Mostrando postagens com marcador pintura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pintura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Bonfanti – o enigma da existência em obras viscerais do artista

Por Ricardo Riso
31 de maio de 2009

Uma grande retrospectiva no Paço Imperial (RJ) reúne mais de três centenas de trabalhos que cobrem quarenta anos da carreira plástica de Gianguido Bonfanti. Quando falamos do artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, mencionamos uma obra consistente, segura, fiel a um expressionismo voraz, poucas vezes realizado no Brasil, encontrada apenas em Iberê Camargo, o Ivan Serpa da Fase Negra ou Crepuscular e uma meia dúzia de dois ou três nomes da Geração 80 carioca ou da Casa 7 paulistana.

Como todo artista que se vale do expressionismo, o homem, com todos os seus desejos, angústias, dúvidas, perversões e anseios ocupa lugar de destaque em suas realizações plásticas, revelando um mundo de desarranjo, incerto, inquieto e devorador. É latente a presença da desilusão do homem contemporâneo, tornando sua obra atemporal e de difícil compreensão para seus pares, fato comum a artistas como Goya, Egon Schiele, Francis Bacon, Willem de Kooning, Lucien Freud, Leon Kossof, Frank Auerbach Geog Baselitz e principalmente o brasileiro Iberê Camargo. Artistas que mergulharam nas profundezas do âmago humano, desmascarando a incompreensão e a incomunicabilidade do tempo que lhes coube viver.

Esse homem em crise encontra-se em conflito no olhar do observador quando se depara com as soluções plásticas concebidas por Bonfanti. Sua gestualidade agressiva, solta, em pinceladas espaçadas e densas em total descompromisso com a forma da figuração humana e insubmissa ao contorno, exige que o espectador retire do corpo da pintura, da matéria pictórica, essa figuração e recrie-a, se necessário for, em sua mente. É nessa tensão latente, proporcionada por figuras ora fantasmagóricas, ora beiram a abstração, que a pintura de Bonfanti cresce, surpreende e se equipara aos maiores nomes da história da Arte, porque consegue extrair as sensações que desnudam as inquietações do homem, nos conduzindo à busca de nossa essência, a tentar descobrir o enigma da nossa existência.

Por isso, não há em Bonfanti preocupações com modismos, em seguir novas tendências ou experimentalismos opacos, ocos, inconsistentes, efêmeros, pois Bonfanti é fiel a si mesmo, é fiel à pintura. Sentimos verdade e entrega do artista diante de sua produção.

24.08.2005 - auto-retrato - óleo sobre tela - 40 x 35 cm*

Em um rápido resumo, vemos um Bonfanti expressando trabalhos sombrios, figuras híbridas, horríveis e surrealizantes, assustadoras como as criadas por Hieronymus Bosch ou H. R. Gigger. Retratam um período de predomínio das trevas da ditadura simbolizados plasticamente por meios em que o preto e o branco sobressaem, como o nanquim, a água-forte e a xilogravura. A cor, quando surge, revela-se como na série “Doenças Tropicais”: figuras deformadas, escatológicas, hediondas como foram aqueles anos marcados por mentes e corpos obliterados por um regime de exceção.

25.09.1979 – nanquim - 53 x 76 cm*

O início dos anos 1980 já revela uma fase de colorido intenso, exagerado, alegre, erótico e de forte figuração em diálogo com o kitsch e o fauvismo. Em alguns momentos o óleo bastante diluído lembra a aquarela, enquanto seus desenhos em pastel seco são livres e leves. Em contraste com o terror da década anterior, os anos 1980 são impregnados pela renovação dos ares trazidos pelos exilados políticos da ditadura que começam a retornar ao país em 1979, por causa da Lei da Anistia. Logo, havia uma esperança de dias melhores, uma certa euforia com o fim da ditadura, agonizante e inócua, sem razão para continuar e perpetuar seu poder opressor. O que culmina com o "retorno à pintura" e o clima festivo da mostra “Como vai você, Geração 80?” no Parque Lage e com os comícios gigantescos pelas “Diretas Já!” nas principais capitais do país, ambos em 1984.

01.10.1980 - pastel seco - 64 x 81 cm*

É no decorrer dos anos 1990 que a pintura de Bonfanti começa a adquirir linguagem própria. Sua pintura começa a ganhar em emoção e lirismo na mesma proporção em que a figura humana passa a ficar cada vez mais fragmentada, densa e tensa. Essa figuração começa a ganhar em impessoalidade devidos aos rostos despersonalizados. Com esse recurso, o artista expõe o homem coletivo, o homem comum. Há uma presença constante de um erotismo que beira a perversão, em cores escuras, em tons baixos de vermelho e azul, principalmente. Figuras próximas da abstração, brutalizadas, expressões que navegam da dor ao prazer.

Seus trabalhos recentes apresentam pinturas com pinceladas soltas, espaçadas e agressivas, que não preenchem a tela completamente, porém intensas nas áreas atingidas. Demonstram, inclusive, um paradoxo, pois se há um descompromisso com a forma, há um certo e sutil rigor em tratar a figuração humana ou o seu autorretrato. Estes são um capítulo à parte em sua obra, pois são exaustivamente trabalhados em releituras constantes, numa tensão permanente entre figura e fundo. Seus rostos diluem-se nas pinceladas, tornam-se impressões, onde ganham destaques os olhos do artista - a região de maior impacto cromático -, de massa pictórica e excessiva gestualidade.

16.01.1997 - óleo sobre tela - 150 x 190 cm*

Nas figuras atuais, elas estão isoladas, são solitárias, buscando uma interação que não se realiza no espaço pictórico. Bonfanti, com sua gestualidade demarca o espaço de incomunicabilidade, de figuras distantes, arrasadas, incompreendidas, melancólicas. Bonfanti mostra a miséria da nossa existência. Há um silêncio angustiante quase que tangível nessas obras. E não há como ficar impassível diante delas. As pinceladas são mais livres; o gestual fica mais solto, abstrato e ganha força, torna-se independente. Porém, o fundo carregado e pesado dos anos 1990 agora é tratado com certa leveza, há pequenas áreas com a presença do branco puro da tela. Bonfanti se reinventa, segue em frente, coerente com sua história, com suas influências.

20.07.2001 - óleo sobre tela - 140 x 150 cm*

Isso tudo que procuramos relatar neste texto, revela a força da trajetória de um artista que se sobrepõe à velocidade do mundo contemporâneo, pois como um sábio, Bonfanti sabe que todas as sensações que atingem o homem são as mesmas de sempre, por isso concentra-se na essência da espécie humana, de um homem em intermináveis conflitos que vive em um mundo desconfortável. É essa agonia tão bem traduzida em suas telas que traz inquietação para quem as contempla, pois é o desconforto de nossas vidas que está representado em suas pinturas. Com isso, sua obra ficará para todo o sempre, algo apenas atingido por um grupo seleto de artistas, tornando a visita a sua exposição obrigatória.

11.05.2007 - óleo sobre tela - 140 x 160 cm*


Gianguido Bonfanti fascina por trilhar e mostrar os obscuros caminhos de nossas contradições. Viver é difícil, entretanto, percorrer a sua trajetória pictórica, sentir a entrega incansável ao seu ofício reafirma a vontade de se estar vivo, mesmo que seja apenas para acompanhar a sua luta incessante com a pintura e a vida. É a consagração de um artista que busca decifrar o enigma da existência humana.


Gianguido Bonfanti – 1969/2009
Paço Imperial. Praça Quinze, 48, Centro, 2533-4407. Terça a domingo, 12h às 18h. Grátis. Até 5 de julho.



*Todas as imagens foram retiradas do site de Bonfanti: http://www.gianguidobonfanti.com

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Concretos, Neoconcretos e Alfredo Volpi – encontros e desencontros

Convergências e divergências entre Volpi e a geração concreta dos anos 1950 solidificam o projeto construtivo brasileiro
Por Ricardo Riso
Em comemoração aos cinquenta anos do Manifesto Neoconcreto publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, escrito por Ferreira Gullar e com as assinaturas de Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis, os artistas do núcleo inicial, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) procurou, na medida do possível, recriar a mostra realizada em 1959, intitulada Neoconcretismo – 50 Anos, sob curadoria de Reynaldo Roels Jr. Enquanto o Instituto Moreira Salles (IMS) está com uma retrospectiva de Alfredo Volpi com obras em sua maioria produzidas nas décadas 1950/1960, quando o artista flertou, a sua maneira, com o construtivismo em voga na época.

O Neoconcretismo era uma ruptura dos artistas cariocas perante a ortodoxia do concretismo paulistanos, ligado à rigidez geométrica, fria, impessoal, excluindo da obra artística quaisquer relações com o simbólico, lírico ou emocional, reduzindo-a aos seus elementos puramente plásticos, tanto em forma quanto em cores, que se fecham em si, falam por si. A proposta concreta visava aproximar a arte da produção industrial, em um momento que o Brasil vivenciava um ambiente de euforia com a industrialização do país, motivada pelo governo de Juscelino Kubtischek.

O neoconcretismo buscava retomar o caráter simbólico da arte, a subjetividade, acentuar o afrouxamento da geometria, eliminar a frieza da obra de arte ao permitir a manipulação de obras pelo espectador, tornando-o parte integrante do trabalho, transformando-os em objetos como a série “Bichos” de Lygia Clark, os “Bilaterais” e os “Relevos Espaciais” de Hélio Oiticica, e os poemas-objeto de Ferreira Gullar, deixam a marcar do retorno da “aura” da obra de arte, da retomada do “humanismo” contra a frieza técnica e a certeza científica concreta dos paulistanos. No Manifesto, Gullar procura ser claro ao demonstrar a "tomada de posição neoconcreta" que se faz "particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista"(1). Um ótimo exemplo são as esculturas de ferro criadas por Amílcar de Castro que, a partir de um material duro e pesado, consegue lirismo e leveza com seus cortes e dobras.

Em recente declaração, Ferreira Gullar afirma que

– Quando comecei a escrever o texto, que foi uma proposta da Lygia Clark, para mostrar que o grupo do Rio estava criado, me dei conta de que havíamos chegado a outro ponto. Não éramos mais concretos, como continuávamos nos chamando – justifica, acrescentando a importância do gesto: – A arte neoconcreta é uma invenção brasileira, não foi importada de lugar algum. É um documento original, que representa uma nova visão. Nenhum outro documento chegou a ser isso, deu essa contribuição para a arte brasileira. Era um rompimento com a arte ótica, racionalista, que eliminava a subjetividade. O que havia de novo nisso é que ela se expandia para o corpo, para o manuseio, para a intervenção do espectador. Nesse ponto, era o contrário da arte abstrata. Queríamos a sensualidade, a sedução.(2)

A exposição montada com esmero e delicadeza cobre todo o segundo andar do MAM. O interessante é notar que o Manifesto apenas atesta a mudança natural que os artistas já vinham praticando em anos anteriores a sua realização, fato confirmando por Gullar em entrevista ao caderno Ideias/JB em comemoração ao cinquentenário da mostra. Destaque para as obras das Lygias Clark e Pape, Hélio Oiticica, Franz Weissman, Ascânio MMM e, principalmente, para a presença histórica dos originais publicados no Suplemento Dominical à época, dos catálogos das mostras coletivas e das poesias confeccionadas por Ferreira Gullar. Trata-se de uma exposição para se passar algumas horas e se deleitar com este fundamental movimento da arte brasileira.

Saindo da bela arquitetura do MAM e se dirigindo até a Gávea, encontramos no não menos belo Instituto Moreira Salles a exposição Volpi – dimensões da cor. As imagens selecionadas pela curadora Vanda Kablin retratam basicamente a produção de Alfredo Volpi nas décadas de 1950 e 1960, período que o artista se aproximou da estética produzida pelos concretistas e neoconcretistas. Vale lembrar que Volpi chegou a participar de coletivas com os concretistas paulistanos nos anos de 1956/57, inclusive.

Entretanto, o fascinante das pinturas apresentadas é a constatação daquilo que difere Volpi do rigor formal concretista, sem jamais fugir dos seus preceitos pictóricos. Enquanto os concretistas buscavam suporte nas novas tecnologias, na rigidez dos cálculos, no uso de réguas e compassos para a elaboração de suas formas geométricas, e na pincelada uniforme eliminando o gestual do artista, por conseguinte concebendo a obra de arte como produto e não como forma de expressão, Alfredo Volpi permanecia fiel ao seu processo artesanal de trabalho e ao seu passado de operário.

Para criar suas formas geométricas ele não utilizava réguas e compassos, “consegui-las era a mera obrigação de um artesão devidamente treinado”(3). Continuou pintando com sua tradicional têmpera a base de ovo que deixava visível a superfície da tela, sem jamais procurar atingir as cores chapadas e lisas dos concretistas apesar de reduzir os vestígios do pincel, como podemos conferir em algumas poucas pinturas expostas. A respeito da pincelada volpiana, Olívio Tavares de Araújo resume a relação do artista com o grupo concreto da seguinte maneira: “essa pintura vibra pelo entrechoque entre a racionalidade do projeto e os resquícios líricos da mão”(4).

Em seu projeto concreto, a cor atinge autonomia ao não estar vinculada à figuração mimética, passando “a ser tratada como valor absoluto, seja para organizar a superfície da tela, seja para dinamizar o ritmo da construção e da geometria, com infinitas possibilidades de ordenação do espaço” (5). Com isso, todo o seu repertório plástico, as bandeirinhas, as fachadas, os elementos náuticos agora estão submetidos à cor, tornam-se figuras geométricas autônomas inseridas na espacialidade da tela de acordo com a vontade do pintor. As fachadas, ou melhor, os retângulos ficam suspensos, sugerindo portas e janelas porém descompromissadas da realidade exterior. As bandeirinhas viram retângulos dos quais foram extraídos triângulos, sendo repetidos à exaustão com uma sutil variedade cromática, ou dispersas, suspensas no espaço, ou ainda, como se estivessem flanando como as velas dos elementos náuticos. Ou seja, sem abandonar seu repertório plástico, Volpi recria-o, tratando-o como um infinito manancial de signos geométricos subordinados a sua ilimitada paleta cromática.

Sendo assim, Volpi permanece contemporâneo às gerações dos concretos e neoconcretos dialogando com eles sem jamais ferir seus preceitos e seus temas preferidos, algo parecido ao tratamento dado por Morandi as suas naturezas mortas. Inferimos, pela variedade de formas, que sua inventividade é inesgotável e sua vontade de produzir, infatigável. As obras expostas no IMS mostram um artista de rara sensibilidade, lírico, complexo, moderno, atento ao projeto construtivista da arte contemporânea brasileira e coerente com seu passado plástico.

As exposições completam-se em seus pontos convergentes e divergentes. Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer ou relembrar o rico panorama da produção construtiva brasileira a partir dos anos 1950, e constatar a relevante presença dos nomes de Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Lygia Clark entre outros na afirmação e na independência de uma arte brasileira autêntica.


Neoconcretismo - 50 Anos
até 07 junho 2009
Museu de Arte Moderna – MAM
Av Infante Dom Henrique 85
Parque do Flamengo - Rio de Janeiro
20021-140
Horários (podem sofrer modificações) ter - sex 12h - 18h sab - dom e feriados 12h - 19h
A bilheteria fecha 30 min antes do término do horário de visitação
+55 (21) 2240 4944
http://www.mamrio.org.br/

Volpi: dimensões da cor
até 5 de julho de 2009
Instituto Moreira Salles - IMS/Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
CEP: 21 22451-040 – Rio de Janeiro-RJ
Tel: 21 3284-7400 – Fax: 2239-5559.
De terça a sexta, das 13h às 20h.
Aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
http://ims.uol.com.br/


Notas:
1. GULLAR, Ferreira. Manifesto Neoconcreto. Disponível em < http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/manifesto_neoconcreto.shtml?porelemesmo > Acessado em 12/05/2009.
2. Ferreira Gullar em entrevista publicada no Jornal do Brasil, Caderno Ideias – Especial Neoconcreto 50 anos.
3. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
4. ARAÚJO, Olívio Tavares de. Volpi – a música da cor. Catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo entre 05/04/2006 e 02/07/2006, p. 16.
5. KLABIN, Vanda. Volpi – dimensões da cor. Folder da exposição no Instituto Moreira Salles/RJ entre os dias 29/04/2009 e 05/07/2009.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Roberto Chichorro - “Sonhos d’Agora e também d’Outros tempos” (exposição)

Imagem retirada de http://www.bci.co.mz/

Roberto Chichorro : Sonhos de ontem e de hoje na magia das cores e tintas

Fonte: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2009/04/roberto-chichorro-sonhos-de-ontem-e-de-hoje-na-magia-das-cores-e-tintas.html

ROBERTO Chichorro está em Maputo. Para uma exposição individual. A sua exposição é uma retrospectiva. Da sua vida artística, que roça os cinquenta anos, social e como cidadão. A exposição amanhã, no Espaço Joaquim Chissano, e estará patente até 8 de Maio. Há 17 anos que o artista não vem expor em Moçambique e para a sua primeira retrospectiva seleccionou um conjunto de 70 trabalhos. Mais de metade pertencentes à sua colecção particular e que não serão comercializadas.

Maputo, Quarta-Feira, 22 de Abril de 2009:: Notícias
A concepção e a ideia de fazer a exposição em Moçambique tiveram que ver com a vontade que Chichorro tinha de fazer a primeira retrospectiva da sua vida. Ele fazia questão que a primeira retrospectiva fosse na sua terra.

E a realização desta exposição em Moçambique começou em conversas informais em casa dele e em festas de inauguração de outras exposições em Portugal. Um dos dinamizadores da iniciativa foi Embaixador de Moçambique em Portugal, Miguel M’Kaima.

Miguel M’kaima alavancou a ideia e convidou formalmente Roberto Chichorro para vir expor em Moçambique, ao mesmo tempo que iniciou os contactos que permitiram a Chichorro, mais João Maria Lopes – amigo do pintor há mais de 30 anos – obter o financiamento suficiente para esta deslocação a Maputo.

Posteriormente, fez-se a selecção das obras que era possível trazer para Moçambique.

Dentro da sua obra e do seu espólio, que é muito grande, não se afigurava fácil trazer um número de obras que não fosse enorme mas que constituísse uma mostra das diferentes fases do seu trabalho artístico. Neste sentido, foram escolhidas obras dos últimos quarenta anos.

“Trouxemos coisas dos anos 70/80/90 e 2000, fazendo uma incidência maior daquilo que é a fase dele mais representativa, se calhar de uma forma mais espiritual para ele, que é a pintura dos anos 80. Depois a fase do ano 2000 que, no meu entender, está muito bem representada. Nós trouxemos algumas obras cuja dimensão é grande, mas que me parecem obras muito significativas e foi por isso que as trouxemos”, diz João Maria Lopes.

No conjunto das 70 obras foram trazidas ainda alguns trabalhos que são dos anos 70/80 e que deixam bem patente a sua evolução desde que há mais de 30 anos saiu de Moçambique.

“Ele foi para outro sítio, mas, para ele, Moçambique é um bem. Ele é a pessoa que eu conheço que vivendo num país estrangeiro mais ligação tem à terra dele. E isso está aqui bem patente”, diz Lopes.

E esta retrospectiva, nas dimensões em que está, é, na perspectiva de João Maria Lopes, a realização de um sonho que ele tinha e que é de anos, trazendo a obra dele por completo para que seja vista aqui em Moçambique.

Vieram ainda algumas obras, mas poucas, que ele fez, por brincadeira, uma vez que ele costuma dizer que não é escultor, ele é pintor, mas que, a pedido do seu amigo João Lopes, trouxe. São três esculturas em bronze e mármore e três em cerâmica com motivos diferentes. São obras que ele fez numa fase da vida em que ao lado de amigos lhe apeteceu tentar a escultura. “Nunca fez obras de esculturas no verdadeiro sentido da palavra. Considera-se um pintor e não mais do que isso. E ele é mesmo”.

João Maria Lopes foi quem desenhou o catálogo. Ele vai ser vendido e o valor reverterá a favor de uma instituição social. O catálogo, muito bem conseguido, é acompanhado por textos da autoria de personalidades como Calane da Silva, Mia Couto, Luís Carlos Patraquim, Licínio de Azevedo. Tem também um texto do próprio Roberto Chichorro.

Trabalhou ainda ao longo da preparação da exposição com Chichorro, para além da totalidade de quadros que compõem a exposição.

“Nós somos tão amigos que estas coisas funcionam sempre, porque nos damos tão bem e eu gosto da obra, e, portanto, quando tenho que fazer alguma coisa a este nível gráfico para ele é sempre um prazer”.

Perguntamos a João Lopes como é que ele interpretava Roberto Chichorro como cidadão e artista, ao que nos respondeu: “Eu não tenho muito jeito para fazer aqueles deslumbrantes que muita gente faz, mas eu diria que Chichorro é o cidadão que as pessoas deveriam ser. Não sei se este é conceito e serve, mas todas as pessoas deveriam ser como Roberto Chichorro porque são honestas, boas e porque são livres de cabeça que é uma coisa que eu acho fundamental. E como artista fora da terra, Chichorro é uma pessoa que nunca conseguiu perder a ligação à terra, e viveu em países tão diferentes como Portugal e Espanha e Itália. E, portanto, colhendo técnicas e formas de pintar em países distintos, com culturas completamente diferentes ele nunca perdeu a linha orientadora daquilo que é a criação dele”.


PINCÉIS A DANÇAR

Maputo, Quarta-Feira, 22 de Abril de 2009:: Notícias

A obra de Chichorro é muito atravessada pelos sons, com muita musicalidade. Para quem repara a sua obra sente isso. A presença da multiplicidade de cores e formas e que nos remetem para a dimensão da musicalidade.

Quando uma vez escreveu sobre a sua pintura, João Lopes disse que ele pintava com som e música. Fala-se sempre das cores da pintura dele. Dos vermelhos, dos azuis… e Lopes diz ver tudo isso como música. São tonalidades musicais. “A pintura dele chamei-lhe um dia que eram pincéis a dançar”.

ESCULTURAS ENTRE PINCÉIS

No festival de cores e tintas estão presentes seis obras escultóricas. Três são feitas de bronze e mármore e as outras em cerâmica.

João Lopes conta que, o sentido profissional com que faz a pintura, permitiu-lhe também fazer boas obras de escultura. Ele as trabalhou com um artístico forte e que são produto de uma troca de “galhardetes” com um amigo dele, que era um escultor espanhol já falecido. Na altura, Chichorro fez duas a três esculturas e o artista espanhol pintou também o mesmo número de telas.

“Eu acho que isto são obras verdadeiramente de Chichorro e é por isso que fiz alguma pressão para que ele as trouxesse”, conta.

Há ainda um conjunto de obras de uma fase em que Chichorro desenhava muito em tinta de china, no princípio dos anos 90, e que, para além de serem bastante significativos, são tecnicamente bem conseguidos.

Ao longo das 70 obras encontramos basicamente acrílico sobre tela, aguarelas sobre papel e ainda obras em tintas de china.

Chichorro apresenta-nos ainda duas serigrafias, das poucas que tem.

As serigrafias abrem uma possibilidade para as pessoas terem o visual de um quadro de um pintor, mas, em termos, artísticos e patrimoniais não é o mesmo que ter um original. Contudo, as serigrafias presentes são as mais significativas para ele.

Por Francisco Manjate

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Tchalê Figueira - "O Mar", pinturas recentes

As pinturas abaixo, da série "O Mar", foram gentilmente enviadas pelo artista plástico cabo-verdiano Tchalê Figueira, no dia de hoje.

Ricardo Riso













domingo, 22 de março de 2009

(arte3) arte ao cubo (curadoria: João Magalhães)

Uma nova exposição com curadoria do meu ex-professor e eterno mestre João Magalhães, revelando novos nomes da Escola de Artes Visuais do Parque Lage que apostam na pintura como meio.
Ricardo Riso

( arte3 )
ARTE AO CUBO

Uma receita para um bom e sempre original texto sobre arte tem que necessariamente aludir, em seu bojo, a pensadores fundamentais.O que seria desse texto se não tocasse no mito da caverna, na reprodutibilidade técnica? É forçoso citar Foucault, Deleuze, um pouco de Freud, muito Lacan, quase nenhum Young, embora este último ainda seja consideravelmente apreciado pela turma da energia. Derrida, quem não sabe o que é desconstrução? Quem tem medo da différance? E a sociedade do espetáculo, absolutamente indefectível. Baudelaire, Barthes e todos os Bergs. Argan, o sublime e o pitoresco.Husserl e Merleau-Ponty. Todos os franceses, todos mesmo. Nietzsche. Krauss e o incontornável esquema paisagem/arquitetura. Alguns Adornos, como eventualmente Bourdieu e Wittgenstein, podem acrescentar alguma elegância. Caso ainda se tenha espaço, Belting e Danto.Os analíticos, de um modo geral, podem ser dispensáveis. Um texto que siga rigorosamente os preceitos da presente receita, será,
pela densidade e originalidade, muito bem recebido. Inclusive pela Academia.

João Magalhães, março de 2009.

( arte3 )
ARTE AO CUBO

ANNA MARIA NIEMEYER APRESENTA SEIS NOVOS ARTISTAS AO CIRCUITO DE ARTE

A exposição ( arte3 ) apresenta obras de seis novos artistas, a partir de 12 de março, na matriz da Galeria Anna Maria Niemeyer. Com curadoria de João Magalhães, a coletiva expõe seis pinturas de Alessandro Sartore, Bet Katona, Felipe Fernandes, Jimson Vilela, Raul Leal e Virginia Paiva - todos alunos de João Magalhães na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV- Parque Lage). A mostra poderá ser visitada de segunda a sábado, das 10h às 22h, exceto domingos e feriados até o dia 4 de abril de 2009.

Segundo o curador, os alunos foram selecionados pelo compromisso e qualidade dos trabalhos. “Eles já estão maduros e merecem expor como artistas”, afirma ele, comentando que as obras expostas utilizam materiais convencionais de pintura, como tinta em tela sobre chassi, e trabalham com imagens em diálogo com a contemporaneidade.

Sartore apresenta um díptico, inteiramente dourado de grandes dimensões, formado por duas telas, de medidas iguais, em posições diferentes. Bet expõe uma de suas pinturas, onde utiliza o máximo da síntese em uma pintura gráfica para investigar figuras, paisagens e interiores. Felipe utiliza, principalmente, retratos de amigos da época de criança, recriando essas imagens com toque de deboche, como a obra selecionada. Quem também explora a fotografia é Raul, em pesquisa sobre o meio urbano, onde indivíduos são retratados como seres totalmente anônimos. Jimson, que experimenta diversos suportes e pigmentos, apresenta tela crua, de grande dimensão, onde a interferência da tinta é quase zero. Virginia chega à compulsão ao recorrer à mistura energética de elementos esfumaçados em cores baixas e frias e em dourado.

A ( arte3 ) integra o projeto criado em 2000 pela galeria, onde artistas convidados apresentam o trabalho de seus alunos em coletivas. Edições mais recentes tiveram curadoria de Nelson Leirner, Edmilson Nunes e Chico Cunha. “Desde que abri minha galeria, em 1977, sempre me preocupei em dar espaço aos iniciantes”, ressalta Anna Maria Niemeyer, destacando que já estrearam por lá nomes como Eliane Duarte, Jorge Guinle e Victor Arruda.


ALESSANDRO SARTORE
Eu bebo porque é líquido, se fosse sólido eu comeria!
É a resposta do bêbado. Acho que cabe para pintura, não porque pintar seja uma cachaça, longe disso, pintura é imagem e não palavra ou número.
Criar e resolver problemas pela imagem, acho que é isso. Mesmo com vários outros meios, a pintura ainda é referência. Não como a nobre Arte, mas porque ela está presente. Quantas vezes ouvi: Que vídeo!Até parece pintura!
realmente é.
É esse campo ampliado, que me interessa. Ampliar, reduzir, potencializar, a pintura serve como meio mais imediato, direto, é já tão impregnado de tudo (foto,vídeo,objeto, etc.) que mesmo quando reduzido quase a nada, só tela e tinta, tem um poder de reverberar quase que infinitamente. Criar e tentar resolver problemas pela pintura, não só de pintura, é uma armadilha extremamente atraente. É como mosca na teia, pode não ser aparentemente nada mas ela está lá.
Pinto porque é imagem, se fosse palavra escreveria!

BET KATONA
Escolhi a pintura como suporte para expressar ideias, pensamentos, poesias.
A pintura torna real o meu espaço interno e imaginário.
A pintura torna material o que não é material.
As deformações ou distorções são a realidade do pensamento.
Enfim pinto o que desejo.
Pinto porque me dá tesão.

FELIPE FERNADES
Eu pinto por um pouco de egoísmo. Pinto qualquer cena que eu possa tornar mais interessante, ideal. Altero seu sentido pra algo que me entretenha ou possa causar estranhamento. No geral, escolho cenas que me comovem, mas que nunca deixo de evitar que se tornem ridículas ao final do processo.

JIMSON VILELA
Pinto, pois, para mim, a pintura é a linguagem mais complexa para se estabelecer uma poética, talvez seja a que mais exija do artista uma conjugação, equilibrada, entre a prática e a teoria (forma e conceito).
A pintura tem suas verdades, dizia Matisse. Além disso, a possibilidade de dialogar com mais de dois mil anos de história da pintura, de repertórios da pintura, e, principalmente, da história da imagem; e a partir disso criar saídas e possibilidades para um trabalho me interessa. Gosto de ser exigido de um trabalho, e de fazer deste algo vivo e perturbador para o observador. Minhas paisagens possuem isso, uma inquietação sobre a visualidade no contemporâneo. Pintar hoje, para mim, é desafiar a lógica de uma sociedade firmada na rápida criação de imagens que mediam nossas relações

RAUL LEAL
Citando Peter Doig, a pintura atualmente é uma coisa que se você pensar muito você simplesmente não faz. O quê levaria um artista contemporâneo a investir trabalho e conhecimento num meio que tem sido sistematicamente declarado morto desde fins do século XIX?
Talvez seja por teimosia que insistimos em continuar pintando numa época em que, a cada dia, surgem meios mais e mais sofisticados de produção de imagens. Soma-se a isso o enorme desafio de inserir o trabalho de pintura nos processos que regem a sociedade contemporânea e nas questões filosóficas e conceituais da arte atual.
Enfim, pinto porquê é o meu modo de me relacionar com as questões impostas pelo mundo que me cerca, porquê a pluralidade do meio artístico atual permite que ainda existam pintores, porquê encontro na pintura uma espécie de sublimação das minhas angústias e inquietações e porquê tenho uma enorme paixão por essa atividade.

VIRGINIA PAIVA
Por vontade de descobrir. Por hábito, que foi virando compulsão. Por prazer. Por obrigação. É a minha maneira de me transubstanciar.
Toda criança - que disponha desses meios e de algum incentivo - já moldou suas massinhas, já segurou deliciosamente canhestra um lápis-cera, já cravou no papel suas casinhas, sóis, flores, famílias, coelhos e pássaros; se posso confiar em minha já combalida memória, lembro da descoberta que foi converter o papel em cartola de mágico e assim poder me exibir para o mundo, conversar com ele.
Hoje posso até inventar que com a pintura, com as histórias que conto através dela, com a prazerosa lambança com as cores, com a descoberta de outros colegas de ofício bem maiores que eu - estaria fugindo da náusea sartreana e afirmando minha frágil humanidade num mundo absurdo. Mas prefiro dizer que não cresci: tudo o que eu quero é não deixar de ser criança.

João Magalhães*, curador da exposição (arte3), é artista plástico e, desde 1993, é professor de pintura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV-P.Lage).

créditos obrigatórios
curadoria: João Magalhães
produção (artistas): Belvedere
fotografia (artistas e obras): Jaime Acioli
design grafico (convite e folder): Inventum

assessoria de imprensa
Angela Falcão - tel: 21 25123636/6187 escritório - e.mail: angelafalcao@uol.com.br

maiores informações ou solicitação de imagens (alta / tif; 300dpi / jpeg ou 96dpi / jpeg)
GALERIA ANNA MARIA NIEMEYER - Leonor Azevedo - tel: 21 22399144 (das 14 às 21h segunda a sexta-feira) - cel: 21 969919023 ou e.mail:galamn@centroin.com.br

domingo, 15 de fevereiro de 2009

It's better to burn out than to fade away


It's better to burn out than to fade away
acrílica s/tela - 113 x 77 cm - 2003 (Ricardo Riso - coleção particular)
Não entendo certas atitudes, situações, pessoas. Ando cansado com algumas passagens da vida.
Ricardo Riso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Petrillo – Lugares Possíveis

Transcendência poético-pictórica em novos trabalhos confirma a excelência do artista

Compromisso com a pintura, paixão pelas paisagens, poesia em telas com predomínio da horizontalidade das formas em uma parca paleta de cores são o que encontramos ao contemplar as pinturas em grande formato do artista plástico Petrillo (http://www.petrillo.com.br), em sua nova exposição Lugares Possíveis, que ficará até o dia 25/01 no Centro Cultural Correios.

Inspiradas no ambiente incomum do deserto de sal boliviano, as pinturas recentes de Petrillo subvertem a percepção do observador ao explorar os limites da relação figura/fundo e da noção de profundidade. Ao recriar paisagens a partir da questão já clássica da pintura: de transpor a linha tênue entre figuração/abstração, Petrillo constrói uma trajetória poético-pictórica vigorosa, segura e surpreendente, merecedora de grande expectativa a cada nova exposição.

Favorece, nas telas ali apresentadas, o fato de Petrillo captar a transcendência entre a amplidão da paisagem desértica do sal boliviano e o céu, dissipando cores, desconstruindo formas. Com isso, Petrillo traduz o silêncio, o vazio que eleva o espírito. Por suas telas buscamos a paz interior, viajando na sensação de harmonia com uma força superior a nós somente experimentada em lugares ermos, descontaminados da interferência hostil do homem, podem oferecer.

Ricardo Riso

Petrillo – Lugares Possíveis
Centro Cultural Correios. Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro, 2253-1580. Terça a domingo, 12h às 19h. Grátis. Até 25 de janeiro de 2009.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

À Cor...

À Cor... Paul Klee, Alfredo Volpi, Henry Matisse, Gonçalo Ivo - aquarela s/papel. 40 x 30 cm. 2002

Pensei que não encontraria uma imagem desta pintura em meu acervo digital. Possuo carinho especial por ela, apesar de carregar a insegurança de um aquarelista iniciante e não conter as características da minha pintura.

Ricardo Riso

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Gonçalo Ivo, João Magalhães e Paulo Pasta: a produção pictórica brasileira no século XXI



Três artistas brasileiros com trabalhos recentes e exposições em andamento, no Rio de Janeiro, reafirmam que a pintura ainda resiste à ordem estabelecida pelos meios da arte contemporânea, valorizador das performances, objetos, vídeo-instalações e intervenções, pois, há tempos, vivenciamos o predomínio do efêmero, perecível e conceitual.

Entretanto, João Magalhães no Museu de Arte Moderna/MAM, Gonçalo Ivo no Museu Nacional de Belas Artes/MNBA e Paulo Pasta no Centro Cultural Banco do Brasil/CCBB, mostram-nos, por diferentes trajetórias pictóricas, que a pintura resiste, renova-se e segue em frente, ora buscando novas possibilidades, ora relendo o passado da arte.

Com curadoria de Ronaldo Brito, as 40 obras criadas a partir de 2004, sendo a maioria em grande formato, dentre elas 20 inéditas, Paulo Pasta surpreende-nos pela concisão de elementos, cores harmoniosas sem agredir o olhar do espectador. Muito pelo contrário, exigem sim, cuidadosa e paciente atenção diante das nuanças de cores, das formas verticais e horizontais, as cruzes e vigas como salientou Ronaldo Brito em folder da mostra. São pinturas rigorosas em sua confecção, suaves e líricas de alguém que domina a cor como poucos. Sendo que esta se apresenta sem o excesso visual dos tempos atuais. Ponto para Paulo Pasta.

Ao dialogar com a tradição construtiva da arte internacional e com a nossa raiz concreta, pois estão lá as garrafas de Morandi, Mondrian, Alfredo Volpi e, por que não?, Mark Rothko, as pinturas de Paulo Pasta convidam-nos ao silêncio, à contemplação do simples, do cotidiano, do cândido. De acordo com Ronaldo Brito:

“Tudo menos exibicionistas, as pinturas de Paulo Pasta apresentam-se agora decididas, frontais, coextensivas à superfície do mundo. E cumprem aí, eu diria, uma função de higiene estética: em meio a tanto lixo, tanta banalidade e venalidade, nada mais saudável do que a visão de coisas puras, isto é, coisas que se empenham ao máximo em ser exatamente o que são.”

Grandes e intensos coloristas ajudaram e ajudam a sedimentar a pintura brasileira. Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Luíz Áquila e Jorge Guinle são alguns ótimos exemplos da nossa tradição pictórica. Surgido nos anos 1980, independente a grupos como a Geração 80 carioca e ao Casa 7 paulistano, grupos que retomaram a pintura com a força que ela sempre mostrou, o artista carioca Gonçalo Ivo (http://www.goncaloivo.com.br/), filho do escritor Ledo Ivo, confirma o seu nome entre os maiores artistas do país com a exposição A cor-espaço.

Extremo colorista, o excesso em suas telas nunca é demais. Pintura paradoxal sim, entretanto, pintura exaustivamente estudada, com rigoroso valor estético fruto de profundas pesquisas da história da arte. Gonçalo Ivo passeia por diversas tradições pictóricas, com cores exuberantes, fortes, agressivas, todavia, líricas, delicadas, sensuais em telas de grande formato que dialogam com a linha construtiva da arte, assim como, e principalmente, com a arte geométrica africana, de totens a capulanas, à qual Gonçalo Ivo estuda e reler há anos.

Ao enveredar por caminhos fora do suporte tradicional da pintura, no caso, a tela, Ivo arrisca-se com sucesso em pedaços de madeira e objetos para sua pintura, questionando os limites impostos pela arte européia.

Vemos em suas obras, além dos artistas citados, George Braque e, claro, Henri Matisse. Uma exposição obrigatória para contemplarmos as obras de um consistente e criativo artista de sua geração. Uma exposição de Gonçalo Ivo é sempre uma aula de pintura... uma aula da história da pintura.

João Magalhães, meu ex-professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, apresenta, no MAM, um conjunto de pinturas que rejeitam “terminantemente qualquer recurso de sedução que a pintura possa oferecer”, segundo o curador Reynaldo Roels. O que não é novidade para quem conhece a trajetória pictórica de João Magalhães e o seu rigoroso método de ensino nas aulas do Parque Lage.

Telas em grande formato com domínio da cor preta, assim são suas novas obras, em que a rara presença de outras cores não interfere nos trabalhos, tornando-se quase que imperceptíveis. Inquietantes, questionadoras para quem as visualiza, “brutalista” como denominou Frederico Morais em e-mail de divulgação da exposição, neste ponto sinto que sua obra se aproxima do espanhol Antoni Tapies. Com parcos elementos, João Magalhães segue a sua máxima de problematizar as “possibilidades da pintura, usando os meios da própria pintura”. Uma questão que sempre permeou as suas aulas e sempre me angustiou enquanto fui seu aluno.

Experimental, João arrisca-se em caminhos tortuosos, limítrofes. Em várias obras expostas, as relações com os limites do suporte são trabalhadas e estudadas, tornando-se, em muitos casos, os momentos de maior tensão. O exemplo maior é o diálogo proposto com o importante nome da Action Painting americana, Barnett Newman, no trabalho intitulado “Who’s affraid Barnett Newman?”.

Segundo Reynaldo Roels, em catálogo da mostra:

“Desde o início de sua trajetória, nos anos 80, João Magalhães, recusou o fascínio que o meio permite e enfrentou o ato da pintura da forma mais difícil. Agora, continuando a rejeitar a facilidade, elas apresentam uma aparente aridez que, de fato, nada mais é do que a honestidade, o enfrentamento direto e explícito de alguns dos problemas mais básicos que a pintura oferece tanto ao fazer quanto ao olhar.”

Concluindo, são três ótimas e diversificadas exposições, demonstrando o caráter dinâmico e questionador da pintura produzida no Brasil, por três legítimos representantes: Gonçalo Ivo, João Magalhães e Paulo Pasta.

Ricardo Riso

GONÇALO IVO – A cor/espaço
Museu Nacional de Belas Artes. Cinelândia: av. Rio Branco, 199, entrada pela rua Araujo Porto Alegre, tels. (21) 2240-0068 / 0160. Ter. a sex., 10h/18h; sáb. e dom., 12h/17h. R$ 5. Grátis aos domingos. Até 26 de agosto.
www.mnba.gov.br

JOÃO MAGALHÃES – Beleza Bruta
Museu de Arte Moderna. Parque do Flamengo: av. Infante Dom Henrique, 85, tels. (21) 2240-4944 / 4924. Ter. a sex., 12h/18h; sáb., dom. e fer., 12h/19h. R$ 5 e R$ 2 (estudantes e maiores de 60 anos). Grátis para crianças de até 12 anos. Aos domingos, ingresso-família a R$ 5 por grupo. Até 5 de outubro.
www.mamrio.org.br

PAULO PASTA
Centro Cultural Banco do Brasil. Centro: Rua Primeiro de Março, 66/1º andar – Rio de Janeiro/RJ. Tel: 21-3808-2020 Grátis. Até 21 de setembro
www.bb.com.br/cultura