Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Nelson Inocêncio lança livro na Kitabu/RJ


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mia Couto - E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? - E outras interinvenções



E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? - E outras interinvenções

Mia Couto

Editora Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13116

E se Obama fosse africano? reúne o que Mia Couto chama de "interinvenções", neologismo que expressa bem o sentido destes artigos, quase todos transcrições de palestras proferidas pelo autor em eventos na África, na Europa e no Brasil.

Neles, o autor aborda de modo corajoso e criativo os principais impasses da África contemporânea. Temas como a corrupção, o autoritarismo, a ignorância, os ódios raciais e religiosos, mas também a riqueza da tradição oral e das culturas locais, o vigor artístico, as relações complexas entre o português e as línguas nativas, a influência de Jorge Amado e Guimarães Rosa sobre a literatura luso-africana, tudo isso é tratado com rigor intelectual, imaginação poética e humor por um dos maiores escritores de nossa época.

Longe do discurso árido dos acadêmicos e da retórica demagógica dos políticos, o autor, que é também biólogo, passeia pelos assuntos com habilidade de ficcionista, entremeando os dados objetivos de sua análise a lembranças pessoais e referências literárias, numa prosa calorosa e envolvente. Nesses exercícios de militância intelectual, o autor mostra que a inteligência crítica e a fantasia poética são fortes aliadas para a compreensão e a transformação do mundo.

Ondjaki - Há prendisajens com o xão (livro)




de Ondjaki



do chão promovido a almofada, do nosso limite a ele, do nosso encontro sob ele em algum tempo desconhecido, ondjaki nos transporta para um diálogo com o tempo, com a palavra, com a liberdade da escrita, com a imaginação de seres misteriosos. descrições de uma natureza em brisa de jangada e zunzum de abelha. e há também o encontro do sentimento com os seres que somos. os lugares e as descoisas.mais conhecido como prosador aqui no Brasil, dessa vez o autor nos oferece sua escrita em poesia construindo (ou desconstruindo) com muita intimidade cada palavra, cada verso, à sombra das árvores, pela alma das gaivotas, perto de um cardume de tardes. ou do chão


Pallas Editora
Páginas: 72
ISBN: 978-85-347-0464-9
Idioma: Português
Formato: 13,0x18,0cm

http://www.pallaseditora.com.br/produto/Ha_prendisajens_com_o_xao/216/13/

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Paula Tavares - Amargos como os frutos (poesia reunida)

(poesia reunida)
de Paula Tavares


Durante os tempos das lutas pela libertação de Angola, uma significativa parcela dos poemas produzidos transformou-se em arma ideológica de combate ao colonialismo. A partir da independência, ao lado da literatura de exaltação nacional, marcada pelo discurso panfletário e anticolonialista, começaram a surgir novas vertentes poéticas que, sem negar a importância de um compromisso com as realidades nacionais, buscam em si outros ingredientes.

Paula Tavares é uma dessas escritoras que cedem sua vozpara expressar, com rebeldia e ternura, o clamor amargo das mulheres encarceradas em seu próprio silêncio. Além dos efeitos das muitas décadas de guerras em Angola, as mulheres sofreram também no próprio corpo a opressão do machismo, natural depois de tanto tempo enraizado na cultura local.

A antologia poética Amargos como os frutos é a representação da voz feminina africana na sua individualidade, na sua feminilidade, na sua corporalidade. Palavras essenciais, intimistas e plurais, locais e universais, numa linguagem que registra e mistura crueldades e delicadezas.

Paula Tavares é uma das poetisas contemporânea do período pós-independência angolana (11 de Novembro de 1975). Foi membro do júri do Prêmio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985. É também membro de diversas organizações culturais, como o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Museus (ICOM) e o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), da Comissão Angolana para a UNESCO. Tanto a prosa quanto a poesia de Paula Tavares estão presentes em várias antologias em Portugal, no Brasil, na França, na Alemanha, na Espanha e na Suécia.


Pallas Editora
Páginas: 288
ISBN: 978-85-347-0466-3
Idioma: Português
Formato: 14,0x21,0cm

http://www.pallaseditora.com.br/produto/Amargos_como_os_frutos/218/13/

____________ x ____________


Finalmente a poesia reunida de um incontornável nome da poesia angolana, preenchendo uma injustificável desatenção do mercado editorial brasileiro. Parabéns à ousadia da Pallas! Ousadia que poderia ser ampliada a outros nomes africanos e exemplo que deveria ser seguido por outras editoras.



Ricardo Riso

sábado, 30 de julho de 2011

Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea, Ricardo Riso (Org)


Prezado(a),

Informo que Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea, organizada por Ricardo Riso, já se encontra disponível para acesso e download no sítio da revista acadêmica África e Africanidades (ISSN 1983-2354), edição nº 13, ano IV. Em 146 páginas, reúne 76 poemas de 13 poetas: António de Névada, Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Filinto Elísio, José Luis Hopffer C. Almada, Margaridas Fontes, Maria Helena Sato, Mario Lucio Sousa, Oswaldo Osório, Paula Vasconcelos, Vasco Martins e Vera Duarte. A antologia conta com ilustrações dos artistas plásticos Abraão Vicente e Mito Elias.

“A presente antologia pretende contribuir para a melhor divulgação da poesia contemporânea de Cabo Verde, ainda de tímida exposição no Brasil. (...) deseja dar a conhecer, ainda que de forma breve, alguns desses poetas, artífices da linguagem, e assim estimular um olhar mais atento do público brasileiro para a recente produção poética cabo-verdiana.”

Na edição 14 (agosto/2011), será publicada Moçambique Hoje: antologia da novíssima poesia moçambicana, também organizada por Ricardo Riso, com a participação de Alex Dau, Andes Chivangue, Armando Artur, Chagas Levene, Domi Chirongo, Manecas Cândido, Mbate Pedro, Rinkel, Rogério Manjate, Sangare Okapi, Tânia Tomé. Ilustrações de João Paulo Quehá.

Peço ajuda para divulgação.

Grande abraço,
Ricardo Riso

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Maria Helena Sato - Areias e Ramas (resenha)


Maria Helena Sato – Areias e Ramas
Por Ricardo Riso
Resenha publicada no semanário cabo-verdiano A Nação, nº 202, de 14/07/2011, p. 27

Há alguns anos que a cabo-verdiana Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, e possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês). Sato já tem uma obra extensa, com nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2006 lançou “Areias e Ramas” pela Edições Subiaco da cidade mineira de Juiz de Fora. Em suas 130 páginas espalham-se 94 poemas mais apresentação da poetisa, e o texto de contracapa ficou a cargo do também cabo-verdiano e radicado no Brasil, Luís Romano, autor de “Famintos”, que sobre o livro afirma: “pela raridade temática e alcance espontâneo, resultou eclética poesia, viva até alcançar tecedura de singular contexto lírico, sem sacrifício da harmonia em si”.

Acompanhando os apontamentos de Romano, percebemos em Maria Helena Sato uma poiesis madura, de amplo domínio da versificação livre, da brevidade dos versos, das formas curtas como o haicai e as quadras, assim como do soneto clássico e da poesia em prosa. Diversidade a serviço da recriação de temáticas consagradas na literatura cabo-verdiana, por uma pena diaspórica que a partir da distância, da sua insularidade, recorre à memória das ilhas para transformá-la em poesia: “Dez lágrimas,/ únicas,/ transbordam./ As demais/ cabem nos mapas”.

Poesia que apresenta a cartografia de Sato, cartografia de memória, por vezes dorida, como em “Seca”: “Silêncio virou,/ descanso – ou descaso?/ Sem você, sorriso, escasso...”; por vezes afetiva, de memória familiar: “De repente a lua/ plena/ não estava mais/ e Joãozinho/ gritou:/ ‘A bola?/ Quem a chutou?’/ Mas logo/ a escura nuvem/ passou!/ Após cada nuvem,/ sempre procuro/ você”.

Cartografia que também é literária, ainda afetiva, na relação com o claridoso Jorge Barbosa no poema dedicado a ele: “Atencioso olhar que me cumprimentava, ele passava por mim e eu sabia o nome daquele homem grande de estatura. Desconhecia, porém, a dimensão maior que carregava. Assim eram nossos encontros, enquanto eu brincava na rua, jogando ringue ou andando de bicicleta – e Jorge Barbosa passava”. Cartografia que recria a partir dos referenciais para sua poesia, como no “Passeio de Anílbal Lopes da Silva com Drummond e Bandeira”: “Longa estrada,/ vida boa,/ Porto Novo/ a Santa Bárbara.../ Muito pó/ muito pó/ muito pó.../ Oh Belarmino/ essa buzina/ olha o caminho/ é uma pedra?/ (...) Estrada/ longa,/ é muito sol,/ é muito sal,/ é muito pó,/ pego atalho,/ um dia só,/ tenho entrada/ garantida,/ vou ver o rei,/ pego atalho/ já estou perto/ de Pasárgada,/ até amanhã/ até amanhã/ até amanhã...” Cartografia a relacionar suas preferências estético-formais a Cabo Verde, como em Haicai: “Certamente, o poeta Bashô encontraria no arquipélago de Cabo Verde motivos para inspiração. Afinal, tudo quanto ele escreveu brotou de outro arquipélago, o Japão.

Cartografia do espaço da memória afetiva em “Mágico no Éden-Park”: “Cartola, gaiola,/ pombo, coelho, gaivota.../ E alguém ainda dirá/ que ninguém vive/ de ilusão!” Cartografia a celebrar o espaço das ilhas, como em “São Vicente”: “A terra quase/ infinita/ luta,/ porque vê,/ pequena ilha/ luta/ porque crê./ Areias/ são ponte/ de espera”.

“Areias e Ramas” surpreende pela lírica leve e afetuosa que Maria Helena Sato trata a sua poesia, de intensa celebração da memória das ilhas nos mais diferentes aspectos expostos de sua vivência, recriação estimulada por quem “sabe que os limites que impõe/ o olhar são limites fingidos, facilmente transgredidos”. Características que a diferenciam, por fim e ao cabo, e a posicionam ao lado de vozes femininas contemporâneas de Cabo Verde, tais como Vera Duarte, Dina Salústio e Carlota de Barros.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tânia Tomé lança "Agarra-me o sol por trás" no Rio de Janeiro

Mais uma parceria com a Kitabu Livraria Negra:

Convite para a noite de autógrafos de AGARRA-ME O SOL POR TRÁS (E OUTROS ESCRITOS & MELODIAS), livro de poesia da moçambicana Tânia Tomé, na Kitabu Livraria Negra, à rua Joaquim Silva, 17 - Lapa - Rio de Janeiro. Dia 12 de julho, a partir das 19h.

Peço ajuda para a divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso



segunda-feira, 4 de julho de 2011

Oswaldo Faustino - A Legião Negra

A Selo Negro Edições e a Livraria Martins Fontes - Paulista promovem, em São Paulo, no dia 20 de julho, quarta-feira, das 19h às 21h30, a noite de autógrafos do livro A Legião Negra - A luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932. Nesse romance histórico, o jornalista Oswaldo Faustino aborda uma faceta pouco conhecida da história nacional: a participação voluntária de um grande número de afro-brasileiros na Revol ução Constitucionalista de 1932, contra o regime de Getulio Vargas a quem, contraditoriamente, grande parte desses combatentes reverenciava como “pai dos pobres”. A livraria fica na Av. Paulista, 509 (próxima à estação Brigadeiro do metrô). A ideia para o livro surgiu quando o ator Milton Gonçalves contou a Faustino que gostaria de fazer um filme sobre a Legião Negra e pediu ao escritor que pesquisasse o assunto. Recorrendo a documentos e publicações de época, obras acadêmicas e entrevistas com familiares dos combatentes, Faustino entrou em contato com a história de personagens reais que, no romance, interagem com os concebidos pelo autor. A pesquisa permitiu-lhe também reconstruir o contexto social, cultural e econômico da São Paulo da década de 1930 – ora em situações conflituosas ora em aparente harmonia se interrelacionavam paulistas quatrocentões, negros, mestiços, imigrantes europeus e migrantes oriundos principalmente de estados do Nordeste. Cada qual com seus costumes e em espaços determinados, é verdade. Aos negros e pardos restavam apenas os cortiços, porões e subúrbios, as rodas de tiririca, o jogo ilegal e os biscates.


O livro começa apresentando ao leitor o centenário Tião Mão Grande, que nos dias de hoje relembra sua participação, como voluntário, na Revolução de 1932. Sua memória recupera episódios e personagens que mudaram sua vida e a dos paulistas para sempre: alguns reais, como Maria Soldado, empregada doméstica que decidiu engrossar as fileiras revolucionárias; o advogado Joaquim Guaraná Santana e o grande orador Vicente Ferreira; outros fictícios, mas inspirados em arquétipos históricos, como Teodomiro Patrocínio, protegido de uma rica família que de início renega a ascendência africana e a negritude, mas depois se torna um grande líder militar da Legião Negra; Luvercy, jovem negro alistado contra a vontade pelo próprio pai, também combatente de ideais patrióticos; John, um jamaicano foragido dos EUA, que também participava das lutas antirracistas e convivia com pensadores naquele país, como seu conterrâneo Marcus Garvey.

A cada capítulo, Faustino recria os valores de uma época pautada pelo patriotismo, mas também por um intenso preconceito racial. Um dos méritos do livro é mostrar que, apesar de alijados de direitos e com chances mínimas de ascensão social, milhares de negros aderiram a uma causa estranha à sua realidade – causa que, embora justa, traria ínfimas mudanças à sua situação de excluídos.

Para saber mais sobre o livro, acesse: http://www.gruposummus.com.br/detalhes_livro.php?produto_id=1273
 
Fonte: e-mail enviado por Selo Negro em 4 de julho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tânia Tomé lança Agarra-me o sol por trás no Rio de Janeiro

(clique na imagem para ampliá-la)

Em mais uma parceria com a Kitabu - Livraria Negra, a noite de autógrafos de AGARRA-ME O SOL POR TRÁS (e outros escritos & melodias) da jovem moçambicana Tânia Tomé, dia 12 de julho, às 19h, à rua Joaquim Silva, 17 - Lapa, Rio de Janeiro.

Peço ajuda para a divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Akiz Neto - A Construção Figurativa do Gesto (resenha)

Akiz Neto - A Construção Figurativa do Gesto (resenha de livro do poeta angolano)
Ricardo Riso, 15 de junho de 2011.

A contemporaneidade destaca-se por exigir da Arte e de seus agentes agilidade constante, desprezando a reflexão responsável pelo intenso labor do artista em busca de uma palavra depurada, exigindo daquele intensa produção para atender ao mercado, pois “a importância da obra de arte é medida, hoje, pela publicidade e notoriedade (quanto maior a plateia, maior a obra de arte” (BAUMAN, p. 130), em claro detrimento de um melhor conseguimento estético seja ele poeta, artista plástico, músico etc. Essa precipitação evidencia-se entre os jovens poetas, ávidos por publicarem suas obras (muitas imaturas), mas ainda assim almejam conquistar espaço nos cadernos culturais (mesmo que breve), pressa que também afeta escritores renomados com os lançamentos anuais (aqui considerando as pressões dos editores que desejam sugar o máximo quando estão diante de um “produto” de ótima aceitação do público), assim como os consumidores inquietos e aptos para adquirir o que for dado a estampa do livro.

O esvaziamento da arte, tratada como um bem de consumo descartável, imposto pela miserável ordem estabelecida nos dias atuais pretende suprimir a essência da palavra poética, entretanto,

a poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos (...). Resiste ao contínuo harmonioso pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia. Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes (BOSI, p. 146).

Seguindo o pensamento de Alfredo Bosi, “a recusa irada do presente com vistas ao futuro, tem criado textos de inquietante força poética” (BOSI, p. 158), caso de “A Construção Figurativa do Gesto (Enciclopédia de Ciúmes) do angolano Akiz Neto. Lançado em 2007, sob a chancela da União dos Escritores Angolanos, com ilustração de capa a cargo de Van, completa esta edição de quarenta e oito poemas divididos em dois cadernos o prefácio da Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ/Brasil).

Akiz Neto nasceu em Luanda no dia 07 de agosto de 1959, seu primeiro livro data de 1988 com o título de “No crivo do meu sonho”, posteriormente vieram “Na Trajectória da Serpente” (1995), “Cócegas e Despertar” (1996), “Horoscópio da Fragmentação” (1997), “Borboletas da Paz – Antologia Poética” (1999) e “No Umbigo da Palavra” (2003).

Akiz Neto começa a publicar em uma época de tristes marcas na história angolana; a década de 1980 é marcada pela longa guerra civil que somente terminaria em 2002. O desencanto domina a temática dos poetas daqueles tempos, segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais. (CHAVES, 2006, p. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Aliando a transformação da linguagem poética à mudança do país com a estabilidade proporcionada pela paz que se escora a poesia de Akiz Neto no conjunto de poemas de “A Construção Figurativa do Gesto”. Nesse livro o poeta procura explorar novos valores sinestésicos em poemas que a versificação livre auxilia no intuito do poeta. A ampliação dos sentidos polissêmicos ganha contornos imprevisíveis em metáforas inusitadas, o corpo do poema é preenchido por um lirismo erótico e por uma intrigante viagem metapoética. Na ressemantização da palavra poética “as palavras reclamam por que nasceram assim” (NETO, 2007, p. 33), logo busca-se a cicatrização das feridas do recente passado de dor, demonstrando a preocupação e a sintonia do sujeito lírico ao tempo em que vive, sendo necessária a reflexão acerca da contextualização histórica e social da obra aqui analisada, para isso recorremos a Octavio Paz:

Como toda criação humana, o poema é um produto histórico, filho de um tempo e de um lugar; mas também é algo que transcende o histórico e se situa em um tempo anterior a toda história, no princípio do princípio. Antes da história, mas não fora dela. Antes, por ser realidade arquetípica, impossível de datar, começo absoluto, tempo total e auto-suficiente. Dentro da história – e ainda mais: história – porque só vive encarnado, reengendrando-se, repetindo-se no instante de comunhão poética. (...) o poema é histórico de duas maneiras: a primeira, como produto social; a segunda, como criação que transcende o histórico, mas que, para ser efetivamente, necessita encarnar-se de novo na história e repetir-se entre os homens. (PAZ, 1972, p. 53-54)

É na incessante reelaboração da linguagem proposta pelo sujeito lírico motivado pelo momento, que se espera definitivo, de reconstrução do país, que “incorpora fenda laboratorial à curva da palavra/ e as crianças da terra já lêem o figurativo do gesto” (NETO, 2007, p. 28). É a poesia procurando novos caminhos, a metáfora que tenta sensibilizar os jovens pequeninos para a “sensação colegial, a de sorriso gestual de fecundo de pátria” (idem, ibidem, p. 49) que o sujeito lírico, expurgando o passado, afirma: “anunciei ao exército, minha fortaleza/ prà demissão de sangue, ódio, vingança e mortes” (idem, ibidem, p. 13).

A proposição de uma construção poética própria escora-se no momento de integração do país após anos de sonhos dilacerados, a poesia navega na “magia intérprete do som/ (...) se embriagando/ do insepulto e cristalino sentido gestual da palavra” (idem, ibidem, p. 58) e “as abelhas dançam na porta indivisível da pátria” (idem, ibidem, p. 46) fecundando uma nova era para Angola. Ainda assim, a batalha não é fácil diante de um neoliberalismo voraz que cria abismos sociais e mantém grande parte da população na miséria. Compreendemos as várias referências à pátria nos poemas de Akiz Neto como a urgente necessidade do poeta enquanto intelectual em preservar o sentimento nacional e reafirmar a esperança (ainda sagrada), valendo-se da palavra poética como objeto para atingir as mentes de seus pares. A respeito desse comprometimento do intelectual com sua comunidade, Edward Said afirma que:

Em tempos difíceis, o intelectual é muitas vezes considerado pelos membros de sua nacionalidade alguém que representa, fala e testemunha em nome do sofrimento daquela nacionalidade. (...) A essa tarefa extremamente importante de representar o sofrimento coletivo de seu próprio povo, de testemunhar suas lutas, de reafirmar sua perseverança e de reforçar sua memória, deve-se acrescentar uma coisa, que só um intelectual, a meu ver, tem a obrigação de cumprir. Afinal, muitos romancistas, pintores e poetas, como Manzoni, Picasso ou Neruda, encarnam a experiência histórica de seu povo em obras de arte, que, por sua vez, foram reconhecidas como obras-primas. Nesse sentido, penso que a tarefa do intelectual é universalizar de forma explícita os conflitos e as crises, dar maior alcance humano à dor de um determinado povo ou nação, associar essa experiência ao sofrimento de outros. (SAID, p. 52-53)

Para além do sentimento nacional, o sujeito lírico crê na força renovadora do verbo poético, prestando, em sua trincheira de paz fortalecida pela palavra, o contributo para a reconstrução não apenas do país, mas do continente africano: “ininterrupta poesia na confidência hu1000de/ como mãos de áfrica às assembléias/ logarítmicas das palavras construindo gestos” (idem, ibidem, p. 59) de solidariedade e lirismo amoroso, pois “nos teus olhos hu1000des encontro a África/ estendida nos rituais da união” (idem, ibidem, p. 55).

A poesia retorna ao passado de lutas e ganha corpo ao resgatar os ideais pan-africanistas, pertinentes no atual jogo político-econômico dominado por interesses escusos e supranacionais que deterioram as jovens nações e suas economias fragilizadas. Por isso a urgência de união das nações fragilizadas para que não se comentam os erros do passado, conforme assinala por Joseph Ki-Zerbo:

Na África, cada vez que se tentou fazer uma reforma micronacional de um sistema, houve um fracasso. Todas as tentativas micronacionais de libertação da África (...) fracassaram, em grande parte, porque foram solitárias e não solidárias. Penso que se deveria colocar como postulado a fórmula seguinte: a libertação da África será pan-africana, ou não será. (KI-ZERBO: 2006, p. 35-36)

Pan-africanismo que sempre foi combatido pelos países colonizadores e pelas elites vassalas africanas submetidas ao colonialismo, procurando manter a cruel ordem imposta. De acordo com Ki-Zerbo:

A colonização foi muito mais curta do que o tráfico negreiro, mas foi mais determinante. O colonialismo substituiu inteiramente o sistema africano. Fomos alienados, isto é, substituídos por outros, inclusive do nosso passado. Os colonizadores prepararam um assalto à nossa história. O ‘pacto colonial’ queria que os países africanos produzissem apenas produtos em bruto, matérias-primas a enviar para o Norte, para a indústria europeia. A própria África foi aprisionada, dividida, esquartejada, sendo-lhe imposto esse papel: fornecer matérias-primas. Esse pacto colonial dura até hoje. (KI-ZERBO, 2009, p. 25)

O historiador cubano Carlos Moore aprofunda um pouco mais a questão:

(...) a chamada descolonização do continente africano não foi o evento de emancipação total que geralmente costumamos entender. A independência política da África aconteceu num contexto de permanência da fragmentação imposta na Conferência de Berlim, agravada pelas novas fragmentações fomentadas pelas intrigas das metrópoles coloniais; foram estas as que criaram a maioria dos partidos “nacionalistas” e financiaram seus líderes. Desse modo, foram poucos os países africanos a chegar à independência com uma direção política independente e verdadeiramente pan-africanista. (MOORE, 2009, p. 41-42)

Depreendemos que os ideais pan-africanistas jamais foram aceitos pelas elites africanas ou pelos países coloniais que não mediram esforços para exterminar essas “nocivas” lideranças, contrárias à ordem estabelecida. Carlos Moore assinala que entre 1957, data da independência de Gana, e 1987, ano do assassinato do último dirigente pan-africanista, Thomas Sankara:

trinta e cinco dirigentes africanos (...) foram assassinados (...) Esses líderes, insubstituíveis em sua maioria, foram ultimados em sua maioria pelas potências ocidentais ou através de seus lacaios. Ou seja, nas primeiras três décadas de descolonização, o continente africano perdeu seus mais importantes e talentosos líderes; estes foram substituídos por dirigentes politicamente inexpressivos a serviço das grandes potências imperiais do planeta. (MOORE, 2009, p. 48)

Embora as dificuldades de emancipação insistam com a sua lógica desigual, o sujeito lírico de Neto anseia pela libertação, por novos rumos que conduzam à autonomia, e para atingir seu objetivo recorre a símbolos ancestrais e históricos como a kyanda, a Rainha Njinga Mbandi e o tambor para cantar sua independência. Destacaremos o tambor, símbolo de resistência: “Profunda travessia instrumental do gesto/ enquadra a mão profunda da imagem/ sobre o chilreio misterioso do tambor/ Livre África” (NETO, 2007, p. 31). “Busquemos o tambor breve de África” (idem, ibidem, p. 18), pois “a força interior do tambor é um pólo de liberdade” (idem, ibidem, p. 18), afirma o sujeito lírico com “mãos constróem relâmpagos textuais” (idem, ibidem, p. 36) a exorcizar o passado de dor, por isso a analogia do continente africano à “grafia sentimental da mulher” (idem, ibidem, p. 25), erotizando aquele com a palavra poética que “mapeia os gestos sensíveis do corpo de África” (idem, ibidem, p. 24).

Inspirado por metáforas inusitadas na busca por uma sintaxe com ritmo próprio, “as palavras dançam vestem-se de ritmos/ banham-se da energia de meus gestos” (idem, ibidem, p. 60). Em sua construção poética, o sujeito lírico subverte a língua portuguesa inserindo nos poemas palavras e versos em língua nacional: “onde a katwandolo sacrificado boi afaga/ cócecas cilhadas pelo makau/ e a criança inspira o ar/ kynguilas e zumgueiras ventres de cágado” (idem, ibidem, p. 33) ou “águas cicatrizam as areias do limite/ ky.anda.ndo são águas, densas margens/ as do fundo do mar onde poisam gatas de memória// sunga ò kinama kya mbondo ny kwivwe/ Nzambi-a-mukutu wami” (idem, ibidem, p. 55).

As experiências com a hibridização do texto valorizam as tradições, impondo-as no perverso jogo da globalização e seus ideais de uniformização de padrões culturais em detrimento das culturas locais, com isso resgata seres mitológicos como a kianda, reconfigurando-a semanticamente, ou seja, é com esse texto africanizado que Akiz Neto procura desenvolver a sua escritura. Segundo Laura Cavalcante Padilha, “o enfrentamento de culturas e das duas línguas – às vezes até mais – se dá na territorialidade do texto. Percebe-se, então, que o colonizado se apropria da linguagem do outro, ao mesmo tempo em que mostra também ter sido por ela possuído” (PADILHA, 1995, p. 164-165). Manuel Rui no célebre artigo “Eu e o outro invasor” complementa o caráter de reformulação da língua portuguesa pelo escritor angolano: “No texto oral já disse não toco e não o deixo minar pela escrita arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto”. Edward Said complementa que: “o intelectual é obrigado a usar uma língua nacional não apenas por razões óbvias de conveniência e familiaridade, mas também porque ele espera imprimir-lhe um som particular, uma entonação especial e, finalmente, uma perspectiva que é própria dele” (SAID, 2005, p. 39).

Passando das experiências no campo semântico às estético-formais, encontramos alguns ruídos que nos parecem dispensáveis no conjunto de poemas propostos, mais precisamente no segundo caderno, “Magia Intérprete do Som”, em “? O verso ou o reverso da rima” e “O Livro”. Neste, o poeta radicaliza a reformulação da linguagem e deparamo-nos com a suspensão do discurso:

11.9.21.17.14 11.9.4.14 5 20.12.1 11.20.23
9.12.5.17.18.1
13.1 3.14.13.18.19.17.20.3.1.14
6.9.7.20.17.1.19.9.21.1 4.1 1.11.12.1 (NETO, 2007, p. 52)

Decodificando os numerais deste poema, temos: “Livro lido é uma luz/ imersa/ na construção/ figurativa da alma”. Não seria melhor assim? Enquanto naquele, torna-se desnecessária a leitura da direita para a esquerda, seja leitura árabe ou não, assim como as manchas gráficas em negrito que mexem de maneira indesejável com atenção do leitor. São experiências que se aliam a outros poucos poemas com metáforas que se perdem no vazio, assim como a insistência no uso de numerais impregnando as palavras (“100pre”, “instr1mental”, “3passa”, para quê? A respeito disso, algures afirmamos e reafirmamos para ver ou rever o “poema alfanumérico” de Conceição Cristóvão, integrante do livro “solsalseiosexo”. Nesse poema ao menos a ludicidade se impõe.) que precisam de melhor conseguimento estético e talvez por isso a pertinente observação no prefácio da Drª Carmen Lucia Tindó Secco ao afirmar que “há ainda muito que laborar” (idem, ibidem, p. 10).

Entretanto, tais conflitos poéticos são menores diante da “construção sigmática da escrita” (p. 49) proposta com valiosa ousadia por Akiz Neto, um poeta que possui a coragem para laborar um inflamado gestual em busca de uma semântica própria, de uma sintaxe criativa, de reconfigurar os sentidos perdidos da palavra. Isso é algo que devemos admirar e encontramos em parte dos poemas de “A Construção Figurativa do Gesto”.


BIBLIOGRAFIA:
BAUMAN, Zigmuth. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1977.

CRISTÓVÃO, Conceição. solsalseiosexo – in(pre)cisões. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006.

JUDT, Tony. O mal ronda a Terra – um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

KI-ZERBO, Joseph. Para quando África? – Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

MONTEIRO, Manuel Rui. Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. In: MEDINA, Cremilda de Araújo. Sonha mamana África. São Paulo: Epopéia, 1987. p. 308-310.

MOORE, Carlos. Da África mítica à África real: para uma cooperação realista entre a África e a diáspora. In: A África que incomoda – sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2009. p. 11-65.

PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói: EDUFF, 1995.

PAZ, Octavio. A Consagração do Instante. In: Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, Coleção Debates, 1972.

SAID, Edward. Representações do intelectual – as Conferências de Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.




















quarta-feira, 8 de junho de 2011

António Pompílio – Fronteira: a passagem do limite (resenha)


António Pompílio – Fronteira: a passagem do limite

Ricardo Riso, 08 de junho de 2011.

Os primeiros anos do século XXI apresentam-se como uma época de aparente letargia frente ao vitorioso modelo neoliberal que tenta de todas as formas mascarar as suas falhas gravíssimas, ora por meio da manipulação dos canais de informação, ora por ininterruptas propagandas de busca por bem-estar e sucesso a que todos (supostamente) têm direito, procurando encobrir a exclusão social imposta à maioria da população mundial. Com o descaminho da esquerda política e a dificuldade da sociedade em se organizar nos países regidos pelo capitalismo, a sensação de inércia se evidencia por não mais se questionar o jogo ao qual somos submetidos, por isso é pertinente as considerações do filósofo contemporâneo Tony Judt com o intuito de desestruturar a impotência reinante:

Há algo de profundamente errado na maneira como vivemos hoje. Ao longo de trinta anos a busca por bens materiais visando o interesse pessoal foi considerada uma virtude. (...) Sabemos o preço das coisas, mas não temos ideia de seu valor. Não fazemos mais perguntas sobre uma decisão judicial ou um ato legislativo: é bom? É justo? É adequado? É correto? Ajudará a melhorar o mundo ou a sociedade? Essas costumavam ser as questões políticas, mesmo que suas respostas não fossem fáceis. Devemos mais uma vez aprender a fazê-las. (JUDT, 2011, p. 15-16)

Diante do desarranjo de nosso tempo torna-se necessário reaprender a questionar, e a literatura está a nossa disposição para suprir os anseios e medos que nos afligem. Com sua vocação para ampliar o mundo de cada um de nós, a literatura se apresenta como o esteio para nos fazer crescer e aqui cabe recordar o amor à literatura assim descrito por Tzvetan Todorov:

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. (...) em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. (...) Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. (...) a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. (...) ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano. (TODOROV, 2010, p. 23-24)

Essa longa introdução aponta para algumas questões que nos parecem interessantes e pretendemos expor nosso entendimento acerca da obra poética “Fronteira: a passagem do limite” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2008), do angolano António Pompílio, nascido no Lobito, em 05/07/1964. O livro ainda tem interessante prefácio de Katia Rodrigues. O autor é designer gráfico e jornalista bacharel do curso de língua e literatura portuguesa na Faculdade de Letras e Ciências Sociais em Luanda. Publicou em poesia “O sal dos olhos do mar” (menção honrosa, Prêmio Sonangol de Literatura – 1994) e “Simetrias”, para além de títulos em prosa e para o público infantil.

Encontramos neste livro a árdua tentativa de um sujeito poético atrás de uma palavra depurada para estremecer os sentidos anestesiados dos homens, a incessante busca para retomar os valores dispersos pela insensibilidade da contemporaneidade:

Finalmente, eis-nos chegados ao limite: o novo e único caminho que havíamos negado. Atravessá-lo-emos com palavras puras de rosa, com o mesmo salgado da água onde remamos as orações do regresso. (POMPÍLIO, 2008, p. 15)

Atingido o limite, por meio das “palavras puras de rosa” o sujeito lírico ressemantiza os sentidos para ultrapassar a fronteira dos signos esterilizados. Entretanto, a travessia é feita de amargura, pois para resgatar a sensibilidade perdida, precisamos da condução do verbo poético. Para isso, o sujeito lírico convida-nos: “Mostrar-te-ei a cidade dos meus olhos: os cortes súbitos nocturnos e diurnos da luz. Poderás ver, na íris, os musseques húmidos da minha penumbra: os becos escondidos da alegria” (p. 17). É esse olhar perscrutador que nos levará aos “becos escondidos da memória” para, a partir dali, partirmos a uma nova etapa e tomarmos consciência da nossa imobilidade: “Aí poderás, então, chorar todas as sombras do dia: a inauguração da cegueira” (p. 17).

A angústia apodera-se do sujeito lírico, somente a poesia poderá recompor o que o homem perdeu após tantos caminhos equivocados, decisões injustas refletidas no uso incorreto do verbo. Cabe ao sujeito lírico, recorrendo à metapoética, reestruturar o poder estabilizador do verbo: “Apunhalaram a palavra. Feridas crónicas no reverso do verso. O sangue tem a cor da minha voz, no avesso do silêncio. Permite-me abrir a passagem do limite.// Repara. A palavra é uma fronteira. É uma meta fora. A poesia é a água sem a metáfora da mágoa” (p. 46).

Como “no campo das palavras, houve queimadas” (p. 49) e “as palavras não têm passagem para a fronteira do outro lado do mesmo lado” (p. 37), o sujeito lírico pede licença para abrir para nós a passagem do limite da palavra e nos guiará por uma nova trajetória, reconfigurando os sentidos dilacerados da palavra, seus sentidos primordiais, deixando para trás o “abecedário do nada” (p. 26) da atualidade, e assim restabelecendo as “sílabas do silêncio” (p. 21), pois “aqui estamos nós, lutando com a ineficácia dos mundos, onde visivelmente a morte adora morrer: na fronteira. Depois, verás e verás as palavras interagirem na metáfora” (p. 18).

Reconstituir os sentidos da palavra remete à necessária reconstrução do ser para atingir a fronteira e ultrapassar o limite: “Bem-vindo à porta da fronteira/ À entrada da luz do silêncio:/ A metamorfose da cegueira/ O primeiro estágio de tudo/nada./ Seja alegre ao ver (-me) em decomposição” (p. 19). É nessa fronteira que o ser precisa se recompor, renovar o seu olhar, rever os seus conceitos. Diz o sujeito lírico: “A minha fronteira interage com o infinito” (p. 18). E é na expansão ilimitada da fronteira que por consequência acompanha a amplidão semântica da palavra poética, do poeta, da poesia e a do leitor. Afinal, “É preciso desvirginar/ A beleza das coisas/ Para se tornarem maravilhosas” (p. 25) e somente uma poesia que procura navegar na turbulência experimental dos valores semânticos tenderá a atingir o seu objetivo de desestabilizar as (in)certezas do cotidiano, das palavras desgastadas que não atentam para a inércia dos homens. Por isso o poeta semeia e colhe, “Nego as palavras, não a lavra da palavra” (p. 16) por que crê na possibilidade da poesia em transformar os homens.

António Pompílio apresenta uma poesia de interiorização do ser, parecendo resgatar nessa “viagem ao cosmo do eu” (p. 43) os elementos primordiais da natureza (água, ar, fogo e terra) presentes em seus poemas. Viagem para ultrapassar a fronteira, passagem através da poesia e o seu poder de vencer Cronos, “não saí do círculo, apenas transcendi na metafísica do Tempo” (p. 43). Por isso, também, as referências ao universo onírico, livre e ilimitado por si.

Gratificante é percebermos o amadurecimento de um poeta buscando uma estética elevada, percebível no intenso labor demonstrado na segurança dos poemas em prosa – os melhores momentos do livro com a boa medida de prosaísmo que compensam alguns excessos (ou falta deles) presentes na versificação livre. Ressaltamos o esforço de construção de um estilo próprio, de um exaustivo trabalho de depuração da linguagem tecendo os limites da metapoética, das indagações de um sujeito lírico sensível aos problemas de seu tempo e de seus pares, tanto no campo político-econômico quanto no plano ontológico apresentados por António Pompílio neste “Fronteira: a passagem do limite”. Um poeta em pleno amadurecimento poético e recomendamos a leitura do livro aqui exposto. Finalizamos com o poema “Alegria”:

Alegre está o homem que lhe tiraram a alegria do sonho e sonha outros sonhos de ser, porque já não é. E, em toda a paisagem que vê, o sol cumpre a metafísica, iluminando as ruas pobres dos olhos. A alegria é o contentamento da lágrima. E a vida enamora sempre os sentidos do abstracto. Nada há de exacto. Aqui mesmo, sobre a lagoa do riso do bairro Operário, é a bebedeira que comanda o esquecimento. E a vida é bonita, se sonhada com o propósito de viver, vivendo, sem pensar em morrer (p. 50).


BIBLIOGRAFIA:
JUDT, Tony. O mal ronda a Terra – um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

POMPÍLIO, António. Fronteira: a passagem do limite. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2008.

TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2010.


terça-feira, 7 de junho de 2011

FELA: esta vida puta!, de Carlos Moore (lançamento RJ)


Rio de Janeiro
de 09 a 11 de junho
de quinta-feira a sábado

Fela: Esta Vida Puta,
de Carlos Moore
Prefácio de Gilberto Gil

dia 09, quinta-feira, às 19h 30min - lançamento
Livraria do Museu da República
Rua do Catete, 153 - Catete - 21-2558-6350
metrô Catete / Estacionamento no local

dia 10, sexta-feira, às 16h - tarde de autógrafos
Livraria da Travessa - Centro
Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - 21-3231-8015

dia 10, sexta-feira, às 19h - noite de autógrafos
Kitabu Livraria Negra
Rua Joaquim Silva, 21 - Lapa, Centro - 21-2252-0533

dia 11, sábado, 23h 30min - Festa Makula de lançamento
Teatro Rival com Abayomy Afrobeat Orquestra
Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia - Centro - 21-2240-4469

LANÇAMENTOS NACIONAIS
Rio de Janeiro - 09 a 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06

Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas, de António de Névada (Cabo Verde) na Kitabu (RJ)

Mais um livro de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa que consigo para venda na Kitabu - Livraria Negra (Rio de Janeiro/Brasil): ESTEIRA CHEIA OU O ABISMO DAS COISAS, do poeta cabo-verdiano António de Névada.
Ricardo Riso

(clique na imagem para ampliá-la)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Maria Helena Sato – Cristais (resenha)



Maria Helena de Morais Sato – "Cristais"
Por Ricardo Riso
Com estima e consideração, à autora.

Maria Helena de Morais Sato vive em São Paulo – Brasil, formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Comunicação Social, Comunicação Internacional e Recursos Humanos, possui MBA em Administração. É tradutora juramentada (espanhol, francês e inglês).

Sato tem nove livros de poesia publicados, destacamos, dentre outros: “Bonsais e Haicais” (2000), “Farol” (2002), “Presente do Mar” (2003) e “Caminho Orvalhado” (2004), e em prosa/poesia “O poeta além-vale” (apresentação de antologia de António Januário Leite), em parceria com Luís Romano (2005).

Em 2005 lança “Cristais” pela editora paulista Komedi, prefaciado por D. Geraldo Gonzáles y Lima e ilustrado por Celso Massatoshi Sato. “Cristais” reúne 99 poemas que convidam à reflexão diante das intempéries do cotidiano imposto pela contemporaneidade. Talvez por isso a concisão dos poemas, os versos sejam curtos, ainda assim o sujeito lírico apresenta-se eloquente, preciso, propondo o reencontro do “ser com o Ser”.

As agruras de uma sociedade hipercompetiviva em correria frenética para acompanhar as imposições de um mundo globalizado possui a insensibilidade – “Ouvidos cansados/ e visão embrutecida” – entre os homens como consequência. Os sentidos esgarçados precisam ser restaurados e a analogia aos cristais lembra-nos que “Duros ou/ estilhaçando,/ esperamos lapidação...”.

O desejo de reencontrar o caminho expõe-se na busca pela recriação da palavra primordial, a que permite a harmonia entre seus pares, e suplica: “Mesmo assim/ viramos/ demiurgos,/ fórmulas/ para te/ alcançar!/ Só não inventamos/ ainda,/ neste templo,/ a palavra única,/ elo de/ corações/ sem/ lar”.

A desorientação é a ordem do dia diante de vidas transfiguradas, de trajetórias fragmentadas pelo caos, o sujeito lírico necessita de ajuda para resgatar a sensibilidade perdida e questiona se precisa de um peregrino (de terras distantes) “para me repetir/ a primeira lição?” Nesse sentido, tal como retirante, deve-se apreender uma nova sensibilidade que parte da observação simples da natureza: “Fim de retiro./ Um arco-íris/ no cenário,/ no olhar./ As mesmas nuvens,/ mas há um arco-íris no céu!/ (...) Na alma do retirante,/ cores ligam/ Terra e Céu!”

Sendo assim, não causa estranhamento que o sujeito lírico de Maria Helena Sato se aproxime da poesia zen, pois para compreender a desfiguração da vida segundo Octavio Paz no artigo “A poesia de Matsuo Bashô”, recorre-se à “doutrina sem palavras (...) através da experiência do sem-sentido, descobrir um novo sentido”. Logo, versa o sujeito lírico: “O nada ilumina/ o que palavras/ obscurecem./ Sou/ minha própria/ nudez”. Por outro lado, ainda em sintonia com o Oriente, Sato subverte a temática do hai kai ao referir-se à religiosidade cristã: “Quase hora de missa,/ já pelo caminho, a pé/ cem ave-marias!”

A entrega incondicional ao ser amado ganha atenção especial em diversos poemas de Sato. Em “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos”, o sociólogo Zigmuth Bauman observa a dificuldade dos casais em manter suas relações, pois se considera que uma relação fechada obstrui relacionamentos futuros mesmo sem a certeza de concretizá-los, ou seja, segundo Bauman, “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”. Por isso, reconforta a posição do poema “Recriação”, rara e contrária à maneira dispersa que os relacionamentos amorosos se dão entre nós: “À tua Luz me/ rendo/ e em qualquer espaço/ me desvendo,/ se for em teu/ universo!”.

Como “cristais em lapidação/ constante”, nós, “sísifos da vida”, encontramos na leitura de “Cristais”, de Maria Helena de Morais Sato, sapiência e conforto para contermos as individualidades, o “nosso impulso/ de/ ter” e encararmos as atrocidades da vida como o herói menino que, após ter tido sua cesta de mantimentos roubada, “sorria/ por ter carregado tanto/ e não ter pesado/ nada!”

Trata-se de poesia diaspórica cabo-verdiana de excelente qualidade. E o melhor: publicada no Brasil. Portanto, recomendo a leitura deste “Cristais”, de Maria Helena Sato.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cuti - Lima Barreto (Retratos do Brasil Negro)


Informamos que o livro "LIMA BARRETO", de Cuti, da coleção Retratos do Brasil Negro já está à venda nas melhores livrarias. Mais informações no site da Selo Negro Edições, pelo telefone (11) 386 5-9890 (11) 3865-9890 ou pelos e-mails listados no final da mensagem.

Lima Barreto (1881-1922) é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Duramente rechaçado pelos críticos de sua época – por usar uma linguagem coloquial e criticar abertamente a sociedade hipócrita e racista de então –, entrou para a galeria dos “malditos”. Autor de obras-primas como Triste fim de Policarpo Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha, produziu romances, novelas, contos, crônicas e diários. Vítima de preconceito por ser negro e pobre, só teve a obra reconhecida décadas após sua morte. O livro analisa a produção de Lima Barreto e mostra a atualidade dos problemas que ele apontou no início do século XX.

Esta obra faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora dos movimentos sociais e da diáspora africana no Brasil e no mundo. O objetivo da Coleção é abordar a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra. Outros volumes: Abdias Nascimento • Lélia Gonzalez • Luiz Gama • Nei Lopes • Sueli Carneiro • João Cândido.

***

Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, é formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi um dos fundadores da organização literária Quilombhoje e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros. É autor de obras como Poemas da carapinha (1978); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (1991); Moreninho, neguinho, pretinho (2009, ensaio); Poemaryprosa (2009, poemas); Literatura negro-brasileira (2010).

.

Para mais informações sobre o livro, acesse o endereço http://www.gruposummus.com.br/detalhes_livro.php?produto_id=1262  

Para ler as primeiras páginas do livro, acesse o endereço http://www.gruposummus.com.br/indice/40051.pdf . (Para visualização do arquivo PDF, é necessário ter instalado o software Adobe Acrobat Reader em seu computador. Caso não tenha, clique aqui para efetuar o download do software gratuitamente direto do site da Adobe.
 
Fonte: e-mail da Selo Negro Edições de 11 de maio de 2011.

domingo, 15 de maio de 2011

PALESTRA E LANÇAMENTO DE "CABO VERDE: ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA"

DIA 19 de maio, às 19h, no Campus Millôr Fernandes - Universidade Estácio de Sá/Rio de Janeiro, ministrarei a palestra para os alunos do curso de Letras: A POESIA DE CABO VERDE. Na sequência haverá o lançamento de “Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea”, de Ricardo Riso (Organizador).


Ano III, nº 13 – maio de 2011 – ISSN 1983-2354

CABO VERDE: ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA
António de Névada – Carlota de Barros – Danny Spínola – Dina Salústio – Filinto Elísio – José Luis Hopffer C. Almada – Margarida Fontes – Maria Helena Sato – Mario Lucio Sousa – Oswaldo Osório – Paula Vasconcelos – Vasco Martins – Vera Duarte


ILUSTRAÇÕES
Abraão Vicente e Mito Elias

ORGANIZAÇÃO
Ricardo Riso

Campus Millôr Fernandes - Universidade Estácio de Sá
Rua Dias da Cruz, 255/3º piso - Méier (Shopping Méier)

Artiletra (editora de Cabo Verde) - livros na Kitabu (RJ)