sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O descontrolado Ian Curtis


Cantor-poeta é retratado com brilhantismo em filme
Texto publicado em http://www.cinemacafri.com/filme.jsp?id=1239

Para encerrar a maratona de filmes proporcionada pelo Festival do Rio, resolvi, como fã assumido do Joy Division e da poesia angustiante de Ian Curtis, rever Control (Controle – a história de Ian Curtis), primeiro filme de Anton Corbijn, famoso pelos clips de U2, Depeche Mode e outras bandas dos anos 1980. O longa-metragem é inspirado no livro Touching from a distance de sua esposa Deborah Curtis e procura retratar o ambiente inglês da década de 1970, daí a opção acertada do diretor pelo preto e branco.

O ator Sam Riley está impecável no papel de Ian Curtis, pois consegue captar o jeito arredio, isolado, triste e inquieto de um jovem em constante crise existencial. Reconhecemos os sons que faziam a cabeça do cantor-poeta como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed, ou seja, alguns dos principais nomes do que ficou conhecido como glam rock, Sex Pistols entre outras bandas. Vemos o início de seu relacionamento com Deborah Curtis, o precoce casamento, o bizarro emprego onde atende pessoas tão problemáticas quanto ele, o nascimento da filha, os momentos de inspiração para os poemas que seriam futuras músicas do Joy Division, o início da banda com o nome Warszawa, os shows, o contrato com a Factory, a amante linda e a crescente angústia com a aproximação do sucesso e a indecisão típica de uma mente conturbada.

Talvez os grandes momentos do filme estejam nas clássicas apresentações da banda e das performances de Ian Curtis sobre o palco, com sua dança única que inspirou vários vocalistas dos anos 1980, inclusive aqui no Brasil, basta lembrarmos de Renato Russo. Está lá o lendário ataque epilético de Curtis durante uma apresentação, problema que o deprimia, a conseqüente ovação da platéia e o estímulo do produtor Tony Wilson (personagem principal de 24 Hour Party People - A festa nunca termina, filme que também retrata Curtis e o Joy Division) que afirma sobre o caráter positivo que tal acontecimento terá para o grupo junto à mídia e público. Em contrapartida, um desesperado Ian declara o quanto é difícil para ele estar sobre o palco, o quanto se dá, o quanto se entrega. É a pressão da fama a encurralar o artista.

Ingenuidade e precipitação acompanharam a trajetória do sensível Ian em algumas passagens da sua conturbada e curta vida, que vão desde o pedido de casamento inesperado ao rompimento com a esposa, o posterior pedido para retomar a relação e a opção pelo suicídio após a frustrada tentativa de reconciliação às vésperas da primeira turnê pelos EUA, o que os levaria sem sombra de dúvidas ao estrelato.

Control vale como documento histórico de uma personalidade marcante e criativa, da banda que tinha tudo para dominar a década de 1980, fato que, de certa maneira, se concretizaria com o New Order, sendo este bem menos depressivo. Ian Curtis e Joy Division praticamente moldaram o espírito da época com uma sonoridade estridente e temas existenciais, como seriam comuns em The Cure, Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, The Mission e tantas outras bandas inglesas.

Control é uma bela homenagem ao descontrolado Ian Curtis.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Caio Fernando Abreu - um conto

Aproveitando o lançamento nos cinemas de Onde andará Dulce Veiga?, filme de Guilherme de Almeida Prado, resolvi colocar um conto do Caio Fernando Abreu, escritor que conseguiu encarnar toda uma época nebulosa da história do país. Caio viveu em um período de céu acinzentado, gritos silenciosos e mentes inertes. Anos de uma juventude acuada, perdida em busca das cores, da alegria, de ideal, de ar para respirar. Escrevia como poucos, lúcido, conciso, emotivo, atemporal.
O dia em que Urano entrou em Escorpião (Velha história colorida) *
Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Lucas ou César Esposito)
*do livro de contos Morangos Mofados.


Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso.

Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) – renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.

Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo – e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.
Ernest Becker, A negação da morte

Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.

O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse, a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.

Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:

Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.
André Barbault, Astrologie

Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:

L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sapersonalité.

Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.

O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.

Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.

Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Alberto Fuguet: Baixo Astral


Escrever sobre o universo adolescente deve ser um enorme desafio para qualquer escritor, pelo menos imagino. Trata-se de um mundo repetitivo, chato e indeciso na maioria das vezes. Contudo, não é o que acontece no romance chileno “Baixo Astral” (Mala Onda), de Alberto Fuguet.

Fuguet ficou conhecido mundialmente ao propor a ruptura de sua geração com o realismo fantástico predominante na literatura latino-americana, tendo como principal exemplo o livro Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques. McOndo (trocadilho com a Macondo de G. G. Marques) é a sua proposta literária para uma nova literatura, escrita por “uma geração que comia no McDonald’s e assistia MTV”, mais preocupada com valores existenciais e a metalinguagem.

Em Baixo Astral os dramas, anseios, crises de um adolescente são apresentados em uma narrativa clara e direta com incontáveis referências literárias (Salinger), musicais (Stones, Blondie, Diana Ross), cinematográficas (The Blues Brothers, O Gigolô americano) e de consumo durante todo o livro.

O romance se passa no Chile de 1980, obscurecido pela sanguinária ditadura de Pinochet. As diversas citações à cultura pop, mais precisamente a cultura de massa americana, denunciam uma juventude afastada dos valores culturais de seu país, o total descrédito com a política e o insistente desejo de ter que sair fora, sair de um Chile asfixiante, de uma vida que nada diz.

A situação caótica imposta pelo regime ditatorial talvez explique o desencanto e o constante mau humor do personagem principal Matías Vicuña. Afinal, uma política repressiva dilacera qualquer tentativa de sonho, de pensamento crítico e vontade de viver.

O romance percorre onze dias na vida do jovem Vicuña, período em que variadas situações acontecem, inclusive uma viagem ao Rio de Janeiro, metáfora do que seria um rito de passagem para uma vida adulta que se aproxima. Na cidade maravilhosa, no Posto 9 de Ipanema Vicuña aproveita todas as aventuras que um adolescente pode fazer sem ninguém para recriminá-lo. Do sexo à cocaína, o garoto cai dentro das experiências possíveis e impossíveis do desbunde carioca.

Quando retorna para sua Santiago, o mal-estar do ambiente chileno desestimula gradativamente o jovem, que se encontra entendiado com tudo ao seu redor: "Me sinto entediado. Sozinho. É que não acontece nada. Não me acontece nada. Apenas babaquices deprimentes. Ou sacais". (FUGUET, p 167. 2001).

Seu cotidiano no Chile passa pelas festinhas, baseados, transas, escola, saudade do amor que deixou na viagem ao Brasil, a indecisão com a menina que se amarra e um sentimento de inquietação incontrolável, faz com que se afaste cada vez mais de tudo e de todos e se concentre nas suas preferências culturais.

Aqui entra a sua admiração pelo barman Alejandro Paz, que sonha em morar nos Estados Unidos, e apresenta o livro O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. O personagem Holden Caulfield passa a ser idolatrado pelo garoto, que passa a viajar em diálogos imaginários com o personagem. A intertextualidade com o romance de Salinger torna-se intensa e explícita, e são muito bem apropriadas por Fuguet no decorrer do livro, assim como todas as citações de bandas e filmes. Tantas referências culturais talvez remetam ao passado de crítico de música e cinema do escritor no jornal Mercurio (Chile).

Baixo Astral é um ensaio à desilusão, à falta de perspectiva, aos conflitos de um adolescente inseguro com medo da aproximação da vida adulta. Entretanto, o romance de Fuguet consegue ir além ao retratar o medo, a insegurança e as irresponsabilidades que surgem no decorrer da vida de qualquer pessoa em qualquer fase. Talvez elas sejam mais intensas na adolescência. E é exatamente a incerteza que une pai (sedento por voltar à juventude) e filho no romance, e a fuga para o sexo e as drogas. É pela depressão de Matías Vicuña, a desilusão e a falta de sonhos de sua geração que vemos o mal que a repressão pode causar. Baixo Astral é um grande livro.



FUGUET, Alberto. Baixo astral. Editora Record. Rio de Janeiro, 2001.

Gogô, o anjo torto da Babilônia

Gogô
Gogô do fusca que invadia qualquer parada
Gogô aliás Gogô sim invade qualquer parada

Gogô
Gogô que perde a parada
Gogô pára o carro
Gogô procura levanta o banco e o tapete
Gogô parada sumiu caiu pelo buraco do chão do carro

Gogô
Gogô do rolé no carro
Gogô em movimento janela aberta
Gogô parado janela fechada

Gogô
Gogô do grau
Gogô da batida de mel
Gogô do uísque
Gogô da cachaça

Gogô
Gogô do Beton,
Gogô da praia
Gogô do vôlei

Gogô
Gogô do futebol
Gogô zagueiro atacante doidão
Gogô da pelada na Quinta

Gogô
Gogô tricolor de coração

Gogô
Gogô dos shows
Gogô circo voador
Gogô apoteose
Gogô maracanãzinho
Gogô fundição

Gogô
Gogô da mulherada
Gogô barra
Gogô centro
Gogô copacabana
Gogô lapa
Gogô mimosa

Gogô
Gogô parceiro de trampo
Gogô de paradas certas e erradas

Gogô
Gogô amigo
Gogô que sempre colocou a galera em primeiro plano

Gogô
Gogô brother
Gogô das tijucanas madrugadas
Gogô meia-porta
Gogô jaime
Gogô batista
Gogô varnhagem

Gogô
Gogô da Babilônia

Encontrou a noite que nunca tem fim...

Vá em paz, amigo!

(Riso, 20/09/2007 )

Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll

para o meu brother Fabio


Comprei esta semana o dvd Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll, inspirado nos personagens da extinta e saudosa revista Chiclete com Banana, de Angeli, publicada nos anos 1980 e em alguns dos principais jornais do país, como o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo.

Retomar o contato com a dupla de velhos hippies é, de certa maneira, recordar algumas passagens da minha adolescência e um pouco da minha formação cultural através das HQs. Foi mais ou menos assim: em meados dos anos 80, acho que em 86/87, comecei a ter contato com as revistas Circus, Chiclete com Banana e Animal, revistas alternativas de temática underground que em nada pareciam com as bobagens de super-heróis da DC e Marvel Comics. A Circus posteriormente desmembrou-se na já citada revista do Angeli, Piratas do Tietê (Laerte) e Geraldão (Glauco), e os três criaram a famosa tirinha Los 3 amigos, que também lançou algumas edições.

A Chiclete caracterizava-se pela crítica aos tipos sociais da capital paulistana, tais como o punk Bob Cuspe, o garanhão Bibelô, a junkie Rê Bordosa, Walter Ego, os Skrotinhos entre outros. Anos depois, Angeli aprimorou o estilo e criou as séries República dos Bananas e Tipinhos Inúteis, escancarando o ridículo de determinadas figuras urbanas. Mas foi com a dupla bicho-grilo Wood & Stock que mais me identificava e me divertia. Através das tirinhas dos dois personagens perdidos no tempo, que tive estímulo para conhecer diversas bandas de rock dos anos 60 e 70, como Grand Funk, Free, The Cream, e a procurar informações sobre acontecimentos e pessoas que envolviam o universo da contracultura, tais como Timothy Leary, Aldous Huxley, Jim Morrison, Arembepe, Mutantes etc. Assim como a inevitável experiência de fumar orégano. Uma grande merda.

O filme? Bom, a história trata da tentativa de retomada da banda que a dupla tinha nos loucos anos 70, o Chiqueiro Elétrico, para participação em um festival de música e, assim, pagar as dívidas do apartamento de Wood com o dinheiro da premiação. Este, passa por diversos problemas: abrigou o amigo Stock após ser despejado de casa, agüenta a barra da separação da esposa Lady Jane que resolveu dar um tempo no relacionamento, e a incompatibilidade de gênios com o filho careta Overall.

É engraçado, legal, as dublagens estão ótimas, Tom Zé como Raul Seixas, Rita Lee ataca de Rê Bordosa e tal... os movimentos engraçadíssimos... trilha sonora ótima e a banda Chiqueiro Elétrico é do caralho! Contudo, as passagens do filme são as mesmas das tirinhas, optaram por não criar uma história específica para o filme. Considero uma falha, pois para quem conhece as mesmas o filme não acrescenta muito, só a curiosidade da animação. Mesmo assim, valeu! Mas poderia ter sido mais ousado. Provavelmente seqüelas de quem fuma orégano.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Controle – a história de Ian Curtis

O Festival do Rio traz finalmente o novo filme sobre a vida do vocalista Ian Curtis, da lendária banda inglesa Joy Division, intitulado “Controle – a história de Ian Curtis” (Control), direção do estreante Anton Corbijn, e baseado no livro “Touching From A Distance” escrito pela viúva do músico Deborah Curtis.

O Joy Division foi um grupo fundamental para compreender a cena do rock no decorrer dos anos 1980, mais precisamente o cenário inglês da cidade de Manchester, e a fusão do rock com o eletrônico. De curtíssima duração, surgiu no meio da onda punk em 1979, e deixou lendárias apresentações com direito a ataques epiléticos de Ian Curtis. A banda formou uma legião de fãs enquanto durou até o suicídio de seu vocalista e principal compositor em 1980.

Arredio, solitário e um tanto estranho: Ian Curtis. Suas letras eram carregadas de um lirismo depressivo, angustiante, com temáticas obscuras fortalecidas por uma sonoridade incômoda que influenciou diversas bandas de Manchester. Happy Mondays, Stones Roses... e, claro, New Order. Este, aliás, se tornou um dos mais influentes grupos dos últimos anos e foi formado pelos outros quatro integrantes do Joy Division, que partiram para um som mais eletrônico, porém ainda guardando um certo ar sombrio nas composições, herança de Curtis.

Apesar de sua rápida passagem por este plano, a beleza das composições de Ian Curtis imortalizaram-no, como ficou comprovado com o excelente álbum, que acabou póstumo, “Closer”, lançado três meses após a sua morte aos 23 anos de idade.


Controle, a história de Ian Curtis
Titulo Original: Control
Direção: Anton Corbijn
País: Reino Unido
Ano: 2007
Duração: 119min

Sinopse: Os últimos anos da vida de Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa Joy Division. Curtis, que teve uma trajetória curta e intensa, ficou famoso por seu talento de letrista e por suas performances épicas à frente da banda. Sofrendo com os ataques de epilepsia, sem saber como lidar com o seu talento e dividido entre o amor por sua mulher e filha e um caso extraconjugal, ele se enforcou em 18 de maio de 1980, aos 23 anos. Baseado no livro de Deborah Curtis, viúva do cantor. Menção Especial na Camera de Ouro da Quinzena dos Realizadores em Cannes 2007.

Mostra: Midnight Movies
Domingo - 30/09/2007 Espaço de Cinema 1 23:30:00 hs EC164
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 16:30:00 hs PL242
Segunda - 01/10/2007 Palacio 2 21:30:00 hs PL244
Quinta - 04/10/2007 Est Barra Point 2 19:00:00 hs BP255


Composições

Love Will Tear Us Apart

When routine bites hard,
And ambitions are low,
And resentments ride high,
But emotions won't grow,
And we're changing our ways, taking different roads.

Then love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.

You cry out in your sleep,
All my failings exposed.
And there's a taste in my mouth,
As desperation takes hold.
Just that something so good just can't function no more.

But love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.
Love, love will tear us apart again.


Atmosphere

Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.

Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away


I Remember Nothing

We were strangers.
We were strangers, for way too long, for way too long,
We were strangers, for way too long.
Violent, violent,
Were strangers.

Get weak all the time, may just pass the time,
Me in my own world, yeah you there beside,
The gaps are enormous, we stare from each side,
We were strangers for way too long.

Violent, more violent, his hand cracks the chair,
Moves on reaction, then slumps in despair,
Trapped in a cage and surrendered too soon,
Me in my own world, the one that you knew,
For way too long.
We were strangers, for way too long.
We were strangers,
We were strangers, for way too long.
For way too long

Mia Couto e Ondjaki no Festival do Rio

Dia 21/09 iniciará uma nova maratona de cinema no Festival do Rio e espero conseguir ver algumas produções periféricas. Dentre várias opções, destaco os filmes Terra sonâmbula, baseado no livro homônimo de Mia Couto, e Oxalá crescam pitangas, de Ondjaki e Kiluanje Liberdade.



A seguir os dias das apresentações:


Terra Sonâmbula
Sleepwalking City

Sinopse: Moçambique, Guerra Civil. Muidinga, menino de olhos sonhadores, ouve constantemente o som do mar. Este som faz-lhe nascer no peito o sonho, de que se ele for até ao mar, vai encontrar de certeza a sua família.

Ele lê num diário, encontrado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que se encontra num navio e que procura o seu filho e convence-se de que o menino procurado é ele. Vai então à procura da mulher, com Tuahir, velho duro e cheio de histórias, que o quer como um filho, apesar de não o conseguir mostrar. Por isso, Tuahir não quer que Muidinga encontre a família.

A viagem é dura: eles movem-se entre refugiados em estado de delírio. Para não nlouquecerem, têm-se um ao outro. A estrada por onde eles andam, como sonâmbulos, é mágica: entende os seus desejos e move-os de um lugar a outro e não os deixa morrer enquanto eles não alcançarem o tão sonhado mar.



Mostra: Expectativa 2007
Em Exibição
Sábado - 22/09/2007 Est Barra Point 1 14:15:00 hs BP105
Sábado - 22/09/2007 Est Barra Point 1 18:45:00 hs BP107
Quinta - 27/09/2007 Espaço de Cinema 2 14:45:00 hs EC239
Quinta - 27/09/2007 Espaço de Cinema 2 21:30:00 hs EC242




OXALÁ CRESÇAM PITANGAS, de Kiluanje Liberdade e Ondjaki

ANGOLA: 30 anos de independência. 3 anos de paz. Capital: Luanda. Cidade construída para 600.000 habitantes. Actualmente com cerca de 4 milhões. Cruzamento de várias realidades e gente de todas as províncias. A vida desta cidade são as pessoas. Que pessoas? Através de 10 personagens, mostrar formas diferentes de viver e interpretar a cidade.

Oxalá Cresçam Pitangas revela a realidade por detrás da permanente fantasia luandense. 10 vozes vão expondo com ritmo, dignidade e coerência, um espaço ocupado por várias gerações e dinâmicas sociais complexas. Luanda ainda não havia sido filmada sob esta perspectiva realista e humana: conflitos entre a população e a esfera política, a proliferação do sector informal, as desilusões e as aspirações, o questionamento do espaço urbano e do futuro de uma Angola em acelerado crescimento.

10 personagens falam também das suas vidas, do seu modo de agir sobre a realidade, da música que não pode parar. Aparece uma Luanda onde a imaginação e a felicidade defrontam as manobras de sobrevivência. Onde a Língua é mexida para se adaptar às necessidades criativas de tantas pessoas e tantas linguagens.

Este é um filme sobre uma Luanda que recria constantemente a sua identidade: os dias, as noites e todos os ritmos da cidade que não sabe adormecer. Luanda mistura fenómenos urbanos e rurais. O sector informal, sendo a grande alternativa, agita o país e dinamiza as relações. Os jovens colocam diariamente a imaginação ao serviço da sobrevivência e da felicidade, inventando formas de viver e sobreviver – por necessidade e pelo gosto de se sentirem vivos.

Palco de arte, festa e alegria, em Luanda a tristeza e a felicidade convivem com a euforia. Os casamentos são sempre festivos; os funerais nem sempre são tristes. Há um substracto intencional de felicidade nas acções e intenções dos luandenses.

A linguagem falada traduz um modo de pensar mais local e típico. Num português carregado de calões e de adaptações, reflecte-se o modo interventivo de as pessoas agirem sobre a realidade. Nos gestos e nas falas, aparece, pois, a fantasia que acompanha os ritmos do quotidiano. Acidade vive, noite e dia, com música nos lares, nas viaturas, nas ruas. É possível ter uma vivência rítmica do quotidiano pela importância que se dá à música e ao convívio. Com uma visão que acentua a esperança no futuro, Oxalá Cresçam Pitangas é uma viagem pelas pessoas, pelas ruas e pelas histórias de Luanda.
http://www.kazukuta.com/pitangas/


Mostra: Expectativa 2007
Em Exibição
Sexta - 21/09/2007 Estação L. Alvim 1 16:00:00 hs LA002
Sábado - 22/09/2007 Cine Glória (Memorial GV) 16:00:00 hs
Sábado - 22/09/2007 Cine Glória (Memorial GV) 19:45:00 hs
Domingo - 23/09/2007 Espaço de Cinema 3 12:00:00 hs EC315
Domingo - 23/09/2007 Espaço de Cinema 3 20:00:00 hs EC319



Mais informações: http://www.festivaldorio.com.br/site/

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Pequenos Milagres - Grupo Galpão


O Grupo Galpão comemora 25 anos, e para festejar apresenta o espetáculo “Pequenos milagres” no Teatro Sesc-Ginástico até o dia 30/09.
São quatro estórias intercaladas sobre dramas do cotidiano de pessoas comuns. Está fantástico! Lindo, lírico e necessário em tempos de sonhos esgarçados.

O texto a seguir encontra-se em www.grupogalpao.com.br.

O espetáculo Pequenos Milagres, direção de Paulo de Moraes, é composto por quatro textos selecionados da campanha Conte sua História, que o Grupo Galpão realizou em 2006, especialmente para criar o novo espetáculo.

A campanha alcançou pleno êxito recolhendo cerca de 600 histórias (via cartas e e-mails) provenientes de várias partes do país. Desse total, foram pré-selecionadas, pelos atores, o diretor e o dramaturgo, Maurício Arruda Mendonça, as 50 que mais representavam o cotidiano das pessoas. Após vários workshops, chegou-se às quatro histórias que compõem o texto final da peça.

Segundo Paulo de Moraes, esse conjunto de histórias oferece um olhar teatral singular sobre a vida brasileira. "Um projeto dessa natureza permite discutir questões relevantes, com personagens muito próximos a nós, que revelam os sonhos das pessoas comuns", diz.

A estréia de Pequenos Milagres marcou o início das comemorações dos 25 anos do Grupo Galpão, em 2007. A estréia aconteceu em Belo Horizonte, no Centro Cultural Galpão Cine Horto e cumpriu turnê pelo Rio de Janeiro, São Paulo e principais Festivais do país.
Os quatro textos que compõem a peça são:

CABEÇA DE CACHORRO
Inspirado no texto homônimo de João Celso dos Santos, recebido durante a campanha Conte sua História.
Essa história representa um rito de passagem em que um menino do interior, de apenas onze anos, se vê obrigado a enfrentar os desafios da cidade grande para cumprir uma importante missão que lhe foi confiada por seu pai. Fragmentada em quatro partes, ela é contada como uma aventura ao longo da peça.

O PRACINHA DA FEB
Inspirado no texto (sem título) enviado por Thereza Alvarenga, recebido durante a campanhaConte sua História
Conta a história de um velho expedicionário que re-visita seu passado a partir do olhar de uma jovem enfermeira que trabalha com pessoas da terceira idade.

O VESTIDO
Inspirado no texto Vestido do Desejo, de Maristela de Fátima Carneiro, recebido durante a campanha Conte sua História
Retrata a história de uma mulher que realiza um antigo sonho da adolescência, apresentando a delicadeza do sonho de uma menina.

CASAL NÁUFRAGO
Inspirado em texto anônimo e sem título recebido durante a campanha Conte sua História
Abordagem sobre a vida de um casal cuja relação está há muito tempo desgastada e que, de repente, se vê na iminência de ter todos os seus problemas financeiros resolvidos através do concurso "Show do Milhão". O texto fala sobre a crueza de duas vidas em que existe pouco espaço para o sonho.

Uzodinma Iweala: Buraco Negro

No texto a seguir, temos a visão do jovem escritor nigeriano Uzodinma Iweala acerca dos problemas do continente africano. Iweala escreveu "Feras de nenhum lugar" (Nova Fronteira), seu primeiro romance, que trata da violência da guerra em seu país sob o olhar de uma criança obrigada a matar para não morrer.
BURACO NEGRO
Ocidente ignora esforços da África para superar a pobreza e usa ajuda humanitária para ratificar estereótipos
Folha de São Paulo. Caderno Mais!, 09 de setembro de 2007. A íntegra deste texto saiu no Le monde. Tradução de Clara Allain.

UZODINMA IWEALA

No outono de 2006, pouco após o meu retorno da Nigéria, fui interpelado por uma estudante loira e graciosa cujos olhos azuis pareciam combinar com as contas da pulseira “africana” que usava. “Salve Darfur!”, ela gritava atrás de uma mesa recoberta de folhetos exortando os estudantes a “agir já!”, a “acabar com o genocídio em Darfur!” (área do Sudão onde a guerra civil matou pelo menos 180 mil pessoas desde 2003.

Minha aversão a esses estudantes que se engajam incondicionalmente nas causas que estão na moda quase me levou a dar meia-volta, mas o grito que ela lançou em seguida me desestabilizou. “Quer dizer que o senhor não quer nos ajudar a salvar a África?”, vociferou a garota.

Parece que, de algum tempo para cá, oprimido pelo sentimento de culpa pela crise humanitária que provocou no Oriente Médio, o Ocidente vem se voltando para África para ali buscar sua redenção.

Estudantes idealistas, celebridades como Bob Geldof (músico e ativista) e políticos como Tony Blair (ex-primeiro-ministro britânico) se atribuíram como missão levar a luz ao continente negro.

Chegam de avião para passar um período na África ou participar de uma missão de investigação ou, ainda, para adotar uma criança – um pouco como meus amigos e eu, em Nova York, tomamos o metrô para ir adotar um cachorro abandonado no canil municipal.

Geração sexy
É a nova imagem que o Ocidente quer adotar: uma geração sexy e politicamente ativa cujo método preferido para divulgar sua mensagem é publicar anúncios de página inteira em jornais, com celebridades no primeiro plano e pobres deserdados de África ao fundo.

Mas o que talvez ainda seja mais interessante é a linguagem empregada para descrever a África que se pretende salvar.

Por exemplo, a campanha lançada pela organização Save the Children (Salve as Crianças), intitulada “I am African” (Sou Africano), apresenta retratos de celebridades ocidentais, em sua maioria brancas, com “marcas tribais” pintadas no rosto, sobre o slogan “sou africano” escrito em letras garrafais. Abaixo, em letras menores, vê-se a frase: “Ajude-nos a frear a hecatombe”.

Por mais que sejam bem-intencionadas, essas campanhas propagam o estereótipo de uma África que seria um buraco negro de doença e morte.

Artigos e reportagens não param de falar de dirigentes africanos corruptos, senhores de guerra, conflitos “tribais”, crianças exploradas, mulheres maltratadas e vítimas de mutilação genital.

Tempos coloniais
A relação entre a África e o Ocidente não é mais fundamentada em preconceitos abertamente racistas, mas esses artigos lembram os tempos do colonialismo europeu, quando se enviavam missionários à África para nos levar educação, Jesus e a “civilização”.

Todo africano, incluindo eu mesmo, não pode deixar de se alegrar com a ajuda que o mundo nos dá, mas isso não nos impede de perguntar a nós mesmos se essa ajuda é realmente sincera ou se ela é dada com a idéia de afirmar sua superioridade cultural.

Cada vez que uma estudante – embora sincera – fala dos moradores de aldeias que dançaram para ela para agradecer sua ajuda, faço uma careta.

Cada vez que um diretor de Hollywood produz um filme sobre a África cujo herói é ocidental, eu faço não com a cabeça – porque os africanos, apesar de sermos pessoas muito reais, não fazemos mais que servir de validação da imagem imaginária que o Ocidente tem de si próprio.

E não apenas essas descrições tendem a ignorar o papel às vezes essencial que o Ocidente desempenhou na gênese de muitas situações deploráveis que afligem o continente como elas também ignoram o trabalho incrível que os próprios africanos fizeram e continuam a fazer para resolver esses problemas.

Dois anos atrás eu trabalhei num campo de pessoas deslocadas na Nigéria, sobreviventes de um levante que provocou a morte de mil pessoas e o deslocamento de outras 200 mil.

Fiéis a seus hábitos, os órgãos de imprensa ocidentais falaram longamente das violências, mas não do trabalho humanitário realizado pelas autoridades locais e nacionais em favor dos sobreviventes – com muito pouca ajuda internacional.

Funcionários sociais dedicaram seu tempo e, em muitos casos, doaram seus próprios salários para socorrer seus compatriotas. São eles que salvam a África, e, como acontece com muitos outros em todo o continente, seu trabalho não encontra reconhecimento nenhum no exterior.

Em junho o grupo dos oito países mais industrializados reuniu-se na Alemanha com várias celebridades para discutir, entre outros temas, como salvar a África. Espero que antes da próxima cúpula do G8 o mundo tenha finalmente compreendido que a África não quer ser salva.

A África quer que o mundo reconheça que, por meio de parcerias eqüitativas com outros membros da comunidade internacional, ela será capaz de alcançar um reconhecimento inusitado, por conta própria.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sem título ou o fim das instituições democráticas e a vitória da ilusão

(após a absolvição de Renan Calheiros)

Sessão secreta, voto secreto. Homens públicos eleitos diretamente pela população não podem votar secretamente. Todos os seus passos, enquanto representantes do povo, devem ser claros e abertos a todos. Durante todo o mandato, qualquer parlamentar deve satisfações à sociedade, e esta deve cobrar, exigir, participar.

Entretanto, diante do que anda acontecendo pelo país nos últimos anos, ou o que sempre aconteceu desde que um certo Cabral apareceu por aqui, o meu descrédito hoje está próximo do total. Está cada vez mais difícil pensar, escrever, sonhar.

Mas tudo bem... afinal, já estão abertas as inscrições para o Big Brother Brasil 8. Nem tudo está perdido.