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terça-feira, 7 de junho de 2011

FELA: esta vida puta!, de Carlos Moore (lançamento RJ)


Rio de Janeiro
de 09 a 11 de junho
de quinta-feira a sábado

Fela: Esta Vida Puta,
de Carlos Moore
Prefácio de Gilberto Gil

dia 09, quinta-feira, às 19h 30min - lançamento
Livraria do Museu da República
Rua do Catete, 153 - Catete - 21-2558-6350
metrô Catete / Estacionamento no local

dia 10, sexta-feira, às 16h - tarde de autógrafos
Livraria da Travessa - Centro
Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - 21-3231-8015

dia 10, sexta-feira, às 19h - noite de autógrafos
Kitabu Livraria Negra
Rua Joaquim Silva, 21 - Lapa, Centro - 21-2252-0533

dia 11, sábado, 23h 30min - Festa Makula de lançamento
Teatro Rival com Abayomy Afrobeat Orquestra
Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia - Centro - 21-2240-4469

LANÇAMENTOS NACIONAIS
Rio de Janeiro - 09 a 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06

Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vasco Martins - Mare Oceanus (Sinfonia 9)

Prezados(as),

o músico e poeta cabo-verdiano Vasco Martins informa que concluiu a sua Sinfonia 9e chama-se, em difinitivo, «Mare Oceanus», e aqui compartilho os links enviados pelo consagrado artista:

podem ouvir a primeira versão gravada pela Moravian P.Orchestra, dirigida por Vit Micka:

a actual 'global score' em PDF:

uma versão no You Tube, com imagens:

Para quem quiser conhecer a poesia de Vasco Martins e ter acesso ao seu sítio e blog, basta clicar no marcador ao com o seu nome ao final deste texto.

Ricardo Riso

Fonte: e-mail enviado por Vasco Martins em 12/05/2010.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cabo Verde no Provocações (TV Cultura)

Um ótimo presente de Natal será o programa Provocações (TV Cultura) de Antonio Abujamra dedicado a Cabo Verde, sexta (dia 25), às 22h. Os entrevistados serão Cesária Évora, a jornalista Soraia de Deus, o ator Habib Dembélé e o amigo João Branco, diretor teatral do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/IC-Cabo Verde.

Abraços e bom Natal!
Ricardo Riso

Provocações especial!
Abujamra visita Cabo Verde – África

Cabo Verde é redescoberta por Antonio Abujamra em setembro de 2009.

Abu foi convidado para participar do Mindelact (criado em 1995), que é um dos festivais teatrais mais importantes do hemisfério sul, na cidade de Mindelo, que fica na ilha de São Vicente, uma das 10 que compõe o país.

O nosso entrevistador apresentou o espetáculo “Começar a Terminar” e estava muito bem acompanhado por companhias de Angola, Espanha, Portugal, Mali, França, Bélgica, Republica Checa, Moçambique e França – cujo representante era o grupo de Peter Brook – e do próprio Cabo Verde.

A música de lá é sinônimo de Cesária Évora. Foi ela quem divulgou gêneros musicais como a morna, o funaná e a coladera. Trechos do show que apresentou no Heineken Festival, aqui no Brasil, transmitido pela TV Cultura, serão utilizados no programa.

A cantora abre as portas de sua casa para uma agradável entrevista, onde a cantora fala sobre a carreira, Cabo Verde e a vida.

Além de Cesaria, Abu provoca o ator Habib Dambélé, que também se apresentou no festival; a jornalista Soraia de Deus e o diretor artístico do Mindelact João Branco.

Conheça a magia de Cabo Verde - ÁFRICA !


Convidados:
Cesaria Evora - Cantora de Cabo Verde
João Branco - Diretor artístico do festival Mindelact
Soraia de Deus - Jornalista
Habib Dembélé – Ator

QUANDO:
sexta, 22H00
Reapresentação: madrugada de quinta para sexta, às 01H30.

Fonte: informação passada pela amiga Denise Guerra, do blog Afrocorporeidade. O texto foi retirado do site da tv Cultura - http://www2.tvcultura.com.br/provocacoes/programa.asp?progid=443&tipo=novo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Cesária Évora - Rádio Mindelo

Ao Gonçalo Ivo

O cd Cesária Évora – Rádio Mindelo reúne raras gravações da cantora cabo-verdiana Cesária Évora na Rádio Barlavento, no início dos anos 1960. São 22 músicas (a maioria de autoria de Ti Goy) separadas em seis sessões diferentes de puro prazer e que já confirmavam o talento de Évora.

A seguir o texto do encarte do bem cuidado cd, em edição trilíngüe francês-inglês-português.

Ricardo Riso

Cesária na Rádio Barlavento: o início de uma carreira


No início dos anos 60, vive-se em Mindelo, uma euforia à volta do género Coladera, que constituía uma novidade. Vive-se igualmente o pós-B.Léza. Recentemente falecido (1958), B.Léza, é recordado com muita emoção e existe um sentimento de que a sua obra deve ser continuada e seguidos os seus ensinamentos. A inovação do momento é o género Coladera, que no Mindelo conta com grandes mestres, como Ti Goy (Gregório Gonçalves) ou Frank Cavaquim (José Vicente Gomes). Estes dois compositores lideram na feitura de composições que naquele período surgem ..em grande quantidade. Por.. outro lado, é de notar que Rádio Barlavento, vem desempenhando um papel importante na vida cultural da cidade do Mindelo. Fundada em meados dos anos ..50, a.. Rádio Barlavento cedo começa a gravação de músicos e cantores locais, como meio de obter música para difusão nas suas antenas. As gravações daquela época (realizadas com um único microfone) têm uma qualidade razoável, tendo em conta os meios utilizados. A criação de planos sonoros, era obtido, com a colocação, mais ou menos afastada do microfone, dos diferentes instrumentos e do cantor. De salientar ainda que esta emissora de ondas curtas, chegou a comprar uma máquina de gravação de ..discos com o.. fito de arranjar receitas. A máquina gravava um disco de cada vez em tempo-real, o que não compensava. A ideia de comercialização de discos foi então abandonada, mas foi dos estúdios dessa antiga estação de rádio que saíram as fitas para prensagem no exterior ..de discos com os.. grandes sucessos dos finais dos anos ..50 a.. meados de 60. Gustavo Albuquerque, que trabalhou desde a fundação da Rádio Barlavento como “Operador de Gravação e Montagem de Programas” recorda, que ele gravou “vários artistas como Amândio Cabral, Djosinha, Jack Monteiro, Cesária, Titina, Arlinda Santos, Mité Costa e outros.”

Naquela época, as editoras eram prestigiadas casas comerciais, como a Casa do Leão, ou então a Casa João Mimoso, que comercializavam os pequenos discos de vinil, 45 rotações por minuto, com 4 músicas (2 em cada lado) que eram prensados na Alemanha e Holanda. O “técnico das gravações ..e montagens dos.. programas dessa rádio” Gustavo Albuquerque, teve um papel importante na recolha da “Música da nossa terra” como então de dizia. Gustavo não só, foi um dinamizador das recolhas contactando os artistas, como realizou um trabalho técnico que se pode considerar de altíssima qualidade tendo em conta os condicionalismos da época, numa ilha então isolada ..do mundo,.. que se chama, S. Vicente. ....

Cesária ou Cize como é tratada pelos mais próximos, revelou-se ao público naquela época, naquele ambiente pós B.Léza e de sucesso do género Coladera. O Técnico Gustavo, conta que “Cesária Évora foi trazida para a antiga Rádio de Barlavento, por Gregório Gonçalves “Ti Goy” e Frank Cavaquim, a título de experimentar a sua voz em fita magnética gravando as belíssimas Coladeras compostas por esses dois compositores, isto na década dos anos 60… ela tinha 20 e tantos anos, e se não estou com erro ela começou a cantar com 14 ou 16 anos.” A versão da Cesária Évora não difere e ela conta assim como tudo se passou: “Bom, naquele tempo o Gustavo que trabalhava na Rádio Barlavento, falou comigo, e perguntou-me se eu gostaria de ir com o Ti Goy, o Caraca e outros músicos cujos nomes já não me lembro, fazer umas gravações… eu disse-lhe que sim, que combinasse com o Ti Goy porque para o Ti Goy, o seu maior prazer era que eu fosse à casa dele, para ele me ensinar as suas música para eu cantar…”

Naquela época, finais dos anos 50, princípios dos anos 60, os grandes compositores e músicos, tinham os seus “meninos”, a quem ensinavam novas músicas e que eram lançados na vida artística com o seu patrocínio. As revelações apareciam nas tocatinas de pau e corda, nos ensaios de blocos de Carnaval ou nos ensaios para ..as apresentações dos.. chamados “teatro” no “Cine-teatro Éden-Park”, espectáculos de variedades, com música, anedotas e “sketches”. Cesária Évora, era a “pérola” do Ti Goy. O prestigiado compositor, andava de um lado para outro a elogiar a jovem cantora a quem dava em primeira-mão as suas novas criações e não se cansava de levá-la para cantar nos mais variados locais. Diz a Cize: “Olha, eu o Goy, encontrávamo-nos sempre! Quando eu ia à casa dele, ele me ensinava as suas novas composições e quando era de tocar com o conjunto, íamos juntos… Eram aqueles dois corcundas, que tocavam sempre juntos comigo: o Goy e o Caraca!”

As sessões de gravação da Cesária Évora na antiga Rádio Barlavento, contam na sua maioria com composições do Ti Goy, ou seja Coladeras a especialidade deste músico que tocava violão e bateria. Cesária recorda que foi várias vezes, à Rádio Barlavento, para gravar. E como é que as coisas se passavam nessa altura, perguntamos? “Bem disseram-me que em princípio me pagariam 25$00 por cada gravação, e foi isso que me pagaram.” No Rádio Clube, outra estação daquela época, em Mindelo, a Cize também foi gravar, mas diz: “Ali nunca me pagaram nada!!!”

Os grandes sucessos daquela época, e a voz límpida da Cize, maravilharam a cidade do Mindelo daquele tempo. A difusão pela rádio de novidades musicais, sobretudo Coladeras picantes e com críticas ácidas a acontecimentos que marcavam a vida social, naquela época, contribuiu ainda mais para o sucesso desta cantora, que passou a ser chamada para actuar nos mais diversos locais. Diz a Cesária: “Recordo, que íamos (eu, e o Ti Goy) para muitos lugares juntos, íamos cantar em muitas casas, e íamos a bordo daqueles barcos portugueses, naquele tempo…” A fama de Cesária foi tão grande que ela foi convidada, para cantar no Grémio Recreativo Mindelo, clube muito reservado, frequentado pela alta sociedade, numa época em que vigorava uma divisão social muito rígida. Ali aconteceu um episódio que marcou a vida da Cesária e que ela conta assim: “Eram os irmãos Marques da Silva que me iam acompanhar. Era eu, a Arlinda…havia outra pessoa… Éramos três ou duas que íamos cantar… já não me lembro dos nomes. Foi então que o Lulu Marques, resolveu me dar um par de sapatos para eu, calçar… Eu disse-lhe: eu não quero sapatos, porque se não for descalça, eu não vou!!! Ele insistiu, e então acabei por aceitar um par de umas sandalhinhas pretas, que ele tinha comprado no Sr. João (Pereira) sapateiro… Bem, era para eu lá estar às 9 horas da noite e lá fui. E então, eu entrei e atravessei o corredor de entrada do Grémio calçada… e fiquei lá à espera, e quando chegou a minha vez de cantar, eu tirei os sapatos e coloquei-os ali ao lado de uma árvore, perto do palco... e fui cantar descalça. Olha, aquela gente toda me aplaudiu e ficaram contentes. Foi então que veio uma senhora (não me lembro do nome)… ela veio falar comigo e disse, para eu estar à vontade porque se era assim que gostava de cantar, então eu podia estar à vontade e podia descalçar e cantar descalça, porque não havia nenhum problema… Bem na hora da saída no final do espectáculo, eu não calcei e saí do Grémio descalça e levei os sapatos numa bolsa.”

Este episódio, foi naquele tempo muito comentado em voz baixa, na sociedade mindelense e deu origem a várias versões mais ou menos fantasiosas, o que acabou por popularizar, o retrato da “Diva dos pés descalços”.

O sucesso desta primeira fase da carreira de Cesária Évora, nos anos 60, atinge culmina com convite para gravar o seu primeiro disco que foi editado pela Casa João Mimoso. Cize recorda como tudo se passou: “Ele mandou-me chamar para eu falar com ele no seu escritório. Ele disse-me que gostaria de gravar um disco comigo. Eu disse-lhe: é para ir a Lisboa? Ele disse-me, não, vamos gravar o disco aqui em S. Vicente, não é preciso ir a Portugal. E então fomos fazer a gravação. O Damatinha tinha um bom gravador… E então gravamos: eu, o Luís Rendall e o seu filho John Rendall e mais outra pessoa que já não me lembro.” E onde foi realizada a gravação? A Cize responde: “Na casa do Gustavo, que morava na rua 1.º de Maio… a Rua da Papa Fria.”

Das lembranças do que se poderá agora classificar de sessões históricas de gravação na antiga Rádio Barlavento diz a Cize: “Uma daquelas músicas que eu gravei foi Terezinha - Dinher d’Angola já Cabá -, parece-me, Vaquinha Mansa. Da Coladera Terezinha da autoria de Gregório Gonçalves (Goy), a Cesária não poderia esquecer, pois foi um dos sucessos retumbantes daquele tempo. Vaquinha Mansa do mesmo compositor, junta-se a uma lista grande de Coladeras, deste mesmo compositor, gravadas em várias sessões que decorreram sensivelmente, entre 1962 e 1964: Pé di Boi, Nutridinha, Mata Morte, Falta de Força, Sayko Dayo… Quanto às Mornas, Cesária prefere composições novas e pouco batidas, uma vez que as suas colegas na altura, já tinham quase que esgotado o reportório B.Léza e Eugénio Tavares. E julgamos que Cize escolheu também Mornas que mais se adaptavam ao seu estilo de cantar como: Belga, Oriundina, Frutu Proibido, Mar Azul (esta uma Morna B.Léza que não tinha sido gravada) e Cize. Esta Morna (..de Morgadinho) nada.. tem a ver com a Cize, Cesária Évora. Sobre isso ela diz: “Pensam que fui eu que a fiz. Mas não, foi para outra Cesária...”

As primeiras gravações da Cesária Évora, testemunham o início da carreira desta grande artista, que desde o princípio se revelou como dona de uma bela voz, categoria na interpretação e presença. Alguns dos companheiros da Cesária que gravaram nessas históricas sessões da Rádio Barlavento, por Gustavo Albuquerque, conseguiram logo singrar e começar carreiras de sucesso, em disco e no palco. Cesária, apesar do sucesso inicial, foi ficando no Mindelo profundo, das tocatinas pelos bares, das noites cabo-verdianas e das serenatas… ..De meados dos.. anos ..60 a.. meados do anos 80 Cesária Évora, esteve longe da popularização que os circuitos da edição discográfica alcançam até foi redescoberta. Tempo longo é certo, mas que permitiu a esta grande diva, uma maturação, sempre na defesa da autenticidade e das raízes da Morna e Coladera. Note-se que ao longo destes 20 anos de espera da Cize, Cabo Verde foi trespassado por diversos movimentos: música revolucionária, retorno às fontes, Funaná, etc. etc. Serenados os ânimos aí pelos finais dos ..80, a.. Morna e a Coladera, encontram então no talento e na voz de Cesária Évora, o veículo ideal para se revelarem ao mundo, que por coincidência, assiste nesta altura, a um movimento que se dá pelo nome ..de 'World Music..'. Cesária inicia nos anos 90, um carreira fulgurante, conseguindo alcançar uma mundialização, que até hoje nenhum outro artista cabo-verdiano conseguiu… uma vingança do destino e uma vitória da música de Cabo Verde!....

Praia, 15 de Setembro de 2008....

Carlos Filipe Gonçalves....
Músico e Jornalista

domingo, 16 de novembro de 2008

Siaka, an african musician

por Ricardo Riso

Dei sorte ao escolher o primeiro documentário da Mostra do Filme Etnográfico 2008. Siaka, an african musician, produção francesa de Hugo Zemp, apresenta o multiinstrumentista que dá título ao filme. Siaka toca o “grande” balafone senufo, o “pequeno”balafone maninka, a harpa kora, guitarra elétrica e outros instrumentos no grupo de Soungalo Coulibaly, artista já falecido, líder de um conjunto que tocava em festas tradicionais pelo país, tendo alcançado reconhecimento internacional enquanto esteve em atividade.

Siaka executando o balafone

Passado na Costa do Marfim, o documentário surpreende por mostrar o hibridismo cultural do país metonimizado na figura contagiante do músico Siaka. Apaixonado pela música das suas etnias (mãe Senufo e pai Mande – de Burkina Farso), Siaka transpõe para o seu som ritmos diversos procurando aglutiná-los e revela ótimas misturas. Assim, pega referências da música do Mali, país de sua esposa, ritmos da Costa do Marfim tocados pelo grupo de Soungalo e sons de sua aldeia, sem temer a inserção da guitarra elétrica entre os instrumentos tradicionais africanos.

Sua desenvoltura entre os ritmos e instrumentos é impressionante. Podemos vê-lo compondo, aprendendo novos ritmos, ensinando as crianças e tocando nas várias festas tradicionais da Costa do Marfim; seu respeito aos mais velhos que o ensinaram a tocar o balafone e a generosidade com Soungalo. Siaka é uma pessoa extremamente simples, que faz da música o seu prazer, a forma de sustentar a sua família, de manter a sua cultura sem medo da modernidade, ou seja, a música é sua forma de viver e de expressar-se.

Além de apresentar a figura encantadora de Siaka, o documentário mostra a influência árabe no país, as animadas festas de ritos de passagem organizadas pelas mulheres, a confecção dos instrumentos do grupo de Soungalo Coulibaly e o cotidiano do simpático músico.

Aos sons incríveis extraídos dos balafones e da harpa kora, principalmente, o tempo de duração do filme passa com rapidez e leveza. Recomendo-o para quem quer conhecer a diversidade sonora do continente africano. Para isso, basta ir ao Museu da República (Rio de Janeiro) e solicitá-lo em uma das "cabines de visionamento", até o dia 19/11. É gratis.

O texto a seguir foi extraído de

http://www.worldofworship.org/pdfs/2_films_on_African_music_by_Hugo_Zemp.pdf


Siaka, an African musician
79 minutes
Siaka Diabaté is a musician at Bouaké, the second largest town in the Côte d’Ivoire. Through his mother's family he is Senufo, but through his father's ancestry he considers himself a Mande griot. He is a multi-talented professional musician, and for the local festivals plays five instruments: the Senufo and Maninka balafons, the kora harp, the dundun drum and the electric guitar.
This film shows Siaka playing in the group led by Soungalo Coulibaly before his death in 2004, including the use of jembé drums, which we also see being made.
Using long continuous shots that give priority to the music and to what Siaka and Soungalo have to say, this documentary introduces the audience to a fascinating
world of urban music that incorporates traditional songs and dances by griots. Shot on site during various festivities, this film presents a living portrait of this lovable and highly skilled musician working in a traditional environment, adding another dimension to the pleasure of seeing and hearing him during his international tours.
Easy to use for teaching, with 7 chapters: Introduction; The large Senufo balafon; the little Maninka balafon; Workshop of jembe drums; The dundun drum; The kora
harp; The electric guitar.

domingo, 13 de abril de 2008

Língua e estilo de Elomar (livro)


Língua e estilo de Elomar
SALOMÃO, Any Cristina.SIMÕES, Darcilia.KAROL, Luis.PICCININI, Fernanda.
Publicações Dialogarts, 2006

Belo trabalho acadêmico sobre a obra do violeiro Elomar, disponível para download no endereço acima.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Novos Baianos – Acabou Chorare

Acaba de sair um livro de autoria de Moraes Moreira com a sua versão para a história do criativo grupo/comunidade Novos Baianos, surgido na virada dos anos 1960/1970 em meio ao terror estabelecido pela sangrenta ditadura militar que assombrava nosso país. Soube do livro pelo programa Espaço Aberto – Literatura (Globo News/Net) com o sereno jornalista Edney Silvestre, e fiquei a recordar os meus primeiros contatos com a obra do conjunto de cabeludos, sujos e largados. Verdadeiros hippies.

Entre os incontáveis discos de vinil que meu pai possuía, havia o antológico “Novos Baianos – Acabou chorare”. Álbum de capa dupla com diversas fotos dos numerosos integrantes no sítio que ocupavam em Jacarepaguá. Eu ficava espantado (tinha então uns seis ou sete anos de idade) com o estilo despojado, alegre, descontraído e sem maiores caprichos com a aparência que eram parecidos com as primeiras idas da minha família para Figueira, em Arraial do Cabo, no final da década de 1970. Lugar que na época não tinha energia elétrica, anoitecia e ficávamos sob a inconstante luz do lampião de querosene, ausência de água encanada conseguida através de uma bomba manual à qual os adultos tinham que ficar agachados para “tentar” tomar banho. A comida era feita em um fogão de tijolos e todas as pessoas ficavam amontoadas em barracas. Bons tempos em vida comunitária, mesmo que fosse por poucos dias.

Diante de tais semelhanças, logo de cara construí uma simpatia por aquela desconhecida galera. Peguei o disco e coloquei na minha vitrolinha portátil Philips. Era um aparelho que, quando fechado, parecia uma maletinha, quando aberto posicionava-se a caixa de som que ficava presa à tampa.

Os Novos Baianos chegaram ao Rio de Janeiro em 1971 e iniciaram sua experiência comunitária em uma cobertura na zona sul e um belo dia receberam a visita de João Gilberto, um dos grandes nomes da bossa nova. Esse contato faria com que o grupo ampliasse suas influências no clássico álbum “Acabou chorare”, um dos mais antropofágicos discos da música brasileira, e a bossa nova faz-se na música-título, composição de Galvão e Moraes, tanto no som quanto na letra:

“Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo”

Depois, o grupo estabeleceu-se no famoso sítio de Jacarepaguá onde uniu música, futebol e vida alternativa. Tudo com muito humor e alegria, contrastando com a barra pesadíssima da sanguinária passagem do ditador Médici pelo poder usurpado, e os versos iniciais de Brasil Pandeiro (composição de Assis Valente), “Chegou a hora dessa gente / bronzeada mostrar seu valor”, retratam a coragem e ousadia dos integrantes ou como canta Baby em “Tinindo trincando” (composição de Moraes e Galvão), mostrando o espírito que norteava o grupo:

“Eu vou assim
E venho assim

Porque quem invade não
não chega não
chega não porque pera aí
sou mesmo assim
sou mesmo assim
sou mesmo assim
assim”

Entretanto, nessa transição que desencadearia no movimento do desbunde, a experiência no sítio, a idealização e tentativa de concretização do sonho da contracultura em levar uma vida libertária a enfrentar o sistema capitalista pela mudança de comportamento, e não se associando ao radicalismo da esquerda que na época vivia o auge da luta armada, Moraes Moreira na entrevista a Edney Silvestre relata que a experiência foi bem sucedida até a chegada dos filhos do grupo. Aí, a falta de grana começou a pesar e o sonho do flower power tropical começou a ruir.

Para combater o inferno astral do período, “Besta é tu” (composição de Galvão, Pepeu Gomes e Moraes Moreira) convoca a todos a buscar um novo olhar perante a realidade estabelecida:

“Besta é tu, besta é tu
Besta é tu, besta é tu

Não viver nesse mundo, se não há outro mundo

(Por que não viver?)
Não viver nesse mundo
(Porque não viver?)
Se não há outro mundo
(Por que não viver?)
Não viver outro mundo

E pra ter outro mundo, é preci-necessário
Viver, viver contanto em qualquer coisa
Olha só, olha o sol. O maraca domingo. O perigo na rua

O brinquedo menino
A morena do Rio, pela morena eu passo o ano olhando o Rio
Eu não posso com um simples requebro
Eu me passo, me quebro, entrego o ouro

Mas isso é só porque ela se derrete toda só porque eu sou baiano”


Galvão, inspirado, para confundir a censura, a caretice de direita e esquerda, defini-se em “Mistério do planeta”:

“Vou mostrando como sou e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.
Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta.

O tríplice mistério do "stop", que eu passo por
e sendo ele no que fica em cada um.
No que sigo o meu caminho e no ar que fez e assistiu.
Abra um parênteses, não esqueça que independente disso
eu não passo de um malandro.
De um moleque do Brasil, que peço e dou esmolas.

Mas ando e penso sempre com mais de um,
por isso ninguém vê minha sacola.”

No disco encontramos frevo, samba, bossa nova, rock’n’roll e outras citações sonoras exploradas com ousadia e competência por Moraes, Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi, Jorginho Gomes, Baixinho e Bolacha num intenso diálogo com as idéias tropicalistas de Gil, Caetano e Mutantes. Talvez a melhor fusão do rock com ritmos brasileiros já feita por aqui.

Para termos uma noção da recepção do álbum “Acabou chorare” pela crítica, cito o que Torquato Neto, compositor, músico, ator, jornalista, poeta e um dos pilares do tropicalismo ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso, escrevia entusiasmado a respeito do grupo:

“Essa é pra ninguém perder: o Teatrão da Siqueira Campos vai apresentar hoje, à meia-noite, um superconcerto dos Novos Baianos, o conjunto (conjunto?) mais ligado desta banda de cá. Quem se amarra neles não pode, mesmo, perder. Quem não se amarra está por fora e é muito bom entrar nessa dança: vamos lá: é no Teatrão, à meia-noite, hoje, hoje, hoje.” (NETO, 22/10/71. p. 123)

Em outra nota de sua famosa coluna Geléia Geral, no jornal Última Hora, Torquato Neto extravasa toda a sua empolgação com o show citado acima, em uma simpática forma de escrever. E creio que tenha sido uma experiência além do que retratou:

“Eu não estou sabendo de nada mais importante pra ser curtido do que o show dos Novos Baianos. Todo mundo já sabe: começa hoje e vai até domingo, no Teatrão da Siqueira Campos, vulgo Teatro Teresa Raquel. Um concerto hoje, outro amanhã e dois no domingo: dá de sobra pra ninguém arranjar desculpas: se querem ficar por fora, fiquem, mas fiquem sabendo que a transa dos Novos Baianos é o que existe de melhor, mais limpo e integralmente porreta entre tudo o que está pintando por aí depois do show da Gal.” (NETO, 29/10/71. p. 131)

Fui crescendo ao som de “Acabou chorare”, chegou o Rock in Rio em 1985, estavam lá Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Moraes Moreira. Além da gravidez de Baby, o fato que mais me marcou das apresentações dos antigos representantes do grupo naquele festival foi o solo de guitarra arrasador de Pepeu Gomes na chamada “noite dos metaleiros”. Aliás, considero Pepeu o mais criativo guitarrista do Brasil! Seu disco instrumental “A geração do som”, gravado no final dos anos 70, é uma pérola perdida da mistura rock e ritmos brasileiros, não devendo nada a álbuns de Stevie Vai, Joe Satriani e Ingwie Malmsteen.

Portanto, coloco “Acabou chorare” como um dos melhores álbuns de todos os tempos da música popular brasileira, fundamental na década de 1970 e que marca uma época em que a transgressão e a utopia andavam de mãos dadas. Uma referência cultural que jamais poderemos perder.

Bom, este texto foi motivado pelo livro de Moraes que ainda nem vi, mas que pretendo comprá-lo em breve. Em Uma outra história dos novos baianos e outros versos, lançado pela Editora Língua Geral, Moraes escolheu o estilo da literatura de cordel para narrar a sua versão da história do grupo. Uma opção interessante e agradável. A literatura de cordel já rendeu ótimos exemplos nas nossas letras. Inspirou João Cabral do Melo Neto, com o obrigatório “Morte e vida Severina”, e contou com a simpatia do respeitável poeta Ferreira Gullar em sua passagem pelo CPC da UNE, no raiar da década de 1960.

Para quem quiser conhecer uma outra versão da história dos Novos Baianos, basta procura o livro Anos 70 – Novos e Baianos, de Luiz Galvão, pela Editora 34.

A seguir, alguns vídeos raros que estão no Youtube com músicas de Acabou Chorare. É só curtir!

Riso

A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=mqcq4wwjL8o&feature=related

Brasil pandeiro
http://www.youtube.com/watch?v=jY3cppFA3aQ&feature=related

Mistério do planeta
http://www.youtube.com/watch?v=WWfseMcAUZY&feature=related

Preta pretinha
http://www.youtube.com/watch?v=2eomEoNO4qc&feature=related

Novos Baianos e Marisa Monte – A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=H3E_JrEKFvQ&feature=related



BIBLIOGRAFIA:
NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. Ed. Aeroplano. 1973.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Habana Blues

Habana Blues (2005)
Direção: Benito Zambrano
Elenco: Alberto Joel García Osorio, Roberto Sanmartín, Yailene Sierra, Tomás Cao Uriza, Zenia Marabal, Marta Calvó, Roger Pera.

Um filme baseado na música cubana traz logo à mente o belo Buena Vista Social Club, com suas salsas, merengue e tais de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e outros. Uma Havana que podemos dizer folclórica. Felizmente, isto não acontece na película de Benito Zambrano, Habana Blues, que retrata a cena underground contemporânea de Havana, com muito rock, reggae, rap, heavy metal e outras misturas (Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga, do Planet Hemp, lembra? É por aí.) em meio à amizade de dois músicos que vêm seus caminhos sendo separados quando aparece a oportunidade de deixar o país e tocar no exterior.

Tito (Roberto Sanmartin) e Ruy (Alberto Joel Garcia Osorio) são os personagens principais de um filme que possui caráter quase documental ao apresentar os sons feitos pela juventude e a decadência do país. A partir do convite feito por uma dupla de produtores espanhóis, que pretende levá-los para a Espanha, os dois amigos percebem a esperança de vencer na música, sair da ilha e ter uma vida com mais liberdade e sem a miséria que ronda suas vidas.

Contudo, a proposta é baseada em condições que prendem os artistas ao contrato: receberão uma pequena porcentagem, terão que mexer nas músicas e, no exterior, deverão fazer propaganda anti-castrista, ou seja, tornar-se-ão escravos de um capitalismo feroz. A partir daí, os dois amigos ficam com a amizade abalada pela escolha de diferentes caminhos. Tito é jovem, solteiro, detesta as condições de vida oferecidas pelo sistema político cubano. Sente-se sufocado pela falta de liberdade e pelas dificuldades financeiras para produzir música e sobreviver. Enquanto Ruy tem um relacionamento conturbado, próximo da ruptura, com a esposa Caridad (Yailene Sierra), mãe de seus dois filhos, que não agüenta a incerteza da vida de Ruy.

O filme mostra o dilaceramento das vidas de uma geração que presencia o pior momento do socialismo em Cuba, que não possui mais a ajuda financeira da extinta União Soviética e sofre com o perverso bloqueio econômico norte-americano. São pessoas que sentem que suas vidas serão desperdiçadas enquanto estiverem na ilha, tendo que agüentar a falta de energia, bicos que podem envolver contrabandos para aumentar os parcos salários, o telefone comunitário, a cidade em ruínas.

A condição insular só piora a situação dos personagens. Caridad resolve abandonar Ruy e encarar o perigo de uma viagem clandestina rumo a Miami com seus filhos. Tito, desesperado com a recusa do parceiro em ir para a Espanha, briga com o amigo e ameaça denunciar os produtores espanhóis caso a viagem seja cancelada. E Ruy, perdido e confuso com os recentes acontecimentos, vivencia a contradição de continuar com a sua carreira incerta no país, a vontade de partir, mas sem se vender à exploração capitalista, pois como diz: “Eu já traí muita gente na vida, mas minha música não”, além da impotência em reconquistar a esposa e nada fazer para impedir a viagem. Com tudo isso acontecendo com as pessoas mais importantes em sua vida, agarra-se ao show de lançamento da banda em um teatro decadente de Havana, tentar aparecer no cenário cubano e, assim, permanecer no país.

O problema é que o personagem de Ruy é indeciso, um tanto estranho. Aceita com passividade que sua mulher vá para os EUA com seus filhos. Mesmo quando rompeu o contrato com os espanhóis, alegando que não serviria ao neoliberalismo, não apresenta em outras passagens maiores preocupações políticas. E o seu desejo de sair não é tão forte quanto o de Tito. Ruy talvez retrate bem os jovens de hoje.

Ao expor as contradições de uma juventude desencantada com o país, Benito Zambrano realizou um filme comovente e triste que denuncia a situação atual de Cuba. Contudo, não apresenta alternativas à realidade cubana, fica apenas nas imagens de pobreza e decadência da cidade e no vazio da existência indefinida de Ruy. O que não deixa de ser um sentimento típico dos jovens dos países periféricos, que percebem seus países assolados pela corrupção, miséria, violência e distopia. Mas o que fazer diante de tanta desilusão?

Riso

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Secos & Molhados: Quem tem consciência para ter coragem

Ontem, durante um papo com minha inteligentíssima amiga Norma Lima, comentamos sobre a banda Secos & Molhados e a nossa admiração por ela. Logo, decidi escrever este post em homenagem a tão escandalosa e criativa banda, que teve uma passagem meteórica pelo sombrio Brasil dominado pelo ditador E. G. Médici.

O conjunto, com sua formação clássica, gravou apenas dois discos entre 1973/1974 e entrou para a história da música brasileira. Primeiro pelo impacto visual com rostos pintados, roupas coloridas e despojadas, visual andrógino, principalmente com o vocalista Ney Matogrosso; e segundo, pela qualidade fantástica dos arranjos, pelos timbres alcançados por Ney e o cuidado com as composições. Essa mistura de visual colorido com ótima música era algo comum à época em artistas estrangeiros como David Bowie, Marc Bolan (T-Rex), um pouco do Lou Reed pós-Velvet Underground e o Kiss. Nomes que ficaram agrupados na alcunha glam rock, e para quem quiser conhecer mais sobre tal fase, basta ver o filme Velvet Goldmine (direção Todd Haynes).

Os Secos & Molhados, em sua formação clássica, era formado pelo já citado Ney, João Ricardo (principal compositor, violão, harmônica e voz), Gerson Conrad (violão e voz) e Marcelo Frias (bateria e percussão). O primeiro e melhor álbum foi gravado e lançado em maio/junho de 1973, no ano seguinte saiu o segundo e derradeiro disco. Depois, a banda ainda tentou continuar com diversas formações, mas não chegou nem perto do nível atingindo nos dois primeiros LP’s. Por isto, enfatizarei o disco seminal.

Em meio à amargura, desilusão, medo e solidão impostos pela ditadura, as composições do álbum Secos & Molhados eram um alento aos corações e mentes sufocados e encurralados pelo terror. Em belas e inusitadas alegorias, as letras dos Secos & Molhados denunciavam o clima tenso e a asfixia vivenciada no período. Todavia, a resistência não deixava de ser cantada em forma metafórica, apesar do forte patrulhamento, dos presos e dos desaparecidos, das mutilações físicas sofridas nos porões da ditadura. Assim dizem os versos de “Primavera nos Dentes” (João Ricardo – João Apollinário), um autêntico rock’n’roll:

"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera"

A ruptura com os valores estabelecidos, dando continuidade à mudança de comportamento iniciada pelos tropicalistas, o desejo de liberdade por um mundo justo e igualitário são apresentados por metáforas que compõem o elemental ar, como o grito que estava sufocado na garganta, às vezes a esperança, às vezes o desespero:

“(...)
Rompi tratados,
traí os ritos.
Quebrei a lança,
Lancei no espaço:
Um grito, um desabafo.
E o que me importa
É não estar vencido.”
(Sangue Latino – João Ricardo e Paulinho Mendonça)

“leve como leve pluma
muito leve leve pousa
na simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
(...)
simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
que em mim amadurece”
(Amor – João Ricardo e João Apollinário)

“eu solto o ar
no fim do dia
perdi a vida”
(O patrão nosso de cada dia – João Ricardo)

Os vôos da imaginação surgem, espaço libertador por excelência, a vontade de voar e ser livre apresenta-se trazendo a paz que virá em um novo amanhecer:

“ cada um dos
4
como num teatro
voem
pombas
(pombas
brancas)
... e amanheça”
(Prece Cósmica – João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Entretanto, não há flores, não há paz. O clima é tenso, pesado, cruel. O desamparo e o desespero rondam as mentes. O grito das andorinhas é de agonia. A ausência da nota musical Sol, pode indicar a falta de luz do astro Sol em um período dominado pelas trevas. Vale frisar a experiência formal na construção do poema de Antonio Nobre:

“-Nos
-fios
-ten
-sos
-da

-pauta
-de me-
tal

-as
-an/
do/
ri/
nhas
-gri-
tam
-por
-fal/
ta/
-de u-
ma
-c’la-
ve

-de
-sol”
(As andorinhas – Antonio Nobre, João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Grandes nomes da poesia brasileira têm poemas musicados. A ironia ao poder e novamente ‘a aérea esperança’ em “Rondó do Capitão”, de Manuel Bandeira, e a bela versão da pacifista “Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Moraes:

“Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A área esperança...
Área, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!”
(Rondó do capitão – João Ricardo e Manuel Bandeira)

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada”

(Rosa de Hiroshima – Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)

A ironia também está acompanhada do flerte com o homossexualismo, o que era muito comum para os artistas da época, pois consideravam como parte do comportamento transgressor. Heloísa Buarque de Hollanda em Impressões de Viagens, afirma que no início dos anos 1970, período chamado por ela de pós-tropicalismo, as experiências não se restringem apenas ao campo das artes, mas, sim, ao próprio cotidiano e corpo do artista que passam a ser experimentalizados. Daí o uso abusivo das drogas, o apreço com a marginalidade e com todo o seu significado de banditismo, as experiências homossexuais, o isolamento e o suicídio. Torquato Neto é o exemplo clássico da asfixia à qual o país estava submetido.

Entretanto, as composições do Secos & Molhados até flertavam com algumas características do período, mas não compartilhavam com o clima pesado de um governo ilegal que implantara o terror como ordem do dia aos seus habitantes. A solidão passa a ser a companheira, o afastamento e o individualismo é quase que obrigatório: ‘Eu já não sei se sei / de nada ou quase nada / eu só sei de mim / só sei de mim / só sei de mim’ (O patrão nosso de cada dia). Músicas como “O vira”, “El Rey” e “Assim assado” já prenunciavam o desbunde que se fortaleceria no decorrer da década, com seus versos carregados em deboche.

Diante de anos tão conturbados, nada mais natural que a preocupação com os descendentes que em breve nascerão seja demonstrada. Em “Mulher barriguda”, apreendemos a angústia em trazer uma nova vida para um mundo envolto em guerras (como a do Vietnã e as dos países africanos) e em ditaduras latino-americanas (brasileira e chilena, por exemplo). Os sonhos esgarçados, as derrotas sofridas e o recrudescimento do sistema opressor após o AI-5 no final de 1968 deixam as mentes confusas e desorientadas, porém persiste esperança na metáfora do dia seguinte, de que o pesadelo um dia acabará:

“Mulher barriguda que vai ter menino
Qual o destino
Que ele vai ter?
Que será ele
Quando crescer?

Haverá guerra ainda?
Tomara que não,
Mulher barriguda,
Tomara que não...”

O disco encerra-se com “Fala”, canto desesperado contra a tortura e toda e qualquer forma de repressão. O silêncio como forma de resistência e ação política, perante os gritos assustadores e insistentes dos famigerados torturadores, que tentam arrancar uma confissão qualquer durante os intermináveis e violentos interrogatórios feitos aos opositores do regime ou não. Porque o Poder, quando baseado na força, encontra inimigos até entre os seus aliados, pois o que interessa é manter o estado permanente de medo. São agonizantes os gritos de Ney Matogrosso escorados em um belo arranjo:

“Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala
Fala

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto

Fala
Fala"
(Fala – João Ricardo e Lulli)

Para finalizar, só tenho a dizer para quem não conhece o disco Secos & Molhados que compre a obra ou faça o download na Internet. A seguir, listei alguns endereços com vídeos e registros em mp3, desta banda histórica na nossa cultura. É muito som!!!

Riso


Mp3
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=6244330&tid=2444409808218177754

Vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=wIyvM9Ce7mM
http://www.youtube.com/watch?v=HK_msOCc0II
http://www.youtube.com/watch?v=6S-x6W82z04

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O descontrolado Ian Curtis


Cantor-poeta é retratado com brilhantismo em filme
Texto publicado em http://www.cinemacafri.com/filme.jsp?id=1239

Para encerrar a maratona de filmes proporcionada pelo Festival do Rio, resolvi, como fã assumido do Joy Division e da poesia angustiante de Ian Curtis, rever Control (Controle – a história de Ian Curtis), primeiro filme de Anton Corbijn, famoso pelos clips de U2, Depeche Mode e outras bandas dos anos 1980. O longa-metragem é inspirado no livro Touching from a distance de sua esposa Deborah Curtis e procura retratar o ambiente inglês da década de 1970, daí a opção acertada do diretor pelo preto e branco.

O ator Sam Riley está impecável no papel de Ian Curtis, pois consegue captar o jeito arredio, isolado, triste e inquieto de um jovem em constante crise existencial. Reconhecemos os sons que faziam a cabeça do cantor-poeta como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed, ou seja, alguns dos principais nomes do que ficou conhecido como glam rock, Sex Pistols entre outras bandas. Vemos o início de seu relacionamento com Deborah Curtis, o precoce casamento, o bizarro emprego onde atende pessoas tão problemáticas quanto ele, o nascimento da filha, os momentos de inspiração para os poemas que seriam futuras músicas do Joy Division, o início da banda com o nome Warszawa, os shows, o contrato com a Factory, a amante linda e a crescente angústia com a aproximação do sucesso e a indecisão típica de uma mente conturbada.

Talvez os grandes momentos do filme estejam nas clássicas apresentações da banda e das performances de Ian Curtis sobre o palco, com sua dança única que inspirou vários vocalistas dos anos 1980, inclusive aqui no Brasil, basta lembrarmos de Renato Russo. Está lá o lendário ataque epilético de Curtis durante uma apresentação, problema que o deprimia, a conseqüente ovação da platéia e o estímulo do produtor Tony Wilson (personagem principal de 24 Hour Party People - A festa nunca termina, filme que também retrata Curtis e o Joy Division) que afirma sobre o caráter positivo que tal acontecimento terá para o grupo junto à mídia e público. Em contrapartida, um desesperado Ian declara o quanto é difícil para ele estar sobre o palco, o quanto se dá, o quanto se entrega. É a pressão da fama a encurralar o artista.

Ingenuidade e precipitação acompanharam a trajetória do sensível Ian em algumas passagens da sua conturbada e curta vida, que vão desde o pedido de casamento inesperado ao rompimento com a esposa, o posterior pedido para retomar a relação e a opção pelo suicídio após a frustrada tentativa de reconciliação às vésperas da primeira turnê pelos EUA, o que os levaria sem sombra de dúvidas ao estrelato.

Control vale como documento histórico de uma personalidade marcante e criativa, da banda que tinha tudo para dominar a década de 1980, fato que, de certa maneira, se concretizaria com o New Order, sendo este bem menos depressivo. Ian Curtis e Joy Division praticamente moldaram o espírito da época com uma sonoridade estridente e temas existenciais, como seriam comuns em The Cure, Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, The Mission e tantas outras bandas inglesas.

Control é uma bela homenagem ao descontrolado Ian Curtis.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Controle – a história de Ian Curtis

O Festival do Rio traz finalmente o novo filme sobre a vida do vocalista Ian Curtis, da lendária banda inglesa Joy Division, intitulado “Controle – a história de Ian Curtis” (Control), direção do estreante Anton Corbijn, e baseado no livro “Touching From A Distance” escrito pela viúva do músico Deborah Curtis.

O Joy Division foi um grupo fundamental para compreender a cena do rock no decorrer dos anos 1980, mais precisamente o cenário inglês da cidade de Manchester, e a fusão do rock com o eletrônico. De curtíssima duração, surgiu no meio da onda punk em 1979, e deixou lendárias apresentações com direito a ataques epiléticos de Ian Curtis. A banda formou uma legião de fãs enquanto durou até o suicídio de seu vocalista e principal compositor em 1980.

Arredio, solitário e um tanto estranho: Ian Curtis. Suas letras eram carregadas de um lirismo depressivo, angustiante, com temáticas obscuras fortalecidas por uma sonoridade incômoda que influenciou diversas bandas de Manchester. Happy Mondays, Stones Roses... e, claro, New Order. Este, aliás, se tornou um dos mais influentes grupos dos últimos anos e foi formado pelos outros quatro integrantes do Joy Division, que partiram para um som mais eletrônico, porém ainda guardando um certo ar sombrio nas composições, herança de Curtis.

Apesar de sua rápida passagem por este plano, a beleza das composições de Ian Curtis imortalizaram-no, como ficou comprovado com o excelente álbum, que acabou póstumo, “Closer”, lançado três meses após a sua morte aos 23 anos de idade.


Controle, a história de Ian Curtis
Titulo Original: Control
Direção: Anton Corbijn
País: Reino Unido
Ano: 2007
Duração: 119min

Sinopse: Os últimos anos da vida de Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa Joy Division. Curtis, que teve uma trajetória curta e intensa, ficou famoso por seu talento de letrista e por suas performances épicas à frente da banda. Sofrendo com os ataques de epilepsia, sem saber como lidar com o seu talento e dividido entre o amor por sua mulher e filha e um caso extraconjugal, ele se enforcou em 18 de maio de 1980, aos 23 anos. Baseado no livro de Deborah Curtis, viúva do cantor. Menção Especial na Camera de Ouro da Quinzena dos Realizadores em Cannes 2007.

Mostra: Midnight Movies
Domingo - 30/09/2007 Espaço de Cinema 1 23:30:00 hs EC164
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 16:30:00 hs PL242
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 21:30:00 hs PL244
Quinta - 04/10/2007 Est Barra Point 2 19:00:00 hs BP255


Composições

Love Will Tear Us Apart

When routine bites hard,
And ambitions are low,
And resentments ride high,
But emotions won't grow,
And we're changing our ways, taking different roads.

Then love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.

You cry out in your sleep,
All my failings exposed.
And there's a taste in my mouth,
As desperation takes hold.
Just that something so good just can't function no more.

But love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.


Atmosphere

Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.

Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away


I Remember Nothing

We were strangers.
We were strangers, for way too long, for way too long,
We were strangers, for way too long.
Violent, violent,
Were strangers.

Get weak all the time, may just pass the time,
Me in my own world, yeah you there beside,
The gaps are enormous, we stare from each side,
We were strangers for way too long.

Violent, more violent, his hand cracks the chair,
Moves on reaction, then slumps in despair,
Trapped in a cage and surrendered too soon,
Me in my own world, the one that you knew,
For way too long.
We were strangers, for way too long.
We were strangers,
We were strangers, for way too long.
For way too long