Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Nok Nogueira - Jardim de Estações, lançamento em Luanda
sábado, 10 de dezembro de 2011
Trajanno Nankhova Trajanno - Laço de Aço Lasso
Sobre a Obra Nok Nogueira, escritor e jornalista, frisou que "Laço de Aço Lasso", de Trajanno Nankhova Trajanno, vale-se pelo apurado exercício poético, pelo lapidar da palavra, isto é, que resulta de uma certa elasticidade comunicativo que dela se obtém quando traçado um campo entreberto à experimentação de novas interpretações da dimensão estética do pensamento artístico contemporâneo, e adicionado a isso um certo pionerismo em relação à pós-moderna poesia angolana, que passa a conhecer um exercício poético essencialmente voltado para uma herança sonetista à sua real dimensão. Cremos, sem veleidade alguma que nos venda o carácter crítico das nossas análises, que esta obra é indubitavelmente um marco na história da pós-moderna poesia angolana, por todos os aspectos que possam estar a ela associados...»
Fonte: http://www.ueangola.com/index.php/livros-on/item/1049-laço-de-aço-lasso.html
José Luis Mendonça - Olfacto do Afecto (livro)
Abreu Paxe - Projecto poético Nkalu a maza (poemas)
A revista digital portuguesa TRIPLOV - http://novaserie.revista.triplov.com/numero_22/abreu_paxe/index.html - publicou o seu Projecto poético Nkalu a maza, uma série de doze poemas. Registramos neste espaço o primeiro destes, os demais encontram-se no site.
Ricardo Riso
1. Muna ulunga da brevíssima existência
sinto em mim oposto ao medo
- lá para dentro minha pedra (brevíssima existência) -,
o viver silenciado
como se desta vez a existência
abrisse a alma que o guia muna ulunga
a calma mas próxima função
conduz-me anunciando a sedução
a noite ganha razão
como ferida a glória no duro labirinto
muito perto do sofrer
morre em mim oposto a amargura
a doçura da vida espumas de luz lá para diante:
o fracasso, a desonra. que importa a vitória
talvez sobre os dias porque alguém me esmaga a cidade
pó só pó sobre os ombros da morte o vazio
efectivamente intervalo de noites a brevíssima,
inacreditável existência (a pedra) já nada seduz
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Dica de blog: poesia angolana
Boa consulta!
Ricardo Riso
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Ondjaki - Há prendisajens com o xão (livro)
do chão promovido a almofada, do nosso limite a ele, do nosso encontro sob ele em algum tempo desconhecido, ondjaki nos transporta para um diálogo com o tempo, com a palavra, com a liberdade da escrita, com a imaginação de seres misteriosos. descrições de uma natureza em brisa de jangada e zunzum de abelha. e há também o encontro do sentimento com os seres que somos. os lugares e as descoisas.mais conhecido como prosador aqui no Brasil, dessa vez o autor nos oferece sua escrita em poesia construindo (ou desconstruindo) com muita intimidade cada palavra, cada verso, à sombra das árvores, pela alma das gaivotas, perto de um cardume de tardes. ou do chão
Pallas Editora
Páginas: 72
ISBN: 978-85-347-0464-9
Idioma: Português
Formato: 13,0x18,0cm
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Ha_prendisajens_com_o_xao/216/13/
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Paula Tavares - Amargos como os frutos (poesia reunida)
Durante os tempos das lutas pela libertação de Angola, uma significativa parcela dos poemas produzidos transformou-se em arma ideológica de combate ao colonialismo. A partir da independência, ao lado da literatura de exaltação nacional, marcada pelo discurso panfletário e anticolonialista, começaram a surgir novas vertentes poéticas que, sem negar a importância de um compromisso com as realidades nacionais, buscam em si outros ingredientes.
Paula Tavares é uma dessas escritoras que cedem sua vozpara expressar, com rebeldia e ternura, o clamor amargo das mulheres encarceradas em seu próprio silêncio. Além dos efeitos das muitas décadas de guerras em Angola, as mulheres sofreram também no próprio corpo a opressão do machismo, natural depois de tanto tempo enraizado na cultura local.
A antologia poética Amargos como os frutos é a representação da voz feminina africana na sua individualidade, na sua feminilidade, na sua corporalidade. Palavras essenciais, intimistas e plurais, locais e universais, numa linguagem que registra e mistura crueldades e delicadezas.
Paula Tavares é uma das poetisas contemporânea do período pós-independência angolana (11 de Novembro de 1975). Foi membro do júri do Prêmio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985. É também membro de diversas organizações culturais, como o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Museus (ICOM) e o Comitê Angolano do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), da Comissão Angolana para a UNESCO. Tanto a prosa quanto a poesia de Paula Tavares estão presentes em várias antologias em Portugal, no Brasil, na França, na Alemanha, na Espanha e na Suécia.
Pallas Editora
Páginas: 288
ISBN: 978-85-347-0466-3
Idioma: Português
Formato: 14,0x21,0cm
http://www.pallaseditora.com.br/produto/Amargos_como_os_frutos/218/13/
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Finalmente a poesia reunida de um incontornável nome da poesia angolana, preenchendo uma injustificável desatenção do mercado editorial brasileiro. Parabéns à ousadia da Pallas! Ousadia que poderia ser ampliada a outros nomes africanos e exemplo que deveria ser seguido por outras editoras.
Ricardo Riso
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Akiz Neto - A Construção Figurativa do Gesto (resenha)
sexta-feira, 4 de março de 2011
Pombal Maria - “Palavras Lavradas”
O interessante da Poesia Concreta é a sua subversão em relação à poesia. Com ela, os experimentalismos propostos pelos concretistas brasileiros – Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e outros – nos anos 1950 ressignificaram a forma de se ler/ver o poema. O poema não era mais sobre algo ou alguma coisa, mas sim autônomo em si, principalmente quando partia para a ruptura com a linguagem, aliando-se às formas geométricas e ao não-verbal. O poeta brasileiro Pedro Xisto, contemporâneo dos concretistas, conseguiu ótimos resultados e podemos citar os seus poemas “Zen” e “Epithalamium – II”:
Encontramos a radicalização e a ironia da proposta poética de Maria em “Poema invisível na lavra de palavras”. Neste, o desarranjo e a impossibilidade da leitura se dá com os diversos sinais de pontuação que constroem o poema, o que demonstra a necessidade de se buscar uma nova forma de discurso para a poesia. Corajosa, frisamos, pois o poeta avisa-nos que a leitura deve ser feita em voz alta, com direito ao aumento dos tipos da palavra “alta”, recurso gráfico que será reutilizado no poema “Dança”, que procura na oscilação do tamanhos das letras o ritmo de uma dança.domingo, 24 de outubro de 2010
João Tala lança "Forno Feminino" no Rio de Janeiro - 26/10/2010
POEMAS DE JOÃO TALA
TROMPAS UTERINAS / BRAÇOS DO MUNDO
ouço o recomeço acostumada seara
de grãos rompidos
ainda. as grandes mãos do mundo
fixam sementes, algarismos
palavras cervicais
húmus sobre terra húmida,
é esse o caminho que atinge ovários
pela boca da labareda.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 27)
Poema ébrio não é mais tua raiva
apago tua escrita dorida de raivas.
Bombeiro da inquietação
leitor das cartas imóveis
o engenho da tua caligrafia
eu, teu empenho a cumprir-te
quanto te conversas e precisas extinguir
o ruído da palavra que nem gritas.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 72)
Boa-noite. Venho de lume à
brisa de terra.
Trouxe o frasco de hormônio
achei-o na farmácia do tempo.
Boa-noite pedacinho. Outro desejo e
dois sorvos. Avivarei mulher em ti
com fogo novo. Noitinha, senhora
súbita alegria de doer onde salgava
o útero. Mais um sorvo e saltam tuas rosas
outro sorvo pode extinguir a angústia
reunida nos teus ovários.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 44)
palavras bonitas como a palavra mágica.
nascente uma palavra moça, recorrente.
palavra menstrual, rosada.
a rigor o mês assiste o vocabulário
da permuta,
a palavra volúpia teu sexo repleto de pássaros
notas mágicas de teus olhos cheios de plan(e)tas
muitas palavras por dizer ou rasgar
quando comes os frutos ensopados;
quando do fruto tens palavra sentir: formas e dores;
e caber na forma palavra nutrir.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 55)
São estas diferenças que partilho:
eclesiástica palavra tu és uma igreja
nutrida uma palavra
espiga outra palavra
levantas-me escolástica o nervo
com a tua dor;
aurora com o teu lume,
álgebra inquieta não somarias
o tempo que não partilho.
(TALA, João. Forno Feminino. Luanda: Kilombelombe, 2009. p. 41)
Os rumores edificaram o medo
cantamos a urgência dos lugares.
Encheram-nos as pupilas de palavras
amendrontadas;
Edificaram-nos também os passos
com as botas sobre a Aldeia.
Agora um país tem as têmporas a arder
de nossos medos
mas é apenas a memória dos tumultos.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 27)
recolho da época devastada agora uma aura
cheguei dos rumores para o paraíso húmido
o meu catecismo é a bruma onde a língua
explode de paixões
cheguei, homem da festa, carrego orvalhos
onde findaram as explosões.
(TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. p. 20)
A VIDA É UM VÍCIO ALÍRICO
Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 24)
As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.
(TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004. p. 29)
terça-feira, 25 de maio de 2010
Agostinho Neto, Adeus à hora da largada - Dia da África 2
Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.
(NETO, Agostinho. Sagrada Esperança.)
segunda-feira, 8 de março de 2010
Paula Tavares - O cercado e desenho Ricardo Riso
O cercado
De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó
Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado
De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias
Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado
TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como os frutos. In: Poesia. Luanda: Maianga, 2004.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
João Tala – A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (resenha)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
João Melo: Crónica verdadeira da língua portuguesa
Crónica verdadeira da língua portuguesa
Luandino Vieira
Sophia de Mello Breyner
gostava de saborear
uma a uma
todas as sílabas
do português do Brasil.
Estou a vê-la:
suave e discreta,
debruçada sobre a varanda do tempo,
o olhar estendendo-se com o mar
e a memória,
deliciando-se comovida
com o sol despudorado
ardendo
nas vogais abertas da língua,
violentando com doçura
os surdos limites
das consoantes
e ampliando-os
para lá da História.
Mas saberia ela
quem rasgou esses limites,
com o seu sangue,
a sua resistência
e a sua música?
A libertação da língua portuguesa
foi gerada nos porões
dos navios negreiros
pelos homens sofridos que,
estranhamente,
nunca deixaram de cantar,
em todas as línguas que conheciam
ou criaram
durante a tenebrosa travessia
do mar sem fim.
Desde o nosso encontro inicial,
essa língua, arrogante e
insensatamente,
foi usada contra nós:
mas nós derrotámo-la
e fizemos dela
um instrumento
para a nossa própria liberdade.
Os antigos donos da língua
pensaram, durante séculos,
que nos apagariam da sua culpada consciência
com o seu idioma brutal,
duro,
fechado sobre si mesmo,
como se nele quisessem encerrar
para todo o sempre
os inacreditáveis mundos
que se abriam à sua frente.
Esses mundos, porém,
eram demasiado vastos
para caberem nessa língua envergonhada
e esquizofrénica.
Era preciso traçar-lhe
novos horizontes.
Primeiro, então, abrimos
de par em par
as camadas dessa língua
e iluminamo-la com a nossa dor;
depois demos-lhe vida,
com a nossa alegria
e os nossos ritmos.
Nós libertámos a língua portuguesa
das amarras da opressão.
Por isso, hoje,
podemos falar todos
uns com os outros,
nessa nova língua
aberta, ensolarada e sem pecado
que a poetisa portuguesa
Sophia de Mello Breyner
julgou ter descoberto
no Brasil,
mas que um poeta angolano
reivindica
como um troféu de luta,
identidade
e criação.
02.10.09
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
João Melo - "Novos Poemas de Amor" (Livro)

O escritor João Melo lançou no passado dia 30 de Julho, no Instituto Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, o livro “Novos Poemas de Amor”, editado pela Chá de Caxinde, vinte anos depois de ter apresentado a primeira obra de poesia amorosa e erótica da literatura angolana, “Tanto Amor”, livro inaugural que, na época, surpreendeu os leitores e a crítica. Note-se que esse livro teve uma tiragem espantosa para uma obra de poesia - 10 mil exemplares -, mas esgotou-se rapidamente.
O autor nasceu em 1955 em Luanda, onde vive. É escritor, jornalista, publicitário, professor universitário de Comunicação e deputado à Assembleia Nacional de Angola. Como escritor, é poeta, contista, cronista e ensaísta. Publicou onze livros de poesia, quatro de contos e um de ensaios. Tem actualmente no prelo dois livros de poesia, dois de ensaios e um de contos. João Melo está representado em várias antologias, em Angola e no estrangeiro. Teve três menções honrosas, duas no Prémio Sonangol de Literatura e uma no Prémio Sagrada Esperança, ambos em Angola. Publicado habitualmente em Angola, Portugal e Brasil, o escritor tem textos traduzidos para mandarim, francês, alemão, italiano e húngaro. O amor, quase sempre carregado de uma forte carga erótica, é um dos temas recorrentes da poesia e também da prosa de João Melo. Neste seu novo livro, composto por quarenta poemas escritos durante um decénio (de 1990 a 2000), o autor canta, diz a escritora Margarida Paredes, “um amor que se renova constantemente, renasce, com um movimento entre o passado e um presente reavivado, reencontrado. Muita ternura, muito erotismo, mas um erotismo maduro, no qual a paixão é constantemente atravessada pela cumplicidade do tempo”. Para Margarida Paredes, os textos de “Novos Poemas de Amor” são, do ponto de vista formal, perfeitos, com um ritmo construído de uma maneira contida. “Mas o amor não é perfeito, é desordem... Sente-se que a ordem formal está ali a enformar a desordem dos sentidos, em contraponto das emoções... Por conseguinte, um amor adulto, controlado”, escreve.
Em Novembro de 2008, João Melo lançou no Brasil o seu livro de contos "Filhos da Pátria", em edição da Record.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Ondjaki - Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas (poesia)
...Segundo Paulinho Assunção (escritor brasileiro):«Você pode imaginar uma esquina do mundo onde Ondjaki encontra Manoel de Barros, Luandino Vieira, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Raduan Nassar. [...] Você também pode imaginar o que eu imagino ao ler este novo livro de Ondjaki. É um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las. E acho que o Ondjaki não tem medo de trazer para o seu livro os seus afetos todos literários. E faz bem o Ondjaki não ter medo disso porque é uma coisa muito bocó a gente esconder os afetos e as dívidas e os tributos aos que, também, como Ondjaki, gostam e gostaram de apalpar a polpa da língua como quem apalpa o dorso de uma fruta.»
Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 88
Peso: 0 g Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2029-6
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 10,50 €
Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72478__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm
pequeno espanador de tristezas “[a derradeira confissão?]”
há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.
se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.
às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].
sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...
«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.
quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.
há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].
às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].
foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.
se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.
as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.
seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.
há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.
vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...
uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.
Fonte: http://www.kazukuta.com/LIVROS/espanador_de_tristezas.html
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ricardo Riso: palestra no SESC/Engenho de Dentro
Foi uma experiência interessante, pois deparei-me com um público heterogêneo e fora do meio acadêmico.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Fernando Kafukeno – o lirismo sublime da nova poesia angolana
A cada livro lançado, o angolano Fernando Kafukeno aprimora a sua verve poética calcada em lirismo, sinestesia, oralidade, erotismo, surrealismo e memória, surpreendendo seus leitores com imagens inusitadas que procuram resgatar a sensibilidade perdida em uma época crepuscular. Assim se apresentam os poemas de “Sublimação de Aresta” (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006, coleção Guaches da Vida nº 35).
Fernando Kafukeno nasceu em 18 de Novembro de 1962, na cidade de Luanda, capital de Angola. Lá, estudou e foi membro da Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Seus primeiros poemas foram publicados no suplemento cultural do Jornal de Angola e seu primeiro livro de poesia foi “Boneca do Bê-Ó” (1993), seguido de “Na Máscara do Litoral” (1997), “Sobre o Grafite da Cera” (2000) e “Missangas! Kituta” (2000).
Kafukeno é contemporâneo dos poetas nascidos entre os anos de 1955 e 1965. Essa geração foi denominada como a “geração das incertezas” pelo também poeta e conceituado crítico literário angolano Luís Kandjimbo, em virtude de “na obra de todos eles, os temas mencionados emergem de uma profunda experiência geracional avassaladora e catastrófica, em que pesa a revolução, a guerra, a intolerância política” (SECCO, 2003, p. 189).
Ao radicalizar as propostas estéticas dos anos 1970 da “geração do silêncio” de Ruy Duarte de Carvalho, David Mestre e outros, a poesia angolana dos anos 1980/1990 abandona o cantalutismo até então predominante, diante das irrealizações políticas e sociais do país independente e das agruras e terror trazidos por uma violenta e duradoura guerra civil. Carmen Lucia Tindó Secco afirma que a nova geração apresenta um
“novo lirismo, reagindo a esse desencanto dominante no contexto social do país, abandona a utopia do nós coletivo e o engajamento revolucionário da poesia de combate. Funda uma poesis que dá vazão ao amor e às emoções individuais, assumindo um viés existencial e uma dicção universalista. Sob o signo de Eros, os poetas buscam exorcizar a morte e a dor. Operando uma revolução no âmago da linguagem, levam às últimas conseqüências a metaconsciência poética já praticada, desde os anos 70, por alguns dos poetas de Angola. (...) Ao suspender a prática cantalutista, lança na consciência dos leitores imagens do mundo mais humanas do que as tecidas pelas ideologias, desencadeando o desejo por uma vida mais autêntica e livre, pela qual vale a pena lutar” (SECCO, 2003, p. 189).
No início dos anos 1980 exerceu importante papel a Brigada Jovem de Literatura de Luanda, que motivou a criação de novas brigadas espalhadas por diversas cidades do país, como na Huíla e no Huambo. Nessas Brigadas, deparamo-nos com algumas características marcantes dos novos poetas assinaladas por Ana Mafalda Leite:
“As tendências de quase todos esses autores marcam-se pela procura de um rigor formal, aliado em maior ou menor grau a pesquisas temáticas, etno-antropológicas, lingüístico-regionais e ético-ideológicas. Oscilações entre a procura equilibrada de um nativismo universalizante, ou o encontro da casa própria aberta ao mundo. Procurando em simultâneo uma des(continuidade) com as gerações anteriores, verifica-se uma tentativa de balanço e compreensão da angolanidade na sua componente social e cultural, ao mesmo tempo que se tenta o desprendimento dos liames óbvios de sentido” (LEITE, 2006, p. 46).
É no campo da pesquisa lingüístico-regional que o livro “Sublimação de Aresta” de Fernando Kafukeno chama-nos a atenção. Leite recorre ao estudo de Salvato Trigo, “As literaturas africanas de expressão portuguesa – um fenômeno urbanístico”, para mencionar:
“a origem urbana dos textos das modernas literaturas africanas de língua portuguesa e o seu relativo isolamento da ruralidade. (...) A maioria dos escritores das literaturas africanas de língua portuguesa são assimilados, uma parte significativa de ascendência européia, quase todos de origem urbana, sem contacto directo com o campo, e não dominam, salvo raras excepções, as línguas africanas. Esse facto não é comum nos outros países africanos, onde a ligação com o ‘terroir’ se mantém desde a infância e os escritores geralmente são, pelo menos, bilíngües” (LEITE, 1998, p. 30).
Além do exposto acima, Leite considera o endurecimento da política salazarista, o desenvolvimento urbano, o início da guerra colonial nos anos 1960 e as guerras civis do pós-colonialismo “verifica-se que a relação das cidades com o mundo clânico e do interior, onde as tradições orais mais vivamente se mantêm, foi sendo cada vez mais perturbada e alterada” (LEITE, 1998, p. 31).
Com isso, inferimos o interesse dos escritores angolanos pelo falar dos musseques de Luanda. Dos representantes da angolanidade como António Cardoso ao jovem Ondjaki, passando pelo expoente máximo da subversão da língua portuguesa na literatura angolana, Luandino Vieira, constatamos que
“a oralidade é, à partida, uma relação em ‘segunda mão’, resultante, na maioria dos casos, não de uma experiência vivida, mas filtrada, apreendida, estudada. Mesmo a oralidade ‘mucéquica’, suburbana, para usar o termo de Salvato Trigo, é já parcialmente aculturada e híbrida, distante e diferente daquela que encontraríamos no campo” (LEITE, 1998, p. 31).
Os musseques reúnem pessoas de diversas regiões de Angola, de várias etnias, por isso convém utilizarmos o plural para “oralidade”, pois
“o plural serve-nos para significar o processo transformativo que a urbe provocou nas tradições rurais modelando-as e recriando-as. E usamo-lo ainda, para acrescentar outros elementos, provenientes de outras oralidades, de que a língua matriz é portadora na sua origem cultural. (...) O plural de ‘oralidades’ permite-nos (...) distinguir o modo de relacionamento dos escritores com a textualidade oral e com as línguas” (LEITE, 1998, p. 35).
A literatura angolana, assim como as demais literaturas africanas de língua portuguesa, apresenta uma especificidade em relação às outras literaturas africanas, pois, segundo Leite: “faz coexistir na maleabilidade da língua, o novo com o antigo, a escrita com a oralidade, numa harmonia híbrida, mais ou menos imparável, que os textos literários nos deixam fruir” (LEITE, 1998, p. 34).
Remetendo-nos ao que Roland Barthes afirmou em “Aula” a respeito do fascismo da língua, “pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (BARTHES, 1977, p. 15). Para resolver esse impasse, Barthes propõe que a língua seja trapaceada através da arte, pois somente esta conseguirá quebrar o fascismo da língua:
“Só nos resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. (...) porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto. As forças de liberdade não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, (...) mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua.” (BARTHES, 1977, p. 16-17)
Trapacear a língua, subverter a sintaxe da língua portuguesa, contaminá-la com elementos das línguas nacionais angolanas, ou como salientou Édouard Glissant: “a questão sobre a escrita e a oralidade gera, nos dias de hoje, uma situação de angústia vivificante para o poeta, o escritor” (GLISSANT, 2005, p. 48). O angolano Fernando Kafukeno enquadra-se nessa angústia vivificante de fazer poesia em seus livros, pois percorre um caminho inovador nas letras angolanas que “se efetiva pela condensação metafórica e pelas metamorfoses gráficas de sua linguagem poética, onde texto, som e desenho se acumpliciam, numa permanente busca de corporização plástica e sonora da palavra, do verso e da estrofe” (SECCO, 2003, p. 191).
Na primeira parte de poemas de “Sublimação de Aresta”, intitulada Akualuanda, que em quimbundo quer dizer algo como natural de Luanda, apreendemos o mergulho na oralidade dos musseques reelaborados com criatividade pelo poeta. Utilizando metáforas inusitadas e surreais, em poemas, em sua maioria concisos, contaminados pelos falares das pessoas simples, Kafukeno “exacerba o exercício do aproveitamento das potencialidades intrínsecas da língua, primando, entretanto, por uma economia capaz de debastar o verbo poético de excessos” (SECCO, 2003, p. 190).
arreiou!... arreiou!...
aproveita agora
questou maluca
arreiou no
meu espelho
é cinquenta
aproveita agora
que tem
muito sol
arreiou!... arreiou
é dez no sumo
aproveita agora
questá chover
arreiou!... arreiou!...
é cem o balde
arreiou!... arreiou!...
compra agora
que tenho fome (p. 25)
No poema acima, depreendemos a feroz crítica social ao estado de penúria em que se encontram os angolanos e a revolução mostrou-se incapaz de solucionar os problemas sociais. Uma vendedora desespera-se com sua condição, e o eu lírico revisita um tema trabalho pela geração da Mensagem, geração responsável por sedimentar o sentimento de angolanidade nas letras, como no poema “Quitandeira” de Agostinho Neto:
(...) A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
– Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
(...) Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
– Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
– sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
– Compra laranjas! (NETO, 1986, p. 31-33)
Por outro lado, apesar de todas as agruras passadas pelos angolanos, em “Sublimação da Aresta” há a valorização das quitandeiras como presença genuína de identidade, do orgulho com a paisagem local e com os frutos da terra:
quando fores
ao mercado s. paulo
compra maboque
fruta docinha
da nossa terra
e terás de oferta
o sorriso pitanga
das kitandeiras
quando fores
ao mercado s. paulo
compra sape-sape
fruta saborosa
da nossa terra
e terás de oferta
aroma gajaja das
kitandeiras (p. 23)
A oralidade também se faz presente em poemas acerca das lembranças das brincadeiras da tenra idade, época de espontaneidade e vigor do falar híbrido nos musseques, metonimizados nos jogos infantis, como a cassambula, e nos conflitos entre os ndengues (meninos). Conflitos que fazem alusão aos tenebrosos anos de guerra fratricida ainda intensos na memória do poeta em razão dos poucos anos do seu fim, em 2002:
cassumbula!
– tá!
o som da
bofa
e a xandula
do avilo
no bucho (p. 11)
vais ver só:
(o gesto da
língua na palma
da mão mostrada
em seguida
ao adversário)
desforra marcada
– ninguém acode!...
exalta de ânimo
: a assistência
e a peleja evolui
entre cafriques
bassulas e quedas
à pescador
e os ndengues berram:
bilóóó!... bilóóó!... bilóóó!... (p. 19)
– abeçaite! – abeçaite! – abeçaite!
– arevista ninguém marevista!
os haveres do revistado
transitam de dono
– fala acum!
– acum!
– bate café!
o afrontado bate na mão
adversária cheia de areia
a peleja fulmina
– abeçaite! – abeçaite! – abeçaite!
– arevista ninguém marevista! (p. 18)
Em uma linguagem espiralada rememorando a infância e refazendo seus diálogos, o eu lírico apresenta um acalanto às cruéis pelejas dos caóticos tempos de guerra. Refazer as tradições esgarçadas, recriar poeticamente a oralidade angolana massacrada por séculos de opressão é o belo e fecundo exercício que se dispõe a poética de Fernando Kafukeno. Segundo Laura Cavalcante Padilha,
a oralidade é (...) o alicerce sobre o qual se construiu o edifício da cultura nacional angolana nos moldes como hoje se identifica. Praticá-la foi mais que uma arte: foi um grito de resistência e uma forma de auto-preservação dos referenciais autóctones, frente à esmagadora força do colonialismo português. (PADILHA, 1995, p. 17)
A força da palavra oral é utilizada pelo eu lírico kafukeniano para denunciar o crescimento urbano de Luanda, que modifica a paisagem tradicional, conseqüentemente, dissipa as tradições, fragilizadas por tantos anos de amarga repressão:
samba kimongua era
musseque com beiço de mar (...)
em samba kimongua o comboio
já não apita está estático embelezado
virou restaurante
samba kimongua de dia navega em barcos
de noite acende as luzes do mar
em samba kimongua chilreiam pássaros
nos jardins com sabor a piscina e charuto (p. 24)
O poema “estória.estória” é um dos grandes momentos do uso da oralidade em “Sublimação de Aresta”. Neste poema, há o início das estrofes com os versos “vou-vos pôr a estória que me contaram no tempo em que Luanda tinha”, chamando a atenção do ouvinte para o ensinamento do passado que será transmitido, há também a repetição do estribilho “estória. estória”. Sendo assim, visualizamos a ruptura do passado dos musseques, sendo engolidos pela sanha da modernidade, expelindo os rituais religiosos, a vegetação local com a urbanização, a mudança de comportamento das crianças.
vou-vos pôr a estória que me
contaram no tempo em que Luanda
tinha jimbondo e a makua comia-se
pouca com medo do mbumbi
estória. estória
vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha mulembas
estória. estória
e nesse tempo Luanda era
cidade da baixa e do musseque
nos jimbondos e mulembas
que estavam nos musseques
fazia-se umbanda e uanga
estória. estória
vou-vos pôr a estória que me contaram
no tempo em que Luanda tinha
cajueiros pitangueiras maboqueiros
gajajeiras romãzeiras figueiras e macieiras da índia
e os ndengues do musseque jogavam bola de meia
e tomavam banho nas cacimbas
estória. estória
e os prédios e as vivendas estavam pouco a pouco
a entrar na barriga do musseque
vou-vos pôr a estória... (p. 26-27)
ou seja, depreendemos as lembranças de um tempo do outrora que resiste na memória do griot a cumprir o seu papel de transmitir a cultura local, que é reconstruída e reintroduzida na vida angolana contemporânea poeticamente pelo eu lírico kafukeniano. Nele, inferimos o resgate pelo caminho das letras da tradicional narrativa oral na tentativa de perpetuar essa forma de comunicação, conforme denunciou Walter Benjamin ao dizer que uma das características perversas da modernidade era a perda da narrativa oral. Com isso, vemos singelas imagens do passado descritas pelo eu lírico, transfigurado em griot, que refaz a participação do público ouvinte, agora, leitor, valendo-se do estribilho. Essa relação entre o griot e seus ouvintes é esclarecida por Laura Padilha:
Na festa do prazer coletivo da narração oral, entre os grupos iletrados africanos, é pela voz do contador, do griot, que se põe a circular a carga simbólica da cultura autóctone, permitindo-se a sua manutenção e contribuindo-se para que esta mesma cultura possa resistir ao impacto daquela outra que lhe foi imposta pelo dominador branco-europeu e que tem na letra a sua mais forte aliada. A milenar arte da oralidade difunde as vozes ancestrais, procura manter a lei do grupo, fazendo-se por isso, um exercício de sabedoria.
O contador e seus ouvintes são seres em interação para quem o dito cria a necessária cumplicidade e reitera que é preciso ser, na força da diferença, preservando-se, com isso, o vasto manancial do saber autóctone. Do ponto de vista da produção cultural, a arte de contar é uma prática ritualística, um ato de iniciação ao universo da africanidade, e tal prática e ato são, sobretudo, um gesto de prazer pelo qual o mundo real dá lugar ao momento meramente possível que, feito voz, desengrena a realidade e desata a fantasia. (PADILHA, 1995, p. 15)
A valorização da cultural tradicional de Luanda expressa-se sinestesicamente com as referências aos hábitos alimentares da população dos musseques, que já aparecia no poema “mercado s. paulo”, mas é re-elaborada em outros poemas com imagens surreais a recordar os angolanos dos costumes esgarçados da terra, como apreendemos nos dois exemplos abaixo:
mufete
lambula assada ao lume
carvão vegetal com escama
guelra e tripas
suco de limão
sal e gindungo na
gula do paladar (p. 13)
kitaba
ginguba torrada
com areia musseque
descasca
se
e
pisa
se no
pilão com gindungo
a gosto (p. 14)
A descrição da dieta alimentar dos musseques é corriqueira na literatura angolana, outro expoente da “Mensagem”, António Cardoso, no conto “Contratado” do livro “Baixa & Musseques” relata:
“Entretanto, a mulher colocara na esteira dos pratos de barro, um, com peixe seco em molho de água, óleo de palma, jindungo e sal, noutro, a fubá de bombo cozida que estivera a remexer no final da conversa, com todo o carinho como se a operação fosse preciosa” (CARDOSO, 1985, p. 199).
Para encerrar a primeira parte, dois poemas retratam as brincadeiras com os papagaios dos tempos de criança. Reminiscências da tenra idade, alegoria dos projetos inacabados da revolução angolana, incapazes de acabar com o abismo social da nação no pós-colonialismo, cuja a imagem dos papagaios sendo levados pelo vento e a corrida (ndengue) infrutífera dos meninos representam:
meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum...
e os ndengues na berrida solidária
pelos becos do musseque olhando
o papagaio de papel que esvoaça
meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum...
e os ndengues regressam suados
só com a imagem do
papagaio de papel a esvoaçar
meu papagaiouééé!...
deu atum... deu atum... deu atum... (p. 32)
Nos poemas da segunda parte, Malanje e canções II, o eu lírico kafukeniano invoca a força do elemento primordial da natureza, a água (que aparece em todo o livro), sendo representada pelos rios nacionais Malanje e Kinaxixi, e figuras mitológicas do mar como a Kianda, e históricas da resistência angolana como a Rainha Ginga e Ngola Kiluanje. De acordo com notas da edição do livro “Sagrada Esperança” de Agostinho Neto, aqui utilizado por nós, a primeira era uma “rainha corajosa e hábil que liderou a guerra de resistência contra o domínio português, durante mais de trinta anos” (NETO, 1986, p. 119), e viveu de 1581 a 1663. Enquanto Ngola Kiluanje foi “rei da região do Ndongo que em 1590 chefiou a primeira coligação, conduzindo o seu povo na luta de resistência ao colonialismo português até a sua morte em 1617” (NETO, 1986, p. 119).
Para celebrar o passado ancestral de resistência contra a colonização, três poemas são dedicados à Rainha Ginga e aqui citamos apenas um. O eu lírico inspira-se na força guerreira, na força do rio e no mito da Kianda para direcionar o presente na reconstrução nacional:
rainha
aí estás
de rosto severo
impondo o machado
e trajada de vestes
soberana
no kinaxixi
da nossa kianda
aí estás
de rosto severo
resplandecendo
força e poder aos
seres e aos astros (p. 40)
Em “malanje e guerra”, o universo onírico é convocado para libertar o eu lírico enunciador dos traumas da guerra, conduzindo-o de um tom crepuscular ao recomeço de um país que teve seus sonhos abortados:
a cidade tomava
a forma da noite
o sol caía no rio malanje
e incendiava o susto
da imaginação
o orvalho gotejava
fogo sobre cangandala
e as palancas negras
se abrigavam nas quedas
de monte condo
no xauande homens
decapitados e manietados
dos olhos da fuga
falavam com as imbambas
e sonhavam
o renascer da flora
e da fauna
no incêndio do sol
sobre o rio malanje (p. 35)
Na última parte do livro, “mar e aves”, os poemas são breves, compostos de metáforas insólitas e inusitadas. O uso corrente da sinestesia busca aguçar a sensibilidade esgarçada dos angolanos, valendo-se de um eu lírico surrealista que surpreende com imagens impactantes, desconexas e rápidas reapresentando a possibilidade de sonhar, como nos quatro poemas a seguir:
os mochos cantam
no tempo o som da puíta
os mochos no tempo
tocam o ngoma e vestem (p. 49)
surda a penumbra
habita o lago
da flora. a seca
surda colhe vales (p. 52)
máscara: olhos sem
riso e sem som
máscara: feitio de areia
nos lábios da fuga (p. 53)
eu oiço: as vozes
das janelas que não
falam: são janelas
de areia no vidro
do ar (p. 54)
As imagens insólitas, sombrias e fraturadas confundem os sentidos. A fragmentação do sonho angolano dilacerado pelos sangrentos conflitos é tratada crepuscularmente pelo eu lírico em “luar sem lobos”:
a insígnia
da noite
calça
me a tese
do mar
em retalhos (p. 57)
Através do poder da palavra, a tessitura melancólica dos versos marca a trajetória esgarçada do país. Travestido em desencanto, o poema “quadro 30”, alegoricamente, representa os trinta anos da independência angolana e o percurso da euforia até a distopia com os rumos desencontrados durante o pós-colonialismo, agora mergulhado na inescrupulosa ordem neoliberal:
saibam que a bonança
esburacou este quadro
a sua tela já foi de argamassa
agora é papelão qualquer
captando audiência quando
apresenta o filme em que a
pintura sai da tela e viaja para lua (p. 48)
Testemunha ocular do conturbado processo de reconstrução da nação angolana, Fernando Kafukeno alegoriza o desespero diante dos pesadelos atuais, motivado pelo dilaceramento das propostas do país independente:
de tijolo e cimento
nasceste dei-te água e funge
e nada sei da tua nova miséria
ou do que te tolhe a alma
morri antes da notícia
dos cães no vidro do sítio (p. 50)
A situação vivenciada por Angola nas últimas três décadas faz com que o eu lírico recorra ao surrealismo e explore metáforas insólitas com seres e elementos cósmicos para despertar a sensibilidade perdida, esfacelada por tantos anos de angústia, medo e opressão:
agora vivo impregnado
sob o diálogo dos veleiros
é tão assustador e eu nem
sequer sei quando há de
terminar porém vejo neste
diálogo balas cor de rosa a
povoarem o céu do meu encanto
o sol também fala aos peixes
acerca da impregnação dos
veleiros na brisa do dia
é terrível viver sob a impregnação
do diálogo dos veleiros porque a lua
foge do mar e se refugia na fenda a
estrela escurece e o arco-íris imola
seres humanos no sangue da chuva (p. 47)
No caos estabelecido em Angola, a tessitura poética de Kafukeno pretende reagrupar os fios partidos, reconstruir os escombros deixados pela guerra. Ao criar imagens inusitadas, o poeta denuncia os caminhos dolorosos aos quais os ideais da revolução foram preteridos pela sanha de dirigentes corruptos de um tempo em suspensão:
o relógio destrói
a ausência
e se
debruça sobre
a colina do ponteiro (p. 59)
Ciente da condição catastrófica angolana “impregnada sob o diálogo dos veleiros” (p. 47), os ventos da oralidade presentes na poesia de Kafukeno conduzem-nos às arestas entre as palavras e a voz ancestral, ao poder surpreendente das metáforas na insistente vontade de sonhar, para escancarar a opressão, a cruel política excludente e as desigualdades sociais às quais o povo angolano está submetido. A poesia de Fernando Kafukeno atenta-se às mazelas do seu tempo, desmascara a miséria, a hipocrisia, o descaso e incomoda a classe dominante do país.
Ricardo Riso
BIBLIOGRAFIA:
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