sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Manuel Rui: Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto

Manuel Rui é escritor angolano, da cidade de Huambo, nascido em 1941. Lançou, entre outros, Rioseco, Um anel na areia e Quem me dera ser onda, sendo esta a sua obra mais conhecida.
Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto
Manuel Rui
Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, Brasil, 23/05/1985.*


Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.

Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.

Mas para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me. Assim na minha oratura para além das estórias antigas na memória do tempo eu vou passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. Por exemplo o espantalho silencioso que coloco na lavra para os pássaros não me comerem a massambala passa a ser o outro que não fazia parte do texto. Também vou substituir a surucucu cobra maldita. Surucucu passa a ser o outro. E a cobra no meu texto inventado agora passa a ser bela e pacífica se morder o outro com o seu veneno mortal.

E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a luta. Ah! Não tinha reparado. Afinal isto é uma luta. E eu não posso retirar do meu texto a arma principal . A identidade. Se o fizer deixo de ser eu e fico outro, aliás como o outro quer. Então vou preservar o meu texto, engrossá-lo mais ainda de cantos guerreiros. Mas a escrita? A escrita. Finalmente apodero-me dela. E agora? Vou passar o meu texto oral para a escrita? Não. É que a partir do movimento em que eu o transferir para o espaço da folha branca, ele quase morre. Não tem árvores. Não tem ritual. Não tem as crianças sentadas segundo o quadro comunitário estabelecido. Não tem som. Não tem dança. Não tem braços. Não tem olhos. Não tem bocas. O texto são bocas negras na escrita quase redundam num mutismo sobre a folha branca. O texto oral tem vezes que só pode ser falado por alguns de nós. E há palavras que só alguns de nós podem ouvir. No texto escrito posso liquidar este código aglutinador. Outra arma secreta para combater o outro e impedir que ele me descodifique para depois me destruir.

Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código que a escrita já comporta? Isso não. No texto oral já disse: não toco e não o deixo minar pela escrita, arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto. Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma temos de ser nós. ‘Nós mesmos’. Assim reforço a identidade com a literatura.

Só que agora porque o meu espaço e tempo foi agredido, para defender por vezes dessituo do espaço e tempo o tempo mais total. O mundo não sou eu só. O mundo somos nós e os outros. E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste então o mundo universal.

Escrever então é viver.

Escrever assim é lutar.

Literatura e identidade. Princípio e fim. Transformador. Dinâmico. Nunca estático para que além da defesa de mim me reconheça sempre que sou eu a partir de nós também para a desalienação do outro até que um dia e virá “os portos do mundo sejam portos de todo o mundo”.

Até lá não se espantem. É quase natural que eu escreva também ódio por amor ao amor.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Quando acontece (extended version)

Noite quente de verão, enluarada. Assim que entrei no bar, olhei para o varandão e a vi, sozinha, com jeito pensativo e distante admirando a lua como se por lá estivesse. Ao redor, outros freqüentadores estavam empolgados com o dia lindo que havia se encerrado e a noite convidativa que rolava. De repente, nossos olhares se cruzaram. Tive a oportunidade de fitar um rosto delicado, brilhante em vida e sorrindo para mim, um sorriso discreto que pedia confirmação. Rapidamente reparei em seus olhos pretos, encaracolados cabelos, pele morena queimada pelo sol, o batom básico, brincos, cordão pulseirinhas, saia hippie, o anel de âum, fadinha tatuada sobre o cogumelo no tornozelo e sandália rasteira. Sorri. De imediato dirige-me a ela, pedi a mesma cerveja que estava bebendo. Percebi o cigarro sobre a mesa e a maneira convidativa com que me encarava. Posso, perguntei. Claro, foi a resposta dita pelos delicados seios estufados sob a fina blusinha com vários tons de rosa acompanhada por expressão radiante, mágica. O que diz a lua cheia, quis saber. Ela está próxima de Saturno, logo estarão na mesma casa com Marte, e quando isto acontecer será um momento que somente se repetirá daqui a quarenta anos. Sou Áries, ascendente em Virgem, planeta Marte. Jura, Capricórnio com ascendente em Aquário, planeta Saturno. Combinamos, questionei. Ela se empolga, ajeita os pequenos seios com ambas as mãos que descem suavemente pela barriga e estacionam entre as pernas. Há uma conjunção astral acontecendo, o momento é especial. Começo a sentir tesão ao vê-la arrumando os cabelos, coluna ereta, seios salientes apontados para mim e uma linda barriguinha aparece discretamente. Resolvo continuar no papo esotérico, apesar de todas as ressalvas que tenho atualmente com os astros. Contudo, diante daqueles peitinhos... tinha que ver onde chegaria. Talvez, porém de uns tempos para cá estou como uma antiga canção que fala sobre o desinteresse das teorias, “nem nessas coisas do oriente, romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e o meu delírio é a experiência com coisas reais”. Acho que perdi a última nave São Thomé das Letras – Ixtlán. Não tente fugir daquilo que você é, ela sorriu. Fale-me sobre você, quis saber. Alguém que ainda acredita nos sonhos, que o homem é bom, que procura viver em paz consigo e tenta manter acesa a chama da crença na justiça e bem-estar entre seus pares, respondi. O que é impossível, por isto inquieto e infeliz, completei. Sonhar é bom, é o que sustenta a nossa existência, o que nos conforta neste plano astral, como citou versos de uma canção, ou seja, os sonhos não envelhecem. Com eles, não deixamos morrer a tal da chama da indignação contra as perversidades cometidas pelos homens, ela respondeu empolgada e deu uma longa tragada, um sensual movimento de ombros e cruzar as pernas. Concentrei-me no som aveludado que aquela boca de lábios levemente carnudos emitia. O que somos, quixotescos, surreais, anacrônicos, questionei. Raros, ela disse e olhou novamente para a lua. Tais palavras vieram em minha como o efeito da ayahuasca, transmutando-se palavras, objetos e corpos em um só ser inominável e intangível. As cumplicidades começaram a surgir. Estudou letras. A literatura é séria demais e nem tudo pode ser explicado ou dito, disse. Largou, foi fazer teatro em Sampa nas companhias de zé celso e antunes filho. Enjoou, partiu para Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, e virou astróloga. Contou mais da estrada e dos seus sonhos. Fã do cinema surrealista de Buñuel e dos silêncios de Antonioni, reclamou da ausência do olhar distante de Matt Dillon nos filmes, empolgou-se com Gus van Sant e Ken Loach, das obras solitárias de Osvaldo Goeldi e Edward Hopper, do encantamento das telas de Cícero Dias e Marc Chagall, das canções de amor e amizade do Clube da Esquina, da poesia de Manoel de Barros e Manuel Bandeira, e acha que o fatalismo das letras Ian Curtis é o que melhor retrata o mundo que vivemos, infelizmente, completou. Fascinado com a maneira que falava e seus movimentos hipnotizantes, não escutava nada ao nosso redor, a não ser a voz e o olhar impactante sedento de desejo. Enquanto me encarava, só me imaginava abocanhando aqueles seios. Nossas mãos acariciavam-se, os pêlos arrepiavam-se, já estava duro. Ela pegou seu copo, levou-o à boca, com suavidade baixou a cabeça e me encarou. Não resisti. Beijei-a. A língua sagrada e universal do amor. A primeira penetração, intensa, forte, asfixiante. Nossos corpos espremiam-se, as mãos eufóricas, ágeis e certeiras desvendavam os corpos excitados. O tempo daquele beijo não sei quanto durou. Encerramos a conta, partimos para minha casa. Ela encanta-se com o ambiente ainda um tanto esotérico com incenso de massala, tapete, puff, artesanatos, pinturas, Jim Morrison e Bob Marley nas paredes. Continuamos nos beijando intensamente sobre o sofá. Com a mão entre suas pernas, acaricio seu grelo e meu dedo penetra sua xota encharcada. Ela se contorce, geme, me arranha e morde minha orelha com força, contraio-me. Arranco sua blusa e minha língua passeia pelos seus peitos enquanto ela abre minha calça, segura com firmeza o meu pau e me toca com rapidez. Deito-me, sou aquecido pela sua boca, e começo a preparar um baseado. Enevoadas chupadas elevam-me a Jah. Decido retribuir, ela se ajeita suavemente, beijo a barriguinha, desço, tiro sem pressa a calcinha, viajo no cheiro dos pêlos tratados com esmero, no sabor de sua xota e em mordidas no grelo duro em minha cara. Ela se contorce, aperta minha cabeça, rosna, grita, bate na minha cabeça, me sufoca. Penetro-a com voracidade, corpos molhados, epileticamente mexemo-nos. Suas pernas travam a minha cintura, aperta minha bunda, bate nela, me arranha, desfere um forte tapa em meu rosto, cuspo na sua boca. Ela está ensopada, aproveito o líquido que escorre e enfio o dedo no seu cu, delira. Jogo-a sobre mim, ela cavalga com frenesi, sua bunda está ardendo com a força dos meus tapas, pula ainda mais e pede para que a pegue como uma cachorra. Duplo penetro-a. Visceral. Puxo seus cabelos com força. Noto que domina o pompoarismo, fico louco. Ela grita por mais e mais e mais. De repente amoleço, busco forças, concentro-me, mas não consigo continuar. Despedaço-me ao seu lado, me encolho e começo a chorar, desesperado. Deixa, não fica assim. Ignoro seus comentários e desfaço-me em uma torrente de lágrimas. Ela insiste em falar, apenas choro, e muito. Ela se aflige, quer me abraçar, afasto com violência seu braço. Grito para que vá embora. Por quê? Não respondo, continuo a me contorcer e me enrosco nos lençóis. Fetal, aperto-me. Um tempo interminável se passa, eu permaneço na mesma. Ela fica falando e tentando me tocar, no que é prontamente repelida. Não me viro para ela. Não escuto mais sua voz. Apenas meus grunhidos quebram o silêncio e a frieza tangíveis do quarto. Até que a porta da sala bate. Permaneço chorando. Durmo.

nada a dizer

noite fria, chuvosa. decido não sair, fico em casa. olho para a tela incompleta pendurada na parede, toda preta, tudo preto. no som, perfect day do álbum transformer, lou reed na fase glam rock. um tanto lisérgico, um tanto depressivo como os anos 70 ou como sempre foi.
uísque no gargalo, resolvo preparar um baseado. toca o telefone, atendo. é ann do outro lado.
- oi, tudo bem?
sua voz está empolgada, apesar de certa indecisão.
- tudo, e você?
- estou com saudade, precisava falar contigo...
- tô escutando...
- o que cê tá fazendo?
- nada de novo. preparando um cigarro.
- então! não fume do teu. venha para cá! consegui um boldinho com a paty.
imagino-a sentada na ponta da poltrona, coluna ereta, a mão direita enrolando os cabelos, os olhos elétricos aguardando resposta.
- tá chovendo. é domingo. vou levar um tempão para chegar até aí.
- ah, vem! tem um vinho na geladeira...
- vinho é uma. espera um pouco.

(silêncio)

- oi! fui pegar um colomy.
- amor, venha para cá! preciso de você, tô tão sozinha... olha! peguei um filme: “medos privados em lugares públicos”!
- filme para pensar, bom título, é o que rola. mas prefiro um que me leve a sonhar...
já sinto sua aflição do outro lado da linha. não pretendo sair, muito menos vê-la.
- o que houve? você está bem?

(silêncio)

ela sabe respeitar meus silêncios, por isto admiro-a. todavia, não dura muito tempo, por isto odeio-a.
- amor, estou falando com você...
- ah, oi, estava procurando o isqueiro – acendo o cigarro e trago longamente.
- olha, tem um rango especial que você adora: lula com arroz e brócolis.
- show... mas o que fez hoje?
- ah! encontrei aquele disco do beto guedes que você tanto fala, contos da lua vaga. é lindo demais, pensei em você direto! já escutei várias vezes: “o tema da canção / meu coração guardou / para dar a quem trouxer / a mensagem dos caminhos / livres...”
- mandou bem, grande disco. contudo, não consigo mais viajar em beto guedes... tô em outra. não creio mais, sei lá...
- pára de reclamar! sei que você adora-o e conheci contigo.
o assunto começa a me cansar. não digo a ela, mas deveria falar que não agüento mais as canções de beto guedes.
- amor, andei lendo o jornal hoje e tinha uma notícia aterrorizante.
- é?! acho que sempre há...
- deixa eu falar! robôs preparados para atuar na guerra, acredita? são robôs que serão utilizados em um futuro próximo nas linhas de frente dos combates. os eua pretendem ter 1/3 das suas forças assim. e o pior! estudam para que eles sejam inteligentes e tomem decisões acerca da vida de uma pessoa! é um absurdo!!!
- como em robocop, o filme, respondo com desinteresse.
- exato, amor. a matéria fala que esses robôs já são usados na coréia do sul e alguns outros países. diz também que os eua já usam aviões automáticos para atacar seus alvos. terrível!
- assim os soldados não se abalam com as mortes causadas e provavelmente, com tal atitude, impedirá qualquer pedido de indenização por trauma, depressão ou qualquer coisa desse tipo. a guerra finalmente vira um jogo de playstation. jean baudrillard já havia dito isto sobre a guerra da bósnia ou do iraque feita pelo bush pai.
- como podem lidar assim com o destino de milhares de vidas?
- o homem é isto que está aí, não há respeito à vida, às pessoas insignificantes que estão nessas áreas de conflito – respondo com voz arrastada querendo encerrar a conversa enquanto acerto o nó.
- outra notícia: o governo aumentará a verba e o contingente para a força nacional. depois de passar pelo espírito santo, rio, mato grosso e maranhão, ela irá para pernambuco, bahia e são paulo, e até dezembro voltará para cá.
- resolveram assumir a exclusão dos miseráveis, o refugo humano. cada vez se concentrarão mais nos serviços de segurança privada. não se preocuparão mais na solução de problemas sociais como moradia, educação, saneamento, saúde. deixarão entregues à própria sorte os excluídos, os conflitos urbanos serão constantes: os miseráveis bárbaros com paus e pedras enfrentarão as milícias particulares, ou os uniformes assassinos, equipados com alta tecnologia a proteger as cidades de muros encurraladas pelas favelas. não quero viver para ver isto. é o fim!
- também li que aproveitarão o derretimento do ártico para rotas comerciais de navios. não estão nem aí para o aquecimento global. são uns filhos-da-puta!
resolvo trocar o disco, o fone está torto em meu ombro e faço malabarismo para que não caia, apesar que se cair não fará diferença. coloco wish you were here, do pink floyd, procuro o incenso e mais uma vez o isqueiro.
- amor!

(silêncio)

- oi!
- o que você acha do derretimento global?
- eu? não acho mais nada. no teu disco, beto canta: “terra és o mais bonito dos planetas / tão te maltratando por dinheiro / tu que és a nave nossa irmã / canta / leva tua vida em harmonia...” acho que não há mais sentido para este tipo de idéia. nascemos durante as trevas da ditadura do médici, nossa geração está marcada pela escuridão. vimos quando crianças os comícios das diretas já!, talvez o único momento de luz. dezoito anos depois a farsa da vitória do lula e do pt. lennon vaticinou: the dream is over! é isto, não há mais nada a dizer, fazer, pensar, lutar, sonhar. nem amor. eles venceram...
- não fala assim, amor, ela chora do outro lado da linha, com os ombros escondendo o pescoço. já conheço a cena.

(silêncio meu, choro dela)

- consultei seu mapa hoje. é netuno regendo o período do mês e nos deixa confusos, sombrios. turva as soluções, fortalece a sensação de distopia, a crença no caos. não é ruim, ainda temos um ao outro.
o papo esotérico deprime-me. detono a garrafa de uísque. coloco o álbum closer, do joy division, a música só poderia ser love will tear us apart.

(silêncio)

- amor, você tá aí? (choro) amor... (choro)
pego o fone do chão, escuto sua voz, ela permanece chorando... ouço a música do outro lado: “são vidas dos belos horizontes / gente das mais preciosas fontes / onde ser é ternamente brotar...” não respondo... o celular toca, não atendo...


rapaz é encontrado morto em apartamento. o elemento foi achado pela namorada e estava preso por uma corda no ventilador de teto. vizinhos afirmam que o suicida era anti-social, usava drogas e promovia orgias constantes. segundo moradores que não quiseram se identificar, o rapaz teria dívida com traficantes. a polícia investiga o seu suposto envolvimento com o tráfico de drogas da região.


riso,
14/10/2007

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Roberto Bolaño: Noturno no Chile

Em 2005, conversando sobre escritores latino-americanos contemporâneos, o saudoso colega do curso de Letras, Luis Menezes, mencionou o nome de Roberto Bolaño. Chileno, nascido em 1953, foi preso pelo governo ditatorial de Pinochet em 1973, sendo solto em seguida. Instalou-se no México, fundou o movimento de vanguarda literária Infra-Realismo, depois estabilizou-se em Barcelona, Espanha, onde morreu aos 50 anos no ano de 2003. Bolaño foi dono de uma escrita densa e visceral, ou literatura visceral-realista como é conhecido o estilo de escritores latinos pós-anos 70, que possui uma linha tênue entre ficção e realidade.

Confesso que guardei o nome mais pelo inusitado da forma do romance comentado à época, que tinha sido escrito em dois parágrafos, sendo que o segundo tinha apenas uma linha. Passado o tempo, decidi comprar neste mês o referido livro, Noturno no Chile. O romance é de tirar o fôlego. É um monólogo em que o narrador, Sebastián Urrutia Lacroix, padre e crítico literário, rememora de forma incessante etapas da sua vida à beira da morte. Amante da literatura, o padre Sebastián refaz sua trajetória inserindo algumas figuras marcantes da história recente do Chile, como o escritor Pablo Neruda e o ditador Augusto Pinochet.

Padre Sebastián conta o seu envolvimento com o meio literário chileno através da amizade com o imaginário crítico literário Farewell, posto como o maior crítico do Chile. A partir daí, passa a conviver com os grandes nomes da literatura do país como o supracitado Neruda e outros tantos nomes em acalorados debates na fazenda de Farewell. Cresce como crítico, escreve para jornais, faz seus poemas etc.

Um dia, recebe uma inesperada missão de duas misteriosas personagens, os senhores Odem e Oidó (medo e ódio, respectivamente). Ele fora convocado para visitar igrejas na Europa e estudar a maneira como são conservadas, pois havia necessidade de preservar as igrejas chilenas, algo que não era feito e não se encontrava pessoas especializadas para tal empreitada. O padre parte para a Europa, visita diversas igrejas em diferentes países e percebe que a principal forma de conservação dessas é feita com o uso de falcões para exterminar os pombos, pois “não era a poluição ambiental o maior agente destruidor dos grandes monumentos românicos e góticos, mas a poluição animal, mais concretamente a cagada das pombas”. Uma metáfora da situação política chilena sob a sanguinária ditadura de Pinochet, que massacrava seus opositores.

Missão dada, missão cumprida. Padre Sebastián retorna ao seu país. Allende ganha a eleição. O Chile ferve com as mudanças políticas, o prenúncio do golpe militar e Padre Sebastián tranca-se em sua casa para reler os escritores gregos. A corja de Pinochet bombardeia La Moneda e assume o poder. O narrador silencia-se diante do acontecido e pede apenas paz.

Logo em seguida, ele é novamente procurado pelos srs. Odem e Oidó. Agora para uma missão que necessitaria sigilo absoluto e somente ele seria capaz de cumpri-la. O padre havia sido selecionado para dar aulas sobre marxismo para Pinochet e o alto escalão da ditadura chilena, que desejavam compreender como pensavam os inimigos do regime. Indeciso e temeroso, porém obrigado a aceitar, Padre Sebastián ministra as aulas com frieza, distante de opiniões críticas a favor ou contrárias à ideologia marxista sob o olhar inquisidor dos militares.

Durante o sombrio período do regime ditatorial, o toque de recolher é imposto e os escritores promovem tertúlias literárias que adentram a noite na mansão de María Canalles, escritora medíocre que tenta participar da intelectualidade chilena. Entretanto, posteriormente descobre-se que esta mansão era também usada como local de interrogatório e tortura contra os comunistas. Fato descoberto à época, mas silenciado pelos próprios intelectuais, freqüentadores das reuniões.

É em torno dessa evasão que perpassa todo o romance, de um narrador que está sempre alheio aos acontecimentos políticos e pensa apenas na glória da literatura. É a contradição humana apresentada diante de um regime repugnante que emperrou o país. Algo que gera revolta em mim, porém fica difícil julgar o porquê da omissão de quem vivenciou momentos sinistros e infelizmente tão comuns na história dos países latino-americanos. O que não impede, mas, sim, obriga a leitura de Noturno do Chile, de Roberto Bolaño. Trata-se de ótima literatura.


BOLAÑO, Roberto. Noturno no Chile. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

TRECHO:
“Inclinei a cabeça e fui embora. Enquanto dirigia, de volta para Santiago, pensei nas palavras dela. É assim que se faz literatura no Chile, mas não só no Chile, também na Argentina e no México, na Guatemala e no Uruguai, e na Espanha, na França e na Alemanha, e na verde Inglaterra, e na alegre Itália. Assim se faz literatura. Ou o que nós, para não cair na sarjeta, chamamos literatura.”

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quando acontece

De repente nossos olhares se cruzam. Noto que seu sorriso um tanto discreto pede confirmação. Reparei rapidamente em seus olhos, encaracolados cabelos, pele queimada, pouca maquiagem, brincos e cordão daqueles feitos por hippies, blusinha leve e estampada moldando os pequenos seios, saia, tattoo no tornozelo, sandália rasteira. Sorri. Pego minha bebida e vou em sua direção. Bebemos a mesma cerveja, percebo seu cigarro. Posso, disse. Claro, é a resposta. Sento e começamos a nos descobrir. Concentro-me no som aveludado que aquela boca de lábios levemente carnudos emite. Na transcendência de sua voz e no olhar penetrante que me encara docemente, viajo. O bar está bastante movimentado como acontece em uma noite de sexta-feira, pessoas empolgadas, música alta, contudo, ouço apenas um ruído longínquo, indefinido e escuto apenas aquela voz. As cumplicidades começam a surgir, teatro – ela estuda teatro –, cinema, mapa astral, música, literatura, pintura, estrada, sonhos. Soltamo-nos, abrimo-nos. Os sorrisos tornam-se mais intensos, singelos e doces. Você tem um baseado, sim, vamos fumar, vamos. O toque. O desejo. Conta encerrada, saímos. Na rua a infinitude do beijo ardente, mãos ágeis, certeiras desvendam os corpos espremidos. Minha casa é aqui perto, partimos. Beto Guedes rolando, incenso no ar, baseado queimando, corpos acesos. Carícias agressivamente ternas, pungentes, despimo-nos. Penetro-a com voracidade, frenéticos mexemo-nos, devoramo-nos. O pompoarismo me alucina, enquanto me arranha solto tapas viscerais e ela pede mais e mais e mais. Até que desabo, saio de dentro dela, deito ao seu lado, encolho-me e choro desesperadamente. O que houve, ignoro a pergunta. Ela insiste e permaneço sem respondê-la. Choro ainda mais. Ela se aflige, quer me abraçar, não deixo. Grito para ir embora. Enrosco-me nos lençóis. Fetal, aperto-me. Não escuto mais sua voz. O vazio. A porta bate. Continuo chorando. Durmo.

Riso - 09 de outubro de 2007.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O descontrolado Ian Curtis


Cantor-poeta é retratado com brilhantismo em filme
Texto publicado em http://www.cinemacafri.com/filme.jsp?id=1239

Para encerrar a maratona de filmes proporcionada pelo Festival do Rio, resolvi, como fã assumido do Joy Division e da poesia angustiante de Ian Curtis, rever Control (Controle – a história de Ian Curtis), primeiro filme de Anton Corbijn, famoso pelos clips de U2, Depeche Mode e outras bandas dos anos 1980. O longa-metragem é inspirado no livro Touching from a distance de sua esposa Deborah Curtis e procura retratar o ambiente inglês da década de 1970, daí a opção acertada do diretor pelo preto e branco.

O ator Sam Riley está impecável no papel de Ian Curtis, pois consegue captar o jeito arredio, isolado, triste e inquieto de um jovem em constante crise existencial. Reconhecemos os sons que faziam a cabeça do cantor-poeta como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed, ou seja, alguns dos principais nomes do que ficou conhecido como glam rock, Sex Pistols entre outras bandas. Vemos o início de seu relacionamento com Deborah Curtis, o precoce casamento, o bizarro emprego onde atende pessoas tão problemáticas quanto ele, o nascimento da filha, os momentos de inspiração para os poemas que seriam futuras músicas do Joy Division, o início da banda com o nome Warszawa, os shows, o contrato com a Factory, a amante linda e a crescente angústia com a aproximação do sucesso e a indecisão típica de uma mente conturbada.

Talvez os grandes momentos do filme estejam nas clássicas apresentações da banda e das performances de Ian Curtis sobre o palco, com sua dança única que inspirou vários vocalistas dos anos 1980, inclusive aqui no Brasil, basta lembrarmos de Renato Russo. Está lá o lendário ataque epilético de Curtis durante uma apresentação, problema que o deprimia, a conseqüente ovação da platéia e o estímulo do produtor Tony Wilson (personagem principal de 24 Hour Party People - A festa nunca termina, filme que também retrata Curtis e o Joy Division) que afirma sobre o caráter positivo que tal acontecimento terá para o grupo junto à mídia e público. Em contrapartida, um desesperado Ian declara o quanto é difícil para ele estar sobre o palco, o quanto se dá, o quanto se entrega. É a pressão da fama a encurralar o artista.

Ingenuidade e precipitação acompanharam a trajetória do sensível Ian em algumas passagens da sua conturbada e curta vida, que vão desde o pedido de casamento inesperado ao rompimento com a esposa, o posterior pedido para retomar a relação e a opção pelo suicídio após a frustrada tentativa de reconciliação às vésperas da primeira turnê pelos EUA, o que os levaria sem sombra de dúvidas ao estrelato.

Control vale como documento histórico de uma personalidade marcante e criativa, da banda que tinha tudo para dominar a década de 1980, fato que, de certa maneira, se concretizaria com o New Order, sendo este bem menos depressivo. Ian Curtis e Joy Division praticamente moldaram o espírito da época com uma sonoridade estridente e temas existenciais, como seriam comuns em The Cure, Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, The Mission e tantas outras bandas inglesas.

Control é uma bela homenagem ao descontrolado Ian Curtis.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Caio Fernando Abreu - um conto

Aproveitando o lançamento nos cinemas de Onde andará Dulce Veiga?, filme de Guilherme de Almeida Prado, resolvi colocar um conto do Caio Fernando Abreu, escritor que conseguiu encarnar toda uma época nebulosa da história do país. Caio viveu em um período de céu acinzentado, gritos silenciosos e mentes inertes. Anos de uma juventude acuada, perdida em busca das cores, da alegria, de ideal, de ar para respirar. Escrevia como poucos, lúcido, conciso, emotivo, atemporal.
O dia em que Urano entrou em Escorpião (Velha história colorida) *
Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Lucas ou César Esposito)
*do livro de contos Morangos Mofados.


Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso.

Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) – renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.

Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo – e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.
Ernest Becker, A negação da morte

Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.

O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse, a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.

Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:

Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.
André Barbault, Astrologie

Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:

L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sapersonalité.

Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.

O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.

Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.

Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Alberto Fuguet: Baixo Astral


Escrever sobre o universo adolescente deve ser um enorme desafio para qualquer escritor, pelo menos imagino. Trata-se de um mundo repetitivo, chato e indeciso na maioria das vezes. Contudo, não é o que acontece no romance chileno “Baixo Astral” (Mala Onda), de Alberto Fuguet.

Fuguet ficou conhecido mundialmente ao propor a ruptura de sua geração com o realismo fantástico predominante na literatura latino-americana, tendo como principal exemplo o livro Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques. McOndo (trocadilho com a Macondo de G. G. Marques) é a sua proposta literária para uma nova literatura, escrita por “uma geração que comia no McDonald’s e assistia MTV”, mais preocupada com valores existenciais e a metalinguagem.

Em Baixo Astral os dramas, anseios, crises de um adolescente são apresentados em uma narrativa clara e direta com incontáveis referências literárias (Salinger), musicais (Stones, Blondie, Diana Ross), cinematográficas (The Blues Brothers, O Gigolô americano) e de consumo durante todo o livro.

O romance se passa no Chile de 1980, obscurecido pela sanguinária ditadura de Pinochet. As diversas citações à cultura pop, mais precisamente a cultura de massa americana, denunciam uma juventude afastada dos valores culturais de seu país, o total descrédito com a política e o insistente desejo de ter que sair fora, sair de um Chile asfixiante, de uma vida que nada diz.

A situação caótica imposta pelo regime ditatorial talvez explique o desencanto e o constante mau humor do personagem principal Matías Vicuña. Afinal, uma política repressiva dilacera qualquer tentativa de sonho, de pensamento crítico e vontade de viver.

O romance percorre onze dias na vida do jovem Vicuña, período em que variadas situações acontecem, inclusive uma viagem ao Rio de Janeiro, metáfora do que seria um rito de passagem para uma vida adulta que se aproxima. Na cidade maravilhosa, no Posto 9 de Ipanema Vicuña aproveita todas as aventuras que um adolescente pode fazer sem ninguém para recriminá-lo. Do sexo à cocaína, o garoto cai dentro das experiências possíveis e impossíveis do desbunde carioca.

Quando retorna para sua Santiago, o mal-estar do ambiente chileno desestimula gradativamente o jovem, que se encontra entendiado com tudo ao seu redor: "Me sinto entediado. Sozinho. É que não acontece nada. Não me acontece nada. Apenas babaquices deprimentes. Ou sacais". (FUGUET, p 167. 2001).

Seu cotidiano no Chile passa pelas festinhas, baseados, transas, escola, saudade do amor que deixou na viagem ao Brasil, a indecisão com a menina que se amarra e um sentimento de inquietação incontrolável, faz com que se afaste cada vez mais de tudo e de todos e se concentre nas suas preferências culturais.

Aqui entra a sua admiração pelo barman Alejandro Paz, que sonha em morar nos Estados Unidos, e apresenta o livro O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. O personagem Holden Caulfield passa a ser idolatrado pelo garoto, que passa a viajar em diálogos imaginários com o personagem. A intertextualidade com o romance de Salinger torna-se intensa e explícita, e são muito bem apropriadas por Fuguet no decorrer do livro, assim como todas as citações de bandas e filmes. Tantas referências culturais talvez remetam ao passado de crítico de música e cinema do escritor no jornal Mercurio (Chile).

Baixo Astral é um ensaio à desilusão, à falta de perspectiva, aos conflitos de um adolescente inseguro com medo da aproximação da vida adulta. Entretanto, o romance de Fuguet consegue ir além ao retratar o medo, a insegurança e as irresponsabilidades que surgem no decorrer da vida de qualquer pessoa em qualquer fase. Talvez elas sejam mais intensas na adolescência. E é exatamente a incerteza que une pai (sedento por voltar à juventude) e filho no romance, e a fuga para o sexo e as drogas. É pela depressão de Matías Vicuña, a desilusão e a falta de sonhos de sua geração que vemos o mal que a repressão pode causar. Baixo Astral é um grande livro.



FUGUET, Alberto. Baixo astral. Editora Record. Rio de Janeiro, 2001.

Gogô, o anjo torto da Babilônia

Gogô
Gogô do fusca que invadia qualquer parada
Gogô aliás Gogô sim invade qualquer parada

Gogô
Gogô que perde a parada
Gogô pára o carro
Gogô procura levanta o banco e o tapete
Gogô parada sumiu caiu pelo buraco do chão do carro

Gogô
Gogô do rolé no carro
Gogô em movimento janela aberta
Gogô parado janela fechada

Gogô
Gogô do grau
Gogô da batida de mel
Gogô do uísque
Gogô da cachaça

Gogô
Gogô do Beton,
Gogô da praia
Gogô do vôlei

Gogô
Gogô do futebol
Gogô zagueiro atacante doidão
Gogô da pelada na Quinta

Gogô
Gogô tricolor de coração

Gogô
Gogô dos shows
Gogô circo voador
Gogô apoteose
Gogô maracanãzinho
Gogô fundição

Gogô
Gogô da mulherada
Gogô barra
Gogô centro
Gogô copacabana
Gogô lapa
Gogô mimosa

Gogô
Gogô parceiro de trampo
Gogô de paradas certas e erradas

Gogô
Gogô amigo
Gogô que sempre colocou a galera em primeiro plano

Gogô
Gogô brother
Gogô das tijucanas madrugadas
Gogô meia-porta
Gogô jaime
Gogô batista
Gogô varnhagem

Gogô
Gogô da Babilônia

Encontrou a noite que nunca tem fim...

Vá em paz, amigo!

(Riso, 20/09/2007 )

Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll

para o meu brother Fabio


Comprei esta semana o dvd Wood & Stock – sexo, orégano e rock’n’roll, inspirado nos personagens da extinta e saudosa revista Chiclete com Banana, de Angeli, publicada nos anos 1980 e em alguns dos principais jornais do país, como o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo.

Retomar o contato com a dupla de velhos hippies é, de certa maneira, recordar algumas passagens da minha adolescência e um pouco da minha formação cultural através das HQs. Foi mais ou menos assim: em meados dos anos 80, acho que em 86/87, comecei a ter contato com as revistas Circus, Chiclete com Banana e Animal, revistas alternativas de temática underground que em nada pareciam com as bobagens de super-heróis da DC e Marvel Comics. A Circus posteriormente desmembrou-se na já citada revista do Angeli, Piratas do Tietê (Laerte) e Geraldão (Glauco), e os três criaram a famosa tirinha Los 3 amigos, que também lançou algumas edições.

A Chiclete caracterizava-se pela crítica aos tipos sociais da capital paulistana, tais como o punk Bob Cuspe, o garanhão Bibelô, a junkie Rê Bordosa, Walter Ego, os Skrotinhos entre outros. Anos depois, Angeli aprimorou o estilo e criou as séries República dos Bananas e Tipinhos Inúteis, escancarando o ridículo de determinadas figuras urbanas. Mas foi com a dupla bicho-grilo Wood & Stock que mais me identificava e me divertia. Através das tirinhas dos dois personagens perdidos no tempo, que tive estímulo para conhecer diversas bandas de rock dos anos 60 e 70, como Grand Funk, Free, The Cream, e a procurar informações sobre acontecimentos e pessoas que envolviam o universo da contracultura, tais como Timothy Leary, Aldous Huxley, Jim Morrison, Arembepe, Mutantes etc. Assim como a inevitável experiência de fumar orégano. Uma grande merda.

O filme? Bom, a história trata da tentativa de retomada da banda que a dupla tinha nos loucos anos 70, o Chiqueiro Elétrico, para participação em um festival de música e, assim, pagar as dívidas do apartamento de Wood com o dinheiro da premiação. Este, passa por diversos problemas: abrigou o amigo Stock após ser despejado de casa, agüenta a barra da separação da esposa Lady Jane que resolveu dar um tempo no relacionamento, e a incompatibilidade de gênios com o filho careta Overall.

É engraçado, legal, as dublagens estão ótimas, Tom Zé como Raul Seixas, Rita Lee ataca de Rê Bordosa e tal... os movimentos engraçadíssimos... trilha sonora ótima e a banda Chiqueiro Elétrico é do caralho! Contudo, as passagens do filme são as mesmas das tirinhas, optaram por não criar uma história específica para o filme. Considero uma falha, pois para quem conhece as mesmas o filme não acrescenta muito, só a curiosidade da animação. Mesmo assim, valeu! Mas poderia ter sido mais ousado. Provavelmente seqüelas de quem fuma orégano.