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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Japone Arijuane - dois poemas (Moçambique)

Novíssima lavra da poesia moçambicana nas letras de Japone Arijuane, um dos representantes do Movimento Kuphaluxa, em mais uma troca afro-rizomática. Boa leitura para os dois poemas que seguem abaixo.
Abraços,
Ricardo Riso

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É, OU NÃO É?



Força fere feridas na alma, nauseabundos excrementos na bunda da cidade fede excitante

Vagina em líquidos d’agua jejuada

desafectação vil inspira e respira ar condiciona-se!

Conjunturas só para a minoria avermelhada.



 O vaivém dos Xapas antes cheios hoje enchidos: carnes vivas de bafo fúnebre há divisão dos perfumes, corpo sob corpo racismo sem problemas?

Leva frasco quando chegar abra o racismo, aliás, perfuma-se

Culatra opaca a tirar à vida bala ballet Marrabenta na dança da morte

TV sapataria vai escovando os mais sujos, vê! É o que não é, pensa pança cheia de fome.



Amanha nunca será novo dia,

Se continuas o mesmo: seiva da nação!

Antes flor que sempre murchou, regada de esperma, poder hipnotiza: cifrão: vai indo histérico não gera acções enquadra-se numa das gerações….

É, ou não é?

Responde, sempre é!



O que não é, você não vê, é, ou não é?

Muda plante tantas mudas, se urinol serve rega… reza dê a dízimos universais, mas nada muda, mas, vai! Muda! Talvez assim ninguém e nada muda-te.

Outro canal vê: ordem e progresso: sexo e violência: excremento tropical e a sua martirizada cultura? O ministério cuida! Cuida você de ti. 

Sétima classe.

Sétima ignorância.



Isca no coração da modernidade: cidade peixe bem ao fundo do mar desértico, fedendo em fedelhos à fidelidade corrupta, aversão digna de indignidades soberanas fezes quantas vezes suportaremos as politicarias? Fôlego as acácias, folga as carícias à venda na avenida, matem a pobreza com a mesma fome, vem Machimbombo bomba na hora de ponta vermelha de sangue, rostos militares com fome na guerrilha dos transportamentos, pó cores de urnas dejectos falaciosos, já agora mudos sem olfacto, como ser alguém, num país de donos






Discurso póstumo de um recém-forjado herói

(As marcas de uma guerra doem mais do que as turbulências em campos de batalha, [Holyba Wotene])



Profiro pela graça da força

das forcas dos sentidos

da garça louca furtiva de alegrias inócuas

pólvora perfume a fragrância estrondosa

quebra olfacto

e todos outros sem

tidos ou mal sido no meu ser!



Quase perco a vida, mas ganho a morte,

à única forma de ter indescritíveis sentidos

e sentir os em concomitante.

Pelo pássaro e o tambor:

guerra e pobreza

mortes e mortos

loucuras e maluco(ras).

 Aqui vai, pelos dezasseis anos, minha gratidão

do gatilho e indicador aglutinados em prol de nada,

nada que se faziam as vidas:

sem culpas,

sem direitos,

sem pecados na fé do idealizado,

lixado em dementes opacas, hipnotizadas a culatra:

caninos,

lobos,

bestas ferra,

tudo menos nada:

nada ao povo,

nada sei hoje porque… porque?

Por actual medo doutrem que suja língua e limpa vossas botas de garras de guerras?

Ou por poderio absolutamente interino?

Vivam,

comam,

bebam,

tudo façam.



Nada é eternal, além da mudança!

Nada é imortal, além da matança!

Hoje aí,

 amanhã aqui!

Virão e verão,

maçons que sois,

o inferno que vos espera,

o mal só gera o mal!



Falo pelas graças das forças das forcas dos sentidos…

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Domi Chirongo e Alexandre Chaúque lançam livros em Moçambique

NOVA LITERATURA MOÇAMBICANA. O Conselho Municipal da Cidade de Maputo e a Associação de Escritores Moçambicanos tem a honra de convidar ao lançamento dos livros Ndekeni, de Alexandre Chaúque, e Nau Nyau e Outras Sinas, de Domi Chirongo, a ter lugar no dia 19 de Junho de 2012, pelas 16h, no Átrio do Conselho Municipal da Cidade de Maputo. As duas obras foram vencedoras do Prémio Municipal 10 de Novembro, em 2010 (Domi Chirongo) e 2011 (Alexandre Chaúque). Entrada Livre.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amosse Mucavele - Relógio (poema inédito)

Relógio

À Marilía mulher que o tempo levou

É impossível que eu durma sem dar uma palmada no teu vertiginoso trilho

Impossível é, o meu acordar sem saudar a sua majestade voz

É impossível que eu me sente a mesa antes de namorar a sua redonda face

Impossível é, que eu vá ao serviço na sua ausência

Resumindo: é impossível que eu viva sem ti, pois você é a menina dos meus olhos, de beleza infindável , incontornável é a sua sabedoria secular.

O teu silêncio ensina a pontualidade a falar todas as línguas

Querida, ensina-me a fabricar verdades a hora certa. sabe admira-me bastante este seu jeito de ser e estar. mulher de mil e uma face pintadas a mesma cor ..

No pulso da parede que assombra a sala você declara o seu amor de forma leve, e eterna

Na parede do meu braço nossos sentimentos percorrem 365 dias sem intervalo, acendem o brilho das estrelas que iluminam o mundo.

A surdez dos ponteiros apontam o gatilho a nudez dos números, pois a muito que anda teso………..

Nós impávidos, assistimos a interminável guerra dos dois amantes

Que a cada hora carregam a certeza da morte dos sonhos e o nascer da nova aurora

Eu e você, meu amor, escalaremos a montanha que cresce a cada olhar esboçado a compasso No cronómetro da distância que tem a nossa cara: o tempo - onde a hora se enamora com os minutos e os segundos. bjaooooo
 
(Amosse Mucavele)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tânia Tomé lança Agarra-me o sol por trás no Rio de Janeiro

(clique na imagem para ampliá-la)

Em mais uma parceria com a Kitabu - Livraria Negra, a noite de autógrafos de AGARRA-ME O SOL POR TRÁS (e outros escritos & melodias) da jovem moçambicana Tânia Tomé, dia 12 de julho, às 19h, à rua Joaquim Silva, 17 - Lapa, Rio de Janeiro.

Peço ajuda para a divulgação.
Abraços,
Ricardo Riso

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Rui Knopfli - Antologia Poética (livro - Ed. UFMG)


Rui Knopfli - Antologia Poética
Eugénio Lisboa - Organizador
Área: Letras
Poesia
Coleção: Poetas de Moçambique
2010. 206 p. ISBN: 978-85-7041-715-2

Antologia poética de Rui Knopfli (1932-1997), poeta moçambicano que produziu uma encorpada e original obra literária durante o período de formação de seu país. Os poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. Posfácio com texto crítico e nota biobliográfica de Roberto Said.

Fonte: Editora UFMG

José Craveirinha - Antologia Poética (livro - Ed. UFMG)


José Craveirinha - Antologia Poética
Ana Mafalda Leite - Organizadora
Área: Letras
Poesia
Coleção: Poetas de Moçambique
2010. 198 p. ISBN: 978-85-7041-849-4

Um dos nomes cruciais da literatura moçambicana, José Craveirinha apresenta um obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologia. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobliográfica de Emílio Maciel.

Fonte: Editora UFMG

terça-feira, 25 de maio de 2010

José Craveirinha - África, DIA DA ÁFRICA 1

África, por José Craveirinha


Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturado com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíça
um filme de heróis de carabina ao vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das balas e aos gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
A confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre o ninho morno de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extingiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinta côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo do Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
Perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, amens
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros...

E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a táctica harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

(CRAVEIRINHA, José. Xigubo. Lisboa: Edições 70,. p.15-17)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eduardo White - A fuga e a húmida do amor (excertos)

1

Possuem uma cabeça essas mãos com as quais repartes a farínica pele do pão que tomaste sobre a mesa. Têm os olhos porosos incrustados em sua crosta e a chuva cerca-as pela lembrança da lenha que o cozeu.

Das mãos, os dedos moldávios na massa, o risível conhecimento da insónia inquietando-a iluminada deformável.

Sinceramente: gosto do modo como o repartes, pouco a pouco, lentissimamente impregnada de inconfidencialidade, de terra, cinza e água. Matéria bastante para revelar-me, eu chamando-te.

Sabes-me a essa nudez do instante onde és ave a adornar a língua tilintante da beleza e onde o pão se confunde, aberto, repartido, contigo, nua habitável, como um país do qual se escreve.

No corpo um coração impresso, pulsante e matinal tal é a sua nitidez. Observo-o atento. para lá do que me é possível dizer.

As mãos, então, é que já te digo, espelhos autênticos, necessários ao tarot da música que reflectes como se a ela suasses. Poro a poro. Parte à parte incomensurável do seu corpo.
(p. 31)


6

Também, é bom beijar-te. Um beijo está sempre mais ao alcance da fala, do búzio sonoro do silêncio, da água aérea da saliva.

No entanto, quero que saibas que não me consterna o facto de aqui não estares. De nunca teres estado, pois nunca passaste, desde sempre, de uma visão.

O meu amor amura-te o suficiente para que sejas mais do que real. Aliás, como o é a minha loucura para os outros. Amar-te é como nascer, faço-o sozinho.

Embarcado no que acredito, no que recordo, no que avivo, no que crio e invento.

Em resumo: com o que te sonho.
(p. 38)


8

Acendo um feitiço dentro desta folha. A teoria da possibilidade de o seres. Os entes que evoco pelas conchas das palavras, os ungüentos da pontuação. Leio-os espalhados pela esteira. E uma tempestade nasce-me dentro. Em turbilhão.

Pedem-me os deuses outras falas. Outros estrebuchares do corpo. Outros revirares dos olhos. Tu impassível diante de tudo. Serena como uma lua a encandear a noite.

Não sei, nem dentro deste exorcismo, nem destas convulsões, não diviso os deuses pequenos para que te atendam. Que pacto terás feito tu com Deus para que estejas tão omnipresente, tão cândida e refrescante?

Estou possesso. Prostrado e angustiado pelo chão. Pelos vasilhames da exaustão.

Rendido ao mal do qual me havia proposto salvar-te.

Não estás, agora. Agora que, cambaleante, vou regressando da tontura. Tal como surges, partes.
(p. 40)

(WHITE, Eduardo. A fuga e a húmida escrita do amor. Maputo: Texto Editores, 2008)

domingo, 25 de abril de 2010

Manecas Cândido - Coqueiral da Zambézia (poesia)

MANECAS CÂNDIDO é um dos escritores que representa a nova geração da poesia moçambicana, publicou O Sentido das Metáforas e hoje é um dos organizadores da Associação dos Escritores Moçambicanos - AEMO. Para conhecer um pouco mais a sua poesia, clique aqui. O poema a seguir foi gentilmente enviado pelo poeta para ser publicado no blog.

Ricardo Riso

Coqueiral da Zambézia

Minha terra é riqueza
de um mar de palmar
e verde chá
reverberando lindos campos.
À noite navegamos na dança do nhambaro
até ao ébrio da nossa alegria.

Ao nascer do sol o nosso suor bago do milho maduro
e o poema cultiva horizontes de mãos futuras
e em uníssono pés descalços,
calcorreamos caminhos da infinitude
que nos propomos na meta.

De a nossa terra
revigorar na certeza de muitos amanhãs!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Artigo sobre Sangare Okapi no jornal Notícias (Moçambique)


Prezados(as),

Ontem foi publicado um artigo de minha autoria no jornal Notícias (Moçambique) a respeito do livro Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo, do poeta moçambicano Sangare Okapi, intitulado “Mesmos Barcos”: Sangare Okapi e a revisitação do corpo literário moçambicano. Para realizar a leitura do texto, clique aqui.

Agradecimento especial aos poetas Manecas Cândido e Sangare Okapi pelo apoio à publicação.

Abraços,
Ricardo Riso

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sangare Okapi – e a revisitação do corpo literário moçambicano em “Mesmos Barcos”

Por Ricardo Riso

Agradecimento especial para Yana Campos por me presentear este livro.
O amadurecimento de um sistema literário nacional configura-se na autorreferenciação. Ele se dá a partir do momento que seus escritores privilegiam o passado sedimentado pelo chão das letras de um determinado país até atingir a contemporaneidade. Convém salientar que esse processo não foi conquistado com simplicidade entre os países colonizados, que sofreram com a assimilação e todas as formas de repressão às manifestações autóctones.

Moçambique vivenciou a terrível noite colonial até a independência em 1975. Embora com toda a violência da ditadura salazarista e a indefectível mentira do império ultramarino, seus poetas procuraram desconstruir os cânones impostos pelo colonizador europeu enaltecendo, através do verbo poético, o chão moçambicano e a pluralidade étnica. Logo, são longevas as posturas literárias contrárias ao referencial português em nomes, somente para citar alguns, como os de Rui Knopfli, Noemia de Sousa, José Craveirinha, Virgílio de Lemos, Fernando Couto e, nos primórdios, no século XIX, Campos Oliveira.

A partir de um Índico hibridizado, confluente oriente/ocidente, denota-se a busca identitária. Recorremos à Ana Mafalda Leite, com a lucidez peculiar, a inferir sobre esta mistura: “Ser moçambicano (...) equivale a partilhar culturas e origens diversificadas, que confluem no Índico, e em terra moçambicana se entroncam, renascidos, bantuizados, travejados de uma memória, que a viagem e a história refundem, em iniciático baptismo, na nova nação” (LEITE, 2003, p. 155). A palavra poética em fruição erótica, metafórica e, às vezes, surrealizante, atuava como força motriz para apaziguar o dilaceramento acarretado pelos sonhos suprimidos e as injustiças cometidas no cotidiano.

Esses escritores valeram-se de um profundo lirismo e de poemas com exacerbado cariz existencial para confrontar o absurdo da perversidade colonial, fazendo da Ilha de Moçambique e do mar, precisamente sua porção índica, o lugar de reconfiguração dos sentidos e - por que não? - da História, elaborando uma mítica memória da qual a literatura se apropria, e que seria retomada pela geração surgida nos anos 1980. Para Ana Mafalda Leite,

“o processo de mitificação literário da Ilha de Moçambique, tem vindo a ser actualizado, e amplificado, nos últimos anos, com maior insistência na obra de vários autores, concretizando percursos alternativos a uma poética militante, e de cariz ideológico, conferindo uma outra amplitude aos imaginários poéticos, e actualizando uma ‘herança’ e tradição literárias, muito antigas.” (LEITE, 2003, p. 137)

Entretanto, na trajetória literária moçambicana houve um hiato dessa vertente, explicado pela urgência do momento histórico dos anos 1960/1970 imposto pela guerra colonial e do posterior “cantalutismo” para a nação independente, época que presenciou a participação ativa dos escritores com seus poemas unindo e convocando os moçambicanos para a luta, e, em seguida, cantar as loas que a revolução traria para o país em construção.

Essa temática engessada e a rara diversidade estética e formal vivenciariam o seu ocaso já no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim e Mia Couto, que recuperavam o lirismo em um profundo existencialismo nas obras “Monção” (1982) e “Raiz de Orvalho” (1983), respectivamente. Isso seria solidificado com a estreia de Eduardo White e o seu “Amar sobre o Índico” (1984), além da publicação da revista “Charrua” (1984) e do surgimento de nomes como Nelson Saúte e Armando Artur. Desde então, a navegação lírica pelos mares do Índico fez-se constante, e a geração da década de 1980 se tornou referência para os jovens escritores surgidos na década inicial do século XXI.

Assim, chegamos a Sangare Okapi e ao seu livro “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” (Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007), que assume esse legado e participa desse “palimpsesto literário” (expressão alcunhada por Ana Mafalda Leite) com o uso de dedicatórias, recriações de títulos, transcrições de versos etc. Tudo na mais pura tradição poética do seu país. Ainda consta na capa do livro uma bela pintura do celebrado Malangatana Valente, "Olhar Erótico".

Sangare Okapi é bacharel em Ensino de Português, membro efetivo e da direção da AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos. Publicou, em 2005, “Inventário de Angústias ou Apoetose do Nada”. Está representado na revista brasileira “Poesia Sempre” (2007). Co-produziu e encenou a peça “Pereto de Onti”, distinguida com mérito no Festival Regional de Teatro Amador Zona Sul, organizado pela Casa da Cultura do Alto-Maé (1996). Em 2007, participou, em representação de Moçambique, no XII Festival de Poesia de Havana, dedicado a África e Caraíbas. Prêmio Revelação de Poesia AEMO/ICA (2004) e Menção Honrosa do Prémio Revelação Rui de Noronha/FUNDAC (2002). (1)

Temos um livro conduzido pelas vagas metapoéticas de Okapi, que segue e procura reformular as “indicidades” surgidas na poesia de seus antecessores. No alargamento dos sentidos referentes à Ilha de Moçambique, lugar matricial, e no aprofundamento metafórico do Índico múltiplo cultural e erotizado.

O livro é dividido por três cadernos. O primeiro apresenta o maior número de poemas, alguma variedade formal, em tímido referencial concretista, grande quantidade de citações de autores moçambicanos, mas que ainda encontra espaço para homenagear o português de nascimento, cabo-verdiano por opção, Manuel Ferreira, em que o sujeito lírico apropria-se de temas caros à literatura do arquipélago como a angústia em relação ao mar,, “livrai-me desta solidão / do mar” (p. 23). Apresenta o dilema do ilhéu e intertextualiza o poema ao prestar uma justa homenagem ao clássico romance “Flagelados do Vento Leste” de Manuel Lopes, que são reconstruídos com delicadeza: “oh sem ser / flagelado de algum vento leste / vontade de partir / partir de vontade” (p. 23)

Dessas dedicatórias, há um poeta não que poderia deixar de constar quando se versa sobre o Índico e a Ilha de Moçambique. O nome de Rui Knopfli, nesse caso, impõe-se naturalmente. O seu livro “A Ilha de Próspero”, segundo Leite, é o que “se faz primeira, e mais consistente revisitação, do espaço ilhéu, em termos literários e artísticos, enquanto percurso de indagação de uma memória histórica e cultural” (LEITE, p. 139). O final do poema “Mossuril” de Okapi remetem-nos à “Ilha Dourada” de Knopfli, que seguem abaixo, respectivamente:
fechada
toda de agrura

alguma
amargura
em si trancada

todo o amor
e mar

é sal e lágrima
no poema. (OKAPI, p. 24)


A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento. (SECCO, p. 91)

Um profundo lirismo existencial revela-se no poema “Língua: ilha ou corpo?”, dedicado àquele que contribuiu da melhor maneira a relação com o mar, Virgílio de Lemos. Neste, a metapoética a favor da ressignificação dos sentimentos em imagens que se diluem entre a geografia física e do corpo em eruptiva criação poética:

A língua
é o pão que fermento
os dias todos.

Com ela (re)invento,
meço outros ângulos
do sentimento.
(...)

Eis o que sou: ilha
ou corpo cercado
de gente
por todos os lados. (p. 20)

A nova geração da literatura moçambicana também é representada no poema “Insular”, valorizador da presença feminina As escritoras Maria João Hunguana e Sandra Salete são reverenciadas em um poema carregado de erotismo, não só do corpo mas do próprio verbo poético transitante entre o corpo, o mar em direção ao oriente e a poesia: “(...) Mar azul / branco é o papel / sem a margem / do teu busto // Lanço as redes, que são as letras // no arremesso / do papel a cabeceira / começo. // Transporto outro poema / para o oriente do corpo.” (p. 18)

Embora as dedicatórias sucedam-se e outros poetas são celebrados nos poemas de Okapi, tais como Heliodoro Baptista, Guita Jr., Gulamo Khan, Eugénio Lisboa etc., o maior tributo se dá no poema “Patraquimmiana”, no qual Sangare homenageia dois nomes consagrados da poesia moçambicana: Luís Carlos Patraquim, que é citado no título, enquanto o corpo do poema direciona-se ao poeta maior do país, o Velho Cravo José Craveirinha:
Para J. C.
Não sei com que estranha miragem. Confesso.
Meu lírico cartomante das noitadas pela Mafalala!
Sim, agora que o medo já não puxa lustro na cidade. Velho Zé,
Livre e limpo da morte, regressas pelos carris da memória,
mãos aninhadas nos bolsos rotos. A mesma cartola preta,
Amarrada ao vento e um pássaro que já não cabe no verso
Preso no lembo da língua, desmentem o teu estatuto
De cidadão do futuro e regressas, velho Zé!
Nenhuma epopeia trazida dos escombros se levanta do rosto,
Nenhuma elegia brota do coração, nenhuma!
E regressas, velho Zé, poeta em todas as latitudes!... (p. 39)

Seguindo o palimpsesto literário moçambicano, este poema de Okapi inspira-se no “Drummondiana” de Patraquim, publicado no livro “Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora”. Patraquim presta tributo ao poeta referencial Carlos Drummond de Andrade e o dedica a um conterrâneo, Gulamo Khan. Já Okapi no seu projeto de revisitar a literatura de Moçambique em seu livro, não recorre a referenciais brasileiros como fez o seu inspirador, pois o jovem poeta é de um tempo em que a literatura de seu país já sedimentou seu caminho e criou suas próprias referências metapoéticas, assim sendo, os escritores estrangeiros deixaram de ser uma necessidade primeira, o que não queremos dizer que seja uma forma de menosprezar toda uma tradição literária universal, mas, sim, o amadurecimento literário de um jovem país.

Mas é no conjunto de poemas reunidos na segunda parte do livro, intitulada “Mesmos barcos”, que se explicita a referência a Patraquim e aos poemas integrantes de “Barcos elementares” do livro supracitado. Também podemos, de certa maneira pelo forte intimismo presente em Okapi, estender a referência a Eduardo White. Priorizando poemas em prosa, o sujeito lírico de Sangare Okapi utiliza metáforas dissonantes e imagens insólitas que confundem os sentidos do leitor para descrever a linha tênue erotizante entre mulher, corpo e poesia:

Por isso, reinvento-te no meu poema como em Gizé, o antílope na argila. E não me canso. Repito, apenas: esquece o tempo. O tempo. A razão. Apaga a cicatriz na epiderme e um escorpião com os dentes esmaga. Leva na boca, ensanguentada, uma alga verde, verde o sonho da criança que não sonhou para viver. Como um barco, sem porto, eriça a sensível vela do corpo e, frágil, o coração nos sirva de bússola:
os remos dispensa,
temos as mãos
para a navegação. (p. 43)

A navegação se faz pela magia ilimitada da palavra poética. As imagens viscerais, “escorpião com os dentes esmaga”, são entrecruzadas por uma escrita pausada a buscar o amor e a trilhar a mesma “ponte antiga” entre os seus antecessores literários: “Se entre mim e ti há uma ponte antiga que nos deflaga o desejo, a irreprimível geografia do afecto” (p. 44). O existencialismo é acompanhado, assim como na poesia de Patraquim e Eduardo White, pelo olhar sensível de Okapi que se revela atento às incertezas do seu país: “há um pequeno país / no meu país: / chama-se angústia” (p. 44).

A erotização desenfreada dos sentidos revela-se no corpo do poema e no corpo feminino vinculado à Ilha e ao índico hibridizado, em “urni e sarris”:

Hoje, quase que instintiva e furtivamente, revisito-te. Exposta silhueta de mulher, na textura índica, esperando o tempo. Em Mossuril, preso o marisco na rede. Posso, agora, sem receio algum, vociferar no poema: amo-te! Amo-te as curvas, não sei que perigo ou mistério, a serena música das dunas no peito, romaria em alguma boca explodindo, ou então, a alga na bexiga se multiplicando. Olha a água, agora à nossa volta! A vertigem!?! Em ti, barco sem destino, nu me acoito inteiro e,
se remar-te é engano,
provável é agora
rimarmo-nos. (p. 45)

Assim, valendo-se da retomada lírica dos poetas moçambicanos a recuperar a Ilha de Moçambique como lugar matricial e de entrocamento de culturas diversas, tendo em Luís Carlos Patraquim e Eduardo White alguns dos maiores expoentes dessa vertente, destacamos excertos desses escritores os quais são, em nosso entendimento, inspiradores para a escrita de Sangare Okapi e, com isso, ter seu nome incluído no palimpsesto literário moçambicano aqui proposto:

Ilha, corpo, mulher. Ilha, encantamento. Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo o oriente, para sempre de ti exilada.
Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe e excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de “armas e varões assinalados”. São Paulo e rastilho do evangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas? Almas minhas de panos e missangas gentis, quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido?
Ilha, capulana estampada de soldados e morte. Ilha elegíaca nos monumentos. Porta-aviões de agoirentos corvos na encruzilhada das monções. De oriente a oriente flagelaste o interior da terra. De Callicut a Lisboa a lança que o vento lascivo trilhou em nocturnos, espamódicos duelos e a dúvida retraduzindo-se agora entre campanário e minarete. Muezzin alcandorado, inconquistável.
Porque ao princípio era o mar e a ilha. Sinbas e Ulisses. Xerazzade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em Macua matriciadas. (PATRAQUIM. p. 41-42)

Sou ao Norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco-te por entre as negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, frágeis e belas como as missangas e vejo-te pelos seus absurdos olhos azuis. Que viagens eu viajo, meu amor, para tocar-te esses búzios, esses peixes vulneráveis que são as tuas mãos e também como me sonho de turbantes e filigranas e uma navalha que arredondada já não mata, e minhas oferendas de Java ouros e frutos incensos e volúpia.
Quero chegar à tua praia diáfano como um deus, com a música rude e nua do corno de uma palave, um séquito ajawa, um curandeiro macua, uma mulher que dance uma Índia tão distante, e um monge birmanês, clandestino no tempo, que sobre nós se sente e pense. Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconfortado. Em tudo habita ainda a tua imagem, o m’shiro purificado da tua beleza e das tuas sedes, a rosa dos ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesse naus, garças, águas, ouros, pratas, vagas, escravos ausentes, tudo o que esta Ilha que sou ao Norte nos pode lembrar. Deito-me, assim, sobre o Sol com a praia funda em meu pensamento. (WHITE, p. 24-27)

O derradeiro poema de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” presta uma justa homenagem ao poeta primeiro de Moçambique, pioneiro no versejar da Ilha, o oitocentista Campos Oliveira. Neste poema, “O Barco Encalhado”, único na última parte, o sujeito lírico demonstra as culturas sobrepostas que aportaram no decorrer dos séculos na Ilha de Moçambique, idealizando uma nova cultura hibridizada. Além disso, há a crítica ferrenha à triste pilhagem realizada pelos portugueses:

(...) Resgatasse o Índico o que do oriente com o tempo soube sufragar.
Os barcos todos com as velas hirtas e as gentes.
Suas as pérolas mais os rubis. O aljôfar. Luzindo no ar.
Minha fracturada chávena árabe persa na cal
ou resplandecente a missanga cravada no ventre d’água,
qual sinal dos que de além mar chegaram
e partiram com baús fartos...
Fobia dos que ficamos. Mas herdeiros. (p. 49)

Ao retomar de forma criativa a metapoética inspiração índica e da Ilha de Moçambique em seu livro, Sangare Okapi mostra o quanto ainda é ilimitado versar a partir desses referenciais, e insere-se com louvor na tradição literária do seu país, mostrando o vigor da novíssima geração. Inferimos que a vocação palimpséstica de “Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo” manifesta a maturidade da literatura moçambicana ao revisitar o seu corpo ainda jovem, com um vasto caminho a ser sedimentado pelos poetas. E Sangare Okapi fará parte dessa trajetória e dessa história. É um nome que veio para ficar.

NOTA:
(1) Informações extraídas do sítio da AEMO - Associação dos Escritores Moçambicano - http://www.aemo.org.mz/aemo/quemsomos.htm - Acessado em 26/02/2010.

REFERÊNCIAIS BIBLIOGRÁFICAS:
LEITE, Ana Mafalda. A reescrita de Caliban sobre a Ilha de Próspero: notas em torno da actualização de um mito de origem cultural. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 135-144.

LEITE, Ana Mafalda. Poéticas do Imaginário Elemental na Poesia Moçambicana: entre mar... e céu. In: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Lisboa: Colibri, 203. p. 153-160.

OKAPI, Sangare. Mesmos Barcos ou poemas de revisitação do corpo. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 2007.

PATRAQUIM, Luís Carlos. Os barcos elementares. In: Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora. Lisboa: ALAC, 1991. p. 41-42.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX – volume II: Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.

WHITE, Eduardo. Os materiais do amor seguido de O desafio da tristeza. Lisboa: Caminho, 1997. p. 24-27.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Artigo publicado no jornal Notícias (Moçambique)


Prezados(as),


Publicado na edição de hoje – 27/01/2010 – do jornal Notícias (Moçambique), meu artigo “Voar Na Asa Da Poesia: O singelo compromisso poético de Manecas Cândido”, a respeito do seu livro “O Sentido das Metáforas”.

Abraços,
Ricardo Riso

terça-feira, 29 de setembro de 2009

“Voar na asa da poesia” – o singelo compromisso poético de Manecas Cândido

por Ricardo Riso

“A poesia é a meta dos meus desejos” (p. 11) versa o eu lírico em um dos poemas do livro “O sentido das metáforas” (Maputo: Fundac, 2007), estreia literária do jovem poeta moçambicano Manecas Cândido. Desse verso podemos esperar um escritor compromissado com o fazer poético, pois, os poetas permanecem “intactos e submissos ao fulgor tão óbvio da palavra” (p. 9), revelando as sensações adormecidas pelas pessoas comuns porque somente os poetas com sua sensibilidade exacerbada escutam “a música das folhas que o vento transmite” (p. 33).

O lirismo percorre os quarenta poemas d’“O sentido das metáforas”. Manecas Cândido, nascido a 1 de Julho de 1979, em Quelimane, província da Zambézia (1), é representante da novíssima geração da poesia moçambicana, representada por nomes como Domi Chirongo e Sangare Okapi, seguidores de uma vertente lírica, com o predomínio de uma poesia existencialista e universal. Na trajetória literária de Moçambique, a presença da voz lírica fez-se desde os tempos do colonialismo em nomes como os de Virgílio de Lemos, Fernando Couto, Glória de Santana, Noémia de Sousa e, principalmente, Rui Knopfli. Com a guerra colonial e a posterior independência, os poetas, com razão, comprometiam-se com as causas sociais coletivas e cantavam a bravura do povo moçambicano e as glórias de um novo país. Contudo, o pleno domínio das temáticas “de combate” anestesiou os sentidos dos poetas extraindo da poesia o que há de melhor em si: a sua liberdade.

Esse panorama começa a mudar na década de 1980 com os pioneiros livros de Luís Carlos Patraquim, “Monção”, e de Mia Couto, “Raiz de Orvalho”, que resgatam o lirismo e uma poesia de cariz existencial no meio literário moçambicano. Tais características solidificam-se com a chegada de Eduardo White e o seu “Amar sobre o Índico” (1984) e os poetas lançados pela revista “Charrua” (1984), entre eles Juvenal Bucuane, Hélder Mutéia, Pedro Chissano, comprometida em desvencilhar-se dos temas guerrilheiros da poesia engajada. Para isso, seus poetas procuravam novos caminhos formais, apuro estético, uma linguagem plural, diversificada e/ou erótica, que privilegiava a força das metáforas e os anseios intimistas do homem. Rita Chaves aponta para o título da revista como fator determinante e anunciador desta mudança: “O nome Charrua aponta para essa vinculação com a terra a ser revolvida para que se aumente a sua fertilidade”.

Essa busca por outros caminhos poéticos é acompanhada por um triste período de atrocidades no país. Os anos 1980/1990 foram impregnados pela violência desmedida e irracional da guerra civil que assolou Moçambique, mergulhando-o numa aguda crise econômica e deixando a população perplexa diante de tantas atrocidades. Cândido cresceu convivendo com esse trágico cenário, ao qual o sujeito lírico recorda com amargura: “Logo que nasci / deram-me presentes / de pobreza e um País / de angústias” (p. 35). Na infância foi obrigado a conviver com as tristes notícias do “furor da guerra” que “silenciava as crianças”, “onde todos os dias as flores / gotejavam sangue / de tanta dor e morte” (p. 35). Entretanto, apesar de “já cansado / de sonhar com tristezas / que habitam o dia-a-dia” (p, 34), o sujeito lírico não se entrega, recorre à poesia, “desvelando segredos dos meus tempos / abalado de angústias, fome, terror” (p. 45) para retratar e denunciar o tempo que lhe coube viver, pois, “mesmo que me intimidem / a poesia resistirá rigorosamente / à languidez do meu corpo” (p. 13), tempo este infestado, agora, não mais pelo monstro do colonialismo ou pela guerra fratricida, mas pela corrupção desenfreada dos dirigentes do país e das pressões externas do neoliberalismo.

Contudo, o sujeito lírico é persistente, não se entrega, procura o “inadiável sonho / de canto de esperança” (p. 11), crer no poder dos poetas para “buscar o que de melhor temos” (p. 11) e faz do espaço ilimitado proporcionado pelo universo onírico o local de permanência da utopia, da esperança, contrapondo-o às adversidades do cotidiano: “O sonho integra a vida / na qual lutamos determinados / sem que nada nos refute / os anseios e a esperança” (p. 31). Metapoeticamente, confia na poesia para auxiliar o retorno dos sonhos moçambicanos, pois, somente o poema possui a qualidade de recuperar “a lembrança que a memória / não é capaz de trazer” (p. 25), memória esgarçada e dilacerada por tantos anos de sofrimento.

O apego a sua terra moçambicana, “aqui vivo fiel / à minha terra” (p. 32), remete aos poemas de Eduardo White e Luís Carlos Patraquim, e em tempos distantes, aos de Rui Knopfli, que elegeram o norte do país, mais precisamente a ilha de Moçambique como lugar matricial. O sujeito lírico de Cândido reafirma a tradição lírica moçambicana: “O teu corpo é País das maravilhas, / belo e próspero, / é terra dos meus sonhos” e também perpassa pelo norte ao citar as peculiares esculturas da etnia Maconde: “O teu corpo, amor, o teu corpo / esculpido do pau-preto / espanta o silêncio dos meus olhos” (p. 46).

Do compromisso social ao uso constante da metapoética, o sujeito lírico de Manecas Cândido propõe uma viagem alada em “palavras luzentes” (p. 13), porque sabe que a função da poesia é percorrer “com palavras mais puras” (p. 38) novos firmamentos, criar novas cores para combater o discurso da ordem estabelecida, tirar da inércia os sentidos anestesiados por tantas angústias e sofrimentos. Por isso, a fé e o compromisso com o seu trabalho e com o seu povo em “escrever um poema / que te lembre sempre a minha voz / de profunda esperança” (p. 39).

Manecas Cândido com “O sentido das metáforas”, ganhou o Prémio Rui de Noronha Revelação 2005 – FUNDAC. Ao exaltar a poesia e a própria palavra, o poeta trilha um caminho ousado, sinuoso, que exige intenso rigor com a tessitura poética. Caminho corajoso que, aguardamos, seja prolífico, conforme afirmou o poeta Armando Artur ao prefaciar a obra: “para quem está disposto a expor-se a todos os riscos que a escrita oferece, quando o propósito é procurar ser um verdadeiro e incansável marceneiro da poesia, à maneira Knophliana”.

O meu destino é voar na asa da poesia.
E do meu voo, levar a mensagem
Com as cores de esperança
Que a terra clama.

E nas alturas, pintar o céu
Exaltando o sentido das metáforas,
A razão do meu destino.
(p. 43)

NOTA:
(1) Manecas Cândido nasceu a 1 de Julho de 1979, em Quelimane, província da Zambézia. É Bacharel em Biologia pela Universidade Pedagógica. É membro efectivo da AEMO e do Núcleo dos Escritores da Zambézia. Poeta, publicou O Sentido das Metáforas (2007). Colaborou, na Rádio Moçambique, na rubrica “Sugestão de Leitura” (2004). Tem poemas publicados nos jornais “Diário de Moçambique”, “Savana” e “notícias”, nalguns casos assinados sob o pseodónimo Lu-Mundime. É Prémio Revelação Rui de Noronha – FUNDAC (2005).
Fonte: sítio da AEMO - ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES MOÇAMBICANOS, acessado em 29/09/2009, http://www.aemo.org.mz/aemo/quemsomos.htm
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAVES, Rita. Eduardo White: o sal da rebeldia sob ventos do Oriente na poesia moçambicana. In: SEPÚLVEDA, M. C. e SALGADO, M.T. África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000. p. 137. APUD: SECCO, Carmen L. T. R. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-305.

SECCO, Carmen L. T. R. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003. pp. 280-305.

domingo, 5 de abril de 2009

Domi Chirongo, a nova literatura moçambicana

Domi Chirongo é um dos representantes da nova literatura moçambicana. Nasceu em 1975, ano da conquista da independência do país. Licenciado em Psicologia e Pedagogia, é membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ) e do Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA Moçambique).

Em literatura, Chirongo já publicou o romance “Um Pequeno XIDAMBANE Africano vítima das cheias”, seus poemas e contos encontram-se dispersos pela web. Além disso, o autor possui um blog onde encontramos vários poemas de sua autoria: http://www.domichirongo.blogspot.com/

Recebi de Domi Chirongo um conto e os poemas que seguem abaixo. O fortíssimo conto “Tiros ao alto” retrata o devastador cotidiano da guerra fratricida patrocinada criminosamente pela África do Sul e EUA que assolou Moçambique. De como a população de lugares ermos era atingida pela violência, obrigando-a viver em estado permanente de vigília e medo, mesmo durante as festas de final de ano. Enquanto a chegada deste sendo anunciada por tiros, metáfora de um conflito que se estenderia por longos anos, dilacerando os sonhos do povo moçambicano com as promessas não cumpridas com a independência, infelizmente.

O desencanto com os rumos tomados pela pátria no pós-independência está presente nos poemas em prosa de Chirongo. Amargura, melancolia, decepção, revolta, são marcas de um eu-liríco inconformado com o meio em que vive e faz do espaço do poema lugar de denúncia e reflexão das mazelas que impedem o desenvolvimento do país. Por outro lado, o eu-lírico interioriza-se, refugia-se em um erotismo libertador em poemas dedicados à Mulher e ao Amor, buscando no caminho ilimitado das letras substituir as agruras de uma vida de intensas dificuldades sociais e econômicas. Em seu blog, os poemas trilham por este caminho.

A presença de um eu-lírico de cariz existencial é marcante na poesia moçambicana, encontrando ecos na história poética do país. Apesar do predomínio, necessário, no que se configurou chamara de “poesia de combate” da luta revolucionária nos anos 1960/1970 e o “cantalutismo” do país independente, apreendemos sua presença em poetas como Virgílio de Lemos, Rui Knopfli, Fernando Couto e o José Craveirinha dos poemas dedicados à Maria. Na contemporaneidade Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, entre outros, demonstram e solidificam a rica diversidade estética da produção atual sem afastar-se das críticas a uma realidade excludente e cada vez mais desumanizada.

Domi Chirongo, como representante da nova geração, parece comprometido com essa poesia, uma poesia atenta e descontente, entretanto, que ainda acredita na força utópica do Verbo e da própria poesia. Que o autor continue o seu caminho, se aprimore. Domi Chirongo, um nome para ser olhado com atenção.

Ricardo Riso

* As informações biográficas do autor foram enviadas pelo próprio e retiradas dos endereços abaixo:
http://www.african-writing.com/six/domichirongo.htm
http://aladecuervo.net/logogrifo/0605/chirongo.html

TIROS AO ALTO*

Poucos dias depois do 24 de Dezembro. O grande dia da família! Era noite. Meu pai tinha ido a confraternização do partido. Meus irmãos mais velhos tinham ido a uma banga. Em casa estavam: a minha mãe, os meus dois irmãos que sigo e eu. Lá fora tudo estava calmo.

A cidade era pacata e pacífica. Fria para um clima tropical. Não havia semáforos. Nem tráfego que justificasse. Taxi não havia. Machimbombo muito menos. O prédio mais alto tinha quatro andares. Estava um pouco distante do centro da cidade. Não me recordo duma avenida transformada em prostíbulo. Não havia Universidade. Em escadas rolantes então, nunca se havia pensado. Telemóvel, nem se sonhava que existiria. Computador, nem se imaginava. Não havia televisão. Escutávamos muito pouco a rádio. Da guerra sabíamos através de testemunhos vivos. Os nossos mortos trazidos e os estranhos abatidos. Havia também os capturados. Apresentados nos julgamentos públicos. Que acabavam com numerosas chambocadas ao vivo. Depois do discurso de arrependimento. Não me ocorre na mente alguém que tivesse sido linchado em público. Lembro-me, porém, de pessoas contando cenas piores, de rapazes obrigados a manter relações sexuais com as progenitoras. De pais obrigados a pilar os seus próprios filhos. De pessoas cortadas os lábios, alegadamente para se rirem eternamente. De mães obrigadas a cortar o nariz e as orelhas dos seus irmãos. Outros até a processos mais complexos, como cortar os membros inferiores e superiores. Tudo era por causa da guerra. Guerra que tinha outras causas!

Naquele quadro, para mim era fácil desenhar o arrependimento. Descrever um sonho. Não sei porquê, nunca cheguei a presenciar uma sessão de fuzilamento. Talvés por ser criança! Também não cheguei a perguntar aos meus pais. Nem a ninguém. Acho que nunca me importei. Das pessoas que conheci naquele tempo, não me recordo de ninguém da minha idade que tivesse assistido a um fuzilamento. Porém, a toda a hora falàvamos disso e muito mais.

As notícias circulavam na cidade através da oratura. Foi nesse contexto que soubemos quem era o Ministro da Justiça, do Interior, da Educação e Cultura, entre outros. Foi nesse contexto que soubemos da história do homem cobra. Foi nesse contexto que passamos a conviver com várias outras histórias locais. Foi também nesse contexto que perdemos muitos acontecimentos internacionais e nacionais. Um dia ainda contarei o perdido!

Como vos ia dizendo, a noite já tinha caído. Estàvamos alguns membros da família nuclear em casa. Estàvamos a escassas horas para sair de um ano, quando o som dos tiros começou a penetrar nos nossos tímpanos. Nunca nos tinha acontecido algo igual.

Os sons eram intensos, profundos, melancólicos, amargos e sem mensagem. Não se escutava som de granadas nas proximidades das nossas grades. Nem distante delas. Acredito que era som de “espera-pouco” dos filmes russos, intercalado com o de Makarov. Ah! De certeza AKM estava lá. A minha arma preferida! – O meu pai ensinou-me a manejar antes de eu ter dez anos de idade. Passei a gostar dela, apesar de nunca ter atirado a alguém.

Aquele dia apetecia-me pegar a AKM, que meu pai escondia no guarda-fato. Mas não era eu que dirigia as operações. E ainda não era uma situação extrema.

Placamos como meu pai nos havia preparado. Meus irmãos começaram a dizer a minha mãe e a mim algumas palavras de ordem. Lembro-me de nos terem informado do tratamento que os rebeldes gostariam de ter e não aquele nome de bandidos que era comum na cidade. Os meus irmãos tinham apreendido muito do discurso de arrependimento aquando dos julgamentos públicos. Compreendi naquele momento que o saber não era da escola. Nem era da Igreja. Muito menos dos Ritos de Iniciação.

Em pouco tempo tivemos uma preparação urgente para caso de sermos capturados. Não me lembro de ter tido uma licção concisa e clara em toda a minha vida. Naquele dia não choramos. Estàvamos firmes e dispostos a viver. Os gritos e tiros continuaram até ao amanhecer. A comida da nossa grande ceia ninguém tocou. Os nossos batuques, nossas marimbas e guitarras ninguém mexeu.

De madrugada, só de madrugada, chegaram os nossos irmãos mais velhos e o meu pai. Todos estavam bem animados. Tínhamos entrado num novo ano! O governo tinha decretado a autorização de uso de algumas armas de fogo nos festejos da passagem de ano, e só nós não sabíamos.
Domi Chirongo

POEMAS


SEGUNDA REPÚBLICA
No meio de discursos gratuítos e infrutíferos. Fui odeiado e velipendiado por trocar os três mosquiteiros pelos três tenores. Sim, sem questionar o presente d’então, deixei-me abraçar pelos ventos vindos até mim. E com os braços musculosos também envolvi profundamente aquela música. Num exercício intensamente romântico... Sim, jamais esquecerei aquele cenário! Hoje, eis-me aqui desarrependido, despido de cobardia, pronto p’ra ser cuspido e fuzilado por todos incoformados, adeptos incondicionais da hipocrisia e cinismo deste sítio.

PRESENTE
Assinando o nosso acordo de paz numa pátria dos outros, ninguém sabia deste presente e nem mesmo o ex-colono, admitindo mulheres no exército, imaginava o presente que se revela. Quem era eu filho? Quem era p’ra vaticinar as vidas armadilhadas nas esquinas diárias? Se realmente suspeitasse deste presente, teria substituído a metralhadora p’la caneta e papel higiénico. Quem sabe, talvés sairia menos sujo deste dinheiro presente.

RODA DE DANÇA
Antigamente fazíamos uma singela roda de gente. Em improviso entrava um a um dançando, tjambando. Ou um par. À imagem do ensaio, era substituído por outro par. Mais outro. Assim sucessivamente até a música terminar aplaudida por todos. Adolescentes lindos nós éramos! Antigamente a gente daqui era maravilhosa e simpática! Aqui era agradabelíssimo viver. Conviver. Beat estava a bater e muito bem! Hoje tudo mudou. A música baixou. Nossa face murchou. A roda parece machucada. Crianças, jovens, adultos, idosos, chacina na catedral de dança. Pneu p’ra abrandar o cheiro, petróleo p’ra acelerar o acto. Um casal linchado.


DORMIR ETERNO
O chão choramingão clamando, chamando por mim. Poeta silvestre. Declamador terrestre. Em cada desastre desta vida, abandonada por Deus e despida de toda moral conhecida! O chão choramingão, coercivo, chamando por mim, logo eu, bolas! Para um lugar incerto caminho. Não sei se correndo ou voando. Quem sabe gatinhando. Ou talvés rastejando para não ser rasteirado. Caminho. Não desejo caminhar, mas caminho.


ERRO HUMANO

Abra essa luminosa porta, amor. Deixa teu querido penetrar. Com jeito. P’ra desaguar o cansaço, brotado da jornada diária. Ingrata. Descompensada pelos berros do patrão. Salário desigual! Salafraio alimentando esta pobre cabeça desregularizada. Aliada natural do coração que te ama. Sofre meu corpo honesto. Erecto. Decidido. Determinado a felicidade até a exaustão. Abra a porta, porra! Esqueçamos os erros. Até mesmo os berros do patrão. Deixe-me aconchegado, amor.


LUSOAFINANDO

Quando axe atingiu o topo no Brasil, eu estava aqui sentado. Marrabentado até aos tímpanos. Com o pescoço saramingado, minguado pela pátria, via a via p’ra vila da felicidade transformar-se em sangue. Mas não era sangue. Era suor dos que ousaram desviajar em atmosferas virgens, mais puras que as maravilhosas ilhas nacionais. Outras até internacionais!


S/T
Estas são as cores do coração corajoso tropeçado em ti Pese embora ignores a essência delas Vale a pena chamar-te a razão Mais uma vez

O SIGNIFICADO
Atravessando a praça da Travessia do Zambeze, rapidamente o jardim, a heroína, o Hotel e o Museu te consomem. Mas por acaso saberás dizer quanto custa uma escrita desenraizada da realidade? Sabes, devias escutar a mescla de rimas ritmadas nas teclas d’alma que dão vigorosa vida ao coração. Oiça atentamente e terás o significado deste amor.


ÁGUIA D’OURO
Neste
galinheiro
águia
permaneço
preparado
p’ra amar.


S/T
Oásis do amor que hasteei em ti é um pêndulo. Guia-me na estrada vital, mais intelectual que qualquer bandeira.


TUA ...
Tua é a alma iluminando meus tristes caminhos. Não. Não posso ser inimigo dessa alma escondida em ti. Abre-te. É no teu corpo descoberto, onde encontro o indicador da felicidade. Por isso, sob o pretexto de combater o stress, tomei a forte decisão de entregar-te o meu coração.


* conto e poemas enviado por e-mail pelo autor às 5h42, dia 02 de abril de 2009.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Luís Carlos Patraquim - Pneuma (livro)

«Há muitas formas de se entrar e outras tantas de sair deste belíssimo Pneuma. E uma delas é bem clara: Luís Carlos Patraquim vive no delta da língua portuguesa. Entre Pasárgada e Inhambane. Como um de seus poetas mais completos e mais inspirados.» Marco Lucchesi

Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, em 1953. Colaborador do jornal A Voz de Moçambique, refugia-se na Suécia em 1973. Regressa ao país em Janeiro de 1975, integrando os quadros do jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema onde se mantém, de 1977 a 1986, como roteirista/argumentista e redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Criador e coordenador da «Gazeta de Artes e Letras» (1984-1986) da revista Tempo. Desde 1986 residente em Lisboa, colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro. Foi consultor para a Lusofonia do programa Acontece, de Carlos Pinto Coelho, e é comentador na RDP-África.

Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 80
Colecção: «Outras Margens», n.º 0
Código: 93.000
ISBN: 978-972-21-2026-5
1.ª edição: Fevereiro 2009
Data: Fevereiro 2009
Preço: 14,99 €

Fonte: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1obj_--_3D72477__--_3D_area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm

domingo, 27 de julho de 2008

Eduardo White - Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva


http://loja.campo-letras.pt/prod_details.php?categid=92&productid=1493

«Todos os anteriores trabalhos de Eduardo White me sensibilizaram pela sua poética lúcida, simultaneamente bela e terna mas, em "Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva" impressionou-me, particularmente, a crueza do desespero a que o poeta se abandona, e da sua impotência perante a imprevisibilidade do Amor. Considero-o um livro fascinante.» REINALDO RIBEIRO

PREÇO : €8.10
Preço de Mercado : €9.00
Sobre o Livro : «Lembro-te: alguém no amor precisa de estar nu para mostrar ao outro que está demasiado vestido.» EDUARDO WHITE

«A relação entre erotismo e poesia no livro de Eduardo White é tal, que pode dizer-se que o primeiro é uma poética corporal e a segunda é uma erótica verbal. A linguagem que nas páginas deste livro os combina é capaz de dar nome ao que é mais fugitivo e evanescente: a sensação.

É o movimento da imaginação que transfigura o sexo em lenta e parcimoniosa cerimónia e ritualiza ritmicamente, com sensualizado pormenor, a linguagem em metáfora.

O demorado percurso da inumeração das imagens poéticas é um abraço de realidades opostas, que se ajustam numa cópula infinita de sons, numa retórica em que o sublime se acaricia. Nestas páginas de intensidades luminosas, poesia e erotismo nascem dos sentidos, mas não terminam neles; ao desdobrar-se incandescentes, parágrafo a parágrafo inventam configurações imaginárias, celebram prazer e solaridade, um tempo único de entrega, eterno na sua demorada instantaneidade.

Desejo de volta à realidade primordial, ao êxtase de um corpo singularmente pluralizado, mulher e mátria, o poema concilia, em múltiplos acordes de separação e retorno, uma constante e ambígua fronteira, que permite a plenitude poética de uma apaixonada entrega amorosa.» ANA MAFALDA LEITE

«Eduardo White, um dos poetas mais loucos, mais lúcidos e mais angustiados que conheço. Mas um dos maiores poetas que conheço.» GLÓRIA DE SANT’ANNA


Outras Informações : ISBN: 978-989-625-308-0
Nº de Páginas: 56
Peso: 80 g.
Dimensões 13.5x21 cm
Ano de Edição: 2008

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Eduardo White - As mãos estão trêmulas...

As mãos estão trêmulas, nervosas, arrepiadas. Pensam comigo na solidão da casa. Há uma existência que não está, que não vive aqui. Temos ambos saudades dela. Eu queria dar as mãos a sua manualidade. Poder desenhar carícias, poder afagar um rosto, poder levá-las ao beijo.

Minhas mãos, meninas minhas. Só elas vivendo esta dor incontornável quando eu digo ou penso esta palavra: MULHER.

Nenhuma outra diria a casa do Mundo que é. A vida que por dentro a trata e prepara, aquela visão cósmica que azula o barro, a terra plástica e húmida a sonhar o molde.

Nenhuma canção é mais forte que a matéria da sua música, o brilho, a força, a limpeza de cada timbre. Casulo profundo para o amor nascer, água e sede casadas para se não morrer. Inventando (i)limite quando sucedemos definir o chão natal, bandeira com cunho carnal, pátria primeira, país com vocação para crescer. Ave a fio no céu-da-boca, pronúncia com sal e suor ou Sol, voo, fábula, matriz do amor a dividir.

Um barco nos olhos.

Sabem, é dele que viajo para a memória que tenho dela. Que imagem plena eu posso ainda guardar quando havia em nós a alegria de brincar. Esse lugar tão aéreo da liberdade. A voz encantada com que dizia: eu amo-te. Arrepio-me só de pensar ouvi-la em sua musical generosidade.

Eu bocejava as tardes para ela entrar vinda da escola e com aquele cheiro infantil da borracha e dos lápis efemeramente transcritos para os cadernos. Era lilás por dentro, tinha espaço e chão e, quantas vezes, desse milagre da sua adulta menstruação eu sorria para a menina que era com caroços no peito. Doíam-lhe se gargalhava, ainda me lembro.

Pois é. Era assim que eu via a mulher profunda que amo. Um dia jurei plantá-la no meu urbano jardim. Daqueles que a cidade abriga em vasos de barro com terra comprada nos supermercados. Afligia-me isso, comprar com o mecânico cartão de débito um punhado de terra que nos lembrasse a gratuidade da nossa África. Pobre, mas verdadeiramente primária em sua pureza.

Bom, voltando ao vaso. Aqui o vejo sobre a mesa. Haviam, na sala, outros com cores e flores diversas, mas instantâneas. Eu lembrei-me de uma com a qual adorava compará-la quando entregava o corpo ao soalho do quarto e às minhas mãos derrapantes. A de maracujá. Que fruta tão fresca, que pevides tão mágicas, que suco tão espesso.

Mas a flor cordial que a anunciava, tinha escrito outros feitiços. Os seus poros acentuados no leve da pele. A cor, por exemplo, febril e escura dos lábios, ou, então, as luas espantadas e cheias nos seus olhos. Negras e luminosamente assustadas.

Que bom puder, depois de tudo, esboçar essa imagem gratificante dela. Lúdica como uma sonata num desenho animado.

Certa noite, eu esperei-a com o boom da surpresa que eu julgava fosse explodir logo que olhasse o jardim dentro de casa. Inquieto percorria-a e figurava as hipóteses de amá-la sobre a banca em mármore da cozinha.

Porém, o tempo passava. As horas doíam-me como a lâmina afiada de uma navalha. Sibilinamente cortantes. E ela não vinha e uma mina de carvão descia, com os cigarros, pelo meu peito apertado junto ao corpo esponjoso dos pulmões. A cabeça a supor. O suor a lavar-me. E ela ausente, cada vez mais, pelo dentro das horas. O choro desesperado a conter-se-me.

Meu animal engravidado de mim, não vinha.

Lembro-me, depois, do telefone a gritar no quarto, da flor de maracujá tão alvamente a murchar, a previsão do desastre que eu adivinhava vir a acontecer.

- Alô?

Respondeste:

- Não volto, estás alcoolizado!

Sei que pousei a mão sobre uma mesinha de pau-preto. Olhei-a partir, depois, para o tabaco, para o dourado do whisky que havia trazido num copo com o seu nome no aroma. O cigarro voou volatilizado nas pulsações da tragédia e o queimar da bebida foi devagar arder no desastre.

Não disse nada. Também, assim, as palavras não são para dizer-se. Fui descansá-las para algum poema, fazê-las beberem-no.

Nostálgico, chamei as mãos para o Caetano Veloso e pedi-lhe que me fizesse chorar – é sempre assim quando acontece eu estar triste. A voz mulata foi subindo devagar para as paredes da casa, como se as fosse limpar do que dela, agora sobrava.

Uma fotografia a preto e branco, um recado que me havia dado pela manhã, no batom do beijo, um poema emoldurado na parede e um colar de missangas minúsculas com que a havia de casar. E, ao lado, eu infeliz a descobrir o que ela não havia descoberto: que tinha parido um poeta.

Foi bom. Apenas estou infeliz por ela não ter podido ganhar com a tristeza da paciência. Hoje eu bebo, faço amor, choro muito e escrevo versos.

É a vida.

White, Eduardo. O manual das mãos. Porto: Campo das Letras, 2004. pp. 57-60.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

José Craveirinha: Depoimento Autobiográfico

28 de maio de 1997.
José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Completa hoje 75 anos!!!
Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano", e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50.
Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa, não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Outra parte permanece inédita.
Esteve preso pela Pide, de 1965 a 1969, na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar, entre outros.
Tem muitas obras publicadas, sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa.

Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:

"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."
FONTE:
Lenamarve (Mensagem original) Enviado: 29/5/2007 03:40
Date: Wed, 28 May 1997 15:42:23 gmt+0200 From: Joaquim Fale' <> To: <>

terça-feira, 18 de março de 2008

Eduardo White: Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave

Eduardo White é poeta moçambicano. Em sua poesia veremos uma linguagem poética que será levada pelo vôo onírico em questões existenciais, filosóficas e metapoéticas, ou como lembra Mia Couto, o poeta segue a tradição de que a "poesia lírica sempre arriscou em Moçambique" (WHITE, 1992, pp. 9). Essas questões são retomadas pela literatura moçambicana a partir dos anos 1980, com o país independente, porém, arrasado pela guerra de desestabilização realizada entre a Frelimo (partido que liderou a independência do país) e a Renamo (partido apoiado pela Rodésia e África do Sul).

Diante da situação de asfixia de séculos de colonização portuguesa e a posterior libertação de Moçambique, a poesia, principalmente nas décadas de 1960-1970, era engajada, política, doutrinária, não havendo espaço para questões existenciais e metapoéticas, que só seriam retomadas no raiar dos anos 1980 com Luís Carlos Patraquim (Monção) e Mia Couto (Raiz do orvalho), e a seguir pela geração da revista Charrua (1984), da qual Eduardo White é contemporâneo.

Selecionei alguns poucos poemas de raríssima beleza do livro Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave (Lisboa: Caminho, 1992). Ao prefaciar a obra, Mia Couto aponta para a relevância da poesia de White diante de um momento delicado pelo qual passava o país, dilacerado e desgastado por tantos anos de uma fratricida guerra:

"Aqui está uma poesia fortemente embrenhada nos conflitos do seus tempo, empenhada com a alma moçambicana. Talvez a abundância da morte, a irracionalidade da tragédia moçambicana alimentem, pela negativa, os versos de Eduardo White. Porque há nestes textos fôlego de esperança que só os magos e adivinhos pressentem. Num mundo de caos e violência é preciso cuidar das palavras como se, no seu ventre, elas trouxessem o núcleo prenunciador de um outro mundo. (...)
Tudo nesta escrita quer voar. A pedra, o fogo, a casa. Porque estes versos sugerem um ritual de iniciação ao belo, uma reaprendizagem do fascínio. O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo. (...) O poeta vai a pedra e lhe concede a respiração. Toca no fogo e lhe empresta a febre da água. Magia de quem recusa a condição terrestre, ilusão da eternidade: as aves não envelhecem. Tradutor de uma caligrafia celestial, essa que só a pluma da asa pode redigir, Eduardo White reinventa as imensas paisagens do seu país, a geografia da ternura que só os pássaros sabem percorrer.
Eduardo não escreve sobre aves. Escreve em aves." (WHITE, 1992, pp. 9-10)

Espero que gostem.
Riso

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Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

(p. 22)


Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania. Um pássaro bebe nu na minha boca e em vão vai querer saber que álcool o comove com tanta frescura. Primeiro pia, limpa as asas robusta ainda húmidas da saliva e depois canta e ferve e sua, e num minuto já todo o corpo lhe estrebucha. Chama por mim. São muito velozes e bruscas as suas tonturas e eu face a isso pergunto-vos por que terá vindo nu um pássaro a beber à minha boca? Que esplendor ou embriaguez ele procura? Que obscuros dons, que vocação, que loucura?
Vamos, entremos agora no mistério onde o poema nos vigia, rente ao murmúrio para que a alegria não retina e podem ver ao fundo, ali, um estábulo onde as palavras se abrigam, acolá, um bebedouro onde a memória bebe, os restos de feno, dois tipos que trabalham em pleno escuro e já visível a farma, a terra em uso. Estão aqui os instrumentos, os moldes da mania de que vos falei há bocado.
Voemos.
Voar não é senão essa ilusão,
fazê-la possível. Tê-la vivendo.
Voar é estender as mãos
a esse desejo que nos dói
como um punhal insurgente.

(p. 26)


Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

(p. 28)


Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.

Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.

O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.

Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

(p. 19)