quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Mia Couto: Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?

O escritor moçambicano Mia Couto é hoje um dos principais nomes da literatura em língua portuguesa contemporânea. Além do belo trabalho como escritor, Mia, como vários outros intelectuais africanos, atua com críticas contundentes ao descaso dos países dominantes e à submissão de seus pares, que ficam esperando o assistencialismo vindo do exterior. Detentor de um olhar atento, Mia Couto clama por uma postura mais independente não só dos moçambicanos, mas de toda a África.
Espero que gostem.


Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?
MIA COUTO


Texto pronunciado por Mia Couto em Conferência realizada em Deza Traverse Suíça, por ocasião dos 30 anos de independência de Moçambique. Junho 2005.


Nasci e cresci numa pequena cidade colonial, num mundo que já morreu. Desde cedo, aprendi que devia viver contra o meu próprio tempo. A realidade colonial estava ali, no quotidiano, arrumando os homens pela raça, empurrando os africanos para além dos subúrbios. Eu mesmo, privilegiado pela minha cor da pele, era tido como um “branco de segunda categoria”. Todos os dias me confrontava com a humilhação dos negros descalços e obrigados a sentarem-se no banco de trás dos autocarros, no banco de trás da Vida. Na minha casa vivíamos paredes-meias com o medo, perante a ameaça de prisão que pesava sobre o meu pai que era jornalista e nos ensinava a não baixar os olhos perante a injustiça. A independência nacional era para mim o final desse universo de injustiças. Foi por isso que abracei a causa revolucionária como se fosse uma predestinação. Cedo me tornei um membro da Frente de Libertação de Moçambique e a minha vida foi, durante um tempo, guiada por um sentimento épico de estarmos criando uma sociedade nova.

No dia da Independência de Moçambique eu tinha 19 anos. Alimentava, então, a expectativa de ver subir num mastro uma bandeira para o meu país. Eu acreditava, assim, que o sonho de um povo se poderia traduzir numa simples bandeira. Em 1975, eu era jornalista, o mundo era a minha igreja, os homens a minha religião. E tudo era ainda possível.

Na noite de 24 de Junho, juntei-me a milhares de outros moçambicanos no Estádio da Machava para assistir à proclamação da Independência Nacional, que seria anunciada na voz rouca de Samora Moisés Machel. O anúncio estava previsto para a meia-noite em ponto. Nascia o dia, alvorecia um país. Passavam 20 minutos da meia-noite e ainda Samora não emergira no pódio. De repente, a farda guerrilheira de Samora emergiu entre os convidados. Sem dar confiança ao rigor do horário, o Presidente proclamou: “às zero horas de hoje, 25 de Junho..”. Um golpe de magia fez os ponteiros recuarem. A hora ficou certa, o tempo ficou nosso.

Não esqueço nunca os rostos iluminados por um irrepetível encantamento, não esqueço os gritos de euforia, os tiros dos guerrilheiros anunciando o fim de todas as guerras. Havia festa, a celebração de sermos gente, termos chão e merecermos céu. Mais que um país celebrávamos um outro destino para nossas vidas. Quem tinha esperado séculos não dava conta de vinte minutos a mais.

Trinta anos depois poderíamos ainda fazer recuar os ponteiros do tempo? A mesma crença mora ainda no cidadão moçambicano? Não, não mora. Nem podia morar. Em 1975, nós mantínhamos a convicção legítima, mas ingênua de que era possível, no tempo de uma geração, mudarmos o mundo e redistribuirmos felicidade. Não sabíamos quanto o mundo é uma pegajosa teia onde uns são presas e outros predadores.

Trinta anos é quase nada na história de um país. Estamos já distantes da injustiça colonial. Mas estamos ainda longe de cumprir o sonho que nos fez cantar e dançar na noite de 25 de Junho. Uma parte dessa expectativa ficou por realizar. Hoje já não acorreríamos com a mesma fé para celebrar uma nova anunciação. Mas isso não quer dizer que estamos menos disponíveis para a crença. Estaremos, sim, mais conscientes que tudo pede um caminho e um tempo.

Poderemos recorrer a explicações, apontar dedos acusadores. Tudo isso será pouco produtivo. Não se pode esperar que um país saído do atraso da dominação colonial possa realizar aquilo que velhas nações independentes estão ainda construindo. Moçambique está aprendendo a ser soberano num mundo que aceita muito pouco a soberania dos outros. O céu que parecia infinito foi ficando estreito para as chamadas pequenas bandeiras.

No mesmo ano em que se desintegrava o império colonial português, em 1975, os Estados Unidos da América eram derrotados no Vietname. O tempo parecia correr a favor dos povos “pequenos”, capazes de enfrentar a arrogância dos poderosos. Essas vitórias criaram a ilusão de que um mundo mais justo estava despontando. Mas o sistema mundial cedo se reajustou desses revezes. A Independência de Moçambique teve que enfrentar uma dualidade: representou uma ruptura com o colonialismo mas, ao mesmo tempo, funcionou como um passo para uma maior integração num sistema capitalista que se globalizava. A essa condição ambivalente não poderíamos escapar.

Meus senhores e minha senhoras,
Caros amigos,
No meu romance Terra Sonâmbula criei um personagem que, por nascer no dia da Independência, a vinte e cinco de Junho, foi baptizado de Junhito. A história decorre no decurso da nossa guerra civil que se prolongou durante 16 anos.

Certa noite, o pai de Junhito é assaltado por um pressentimento: o seu filho iria morrer em breve. Era isso o que a guerra reclamava: a morte desse que nascera em Junho. Para salvar o filho, a família resolveu transferi-lo para a capoeira que ficava no quintal. Ali Junhito aprenderia a comportar-se como as galinhas, comendo as sobras e dormindo ao relento. Resignado a sobreviver sem glória, sem brilho, sem substância.

Junhito foi-se tornando numa sombra e, em casa, os familiares estavam proibidos até de mencionar o seu nome. A mãe, mesmo ela, parecia conformada. Contudo, às escondidas da noite, ela visitava a capoeira. Sentava-se no escuro e cantava uma canção de embalar, a mesma que servira para adormecer os outros irmãos. Junhito, de início, acompanhava a mãe no canto. Mas depois, o menino já nem sabia soletrar as humanas palavras. Esganiçava uns cóós e ajeitava a cabeça por baixo do braço. E assim adormecia, sonhando que, certa vez, teria sido um homem.

A metáfora no romance é simples, quase linear. Na altura, eu denunciava a nossa progressiva perda de soberania, e uma crescente domesticação do nosso espírito de ousadia. Poderíamos ser nação mas não demasiado, poderíamos ser povo mas apenas se bem comportado.

Num processo difícil e conflituoso, Moçambique criou a reputação de ser um caso de excepção em África. Esse bom-nome, devo dizer, é merecido. Esse prestígio foi conquistado, não é uma prenda de nenhum paternalismo. Fomos capazes de produzir a Paz. Fomos capazes de criar democracia formal, de construir estabilidade e de garantir liberdades de expressão e de pensamento. Tenho orgulho nesse processo. Mas tenho também receio. Porque o caminho que percorremos não foi exactamente escolhido por nós, nem está sendo testado à medida da nossa vontade. O nosso êxito não pode continuar a ser medido apenas pelo sucesso da aplicação de um directório de receitas políticas e financeiras. Ao contrário, deveríamos ser valorizados pelo modo como repensamos criativamente o nosso lugar no mundo.

Nos gloriosos anos da luta de libertação nós gritávamos “Independência ou Morte, Venceremos”. Hoje sabemos: a independência não é mais do que a possibilidade de escolhermos as nossas dependências. Na década de 70, o mundo oferecia a possibilidade de diferentes opções e alianças estratégicas. Hoje as economias nacionais perfilam-se perante um modelo sem alternativa. Escolhemos o que outros escolheram por nós. Uma parte da nossa alma foi já, mesmo sem o sabermos, conduzida para a capoeira e ali esquece a irreverência, a originalidade e o desejo de ser único.

A redução da soberania não é um processo que esteja atingindo especificamente Moçambique. É um processo generalizado. Todas nações são hoje menos nacionais, todo o cidadão é menos dono do si mesmo. Uns dizem que, agora, somos todos mundo. Mas ninguém pode ser do mundo se não tiver a sua pequena aldeia.

Como a Europa vê África

Os continentes são, sobretudo, representações feitas e refeitas de acordo com os tempos. A África de hoje é uma co-produção euro-afro-americana. A versão mais recente dessa co-produção é marcada pela morte e decadência. Cadeias de TV estão confirmando essa agonia, entre doenças e guerras. O excesso de imagens dos dramas de África teve um efeito perverso: o continente deixou de ser visível. Perdeu visibilidade porque tudo parece estar já visto. Aos olhos do resto do mundo, África (ou uma parte dela) deixou de existir. Do mapa cor-de-rosa se passou ao monocromático mapa do desespero.

O apocalipse africano esteve demasiado tempo na montra, foi excessivamente filmado, fotografado, torcido e retorcido para uso da compaixão. Deixou de existir disponibilidade para entender o que está por detrás dessas imagens. Afinal, a fome a guerra são apenas os sinais de uma tragédia mais funda e mais antiga. Essa tragédia assenta em razões internas mas assenta também no lugar periférico de África e nas trocas desiguais do comércio internacional.

Uma certa esquerda europeia transitou da simpatia para um pessimismo militante. A lágrima solidária foi substituída pela indiferença e pelo descrédito. Os africanos, por seu turno, foram eternizando um sentimento de culpabilização dos outros, acreditando tratar-se da continuação de um “complot” antigo para os dizimar.

De um e outro lado, se acumularam desilusões e impaciências. Uma mesma ignorância do Outro foi transitando ao longo da História. Aos profetas do socialismo seguiram-se os profetas do neoliberalismo agitando apressadas receitas financeiras para salvar os pobres. Mas a pobreza insiste, teimosa como uma incurável doença que nos devora do outro lado do Mediterrâneo.

A opção para os países doadores parece simples: dar mais ou deixar de dar. As recentes notícias mostram que, nos próximos tempos, se irá dar um pouco mais. Pelo menos em algumas nações terá vencido a alternativa mais humanitária. Contudo, poucos se interrogarão sobre a necessidade de mudar a qualidade da relação entre o Norte e o Sul.

Como nós vemos a Suíça

A Suiça já foi para muitos moçambicanos não um país mas o nome de uma missão religiosa. A Missão Suiça implantou-se no Sul de Moçambique, enfrentando terríveis suspeitas do regime colonial português. Henri Junod foi expulso de Moçambique em 1895 porque ensinava as chamadas “línguas dos nativos”. O missionário ajudava moçambicanos como Eduardo Mondlane a moçambicanizarem-se enquanto, nesse processo, ele mesmo se africanizava, acabando por solicitar que fosse enterrado em terras de Moçambique.

Setenta anos mais tarde, um outro suíço converteu-se numa figura de dimensão quase mitológica. Tratava-se do médico René Gagnaux, uma espécie de filantropo da nova vaga, um homem que dedicou a sua vida a atender os mais pobres. A Suíça, para muitos, era a terra do Gagnaux. Um dos seus filhos, agora moçambicano, lidera uma das principais forças políticas em nível da cidade de Maputo.

Hoje temos da Suiça uma percepção mais moderna e designamo-la por via de um nome curioso: “país doador”. O mundo está hoje dividido entre os que dão e os que recebem. Como se fosse uma condição natural, genética, perpétua. Nós, os receptores daquilo que se chama “ajuda” já tivemos outros nomes: fomos Terceiro Mundo, países em vias desenvolvimento, territórios do Sul, países sub-desenvolvidos, nações da periferia.

A dança dos nomes não terminou. Agora, no quadro do politicamente corrigido, nós temos, pela primeira vez, o direito de partilhar de um mesmo nome: somos ambos, ricos e pobres, chamados de “parceiros”. Este novo nome é mais simpático mas ele colide com uma questão de princípio: não se resolve nas palavras aquilo que não está resolvido na substância.

As mútuas atribuições de culpas

O embaixador da Suiça em Moçambique, o meu amigo Dr. Adrian Hadorn, é testemunha da minha insistente intervenção em Moçambique para combater a tendência de vitimização por parte dos africanos. Enquanto continuarmos culpando os europeus pelos nossos próprios falhanços não seremos capazes de nos olharmos para nós próprios como principal motor da mudança. Assumir a condição de sujeito histórico: esse era o maior e mais instigante desafio da Independência Nacional.

É infindável a soma de argumentos para justificar a cleptocracia e a corrupção dentro de continente africano. Alguns intelectuais africanos vêm na importação de modelos externos a origem de todos os males. Esta justificação encontra espaço em alguns doadores. Na linguagem moderna dos relatórios dos consultores este problema seria assim reportado: “falta de ownership das reformas estruturais”. Impostas de fora, essas reformas não poderiam ser implementadas. Mas tudo indica que, ao contrário, parte dessas reformas foi rápida e profundamente apropriada por elites nacionais que as usaram a favor do seu próprio enriquecimento. O problema não parece estar na origem dos modelos mas na sua natureza política. Os africanos africanizaram a mandioca. As elites fizeram o mesmo com as reformas estruturais.

Se alguns africanos acham que a culpa é apenas dos europeus, no sentido inverso, europeus há que acreditam que a culta cabe apenas aos africanos. Uma relação mais saudável entre uns e outros obrigaria a rupturas profundas, implicava poder começar de novo. Mas esse retorno ao grau zero não existe na História. Compete-nos questionar os pressupostos do nosso relacionamento recíproco.

Elegi para este pequeno texto alguns tópicos soltos. Não sou economista, sou um escritor cuja paixão reside num mundo que não existe. Mas não posso focar indiferente perante alguns assuntos que determinam nosso destino comum. Eis algumas das interrogações que gostaria de partilhar convosco.

O falso sentimento de desperdício

A opinião pública na Europa e nos EUA mantém a idéia de que África pode sair da situação de crise se gerir bem os fundos doados. A ajuda apenas é insuficiente porque é mal usada.

É certo que parte das doações tem sido desviada em benefício de elites minoritárias. Algumas dessas fortunas roubadas estão aqui, bem no coração da Europa, na forma de criminosas contas bancárias. Mas a grande verdade é que, mesmo bem usada, a actual ajuda não resolveria os problemas vitais das nações empobrecidas. Pelo contrário, o actual quadro da ajuda poderá estar agravando a condição de miséria do Terceiro Mundo.

Regressemos à idéia dominante de que os valores da ajuda são astronómicos. Na verdade, é necessário colocar essas quantias no devido contexto. Os cidadãos americanos acreditam, por exemplo, que o seu país destina 15 a 20 por cento do seu Orçamento para a ajuda externa. Estão errados. Os EUA gastam menos de 1 por centro nessa ajuda, uma ninharia comparada com os milhões que o governo paga por ano aos fornecedores de armamento.

Um escritor sabe contar, não sabe fazer contas. Mas um economista amigo ajudou-me a fazer umas somas e gostaria de partilhar os resultados convosco. Com os 175 biliões de USD que os EUA já gastaram na guerra do Iraque desde Marco de 2003 seria possível fazer o seguinte:

1) Instalar 40.000 pequenas e médias empresas produtivas relativamente modernas e competitivas na África Sub-Sahariana, gerando directamente 12 milhões de novos postos de trabalho com salários e condições de trabalho acima da actual média. Deste modo se arrancaria de forma permanente cerca de 60 milhões de Africanos das malhas da pobreza. Além disto, este investimento tornaria possível às economias africanas tirarem proveito efectivo das oportunidades comerciais que hoje já existem, como sejam o caso do AGOA (comércio preferencial com os EUA) e o EBA (everything-but-arms, comércio preferencial com a União Europeia). Isto significa que num espaço de tempo relativamente curto, o Produto Interno Bruto per capita da África Sub-Sahariana poderia ser triplicado, não à custa de ajuda mas com base em desenvolvimento e crescimento real da economia e uma melhor distribuição do rendimento gerado.

2) Além dessas empresas, com o dinheiro gasto no Iraque seria possível também construir mais 600 escolas técnico-profissionais de alta qualidade, onde poderiam ser formados, todos os anos, cerca de 300.000 trabalhadores qualificados para impulsionarem o desenvolvimento da agricultura, agroindústria, pesca, indústria, turismo, serviços, etc. Este treinamento permitiria que as empresas mencionadas acima pudessem funcionar bem com força de trabalho qualificada, com repercussões imediatas na produtividade e do nível de vida da maioria dos Africanos.

Ou refazendo as contas: os bilhões de dólares gastos no Iraque são suficientes para empregar mais 4 milhões de professores primários por um ano, ou para imunizar todas as crianças do Mundo contra diferentes doenças por 58 anos, ou para alimentar o Mundo durante os próximos 7 anos, ou ainda para terminar com o flagelo da malária em África e construir 2 milhões de novas habitações básicas.

Estes outros destinos a serem concedidos aos bilhões de dólares talvez fossem uma forma mais efectiva de combater a insegurança. Porque há um terror invisível que pode estar alimentando o terrorismo internacional. Esse é o terror da fome, da pobreza, da ignorância, o terrorismo do desespero perante a impossibilidade de mudar a vida.

Caros senhores,
Finalmente, quase nenhuma das nações desenvolvidas cumpriu aquilo que foi estipulado há trinta anos pelas Nações Unidas: destinar 0.7 por cento do seu orçamento para a ajuda externa. Em média, esse apoio não ultrapassa hoje os 0.25 por cento. Como se pode ver, não são apenas os países pobres que não estão cumprindo as obrigações internacionalmente assumidas.

O mais grave, porém, é que aquilo que nos é dado numa mão nos é retirado pela outra mão. Calcula-se que o proteccionismo e os subsídios retiram aos países pobres 2050 milhões de euros. Ou seja muitíssimo mais daquilo que é o valor da ajuda. Para além disso, os subsídios agrícolas na Europa e EUA representam um contra-senso na lógica que nos é imposta em relação aos mecanismos reguladores da economia. Numa palavra, os profetas do liberalismo de mercado não fazem em casa aquilo que propalam publicamente.

Mais grave ainda: está provado que 40 por cento do valor que se acredita dar aos países pobres é destinado a pagar a consultores internacionais. Na realidade, há hoje mais expatriados em África do que havia no tempo colonial. Quer dizer: uma parte do dinheiro está sendo absorvido pelo circuito dos países ricos. Com este dado, o valor da ajuda desce de 0.25 do orçamento para menos de 0.1 por cento. Afinal, não se está dando tanto quanto os cidadãos dos países ricos acreditam.

O ciclo perpétuo da divida

Os países africanos estão gastando e continuarão indefinidamente gastando mais a pagar o serviço da divida do que a investir na saúde ou na educação. De 1980 a 1990 a totalidade da divida da África sub-sahariana mais do que duplicou. Em 1995, as exportações somadas dos países africanos não chegavam para pagar o serviço da divida. A questão para eles já não era a de pagar ou não pagar, mas de sobreviver ou sucumbir.

Quando houver uma decisão sobre o cancelamento será demasiado tarde. Alguém já chamou à divida uma “guerra por outros meios”. Essa agressão silenciosa não aparece na TV mas que é responsável pela morte de meio milhão de crianças em cada ano. Esta guerra faz da filantropia do Ocidente um falhanço anunciado e acabará por desacreditar um sentimento tão nobre como a solidariedade. Os mais miseráveis do continente – a quem se supõe ser destinada a ajuda internacional - pagarão, em cada ano, mais do que aquilo que estão recebendo. A verdade é simples: a divida é impagável. Nenhum país africano poderá exercer a sua independência sem que esse fardo tenha sido eliminado. Com este passado não pode haver futuro.

Quando o HIPC se decidiu em 1995 aliviar a divida de Moçambique nós festejamos. O anúncio do alívio foi feito com pompa e circunstância, um prémio a celebrar o nosso comportamento ajuizado. Afinal, era maior a festa que a razão de festejar. De 113 milhões por ano passou a pagar 100 milhões. Essa redução era, afinal, insignificante. Para se qualificar Moçambique teve que implementar medidas draconianas do Programa de Reajustamento Económico. Essas medidas tiveram impactos dramáticos no país. O tão propalado alívio acabou não libertando fundos que poderiam marcar a diferença no desenvolvimento de Moçambique.

Por outro lado, o que hoje se exige a Moçambique não se exigiu a países da Europa. Depois da grande Guerra, o chamado London Agreement aceitou que a Alemanha pagasse a dívida acumulada aos aliados a uma taxa anual equivalente a 3.5 por cento dos seus rendimentos. Mais do que esse valor era tido como um factor de estrangulamento inaceitável. Porém, mesmo com a tal redução do HIPC, Moçambique pagará 13.5 % do seu rendimento. O que quer dizer que estamos pagando 4 vezes mais que se achou aceitável a Alemanha pagar, numa situação de crise global e em que os preços das matérias-primas estão mais baixos do que nunca.

Dar aos pobres a mesma chance de experimentar

Os países pobres necessitam ter espaço para realizar os seus próprios debates e ensaios, experimentarem soluções ao seu próprio ritmo. Queremos ter a liberdade de, por exemplo, poder decidir qual o melhor momento para privatizar os serviços públicos. Essa liberdade foi, afinal, conferida aos europeus.

Instituições financeiras internacionais testaram nos países pobres fórmulas que se revelaram desastrosas. Parecia simples: tal como na receita socialista, uma mudança no sistema de propriedade mudaria toda a estrutura da economia. Produziram em embalagens de aplicação fácil os pacotes de reajustamento estrutural, formulas miraculosas que nos permitiriam evoluir queimando etapas.

A Moçambique também foi aplicada a mesma receita. Todos esses programas obrigaram a elevar preços pelos serviços públicos, a cortar subsídios e reduzir orçamentos para serviços sociais: toda esta receita resultou em crescente pobreza e desemprego. Hoje, é generalizado aceitar que esses programas não correram bem. Quem paga para recompensar os pobres dessa falhada experiência?

O caso da castanha de caju de Moçambique é hoje tida como uma ilustração desses falhanços com efeitos catastróficos . Moçambique tinha e tem na castanha de caju um dos seus pilares de exportação. Em poucos anos o sector ficou arruinado, 80 por cento das fábricas fecharam e milhares de operários ficaram sem emprego. De um modo geral, a intervenção na agricultura pautou por uma ingenuidade crassa: a idéia de que intervindo nos preços se acabaria resolvendo tudo o resto.

Os actuais pacotes de redução da pobreza absoluta poderão ser a simples continuação, com outro vestuário, dos Programas de Reajustamento anteriormente falhados.

Moralizar aquilo que se pode exigir aos outros

Parte dos que nos pedem não é historicamente realizável. Os países mais pobres devem liberalizar as suas economias num período mais curto do que foi alguma vez exigido aos países desenvolvidos. Algumas vezes, coloca-se como condição de libertação dos fundos o cumprimento de metas que são impraticáveis. Espera-se que façamos em 5 anos aquilo que outros levaram séculos a alcançar. Algumas das nações européias que nos cobram pela descentralização estão muito longe de cumprir, elas próprias, esse processo de descentralização.

Alguns dos que hoje nos exigem clareza, transparência e boa governação apoiaram golpes de Estado em África, patrocinaram o assassinato de líderes e apoiaram agressões a regimes sob o único pretexto de estarem do lado errado no período da Guerra Fria. Ainda hoje a ajuda que se ergue como um “dever moral” continua sendo condicionada politicamente. Quem fala, por exemplo, da ditadura infame da Guiné Equatorial ? Em 1994, a embaixada dos EUA fechou e os americanos romperam com o regime da Guiné Equatorial por acharem inaceitável o regime de Teodoro Obiang. Um ano depois, quando foram descobertas importantes jazidas de petróleo, os EUA regressaram correndo, aceitando aquilo que antes era intolerável. O petróleo é um poderoso diluente de ditaduras.

Algumas das vozes que reclamam moralidade dos regimes africanos estiveram caladas perante a injustiça do apartheid. Ao menos, o meu pequeno país foi capaz de se erguer não apenas contra o poderoso apartheid sul-africano mas contra o regime rodesiano de Ian Smith. Para defendermos essa coerência de princípios perdemos 17 bilhões de dólares, considerando apenas os custos directos da desestabilização lançada contra o nosso país. Esse dívida financeira e moral não entrará nas contas com a chamada comunidade internacional. Como não entrará nas contas a guerra de desestabilização que por quase duas décadas martirizou a nação moçambicana. Hoje fala-se de guerra civil em Moçambique como se esse conflito tivesse tido apenas contornos endógenos. É preciso não esquecer nunca: essa guerra foi gerada no ventre do apartheid, estava desde o início inscrita na chamada estratégia de agressão total contra os vizinhos da África do Sul.

No meu país o espectro do terrorismo não começou com o Onze de Setembro. Milhares de crianças estão desde há mais de vinte anos espreitando com medo o chão que vão pisar. Mais de um milhão de minas antipessoais foi semeada durante a guerra. Milhares desses engenhos mortais continua semeando o terror no seio de cidadãos inocentes. Quantos dos países ricos que se mobilizam contra terrorismo assinaram a convenção para o banimento da produção de minas?

O convite para a simulação

A resposta a tudo isto, é claro, deveria vir de dentro dos países pobres. Teríamos que ter agenda, própria, uma estratégia nossa. Forçados a sobreviver no imediato vamos investindo naquilo que são chamadas as “sound policies”: o que é bom é privatizar, descentralizar, cumprir os indicadores da macro-economia. Mesmo sabendo que isso corresponde a a uma encenação para agradar aos doadores. É mais importante obedecer cegamente a um valor estipulado para a taxa de inflacção do que criar condições de emprego. Estamos produzindo um ambiente económico e social propício para nos qualificarmos para mais ajuda, em vez de criarmos um ambiente propício para o nosso desenvolvimento.

As palavras da moda vão-se sucedendo num léxico descartável: “comunidades locais”, desenvolvimento sustentável, assuntos de géneros, sociedade civil, povos indígenas, comunidades tribais. Nem sempre se entende a substância concreta dessas palavras. Mas elas conduzem a um jogo de sedução reciproca, a uma infindável encenação teatral. Não tarda que nos nossos países – esses a quem se ordena que emagreçam o Estado – surjam Ministérios para a Sociedade Civil, Ministérios das ONGs, Ministérios para a sustentabilidade.

Caros amigos,
Em 1984 eu estava na minha varanda quando vi chegar a tempestade. Na altura não tinha nome, mas uma enorme ventania fez levantar poeiras no chão e ondas no mar, misturando granizo e vento, quebrando vidros, erguendo tectos, espalhando destruição. Depois, o fenómeno levou nome, um nome de mulher como convém a qualquer tempestade que se digne. A tempestade foi chamada de DOMOINA. A minha angústia perante os destroços era: como nos vamos reerguer, em plena guerra e no meio da maior miséria? Mas a solidariedade interna, ainda assim, deitou semente e colheu fruto. Os apoios vieram de dentro e o país encontrou ainda força para se levantar. Em pouco tempo, as feridas estavam curadas e cicatrizadas.

Falamos aqui da cooperação de Moçambique com a Europa e com o Mundo. Mas a primeira grande questão seria como é que Moçambique está cooperando consigo mesmo? Como é que se promove o desenvolvimento a partir de dentro? Este debate tem que ser conduzido dentro de África. Ele já está nascendo com a emergência de jovens que não se satisfazem com o discurso saturado da culpabilização dos outros sempre que analisa a situação interna do continente. O maior desastre de África não é ser pobre mas ter sido empobrecida pela aliança entre a mão exploradora de fora e a mão conivente de dentro.

Trinta anos a pedir apoio cria uma dependência mental que anula o espírito do 25 de Junho. Há toda uma geração de quadros que já raciocina em função do que e a quem se vai pedir. Estamos criando Junhitos, gente que se sonha doméstica e domesticada. O mais grave é que a reprodução dos Junhitos se faz dentro de Moçambique, de forma endógena e indígena.

África não é o continente dos outros, um simples dever moral, um assunto de retórica diplomática. É verdade que compete aos africanos reconquistarem a sua credibilidade como parceiros. Mas os africanos não poderão fazêlo no quadro actual da governação mundial. A verdadeira ajuda será não dar mais mas lutarmos juntos, europeus e africanos, para mudar esta teia de relações. Precisamos de uma ajuda que nos torne menos dependentes da ajuda, temos que construir uma dependência progressivamente menos dependente.

Por enquanto, o que vamos fazendo nós, doadores e receptores, é tocar a duas mãos uma valsa que esconde uma irresolúvel agonia. No final, o continente africano poderá ter mais algumas escolas, mais alguns hospitais. Mas não terá gerado recursos próprios nem desenvolvido as forças produtivas.

Há 30 anos os moçambicanos venceram um poderoso exército desencadeando uma luta de pequenos grupos de guerrilha. Ainda hoje as vitórias que conseguirmos serão por via dessa persistência guerrilheira. Não há grandes soluções, grandes reviravoltas que façam endireitar o eixo da Terra. A nossa soberania (e também a vossa soberania) está nessa fresta, nesse intervalo. O que necessitamos é de um maior diálogo, maior comparticipação e reciprocidade dos mecanismos de controle dos dinheiros e dos compromissos assumidos. O que necessitamos é de nos tornarmos parceiros de verdade.

Termino confessando-vos um sonho, um desejo. Os trinta anos de Independência não são apenas um momento já vivido. São um tempo vivo cujas potencialidades ainda se irão revelar por inteiro. O nosso passado, desde 1975, é um futuro. Uma semente que está dando árvore. Queremos ter direito à sombra dessa grande árvore. E queremos partilhar essa promessa de felicidade com os nossos irmãos da Suíça. Porque também eles, os suíços,
nos ajudar a semear esse futuro.


FONTE:
Revista Via Atlântica nº 8 – dezembro/2005. pp. 191-204

ÁFRICA E AFRICANIDADES

http://africaeafricanidades.wordpress.com/

ÁFRICA E AFRICANIDADES. Espaço destinado a reflexão, discussão e divulgação de temáticas africanas e afro-brasileiras.

Este é o site da Nágila Oliveira Santos, colega de turma da pós-graduação África/Brasil: laços e diferenças - Universidade Castelo Branco.

domingo, 9 de setembro de 2007

O Homem Provisório: a travessia da literatura para o teatro

Sertão, palavra-chave do romance, é mais que um lugar geográfico. Espaço sem fronteiras que habita o homem, posto entre limites, nunca antes alcançados, do mar e da cidade, e por isso condenando em sua saga de percorrer o lugar que carece de fechos para alcançar a dimensão mais interior: longe e fundo. Nesse cenário em que o fantástico e o maravilhoso fazem parte do cotidiano, pessoas comuns carregam na alma e no destino os grandes valores da vida: o amor, a coragem, a culpa, as alegrias. O sertão é o mundo, exatamente pela capacidade de ir às questões fundamentais da existência.
João Paulo. O sertão é o mundo. In: 50 anos de Grande sertão: veredas. Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 04 de março de 2006.

Muito já se falou, muito já se escreveu sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, principalmente no ano passado quando a obra-prima roseana completou o seu primeiro cinqüentenário. O que foi muito bom por sinal e nada mais justo.

Desde a tenra idade desenvolvi enorme apreço pelo sertão. Fosse na televisão com Morte e Vida Severina, a mini-série Grande sertão: veredas, a música de Zé Ramalho, Alceu Valença, Elomar, Xangai e Chico Science & Nação Zumbi, filmes como Deus e o Diabo na terra do sol, Bye, Bye Brasil, e os livros Vidas Secas (filme também) de Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e os regionalistas da Geração de 30. Além da literatura de cordel, a arte da xilogravura de Samico e o repente na Feira de São Cristóvão, dentre outras referências que não as listarei para não cansar o leitor. Daí surgir imensa expectativa quando há oportunidade de ver alguma arte que tenha o sertão como tema.

Entretanto, não quero aqui tecer maiores considerações sobre mim e menos ainda a respeito do clássico roseano da nossa Literatura, mas, sim, comentar sobre a agradabilíssima surpresa que foi o espetáculo O homem provisório, da companhia paulista Casa Laboratório para as Artes do Teatro, dirigida por Cacá Carvalho.

Quando peguei o folder da peça, gostei do que li. Porém, gato escaldado, procurei não criar maiores expectativas a partir do texto, pois já assisti peças em que o folder era melhor que a atração principal. Atentei para o trabalho de pesquisa na região do Cariri durante quarenta dias, o contato com artistas locais como o xilogravurista Nilo, que participa com uma bela exposição de gravuras na entrada do teatro, o músico Di Freitas e o poeta de raríssima beleza sertaneja Geraldo Alencar, parceiro de Patativa do Assaré, e responsável pelo excelente texto da peça (120 sonetos). Como bem afirma Cacá Carvalho: “Guimarães virou Geraldo”.

Todavia, foi com inenarrável satisfação que percebi rapidamente que não havia necessidade para maiores apreensões. A peça remete-nos a um sertão de extrema aridez, jagunços broncos e duros como a terra rachada. Belas e criativas transposições para as cavalgadas e lutas. A música é de um lirismo impressionante, às vezes assustadora, às vezes encantadora, mas sempre marcante e muito bem encaixada no decorrer do espetáculo. O cenário é formado por panos com paisagens do sertão e a iluminação sobre eles é fantástica. Simplicidade e bom gosto casados com perfeição. O sertão está por toda parte.

Surpreendentes e chocantes são as cabeças inspiradas nos cangaceiros mortos do bando de Lampião e o seu uso constante no decorrer do espetáculo. O elenco está afinado. O diabo Hermógenes é apavorante. Comovente os flertes entre Riobaldo e Diadorim, sem exageros e com grande sutileza. A cena final da morte de Diadorim e o sofrimento de Riobaldo é de marejar os olhos. Mas o que me pareceu o ponto alto da peça, talvez tenha sido a feliz transposição do imaginário místico e da fé exacerbada do sertanejo que permeia todo o espetáculo. A relação com o real fantástico do homem do sertão, daquele que diz que Deus “fez o mundo / Urgente porém sem pressa / Ele fez em um segundo / Esta é a lei do milagre / Do soberano profundo” e do “diabo não existe / Por isso ele é tão forte / Na rua, no redemoinho / Tem nome de toda a sorte”.

Bom, a peça ficará em cartaz somente até o dia 30 de setembro no Espaço Sesc - Copacabana e prestigiarei novamente a linda encenação. E trata-se de uma forte concorrente a qualquer lista de melhores do ano.

Parabéns para a Casa Laboratório para as Artes do Teatro! Parabéns a Cacá Carvalho, a todos os que participaram da criação deste belo e comovente espetáculo, que conseguiu transpor a travessia da existência humana das letras para o palco.

Jung e Eu

Dedicando nossa vida ao estudo, empenhado-nos em trabalhar sem descanso, não sentimos a aproximação sub-reptícia da velhice. Envelhecemos insensivelmente, sem ter consciência disso, e, em vez de sermos brutalmente atacados pela idade, é aos poucos que nos extinguimos.
Cícero. Saber envelhecer.

Há uma peça encenada por Sergio Britto no circuito teatral carioca. Quando isto acontece, corro para assisti-la e celebrar o homem que é uma lenda vida do teatro brasileiro. Sei que posso dizer sem exagero diante da grandiosidade da vida de Sergio Britto, vida que se confunde com a construção de nosso teatro.

Admiro neste incansável ator, produtor e diretor a sua vontade, a vitalidade, a entrega e a satisfação pelo que faz, seja no seu programa semanal na TV Educativa, momento em que impressiona pelo senso crítico extremamente apurado e o olhar atento às produções contemporâneas, ou principalmente quando está nos palcos.

Sergio Britto é de uma época em que para ser ator era necessário estudar, aperfeiçoar-se, conhecer os grandes textos das tragédias gregas, Shakespeare, Beckett e Brecht e outros que moldam a carreira de um ator. De uma época onde a competência selecionava os que deviam atuar. Como podemos perceber, bem diferente dos dias atuais. Hoje, para ser ator ou atriz basta estar no Big Brother, ter um corpo remodelado em academias e cirurgias plásticas, e, principalmente, um rosto de traços finos e cabelos lisos como um alemão (o padrão nacional). Estudar os grandes clássicos, interpretação, impostação de voz... para quê?

Vamos à peça. Do alto dos seus oitenta e quatro anos, Sergio Britto resolveu reapresentar o monólogo Jung e Eu, baseado na obra do psicanalista C. G. Jung e no drama da vida do ator Leonardo Svoba, de 83 anos e um ano a menos que Britto. A beleza do espetáculo consiste na apresentação das idéias de Jung que surgem no decorrer da peça, a reflexão sobre a velhice do ator Svoba, “que não tem papéis para fazer, pior, não lhe oferecem nada e chegam a preteri-lo a um ator mais jovem, maquiado de velho”, e a vivência do próprio Sergio Britto, que afirma “Isso, não vivi ainda”.

Singelas são as situações abordadas em um cenário simples que fortalece a interpretação do grande ator que é Sergio Britto. Dramas inerentes à velhice são tratados de forma comovente sem ser piegas ou sentimentalismos novelísticos, que tratam da angústia pela ausência de papéis, a empolgação e a vitalidade trazida pelo convite em fazer um monólogo, o isolamento do filho, único familiar, as conversas com o retrato da esposa, a inquietação causada pela falta de patrocínio e o adiamento da estréia (“com a idade que estou não posso esperar muito tempo”), a descoberta e o prazer da obra junguiana no campo do onírico. O próprio ator afirma no catálogo da peça: “Jung depois da primeira temporada, não saiu mais da minha vida”, entre diversas passagens que formam um belo ensaio sobre a velhice, o ato de atuar, o amor pelo teatro – a sua vida.

Para encerrar, cito Cícero: “as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes. Cultivados em qualquer idade, eles dão frutos soberbos no término de uma existência bem vivida. Eles não somente jamais nos abandonam, mesmo no último momento da vida – o que já é muito importante –, como também a simples consciência de ter vivido sabiamente, associada à lembrança de seus próprios benefícios, é uma sensação das mais agradáveis.”

Parabéns à correta direção de Domingos Oliveira! Parabéns ao nosso incansável homem de teatro Sergio Britto, que nos graceja com mais uma impactante atuação! Muito obrigado!

Jung e Eu. Espaço Sesc até o dia 16/09.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Arlindo Barbeitos: a ciranda onírica da poesia

O poeta angolano Arlindo Barbeitos despertou nas letras de seu país após a independência em 1975, tendo seu primeiro livro publicado, Angola, angolê, angolema em 1976. É considerado pelos críticos das literaturas africanas de língua portuguesa, como um dos principais nomes da década de 1970 ao lado de David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho. Os três foram responsáveis pela transição estética e temática entre as gerações dos anos 1950 e 1960, e a produção literária a partir dos anos 1980. Ana Mafalda Leite comenta que o surgimento dos três poetas:

“assinala de forma inequívoca uma mudança formal na escrita e uma procura de novidade estético-temática. (...) uma vez que é a novidade imprimida por estes autores que será uma das fontes de inspiração para a geração seguinte.” (LEITE, 2006, p. 39)

A poesia do período procura novos caminhos, diferenciando-se da poesia feita nas duas décadas anteriores, preocupada em denunciar as mazelas do colonialismo que desencadearia na poesia engajada, de protesto, predominante no corpo literário angolano após o início da guerra colonial, ou seja,

“esses temas e as formas prevalecentes já não satisfazem os escritores. Entra-se num novo período de uma análise mais reflexiva e crítica, em que se faz a investigação da realidade cultural angolana, abordando-a de diversos meios e com técnicas variadas de escrita.” (LEITE, 2006, p. 39)

As novas propostas dos três poetas são apontadas por Carmen Lucia Tindó Secco:

“o aprofundamento da metapoesia, da reflexão sobre o processo estético e a criação de um projeto de resgate da língua literária, aproveitada em suas virtudes intrínsecas e universais, embora não estivesse totalmente ausente um comprometimento ético com as marcas lingüísticas locais, que caracterizaram a poesia dos anos 50 e 60.” (SECCO, 2003, p. 169)

Há também uma preocupação em teorizar o fazer poético, fruto de intensa reflexão e análise, Arlindo Barbeitos faz dos prefácios de seus livros espaço para pensamento crítico. A poesia não fica apenas na busca pelas raízes perdidas, encontrando-se além da influência cultural portuguesa nas letras universaliza-se:

“Um dos aspectos porventura mais frutuosos da escrita destes autores tem a ver concretamente com essa necessidade reflexiva que todos sentem em relação à sua arte poética, a reflexão sobre o rejustamento entre o ético e o estético. (...) E no interior dos poemas Barbeitos desenvolve poeticamente tal mediação, que dinamiza e estrutura o próprio processo de escrita. Por outro lado, são variados os textos da poesia universal reivindicados pelo poeta, pela sua ação formadora de ritmos e compatibilidades. A poesia japonesa, por exemplo, dada a sua brevidade e concisão e, ao mesmo tempo, a atenção à natureza, goza de especial estima do autor.” (LEITE, 2006, p. 41)

A consciente opção pela metalinguagem, a aproximação com a forma concisa do hai-kai japonês, as metáforas insólitas a lembrar o surrealismo e a contaminação do idioma português com o quimbundo fazem com que a poesia de Barbeitos se destaque nas letras angolanas.

Nzoji, o livro que teceremos considerações, foi publicado em 1979, durante a guerra civil travada entre o MPLA e a UNITA que mutilou Angola por décadas. Nzoji quer dizer sonho em quimbundo, e o “eu-lírico procura, pelo trabalho rememorativo, as raízes africanas, os esconderijos do passado que ainda persistem sob as ruínas da violência que dilacerou o corpo de Angola”. (SECCO, 2003, p. 170) O poeta no prefácio do livro, afirma que:

“A recolha aqui apresentada leva o nome de Nzoji (Sonho, em quimbundo) porque os poemas nela contidos reflectem, simultaneamente, a esperança de um passado ainda recente e a visão de um futuro que ora começa. (...)
O bom entendimento de muitas figuras pressupõe o conhecimento do seu significado nas culturas locais. Assim, por exemplo, o arco-íris, por vezes ligado à cobra, representa tal como esta um poder maléfico. Ambos se inserem nas cosmologias africanas que, decompondo-se pelo facto colonial, ressurgem, na cultura popular actual, exprimindo-se em português ou línguas nacionais e entremeadas de componentes europeus. O recurso às formas híbridas e ao português implicam adesão a uma Angola que é processo longo, conseqüente à presença de elementos vários, mesmo antagônicos, integrando-se, ou não, em sínteses que o tempo vai demarcando.”
(BARBEITOS, 1979, p. 1)

Um caminho difícil e dilacerado por séculos de ação colonizadora, da violenta guerra colonial e da absurda guerra civil patrocinada pelas potências imperialistas visando o rico subsolo angolano. Daí o caráter híbrido de seus poemas e o recurso em percorrer o universo onírico passa a ser a saída para se descobrir como indivíduo, suas tradições e História:

“Barbeitos passa a buscar a rota dos sonhos. Estes, entretanto, na poesia do autor, nada têm de fantasia; são a expressão das carências, das faltas, mas cumprem também a tarefa de preencher os vazios da História, apreendendo os fiapos esgarçados das tradições” (SECCO, 2003, p. 169)

Consciente das tradições esgarçadas e do papel que representa como poeta, “antes de tudo quero ser testemunho de uma fase da história angolana dolorosa e cruel” (ROZÁRIO, 1999, p. 241), Barbeitos aproveita-se da sua formação como etnólogo para criar a matéria poética e a urgência em preservá-las:

“A tomada de aspectos ditos tradicionais denota a intenção de preservar a continuidade e alude até a um regresso, selectivo, a formas africanas todavia pouco alteradas. É evidente que tal trâmite obriga a um estudo aprofundado de ideologias prestes a dissiparem-se.” (BARBEITOS, 1979, pp. 1-2)

Ao revisitar as tradições culturais da etnia quimbundo, consequentemente o eu-lírico busca as passagens de memória da infância, relembrando cantigas, adivinhas e provérbios como o próprio diz:

“as canções de roda da minha terra natal. Dançando e cantando, giravam, trocando de lugar, abriam e fechavam a roda. Por analogia, comparei a roda com o cão mordendo o rabo e o vento em redemoinho. Assim quero que seja o meu poema, uma roda de crianças indo pelos ares.” (ROZÁRIO, 1999, p. 241)

São as lembranças da tenra idade que procuram “reinventar imagens da unidade perdida, eis o modo que a poesia do mito e do sonho encontrou para resistir à dor das contradições que a consciência vigilante não pode deixar de ver” (BOSI, 1977, p. 155), e assim cantam os versos:

"vento
em turbilhão
cão
se mordendo
no rabo"
(BARBEITOS, 1979, p. 21)

Em uma linguagem espiralada, Barbeitos procura subverter a cultura imposta pelo colonizador durante séculos e, neobarrocamente, dá voz às antigas cantigas de seu povo. Canções que buscam na repetição dos refrões, no ritmo, na métrica o exercício da memória e a denúncia da ausência da tradição oral angolana massacrada pela opressão que tenta ser resgatada no poema, além da miséria causada pela guerra:

"vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém
cirandando
cirandando vem
uma menina
sem o seu bem
marchando
marchando vem
um soldado sem vintém
voando
voando vem
um pássaro que nem asas tem
vogando
vogando vem
um dongo
sem ninguém"
(BARBEITOS, 1979, p. 14)

Seus versos aliam tradição e modernidade, buscando na oralidade a voz dos excluídos e, por conseguinte, questiona o discurso da história do outro europeu. Cria um espelho retorcido, neobarroco, que é a “reapropriação do barroco pela modernidade gera uma arte descentrada que depõe a ordem estabelecida”. (SECCO, 2002, p. 49) Segundo Severo Sarduy:

"Barroco em sua ação de pesar, em sua queda, em sua linguagem afetada, às vezes estridente, multicor e caótica, que metaforiza a impregnação da entidade logocêntrica que até então nos estruturava em sua distância e autoridade; barroco que recusa toda instauração, que metaforiza a ordem discutida, o deus julgado, a lei transgredida. Barroco da Revolução." (Apud: SECCO, 2002, p.41. SARDUY, 1979, p.178)

A crueldade da guerra civil após a vitória do MPLA na libertação do país, é apresentada em imagens surreais que dilaceram não só a identidade angolana, como também o sonho do poeta, que tenta recompor os fragmentos das manifestações tradicionais:

“a borboleta desbotada
pousou em ramo da árvore morta
a lagartixa branca
atirou a língua mas só pegou folhas secas
e o camaleão vagaroso
subiu ao pau mas esqueceu de mudar a cor

será que a menina de pano azul
mirando-se no espelho opaco das águas pardas
sabe
que mais desastrado ainda
é o vento
e mais desastrado que o vento
é o sonhador adormecido”
(BARBEITOS, 1979, p. 46)

A busca pela memória oral e a origem primeva são usadas como resistência aos difíceis anos de dor, fome e morte. O pesadelo da guerra deixa até os antepassados confusos, que vagam desorientados em tempos de caos:

“por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro

nos charcos
de teus olhos
pairam moribundos
espíritos de antepassados (...)”
(BARBEITOS, 1979, p. 41)

“por noites de outubro
almas de antepassados
acordam
lagartos adormecidos (...)”
(BARBEITOS, 1979, p. 39)

As frágeis raízes angolanas são expostas no afastamento dos homens das tradições locais, seduzidos pelo poder do colonizador, desestruturam a sociedade dilacerada e perdida, e são metonimizados nos animais em movimentos espiralados a questionar os descaminhos do momento vivenciado:

“corvos de ronda
não sabem
quem matou o antílope
cor de vento listrado de chuva
e
pombos verdes
de vôo redondo
não sabem
por que o homem tatuado
caiu no feitiço das coisas de longe’’
(BARBEITOS, 1979, p. 40)

A poesia de Barbeitos dialoga com os contrastes e mostra o sofrimento dos homens, desamparados, perdidos no tempo e espaço, em curtos versos demonstrando as fraturas causadas pela opressão. Deslocando-se para fugir dos horrores da guerra, apresenta a desterritorialização e despersonalização de Angola:

“carreiros de quissonde
caminhos de gente

se perdendo e encontrando
na lonjura de um olhar (...)”
(BARBEITOS, 1979, p. 29)

“cambaleando
por entre
o ontem e o hoje
se estatelou
ao lusco-fusco
o viajeiro” (
BARBEITOS, 1979, p. 31)

A poesia de Barbeitos passeia entre o lírico e o anti-lírico, apresentando a dor e o horror em curtas e impactantes linhas:

“no céu amendoado de teus olhos
vejo estrelas
que são bombas”
(BARBEITOS, 1979, p. 4)

“uma florinha
uma pedra

debaixo da pedra um dedo
sobre a pedra uma boca que grita”
(BARBEITOS, 1979, p. 6)

A própria noção de tempo é perdida. É o tempo do horror da guerra que esfacela o presente, fratura o passado e faz do futuro um caminho incerto para o país:

“no céu azul distante
a grande roda vermelha
em tempo
que inda não é tempo
xxxxxxxxxxxxde dança (...)”
(BARBEITOS, 1979, p. 17)

“por
tardes de outubro
o tempo
é
rola estonteada
perdendo-se
em lavras de milho”
(BARBEITOS, 1979, p. 18)

“a menina
descuidada
ia
atirando pela janela
abaixo
um tempo
grande como o céu”
(BARBEITOS, 1979, p. 19)

Recorrer às metáforas inusitadas e espontâneas do surrealismo passa a ser o procedimento adotado para expressar a triste realidade angolana. Técnicas surrealistas como a escrita automática são usadas. Segundo Marilda de Vasconcellos Rebouças, “a escrita automática é uma postura extremamente fecunda; aumenta o campo de experiência humano, anexando o sonho e o discurso do desejo, que, embora presente em qualquer literatura, é pela primeira vez buscado” (REBOUÇAS, 1986, p. 42).

“umas quantas pacaças verdes
um lião quase careca
dois elefantes brancos
e
cinco estudantes canhotos
escondendo-se
por detrás de uma ideia de pau
(como se caçador em perigo
se abrigasse à sombra do imbondeiro)

fizeram-me adormecer”
(BARBEITOS, 1979, p. 28)

“... cobra verde de chapéu alto
e cão canhoto jogando cartas...

irmão essa história não é verdade
eu tenho fome”
(BARBEITOS, 1979, p. 13)

A desarmonia causada pelo terror da guerra desarranja a ordem natural da vida, torna-se o surreal da realidade angolana:

“quatro árvores paradas em fuga
e um sapo tentando em vão
acordar uma jibóia adormecida”
(BARBEITOS, 1979, p. 13)

A impossibilidade das realizações é transmitida em situações que beiram o quixotesco e o absurdo da realidade angolana:

“o mabeco raivoso abriu a boca e comeu o vento
o menino sujo atirou pedras ao céu
a pacaça ferida caiu na lama da lagoa sem água
a mulher grávida quebrou a sanga vazia
o bode velho tentou de novo cobrir a cabra sem leite”
(BARBEITOS, 1979, p. 8)

O uso constante de figuras paradoxais e o silêncio imposto pela ação colonizadora são refletidos no corpo do poema em metáforas dissonantes a denunciar a ausência, o vazio causado pela repressão:

ventos
xxxxxxparados que árvores impedem de cair
milhos
xxxxxxo estar de pé fatiga
gentes
xxxxxxque o esperar mata
sóis
xxxxxxindiferentes no firmamento vazio
(BARBEITOS, 1979, p. 7)

O silêncio e o vazio são trabalhados conscientemente pelo poeta na busca pela concisão de seus poemas, como o próprio revela:

“Procuro, primeiro, ver se o poema consegue exprimir o que pretendo, sem redundância e excesso. Fornecer ao mínimo de palavras o máximo de conteúdo, o silêncio, para o qual o discurso aponta, me parece de extrema importância. Depois, tento, formalmente, encontrar um equilíbrio entre texto e significado que atinja a maneira mais agradável, ou inesperada, de transmitir a mensagem almejada. O poema recordaria, então, um filigrana, de luz e sombra, som e silêncio.” (ROZÁRIO, 1999, p. 243)

O silêncio acompanhado da ausência mostram, metapoeticamente, a hesitação do eu-lírico e o país devastado pela miséria, conseqüência da guerra:

“uma palavra dita
uma palavra não dita
dois funambilistas
se equilibrando hesitantes
na linha quebrada dum murmúrio”
(BARBEITOS, 1979, p. 30)

“para além
dos portões da lonjura
quem monta sentinela
às caravanas de palavras de palavras
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxsem palavra

e
aos mercadores de cacos e cacos
xxxxxxxxxxxxxxxde coisa nenhuma”
(BARBEITOS, 1979, p. 33)

A memória oral surge em cantigas cujo o refrão, analogicamente, denunciam a ausência das origens, o afastamento dos valores culturais locais:

“no riso
das meninas em roda
falta um dente
no sonho
do pastor de pé
há um furo
igual à cova
do outro lado do vento

a estrela branca
na testa do boi pardo
não sobe ao céu
xxxxxxxe
a mulher púbere dançando
não casa com o espírito da floresta
no riso
das meninas em roda
falta um dente”
(BARBEITOS, 1979, p. 42)

Entretanto, o universo onírico traz em si a esperança, vagarosa e quase imperceptível. É na discrição do filigrana que aparece o direcionamento para novos caminhos e o fim que se aproxima de um país devastado pela crueldade da guerra:

“em folha murcha
que o chão não tragou
marcada
a geografia do acaso
impertubável
a lesma continua traçando
xxxxxxxxxxxxem filigrana
rotas brancas
que só sapos enrugados
e olhos em busca
seguirão

por dedos de canavial
se escoa como poeira de novembro
um pesadelo antigo”
(BARBEITOS, 1979, p. 45)

O poeta observa o que compõe os valores autóctones e eleva-os, procurando reconstruir as tradições e exalta os costumes, paisagem e fauna angolanos esmagados por séculos de feroz colonialismo:

“a nuvem produziu um elefante
o elefante pariu um coelho
das orelhas do coelho saíram montanhas
as montanhas tornaram-se tetas duma cadela prenha
das tetas da cadela prenha caiu a chuva”
(BARBEITOS, 1979, p. 23)

“quando o melaço
escorre pelas pontas sem forma
quando o aroma de mel quente
atrai as abelhas
quando as manchas pretas
no fundo amarelo
lembram o leopardo

então
come-se a banana devagarinho
lambendo-se os dedos depois.”
(BARBEITOS, 1979, p. 24)


O eu lírico fará dos sonhos o espaço para celebrar os dias de paz que chegarão. A resistência faz-se sentir, a poesia rebela-se. Segundo Alfredo Bosi,

"A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, (...) Resiste ao contínuo ‘harmonioso’ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia.
Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes. (...)
A luta é, às vezes, subterrânea, abafada, mas tende a subir à tona da consciência e a acirrar-se porque crescem a olhos vistos as garras do domínio. (...)"
(BOSI, 1977, p. 146)

O poema canta a esperança de um futuro melhor que chegará sem pressa, conclama os angolanos para que não adormeçam o sonho de um país em harmonia. Deve-se manter os olhos abertos para ver o amanhecer de paz em Angola:

“amada
minha amada

na madrugada
de teu olhar
desponta
devagar devagarinho
a aurora
de um dia
inda por chegar

amada
minha amada
não feche os olhos”
(BARBEITOS, 1979, p. 48)

Sendo assim, apreendendo as terríveis imagens de dor, angústia e morte, e contrapondo-as com a beleza de suas raízes quimbundo, Arlindo Barbeitos caminha inspirado pela oralidade das cantigas, e reconstrói, na ciranda dos sonhos, a memória esgarçada dos angolanos. Ao transformá-la em sua principal matéria poética, o poeta propõe a “reconquista do tempo roubado que a literatura deve, depurando-os, actualizar” (BARBEITOS, 1979, p. 2):

“(...) histórias das histórias da história
e indas outras
famílias das famílias da família
e inda outras
se emaranhando
em um novelo
que
cresce cresce cresce
em casinhas pequenas”
(BARBEITOS, 1979, p. 49)



FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
BARBEITOS, Arlindo. Nzoji. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora para União dos Escritores Angolanos, 1979.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Editora Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1977.

LEITE, Ana Mafalda. Poesia angolana: percursos (des) contínuos. In: Revista Poesia Sempre n° 23. Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 2006.

REBOUÇAS, Marilda de Vasconcellos. Surrealismo. Série Princípios. São Paulo: Editora Ática, 1986.

ROZÁRIO, Denira. Palavra de poeta - Cabo Verde e Angola. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: Fundação Biblioteca Nacional, 1999.

SECCO, Carmen L. T. R. Sonhos e clamores... In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.

SECCO, Carmen L. T. R. A apoteose da palavra e do canto: a dimensão “neobarroca” da poética de José Craveirinha. In: Revista Via Atlântica n. 5. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, 2002.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Ovídio Martins: poemas em cor de sangue desproblematizam a relação com o meio ambiente e aspiram um novo homem cabo-verdiano

O poeta cabo-verdiano Ovídio Martins (nascido em 17/08/1958, Mindelo, Ilha de São Vicente) é um fundamental representante das letras do arquipélago e na luta pela libertação de Cabo Verde do jugo colonial. Com uma poesia de incontestável apelo social, o poeta, em versos agressivos e diretos, auxiliou na busca identitária e na conscientização da população de sua terra contra o execrável sistema colonial português, apesar das peculiaridades que a colonização adquiriu nas ilhas. Segundo José Carlos Venâncio, "é a poesia de Ovídio Martins, dos poetas que iniciam em Cabo Verde uma literatura de empenho político, aquela que mais longe chegou, que mais informou esteticamente a cabo-verdianidade". (VENÂNCIO, 1992, p. 33)

O poeta Ovídio Martins compõe o grupo que criou o Suplemento Dominical (1958), poetas ligados à revista Certeza (1944), de tendência marxista, e "enceta a substituição do conceito regional pelo conceito nacional" (FERREIRA, 1987, p. 56). A poesia neste período é combativa em relação ao colonialismo, valoriza o sentimento nacional e o bem da coletividade, o arquipélago cabo-verdiano é cantando em uníssono.

Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
Por sobre o mar
(...)
Nosso amor de liberdade
e de justiça
será contemplado
e o nosso povo terá direito ao pão
Povo que trabalha
mas não come
Povo que sonha
o obterá
Temos a ternura das nossas ilhas
temos as certezas das nossas rochas
Estendemos as mãos
desesperadamente estendemos as mãos
caboverdianamente estendemos as mãos
por sobre o mar
(SECCO, 1999, p. 68)

Como podemos perceber, o eu lírico protesta, denuncia a abominável condição colonial e clama a união do país. É a poesia em prol da independência. Segundo Manuel Ferreira,

Nesta fase o escritor pensa a sua terra em termos de pátria, nação, rejeita o Outro – o colonizador –, e está determinado a uma prática literária integrada na nova situação, toda ela voltada, de vez, para a conquista da libertação nacional. Assume-se como homem inteiramente livre, repensa as suas raízes culturais, faz o reencontro consigo próprio e integra-se no destino colectivo de sua gente. (FERREIRA, 1989, p. 78)

E sintetiza:

Momento terceiro: o escritor, após ter adquirido a consciência de sua condição de colonizado, liberta-se completamente da alienação e a sua prática literária cria a sua razão de ser na expressão das raízes profundas da realidade social nacional entendida dialecticamente. (FERREIRA, 1989, p. 79)

Contudo, o lirismo não é abandonado, o amor não é negado. Apenas fica em suspenso diante da urgência da causa libertadora, amor maior de viver em um país livre:

Desculpa meu amor
não há tempo para o amor

Quando melhor arfar o mar
o céu for mais azul
a lua menos leviana

Desculpa meu amor
‘inda é cedo para o amor

Quando fenderem os ares
os pássaros da liberdade

Desculpa meu amor
temos em breve o nosso amor

Quando soluçarem os tambores
na Mãe-Terra distante
Quando endoidecerem tinindo
os sinos todos de Cabo Verde
(SECCO, 1999, pp. 67-68)

O momento histórico é sentido pelas colônias, os ecos da independência são escutados. Todavia, em Cabo Verde, a colonização portuguesa agiu de forma diferenciada em relação às outras colônias africanas, pois houve um processo de mestiçagem da população, tendo as manifestações culturais das classes menos favorecidas influenciado a classe dominante. Segundo Gabriel Mariano,

Em Cabo Verde... o mulato adquiriu desde cedo grande liberdade de movimentos... ter-se-ia transferido para o mulato a condição de mestre, de líder na estruturação da sociedade caboverdeana... Teria sido o funco, e não o sobrado, o laboratório exacto onde se processou a síntese de culturas e a apropriação pelo negro e pelo mulato de elementos e expressões civilizacionais portugueses. A cultura fez-se de baixo para cima. (MARIANO, 1991, p. 53)

O papel do mulato é determinante na formação do corpo identitário cabo-verdiano, que se utiliza da língua crioula e de outras manifestações dos funcos (musseques em Angola, favelas no Brasil) e da mestiçagem para se entranhar no poder do branco europeu. A Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), afirma que:

O mestiço cabo-verdiano revelou-se como elemento catalisador e estabilizador, mas também inovador e plástico, com o alastramento tanto horizontal quanto vertical, por todo o arquipélago, de expressões de cultura mestiça formada possivelmente no funco: a língua crioula, o folclore poético, musical e novelístico, a culinária, a doceria, o folclore das advinhas, dos provérbios, os festejos populares, as superstições, os hábitos e esquemas de comportamento. (GOMES, 2006, p. 162)

Apesar da língua crioula exercer papel preponderante nas ilhas, Ovídio Martins não a utiliza constantemente, apenas usa algumas expressões em seus versos, diferente de outros poetas que só escrevem na língua materna. Sobre o bilingüismo em Cabo Verde, Celso Cunha comenta que:

"o máximo a que pode aspirar a língua portuguesa em África, especialmente em Cabo Verde e Guiné Bissau: a de ser oficialmente o que ela sempre foi: não a língua transmitida, maternal, mas a língua adquirida, a segunda língua, veicular da administração, aprendida na escola e elo de ligação da elite cultural com um mundo maior." (CUNHA, 1977, p. 80)

Na literatura cabo-verdiana os escritores utilizam o português como língua para se manifestar, o crioulo surge como exceção no corpo literário do país. Manuel Ferreira esclarece a opção pelo idioma do colonizador:

Se o crioulo é, como se sabe, a língua-mãe do cabo-verdiano e a língua portuguesa, em muitos casos, a língua aprendida supletivamente, seria admitir que, ao nível de competência, o escritor cabo-verdiano se sentisse mais seguro na expressão literária em crioulo. Porém, isso só acontece, em termos gerais, e com algumas exceções (Eugênio Tavares e Sérgio Frusoni podem ser dois exemplos), no plano da poesia popular. Tal paradoxo (aparente ou provisório?) provém não só da carência de organização estrutural teórica da língua cabo-verdiana, como também de uma prolongada e fecunda tradição literária escrita sem a qual uma língua não alcança a maleabilidade e a ductilidade que a autêntica criação literária exige. (FERREIRA, 1987, p. 85)

Em Angola e Moçambique, a língua portuguesa auxiliou na união das diversas etnias desses países, pois unificou, ou pelo menos se propôs, a comunicação em um idioma. Problema que em Cabo Verde acontece de outra maneira, pois a influência do crioulo é marcante apesar do hibridismo com o português e o inglês. O poeta Ovídio Martins assume a postura de Amílcar Cabral em relação à língua portuguesa, que dizia:

"O português (língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua é senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros... A língua é um instrumento que o homem criou através do trabalho, da luta para comunicar com os outros (...) a nossa língua tem que ser o português. E isso é uma honra. É a única coisa que podemos agradecer ao tuga." (CUNHA, 1977, pp. 80-81)

Entretanto, essa aproximação com o poder colonizador, que tentava passar para o cabo-verdiano que ele não fazia parte do continente africano adicionado à condição insular das ilhas, fez com que gerasse desconfiança dos outros países africanos e, principalmente, com as colônias de língua portuguesa. Muitas vezes o cabo-verdiano era o capataz que subjugava os angolanos, moçambicanos e são-tomenses nas cadeias do Tarrafal ou contratava-os para o trabalho forçado em São Tomé. Em entrevista à Denira Rozário o escritor José Vicente Lopes expõe este problema:

"me sentia duplamente discriminado pelos negros e brancos; sendo cabo-verdiano era discriminado por uma camada da população angolana negra. O cabo-verdiano não era bem visto pela população negra, não só em Angola, mas em todos os países africanos. (...)
No espaço colonial português o cabo-verdiano foi utilizado como intermediário na dominação dos povos indígenas. No fundo os portugueses tentavam tirar do cabo-verdiano a idéia de que eles não eram africanos, e como tais indivíduos que deviam ser utilizados como ponta-de-lança na administração colonial. Isso aconteceu em determinados segmentos. Nem todos fizeram parte, alguns por causa da origem social."
(ROSÁRIO, 1999, p. 105)

Todavia, não queremos passar a impressão que a colonização apresentou um nível de crueldade inferior em Cabo Verde. Nenhuma colonização é agradável para os que a sofrem e desde os poetas claridosos, Jorge Barbosa, Baltazar Lopes e Manuel Lopes, principais nomes da revista Claridade (1936), que é "a primeira manifestação intelectual da elite crioula, traçando uma divisória entre a poética tributária do modelo português e o mergulho nas raízes locais, passando pela leitura do modernismo brasileiro" (GOMES, 2006, p. 165), que a denúncia à repressão colonial cria corpo nas letras do arquipélago.

Contudo, o recrudescimento da política salazarista nas colônias fez com que surgissem críticas à postura dos claridosos, considerada amena pelas gerações seguintes que negam as motivações poéticas do grupo pautadas na emigração, evasão e pasargadismo (1). Na década seguinte ao lançamento de Claridade, os ideais da negritude se espalham pelo mundo, assim como as idéias marxistas e o romance regionalista brasileiro da geração de 30. Surge a revista Certeza (1944) e, a partir daí, os poetas bradam "o ficar para resistir". A Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ) comenta esse momento:

"cuja a proposta literária era fazer a denúncia político-social da miséria reinante no Arquipélago, houve a dignificação do crioulo e da morabeza como traços caracterizadores da alma cabo-verdiana. (...) a literatura, (...) começou a criticar essa ideologia de que o cabo-verdiano era um ser destinado a emigrar e as gerações seguintes propuseram, então, ‘o ficar para resistir’. O mar, que era concebido como meio de evasão, encapelou-se e suas águas revoltas passaram a conotar a necessidade da ação política, do mergulho nas raízes cabo-verdianas." (SECCO, 1999, pp. 11-13)

Para combater a emigração e o evasionismo dos claridosos, no caso específico de Osvaldo Alcântara e seu "Itinerário de Pasárgada", metapoeticamente, "seja para parafraseá-lo seja para recusá-lo ideologicamente" (GOMES, 2006, p. 167), Ovídio Martins propõe, em furiosos versos, a "Anti-evasão":

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada
(ANDRADE, 1977, p. 48)

No final dos anos 1950 é lançado o Suplemento Cultural (1958, número único) que apresenta os poetas da Geração da Nova Largada: Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Aguinaldo Fonseca e outros "negam o mito e se propõem a resgata a história, incitando à ação" (GOMES, 2006, p. 167). A condição climática desfavorável, cara aos claridosos, agora é vista como aliada na resistência e afirmação do cabo-verdiano:

"e as vozes solidárias que temos sempre
escutado
são apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais

Nós somos os flagelados do vento leste!"
(ANDRADE, 1977, p. 46)

A mudança de mentalidade apresenta-se, a insularidade não assusta, a força contra as adversidades do presente projeta um novo futuro nos poemas do poeta. Segundo Alfredo Bosi,

"a evocação é um movimento da alma que vai do presente do ‘eu’ lírico para o pretérito, e daí retorna, presentificado, ao mesmo tempo de quem enuncia. (...) a recusa irada do presente, com vistas ao futuro, tem criado textos de inquietante força poética." (BOSI, 1977, p. 158)

Ovídio Martins recorre à metapoética para expor a mudança, a radicalização da nova proposta literária ao referir-se ao romance Flagelados do Vento Leste, do claridoso Manuel Lopes. Diferenciando-se deste, o eu-lírico não mais se conforma com as injustiças do colonizador, a seca, a fome, os ventos alíseos, o mar como segregador. A força contrária do ambiente em que vive é o alimento necessário para a nova postura. A paisagem hostil não mais o espanta, e como as cabras, os homens permanecem de pé ano após ano. O poema convoca à resistência:

"Somos os flagelados do vento leste!
O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras
Para não perecermos

Somos os flagelados do vento leste!

Morreremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens
E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do vento leste!
(ANDRADE, 1977, p. 46)

O homem alia-se à natureza em busca da libertação dos flagelos impostos por séculos de colonização. De acordo com Alfredo Bosi, "a poesia há muito que não consegue integrar-se, feliz, nos discursos da sociedade" (BOSI, 1977, p. 143), e passa a servir como instrumento de resistência e denúncia às agruras sofridas pelos cabo-verdianos em busca da libertação colonial.

A temática de protesto permanece e outras publicações são feitas como o Bolhetim dos Alunos do Liceu Gil Eanes (1959, único número), tendo como participantes Corsino Fortes, Onésimo da Silveira, e posteriormente o grupo Seló (1962, dois números) constando entre seus poetas, para citar alguns, Oswaldo Osório, Arménio Vieira e Mário Fonseca. Porém, as duas revistas têm curtíssima duração devido à censura imposta pelo salazarismo, contrário à agitação em prol da independência que já era uma realidade. Segundo Bosi:

"A poesia resiste à falsa ordem, que é, a rigor, barbárie e caos, (...) Resiste ao contínuo ‘harmonioso’ pelo descontínuo gritante; resiste ao descontínuo gritante pelo contínuo harmonioso. Resiste aferrando-se à memória viva do passado; e resiste imaginando uma nova ordem que se recorta no horizonte da utopia.
Quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana (o mito, o rito, o sonho, a infância, Eros); quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes. (...)
A luta é, às vezes, subterrânea, abafada, mas tende a subir à tona da consciência e a acirrar-se porque crescem a olhos vistos as garras do domínio. (...)" (BOSI, 1977, p. 146)

Atento ao sofrimento dos homens de suas ilhas, que, diante da miséria e da fome, do grave problema da insularidade, são obrigados a partir para a distante ilha de São Tomé como contratados. O eu-lírico manifesta a gravidade da situação, do terra-longismo, a emigração forçada, das falsas promessas dos contratantes, a dor, a ausência de fé em um país onde o sincretismo religioso é muito atuante.

Caminho longe...

Caminho obrigado
caminho trilhado
nos braços da fome

Caminho sem nome
caminho de mar
um violão a chorar

Caminho traidor
caminho da dor
ó lenta agonia

Caminho sem dia
caminho sem fé
Roças de São Tomé

Caminho longe...
(ANDRADE, 1977, pp. 233)

O tema do contratado e a violência que lhe é imposta também foi escancarado por outro importante poeta contemporâneo de Ovídio Martins, Gabriel Mariano:

Caminho
Caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé
Devia sorrir de outro modo
O Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.
(ANDRADE, 1977, pp. 240)

A condição desumana do contratado é um tema recorrente dos poetas africanos de língua portuguesa. Mário de Andrade expõe muito bem a abominável situação:

"Das periferias urbanas ou das sanzalas para as roças e para as minas, o caminho do contratado foi testemunho vivo e sangrento do quotidiano da colonização portuguesa. O trabalho forçado constitui, sem dúvida, o flagelo mais tangível que atingiu o corpo social das terras do continente e das ilhas. Por isso, os poetas conscientes desta vasta empresa de coisificação encontraram o estilo adequado para exprimir o horror dos factos e tirar o significado último das revoltas emergentes." (ANDRADE, 1977, p. 12)

Na incansável defesa de seus pares, Ovídio Martins expõe o drama dos que estão distantes nos trabalhos forçados e nas prisões em São Tomé, e convoca a todos para prestar solidariedade aos sofridos e distantes companheiros cabo-verdianos nos dois poemas que seguem:

"Silêncio Cabo-Verdianos!
choram irmãos nossos
nas roças de São Tomé

E há perigos e ameaças
na noite
grávida de punhais

Prepara o braço
serviçal!

Dos olhos do poeta
rolam lágrimas
cor de sangue."
(ANDRADE, 1977, pp. 234)

"Bendito sejas
serviçal cabo-verdiano
que teimas em ver
para além da prisão
Sabes bem
que para lá dos teus olhos
há a terra de Cabo Verde
que espera por ti
Se tu cansas
É que ainda te abraça
a esperança
e não morreu dentro de ti
o desejo de matar a morte

Bendito sejas
serviçal cabo-verdiano
Não deixes que tuas pálpebras
amorteçam na dor
É preciso enrijá-las
para o dia do regresso
Que voltarás
não numa manhã de nevoeiro
de morbidez alquebrada
mas num dia de sol quente
ébrio de saudade
da terra que ficou
sedento do perdão
da terra que entregaste
sozinha quase nas mãos dos Cains"
(ANDRADE, 1977, pp. 233)

No primeiro poema constam os versos "na noite / grávida de punhais", subtítulo da Antologia Temática de Poesia Africana, de Mário de Andrade, com ilustração de António Domingues e capa de Sebastião Rodrigues. Na ilustração, com viés surrealista, vemos uma negra, grávida, gestando uma criança armada com dois agressivos punhais. É a chegada de um novo ser que não aceita a submissão colonial e nascerá com a força da justiça e da liberdade.


No segundo poema, o eu lírico não deixa morrer a esperança, o sonho de liberdade que virá ‘num dia de sol quente’ como o grito de ‘seló!’(1) dado por aquele que está na beira do cais, avista a chegada de um novo barco e avisa aos que estão em terra. É o barco a trazer um novo ser para Cabo Verde independente. Alfredo Bosi afirma:

"o poeta-profeta vive uma dimensão temporal tensa que vai do presente recusado para o futuro aberto, feito de imagem e desejo. Sobretudo, desejo. (..) Nessa passagem do agora para o ainda não, move-se a palavra profética. Na hipótese do grande pensador hegeliano e marxista Ernst Bloch, é a antecipação que produz, em qualquer tempo, a estrutura simbólica da utopia." (BOSI, 1977, p. 160)

O poeta, baseado em sua utopia, prevê a vitória e não se abate com a violência ensandecida do colonizador
desesperado. As piores atrocidades cometidas contra o ser não desestabiliza a resistência:

"Não nos venham dizer depois
que não vos avisamos!

Podem brandir o chicote
E arreganhar os dentes
E espumar pela boca

(são serviçais...)

podem metê-los em prisões
cadeias nos pulsos
correntes nos pés

(são serviçais...)

podem humilhá-los
mil vezes massacrá-los
matá-los de mil mortes

(são serviçais...)

mas depois
não nos venham dizer
que não vos avisamos!...
(ANDRADE, 1977, p. 235)

Após a Revolução dos Cravos em Portugal em 1974, liderados pelo poeta Amílcar Cabral, o PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde) chega ao poder e as duas colônias conquistam a liberdade. No dia 05/07/1975, Cabo Verde está livre do domínio português, um momento de grande euforia e expectativa com a reconstrução do país toma conta da população. As combativas letras de Ovídio Martins finalmente celebram os novos tempos envoltos de esperança e convoca os cabo-verdianos, os ‘deuses’ e os ‘pioneiros’ para a participação, chamando atenção para que os ideais da revolução não se percam no caminho. Exalta os avanços tecnológicos como a energia eólica, os barcos a aproximarem as ilhas. O fim da agonia dos contratados, a luta constante contra a seca.

Cá vamos reconstruindo o país. Devagar, é certo, mas avançando ilha a ilha. Dor a dor.
(...)

O mar acabou o lamento de não ouvir falar da frota mercante. O vento é a possibilidade de dominarmos a energia eólica. As estradas a rasgar as montanhas puseram fim à música silenciosa destas.

A luta contra a seca é uma constante. Diques conservação do solo e da água. Aproveitamento de recursos hídricos. Ilha a ilha. Lágrima a lágrima.

Puros, de pureza do sal, deixam-nos indiferentes as madrugadas de sonhos. Sonhos, só de criar. Esquecemos os nomes de utopias e de pasárgadas. Avante.

Criadores, portadores de certezas, o bloqueio está longe, perdido o ultraje imenso. Não tentaremos comover os deuses, pela simples razão de sermos nós os deuses.

O povo, de pé, tem agora outro canto: estaleiros navais, centrais elétricas, estruturas metálicas. A solidão morreu.

Desespero, desesperança vão sendo palavras esquisitas. Como falar em desespero, depois de ver desfilar os nossos pioneiros? Como pensar desespero, depois de ouvir aquela garotinha de dois anos (nem isso teria), cantar, muito séria ‘nós somos os pioneiros’ ‘nós somos o futuro da revolução’? Ah, revolução, se não vingares, não será decerto por culpa desta pioneira de pioneiros!

Foi riscado, das nossas estradas a percorrer, o caminho da perdição do serviçal-escravo-contratado. Os capatazes de escravo perderam o emprego.
(...)

Nas ilhas ora calmas não acabarão jamais as metamorfoses. Já têm nome os meninos sem nome da pátria do meio do mar.

O nosso destino, estamos a cumpri-lo: dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro homem. Devagar, vamos conhecendo o sabor do sal da terra.

Estes mares nunca foram muros, muito menos agora. Ontem, uniram-nos. Hoje, as vedetas rápidas vão encurtar as distâncias.

Com que satisfação morreram as profecias sangrentas e os processos! A noite longa não se repetirá jamais!

Chamamos uma vez a Cabo Verde "estrela salgada de dez braços / e em cada braço mil esperanças". Se pusermos, hoje, em cada esperança mil certezas, ficaremos com uma idéia clara do espírito com que se enfrentam as dificuldades nesta pátria do meio do mar.

Devagar, a reconstrução nacional avança. Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a amor.
(SECCO, 1999, pp.70-72)

Sendo assim, com a certeza que sempre carregou nos poemas da utopia libertária à reconstrução nacional, sem abandonar a afirmação identitária, a poesia de Ovídio Martins é um sólido pilar no percurso do discurso da literatura cabo-verdiana na recente e sofrida história do país.


NOTAS:
(1) O referido período é melhor exposto neste blog em "Mito hesperitano, Pasargadismo, Insularidade..."
(2)
Sobre o significado de Seló, o poeta Oswaldo Osório comenta duas passagens sobre sua origem. Em entrevista a José Carlos Venâncio afirma que: "o termo é oriundo do inglês sailor. Tivemos durante cento e tantos anos influência inglesa em São Vicente através das companhias inglesas de carvão aí instaladas para fornecimento dos barcos que atracavam no Porto Grande. Mais tarde esta influência do inglês perdurou através da emigração cabo-verdiana para os Estados Unidos. É assim que o mesmo termo também aparece na Ilha Brava para dizer também que há barco à vista. Como era novidade na altura, resolvemos adoptar tal expressão para o suplemento." (VENÂNCIO, 1992, p. 83)
E para Denira Rozário diz que: "Seló é um brado utilizado na Ilha Brava. Quando se vê um navio na linha do horizonte que está a demandar porto, a gente grita seló, para avisar as pessoas da terra que está um barco a se aproximar". (ROZÁRIO, 1999, p. 70)


FONTES:
ANDRADE, Mário de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1977.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Editora Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1977.

CUNHA, Celso. Língua, nação, alienação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Editora Ática, 1987.

FERREIRA, Manuel. O discurso do percurso africano I. Lisboa: Plátano, 1989.

GOMES, Simone Caputo. Rostos, gestos, falas, olhares de mulher: o texto literário de autoria feminina em Cabo Verde. In: Chaves, Rita e Macedo, Tânia. (Orgs.) Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

ROZÁRIO, Denira. Palavra de poeta - Cabo Verde e Angola. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: Fundação Biblioteca Nacional, 1999.

SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Cabo Verde. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.2.

VENÂNCIO, José Carlos. Literatura e poder na África lusófona. Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Perder, ganhar, viver

Na semana passada o canal a cabo Sportv passou “De Letra – Carlos Drummond de Andrade”, tratando da relação do poeta com o futebol. E é exatamente sobre futebol a crônica abaixo, do dia da fatídica derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982, quando um italiano que me recuso a escrever o nome fez três gols no Brasil e eliminou-o da Copa.

Naquele dia, creio que pela primeira vez no alto dos meus oito anos de idade, percebi o quanto era difícil sonhar.


Perder, ganhar, viver
Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, 21/06/1982

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

domingo, 15 de julho de 2007

Luís Carlos Patraquim

O escrutínio deste sexo fundo com palavras: a poesia de Luís Carlos Patraquim

O pós-independência moçambicano (1975) apresentou uma euforia em relação às letras. Várias publicações inéditas até então foram lançadas, livros reeditados e foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) que lançou várias obras e novos nomes. Nesse contexto, surge um nome que se tornaria emblemático na literatura do país, Luís Carlos Patraquim, com o livro Monção (1980), apontaria para os novos paradigmas que a poesia moçambicana passaria a percorrer na nova década.

Com o país independente e a distopia causada pelas promessas não cumpridas com a revolução e a conseqüente guerra civil entre a FRELIMO e a RENAMO, os poetas começam a abandonar a temática de combate e exaltação dos tempos revolucionários e, segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

Reivindicam uma nova poética, não mais revolucionária apenas no sentido ideológico e social, mas também no plano individual, existencial e literário. Essa geração contemporânea propõe uma poesia capaz de cantar o amor, os sentimentos universais. (1)

Dentre os que acompanharam Patraquim naquele momento, podemos citar Mia Couto (Raiz do Orvalho, 1983), Eduardo White e Nelson Saúte, sendo que os dois últimos ligados à revista Charrua (1984), importante publicação que ajudou a consolidar os novos caminhos da poesia moçambicana.

Em Monção, vemos os poemas tratarem daquilo que é existencial, não apenas uma busca às emoções interiores, mas, também, recapturar as raízes perdidas por séculos de opressão e medo, daí a necessidade de cantar o amor, a imaginação e os sonhos em um constante exercício metapoético, com metáforas inusitadas e dissonantes, que buscam no universo onírico a multiplicidade cultural moçambicana esfacelada pela ação colonizadora. Há também a presença da intertextualidade. Carmen Lucia Tindó Secco comenta esta passagem:

No poema Metamorfose, notamos os versos de José Craveirinha, como já foi demonstrado por diversos estudiosos, e a Carlos Drummond de Andrade:

“quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento no mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade
(...)
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
(...)
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo”


Embora anuncie a “monção” e a “morte do Adamastor”, metáforas da independência e do fim dos tempos coloniais, o poema, convocando versos de Craveirinha e Drummond, procura exorcizar o medo, há séculos, instalado em Moçambique. Consciente das mutilações sofridas por grande parte do povo, o sujeito lírico adverte (...) para a preemência de se restaurarem as emoções individuais bloqueadas pelos anos de arbítrio exacerbado, exaltando, então, a importância de cantar o amor, o desejo, os sonhos, a imaginação. (2)

Uma poesia que recorrerá ao surreal, pela livre associação de imagens apresentará a violência da realidade vivida no país, reativando o onírico presente no imaginário coletivo como forma de resistência para exorcizar o medo e trazer os sonhos adormecidos do moçambicano. Assim, recorrerá às raízes primevas na reconstrução da sua História e perceberemos as referências ao Índico, aos árabes e indianos entrecruzando-se às raízes das etnias negras e à herança trazida do Atlântico pelos portugueses, o que nos demonstra a identidade mestiça do país.

Com isto, o discurso se erotiza em um escrutínio sexo fundo com palavras. O recurso ao mar erotizado é uma constante em sua poesia: o mar, espumas e ondas são associados ao orgasmo, ao corpo da mulher, ao corpo da poesia e à linguagem num constante exercício metapoético que nos fazem viajar nas heranças ocidental e oriental na multifacetada identidade cultural moçambicana.




POESIAS

olhar em dispersão quando havia noite
e a casa em teu corpo era rubra e pétala
não sabia fingidor o silêncio
as pastagens húmidas
desejo na cidade quando o olhar em dispersão
e andavas com girassóis
via em teus cabelos era o corpo brunido
no escrutínio enebriante sumo contra os lábios
então passávamos a casa uma árvore na partitura
solta das mãos
queríamos seiva e nós quando o olhar
na noite em dispersão

(Monção, p. 21)


AUSTRALÍRICA

como dizer revolução sem eroniciar
no tempo
este admirável corpo de dança
a morna geografia do ventre
o mênstruo que é de sangue
e um arco-íris o goma
e a espuma cristaliza sobre a pele

e agora na monção escultora litanistórica
quando a vertigem do vento
vem de vir em teu rosto a inteira
irisdição
canto porque o poema se come
desde o milho à palavra em combustão!

(Monção, p. 25)


VARIAÇÃO DE NYAU

e os faunos bateram o som a pele fremente das planícies
abertas o vento corria vermelho por dentro e as mulheres
acordaram batendo mordendo o sumo dos cajueiros com
largas mãos acesas na noite a monção agónica nos tandos
espermáticos do olhar seios espigas verdes escorrendo leite
então o grito a alegria batendo alguém trouxera máscaras e
as gazelas húmidas sob a lua e o nervo das planícies abertas
quando os faunos bateram o som

(Monção, p. 26)


METAMORFOSE
ao poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento no mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e a metáfora

mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não a sete de Março
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo

enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícinio e amendoim
percutem outros tendões de memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS

(Monção, p. 27-28)


“Efectivamente o poeta Maiakovski suicidou-se”
oiço ler aqui
nesta espiral de esquinas e flâmulas
a um Poeta brasileiro
sentado sobre a pedra

minhas frases razuradas nas veias
que amor lhes dá
mais que o silêncio
e a magreza impúbere destes charcos suburbanos
ronda em tropel de espuma

haverá sereias vogando ao lado das folhas
dos poetas gregos?

Essa língua de Itabira
E agora num plano de Changara
Invenlírica pousada no tando súbito
Vermelho

Que pincel ou cor e forma
De suicídio

Mas te digo aqui a palavra
Entanto a espera dança
E o ritmo está bêbado

Disfarce do homem sem epílogo
Nem o poeta mata a poesia

(Monção, p. 29-30)


PARTITURA ECOLÓGICA
para a Manuela

suelto para a gazela na mesa grácil planura
em crescendo a colheita dum reflexo terno
tenro desejo animal harpejando arqueios
de códupula rápida

suelto para a alquimia ao vento de suas patas
na dança correndo o instinto solto e verde
o caçador espreita como ruge o trovão e a água
beija desprendida a pele trémula e eléctrica

suelto para a vida que morre e principia
no pulsar da fome ao sol do meio-dia

(Monção, p. 32)


nosso é o tempo do canto
conquistado a sangue
e terra

sobre o vibrato dos dias
alguma voz
são todas as vozes

este rosto etéreo a meu lado
e musgo nas marés do corpo
o sorriso de ser mundo
a noite nua
fremente

nosso é o tempo do canto
sobre o lugar
na descoberta palmo a palmo
de mais sol

o tempo amante
a voz da amada
o escrutínio deste sexo fundo
com palavras

(Monção, p. 33-34)


era a casa bailoçando em teus cabelos
e brunida ao fogo
a lança inexorável

quilha de barco ou convés
era o plâncton e a espuma
na exuberância das marés

era, meu amor, o tacto
de nós tão assim completo
tão assim exacto
que flores nasciam e se davam
na água do momento

e na epiderme desse silêncio
era sem dizer
que falava o esquecimento

(Monção, p. 36)


afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema

e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de pinheiros
rumorejando perto

a fúria das ondas
caindo brandas
no meu gesto

(Monção, p. 38)



EFABULÍRICA TABAGISTA

dormes como se morta
incendiado corpo nos dedos

ah! se tabaco fosses e lençol
no mais fundo da noite prismática
gizar o cigarro
fumando no teu sonho

(Monção, p. 48)


MUSICATÓRIO
ao Álvaro Marques

ó purilana queimada bacante
à 9a a fúria púbere
dionisíaco odre
ode instante

assim Beethoven se em périplo
chegasse à orla íris deste Msaho
aqui de sem pauta
mas seiva e nervura desde o tronco

e neste Olímpo de palmares
compor o delta a 4 mãos
e o sonho azeviche Fur Elise

enquanto os deuses esculturados em sura
dançassem o espanto e a matriz
indiciado mundo no Índico
onde só a terra gesta a raiz!

(Monção, p. 49)


SAGA PARA ODE

é preciso a distância para chegar
onde o poema parte e se reparte no léxico verde do teu corpo
com cinzas nocturnas e a madrugada nas mãos

é preciso o lugar ainda que doa
a emoção azul de sangrar por dentro
com o pensamento na galáxia terna do olhar

é preciso tudo como haver morte e flores
na raiz ao vento dos braços inteiros que se deram
por um nome uma ideia rubra nos lábios da liberdade

é preciso ver musgo e alegria até as ilhargas
da tua imagem garça a deslizar
e sorver água na exuberância lustral dos teus seios

é preciso a insurrecta solidão dalguns dias
quando os arquipélagos de ser dizem barco
e os teus passos espreitam
e tímidos percorrem o horizonte coral do silêncio

é preciso inventar-te porque existes
enquanto os deuses adormecem nas páginas dos livros
e o real é a infinita medida do canto
como acender as luzes ao meio-dia
e no mais sol das pétalas abertas
verter a seiva a singrar na terra

é preciso, meu amor, percorrer o tempo que nos deram
suspensos onde estamos nas pálpebras do verão

(Monção, p. 55-56)



(1) SECCO, Carmen L. T. R. (Org.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: UFRJ, Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas e Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, 1999. v.3.

(2) SECCO, Carmen L. T. R. A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. ABE Graph Editora. Rio de Janeiro, 2003.

(3) PATRAQUIM, Luís Carlos. Monção. Edições 70. Lisboa, 1980.