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sexta-feira, 14 de maio de 2010

ANTI (minha) EVASÃO - Ana Paula Lisboa

Ana Paula Lisboa é poetisa, colega do curso de Letras e autora do blog Quando eu resolvo escrever - .
Abaixo, sua releitura do poema Anti-evasão, de Ovídio Martins

ANTI (minha) EVASÃO - Ana Paula Lisboa

Eu também não vou.
Pedirei contigo,
Suplicarei junto
E chorarei muito mais que tudo.

“Não vou para Pasárgada!”

Me jogarei ao chão também,
Mas como criança birrenta
Vou bater os pés bem forte.

Tenho uma faca em punho
E a Palavra escrita no pulso.

Vou ficar aqui!
“Não vou para Pasárgada!”

Eu posso passar ferias,
Talvez uma breve temporada.
Mas meu lugar é aqui.

Não é por opção,
é por escolha.
Eu escolhi ficar!
Aqui é o quartel da resistência.

Berrarei.
Gritarei.
Matar será a menor das coisas que farei.

Eu estou cansada sim...mas
Os que estão comigo não me
Deixam abandonar a luta armada.

Já perdi uma perna nessa guerra.
Ganhei um tiro no coração.
Fui torturada, marcada a fogo
E a ferro como gado.
Mas eles erraram ao me deixarem
Os braços intactos e não me mataram a
Imensa fome de escrever.

“Não vou para Pasárgada!”
 
(Versos inspirados no poema “Anti- Evasão” de Ovídio Martins)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Chacal e a Poesia Marginal

Anos 70, Rápido e Rasteiro: a efervescência poética de Chacal e a momentaneidade da poesia marginal durante as trevas da ditadura

Aula elaborada para a 3ª série do Ensino Médio, por Ricardo Riso

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
(Chacal. rápido e rasteiro. In: Belvedere. Rio de Janeiro: Cosac & Naify, 2007. p. 353)

Ricardo Carvalho de Duarte, o Chacal, teve sua obra poética reunida na antologia “Belvedere”, publicada pela Cosac & Naify em 2007. Composta por treze livros, sendo o primeiro livro lançado em 1971, intitulado “Muito prazer, Ricardo”, que revolucionou a maneira de se publicar poesia no Brasil.

O início da década de 70 vivenciou o mais cruel e sanguinário dos governos militares. A ditadura, liderada pelo gal. Médici iniciava um processo de aniquilar qualquer organização ou pessoa que fosse contra o regime opressor, processo que estava claro desde a proclamação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Data que marcou um longo período de trevas que perdurou até o ano de 1978.

Contudo, não foram apenas as organizações de esquerda que sofreram com a truculência da repressão, mas, principalmente as manifestações culturais nacionais passaram a ser perseguidas, cuja contestação, a arte engajada, politizada e de conscientização era impedida de aparecer em qualquer veículo de comunicação. O espaço das artes era dominado por pessoas com orientação de esquerda e ligadas a causas humanistas, porém, com a chegada dos anos 70, o governo militar passou a ser o principal patrocinador da cultura nacional. Isso quer dizer que a arte passou a ser ufanista. O teatro privilegiou grandes produções, o cinema que era uma das principais artes contra a ditadura graças ao cinema novo, passou a apresentar filmes sem conteúdo político e a incentivar as pornochanchadas. A nossa MPB sofria forte vigília, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas foram obrigados a pegar o caminho do exílio. A imprensa, mais precisamente o Pasquim e o Jornal do Brasil, tinham seus jornalistas presos e edições recolhidas. Ou seja, estamos diante de um momento extremamente infeliz do país, em que as liberdades individuais não eram respeitadas e não havia espaço para questionamentos. Era uma época de intenso radicalismo tanto da direita quanto da esquerda.

Diante desse quadro, onde fica a poesia? Como surgiriam os novos poetas?

Como só era publicado aquilo que valorizasse os bens do país, qualquer vanguarda era desprezada pelo mercado editorial que tinha medo de sofrer represálias dos órgãos do regime. Por isso, Chacal e posteriormente seu amigo e também poeta Charles, revolucionaram a forma de se fazer poesia ao produzirem seus livros de forma mimeografada. Charles elucida como foi o início dessa caminhada:

O Guilherme (Mandaro) foi uma pessoa fundamental. (...) porque ele dava aula num curso pré-vestibular onde tinha um bendito de um mimeógrafo, e foi lá que a gente imprimiu os livros, o meu e o Muito prazer, do Chacal. Nós imprimimos clandestino, foi meio um golpe, indo para lá depois das 11 da noite, quando o cursinho já estava fechado. (COHN, p. 22)

Dessa maneira, os poetas passaram a assumir e a controlar todo o processo que envolve o livro. Além de criarem os poemas, eles editavam, imprimiam pequenas tiragens no mimeógrafo e faziam a distribuição desses livros nos lugares que encontrariam o público ideal para comprá-los. A seguir, Chacal comenta a sua forma de divulgação e como sua poesia foi aparecendo no reduzido, porém agitado meio cultural da época:

Acho que eu estava no lugar certo na hora certa, porque eu circulava onde tudo estava acontecendo, vendia o livro no píer, na porta dos teatros, nos bares do Baixo Leblon. E era por esses lugares que todo mundo passava. (...)
Eu tenho uma mania que é acreditar que existem pessoas que têm a doença de sua época, que conseguem captar e expressar o que está acontecendo, o que está no ar. E talvez, naquele momento, eu fosse uma dessas pessoas. Talvez até por não ter uma tradição literária, foi possível ousar mais, inventar mais e conseguir criar um texto novo que sintetizava bem aquele tempo. Os meus poemas tinham o clima do que estava rolando, do que éramos na nossa vida. Era uma poesia rápida, irreverente, pop.” (Cohn, p. 24)

O livro Muito Prazer chega às mãos de Waly Salomão, que na época dirigia o show Fa-tal, de Gal Costa, sendo este o maior acontecimento cultural do ano de 1972. WS fica entusiasmado com os poemas de Chacal e escreve uma crítica que é publicada na coluna jornalística Geléia Geral, de Torquato Neto, chamada “Cha-cal (carta sobre um jovem poeta)”:

Vejo cada dia mais Oswald de Andrade tornado patrimônio da civilização brasileira. Vejo os artistas cultuarem Oswald de Andrade e produzirem enxurradas de versalhadas (...) Ninguém vi com um entendimento tão afetivo (...) do Caderno do Alumno de Poesia de Oswald de Andrade quanto Chacal, Ricardo, autor deste maravilhoso Muito Prazer - edição mimeografada, mimeografada com desenhos.
Muito Prazer - apresentação de um jovem poeta. Muito Prazer: apresentação de um simples portador duma nova sensibilidade. (...) O livro é dado pelo autor aos corações apaixonados nas escarpas das dunas do barato, praia de Ipanema, Rio de Janeiro, gebê, Brasil. (COHN, p.25)

A referência a Oswald, destacada por Waly, é escancarada pelo poeta, que lança seu primeiro livro exatos cinqüenta anos após a Semana de 22:

Foi o Charles que trouxe um livro que seria um grande marco da minha vida, que era o volume do Oswald de Andrade daquela coleção da Agir, “Nossos Clássicos”. Era um livro pequeno, com apresentação do Haroldo de Campos, e trazia os manifestos, alguns poemas, além de trechos do Serafim Ponte Grande e do Miramar. Aquele livro me fascinou, eu achei aquele mundo ali maravilhoso, porque ao mesmo tempo em que havia toda uma postura de contestação através dos manifestos, tinha um humor e uma irreverência muito grandes nos poemas e nos textos em prosa. Eu fiquei sorvendo aquele livro durante um bom tempo, lendo e relendo... (COHN, p.20)

Da influência declarada, Chacal parodia alguns poemas de seu mestre Oswald, como em “Papo de Índio”:

veio uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui si chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirrum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles. (Belvedere, p. 361)

Além da presença marcante do modernista brasileiro na poiesis de Chacal, depreendemos outras características que também serão encontradas nos poetas que estavam à margem do mercado editorial. Devemos ter em mente que a condição de marginalidade desses poetas não carrega o significado de banditismo, comum aos pós-tropicalistas como Torquato Neto e o já citado Waly Salomão, mas havia o sentido de quem está excluído de um sistema vigente, de uma ordem determinada. Os poetas surgidos nos anos 70 ficariam conhecidos como a geração do mimeógrafo ou como os poetas da poesia marginal.

Com a excelência costumeira, Heloísa Buarque de Hollanda aponta para a relação arte/vida presente na poesia desses autores e na “valorização do presente, do aqui e agora”. De uma poesia que está preocupada em retratar “a poetização de uma vivência” (HOLLANDA, p. 100), de “captar situações no momento em que estão acontecendo, sentimentos que estão sendo vividos e experimentados e fazer com que o próprio processo de elaboração do poema reforce esse caráter de momentaneidade” (HOLLANDA, p. 101). Uma poesia que não toma partido em relação à política, mostrando profundo desinteresse pelos discursos de poder, “os projetos não se fazem mais no sentido de mudar o sistema, de tomar o poder. Cresce, ao contrário, uma desconfiança básica na linguagem do sistema e do poder” (HOLLANDA, p. 100), tanto de direita quanto de esquerda. Entretanto, não podemos chamar essa geração de alienada como foi erroneamente acusada à época, diante de um poema como “SOS”:

tem gente morrendo de medo
tem gente morrendo de esquitossomose
tem gente morrendo de hepatite meningite sifilite
tem gente morrendo de fome
tem gente morrendo por muitas coisas

nós, que não somos médicos, psiquiatras,
nem ao menos bons cristãos,
nos dedicamos a salvar pessoas
que, como nós,
sofrem de um mal misterioso:
o sufoco. (Belvedere, p. 313)

Com a asfixia do regime ditatorial e o desencanto com a sociedade em que vivem, os poetas não querem contestar como as gerações dos anos 60, pois isso representaria a tortura e a morte. Há o sentimento de solidão acompanhado de um profundo mal-estar versado em “Desabutino”:

quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de pena e letras lentas
que passa sábado à noite embriagado
chorando que nem criança a solidão

quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de neil sekada

quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia (Belvedere, p. 305)

Com tanto desencanto, o próprio discurso universitário passa a ser recusado e tratado com desdém. As universidades foram esvaziadas dos seus melhores docentes, que foram presos, exilados ou mortos. Os grêmios estudantis fechados e os estudantes perseguidos. Há uma desconfiança em relação à intelectualidade e às instituições, como no poema “Pra quê?”:

sentado e estudantil, orlando perscrutava o absurdo e o rabo da professora. de repente, passos no corredor atrás da porta fechada. “serão policiais ou alunos atrasados?” takapassou a mulher com giz e abriu a porta. o homem colado com as orelhas entregando saiu de banda. bandeira. suástica caiu no chão. orlando viu o lance achou nada pisou na escada e não apareceu mais por ali.
pra quê? (Belvedere, p. 329)

Se na poesis de Chacal há Oswald, há uma constante ironia predominante em toda a sua obra poética como apreendemos em rápido e rasteiro e como será vista com maestria no poema "Alô, é o quampa?":

- Alô, é o quampa?
- não. é engano.
- Alô, é o quampa?
- não, é do bar do patamar.
- Alô, é o quampa?
- é ele mesmo, quem tá falando?
- é o foca mota da pesquisa do jota brasil. gostaria de saber suas impressões sobre essa tal de poesia marginal.
- ahhh... a poesia. a poesia é magistral. mas marginal pra mim é novidade. você que é bem informado, mi diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou alguma bomba no senado?
- que eu saiba não. mas eu acho que é em relação ao conteúdo.
- mas isso não é novidade. desd'adão... ou você acha que alguém perde o paraíso e fica calado, nem o antonio.
- é verdade. mas deve haver algum motivo pra todos chamarem essa poesia de marginal.
- qual, essa?!? eu tou achando até bem comportada. sem palavrão, sem política, sem atentado à moral cristantã.
- não. não tô falando dessa que se lê aqui. tô falando dessa outra que virou moda.
- ahhhh... dessa eu não tou sabendo. ando meio barro-bosta por isso tenho ficado quieto em casa. rompi meu retiro pra atender esse telefone. e já que ti dei algumas impressões, você vai me trazer as seguintes ervas pra curar meus dissabores: manacá carobinha jurubeba picão da praia amor do campo malva e salsaparrilha. até já foca mota. (Belvedere, p. 293-294)

Os poetas dessa geração não se consideravam marginais e a própria crítica encontrava dificuldades em enquadrá-los nesse termo, daí a insistência claudicante do repórter e da ironia presente em todas as respostas do sujeito lírico.

A intenção nesta aula foi apresentar um rápido panorama da produção poética de Chacal e sua relação com a chamada Poesia Marginal, ou Geração do Mimeógrafo. Inferimos que Chacal e seus pares foram ousados e inovadores na busca por alternativas para a publicação de seus livros, em um momento difícil da recente história brasileira. No decorrer dos anos 70 suas atitudes desencadeariam na Nuvem Cigana, um coletivo de artistas que influenciou diversas áreas artísticas. Contudo, isso é uma outra história.

Exercícios:
1. Destaque qual o poeta e a qual movimento literário brasileiro inspirou-se Chacal para a confecção de sua poesia. Identifique o poema trabalhado em sala que faça essa referência.
2. A produção poética dos jovens nos anos 70 recebeu a alcunha de poesia marginal. A partir do poema “Alô, é o quampa?”, comente a utilização deste termo, o que a caracterizava como marginal e se havia semelhança com a geração anterior, dos tropicalistas e pós-tropicalistas do final dos anos 60.

Bibliografia:
COHN, Sergio (org). Nuvem Cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.

CHACAL. Belvedere (1971-2007). São Paulo: Cosac Naify, 2007 (Coleção Ás de Colete: 18).

HOLLANDA, Heloísa Buarque. Impressões de viagem - CPC, Vanguarda e Desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1980.

Chacal na web:
http://chacalog.zip.net - blog pessoal do poeta
http://cep.zip.net - blog do CEP 20.000

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

FLAP RIO 2008

FLAP! Rio - Interferências - 20 e 21 de setembro - PUC/GÁVEA

Programação 2008
http://flaprj.wordpress.com/programacao-2008/

Data: 20 e 21 de setembro de 2008
Local: Marquês de São Vicente, 225, Gávea. Campus da PUC-Rio, Auditório del Castilho - 2º andar, Prédio RDC (Ed. Rio Datacentro)
Mapa: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/campus/mapa/index.html
Horário: 14:00 às 19:00

Em sua terceira edição carioca, a FLAP! assume o tema INTERFERÊNCIAS.
Em dois dias - 20 e 21 de setembro - a PUC será o palco de 4 debates, 2 saraus e a exibição de dois curtas.
Abaixo confira a programação.

Inscreva-se para receber o Boletim da FLAP!Comunidade no Orkut

dia 20 de setembro
14h - Abertura
14h30 - Geração EspontâneaGeração Mimeógrafo, 00, 80, 90… Uma estratégia de venda ou um retrato, um instantâneo de um momento literário? Quem define, o que difere? Para situar ou para estigmatizar? São válidos esses rótulos?
Mediadora: Heloísa Buarque de Hollanda (editora da Aeroplano e professora da UFRJ)
Flávio Izhaki (escritor)
Miguel Conde (jornalista de literatura dO Globo)
Viviane Mosé (poeta)
16h20 – Sarau Movimento InVerso - Clauky SabaAdriana Monteiro de Barros / Betina Koop / Madame Kaos (juju hollanda, beatriz provasi e marcela giannini) / Marcella Maria / Priscila Andrade
16h50 – Empório de palavrasSebos, livrarias de bairro, virtuais, grandes redes. Produções artesanais vendidas em portas de teatro, e-books disponíveis em sites e blogs. Busdoors propagandeando – e vendendo! - o mais novo título de auto-ajuda. Quem é o leitor de literatura brasileira? Qual o caminho para os novos autores? Poesia não vai para as vitrines porque não vende ou não vende porque não vai para as vitrines?
Mediador: Tanussi Cardoso (poeta e editor)
Eucanaã Ferraz (poeta)
Claufe Rodrigues (poeta e jornalista)
João Emanuel Magalhães Pinto (editor da Guarda-Chuva)
Victor Paes (poeta e editor da Confraria do Vento)
18h40 – Exibição do curta ‘POR ACASO GULLAR‘, de Maria Rezende e Rodrigo Bittencourt
19h – Encerramento

dia 21 de setembro
14h - AberturaLeitura de Lorca
14h30 - Palavras nos meios: tecnologia e miscigenação.Vídeos, CD’S, blogs, sites colaborativos, compartilhamento na web.O diálogo da literatura entre mídias é uma evidente característica da produção contemporânea. Mas até que ponto os diferentes suportes interferem diretamente na escrita? De que maneira essa interação se torna positiva ou valoriza o texto que não se sustenta? Como está escrevendo a geração de escritores que utiliza a internet como principal ferramenta de publicação?
Mediador: Ramon Mello (escritor e jornalista)
Lucas Viriato (poeta e editor do jornal Plástico Bolha)
Olga Savary (poeta e tradutora)
Omar Salomão (poeta)
Rodrigo Bittencourt (poeta, compositor e cineasta)
16h20 – Sarau Castelinho do Flamengo - João Pedro RorizManoel Herculano (ator e escritor) / Marcelo Girard (jornalista e escritor) / João Pedro Roriz (ator e poeta)
16h50 - VanguardaArtistas de vanguarda protagonizaram movimentos marcantes como a Semana de Arte Moderna de 22 e a Poesia Concreta, rompendo com alguns padrões e características estéticas de sua época e re-significando outros. Mas, em 2008, o que é possível encontrar de novo? Ainda existe a possibilidade de vanguarda na literatura atual?
Mediador: Leandro Jardim (poeta e letrista)
Beatriz Resende (crítica literária)
Dado Amaral (poeta, ator e cineasta)
Paulo Henriques Britto (poeta, contista, tradutor e professor da PUC-Rio)
18h40 – Exibição de curta ‘PROCURANDO DRUMMOND‘, de Rodrigo Bittencourt
19h – Encerramento

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Paulo Leminsky - Eu

Eu

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha


Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/pl.html#eu


Ando um pouco enrolado, afastado de poetas que admiro... como este aí de cima que me olha. Leminsky, Chacal, Cacaso, Torquato, Oswald, os irmãos Campos, Geraldo Carneiro, Ana C....

qualquer dia, escreverei sobre eles...

Ricardo Riso

domingo, 13 de janeiro de 2008

Mario Quintana: Quintanear as palavras

Na atual edição da cuidadosa revista Entrelivros, a matéria de capa comenta sobre a resistência que o poeta gaúcho Mario Quintana ainda sofre por parte da crítica especializada e dos meios acadêmicos, apesar de seu enorme sucesso perante o público. Nesta questão, fico com a ironia do cronista esportivo Fernando Calazans que, ao abordar a polêmica de que só foi craque de futebol o jogador ganhador de Copa do Mundo, e em seguida tachar de fracassados excelentes jogadores como Di Stefano, Puskas, Zico e Platini. Calazans simplesmente responde que quem perdeu e teve azar foi a Copa do Mundo, exatamente por não constar em seu elenco de ganhadores craques como os citados acima. Creio que pensamento semelhante posso ter com os que menosprezam a obra de Quintana. Sem maiores pretensões, é o que pretendo desenvolver neste texto.

A estréia de Mario Quintana ocorreu durante a década de 1940 no auge da segunda geração modernista e dos regionalistas. Surge com um livro de sonetos, “A rua dos cataventos”, que causou grande polêmica entre seus contemporâneos, que consideravam um método ultrapassado, passadista, termo ao qual o poeta foi acusado por toda a sua vida mesmo tendo sonetos de altíssima qualidade, equiparados aos de Vinicius de Moraes. José Eduardo Degrazia resume a questão ao dizer que “formalmente Mario Quintana se colocava contra os modernos em plena vitória do modernismo” (QUINTANA, Esconderijos do tempo, p. 9). Por outro lado o poeta gostava de dar declarações inquietantes que demonstravam seu desprezo pelos grupos e escolas literárias: “O fato é que nunca evoluí. Fui sempre eu mesmo” (QUINTANA, Apontamentos de história sobrenatural, p. 23).

A simplicidade da qual é acusado advém do fato de tornar qualquer assunto matéria poética. O poeta traz para a poesia fatos corriqueiros do cotidiano, eleva o status daquilo que é simplório. Também recorre à infância durante toda a sua obra, com personagens e situações constantemente citados. Tudo com excessivo lirismo. Todavia, a simplicidade, a infância e situações banais não fizeram com que a sua poesia fosse simples. Quintana era extremamente rigoroso e exigente com sua matéria poética, talvez tenha adquirido tais características após a sua atividade como tradutor de clássicos da literatura, como Marcel Proust. E a simplicidade temática possa ter suas origens no tempo em que exerceu a função de cronista de jornal, pois ali percebia que tinha que atingir um público amplo e diversificado.

Sua poesia apresenta diversas tendências: o passadismo, o simbolismo, a linha lírica de Casimiro de Abreu, a recusa ao racional mas com rigor técnico e formal, o namoro com o realismo mágico e o sobrenatural, o soneto, a prosa poética... Ao prefaciar uma antologia de Mario Quintana, o crítico Fausto Cunha tece considerações sobre o estilo, temas, recursos e características formais do poeta:

“A verdade é que, sob o campo visual da poesia de MQ, se esconde em uma teia infinita de raízes, um entrançado de sentidos, duplos sentidos, alusões, elipses, subentendidos, um código vivencial de cuja tradução o poeta é o único a possuir a chave. E sua aparente simplicidade formal, aos olhos de leitores mais atentos, encobre uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de soluções rímicas e rítmicas; revela-se também o conhecimento, por parte do poeta, das grandes fontes da poesia universal.” (QUINTANA, Melhores poemas, p. 9)

A matéria escrita por Claudia Nina, “A alma de passarinho”, aponta alguns caminhos que possam ter dificultado a aceitação de Quintana, tais como a “dificuldade de assimilação da poesia lírica”, pois segundo Silviano Santiago “O poema lírico é auto-suficiente. Convida menos à reflexão e mais à leitura prazerosa”; o fato de o meio acadêmico e os outros poetas preferirem uma poesia melhor elaborada, recheada de citações, mais cerebral e menos emotiva, ou seja, a forma aparentemente descomprometida de escrever do poeta incomodava; a já mencionada dificuldade em enquadrá-lo nas escolas literárias; e jamais ter morado em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, tendo morado sempre em Porto Alegre pode ter ajudado no seu afastamento.

Bom, popular Quintana já o é, falta o respeito e a aceitação do meio acadêmico ao profundo lirismo do cotidiano, de uma poesia complexa que pode ficar oculta em uma primeira leitura rápida e sem compromisso. O poeta é um dos grandes da nossa literatura e aprimorou um estilo que raras vezes encontramos nas letras brasileiras.

A seguir, alguns poemas.

Riso

Os retratos
Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventa para enganar a solidão dos
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx caminhos sem lua.
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 67)


O poema interrompido
A lâmpada abre um círculo mágico sobre o papel onde escrevo. Sinto um ruído como se alguém houvesse arremessado uma pequenina pedra contra a vidraça, ou talvez seja uma asa perdida na noite. Espreguiço-me, levanto-me e, cautelosamente, escancaro a janela. Oh! Como poderia ser alguém chamando-me? Como poderia ser um pássaro? Na frente do quarto, acima do quarto, por baixo do quarto, só havia solidão estrelada... Quem faz um poema não se espanta de nada. Volto ao abrigo da lâmpada e recomeço a discussão com aquele adjetivo, aquele adjetivo que teima em não expressar tudo o que pretendo dele...
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 59)


Eu fiz um poema
Eu fiz um poema
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...

Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um
dicionário
eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de
de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a
terra...

Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 31)


Quem seríamos?
Veio um instante, partiu de novo,
Leve, sem nome...
Para que nomes? Era azul e voava...
No véu das horas punha o seu motivo.
Partiu. E nem
Ficou sabendo
Como eu, acaso, me chamava...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


O velho do espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto... é cada vez menos estranho.
Meu Deus, meu Deus... Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga... Que importa?! Eu sou,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxainda,
Aquele menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra! –
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


Recordo ainda...
Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 25)


O poema
Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
xxxxxxxxxxxxxxxxxpara sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcondição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 20)


O Anjo Malaquias
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase... E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, pp. 87-88)


Fontes:
CARVALHAL, Tania Franco. Para comemorar a vida. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural – Centenário Mario Quintana 1906-2006, São Paulo: Globo, 2005.
CUNHA, Fausto. O último lírico Mario Quintana. In: QUINTANA, Mario. Melhores poemas Mario Quintana – seleção Fausto Cunho. São Paulo: Global, 2003.
DEGRAZIA, José Eduardo. Anotações do esconderijo. In: QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo – Centenário Mario Quintana 1906-2006. São Paulo: Globo, 2005.
NINA, Cláudia. A alma de passarinho – dossiê Mario Quintana. In: Entrelivros, ano 3, número 32. São Paulo: Duetto, 2007. Pp. 30-34.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ana Cristina Cesar, a palavra viva
Ana Cristina César graduou-se em Letras PUC/RJ entre os anos 1971/1975. No ano seguinte inicia atividade profissional com críticas,traduções e poesia. Liderou questões que envolviam o movimento estudantil, inexistente naqueles anos devido à ditadura.
Este texto foi elaborado para uma palestra na Universidade Estácio de Sá.


Navarro,
Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não
permitas que digam que são produtos de uma mente
doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo
biografílico. Ratazonas esses psicólogos da literatura
– roem o que encontram com o fio e o ranço de suas
analogias baratas. Já basta o que fizeram ao Pessoa.
É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba
escutar o palrar dos signos.


Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como assinava seus textos, nasceu em 1952 e decidiu dar um basta a sua vida em outubro de 1983, menos de um ano após o lançamento de A teus pés (dezembro/1982), seu único livro publicado em vida e que reunia os três anteriores que havia publicado independentemente, a saber: Cenas de Abril (junho-julho/1979), Correspondência Completa (agosto/1979) e Luvas de Pelica (novembro/1980).

Diante do exposto, como evitar leituras simplificadas da obra de Ana C.? Seguindo sua sugestão, como fugir do tal obscurantismo biográfílico? Foi este o desafio a que me propus. Concentrei-me no poema enquanto poema, junção de palavras, de sensações e efeitos, apesar de seu trabalho literário ser calcado em diários e cartas que tendem ao tom confessional.

Bom, a própria Ana C. nos apresenta algumas pistas para entendermos sua criação literária. Em seus textos críticos pensou literatura, pensou poesia, fez crítica literária, estudou tradução, e assim, podemos perceber que tudo isso participava intensamente de sua produção literária. Nos ensaios e artigos confrontamo-nos com uma teórica consistente, que levanta questões para compreensão de seus próprios textos.

Não devemos dispensar a leitura da produção crítica da autora, pois através dessa produção esclareceremos a leitura de seus poemas, que a princípio, nos parecem estranhos, difíceis, herméticos etc. o que poderia nos levar a uma leitura surrealista ou simbolista, a procurar significados ocultos por entre palavras e linhas.

Diários, cartas, tom de confidência e temas íntimos são características que induzem a leitura de sua literatura em busca de um espelho da vida da autora. E Ana C. adorava brincar propositadamente com esse desejo do leitor, por isso insistia em uma escrita que parecia esconder segredos íntimos de mulher.

Os diários, que compõem todo o livro Luvas de Pelica e parte de Cenas de Abril, não são seus, mas diários inventados. Ela dizia: “Eu acho que exatamente é esse tipo... essa armadilha que estou propondo. Existem muitos autores que publicam seus diários mesmo, autênticos. Aqui não é um diário mesmo, de verdade, não é meu diário. Aqui é fingido, inventado, certo? Não são realmente fatos da minha vida. É uma construção. (...) Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí.” Ainda diz: “(...) intimidade... não é comunicável literariamente. A subjetividade, o íntimo, o que a gente chama de subjetivo não se coloca na literatura.”

Assim, ficcionando diários e cartas, ela brinca com o obscurantismo biografílico.

Para Ana C., ainda que o poeta parta de uma emoção vivida, um acontecimento particular para escrever, esta sua intimidade só é trabalhada como material bruto, pois ao produzir o texto literário, não há como ser fiel ao sentimento inicial, ainda que assim se desejasse. Sendo assim, o escritor deve “morrer”, enquanto sujeito fixo e fechado em suas crenças e obsessões pessoais, e se abrir ao texto: “Em todo o texto, o autor morre, o autor dança, e isso é que dá literatura.”, falava Ana C..

Aqui, Ana C. aproxima-se de pensadores contemporâneos e podemos traçar um paralelo com a idéia de morte do autor, de que a literatura não é o lugar da afirmação, mas antes da desconstrução do sujeito. Roland Barthes, em A morte do autor: a escrita como a destruição de toda voz, de toda a origem e a constituição de um espaço neutro da linguagem; a escrita começa com a morte do autor. Nesta concepção da literatura, não se trata mais de um sujeito que se afirma no texto, mas de um sujeito que se desfaz para dar voz à própria fala.

Trata-se de fabricar o real e não de responder a ele. Não há um real falsificado no poema, mas um real fabricado no poema. O texto como fábrica de um real; assim era o poema e a literatura para ela. O texto literário é construção, construção da realidade, constitui em si uma realidade, um real inédito, um universo próprio. “O poeta pode representar, fingir descaradamente; não tem mais um compromisso com uma Verdade, não se propõe a simbolizar um inefável e preexistente sentir ou existir.” (pg. 164). O texto assume-se como criador: “o poema é uma produção, um modo de produzir significação mediante o fingimento poético, e não uma nobre tradução do indizível.” (Crítica e Tradução, p. 164)

Nesse sentido, em Ana C., a palavra é viva, a palavra cria realidades. O poema de Ana C. deve ser visto como um ser com vida própria, que visa interferir sensorialmente no mundo, nas pessoas, nos corpos, como qualquer outro objeto real. Sendo assim, a palavra é libertária, o texto possui liberdade, a liberdade de poder dizer e inventar tudo, criar a realidade que se quiser, porque o real do texto é outro, espaço livre em que tudo pode existir. Na realidade que a escrita constrói, o poema pode nos ferir como uma faca:

“olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas”
(A teus pés. Cenas de Abril. P. 89.)

Aqui temos o corpo do poema e o corpo que sente, uma mistura de corpos, de reais: o real do poema e o real da gente. O corpo do poema surge como provocador de sensações no corpo de quem lê, como causar um filete de sangue nas gengivas. O poema cria esse real que é feito de palavras, uma realidade própria à linguagem que atua na realidade das pessoas.

Em A teus pés, ela radicaliza, fragmenta mais a escrita, os textos são aparentemente desconexos, com versos que parecem não se encaixar, mas ainda mantém a cara de diário, de correspondências, e podemos continuar com a impressão de que há segredos escondidos que aguçam a curiosidade. Para ela, os vazios, espaços em branco seriam o que ela define como “não-dito” do texto literário, algo que difere de “entrelinha”. Ela diz: “A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (...) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não existe entrelinha. (...) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?” (Crítica e Tradução, pp.262-263)

Como vemos, a poesia de Ana C. não lida com simbologia alguma, os elementos não estão no “lugar de” ou representando algo. Em um debate público ela foi questionada sobre o que quis dizer com “pato” em Luvas de Pelica, sua resposta: “Pato, por acaso, é um significante que puxa muitos outros (...) Quanto mais puxar melhor (...) Não vou dizer nunca para você o que, para mim, o símbolo do pato significa...”.

Não busquem “o que eu quis dizer”, por exemplo em “contramão”, no poema “Mocidade Independente”: “(...) Voei para cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão”. (A teus pés. p. 44)

Ana C. via o ato da leitura no que chama de “puxar significante”, ou seja, ir fazendo associações mais diversas e inesperadas a cada vez: “Ler é meio puxar fios, e não decifrar.” (Crítica e Tradução, p. 264). Encarar as palavras como significantes nômades, que mudam a cada leitura, significados múltiplos.

Assim, Ana C. acredita no não-dito da literatura, um não-dito da própria realidade textual. A entrelinha remete a uma insinuação escondida, já o não-dito é aquele que pertence ao próprio texto, e não remete a algum objeto externo originário. Seria um não-dito da liberdade: os espaços em branco, o silêncio em torno das palavras, que relacionam infinitos “fios”, que cada leitor puxará e abrirão imprevisíveis associações.

Ana C. dizia: “Você pode ter lido um ou dois [poetas] e já sacar o que é poesia: que a poesia é um tipo de loucura qualquer. É uma linguagem que te pira um pouco, que meio te tira do eixo.” (Crítica e Tradução. p. 270) Esta aí a poesia e sua força, Esta aí a chance de nos desvencilharmos, quem sabe, de uma concepção limitada da poesia como representação.

Para sorte nossa, Ana C. foi uma promessa que se cumpriu suficientemente: por ter sido precoce foi bastante, talvez intuindo o pouco tempo que teria para registrar o esplendor da sua inteligência e da sua vocação.
Armando Freitas Filho



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Textos
“Escrever cartas é mais imperioso do que se pensa. Na prática da correspondência pessoal, supostamente tudo é muito simples. Não há um narrador fictício, nem lugar para fingimentos literários, nem para o domínio imperioso das palavras. Diante do papel fino da carta, seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu ‘verdadeiro’, à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar com mais atenção sobre essa prática perceberá suas tortuosidades. A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranqüila do eu.”
(César, Ana Cristina. O poeta é um fingidor. Jornal do Brasil, 1977. In: Crítica e Tradução.)


“A relação entre professor e aluno assume muitas vezes um caráter de sedução: o aluno copia a matéria sem dizer palavra, embasbaca-se com o brilhantismo do professor, aplica os seus modelos e injeições ao texto literário. O bom professor passa a ser aquele que ‘tenta’ eroticamente sua turma, e que reina sobre ela como um sultão sobre o seu harém.
Por outro lado, o aprendizado da teoria literária pressupõe uma competência cultural e lingüística que o sistema educacional como um todo não fornece; e a instância oficialmente incumbida de transmitir os instrumentos para que se pense a literatura não sabe ou não se julga obrigada a transmiti-los metodicamente a alunos cada vez mais despreparados. Daí se estabelece uma outra dimensão na relação docente, que é o terrorismo, o medo da onipotência intelectual do professor. Essa sujeição porém não é simplesmente intelectual mas está inscrita no próprio corpo dos alunos e dos professores e se expressa na sua postura na dentro de sala de aula e diante do próprio trabalho: na ocupação física do espaço escolar, na submissão a um modelo de comportamento ou a uma teoria, na afirmação de uma determinada teoria como a Teoria.”
(César, Ana Cristina. Os professores contra a parede. Jornal Opinião, 12/12/1975.
In: Crítica e tradução. Pp. 147-148)




Primeira lição
Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos sentimentais eram declamados aos sons da lira.
O lirismo pode ser:
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.
Epitáfio é um verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta.

Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares
Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.

Meia-noite, 16 de junho
Não volto às letras, que doem como uma catástrofe. Não escrevo mais. Não milito mais. Estou no meio da cena, entre quem adoro e quem me adora. Daqui do meio sinto cara afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de Londres caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e toma e toma e então exige respeito, madame javali. Não suporto perfumes. Vasculho com o nariz o terno dele. Ar de Mia Farrow, translúcida. O horror dos perfumes, dos ciúmes e do sapato que era gêmea perfeita do ciúme negro brilhando no gogó. As noivas que preparei, amadas, brancas. Filhas do horror da noite, estalando de novas, tontas de buquês. Tão triste quando extermina, doce, insone, meu amor.

Anônimo
Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me assa viva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

Vacilo da oração
Precisaria trabalhar – afundar –
como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –

A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível –
– do real.



Quando entre nós só havia
uma certa carta
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café



Bibliografia:
Barthes, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua. Edições 70. Lisboa, 1987.
Cesar, Ana Cristina. A teus pés. Editora Ática.
Cesar, Ana Cristina. Crítica e tradução. Editora Ática. Rio de Janeiro, 1999.
De Hollanda, Heloísa Buarque. Impressões de viagem. Editora Brasiliense.
Revista José, agosto/1976. Pp 3-9. Debate: Poesia Hoje com Luiz Costa Lima, Sebastião Uchôa, Jorge Wanderlay, Heloísa B. de Hollanda, Ana Cristina Cesar, Geraldo Carneiro e Eudoro Augusto.