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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ricardo Riso participa de mesa-redonda - SESC/Engenho de Dentro

Hoje participarei de uma mesa-redonda às 18h, no SESC Engenho de Dentro, que antecipará a encenação da peça O AUTO DA ESCRAVA ANASTÁCIA, com início às 19h. Para este evento, abordarei a figura do contratado nas ilhas de São Tomé e Príncipe, presente na poesia de Angola, Cabo Verde e São Tomé.

A peça O AUTO DA ESCRAVA ANASTÁCIA (Direção artística de Ricardo Andrade Vassilievitch, pesquisa e consultoria de Nágila Oliveira dos Santos) trata-se de uma leitura cênico-musical da história da personagem, misto de mártir, heroína e santa que permeia o imaginário popular brasileiro como símbolo de resistência da população negra. Será encenada hoje, às 19h, e no dia 20/11 – às 15h, em comemoração ao Dia da Consciência Negra. Grátis.

O Sesc Engenho de Dentro fica na Avenida Amaro Cavalcanti, 1661.

Abraços,
Ricardo Riso

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Palestras Ricardo Riso - UERJ e UNESA (2)

Encerrei ontem três palestras ministradas por mim, extremamente gratificantes. As duas primeiras aconteceram como encerramento do curso de extensão História da África Antiga, promovido pelo Núcleo de Estudos de Antigüidade - NEA/UERJ, com a apresentação da "poesia cabo-verdiana: do mito hesperitano aos dias atuais”, sendo o mito hesperitano o assunto que teve maior acolhida entre a platéia, historiadores em sua maioria.

Palestra sobre a poesia cabo-verdiana no encerramento do curso História da Africa Antiga/NEA-UERJ, no dia 01/11/2008. Ao meu lado superior direito, uma máscara antílope, curiosa como sempre.

Agradeço ao prestativo e atencioso Prof. Cristiano Bispo pela oportunidade oferecida e ao excelente curso ministrado por ele.



Durante a palestra sobre literatura e artes plásticas de Angola, Cabo Verde e Moçambique - Semana de Letras 2008/Universidade Estácio de Sá, em 04/11/2008

Após ter apresentado-me em algumas instituições, finalmente chegou o momento de mostrar minha pesquisa com as artes plásticas e literaturas dos países africanos de língua portuguesa na UNESA. Preparei um amplo panorama das artes em Cabo Verde, Moçambique e Angola, privilegiando neste a produção pós-1980 com Onjaki, João Tala, Antonio Olé, Yonamine, E. Bonavena e outros; naquele o lirismo e o onírico em Mia Couto, Roberto Chichorro e Naguib; e em Cabo Verde, a geração claridosa, a resistência de Ovídio Martins e pinturas de Kiki Lima, dos irmãos Manuel e Tchalê Figueira.


Parte da platéia durante a palestra na Semana de Letras

Agradeço a participação do público nos dois lugares. Aos estacianos de ontem e de hoje, à contribuição da Denise e aos amigos Professores: Gilda, Marta Faraco, Accacio, Carmen Lucia Tindó Secco, Simone Caputo Gomes e, principalmente, Norma Lima. Não estenderei a lista para não ficar cansativa, mas outros nomes foram e são de extrema importância para mim.

Disponibilizei na web as apresentações feitas no Power Point. Para vê-las, basta clicar nos endereços abaixo:

http://www.slideshare.net/risoatelie/semana-de-letras-2008-letras-e-telas-de-angola-presentation/

http://www.slideshare.net/risoatelie/semana-de-letras-2008-letras-e-telas-de-moambique-presentation/

http://www.slideshare.net/risoatelie/semana-de-letras-2008-letras-e-telas-de-cabo-verde-presentation/

Muito obrigado!
Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 4 de novembro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

UFRJ - Kiki Lima, palestra cancelada

De acordo com e-mail da Profa. Carmen Lucia Tindó Secco,

o pintor Kiki Lima não mais irá à UFRJ no dia 1 de dezembro.

Ricardo Riso

*E-mail recebido no dia 30 de outubro, às 19h06.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Palestras Ricardo Riso - UERJ e UNESA

Farei duas palestras nos próximos dias. A primeira, intitulada Breve panorama da literatura cabo-verdiana, acontecerá nos dias 30/10 - às 17h, e 01/11 - às 10h, na sala RAV-94, em uma mesa-redonda que encerrará o curso de extensão História da África Antiga, ministrado pelo Prof. Ms. Cristiano Bispo, patrocinado pelo Núcleo de Estudos Antigos (NEA)/UERJ.

A segunda será durante a Semana de Letras 2008 – Universidade Estácio de Sá/campus Millôr Fernandes. Apresentarei a palestra Diálogos possíveis: letras e telas de Angola, Cabo Verde e Moçambique, dia 04/11, às 21h (sala ainda não definida).

A seguir, a programação da Semana de Letras 2008.

Abraços,
Ricardo


03/11/2008 - 2ª feira

ABERTURA
LOCAL: Biblioteca
19:30 – Abertura
Prof. DEONÍSIO DA SILVA
DIRETOR DO CURSO DE LETRAS

04/11/2008 – 3ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30: - LEONARDO BERENGER ALVES CARNEIRO
“Mary England”

LOCAL: Sala XXX
19:30: - Profª ANA CRISTINA COUTINHO VIEGAS
“Oficina de Leitura”

LOCAL: Biblioteca
21:00 – Profª MARTA NASCIMENTO FARACO PIMENTEL
“Neologismos nas charges e nas histórias em quadrinhos dos jornais cariocas: uma abordagem léxico-semântico-discursiva”

LOCAL: Sala XXX
21:00 – Aluno RICARDO SILVA RAMOS DE SOUZA
“Diálogos possíveis: letras e telas de Angola, Cabo Verde e Moçambique”


05/11/2008 - 4ª feira

LOCAL: Biblioteca
Prof. CARLOS ALBERTO STOWASSER SANTOS
19:30 - "A identidade feminina na obra de Florbela Espanca".

LOCAL: Sala XXX
19:30 – Profª GILDA KORFF DIEGUEZ
Apresentação do trabalho de pesquisa: “O realismo fantástico na literatura”
Aluna DAYANA MENDES LOPES
Aluna FABIENNE BRUCE OLIVEIRA


“LOCAL: Biblioteca
21:00 - Prof PEDAGOGIA

LOCAL: Sala XXX
21:00 – Aluna ANA PIÑON
“Novela picaresca espanhola” ou “Quixote”

06/11/2008 - 5ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30 – ROSANGELA SALVIANO
“Título”

LOCAL: Sala XXX
19:30 - Profª NORMA LIMA
“O docente e a Lei 10.639, que instituiu o ensino da Cultura Afro-Brasileira nas escolas públicas e privadas”.

LOCAL: Biblioteca
21:00 – Prof. MARIA DA CONCEIÇÃO GUERRA DE MORAES
"Pablo Neruda e Nicolás Guillén: poetas da liberdade"

LOCAL: Sala XXX
21:00h – RUBEN MARCELINO BENTO DA SILVA
“Poesia Práxis: Adailton Medeiros”

07/11/2008 - 6ª feira

LOCAL: Biblioteca
19:30 Prof. IVO LUCCHESI
“Do código verbal ao audiovisual: um caminho sem volta”

LOCAL: Sala XXX
19:30 – Prof. ACCACIO JOSÉ PINTO DE FREITAS
“Oficina de Leitura de Poesia: campo semântico”

Local: Biblioteca
21:00 – Aluno LEONEL ISAC VELLOSO
“Sousândrade: a margem e a errância”

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pepetela e Ondjaki na UFRJ

MESA-REDONDA

com os escritores angolanos

PEPETELA


e

ONDJAKI


17 de novembro, às 9h, Aud. G-1
Faculdade de Letras da UFRJ

Apoio Setor Cultural – F. Letras-UFRJ


*E-mail gentilmente enviado pela Profa. Carmen Lucia Tindó Secco no dia 25 de outubro de 2008, às 11h14.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Karin Barber - curso e palestra

Karin Barber
Fellow of the British Academy. Catedrática de Antropologia Cultural Africana no Centre of West African Studies, Universidade de Birmingham - Inglaterra. Editora da revista Africa do International African Institute.

Viveu e trabalhou durante onze anos na Nigéria, lecionou em língua iorubá no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé e, como integrante da Companhia de Teatro Oyin Adejobi, atuou em várias peças de teatro em língua iorubá no palco e na televisão. É autora de I could speak until tomorrow: Oriki, Women and the Past in a Yoruba Town (1991), que recebeu o prêmio Amaury Talbot do Royal Anthropological Institute; The Generation of Plays: Yoruba Popular Life in Theatre (2000), premiado com o Herskovits Award pela African Studies Association dos Estados Unidos; e The Anthropology of Texts, Persons and Publics (2007).

Curso:
TEXTO, ORALIDADE E CONSTRUÇÃO DA PESSOA NA ÁFRICA SUBSAARIANA
11 de agosto a 14 de agosto

Professora: Karin Barber
Dia 11/08, 19h00 às 21h30:
Oralidade como texto e a textualidade do oral

Dia 12/08, 19h00 às 21h30:
A complexidade dos textos orais e as modalidades de interpretação locais

Dia 13/08, 19h00 às 21h30:
Louvação e construção da pessoa

Dia 14/08, 19h00 às 21h30:
O trânsito entre o oral e o escrito no cotidiano africano

Local: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Auditório Banespa – andar térreo. Rua Ministro Godoy, 984, São Paulo – SP
Informações e inscrições – (11) 3801-1718


PALESTRA
O teatro popular iorubá e sua concepção da modernidade
Dia 09 de agosto de 2008 – sábado – 10h às 12h30

Local: Casa das Áfricas
Rua Eng. Francisco Azevedo, 524 (metrô Vila Madalena)
Informações e inscrições – (11) 3801-1718

http://www.casadasafricas.org.br/

Realização: Casa das Áfricas, NIME/LAB-USP.

Co-realização: Centro de Estudos Africanos-USP, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP e Departamento de Antropologia da PUC/SP

quinta-feira, 13 de março de 2008

Mia Couto: Três fantasmas mudos para um orador luso-afónico

O orador avisado faz uso de toda a estratégia para considerar o tema da palestra como sendo do domínio do impossível. Neste caso, sucedeu o inverso: o tema é que tornou impossível o orador. Identidade, língua, marcas culturais: são três fantasmas partilhando a mesma cama. E quando se entra no quarto, acreditando surpreendê-los em flagrante delito eis que descobrimos que não há cama, nem quarto, nem amantes.

Corremos o risco de somar aos três anunciados fantasmas um outro inesperado. Esse outro fantasma sou eu mesmo. Venho de longe, para muitos de vocês sou um escritor desconhecido. Sou moçambicano e Moçambique é do domínio das miragens. Tenho uma pronúncia que, aos ouvidos da maioria dos brasileiros, me atira para a identidade de um “português”.

O mais fácil, pensei eu, seria começar por desvanecer o meu estatuto fantasmagórico. E é isso que tentarei fazer. Irei falar não de mim, mas da língua portuguesa em Moçambique, da errante identidade de uma literatura moçambicana e de marcas culturais brasileiras em sucessivas gerações de escritores moçambicanos.

O centro da minha intervenção, porém, será a questão da identidade. Ou das identidades no plural. Escolhi falar deste tópico exactamente porque as identidades não são faláveis. Elas são esquivas, fortuitas, inventadas. As identidades não são nomes. São verbos que se enunciam sempre no futuro. Recorro a um provérbio dos macuas, um povo do norte de Moçambique. E o provérbio diz assim:

Não fales sobre Deus porque Deus é como o ovo. Se apertas muito ele quebra; se não agarras bem ele cai.

A mesma condição volátil contamina o tema da nossa conversa de hoje.

A alguns de vocês terão visto o filme de Vítor Lopes sobre a Língua Portuguesa onde aparecem João Ubaldo, José Saramago, Martinho da Vila e outros. Quando dei o depoimento para este filme eu estava na Ilha da Inhaca, onde durante anos trabalhei como biólogo na Estação de Biologia da Universidade Eduardo Mondlane. (não só escritor, também sou uma pessoa séria...) Pois nessa ilha passou-se o seguinte (fala de improviso):

Certa vez eu estava no cais de saída para a capital quando vi chegar, num outro barco, que eu conhecera em Nápoles, um apaixonado pela África que vinha pela primeira vez a Moçambique. Ele não sabia uma palavra de português e viajava por sua conta para a ilha de Inhaca, durante a minha ausência. Na despedida, ele a si mesmo se consolou: “pois nós os italianos falamos muito com as mãos, vocês aqui também usam muito gesto, eu lá me entenderei...”

O homem ficou por lá uma semana, regressou a Maputo, feliz e gratificado por ter conseguido um entendimento pleno. Mais tarde, eu lá fui para a ilha, para a Estação de Biologia onde eu trabalhava. Cruzei com um velho funcionário, perseguido pelo italiano e, logo, veio a inesperada observação: “esse homem não tem juízo completo”. O que se passara? Pois, logo numa primeira conversa um grupo de ilhéus quis saber do italiano se ele tinha filhos. A resposta afirmativa foi reforçada com gestos para assinalar os tamanhos de seus rebentos. E aqui sucedeu o mal entendido. O italiano marcou a altura dos filhos com um gesto que, ali, na ilha era quase uma obscenidade. Qualquer europeu fazia o mesmo: estenderia a mão, paralela ao chão. Mas nos códigos locais, a mão plana, bem aberta, indica um objecto inanimado, um morto sem ligação afectiva. A mão curva, fechada e virada para cima indica o tamanho de quem está crescendo, de uma criança em trânsito para ser adulto. Que raio de pai era aquele europeu que falava assim dos seus próprios filhos?

Recordei-me deste episódio porque a identidade é como o tamanho da criança: está em trânsito, não pode ser capturada em gesto, nem em palavras.

Afinal, na pequena história que evoquei todos estão com a razão. Está certo o gesto do italiano. Na lógica do meu amigo europeu, a pessoa só tem tamanho quando se converte em medida, número e risco na fita métrica. Mas a questão, para os ilhéus da Inhaca, é que um menino não é ainda uma pessoa. É um indivíduo em trânsito para a idade adulta.
Na cosmogonia dos moçambicanos ninguém nasce pessoa. Vamo-nos tornando gente à medida que somos iniciados por experiências e vivências.

É por isso que a criança pode ir mudando de nome, à medida que cresce e cumpre rituais de passagem. O menino pequeno, quando falece, é enterrado junto ao rio. Só depois de receber o seu segundo nome é que pode ser sepultado em chão firme. É esse o nosso destino: nascemos água, vamos a caminho de sermos terra.

Aqui há algo que é anterior às línguas, e que são as lógicas com que vemos o mundo e o modo como damos nome às coisas e aos seres. No mundo rural africano, a identidade é definida de forma aberta, transitável e transitória. Alguém pode ser pessoa de dia, árvore de tarde e bicho de noite. Os mortos podem usar a voz e o corpo dos vivos, a vida está disponível para ser vivida pelos mortos.

Chegamos, assim, a uma primeira constatação: as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são quase sempre vividas como definitivas e eternas. Mais grave ainda é que a identidade toma-se a si mesma muito a sério. E atira-nos para a tentação de nos definirmos como essências, entidades puras, certezas inabaláveis que justificam guerras e cruzadas.

Não sou um especialista para falar do tema que escolhi. Sou sim, uma vítima predilecta dos equívocos gerados em redor da identidade. Já explico. Na nossa vida quotidiana os dados de identificação são facilmente sumarizados e constam de quase todos os formulários burocráticos. Esses dados são: o nome, o sexo, a nacionalidade, a raça, a língua, a idade, o estado civil. Seguiremos agora para cada uma dessas categorias e veremos como todas podem suscitar curiosos embaraços. Comecemos pelo nome.

O nome

Aos dois anos de idade tive a infeliz idéia de reclamar um novo nome para mim mesmo. Contra o António de nascença – eu inventei um outro nome: Mia. Rebaptizei-me com esse nome em celebração com a minha vivência com os gatos da vizinhança. Não é que eu gostava de gatos. Eu acreditava ser gato. Eu não pensava: eu era um gato.

Veremos, mais tarde, que tive que pagar por esse meu rebaptismo. O meu nome, esse que me confere a primeira identidade, tem-me causado um sem número de penosos mal-entendidos. Já li, por exemplo, uma tese argumentando que “Mia” é uma palavra africana bantu com significados mágico-religiosos.

Mais grave ainda é a forma com a tribo dos amantes de gatos me têm adoptado como membro incondicional. Certa vez, numa cidade de Portugal onde eu lançava um livro, uma simpática senhora me chamou e disse:

- Venha à minha livraria que eu quero que conheça o Gil Vicente.

Lá fui intimidado com a solenidade do encontro. Alguém que tinha o nome do célebre dramaturgo lusitano seria certamente pessoa de valor. Entrei na livraria, não havia ninguém. Foi quando a proprietária do estabelecimento se aproximou da caixa registadora e apontou para um enorme gato. E anunciou com ar formal:

- Gil Vicente, este é o escritor de que falei e que é um apaixonado por gatos.

De imediato, já ela apontava uma câmara fotográfica para eternizar em imagem o nosso encontro. Sugeriu para que me chegasse mais perto do bicho e, no momento em que tentei fazer-lhe uma carícia, o gato deu-me uma vigorosa dentada. Foi assim que surgi na fotografia, exibindo um esgar de dor e espanto perante os dentes felinos que se cravavam no meu braço.

Até hoje, guardo a cicatriz desta dentada. A dona do estabelecimento tornou-se uma amiga. E ganhei o orgulho de poder dizer que fui mordido por Gil Vicente.

O sexo

Não é que eu possua, devo dizer à partida, dúvidas de identidade neste capítulo. O problema são os mal-entendidos que decorrem do nome “Mia” que se acredita ser um nome feminino. Há tempos, na Argentina, o protocolo do Ministério da Educação que me tinha convidado, pediu para que esperasse na recepção do hotel pois tinham que mudar algo na acomodação prevista. Soube, depois, que me haviam reservado o chamado “quarto-cor-de-rosa”.

Numa visita como jornalista a Cuba, nos anos oitenta, recebi uma prenda do Presidente Fidel. Era um pequeno baú de madeira, que seguiu no porão. Estávamos em guerra, não tínhamos nada em Moçambique. A curiosidade perseguiu-me durante toda a viagem de regresso: o que se escondia no caixote? Chegado a casa não podia ser maior a minha desilusão: o baú continha eram vestidos, brincos, colares. O protocolo cubano tinha sido ludibriado pelo tom feminino do meu nome. Guardo a certeza de ter sido o único homem a quem Fidel Castro ofereceu uma saia.

A raça e a etnia

Nos lugares chamados de “civilizados” ninguém pergunta a que grupo étnico pertencemos. Mas quando se fala sobre África já se acredita que é importante discriminar a pertença étnica. África para uma certa facilidade televisiva explica-se facilmente pelas tribos e etnias.

A este propósito quero lembrar a história do missionário Henri Junod que nos finais do século 19 saiu da Suíça Francesa para vir pregar em Moçambique. Ao contrário das grandes potências europeias, a Suíça não tinha colónias em África. A Igreja Livre de Lausane a que pertencia Junod só podia sobreviver se encontrasse nos territórios africanos uma espécie de terra de ninguém. Junod chegou a Moçambique e deparou com um conjunto de clãs dispersos que se nomeavam a si mesmos em função da família dominante: havia os Kossas, os Bilas, os Maluleques, os Matsolo, etc. O que Junod fez foi propor uma espécie de língua franca a partir de variantes dialectais destes grupos. Fixou a língua, codificou-a, organizou uma gramática e publicou um dicionário. Deu a essa língua o nome de Tsonga. Depois sugeriu que os povos do Sul de Moçambique fossem igualmente denominados por Tsongas. Encontrou uma generalizada resistência. Tsonga era o nome que os invasores sul-africanos zulus davam aos moçambicanos escravizados. Era um termo depreciativo. Mas o termo ficou e foi abraçado por elites locais que estavam em conflito com a administração colonial portuguesa. Ocorreu assim uma espécie de negociação entre as chefaturas negras e os missionários suíços. Os religiosos suíços outorgavam uma identidade etno-linguística e recebiam em troca, a legitimidade para a sua presença em África. Eles faziam da língua aquilo que outros fizeram da terra.

Ainda hoje, mais de cem anos passados, uma grande parte dos moçambicanos oficialmente designados como tsongas não se reconhecem nesse nome. Mas a verdade é que cada vez há mais gente que não apenas se aceita como tsonga mas acredita que essa identidade sempre existiu e que a sua etnia é tão antiga quanto a Humanidade.

Este é um exemplo claro e recente de como se fabricam identidades. Eu vivi esta revisitação histórica na companhia de um amigo meu, que está na Suíça fazendo o seu doutoramento em filosofia.

Historio de Severino Nguenha. Ele me dizia em Genebra: quando parti eu sabia que era Moçambicano. Aqui na Europa eu aprendi que era africano. E como africano ele sentia que devia escolher um tema africano para a sua tese. Mas ele não sabia o que escolher. Foi então que lhe sugeriram que visitasse um missionário de noventa anos, de nome Clerg, que era dos poucos discípulos de Henri Junod que ainda sobreviva. Nguenha nessa tarde mesmo foi a casa do velho suíço, bateu à porta e escutou a voz cansada perguntando num francês rouco:

- Quem é?

- Sou um estudante que veio de Moçambique.

Então, Severino Nguenha escutou passos arrastando-se pelo corredor e se arrepiou quando ouviu a pergunta:

- I wena mani? (quem é ?)

Clerk perguntava quem era, falando em tsanva. E o moçambicano respondeu:

- Mina ni Nguonha. (Sou o Nguenha)

Então, retorquiu o suíço, então és um dos nossos, entra que esta é casa dos tsongas.
Severino Nguenha, um moçambicano negro de quarenta anos de idade aprendeu naquele dia que era um tsonga, da mesma tribo de um suíço branco com mais de noventa anos.

A nacionalidade

No tempo da infância, sempre que regressava das brincadeiras no manguezal, quem me recebia em casa era o baiano Dorival Caymmi. As canções do mar se repetiam infinitamente no velho toca-discos e eu escutava inebriado como era doce morrer no mar. E para mim já era claro: o que era doce não era morrer mas o modo de dizer essa morte. Esse sotaque adocicado de uma língua que era minha e que eu desconhecia me revelou um novo litoral na minha alma. Severino Nguenha viu abrir as portas de identidade tsonga pela mão de um suíço. A porta para uma outra condição de nação foi-me aberta pela canção de Caymmi. Esse deslumbramento cresceu quando, mais tarde, se voltou a acender com os poetas e os cantores brasileiros. Eu não apenas amava essa outra pátria sem contornos. Eu me tinha convertido num brasileiro. E sempre que visito o Brasil renovo essa cidadania de uma nação que inventei.

Amin Malouf escreveu um livro sobre aquilo que chamou de “identidades assassinas”. Em resposta, necessitamos nós de assassinar a identidade singular e redutora a que nos querem obrigar. Necessitamos assumir a nossa condição errante, de eternos contrabandistas de culturas. Há que ter raiz, sim. Mas quem tem demasiada raiz não chega nunca a ganhar asas.

Lembro um episódio que me aconteceu nos anos oitenta numa pequena cidade chamada Malmo, no Sul da Suécia. Eu trabalhava na adaptação teatral de textos meus quando uma das actrizes suecas organizou um jantar para que eu conhecesse o seu professor de lambada, um brasileiro acabado de chegar à Escandinávia. Esse natural do Rio de Janeiro abrira uma pequena escola de danças brasileiras. A actriz estava encantada com o charme do professor carioca e queria saber se ele poderia participar na peça teatral. Quando o brasileiro entrou na sala e se apresentou, verifiquei com espanto que falava comigo em italiano. Pensei, primeiro, que ele não soubesse o que era Moçambique e que língua seria a minha. Mas não. O dito dançarino era italiano, nunca tinha visitado o Brasil e não sabia uma palavra de português. Fazia-se passar por brasileiro por razões de marketing de imagem. Entendemo-nos, à custa do meu pobre italiano, perante o olhar encantado da actriz sueca que nos imaginava falando em português. Embaraçado, o falso professor desculpou-se:

- Por favor, me entenda, não tenho outro emprego.

O que podia eu fazer senão entender? Já o italiano se despedia quando regressou atrás e me segredou:

- E eu posso garantir-lhe uma coisa, quando danço lambada eu deixo mesmo de ser italiano.

Quando mais tarde a actriz sueca me perguntou se havia gostado do seu brasileiro, eu
respondi:

- Não há lugar neste mundo em que não se encontre um pedaço do Brasil.

Como podem ver, não apenas vou sendo abusivamente brasileiro como até já conferi a nacionalidade brasileira a europeus em estado de aflição. Espero que nenhum agente da polícia de migração esteja presente nesta sala.

No capítulo da nacionalidade e de como a nação define identidades farei ainda referência a alguém que todos vocês conhecem. Todos descobrimos os nossos mestres na arte de pular fronteiras identitárias. Para mim o maior mestre foi um brasileiro chamado João Guimarães Rosa.

A identidade da escrita

Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial, combati pela Independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo, da revolução a uma guerra civil que demorou 16 anos e fez um milhão de mortos. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nascia e outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está nascendo. A minha condição sempre foi a de criatura de fronteira. As duas partes de mim exigiam um medium, um tradutor. A poesia veio em meu socorro para criar essa ponte entre mundos aparentemente distantes. O que creio que todos carecemos é de um passaporte (ou se quisermos esse password) para emigrarmos de nós, saltarmos a fronteira daquilo que alguém chamou de identidade pessoal.

Quando li pela primeira vez Guimarães Rosa experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de histórias da minha infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes antigas. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de repente, eu me tivesse convertido num analfabeto selectivo. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro acto que não é “ler” mas que pede um verbo que ainda não tem nome.

Mais que a invenção de palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe, que se deixava possuir como os mediuns das cerimónias mágicas e religiosas. Havia como que uma embriaguez profunda que autorizava a que outras linguagens tomassem posse daquela linguagem. Exactamente como o dançarino da minha terra que não se limita a dançar. Ele prepara a possessão pelos espíritos. O dançarino só dança para criar o momento divino em que ele emigra do seu próprio corpo. O italiano da lambada também sabia disto.

Os contadores de histórias do meu país têm que proceder a um ritual quando terminam a narração. Tem que “fechar” a história. “Fechar” a história é um ritual em que o narrador fala com a própria história. Pensa-se que os relatos históricos são retirados de uma caixa que nos foi deixada por Guambe e Dzavane, o primeiro homem e a primeira mulher. No final da cerimónia, o narrador volta-se para a história — como se a história fosse um personagem e diz-lhe: “Volta para casa de Guambe e Dzavane”. É assim que a história volta a ser encerrada nesse baú primordial.

O que acontece quando não se “fecha” a história? A multidão que assiste fica doente, contaminada por uma enfermidade que se chama a doença de sonhar. João Guimarães Rosa é um contador que não fechou a história. Ficamos doentes, nós que o escutamos. E nos apaixonamos por essa doença, esse encantamento, essa aptidão para a fantasia.

Volto à categoria da identidade. E vou falar na questão do idioma.

A língua

Na categoria do idioma gostaria de me demorar um pouco mais. Afinal, a língua é um dos temas de cartaz deste Fórum. E a pergunta que seria preciso fazer não tem a ver comigo mas com o meu país, esse que confere identidade colectiva a 17 milhões de habitantes. E a pergunta é esta: será que Moçambique é um país de língua portuguesa?

E aqui gostaria de fazer um grande parêntesis. Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder ás perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a cruel dicotomia do “sim” e do “não”. Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O “não” simplesmente não se diz.

Esta forma de retórica (ou melhor esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: Moçambique já é Oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria, por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito organizar o meu trabalho. À minha pergunta:

- A maré está a subir?

A resposta já aconteceu assim:

- Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer há mais de duas horas.

Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:

- Isto que está cantar é um pássaro?

- É, sim.

- E como se chama este pássaro ?, quis eu saber.

- Bom este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.

Num balanço da aplicação do lema de governação “por um futuro melhor” a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era: “sente que a sua vida está a melhorar?” Um cidadão respondeu assim:

- “Está melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal’

Evoco estes episódios para regressar à questão inicial que é: Moçambique é um país lusófono? Tomando a lógica rural eu responderia, pronto e ligeiro: é, sim senhor. Mas sei que há outras lógicas que mandariam que eu dissesse: não, Moçambique não é um país lusófono.

Explico: fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que os 500 anos de colonização. Em 1975, ano da Independência Nacional, mais de 60 por cento dos moçambicanos não falavam português. Trinta anos depois existem ainda 40 por cento de moçambicanos que não falam português. Mesmos os que tem essa competência fazem-no como segunda língua. Hoje cerca de 7 por cento dos moçambicanos tem o português como língua materna. Nas cidades, porém, este número já é de quase 20 por cento.

O meu país é, assim, um território de muitas nações e muitas línguas (mais de vinte diferentes idiomas). O idioma português é a língua de uma dessas nações — um território cultural inventado por negros urbanos, mestiços, indianos e brancos. Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse grupo ocupa lugares chaves nos destinos políticos e na definição daquilo que se entende por moçambicanidade. A língua portuguesa não é a ainda língua de Moçambique. Está-se exercendo, sim, como a língua da moçambicanidade.

Comecei a minha intervenção com alguns dados da minha meninice. O que tem a questão da língua a ver com estas lembranças? Para manter residência na infância necessito de uma língua em estado de infância. Essa é a minha aposta quando escrevo. Tenho a meu favor o facto de Moçambique ser ele próprio um lugar em infância, uma nação em flagrante invenção de si mesma e da sua língua de identidade. Estranha coincidência: a minha pátria é-me contemporânea. Fui nascendo com ela, ela está nascendo comigo. Eu e a minha terra somos da mesma geração.

A minha língua portuguesa, repito a minha língua portuguesa, é a pátria que estou inventando para mim. Essa língua nómada é viagem viajada, namoradeira de outras vozes e outros tempos. O importante não é tanto a língua, nem sequer o quanto ela nos é materna. Mais importante é essa outra língua que falamos mesmo antes de nascermos. Nesse registo está a porta e o passaporte em que todos nos fazemos humanos, fabricadores da palavra e, com igual mestria, criadores de infinitas identidades.

Conclusão — identidades fugidias

Tenho ao que parece a raça errada, o nome errado, o sexo errado, e aqui no Brasil tenho a pronúncia errada. A verdade é que, para mim, a escrita me ajudou a dissolver esses erros. Foi a aceitação da poesia como uma lógica para entender o mundo que me deu a solução. E me fez criar um modo de ser outro e outros, e me deu uma forma de desembarcar em novas entidades. Quando escrevo sobre uma mulher eu me converto em mulher, quando escrevo sobre uma criança eu sou uma criança. Essa liberdade contraria a ideia comum que nascemos para ter uma única e singular identidade. Alguns insistem que a identidade pede pureza e essência. A única maneira de sermos puros, porém, é sermos híbridos. A verdade é que só seremos um se formos muitos. E só seremos felizes se abraçarmos identidades plurais, capazes de reinventarem e se misturarem em imprevisíveis simbioses e combinações.

Ensinaram-nos a ter medo da indefinição e da imprevisão. Mas nós brasileiros e moçambicanos construímos sociedades em que a previsão não passa de uma falível contingência. A força do oculto e do não nomeável é muito forte. Devemos tirar partido disso: inventemos para nós a identidade que nos apetecer. E façamo-lo não porque seja politicamente correcto mas porque nos dá prazer sermos o que somos, mesmo que não saibamos exactamente o que isso é. Só poderemos sentir prazer se criarmos um universo de diferença num mundo em que o futuro se está já a escrever apenas em inglês.

Aquilo que nos torna próximos — a nós falantes do português no Brasil, em Portugal e em África — não é apenas a língua mas componentes culturais e, sobretudo, religiosos. Fomos moldados e moldamos percepções do mundo que resultaram de migrações e transculturações antigas. Os nossos santos são os mesmos. Os nossos santos protectores — mesmo que neles não acreditemos — poderiam sentar-se nesta sala, no Rio, com o mesmo à vontade que manteriam em Lisboa, Maputo ou Luanda.

O que estaremos discutindo nestes dias não são questões académicas. O que está em debate é a possibilidade de sermos construtores de identidades que, tal como a criança da ilha, não podem ser medidas, nem reduzidas a um nome ou a um gesto. Estaremos falando, muito simplesmente, de identidades, línguas e marcas culturais que nos tornem mais felizes, mais humanos e mais solidários.

Esta é a derradeira história e, de novo, relembro algo ocorrido na EB da Inhaca. Numa noite escura, eu e os meus colegas acabávamos de jantar na varanda da Estação quando escutamos tambores e sinais de que haveria, algures, uma festa. Decidimos ver o que se passava. Quando chegamos deparamos não exactamente com uma festa mas com uma cerimónia de agradecimento pela chegada das chuvas. Ao redor de uma fogueira havia só mulheres de uma certa idade. Receberam-nos com a maior das simpatias, foram buscar cadeiras (os homens não se sentam no chão) e serviram-nos de ngovo, uma bebida fermentada. Considerei que seria de bom tom usar da palavra para agradecer a hospitalidade. Eu era o único branco entre os meus colegas e era o que menos falava o xironga, a língua local. Quando nos dirigimos ao centro do pátio, as mulheres fizeram silêncio e esperaram que começássemos a falar. O meu colega porém, foi mandado calar logo nas primeiras palavras: Eh, Eh, se é para dizerem quem são não queremos que falem, queremos que dancem. Vocês vão dizer quem são e de onde vieram através da dança.

Entrei em pânico. Eu não danço coisa nenhuma e essa inaptidão é tão funda que eu já imaginei que eu apenas escrevo porque não sei dançar. Mas o problema é que os meus colegas dançavam qualquer coisa irreconhecível, uma mistura de Michael Jackson e Zeca Pagodinho. As mulheres, ante o patético espectáculo, levantaram os braços e clamaram: podem parar que nós não sabemos que país será esse onde se dança assim.

Esse país onde se inventa uma identidade dançada é o mesmo onde o italiano continua ensinando lambada, a mesma nação onde Guimarães Rosa vai tornando as palavras dançáveis. E como diz o provérbio moçambicano: quem dança não é o que levanta poeira; quem dança é aquele que inventa o seu próprio chão.

E muito obrigado.


VALENTE, André (ORG.). Língua portuguesa e identidade. Rio de Janeiro: Caetés, 2008. pp. 11-22.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Mia Couto: Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?

O escritor moçambicano Mia Couto é hoje um dos principais nomes da literatura em língua portuguesa contemporânea. Além do belo trabalho como escritor, Mia, como vários outros intelectuais africanos, atua com críticas contundentes ao descaso dos países dominantes e à submissão de seus pares, que ficam esperando o assistencialismo vindo do exterior. Detentor de um olhar atento, Mia Couto clama por uma postura mais independente não só dos moçambicanos, mas de toda a África.
Espero que gostem.


Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?
MIA COUTO


Texto pronunciado por Mia Couto em Conferência realizada em Deza Traverse Suíça, por ocasião dos 30 anos de independência de Moçambique. Junho 2005.


Nasci e cresci numa pequena cidade colonial, num mundo que já morreu. Desde cedo, aprendi que devia viver contra o meu próprio tempo. A realidade colonial estava ali, no quotidiano, arrumando os homens pela raça, empurrando os africanos para além dos subúrbios. Eu mesmo, privilegiado pela minha cor da pele, era tido como um “branco de segunda categoria”. Todos os dias me confrontava com a humilhação dos negros descalços e obrigados a sentarem-se no banco de trás dos autocarros, no banco de trás da Vida. Na minha casa vivíamos paredes-meias com o medo, perante a ameaça de prisão que pesava sobre o meu pai que era jornalista e nos ensinava a não baixar os olhos perante a injustiça. A independência nacional era para mim o final desse universo de injustiças. Foi por isso que abracei a causa revolucionária como se fosse uma predestinação. Cedo me tornei um membro da Frente de Libertação de Moçambique e a minha vida foi, durante um tempo, guiada por um sentimento épico de estarmos criando uma sociedade nova.

No dia da Independência de Moçambique eu tinha 19 anos. Alimentava, então, a expectativa de ver subir num mastro uma bandeira para o meu país. Eu acreditava, assim, que o sonho de um povo se poderia traduzir numa simples bandeira. Em 1975, eu era jornalista, o mundo era a minha igreja, os homens a minha religião. E tudo era ainda possível.

Na noite de 24 de Junho, juntei-me a milhares de outros moçambicanos no Estádio da Machava para assistir à proclamação da Independência Nacional, que seria anunciada na voz rouca de Samora Moisés Machel. O anúncio estava previsto para a meia-noite em ponto. Nascia o dia, alvorecia um país. Passavam 20 minutos da meia-noite e ainda Samora não emergira no pódio. De repente, a farda guerrilheira de Samora emergiu entre os convidados. Sem dar confiança ao rigor do horário, o Presidente proclamou: “às zero horas de hoje, 25 de Junho..”. Um golpe de magia fez os ponteiros recuarem. A hora ficou certa, o tempo ficou nosso.

Não esqueço nunca os rostos iluminados por um irrepetível encantamento, não esqueço os gritos de euforia, os tiros dos guerrilheiros anunciando o fim de todas as guerras. Havia festa, a celebração de sermos gente, termos chão e merecermos céu. Mais que um país celebrávamos um outro destino para nossas vidas. Quem tinha esperado séculos não dava conta de vinte minutos a mais.

Trinta anos depois poderíamos ainda fazer recuar os ponteiros do tempo? A mesma crença mora ainda no cidadão moçambicano? Não, não mora. Nem podia morar. Em 1975, nós mantínhamos a convicção legítima, mas ingênua de que era possível, no tempo de uma geração, mudarmos o mundo e redistribuirmos felicidade. Não sabíamos quanto o mundo é uma pegajosa teia onde uns são presas e outros predadores.

Trinta anos é quase nada na história de um país. Estamos já distantes da injustiça colonial. Mas estamos ainda longe de cumprir o sonho que nos fez cantar e dançar na noite de 25 de Junho. Uma parte dessa expectativa ficou por realizar. Hoje já não acorreríamos com a mesma fé para celebrar uma nova anunciação. Mas isso não quer dizer que estamos menos disponíveis para a crença. Estaremos, sim, mais conscientes que tudo pede um caminho e um tempo.

Poderemos recorrer a explicações, apontar dedos acusadores. Tudo isso será pouco produtivo. Não se pode esperar que um país saído do atraso da dominação colonial possa realizar aquilo que velhas nações independentes estão ainda construindo. Moçambique está aprendendo a ser soberano num mundo que aceita muito pouco a soberania dos outros. O céu que parecia infinito foi ficando estreito para as chamadas pequenas bandeiras.

No mesmo ano em que se desintegrava o império colonial português, em 1975, os Estados Unidos da América eram derrotados no Vietname. O tempo parecia correr a favor dos povos “pequenos”, capazes de enfrentar a arrogância dos poderosos. Essas vitórias criaram a ilusão de que um mundo mais justo estava despontando. Mas o sistema mundial cedo se reajustou desses revezes. A Independência de Moçambique teve que enfrentar uma dualidade: representou uma ruptura com o colonialismo mas, ao mesmo tempo, funcionou como um passo para uma maior integração num sistema capitalista que se globalizava. A essa condição ambivalente não poderíamos escapar.

Meus senhores e minha senhoras,
Caros amigos,
No meu romance Terra Sonâmbula criei um personagem que, por nascer no dia da Independência, a vinte e cinco de Junho, foi baptizado de Junhito. A história decorre no decurso da nossa guerra civil que se prolongou durante 16 anos.

Certa noite, o pai de Junhito é assaltado por um pressentimento: o seu filho iria morrer em breve. Era isso o que a guerra reclamava: a morte desse que nascera em Junho. Para salvar o filho, a família resolveu transferi-lo para a capoeira que ficava no quintal. Ali Junhito aprenderia a comportar-se como as galinhas, comendo as sobras e dormindo ao relento. Resignado a sobreviver sem glória, sem brilho, sem substância.

Junhito foi-se tornando numa sombra e, em casa, os familiares estavam proibidos até de mencionar o seu nome. A mãe, mesmo ela, parecia conformada. Contudo, às escondidas da noite, ela visitava a capoeira. Sentava-se no escuro e cantava uma canção de embalar, a mesma que servira para adormecer os outros irmãos. Junhito, de início, acompanhava a mãe no canto. Mas depois, o menino já nem sabia soletrar as humanas palavras. Esganiçava uns cóós e ajeitava a cabeça por baixo do braço. E assim adormecia, sonhando que, certa vez, teria sido um homem.

A metáfora no romance é simples, quase linear. Na altura, eu denunciava a nossa progressiva perda de soberania, e uma crescente domesticação do nosso espírito de ousadia. Poderíamos ser nação mas não demasiado, poderíamos ser povo mas apenas se bem comportado.

Num processo difícil e conflituoso, Moçambique criou a reputação de ser um caso de excepção em África. Esse bom-nome, devo dizer, é merecido. Esse prestígio foi conquistado, não é uma prenda de nenhum paternalismo. Fomos capazes de produzir a Paz. Fomos capazes de criar democracia formal, de construir estabilidade e de garantir liberdades de expressão e de pensamento. Tenho orgulho nesse processo. Mas tenho também receio. Porque o caminho que percorremos não foi exactamente escolhido por nós, nem está sendo testado à medida da nossa vontade. O nosso êxito não pode continuar a ser medido apenas pelo sucesso da aplicação de um directório de receitas políticas e financeiras. Ao contrário, deveríamos ser valorizados pelo modo como repensamos criativamente o nosso lugar no mundo.

Nos gloriosos anos da luta de libertação nós gritávamos “Independência ou Morte, Venceremos”. Hoje sabemos: a independência não é mais do que a possibilidade de escolhermos as nossas dependências. Na década de 70, o mundo oferecia a possibilidade de diferentes opções e alianças estratégicas. Hoje as economias nacionais perfilam-se perante um modelo sem alternativa. Escolhemos o que outros escolheram por nós. Uma parte da nossa alma foi já, mesmo sem o sabermos, conduzida para a capoeira e ali esquece a irreverência, a originalidade e o desejo de ser único.

A redução da soberania não é um processo que esteja atingindo especificamente Moçambique. É um processo generalizado. Todas nações são hoje menos nacionais, todo o cidadão é menos dono do si mesmo. Uns dizem que, agora, somos todos mundo. Mas ninguém pode ser do mundo se não tiver a sua pequena aldeia.

Como a Europa vê África

Os continentes são, sobretudo, representações feitas e refeitas de acordo com os tempos. A África de hoje é uma co-produção euro-afro-americana. A versão mais recente dessa co-produção é marcada pela morte e decadência. Cadeias de TV estão confirmando essa agonia, entre doenças e guerras. O excesso de imagens dos dramas de África teve um efeito perverso: o continente deixou de ser visível. Perdeu visibilidade porque tudo parece estar já visto. Aos olhos do resto do mundo, África (ou uma parte dela) deixou de existir. Do mapa cor-de-rosa se passou ao monocromático mapa do desespero.

O apocalipse africano esteve demasiado tempo na montra, foi excessivamente filmado, fotografado, torcido e retorcido para uso da compaixão. Deixou de existir disponibilidade para entender o que está por detrás dessas imagens. Afinal, a fome a guerra são apenas os sinais de uma tragédia mais funda e mais antiga. Essa tragédia assenta em razões internas mas assenta também no lugar periférico de África e nas trocas desiguais do comércio internacional.

Uma certa esquerda europeia transitou da simpatia para um pessimismo militante. A lágrima solidária foi substituída pela indiferença e pelo descrédito. Os africanos, por seu turno, foram eternizando um sentimento de culpabilização dos outros, acreditando tratar-se da continuação de um “complot” antigo para os dizimar.

De um e outro lado, se acumularam desilusões e impaciências. Uma mesma ignorância do Outro foi transitando ao longo da História. Aos profetas do socialismo seguiram-se os profetas do neoliberalismo agitando apressadas receitas financeiras para salvar os pobres. Mas a pobreza insiste, teimosa como uma incurável doença que nos devora do outro lado do Mediterrâneo.

A opção para os países doadores parece simples: dar mais ou deixar de dar. As recentes notícias mostram que, nos próximos tempos, se irá dar um pouco mais. Pelo menos em algumas nações terá vencido a alternativa mais humanitária. Contudo, poucos se interrogarão sobre a necessidade de mudar a qualidade da relação entre o Norte e o Sul.

Como nós vemos a Suíça

A Suiça já foi para muitos moçambicanos não um país mas o nome de uma missão religiosa. A Missão Suiça implantou-se no Sul de Moçambique, enfrentando terríveis suspeitas do regime colonial português. Henri Junod foi expulso de Moçambique em 1895 porque ensinava as chamadas “línguas dos nativos”. O missionário ajudava moçambicanos como Eduardo Mondlane a moçambicanizarem-se enquanto, nesse processo, ele mesmo se africanizava, acabando por solicitar que fosse enterrado em terras de Moçambique.

Setenta anos mais tarde, um outro suíço converteu-se numa figura de dimensão quase mitológica. Tratava-se do médico René Gagnaux, uma espécie de filantropo da nova vaga, um homem que dedicou a sua vida a atender os mais pobres. A Suíça, para muitos, era a terra do Gagnaux. Um dos seus filhos, agora moçambicano, lidera uma das principais forças políticas em nível da cidade de Maputo.

Hoje temos da Suiça uma percepção mais moderna e designamo-la por via de um nome curioso: “país doador”. O mundo está hoje dividido entre os que dão e os que recebem. Como se fosse uma condição natural, genética, perpétua. Nós, os receptores daquilo que se chama “ajuda” já tivemos outros nomes: fomos Terceiro Mundo, países em vias desenvolvimento, territórios do Sul, países sub-desenvolvidos, nações da periferia.

A dança dos nomes não terminou. Agora, no quadro do politicamente corrigido, nós temos, pela primeira vez, o direito de partilhar de um mesmo nome: somos ambos, ricos e pobres, chamados de “parceiros”. Este novo nome é mais simpático mas ele colide com uma questão de princípio: não se resolve nas palavras aquilo que não está resolvido na substância.

As mútuas atribuições de culpas

O embaixador da Suiça em Moçambique, o meu amigo Dr. Adrian Hadorn, é testemunha da minha insistente intervenção em Moçambique para combater a tendência de vitimização por parte dos africanos. Enquanto continuarmos culpando os europeus pelos nossos próprios falhanços não seremos capazes de nos olharmos para nós próprios como principal motor da mudança. Assumir a condição de sujeito histórico: esse era o maior e mais instigante desafio da Independência Nacional.

É infindável a soma de argumentos para justificar a cleptocracia e a corrupção dentro de continente africano. Alguns intelectuais africanos vêm na importação de modelos externos a origem de todos os males. Esta justificação encontra espaço em alguns doadores. Na linguagem moderna dos relatórios dos consultores este problema seria assim reportado: “falta de ownership das reformas estruturais”. Impostas de fora, essas reformas não poderiam ser implementadas. Mas tudo indica que, ao contrário, parte dessas reformas foi rápida e profundamente apropriada por elites nacionais que as usaram a favor do seu próprio enriquecimento. O problema não parece estar na origem dos modelos mas na sua natureza política. Os africanos africanizaram a mandioca. As elites fizeram o mesmo com as reformas estruturais.

Se alguns africanos acham que a culpa é apenas dos europeus, no sentido inverso, europeus há que acreditam que a culta cabe apenas aos africanos. Uma relação mais saudável entre uns e outros obrigaria a rupturas profundas, implicava poder começar de novo. Mas esse retorno ao grau zero não existe na História. Compete-nos questionar os pressupostos do nosso relacionamento recíproco.

Elegi para este pequeno texto alguns tópicos soltos. Não sou economista, sou um escritor cuja paixão reside num mundo que não existe. Mas não posso focar indiferente perante alguns assuntos que determinam nosso destino comum. Eis algumas das interrogações que gostaria de partilhar convosco.

O falso sentimento de desperdício

A opinião pública na Europa e nos EUA mantém a idéia de que África pode sair da situação de crise se gerir bem os fundos doados. A ajuda apenas é insuficiente porque é mal usada.

É certo que parte das doações tem sido desviada em benefício de elites minoritárias. Algumas dessas fortunas roubadas estão aqui, bem no coração da Europa, na forma de criminosas contas bancárias. Mas a grande verdade é que, mesmo bem usada, a actual ajuda não resolveria os problemas vitais das nações empobrecidas. Pelo contrário, o actual quadro da ajuda poderá estar agravando a condição de miséria do Terceiro Mundo.

Regressemos à idéia dominante de que os valores da ajuda são astronómicos. Na verdade, é necessário colocar essas quantias no devido contexto. Os cidadãos americanos acreditam, por exemplo, que o seu país destina 15 a 20 por cento do seu Orçamento para a ajuda externa. Estão errados. Os EUA gastam menos de 1 por centro nessa ajuda, uma ninharia comparada com os milhões que o governo paga por ano aos fornecedores de armamento.

Um escritor sabe contar, não sabe fazer contas. Mas um economista amigo ajudou-me a fazer umas somas e gostaria de partilhar os resultados convosco. Com os 175 biliões de USD que os EUA já gastaram na guerra do Iraque desde Marco de 2003 seria possível fazer o seguinte:

1) Instalar 40.000 pequenas e médias empresas produtivas relativamente modernas e competitivas na África Sub-Sahariana, gerando directamente 12 milhões de novos postos de trabalho com salários e condições de trabalho acima da actual média. Deste modo se arrancaria de forma permanente cerca de 60 milhões de Africanos das malhas da pobreza. Além disto, este investimento tornaria possível às economias africanas tirarem proveito efectivo das oportunidades comerciais que hoje já existem, como sejam o caso do AGOA (comércio preferencial com os EUA) e o EBA (everything-but-arms, comércio preferencial com a União Europeia). Isto significa que num espaço de tempo relativamente curto, o Produto Interno Bruto per capita da África Sub-Sahariana poderia ser triplicado, não à custa de ajuda mas com base em desenvolvimento e crescimento real da economia e uma melhor distribuição do rendimento gerado.

2) Além dessas empresas, com o dinheiro gasto no Iraque seria possível também construir mais 600 escolas técnico-profissionais de alta qualidade, onde poderiam ser formados, todos os anos, cerca de 300.000 trabalhadores qualificados para impulsionarem o desenvolvimento da agricultura, agroindústria, pesca, indústria, turismo, serviços, etc. Este treinamento permitiria que as empresas mencionadas acima pudessem funcionar bem com força de trabalho qualificada, com repercussões imediatas na produtividade e do nível de vida da maioria dos Africanos.

Ou refazendo as contas: os bilhões de dólares gastos no Iraque são suficientes para empregar mais 4 milhões de professores primários por um ano, ou para imunizar todas as crianças do Mundo contra diferentes doenças por 58 anos, ou para alimentar o Mundo durante os próximos 7 anos, ou ainda para terminar com o flagelo da malária em África e construir 2 milhões de novas habitações básicas.

Estes outros destinos a serem concedidos aos bilhões de dólares talvez fossem uma forma mais efectiva de combater a insegurança. Porque há um terror invisível que pode estar alimentando o terrorismo internacional. Esse é o terror da fome, da pobreza, da ignorância, o terrorismo do desespero perante a impossibilidade de mudar a vida.

Caros senhores,
Finalmente, quase nenhuma das nações desenvolvidas cumpriu aquilo que foi estipulado há trinta anos pelas Nações Unidas: destinar 0.7 por cento do seu orçamento para a ajuda externa. Em média, esse apoio não ultrapassa hoje os 0.25 por cento. Como se pode ver, não são apenas os países pobres que não estão cumprindo as obrigações internacionalmente assumidas.

O mais grave, porém, é que aquilo que nos é dado numa mão nos é retirado pela outra mão. Calcula-se que o proteccionismo e os subsídios retiram aos países pobres 2050 milhões de euros. Ou seja muitíssimo mais daquilo que é o valor da ajuda. Para além disso, os subsídios agrícolas na Europa e EUA representam um contra-senso na lógica que nos é imposta em relação aos mecanismos reguladores da economia. Numa palavra, os profetas do liberalismo de mercado não fazem em casa aquilo que propalam publicamente.

Mais grave ainda: está provado que 40 por cento do valor que se acredita dar aos países pobres é destinado a pagar a consultores internacionais. Na realidade, há hoje mais expatriados em África do que havia no tempo colonial. Quer dizer: uma parte do dinheiro está sendo absorvido pelo circuito dos países ricos. Com este dado, o valor da ajuda desce de 0.25 do orçamento para menos de 0.1 por cento. Afinal, não se está dando tanto quanto os cidadãos dos países ricos acreditam.

O ciclo perpétuo da divida

Os países africanos estão gastando e continuarão indefinidamente gastando mais a pagar o serviço da divida do que a investir na saúde ou na educação. De 1980 a 1990 a totalidade da divida da África sub-sahariana mais do que duplicou. Em 1995, as exportações somadas dos países africanos não chegavam para pagar o serviço da divida. A questão para eles já não era a de pagar ou não pagar, mas de sobreviver ou sucumbir.

Quando houver uma decisão sobre o cancelamento será demasiado tarde. Alguém já chamou à divida uma “guerra por outros meios”. Essa agressão silenciosa não aparece na TV mas que é responsável pela morte de meio milhão de crianças em cada ano. Esta guerra faz da filantropia do Ocidente um falhanço anunciado e acabará por desacreditar um sentimento tão nobre como a solidariedade. Os mais miseráveis do continente – a quem se supõe ser destinada a ajuda internacional - pagarão, em cada ano, mais do que aquilo que estão recebendo. A verdade é simples: a divida é impagável. Nenhum país africano poderá exercer a sua independência sem que esse fardo tenha sido eliminado. Com este passado não pode haver futuro.

Quando o HIPC se decidiu em 1995 aliviar a divida de Moçambique nós festejamos. O anúncio do alívio foi feito com pompa e circunstância, um prémio a celebrar o nosso comportamento ajuizado. Afinal, era maior a festa que a razão de festejar. De 113 milhões por ano passou a pagar 100 milhões. Essa redução era, afinal, insignificante. Para se qualificar Moçambique teve que implementar medidas draconianas do Programa de Reajustamento Económico. Essas medidas tiveram impactos dramáticos no país. O tão propalado alívio acabou não libertando fundos que poderiam marcar a diferença no desenvolvimento de Moçambique.

Por outro lado, o que hoje se exige a Moçambique não se exigiu a países da Europa. Depois da grande Guerra, o chamado London Agreement aceitou que a Alemanha pagasse a dívida acumulada aos aliados a uma taxa anual equivalente a 3.5 por cento dos seus rendimentos. Mais do que esse valor era tido como um factor de estrangulamento inaceitável. Porém, mesmo com a tal redução do HIPC, Moçambique pagará 13.5 % do seu rendimento. O que quer dizer que estamos pagando 4 vezes mais que se achou aceitável a Alemanha pagar, numa situação de crise global e em que os preços das matérias-primas estão mais baixos do que nunca.

Dar aos pobres a mesma chance de experimentar

Os países pobres necessitam ter espaço para realizar os seus próprios debates e ensaios, experimentarem soluções ao seu próprio ritmo. Queremos ter a liberdade de, por exemplo, poder decidir qual o melhor momento para privatizar os serviços públicos. Essa liberdade foi, afinal, conferida aos europeus.

Instituições financeiras internacionais testaram nos países pobres fórmulas que se revelaram desastrosas. Parecia simples: tal como na receita socialista, uma mudança no sistema de propriedade mudaria toda a estrutura da economia. Produziram em embalagens de aplicação fácil os pacotes de reajustamento estrutural, formulas miraculosas que nos permitiriam evoluir queimando etapas.

A Moçambique também foi aplicada a mesma receita. Todos esses programas obrigaram a elevar preços pelos serviços públicos, a cortar subsídios e reduzir orçamentos para serviços sociais: toda esta receita resultou em crescente pobreza e desemprego. Hoje, é generalizado aceitar que esses programas não correram bem. Quem paga para recompensar os pobres dessa falhada experiência?

O caso da castanha de caju de Moçambique é hoje tida como uma ilustração desses falhanços com efeitos catastróficos . Moçambique tinha e tem na castanha de caju um dos seus pilares de exportação. Em poucos anos o sector ficou arruinado, 80 por cento das fábricas fecharam e milhares de operários ficaram sem emprego. De um modo geral, a intervenção na agricultura pautou por uma ingenuidade crassa: a idéia de que intervindo nos preços se acabaria resolvendo tudo o resto.

Os actuais pacotes de redução da pobreza absoluta poderão ser a simples continuação, com outro vestuário, dos Programas de Reajustamento anteriormente falhados.

Moralizar aquilo que se pode exigir aos outros

Parte dos que nos pedem não é historicamente realizável. Os países mais pobres devem liberalizar as suas economias num período mais curto do que foi alguma vez exigido aos países desenvolvidos. Algumas vezes, coloca-se como condição de libertação dos fundos o cumprimento de metas que são impraticáveis. Espera-se que façamos em 5 anos aquilo que outros levaram séculos a alcançar. Algumas das nações européias que nos cobram pela descentralização estão muito longe de cumprir, elas próprias, esse processo de descentralização.

Alguns dos que hoje nos exigem clareza, transparência e boa governação apoiaram golpes de Estado em África, patrocinaram o assassinato de líderes e apoiaram agressões a regimes sob o único pretexto de estarem do lado errado no período da Guerra Fria. Ainda hoje a ajuda que se ergue como um “dever moral” continua sendo condicionada politicamente. Quem fala, por exemplo, da ditadura infame da Guiné Equatorial ? Em 1994, a embaixada dos EUA fechou e os americanos romperam com o regime da Guiné Equatorial por acharem inaceitável o regime de Teodoro Obiang. Um ano depois, quando foram descobertas importantes jazidas de petróleo, os EUA regressaram correndo, aceitando aquilo que antes era intolerável. O petróleo é um poderoso diluente de ditaduras.

Algumas das vozes que reclamam moralidade dos regimes africanos estiveram caladas perante a injustiça do apartheid. Ao menos, o meu pequeno país foi capaz de se erguer não apenas contra o poderoso apartheid sul-africano mas contra o regime rodesiano de Ian Smith. Para defendermos essa coerência de princípios perdemos 17 bilhões de dólares, considerando apenas os custos directos da desestabilização lançada contra o nosso país. Esse dívida financeira e moral não entrará nas contas com a chamada comunidade internacional. Como não entrará nas contas a guerra de desestabilização que por quase duas décadas martirizou a nação moçambicana. Hoje fala-se de guerra civil em Moçambique como se esse conflito tivesse tido apenas contornos endógenos. É preciso não esquecer nunca: essa guerra foi gerada no ventre do apartheid, estava desde o início inscrita na chamada estratégia de agressão total contra os vizinhos da África do Sul.

No meu país o espectro do terrorismo não começou com o Onze de Setembro. Milhares de crianças estão desde há mais de vinte anos espreitando com medo o chão que vão pisar. Mais de um milhão de minas antipessoais foi semeada durante a guerra. Milhares desses engenhos mortais continua semeando o terror no seio de cidadãos inocentes. Quantos dos países ricos que se mobilizam contra terrorismo assinaram a convenção para o banimento da produção de minas?

O convite para a simulação

A resposta a tudo isto, é claro, deveria vir de dentro dos países pobres. Teríamos que ter agenda, própria, uma estratégia nossa. Forçados a sobreviver no imediato vamos investindo naquilo que são chamadas as “sound policies”: o que é bom é privatizar, descentralizar, cumprir os indicadores da macro-economia. Mesmo sabendo que isso corresponde a a uma encenação para agradar aos doadores. É mais importante obedecer cegamente a um valor estipulado para a taxa de inflacção do que criar condições de emprego. Estamos produzindo um ambiente económico e social propício para nos qualificarmos para mais ajuda, em vez de criarmos um ambiente propício para o nosso desenvolvimento.

As palavras da moda vão-se sucedendo num léxico descartável: “comunidades locais”, desenvolvimento sustentável, assuntos de géneros, sociedade civil, povos indígenas, comunidades tribais. Nem sempre se entende a substância concreta dessas palavras. Mas elas conduzem a um jogo de sedução reciproca, a uma infindável encenação teatral. Não tarda que nos nossos países – esses a quem se ordena que emagreçam o Estado – surjam Ministérios para a Sociedade Civil, Ministérios das ONGs, Ministérios para a sustentabilidade.

Caros amigos,
Em 1984 eu estava na minha varanda quando vi chegar a tempestade. Na altura não tinha nome, mas uma enorme ventania fez levantar poeiras no chão e ondas no mar, misturando granizo e vento, quebrando vidros, erguendo tectos, espalhando destruição. Depois, o fenómeno levou nome, um nome de mulher como convém a qualquer tempestade que se digne. A tempestade foi chamada de DOMOINA. A minha angústia perante os destroços era: como nos vamos reerguer, em plena guerra e no meio da maior miséria? Mas a solidariedade interna, ainda assim, deitou semente e colheu fruto. Os apoios vieram de dentro e o país encontrou ainda força para se levantar. Em pouco tempo, as feridas estavam curadas e cicatrizadas.

Falamos aqui da cooperação de Moçambique com a Europa e com o Mundo. Mas a primeira grande questão seria como é que Moçambique está cooperando consigo mesmo? Como é que se promove o desenvolvimento a partir de dentro? Este debate tem que ser conduzido dentro de África. Ele já está nascendo com a emergência de jovens que não se satisfazem com o discurso saturado da culpabilização dos outros sempre que analisa a situação interna do continente. O maior desastre de África não é ser pobre mas ter sido empobrecida pela aliança entre a mão exploradora de fora e a mão conivente de dentro.

Trinta anos a pedir apoio cria uma dependência mental que anula o espírito do 25 de Junho. Há toda uma geração de quadros que já raciocina em função do que e a quem se vai pedir. Estamos criando Junhitos, gente que se sonha doméstica e domesticada. O mais grave é que a reprodução dos Junhitos se faz dentro de Moçambique, de forma endógena e indígena.

África não é o continente dos outros, um simples dever moral, um assunto de retórica diplomática. É verdade que compete aos africanos reconquistarem a sua credibilidade como parceiros. Mas os africanos não poderão fazêlo no quadro actual da governação mundial. A verdadeira ajuda será não dar mais mas lutarmos juntos, europeus e africanos, para mudar esta teia de relações. Precisamos de uma ajuda que nos torne menos dependentes da ajuda, temos que construir uma dependência progressivamente menos dependente.

Por enquanto, o que vamos fazendo nós, doadores e receptores, é tocar a duas mãos uma valsa que esconde uma irresolúvel agonia. No final, o continente africano poderá ter mais algumas escolas, mais alguns hospitais. Mas não terá gerado recursos próprios nem desenvolvido as forças produtivas.

Há 30 anos os moçambicanos venceram um poderoso exército desencadeando uma luta de pequenos grupos de guerrilha. Ainda hoje as vitórias que conseguirmos serão por via dessa persistência guerrilheira. Não há grandes soluções, grandes reviravoltas que façam endireitar o eixo da Terra. A nossa soberania (e também a vossa soberania) está nessa fresta, nesse intervalo. O que necessitamos é de um maior diálogo, maior comparticipação e reciprocidade dos mecanismos de controle dos dinheiros e dos compromissos assumidos. O que necessitamos é de nos tornarmos parceiros de verdade.

Termino confessando-vos um sonho, um desejo. Os trinta anos de Independência não são apenas um momento já vivido. São um tempo vivo cujas potencialidades ainda se irão revelar por inteiro. O nosso passado, desde 1975, é um futuro. Uma semente que está dando árvore. Queremos ter direito à sombra dessa grande árvore. E queremos partilhar essa promessa de felicidade com os nossos irmãos da Suíça. Porque também eles, os suíços,
nos ajudar a semear esse futuro.


FONTE:
Revista Via Atlântica nº 8 – dezembro/2005. pp. 191-204