/novosite/2011/09/22/uespi-e-nepa-realizam-ii-encontro-internacional-de-literaturas-historias-e-culturas-afro-brasileiras-e-africanas/
O África Brasil – II Encontro Internacional De Literaturas, Histórias e Culturas Afro-Brasileiras e Africanas e IV Colóquio de Literatura Afro-Brasileira e Africana é uma realização do Mestrado em Letras da Universidade Estadual do Piauí- UESPI e do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro – NEPA e terá como tema: Memória e Construções Literárias.
As atividades se estenderão durante os dias 15, 16, 17 e 18 de novembro do corrente ano, nos turnos da manhã, tarde e noite. Este evento oportuniza a comunidade acadêmica e a sociedade em geral conhecimentos de Literatura, História e Cultura da África e da Diáspora negra, bem como de temas relacionados a Gênero e à Cultura Indígena, que constitui uma das ações estratégias e indispensáveis à inclusão dos conteúdos disciplinares referidos pela Lei 11.645/2008, do Presidente da República.
Na oportunidade será realizado o I Salão do Livro Universitário – SALIU que contará com a presença de editoras universitárias de todo o Brasil. As inscrições para o evento deverão ser efetuadas por meio de depositado identificado na conta do evento – Banco do Brasil – e o comprovante deverá ser digitalizado e enviado para o e-mail do evento (nepauespi@yahoo.com.br) juntamente com a ficha de inscrição. Agência Bancária: 3178-X / Número da Conta: 41.607-X
O participante deverá ainda atentar-se aos seguintes prazos:
15 de agosto a 14 de outubro: inscrições nas modalidades de COMUNICAÇÃO
15 de agosto a 04 de novembro: inscrição para ouvintes
21 de outubro: divulgação dos trabalhos selecionados
Para os participantes que se inscreverem na modalidade de COMUNICAÇÃO será exigido o envio da FICHA RESUMO juntamente com o boleto digitalizado e a ficha de inscrição devidamente preenchida. As normas para formatação dos trabalhos bem como de todo o evento está disponível no blog do evento: http://nepauespi.wordpress.com/
Os valores das inscrições seguem a seguinte tabela:
DATA GRADUAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO E OUTROS PROFISSIONAIS
até 30 de setembro R$ 40,00 - R$ 60, 00
até 21 de outubro R$ 50,00 - R$ 80, 00
até 04 de novembro R$ 60,00 - R$ 90,00
Para mais informações, poderão consultar o blog do evento ou encaminhar e-mail para nepauesi@yahoo.com.br
CONFERENCISTAS CONFIRMADOS:
Prof. Dr. Eduardo Assis Duarte – UFMG
Prof. Dr. Roland Walter – UFPE
Profa. Dra. Maria Anória – UNEB
Prof. Dr. Luiz Silva (Cuti) – Escritor dos Cadernos Negros e crítico literário – São Paulo
Profa. Viviane Fernandes Farias – Representante do MEC
Prof. Dr. Henrique Cunha Júnior – UFC
Miriam Alves – Escritora/São Paulo
Prof. Dr. Múleka Ditoka Wa Kalenga – República Democrática do Congo
Fonte: http://www.uespi.br/novosite/2011/09/22/uespi-e-nepa-realizam-ii-encontro-internacional-de-literaturas-historias-e-culturas-afro-brasileiras-e-africanas/
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Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena
Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena
O romance Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena, é o terceiro livro do autor e apresenta um relato vivo das personagens, dos lugares e vivências da sociedade cabo-verdiana.
Christian Zardel é um menino de rua em fuga de um traficante de droga, que encontra abrigo num velho farol, onde vive Simplício, antigo faroleiro do mar traiçoeiro da ilha da Boa Vista. O velho farol e o ilhéu são também, para a bióloga marinha Selma e o ex-etarra Kiko, uma espécie de recanto paradisíaco, mas por diferentes razões, obviamente, enquanto as suas vidas secretas se vão abrindo e cedendo à atracção física que sentem um pelo outro e à crescente cumplicidade na defesa do meio ambiente e da espécie animal ameaçada. Na Ilha de São Vicente, um advogado português e um cidadão espanhol seguem a pista do ex-etarra, responsável pela morte violenta da esposa do segundo. Se o espanhol nada tem a perder nesta busca perigosa, para o advogado português é uma dose suplementar de adrenalina, nesta sua nova vida.
Alguns excertos de Para Onde Voam as Tartarugas:
“Naquela hora já estou é a pensar onde me vou esconder deles nos próximos tempos. Logo de seguida, fecho os olhos e vejo a imagem do meu corpinho magricela enrolado no chão; a cara coberta de sangue e a levar pontapés e socos de todos os lados: a levantar-se e a cair outra vez. Vejo-me a entrar em casa, ajudado pelo meu irmãozinho, e a minha mãe, na sua escuridão, coitada, a tactear a minha cara partida.. Continuo a ver estas coisas todas mesmo depois de abrir os olhos. Há coisas que temos a certeza que nos vão acontecer; se não fizermos nada elas acontecem mesmo. Se fizermos, o mais provável é acontecerem na mesma.”
“Não era possível dizer ao certo que expressão lhe marcava o rosto naquele instante. Estava de pé na praia, do outro lado do canal: os braços descaídos, ao longo do corpo - a silhueta batida pelo vento. Mas à medida que o bote se aproximava revelava-se nela, debaixo da resoluta serenidade, uma emoção contida. Do outro lado do canal, o velho Simplício viu quando o basco acelerou o motor antes de o desligar e levantar a hélice para a proteger do embate no chão. O bote deslizou então por sobre as ondas e imobilizou-se na areia.”
“Abri a porta de um dos quartos e Kiko Rukya Olazabal esperava-me, lá dentro, de pé, com uma arma apontada à minha cabeça. Fiquei paralisado. Tinha o braço e o ombro esquerdo anfaixados por uma ligadura vermelha de sangue. Olhei para aquele cano apontado na minha direcção e pensei que assim que ele premisse o gatilho estaria tudo acabado. O braço começou a tremer-lhe. Estava sem forças, pensei. Deveria ter perdido muito sangue. Não aguentaria estar de pé por muito mais tempo. Mas o tempo que demorou até cair de borco, à minha frente, pareceu-me uma eternidade. Um momento que se transformou numa pergunta abafada no meu espírito.”
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Joaquim Arena: entrevista para Expresso das Ilhas
Joaquim Arena: “Para Onde Voam as Tartarugas” apresentado em Lisboa
“Para Onde Voam as Tartarugas” é a mais recente obra de Joaquim Arena. Uma edição da Caminho, que apresenta “um relato vivo das personagens, dos lugares e vivências da sociedade cabo-verdiana”, segundo a editora. O lançamento da obra teve lugar em Lisboa, na livraria CEBuchholz, tendo cabido a apresentação ao editor Severino Coelho e a análise a António Loja Neves, jornalista do semanário “Expresso”, realizador de cinema e documentarista. O Expresso das Ilhas esteve presente e entrevistou o escritor.
Já passaram quatro anos desde o lançamento do seu último livro. Como surgiu esta nova obra?
A história deste livro é engraçada, tendo existido vários momentos para a sua conceptualização. Há uns anos atrás estive na ilha de Santa Luzia, na qual tive uma experiencia fantástica. Na ilha estive com uns amigos a acampar e tive a oportunidade de explorá-la. Numa das incursões nocturnas pela ilha pude observar tartarugas marinhas a desovar, ou seja, a fazer o buraco na areia para o seu ninho e a subsequente postura. Para mim foi fascinante estar junto de animais destes, porque, além da sua história, são criaturas que sobreviveram à era dos dinossauros. Toda esta experiência ficou-me retida na memória. Uns tempos mais tarde, ainda trabalhava no jornal A Semana quando me chegou às mãos uma reportagem, relativa a uma bióloga que estava a estudar tartarugas marinhas numa praia deserta da ilha da Boa Vista. Neste sentido, juntei a minha vivência e a perspectiva de uma bióloga.
Alguns meses mais adiante estive com uns amigos em S. Vicente, que por sua vez tinham outros amigos, sendo um deles, um cidadão espanhol. Num serão de convívio, fomos conversando pela madrugada dentro e no final dessa noite, quando o mesmo foi embora, um dos meus amigos questionou-me se sabia quem era o espanhol, ao que respondi negativamente. De forma pronta o meu amigo explicou: “era um basco, um antigo etarra, um operacional, um terrorista! Há aqui alguns, pois houve um convénio entre o Governo de Cabo Verde e o Espanhol, para os mesmos se exilarem aqui em troca de alguns investimentos.” A história que acabara de ouvir era singular e no final o meu amigo ainda acrescentou: “este homem é ainda responsável por cinco ou seis assassinatos”. Fiquei incrédulo perante esta revelação, pois o homem que considerei simpático, com o qual falei durante horas e aparentava ser um homem normal de passagem por Cabo Verde, era afinal um activista político.
Perante tais realidades e perspectivas reflecti: em ilhas isoladas no meio do oceano conseguimos ter encontros inesperados que, por exemplo, em Lisboa não seriam tão prováveis descobrir. Quando voltei para Portugal comecei a efectuar as minhas pesquisas, coloquei o nome do indivíduo espanhol em causa e li o seu histórico. Foi neste momento que estas várias etapas da minha vida se começaram a encaixar e me ocorreu que o resultado poderia ser uma história em que as pessoas se conheciam na ilha da Boa Vista. Foi desta forma que avancei para a história, em que já tinha as personagens e só me faltava o enredo.
Podemos considerar uma obra autobiográfica?
Tem algumas passagens da minha experiência. Grande parte do que nós escrevemos reflecte, ou a nossa experiência, ou a experiência de pessoas que nos são muito próximas, pois ninguém escreve sobre algo totalmente desconhecido. Nós não inventamos, ou seja, não criamos as histórias de uma esfera superior. O que escrevemos tem sempre uma ligação directa com o que conhecemos e vivemos, misturando parte das nossas experiências com aspectos imaginados.
Roaquim foi uma personagem necessária?
Quis brincar um pouco e inventei um advogado, o Roaquim, porque é a forma como os espanhóis pronunciam Joaquim. Como sabemos, os espanhóis não têm uma aptidão inata para línguas estrangeiras, e quando o fazem, deixam muito a desejar. Roaquim é uma personagem baseada de certa forma na experiência que tive enquanto advogado em Cabo Verde. Nessa etapa da minha vida era um advogado muito especial, porque só defendia quem não tinha dinheiro para solicitar um advogado, ou seja, só defendia pobres, como por exemplo, os desgraçados dos rapazes de rua que roubavam. Considerava que tinha muito mais interesse estar a defender pessoas que não tinham como pagar um advogado. O Ministério da Justiça era quem me pagava, mas eu tinha muito prazer e satisfação em ajudar, por exemplo, uma pessoa pobre a não ser despejada de sua casa. O lado social da advocacia é o que mais me atrai e esta experiência está reflectida em algumas passagens do livro.
A quem é que se destina este romance?
O romance tem uma carga ecológica como frisou o António Loja Neves na apresentação: nós brincamos e contamos histórias, porém, estamos a falar de aspectos muito sérios. Por exemplo, estamos a falar da ilha da Boa Vista que tem longos quilómetros de areal, os quais são os locais escolhidos há milhões de anos pelas tartarugas. Na nossa era vemos que começam a surgir inúmeras propostas de desenvolvimento hoteleiro nesses locais, que acabam por ter influência no habitat e no meio ambiente de Cabo Verde. Gostaria muito que a história pudesse ser vista como uma espécie de alerta para o investimento no turismo de massas, que mal concebido pode aniquilar estas praias, o meio ambiente e as tartarugas marinhas. É um risco muito grande que estamos a correr.
É também uma crítica à sociedade cabo-verdiana...
Considero que o Governo e os decisores políticos estão conscientes destes riscos, mas, como em todo lado há sempre brechas, podendo surgir propostas menos consentâneas com o desenvolvimento equilibrado. Obviamente que temos de promover o turismo, no entanto, não podemos abdicar da salvaguarda do meio ambiente. Penso que a sociedade cabo-verdiana, de uma forma geral, está cada vez mais sensibilizada para esta questão.
Algumas praias já estão destinadas a proteger a desova das tartarugas, além disso, as próprias populações estão a ficar mais conscientes que uma tartaruga marinha viva vale mais do que uma morta, na medida em que as mesmas fomentam o turismo, conseguindo desta forma obter mais proveitos.
Podemos aprender a gostar de Cabo Verde através do seu livro?
Penso que sim, apesar de não ser esse o objectivo principal, pois não se trata de um guia de viagens, contudo, consigo imaginar alguém, que nunca tenha visitado Cabo Verde e que leia o livro, a encontrar aspectos que apelem à descoberta, aventura e ao conhecimento, podendo ficar com uma ideia do que existe neste momento e perceber alguns aspectos muito curiosos da sociedade crioula.
Para quando a publicação do livro em Cabo Verde?
Já foram enviados alguns exemplares para a Feira do Livro na Praia e vão seguir mais alguns para S. Vicente. Mais tarde espero vir a ter o lançamento oficial em Cabo Verde e o livro ficar disponível para quem quiser em todo o arquipélago.
Como vê o panorama literário em Cabo Verde?
Como vivo em Portugal tenho um conhecimento externo sobre o assunto, todavia, como sou jornalista e trabalho num portal de internet que têm essencialmente notícias de Cabo Verde, consigo constatar que continuamos a publicar muito. Em termos populacionais, quando comparado com outros países, penso que Cabo Verde está na liderança do ranking dos países que mais publicam e com maior tiragem. O arquipélago tem cerca de 500 mil habitantes e as obras cabo-verdianas têm tiragens de mil ou dois mil habitantes, efectuando esta comparação com outras nações percebemos que é um rácio per capita extraordinário. As pessoas continuam interessadas em ler, porém, ao nível da ficção é diferente, é um espaço mais difícil de escrever e publicar, mas isto é verdade em qualquer parte do mundo. Os livros não são só ficção e podemos dizer que temos uma cultura livresca em Cabo Verde, que se mantém até agora. Por exemplo, também há propostas interessantes ao nível da investigação.
O que vem em primeiro lugar: a advocacia, o jornalismo ou a escrita?
Até agora tem sido o jornalismo, pois a literatura tem sido uma incursão pontual. Obviamente que quero manter esta incursão, porque na verdade tenho várias ideias, penso nelas e vão-se desenvolvendo, por isso, espero que as personagens se enquadrem para começar a vislumbrar o livro.
Quanto à advocacia estou a pensar em voltar a exercer aqui em Portugal. Não é uma advocacia para enriquecer, mas sim a que trabalha com o pobre, neste caso com os imigrantes aos quais podemos resolver muitos problemas. Continuo muito interessado no lado social da advocacia. Para mim a advocacia é a actividade na qual posso fazer a diferença e ajudar as pessoas, porque muitas vezes nestas sociedades europeias muito frias e rápidas, há pobres migrantes que estão aqui e dependem muitas vezes de encontrar um profissional que os ajude.
A história de “Para Onde Voam as Tartarugas”
Christian Zardel é um menino de rua em fuga de um traficante de droga da ilha de S. Vicente, que encontra abrigo num velho farol, onde vive Simplício, antigo faroleiro do mar traiçoeiro da ilha da Boa Vista.
O velho farol e o ilhéu são também, para a bióloga marinha Selma (que estuda tartarugas marinhas) e o ex-etarra Kiko (exilado em Cabo Verde e um apaixonado por cones, conchas que existem nas ilhas), uma espécie de recanto paradisíaco, mas por diferentes razões, obviamente, enquanto as suas vidas secretas se vão abrindo e cedendo à atracção física que sentem um pelo outro e à crescente cumplicidade na defesa do meio ambiente e da espécie animal ameaçada.
Em São Vicente, o advogado português Roaquim é contratado por Guillermo Garcia, cidadão espanhol, para encontrar o paradeiro de Kiko. Guillermo representa um grupo de familiares das vítimas de um atentado levado a cabo pelo etarra exilado. As vidas das personagens acabam por se entrelaçar, numa espécie de destino imutável.
Quem é Joaquim Arena?
Joaquim Arena nasceu em 1964, na ilha de São Vicente, Cabo Verde, filho de pai português e mãe cabo-verdiana. No final dos anos sessenta chega com a família a Portugal. Depois de viajar pela Europa, regressa a Lisboa, no início dos anos noventa, onde se licencia em Direito. Dirige algumas revistas de temática lusófona, como a África Hoje, ao mesmo tempo que desenvolve projectos na área musical.
De regresso a Cabo Verde, nos finais de noventa, fundou o jornal O Cidadão, foi advogado, jornalista, assessor cultural da Alliance Française do Mindelo.
Em 2000 publicou a novela Um Farol no Deserto. De regresso a Lisboa, publicou A Verdade de Chindo Luz, considerado o primeiro romance sobre a comunidade cabo-verdiana residente em Portugal. Actualmente é jornalista no portal de internet Sapo.cv.
é a mais recente obra de Joaquim Arena. Uma edição da Caminho, que apresenta “um relato vivo das personagens, dos lugares e vivências da sociedade cabo-verdiana”, segundo a editora. O lançamento da obra teve lugar em Lisboa, na livraria CEBuchholz, tendo cabido a apresentação ao editor Severino Coelho e a análise a António Loja Neves, jornalista do semanário “Expresso”, realizador de cinema e documentarista. O Expresso das Ilhas esteve presente e entrevistou o escritor.
4-8-2010, 11:41:55
João Pinheiro Costa, Correspondente em Lisboa
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Dica de blog: Mar di Képona (Joaquim Arena)
Segue o blog do jornalista e escritor cabo-verdiano Joaquim Arena que tive o prazer de conhecer no II Xirê das Letras - Giros de Resistência, no campus Xique-Xique da Universidade Estadual da Bahia (UNEB), em setembro de 2011. Para acessar o blog Mar di Képona, clique aqui.
Joaquim Arena nasceu no Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, em 1964. Advogado e jornalista, publicou a novela "Um farol no deserto" e os romances "A verdade de Chindo Luz" e "Para onde voam as tartarugas".
Segue uma foto dos nossos dias em Xique-Xique:
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João Tala - Rosa & Munhungo (lançamento na UEA)
SOBRE O LIVRO DE CONTOS "ROSAS & MUNHUNGO" - Excertos
lançado aos 28/09/11
“Rosas & Munhungo”, o novo livro do escritor João Tala, foi lançado na quarta-feira à noite, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, numa sessão de venda e autógrafos bastante concorrida pelos amantes da literatura angolana.
O livro de contos, apresentado pelo escritor e secretário para a área cultural da UEA, Abreu Paxe, tem 105 páginas e faz uma abordagem ao quotidiano das mulheres angolanas, em particular.
De acordo com o autor, este livro nasceu no contexto do pós-guerra (...) “Tento abordar um pouco a trajectória de vida que muitas mulheres tiveram de seguir, após a guerra (...)
Dentro daquilo que a sociedade vive em relação às mulheres, João Tala tentou encontrar uma determinada temática, cujas personagens principais são senhoras como Josefa Confissão, Amélia Tchiquete, Lukinda, Rebeca Nzoji, Regina, Ana Rita e Maria Wataka.
A intenção do escritor foi abordar em “Rosas & Munhungo” situações que acontecem no mundo, em determinados cenários e contextos. “O livro está recheado de elementos metafóricos através dos quais os leitores podem tirar as suas conclusões”. A sua maior preocupação foi atingir uma determinada estética com a escrita e por isso, como sublinhou, “levei aproximadamente um ano para terminar a obra”.
Abreu Paxe disse à imprensa, à margem da apresentação do livro, que tenta procurar o equilíbrio na forma como regula o estilo literário e não literário. “As técnicas de construção estética de João Tala são inusitadas e bem feitas. Vê-se que existe consciência do mesmo na construção do material artístico”. Explicou, o escritor foi buscar figuras que em quase todas as sociedades são desconsideradas, pelo facto de serem meretrizes, e consegue atribuir-lhes valor existencial.
Obs: fotografia de M. Machangongo
Obs2: o lançamento de Rosas & Munhungo é um excerto da notícia estampada no Jornal de Angola de 30/09/11
Fonte: http://blogtala.blogspot.com/
lançado aos 28/09/11
“Rosas & Munhungo”, o novo livro do escritor João Tala, foi lançado na quarta-feira à noite, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, numa sessão de venda e autógrafos bastante concorrida pelos amantes da literatura angolana.
O livro de contos, apresentado pelo escritor e secretário para a área cultural da UEA, Abreu Paxe, tem 105 páginas e faz uma abordagem ao quotidiano das mulheres angolanas, em particular.
De acordo com o autor, este livro nasceu no contexto do pós-guerra (...) “Tento abordar um pouco a trajectória de vida que muitas mulheres tiveram de seguir, após a guerra (...)
Dentro daquilo que a sociedade vive em relação às mulheres, João Tala tentou encontrar uma determinada temática, cujas personagens principais são senhoras como Josefa Confissão, Amélia Tchiquete, Lukinda, Rebeca Nzoji, Regina, Ana Rita e Maria Wataka.
A intenção do escritor foi abordar em “Rosas & Munhungo” situações que acontecem no mundo, em determinados cenários e contextos. “O livro está recheado de elementos metafóricos através dos quais os leitores podem tirar as suas conclusões”. A sua maior preocupação foi atingir uma determinada estética com a escrita e por isso, como sublinhou, “levei aproximadamente um ano para terminar a obra”.
Abreu Paxe disse à imprensa, à margem da apresentação do livro, que tenta procurar o equilíbrio na forma como regula o estilo literário e não literário. “As técnicas de construção estética de João Tala são inusitadas e bem feitas. Vê-se que existe consciência do mesmo na construção do material artístico”. Explicou, o escritor foi buscar figuras que em quase todas as sociedades são desconsideradas, pelo facto de serem meretrizes, e consegue atribuir-lhes valor existencial.
Obs: fotografia de M. Machangongo
Obs2: o lançamento de Rosas & Munhungo é um excerto da notícia estampada no Jornal de Angola de 30/09/11
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Dica de blog: poesia angolana
Um bom blog para quem quer conhecer a poesia angolana: Angola: os poetas. Com uma extensa recolha de nomes do passado e da contemporaneidade, encontram-se partícipes e seus poemas, tais como: Agostinho Neto, Arlindo Barbeitos, David Mestre, João Maimona, João Melo, João Tala, Manuel Rui, Ondjaki, Paula Tavares, Ruy Duarte de Carvalho, Viriato da Cruz, entre outros.
Boa consulta!
Ricardo Riso
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Ricardo Riso
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Viriato de Barros – Para lá de Alcatraz (resenha)
Viriato de Barros – Para lá de Alcatraz
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, n. 210, p. 27, de 08/09/2010.
Publicado em 2005 pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, “Para lá de Alcatraz – onde os ventos se cruzam” é a segunda obra literária de Viriato de Barros. Natural da Ilha Brava, licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa, ocupou diversos cargos na esfera governamental, conferencista e jornalista, dentre outras atividades. Em 2001, publicou o romance “Identidade”.
Nessa nova incursão pela prosa, durante doze capítulos Viriato de Barros apresenta por meio de um narrador onisciente a trajetória de vida do menino/homem David entrelaçada por experiências nas ilhas de Cabo Verde – Fogo, São Vicente e Santiago – e vivências na diáspora, mais precisamente Portugal e Moçambique. O tempo da narrativa passa-se no período colonial associado ao crescimento das tensões inevitáveis entre metrópoles e colônias do continente africano.
Nesse romance itinerante, chama-nos atenção questões de alteridade no relacionamento com o outro no qual a personagem David se depara ao longo de sua vida. Essas vivências acontecem desde a saída do menino da ilha do Fogo para os estudos liceais em São Vicente, com uma rápida passagem por Santiago. Em São Vicente, o menino depara-se com as variantes dialetais de ilha para ilha da língua materna cabo-verdiana expostas no diálogo a seguir: “- Câ bô dzê ‘fassi’?/ - Pamô?/ - Es tâ fazê troça d’bô. Li nô tâ dzê ‘depressa’./ - Ê quel mé! – insistiu David./ - Nton bá tâ dzê ‘fassi’. D’pôs bô t’oiá...” O menino também sente as diferenças entre as famílias de sua mãe, do Fogo, “mais rural, menos letrada”, e a do pai, de São Vicente, em que “a tia, que era professora, impunha aos sobrinhos que falassem português”, ou seja, “as duas famílias reflectiam a velha oposição entre a gente do campo e a gente da povoação da sua ilha natal, na maneira de estar e lidar com as situações”.
Durante a sua adolescência, a família de David parte para a então Lourenço Marques, Moçambique. Lá, a personagem sente com clareza e espanto a crueldade do racismo que os negros moçambicanos eram submetidos, pois “quando nunca se saiu de Cabo Verde, é difícil perceber o que é racismo. Fica-se com uma ideia vaga do que isso é. Não se imagina o seu efeito nos que são objecto desse tratamento, a violência com que se manifesta”. O narrador descreve várias maneiras como os colonizadores lidam com o racismo de forma escancarada, tais como o “cinema dos pretos”, punições extremas sem justo motivo, afinal, “matar um preto era com matar um bicho”, e o temor ao restringir o acesso dos negros à instrução para evitar que “conscientes da injustiça de toda a situação existente e sustentada nas colónias, os responsáveis da administração colonial receavam sempre a possibilidade, mais tarde ou mais cedo, de subversão do sistema”. Esse receio do colonizador, remete-nos às considerações de Albert Memmi acerca da violência do colonizador diante do colonizado, porque “é preciso explicar a distância que a colonização estabelece entre ele e o colonizado; ora, a fim de justificar-se, é levado a aumentar mais ainda essa distância, a opor irremediavelmente as duas figuras, a sua tão gloriosa, a do colonizado tão desprezível”.
A experiência em Moçambique insere em David a consciência da injustiça do colonialismo em África. Quando parte para a faculdade em Lisboa, a personagem vivencia com certa distância o clima subversivo que começa a dominar a Casa dos Estudantes do Império e a consequente perseguição da PIDE. O narrador demonstra a tensão crescente, o desemprego para os africanos, as discussões motivadas pelas leituras de pensadores de esquerda e a forma como a ditadura salazarista tentava driblar as pressões da comunidade internacional.
Ou seja, são as pequenas experiências de alteridade e do espírito de luta anticolonial descritas com cuidado pelo narrador que trazem interesse à leitura deste “Para lá de Alcatraz – onde os ventos se cruzam”, de Viriato de Barros.
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terça-feira, 13 de setembro de 2011
Poesia de Cabo Verde: Corsino Fortes e Filinto Elísio (USP)
POESIA DE CABO VERDE:
encontros na Universidade de São Paulo com
Corsino Fortes
e
Filinto Elísio
Data: dia 19 de Setembro
Pela manhã, na sala 201 de Letras, em dois horários alternativos: de 9 às 10h; e de 10:30 às 11:30 h.
À noite, na sala 261 de Letras, em dois horários alternativos: de 19:30 às 20:30h; e de 21 às 22 horas.
Apresentação dos poetas e coordenação da mesa pela Profa. Doutora Simone Caputo Gomes, de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.
Haverá livros à venda para os interessados.
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Maria Helena Sato - Caleidoscópio
Maria Helena Sato - Caleidoscópio
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 208, p. 24, de 25 de agosto de 2011.
Recriar a origem das ilhas de Cabo Verde a partir de referenciais universais distantes do colonizador português gerou ótimos momentos ao longo da história literária do arquipélago, desde os pré-claridosos como José Lopes e Pedro Cardoso com o mito hesperitano, passando pelo telurismo épico e heróico de Corsino Fortes e Timóteo Tio Tiofe, até as díspares experiências contemporâneas, tais como os poemas do caderno “Ó de Ceia das Ilhas” inserido em “Me_xendo no baú, vasculhando o u”, de Filinto Elísio, da estreia em poesia de Mário Lúcio Sousa e o seu “O Nascimento de um Mundo”, e o poema “Parábola do Castro Sofrimento” de NZé dy Sant’Y’Águ (heterônimo de José Luis Hopffer Almada).
A cabo-verdiana Maria Helena Sato prestou seu contributo às ilhas nos poemas de “Areias e Ramas” e inovou ao apresentar sua peculiar genealogia para as ilhas nos dez contos de “Caleidoscópio” (Juiz de Fora: Mosteiro de São Bento, 2009). Neste, Sato, descompromissada de rigor histórico, rememorou com extrema habilidade narrativa as histórias contadas por sua avó acerca das origens das ilhas e passou para a escrita esse conhecimento oral acrescidas de suas referências literárias, o que tornou os textos híbridos entre o ficcional e os mitos universais e do ilhéu.
Assim sendo, os contos dedicados às Ilhas de São Nicolau e Santiago exemplificam essa associação proposta pela autora ao narrar como os nomes dos santos nomearam as ilhas. Na primeira, a ilha servia de entreposto para Papai Noel distribuir seus presentes até ser descoberto que seu nome era Nicolau, enquanto para Santiago narra-se que a ilha seria um possível lugar para os reis magos esconderem o nascimento de Jesus Cristo de seus perseguidores, sendo Tiago o responsável para os preparativos do local.
O ficcional se dá na bela metáfora da persistência, perseverança e coragem do ilhéu para vencer as adversidades e os parcos recursos originam o nome da Ilha Brava, assim como a singela e inusitada origem para a Ilha de Santa Luzia.
O resgate de tradições surge para a Ilha do Sal, já que o processo de salgar o peixe e assim conservá-lo é retomado para evitar desperdício em tempos de pesca farta.
A revisitação do passado escravocrata da Ilha do Fogo é retomado a partir de uma revolta em 1680, tendo a morte de seu líder, os seus olhos vermelhos e o seu sangue em analogia às lavas do vulcão mostram a origem de como a ilha passou a ter esse nome.
Para Santo Antão, o criativo conto apresenta o imaginário encontro do pirata Tom Bans e Bashô, o mestre do hai cai, para demonstrar o acolhimento da ilha com os imigrantes, para além da convivência pacífica e respeito mútuo ter auxiliado o oriental Bashô “que ficara mais claro enxergar o sentido da vida no caminho entre os dois vales”. Salienta-se ainda o didatismo a respeito do hai cai e a bela homenagem ao poeta António Januário Leite, natural da ilha. Aliás, homenagens aos escritores repetem-se nos contos à Ilha de São Nicolau (a Baltasar Lopes da Silva) e São Vicente (Sérgio Frusoni).
O cosmopolitismo da Ilha de São Vicente aparece na excêntrica tripulação de um navio formada por ícones de diversas artes, desde personagens literários (Hercules Poirot) e seus criadores (Agatha Christie), poetas (Camões), mágicos (David Copperfield) e artistas (Leonardo da Vinci), assim como o hibridismo do falar local que incorporou estrangeirismos do inglês e do francês, e palavras do português medieval, para além da apropriação da carta para narrar esse conto.
Sem deixar de mencionar temas comuns a todas as ilhas, tais como a escassez das chuvas, a emigração forçada, a origem escravocrata dos negros, a pesca e os dramas do pescador, esses foram alguns exemplos de como Maria Helena Sato em seu caleidoscópio narrativo aliou oralidade e escrita, tradições locais e referências universais para na 11ª ilha manter a sua caboverdianidade plena associado a esse sujeito contemporâneo deslocado e completamente incorporada como cidadã do mundo.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011
Mia Couto - E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? - E outras interinvenções
Mia Couto
Editora Companhia das Letras
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13116
E se Obama fosse africano? reúne o que Mia Couto chama de "interinvenções", neologismo que expressa bem o sentido destes artigos, quase todos transcrições de palestras proferidas pelo autor em eventos na África, na Europa e no Brasil.
Neles, o autor aborda de modo corajoso e criativo os principais impasses da África contemporânea. Temas como a corrupção, o autoritarismo, a ignorância, os ódios raciais e religiosos, mas também a riqueza da tradição oral e das culturas locais, o vigor artístico, as relações complexas entre o português e as línguas nativas, a influência de Jorge Amado e Guimarães Rosa sobre a literatura luso-africana, tudo isso é tratado com rigor intelectual, imaginação poética e humor por um dos maiores escritores de nossa época.
Longe do discurso árido dos acadêmicos e da retórica demagógica dos políticos, o autor, que é também biólogo, passeia pelos assuntos com habilidade de ficcionista, entremeando os dados objetivos de sua análise a lembranças pessoais e referências literárias, numa prosa calorosa e envolvente. Nesses exercícios de militância intelectual, o autor mostra que a inteligência crítica e a fantasia poética são fortes aliadas para a compreensão e a transformação do mundo.
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segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Paula Tavares - Amargos como os frutos (poesia reunida)
(poesia reunida)
de Paula Tavares
Durante os tempos das lutas pela libertação de Angola, uma significativa parcela dos poemas produzidos transformou-se em arma ideológica de combate ao colonialismo. A partir da independência, ao lado da literatura de exaltação nacional, marcada pelo discurso panfletário e anticolonialista, começaram a surgir novas vertentes poéticas que, sem negar a importância de um compromisso com as realidades nacionais, buscam em si outros ingredientes.
Paula Tavares é uma dessas escritoras que cedem sua vozpara expressar, com rebeldia e ternura, o clamor amargo das mulheres encarceradas em seu próprio silêncio. Além dos efeitos das muitas décadas de guerras em Angola, as mulheres sofreram também no próprio corpo a opressão do machismo, natural depois de tanto tempo enraizado na cultura local.
A antologia poética Amargos como os frutos é a representação da voz feminina africana na sua individualidade, na sua feminilidade, na sua corporalidade. Palavras essenciais, intimistas e plurais, locais e universais, numa linguagem que registra e mistura crueldades e delicadezas.
Paula Tavares é uma das poetisas contemporânea do período pós-independência angolana (11 de Novembro de 1975). Foi membro do júri do Prêmio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985. É também membro de diversas organizações culturais, como o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Museus (ICOM) e o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), da Comissão Angolana para a UNESCO. Tanto a prosa quanto a poesia de Paula Tavares estão presentes em várias antologias em Portugal, no Brasil, na França, na Alemanha, na Espanha e na Suécia.
Pallas Editora
Páginas: 288
ISBN: 978-85-347-0466-3
Idioma: Português
Formato: 14,0x21,0cm
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Amargos_como_os_frutos/218/13/
____________ x ____________
Finalmente a poesia reunida de um incontornável nome da poesia angolana, preenchendo uma injustificável desatenção do mercado editorial brasileiro. Parabéns à ousadia da Pallas! Ousadia que poderia ser ampliada a outros nomes africanos e exemplo que deveria ser seguido por outras editoras.
Ricardo Riso
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domingo, 21 de agosto de 2011
Amosse Mucavele - Cartografia do ecoar e do miar do couto...
CARTOGRAFIA DO ECOAR E DO MIAR DO COUTO OU COMO VIAJAR COM AS 24 (C)OBRAS DO MIA COUTO
de Amosse Mucavele (jovem escritor moçambicano)
Sobre a nossa a Terra disse que ela é Sonâmbula:com muita razão,sabem porquê?
-Porque ela não dorme fica dias e noites de mãos estendidas ao exterior a pedir esmola.
Amigos, num país visto como pobre os dirigentes são tão ricos!,trocam de carros de luxo e gozam de mordómias , mas não tem nem se quer um livro na cabeça.(preocupante não é)
Por isso que digo as nossas elites são incultas (vendem a nossa terra a 30 dinheiros)
Além de tudo que acima croniquei, vejam só o profeta deu-lhes a porção, dada a incompetência deles fizeram tudo ao contrário, deram os venenos ao Deus e os remédios ao Diabo, nestes últimamentes nós o povo, encontramo-nos na berma de nenhuma estrada, sabem, sem onde guardar as nossas súplicas,sem onde pedir clemências, pois o Senhor Deus exilou-se na terra onde reside o Homem que lhe salvou da morte (por envenenamento perpetrado pela nossas elites) dando-lhe antídoto.
Quem me dera là estar com eles debaixo daquela Varanda do Frangipani, a ouvir os Contos do Nascer da Terra.
Do que estar nestas Cidades dos partidos políticos com idades séculares no Governo, e onde os seus dirigentes consideram-se Divindades.
Eu cansei de viver neste País do Queixa Andar,vou-me embora,com um fio amarrado no pescoço(sei que Missangas não me faltarão),pelo caminho irei folhear as páginas desta Casa Chamada Terra e irei remar contra maré deste Rio Chamado Tempo.
Chegado a Uma Terra Sem Amós,constanto que algo mudou,a aldeia cresceu,ja são Vinte as Casas de madeira e Zinco.mas ainda continuamos no Escuro e o Gato Abensonhado pressagia as Estórias do velho.
Alguém disse o velho esta a morrer,o Gato não parava de tocar o Rítmo do presságio:
Retorquiu de novo-a biblioteca esta a arder.
-E eu nos meus Pensatempos confusos,surgiu-me a seguinte a pergunta? como hei-de o ajudar?
-Pensei na Princêsa Russa, cortei a ídeia porque a neve não pode extinguir as chamas,continuei neste pensaraltivo, afinei os meus Silêncios,dentro de mim uma voz uivava “Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte¹.”pego no machado,pelo caminho vou Traduzindo esta Chuva que molha os ramos da minha alegria,de nada vale continuar aqui,mas ,antes partír deixem-me descolar a Raiz do Orvalho.
Alguém disse-Ah,de nada resultará.de repente as Vozes Anoiteceram,era o ínicio da Chuva Pasmada.
E agora vou me embora mesmo “a procura da outra Pátria esta não me pertence²”,pois O Mar Me Quer,é no mar onde vou pescar o meu sonho de se tornar noutro Pé da Sereia,caso não consiga concretizar este meu sonho,procurarei outra maneira de partír,assím sendo tornar-me-ei no Pensageiro Frequente deste Último Voo do Flamengo que me levarà até a Jesusalém.
Glossário
¹-Mia Couto in A Varanda do Fragipani
²-Celso Manguana in Pàtria Que Pariu
3-todas palavras a negrito fazem parte do acervo bibliogràfico do autor acima referido-Princêsa Russa conto que faz parte do livro Cada Homem é Uma Raça.e outros livros
-No meu País tem um provérbio que diz-um velho que morre é uma biblioteca que arde.
-O gato e o escuro,Cronicando
-Estórias abensonhadas
-O fio das Missangas,....e outros ficam sob alçada do leitor,beijooooos
Fonte: texto gentilmente enviado pelo autor em 12/08/2011.
de Amosse Mucavele (jovem escritor moçambicano)
Sobre a nossa a Terra disse que ela é Sonâmbula:com muita razão,sabem porquê?
-Porque ela não dorme fica dias e noites de mãos estendidas ao exterior a pedir esmola.
Amigos, num país visto como pobre os dirigentes são tão ricos!,trocam de carros de luxo e gozam de mordómias , mas não tem nem se quer um livro na cabeça.(preocupante não é)
Por isso que digo as nossas elites são incultas (vendem a nossa terra a 30 dinheiros)
Além de tudo que acima croniquei, vejam só o profeta deu-lhes a porção, dada a incompetência deles fizeram tudo ao contrário, deram os venenos ao Deus e os remédios ao Diabo, nestes últimamentes nós o povo, encontramo-nos na berma de nenhuma estrada, sabem, sem onde guardar as nossas súplicas,sem onde pedir clemências, pois o Senhor Deus exilou-se na terra onde reside o Homem que lhe salvou da morte (por envenenamento perpetrado pela nossas elites) dando-lhe antídoto.
Quem me dera là estar com eles debaixo daquela Varanda do Frangipani, a ouvir os Contos do Nascer da Terra.
Do que estar nestas Cidades dos partidos políticos com idades séculares no Governo, e onde os seus dirigentes consideram-se Divindades.
Eu cansei de viver neste País do Queixa Andar,vou-me embora,com um fio amarrado no pescoço(sei que Missangas não me faltarão),pelo caminho irei folhear as páginas desta Casa Chamada Terra e irei remar contra maré deste Rio Chamado Tempo.
Chegado a Uma Terra Sem Amós,constanto que algo mudou,a aldeia cresceu,ja são Vinte as Casas de madeira e Zinco.mas ainda continuamos no Escuro e o Gato Abensonhado pressagia as Estórias do velho.
Alguém disse o velho esta a morrer,o Gato não parava de tocar o Rítmo do presságio:
Retorquiu de novo-a biblioteca esta a arder.
-E eu nos meus Pensatempos confusos,surgiu-me a seguinte a pergunta? como hei-de o ajudar?
-Pensei na Princêsa Russa, cortei a ídeia porque a neve não pode extinguir as chamas,continuei neste pensaraltivo, afinei os meus Silêncios,dentro de mim uma voz uivava “Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte¹.”pego no machado,pelo caminho vou Traduzindo esta Chuva que molha os ramos da minha alegria,de nada vale continuar aqui,mas ,antes partír deixem-me descolar a Raiz do Orvalho.
Alguém disse-Ah,de nada resultará.de repente as Vozes Anoiteceram,era o ínicio da Chuva Pasmada.
E agora vou me embora mesmo “a procura da outra Pátria esta não me pertence²”,pois O Mar Me Quer,é no mar onde vou pescar o meu sonho de se tornar noutro Pé da Sereia,caso não consiga concretizar este meu sonho,procurarei outra maneira de partír,assím sendo tornar-me-ei no Pensageiro Frequente deste Último Voo do Flamengo que me levarà até a Jesusalém.
Glossário
¹-Mia Couto in A Varanda do Fragipani
²-Celso Manguana in Pàtria Que Pariu
3-todas palavras a negrito fazem parte do acervo bibliogràfico do autor acima referido-Princêsa Russa conto que faz parte do livro Cada Homem é Uma Raça.e outros livros
-No meu País tem um provérbio que diz-um velho que morre é uma biblioteca que arde.
-O gato e o escuro,Cronicando
-Estórias abensonhadas
-O fio das Missangas,....e outros ficam sob alçada do leitor,beijooooos
Fonte: texto gentilmente enviado pelo autor em 12/08/2011.
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Pepetela e Ondjaki na UFRJ - 05/09/2011
clique na imagem para ampliá-la
E-mail gentilmente enviado pela Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco em 21/08/2011.
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Curso de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (FUNCEFET)
Cursos de Pós-graduação/MBA
Curso de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (FUNCEFET)
Objetivo:
O Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa tem como objetivo aperfeiçoar, atualizar e especializar profissionais da área de Licenciaturas em Letras, Pedagogia, História e Geografia em metodologias e teorias culturais e, igualmente, suscitar vocação de pesquisa.
Programa:
I – IMAGINÁRIOS CULTURAIS E LITERATURA - 40 h
1. Gênero, Etnia, Identidade e Diferença;
2. A revisão crítica do comparatismo, seu sentido e função na contemporaneidade;
3. Abordagem contrastiva de textos literários de língua portuguesa, de diferentes épocas, e contextos em diálogo;
4. Contribuição de recentes tendências teórico-críticas, especialmente as da desconstrução e as da “Nova História”.
II - ESTUDOS CULTURAIS E PÓS-COLONIAIS – 30 h
1. Estudo da produção cultural e indagações sobre as relações de dependência, conflito e apropriação de padrões culturais entre comunidades étnicas, regionais, nacionais ou trans-nacionais;
2. Reflexão sobre os conceitos de nação, identidades e cultura;
3. Indagações sobre os cânones literários: construções alternativas e paradoxos do multiculturalismo e da globalização;
III – O IMPRERIALISMO EUROPEU, PORTUGAL E A EXPLORAÇÃO DAS COSTAS AFRICANA E BRASILEIRA – 50h
1. Imperialismo e Orientalismo;
2. Abordagem comparada de estratégias expansionistas;
3. Reinos Africanos, Oralidade e Desterritorialização;
4. Nações indígenas e a utopia do paraíso ultrajado;
5. O exotismo.
IV – LITERATURA COMPARADA – 90h
1. Literatura geral e literatura comparada;
2. Tensões entre o local e o universal, entre unidade e diversidade.
3. Leituras sincrônicas: intertextualidade e supranacionalidade;
4. Gêneros, temas, relações literárias e periodização vista em perspectiva comparatista;
5. A intertextualidade como inter-historicidade. Intertextualidade e interdisciplinaridade;
6. O imaginário, o ilusório, o ficcional, a verdade;
7. Ficção e linguagem. Ficção e real. Ficção e teoria.
8. As manifestações artísticas em diferentes Poéticas como ambigüidade tensional de identidade e diferença na manifestação e construção da realidade e do homem;
9. Teorias disruptivas: paródia e práticas transformadoras. Leituras diacrônicas e o talento poético individual: função, norma e valor literários;
V- FUNDAÇÃO DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA – 40h
1. Autor africano e contexto colonial; Textos Africanos e Escrita.
2. A poesia nos contextos angolano, cabo-verdiano e são-tomense;
3. Diálogos intertextuais entre África e Brasil;
4. A imprensa contestatória nos contextos angolano e moçambicano.
VI - LITERATURA E CONSCIÊNCIA NACIONAL – 60h
1. As influências do "afro-americanismo" e da "negritude" e a evolução das literaturas africanas de língua portuguesa;
2. Afirmação de identidade cultural, mestiçagem e projeto de emancipação política;
3. Características essenciais da estética literária africana: o uso da Língua Portuguesa e o hibridismo;
4. Especificidades de cada uma das 5 literaturas;
5. O fenômeno literário antes e depois das Independências: problemáticas abordadas, tons, gêneros discursivos, destinatários;
6. Os temas do "contratado" e da "guerra" nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa;
VII – MEMÓRIA E DISCUSSÃO DA CONDIÇÃO PÓS-COLONIAL – 20h
1. Literaturas Africanas na Atualidade: autoria, autoridade, tópicos, gêneros;
2. Literatura e crise das utopias;
VIII – METODOLOGIA DA PESQUISA – 30h
1. Introdução à pesquisa, Métodos de estudo: fichamento, resenha, organização do trabalho científico;
2. Trabalhos científicos: roteiro de pesquisa, projeto de pesquisa;
3. TCC (trabalho de conclusão de curso);
Coordenação Acadêmica:
Profª Norma Lima
Doutora em Literatura Comparada - UFF
Professora dos Ensinos Médio e Superior
Fundamentação Legal e Certificação:
MEC - Res.nº 1 de 8 de Junho de 2007
Serão concedidos certificados de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização ou MBA pela Universidade Católica de Petrópolis, dos cursos ministrados em convênio com o Instituto de Pesquisa Educação e Tecnologia e acordo de cooperação Técnica com a FUNCEFET, aos alunos que obtiverem aproveitamento mínimo requerido (nota 7), freqüência mínima de 75% (setenta e cinco por cento) em todas as disciplinas e tiverem seu trabalho final de curso aprovado.
Local do Curso:
Rio de Janeiro - RJ
Rua Buenos Aires, nº 90 – 02º e 03º andar – Centro.
Carga Horária:
360 h/a
Duração do curso:
Aulas Quinzenais: 19 meses
Periodicidade e Horários:
Terça e quintas-feiras de 08:00h às 12:00h
Terça e quintas-feiras de 18:15h às 22:00h
Sábados de 08:30h às 17:30h
Melhores informações clicar aqui.
Curso de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (FUNCEFET)
Objetivo:
O Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa tem como objetivo aperfeiçoar, atualizar e especializar profissionais da área de Licenciaturas em Letras, Pedagogia, História e Geografia em metodologias e teorias culturais e, igualmente, suscitar vocação de pesquisa.
Programa:
I – IMAGINÁRIOS CULTURAIS E LITERATURA - 40 h
1. Gênero, Etnia, Identidade e Diferença;
2. A revisão crítica do comparatismo, seu sentido e função na contemporaneidade;
3. Abordagem contrastiva de textos literários de língua portuguesa, de diferentes épocas, e contextos em diálogo;
4. Contribuição de recentes tendências teórico-críticas, especialmente as da desconstrução e as da “Nova História”.
II - ESTUDOS CULTURAIS E PÓS-COLONIAIS – 30 h
1. Estudo da produção cultural e indagações sobre as relações de dependência, conflito e apropriação de padrões culturais entre comunidades étnicas, regionais, nacionais ou trans-nacionais;
2. Reflexão sobre os conceitos de nação, identidades e cultura;
3. Indagações sobre os cânones literários: construções alternativas e paradoxos do multiculturalismo e da globalização;
III – O IMPRERIALISMO EUROPEU, PORTUGAL E A EXPLORAÇÃO DAS COSTAS AFRICANA E BRASILEIRA – 50h
1. Imperialismo e Orientalismo;
2. Abordagem comparada de estratégias expansionistas;
3. Reinos Africanos, Oralidade e Desterritorialização;
4. Nações indígenas e a utopia do paraíso ultrajado;
5. O exotismo.
IV – LITERATURA COMPARADA – 90h
1. Literatura geral e literatura comparada;
2. Tensões entre o local e o universal, entre unidade e diversidade.
3. Leituras sincrônicas: intertextualidade e supranacionalidade;
4. Gêneros, temas, relações literárias e periodização vista em perspectiva comparatista;
5. A intertextualidade como inter-historicidade. Intertextualidade e interdisciplinaridade;
6. O imaginário, o ilusório, o ficcional, a verdade;
7. Ficção e linguagem. Ficção e real. Ficção e teoria.
8. As manifestações artísticas em diferentes Poéticas como ambigüidade tensional de identidade e diferença na manifestação e construção da realidade e do homem;
9. Teorias disruptivas: paródia e práticas transformadoras. Leituras diacrônicas e o talento poético individual: função, norma e valor literários;
V- FUNDAÇÃO DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA – 40h
1. Autor africano e contexto colonial; Textos Africanos e Escrita.
2. A poesia nos contextos angolano, cabo-verdiano e são-tomense;
3. Diálogos intertextuais entre África e Brasil;
4. A imprensa contestatória nos contextos angolano e moçambicano.
VI - LITERATURA E CONSCIÊNCIA NACIONAL – 60h
1. As influências do "afro-americanismo" e da "negritude" e a evolução das literaturas africanas de língua portuguesa;
2. Afirmação de identidade cultural, mestiçagem e projeto de emancipação política;
3. Características essenciais da estética literária africana: o uso da Língua Portuguesa e o hibridismo;
4. Especificidades de cada uma das 5 literaturas;
5. O fenômeno literário antes e depois das Independências: problemáticas abordadas, tons, gêneros discursivos, destinatários;
6. Os temas do "contratado" e da "guerra" nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa;
VII – MEMÓRIA E DISCUSSÃO DA CONDIÇÃO PÓS-COLONIAL – 20h
1. Literaturas Africanas na Atualidade: autoria, autoridade, tópicos, gêneros;
2. Literatura e crise das utopias;
VIII – METODOLOGIA DA PESQUISA – 30h
1. Introdução à pesquisa, Métodos de estudo: fichamento, resenha, organização do trabalho científico;
2. Trabalhos científicos: roteiro de pesquisa, projeto de pesquisa;
3. TCC (trabalho de conclusão de curso);
Coordenação Acadêmica:
Profª Norma Lima
Doutora em Literatura Comparada - UFF
Professora dos Ensinos Médio e Superior
Fundamentação Legal e Certificação:
MEC - Res.nº 1 de 8 de Junho de 2007
Serão concedidos certificados de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização ou MBA pela Universidade Católica de Petrópolis, dos cursos ministrados em convênio com o Instituto de Pesquisa Educação e Tecnologia e acordo de cooperação Técnica com a FUNCEFET, aos alunos que obtiverem aproveitamento mínimo requerido (nota 7), freqüência mínima de 75% (setenta e cinco por cento) em todas as disciplinas e tiverem seu trabalho final de curso aprovado.
Local do Curso:
Rio de Janeiro - RJ
Rua Buenos Aires, nº 90 – 02º e 03º andar – Centro.
Carga Horária:
360 h/a
Duração do curso:
Aulas Quinzenais: 19 meses
Periodicidade e Horários:
Terça e quintas-feiras de 08:00h às 12:00h
Terça e quintas-feiras de 18:15h às 22:00h
Sábados de 08:30h às 17:30h
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quinta-feira, 11 de agosto de 2011
José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade” (resenha)
José Luís Hopffer C. Almada – “Uma criatura da saudade”
Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário A Nação, nº 206, p. 20, de 11/08/2011.
A obra de José Luis Hopffer Almada solidifica-se na poesia cabo-verdiana contemporânea em razão da complexidade com que trata temas consagrados no sistema literário do seu país, tais como a evasão e a emigração, assim como de um minucioso labor de lapidação da palavra demonstrado na incessante recriação de seus poemas, para além da louvável atuação na crítica literária, no ensaio e na promoção da cultura de Cabo Verde.
Escolhemos o poema “Na morte de Baltasar Lopes da Silva (que também é o poeta Osvaldo Alcântara)” (na versão publicada recentemente em “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, organizada por Ricardo Riso e que refunde a versão inicialmente publicada na revista “Fragmentos”), para abordarmos a identidade cabo-verdiana, expondo um sujeito deslocado e fragmentado que refaz seus poemas na diáspora, de cabo-verdiano das dez ilhas e da terra-longe, revisitando as origens de sua cultura e as replanejando na contemporaneidade. Segundo Stuart Hall, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas”. Nesse sentido, temas caros à literatura anunciam-se: “evadiram-se os meus companheiros para a Pasárgada, desterraram-se para as hespérides ou degredaram-se para a terra-longe?” Deslocamento apresentado na rica heteronímia, na transumância de seu heterônimo mais vinculado à mãe-terra, de Zé di Sant’Y’Águ para NZé di Sant’Y’Águ, este telúrico e lusógrafo que tanto pode estar nas ilhas quanto na diáspora, enquanto aquele ficou restrito aos poemas em língua materna.
Nesse poema atribuído nesta versão muitíssimo abreviada a NZé di Sant’Y’Águ os macrotemas da evasão e da emigração são trabalhados em uma ampla tessitura de saudade bipartida. Talvez por isso a homenagem ao claridoso Osvaldo Alcântara, o maior responsável pelo pasargadismo na literatura cabo-verdiana. Pasargadismo que foi evasionista e também gerou a sua recusa, o antievasionismo, questões revisitadas no poema: “Sinto saudades do norte desconhecido onde trilham os passos dos meus amigos ausentes. Sinto saudades do ignoto san francisco do norte. Sou saudosista. Sou evasionista.// Os meus companheiros, meus conterrâneos da mãi-terra, meus contemporâneos da pasárgada, sentem saudades do san francisco de cá, do nosso sul. São saudosistas. São anti-evasionistas”.
Nessa condição sofrida impõe-se o sentimento de saudade sob “à sombra da acácia”. O sujeito lírico projeta uma experiência cosmopolita e parte para a 11ª ilha: “Não dura muito escapar-me-ei para o norte (...). Integrar-me-ei no exôdo dos rostos. Negu. A transumância dos corpos. (...) E só então serei terra-longista”. Assim, confirma sua raiz afro-crioula e sente as agruras de emigrante: “Gueto. Trabalho e gueto. Crioulo e gueto. Cachupa e gueto. Lágrima e gueto. Navalha e gueto. Getu de rosto descoberto. Da descoberta da face escura”, e relembra a trágica experiência dos povos africanos durante a colonização da ilha de Santiago: “Dos filhos da diáspora nasceu a ilha. O tráfico dos corpos. A deportação da alma. (...) Com a audácia dos navegadores. Com a calculista frieza dos negreiros. (...) O atlântico odor de sangue. O choro em ancestral exílio. Da porta sem retorno de gore à pia baptismal da cidade velha”. Dessa maneira, a “reconstrução do meu olhar na vasta diáspora” apresenta um sujeito conotado ao seu tempo, e segundo Edward Said, capaz de “representar o sofrimento coletivo do seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória”, pois a “tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação”.
E é assim, para um povo que navega pelas sete partidas do mundo, que José Luis Hopffer Almada reconfigura esse sentimento dilacerante comum ao cabo-verdiano nas ilhas ou na diáspora, a saudade, e presta seu contributo de escritor-intelectual exposto, segundo Said, “ao risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção”.
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