segunda-feira, 5 de novembro de 2007

ONDJAKI - O homem mais magro de Luanda.

A seguir um conto extraído do recente livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral, do escritor angolano Ondjaki, representante da novíssima geração do seu país. Nascido em Luanda, em 1977, é romancista, contista e às vezes poeta. É membro da União dos Escritores Angolanos. Recentemente co-dirigiu o documentário Oxalá crescam pitangas - histórias de Luanda (2006), e passou por aqui no Festival do Rio de Cinema 2007.
O homem mais magro de Luanda
– Mas caíste das escadas ou foi assim acidente de carro?
– Não, pá. Foi o Chico que me deu um apertão.
Palavras do Vaz, dias depois do apertão.
A casa do tio Chico tinha talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda. Os mais-velhos é que falavam isso, antes e depois de beberem umas quantas. Eu e a tia Rosa tínhamos mais a ocupação de abrir a porta e ir buscar essa tal deliciosa cerveja.

Não me lembro bem se os toques eram diferentes ou não, mas o tio Chico sabia quem estava no portão pelo modo como a campainha tocava. As pessoas iam chegando.

– Ó Rosa, traz aí uns torresmos e o jindungo malandro.

Dois toques rápidos “é o Osório, vai abrir, Dalinho”, um toque suave tipo tímido “é o Mogofores, e vem com sede”, toque longo e palmas “é o Lima, ó Rosa dá aí um jeito”, a mesa enchia-se de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.

O tio Chico gostava de fazer obras no quintal, acho eu. Ao lado da enorme gaiola de rolas ele construiu dois quartos. Pensei que era quarto de gente, afinal era para guardar carne, peixe e o barril de cerveja que ficava lá dentro. Um quarto era tipo geleira, o outro era arca de congelar tudo.

Naquele tempo o tio Chico tinha um contacto para ir buscar barris de cerveja e podia haver maka se não houvesse aquela botija fininha de dar pressão aos finos. Ficava tudo dentro do quartinho-geleira. Cá fora havia a torneira da cerveja e um banquinho para eu chegar lá e poder encher os copos. Eu então gostava bué dessa minha missão de finos.

No quintal do tio Chico eu já não contava os finos, era perda de tempo. Depois do fino 77 as pessoas riam muito e já não havia quase torresmos no pires. Os olhos brilhavam mais e eu até já podia contar anedotas sem graça nenhuma que todos riam mesmo só à toa.

A campainha tocou. Só que o tio Chico não disse quem era. Olhei logo na direcção do portão, para saber se ia já a correr abrir. O Lima pousou o copo. O Mogofores parou de rir, ainda por cima arrotou sem pedir desculpa. O Osório puxou as calças para cima como sempre gostava de fazer mesmo que o cinto já estivesse perto do sovaco. A tia Rosa também esperou. A campainha tocou mais. Eu já só mexia os olhos.

– Vai lá ver – o tio Chico falou.

– O miúdo não vai sozinho – a tia Rosa agarrou-me no braço.

Os outros ficaram com cara de não-sei-quê. Era sempre assim, se houvesse uma pequena maka entre a tia Rosa e o tio Chico, todos paravam de beber. A tia Rosa levantou-se, fomos juntos. Era o Vaz.

O Vaz era um senhor muito alto, também camba do tio Chico, talvez o homem mais magro de Luanda.

– Boa noite, dona Rosa, o senhor Chico ta? – a tia abriu o portão para ele entrar.

No quintal já havia barulho de novo. Todos riram quando o Vaz entrou nessa maneira desajeitada de cumprimentar as pessoas.

– Ó meu sacana, então tu não sabes tocar a campainha como deve ser?

O Vaz não disse nada, cumprimentou todos e no fim aproximou-se com receio do tio Chico.

– Não me digas que tás outra vez com medo de me apertar a mão?

Não sei, eu era só uma crianças dessas a olhar os mais-velhos, mas muita gente não gostava assim muito de cumprimentar o tio Chico.

– Anda cá, meu sacana, andas a tocar a minha campainha com toques secretos, tu quase que entras pela racha do muro.

O Vaz, com medo, chegou perto do tio Chico. Quando foi abraçado, o tio Chico fez questão de lhe dar um apertozito. As costas do Vaz fizeram um ruído tipo estalido de porta enferrujada.

– Ó Dalinho, traz aí um fino bem tirado pra este sacana do Vaz.

Atravessei o quintal com o copo de vidro na mão, na direcção da torneira da cerveja pendurada na parede. Na cozinha aberta, cá fora, a tia Rosa, com o avental dela azul e bonito, com chinelas abertas e antigas, fritava mais torresmos e controlava o peixe grosso no forno. Durante muitos anos, para mim o mundo teve o cheiro daquele quintal maluco: as cervejas, as comidas e as mãos da tia Rosa a emprestrarem cheiros de cozinha aos meus cabelos despenteados.

De longe olhei o Vaz fazer caretas de dor. Tentava disfarçar, mas desconseguiu. Trouxe-lhe o fino bem gelado e ele bebeu tudo assim num gesto de matar a dor.

- Tavas cheio de sede, meu sacana.

Depois do jantar, as filhas do tio Chico já tinham ido dormir e a telenovela estava quase a acabar. Acordei com a voz do Sinhôzinho Malta a dizer “tou certo ou tou errado...?”, e o telefone tocou. O tio Chico atendeu. Primeiro ficou preocupado, depois riu devagarinho.

– Tá bem, tá bem, espero que corra tudo bem com esse sacana.

Eu e a tia Rosa também queríamos saber do caso. O tio andou devagar, de propósito, sentou-se.

– Ó Rosa, vai-me lá buscar um fino, filha – o tio Chico fechou as janelas da sala, recebeu o copo e bebeu de penalty. – À saúde do Vaz – ainda disse, enquanto ia para o quarto.

A tia Rosa apagou a luz da sala e fomos juntos para o quarto.

– O sacana do Vaz tá no hospital, tem duas costelas partidas.

Eu ainda queria perguntar se isso de costelas era o quê, mas já era tarde.

– Amanhã vamos lá ver o gajo, e tu podes mexer na manivela da cama, Dalinho.

O tio apagou o candeeiro, enquanto a tia Rosa fez-me uma festinha na bochecha e endireitou o lençol, como fazia sempre há tantos anos, para os mosquitos não me ferrarem nos braços e não me atrapalharem nos meus sonhos de falar durante a noite.


ONDJAKI. O homem mais magro de Luanda. In: Os da minha rua. Rio de Janeiro: Editora Língua Geral, 2007. pp. 53-57.

sábado, 3 de novembro de 2007

Luandino Vieira: A cidade e a infância


A Companhia das Letras lança o primeiro livro de contos de Luandino Vieira:

A CIDADE E A INFÂNCIA
José Luandino Vieira

Os contos de A cidade e a infância anunciam algumas das características que se tornariam marcas da escrita de José Luandino Vieira: a paisagem urbana e o contexto de pobreza e marginalidade de Luanda; a oralidade pronunciada da narrativa; o convívio e a tensão entre negros, brancos e mulatos; a crítica da modernização excludente. Engajado e radicalmente inovador, Luandino ajudou a consolidar a literatura angolana no período de luta contra a colonização portuguesa, criando uma dicção literária única (sua prosa madura é comparada à de Guimarães Rosa). O livro traz dez narrativas breves, inspiradas na infância do próprio autor, vivida nos bairros pobres de Luanda, em companhia de meninos negros e mestiços. O volume inclui algumas das "estórias" (como o próprio Luandino as chama) mais conhecidas do autor: "Companheiros"; "O nascer do sol"; "A cidade e a infância" e "A fronteira de asfalto". Este último conto narra a história de duas crianças, um menino negro e uma garota branca, que são proibidos de se encontrar. Apartados por iniciativa da família dela, eles também são separados pela "fronteira de asfalto" que divide os bairros ricos e os musseques de Luanda. A cidade e a infância traz o texto "A libertação do espaço agredido através da linguagem", prefácio de Manuel Ferreira à segunda edição portuguesa (1977) e o prefácio de Costa Andrade à primeira edição (1960).


Informações retiradas de http://www.companhiadasletras.com.br/

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Língua Geral: lançamentos e noite de autógrafos

A Editora Língua Geral fará na quarta-feira, 07/11/2007, às 19h30, uma noite de autógrafos na Livraria Travessa (Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema) com os escritores e os seguintes livros:
Ondjaki – Os da minha rua
Patrícia Reis – Morder-te o coração
Francisco José Viegas – À luz do Índico
Nelson Saúte – Rio dos Bons Sinais

Nelson Saúte – Moçambique e Ondjaki – Angola, participarão do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas no dia 21/11, às 16h, na Fundação Biblioteca Nacional, ao lado dos escritores Jacques dos Santos – Angola e Fragata de Moraes – Angola.

As informações a seguir são do sítio da Livraria Travessa: http://www.travessa.com.br/wpgEventos.aspx?pcd=10002


OS DA MINHA RUA
Ondjaki
Editora: Língua Geral

RESENHA

Músicas, lugares e cheiros estimulam as lembranças do escritor angolano Ondjaki, no livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral. Neste livro Ondjaki passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990. Os limites entre biografia e ficção são continuamente desafiados: basta observar o tom intimista a mesclar-se continuamente a uma perspectiva histórica. Dessa forma Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura, conduzindo os leitores a cenas de caráter intimista que levam ao registro de uma época em Angola. Os da minha rua revela grande mobilidade não só pelo olhar intimista que se expande ao registro histórico: os 22 textos desta obra podem ser lidos como unidades autônomas, que valem por si mesmas (como se fossem contos), mas também podem ser lidos feito capítulos de um romance. Trata-se portanto de uma obra muito flexível, de intenso hibridismo, que se vale de outro tom, muito próximo ao da crônica. Este surge por meio do registro sobre o cotidiano, que vem a ser uma das marcas incontestáveis desse gênero. Com um discurso muito afeita à oralidade, o narrador lembra de amigos, família, festas na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de 1.º de Maio, a piscina de Coca-Cola e a novela brasileira Roque Santeiro. Com essas memórias entre o ficcional e o biográfico, Ondjaki nos leva à reflexão sobre nossas próprias particularidades, de nosso passado e de nossas lembranças sobre um período de descobertas e brincadeiras. “A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (...).”

ISBN: 9788560160235
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 168 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007


MORDER-TE O CORAÇÃO
Patricia Reis
Editora: Língua Geral

RESENHA

Em "Morder-te o coração" há muitas tentativas para compreender o amor, o desejo, a fuga, o medo; tenta-se compreender sobretudo a procura do sexo com mais-valia de calor humano que nos protege e nos defende da solidão. Encontros e desencontros de sentimentos, de vontades e de decisões mapeiam o novo romance de Patrícia Reis, escritora portuguesa que tem mais de um romance lançado pela editora Língua Geral e que é, em Portugal, um dos maiores sucessos de público e crítica neste ano. "Morder-te o coração" traz as lembranças de um homem por um amor de verão; seus sonhos e desejos com uma mulher misteriosa, calada e que ele acreditou amar. O romance revela a desilusão deste homem após a fuga do seu amor, a busca por ela em todos os cantos do mundo (de uma ilha portuguesa a Veneza) e até mesmo em outra mulher, na nova vida que tenta levar na cidade fria de Estocolmo, onde seu único desejo é ter alguém para abraçar todos os dias. Através desta segunda personagem ele se envolve num triângulo amoroso, uma fuga da solidão, o sexo como instrumento de sobrevivência. Após ver o rosto da mulher amada na internet, ele foge e deixa para trás o abraço de todo dia, a amante, em busca do seu amor, na tentativa de refazer a vida, de ir atrás daquele que acreditava ser seu destino. "O amor visto por um homem em o poder e a dor das coisas maiores", aforma a autora Patrícia Reis. Histórias de sexo, amantes que se entrelaçam com lembranças da infância, da mulher misteriosa que recorda a perda da mãe, do alcoolismo do pai, as mentiras, a paixão epla fotografia e a tentativa de suicídio. Patrícia Reis apresenta uma narrativa que alterna histórias de cada personagem, histórias divididas que dialogam entre si.

ISBN: 9788560160129
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 162 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

À LUZ DO INDICO
Francisco Jose Viegas
Editora: Língua Geral

RESENHA

As lembranças da antiga cidade colonial de Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique) num período anterior ao processo de independência, a busca de Miguel por Maria de Lurdes e a inquietude de um assassinato logo nas primeiras páginas caracterizam A luz do Índico, novo romance do escritor português Francisco José Viegas. Vinte e sete anos depois de ter saído de Moçambique, em 1973, Miguel retorna à cidade de Maputo, onde teve seu primeiro amor, Maria de Lurdes. Este retorno de Miguel à cidade de Maputo traz consigo a busca por esta mulher, que ele não vê há cerca de dois anos. Conseqüentemente encontra Pemba, Nampula, o lago Niassa, entre outras localidades de Moçambique. Revela-se então um país totalmente modificado e revirado pela guerra. Um território diferente do que a memória apresentava para Miguel. A narrativa romântica da busca por Maria de Lurdes é entremeada pelo estilo policial que se inicia nas primeiras páginas, com o assassinato de Gustavo Madane, ex-homem forte do regime marxista, que aparece morto nos arredores de Maputo. Durante a viagem, Miguel reencontra Domingos Assor, companheiro de infância e agora investigador policial, responsável pela investigação da morte de Madane. Domingos lhe serve como interlocutor na sua busca por Maria de Lurdes e a partir desse diálogo surge a imagem de uma intensa solidão, resultado de um país com um passado glorioso e um presente devastado.

ISBN: 9788560160204
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 273 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

RIO DOS BONS SINAIS
Nelson Saúte
Editora: Língua Geral

RESENHA

Depois de O homem que não podia olhar para trás, lançado pela Editora Língua Geral e que faz parte da coleção Mama África, voltada para o público infato-juvenil, o moçambicano Nelson Saúte apresenta agora uma literatura um tanto singular. Em Rio dos bons sinais, seu novo livro de contos, a morte permeia todas as histórias, e a realidade e a ficção caminham lado a lado. Eufrigino dos Ídolos, o homem que ia a todos os funerais com seu guarda-chuva amarelo, o enterro da bicicleta do popular deputado que tinha nove filhos, o ministro de Deus, a aldeia dos homens sem sombra, a vovó Mafaduco e a Menina dos Prazos são alguns dos curiosos, batalhadores e cativantes personagens que compõem os enterros, funerais e o luto que servem como cenário para a obra. “Este é um livro de ausências. Sem grandes gestos, grandes batalhas, grandes epopéias, sem grandiloqüências ou arroubos filosóficos. As grandes aventuras estão no quintal da nossa casa, raramente nos horizontes exóticos e são os nossos olhos gulosos buscando o infinito que nos levam para o vazio dos gestos históricos”, afirma o também moçambicano Ruy Guerra, na orelha do livro. Em Rio dos bons sinais, que integra a coleção Ponta-de-Lança, Nelson Saúte apresenta a relação com os mais velhos, a morte sob diversos ângulos, o que também revela as particularidades da cultura africana. No cenário da morte e do luto, Nelson revê os conceitos, a pobreza, o amor, a amizade, recorda a infância e mostra que a morte é um fato da vida e que pode nos ajudar a compreender o que somos.


ISBN: 9788560160198
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 140 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Manuel Rui - A casa do rio


Novo livro do escritor angolano Manuel Rui, A Casa do Rio. Manuel Rui estará presente no III Encontro Internacional de Professoras de Literaturas Africanas, participará da palestra de abertura ao lado de Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e João Melo. Onde? Fundação Biblioteca Nacional. Quando? 21/11, às 11h.
Riso


Começaram a almoçar e Antero recontou à mais-velha a sua saída, obrigado e mandado pelo administrador do Posto do Chipindo e ainda ela quis saber da vida no Puto, que ainda tinham lá um parente nas obras que mandara uma carta em mãos, a falar que viria de férias. Antero quase não ouvia nada e, nas piadas, exagerava no riso para, de cabeça baixa, sentir as lágrimas a misturarem-se nos lábios com a comida que nem saboreava. Era melhor não avançar nada sobre a casa, tanto mais que não seria ali o lugar, bem altaneiro, e a casa era numa baixa, sopé das serras. Mas, para não esquecer, adiantava entregar o recado ao irmão e só depois de almoçados, aí sim, a factura para a motorizada.
«Paquito. Guarda esse bilhete no bolso. É dos teus sobrinhos.»
«Já foi há muito tempo, mas soube que o mano Gandi morreu. Mas também sei que a madrinha, a mãe, está viva, mas o mano não trouxe fotografias dos meus sobrinhos?»
«Não trouxe, desculpa foi tudo à pressa e ainda graças ao primo Juca. Nem hoje. Há tempo para te contar como vim parar aqui. Quer dizer, tinha que vir. Mas vou-te mandar as fotos que não vamos perder mais o contacto.»

Género(s): Literatura/ Ficção/Romance
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 340
Peso: 400 g Colecção: «Outras Margens», n.º 67
Código: 93.067
ISBN: 978-972-21-1894-1
1.ª edição: Setembro 2007
Preço: 14,70 €

Mia Couto: Idades Cidades Divindades

Novo livro de poesia de Mia Couto.
http://www.editorial-caminho.pt/
Idades Cidades Divindades
Mia Couto

Idades Cidades Divindades é uma das raras incursões deste autor na poesia, colocando ao serviço do verso todos os reversos de que a sua língua particular se veste, reveste e tresveste, sempre com uma admirável acutilância na forma de ler o mundo.

Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 126
Peso: 156 g Colecção: «Outras Margens», n.º 69
Código: 93.069
ISBN: 978-972-21-1896-5
1.ª edição: Setembro 2007
30-09-2007.ª edição: Setembro 2007
Preço: 7,99 €
Lições

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
(Maputo, 2006)

Mia Couto: Idades Cidades Divindades (Lisboa: Caminho) » 2007 » pp. 27-28

Habana Blues

Habana Blues (2005)
Direção: Benito Zambrano
Elenco: Alberto Joel García Osorio, Roberto Sanmartín, Yailene Sierra, Tomás Cao Uriza, Zenia Marabal, Marta Calvó, Roger Pera.

Um filme baseado na música cubana traz logo à mente o belo Buena Vista Social Club, com suas salsas, merengue e tais de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e outros. Uma Havana que podemos dizer folclórica. Felizmente, isto não acontece na película de Benito Zambrano, Habana Blues, que retrata a cena underground contemporânea de Havana, com muito rock, reggae, rap, heavy metal e outras misturas (Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga, do Planet Hemp, lembra? É por aí.) em meio à amizade de dois músicos que vêm seus caminhos sendo separados quando aparece a oportunidade de deixar o país e tocar no exterior.

Tito (Roberto Sanmartin) e Ruy (Alberto Joel Garcia Osorio) são os personagens principais de um filme que possui caráter quase documental ao apresentar os sons feitos pela juventude e a decadência do país. A partir do convite feito por uma dupla de produtores espanhóis, que pretende levá-los para a Espanha, os dois amigos percebem a esperança de vencer na música, sair da ilha e ter uma vida com mais liberdade e sem a miséria que ronda suas vidas.

Contudo, a proposta é baseada em condições que prendem os artistas ao contrato: receberão uma pequena porcentagem, terão que mexer nas músicas e, no exterior, deverão fazer propaganda anti-castrista, ou seja, tornar-se-ão escravos de um capitalismo feroz. A partir daí, os dois amigos ficam com a amizade abalada pela escolha de diferentes caminhos. Tito é jovem, solteiro, detesta as condições de vida oferecidas pelo sistema político cubano. Sente-se sufocado pela falta de liberdade e pelas dificuldades financeiras para produzir música e sobreviver. Enquanto Ruy tem um relacionamento conturbado, próximo da ruptura, com a esposa Caridad (Yailene Sierra), mãe de seus dois filhos, que não agüenta a incerteza da vida de Ruy.

O filme mostra o dilaceramento das vidas de uma geração que presencia o pior momento do socialismo em Cuba, que não possui mais a ajuda financeira da extinta União Soviética e sofre com o perverso bloqueio econômico norte-americano. São pessoas que sentem que suas vidas serão desperdiçadas enquanto estiverem na ilha, tendo que agüentar a falta de energia, bicos que podem envolver contrabandos para aumentar os parcos salários, o telefone comunitário, a cidade em ruínas.

A condição insular só piora a situação dos personagens. Caridad resolve abandonar Ruy e encarar o perigo de uma viagem clandestina rumo a Miami com seus filhos. Tito, desesperado com a recusa do parceiro em ir para a Espanha, briga com o amigo e ameaça denunciar os produtores espanhóis caso a viagem seja cancelada. E Ruy, perdido e confuso com os recentes acontecimentos, vivencia a contradição de continuar com a sua carreira incerta no país, a vontade de partir, mas sem se vender à exploração capitalista, pois como diz: “Eu já traí muita gente na vida, mas minha música não”, além da impotência em reconquistar a esposa e nada fazer para impedir a viagem. Com tudo isso acontecendo com as pessoas mais importantes em sua vida, agarra-se ao show de lançamento da banda em um teatro decadente de Havana, tentar aparecer no cenário cubano e, assim, permanecer no país.

O problema é que o personagem de Ruy é indeciso, um tanto estranho. Aceita com passividade que sua mulher vá para os EUA com seus filhos. Mesmo quando rompeu o contrato com os espanhóis, alegando que não serviria ao neoliberalismo, não apresenta em outras passagens maiores preocupações políticas. E o seu desejo de sair não é tão forte quanto o de Tito. Ruy talvez retrate bem os jovens de hoje.

Ao expor as contradições de uma juventude desencantada com o país, Benito Zambrano realizou um filme comovente e triste que denuncia a situação atual de Cuba. Contudo, não apresenta alternativas à realidade cubana, fica apenas nas imagens de pobreza e decadência da cidade e no vazio da existência indefinida de Ruy. O que não deixa de ser um sentimento típico dos jovens dos países periféricos, que percebem seus países assolados pela corrupção, miséria, violência e distopia. Mas o que fazer diante de tanta desilusão?

Riso

João Tala: Lugar Assim

João Tala é um representante da novíssima geração de poetas angolanos, tendo publicado seu primeiro livro, A forma dos desejos, ganhador do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos em 1997. Desde então publicou O gosto da semente (2000), que recebeu menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000, A forma dos desejos II (2003), Lugar Assim (2004) e A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (2005).

Nascido em Malanje, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda. Chegou a estudar (ou estuda – não posso afirmar) medicina interna no Brasil.

O primeiro contato que tive com a poesia de João Tala foi na antologia de poesia angolana contemporânea publicada na Revista Poesia Sempre nº 23 (Fundação Biblioteca Nacional) e, posteriormente, em uma aula sobre Literatura Angolana, ministrada pela Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha. Foram dois momentos de encantamento com a força poética do autor. Faltava um contato maior com a obra do poeta, ou seja, um livro. Até que consegui Lugar Assim.

A geração literária de João Tala, nascida no pós-independência angolano, é marcada pela desilusão com os caminhos trilhados pela história recente país. A amargura, a dor e a melancolia são temas constantes entre seus contemporâneos, justificado pelos longos e sangrentos anos de guerra entre o MPLA e a UNITA, somente encontrando a paz em 2002.

Os referidos temas já eram trabalhados pelos escritores angolanos desde os anos 1980, época em que começa a ocorrer um processo de desencanto com a não realização das promessas da revolução. O poeta e crítico literário Luís Kandjimbo define os poetas do período como a geração das incertezas, nome de acordo com as indefinidas trajetórias da política e da situação social de Angola. Alguns nomes relevantes que despontaram à época são os de João Melo, Paula Tavares, José Luís Mendonça, Lopito Feijoó, Conceição Cristóvão, entre outros. Tais poetas apresentam novas formulações temáticas e estéticas, aprofundando o caminho iniciado pelos três principais nomes do lirismo angolano dos anos 1970, Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho.

Nos anos 1980 cresce a heterogeneidade da poesia angolana. Segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

“A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais.” (CHAVES, 2006, P. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Em Lugar Assim, a distopia angolana é tratada em poemas que fazem da metalinguagem a sua principal fonte para combater o dilaceramento social e os sonhos esgarçados do país. Sobre João Tala, Tindó Secco comenta que “a crença no gume das palavras e na raiz da própria poesia transferiu os sonhos para o universo dos poemas, o que fez com que a literatura e as artes em geral se tivessem constituído em locais privilegiados de resistência”. (Idem, ibidem, p. 99)

Os poemas do pequeno livro são divididos em três partes: Economia, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, e Remendos da Memória, que, de certa maneira, ligam-se entre si pelas referências à palavra, a inspiração para os diversos assuntos versados pelo eu-lírico, como o desejo por palavras sem as cicatrizes causadas pelo horror da guerra:

Os dias fundam breves caminhos sobre as palavras.

Não reclamo palavras economizadas,
a grande fortuna, não.

(Nem uma imagem profunda nem
um abismo em nós.)

Não reclamo palavras estafadas ou
mesmo ressentidas, marcadas de novas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[cicatrizes, não
Apenas reclamo palavras de redenção
guardadas entre as revoltas.
(Lugar Assim, p. 11)

O problema dos deslocados de guerra, que eram povos do interior obrigados a abandonar suas cidades, é denunciado no poema:

“(...) A certeza da incerteza é um desvio demográfico,
Imaginação metódica duma população aos pulos.
Brevemente, num só começo, somos possíveis celeiros
- corpos duma geometria fugaz onde medra o grão.”
(Ibidem, p. 12)

Em Economia, os poemas são metonímias daquilo que não há, da ausência que paira na atmosfera social angolana. A revolta com o esfacelamento do país é apresentado na dificuldade em revelar o que é visto:

“o mínimo que posso pronunciar é uma palavra pontilhada,
um grão. talvez uma pupila que ninguém abriu.
sedentos de enigmas configura-me rosto de estio, esta secura
ajusta-se às minhas palavras através desta face enchida de
olhos veementes em sinal de fogo. o fogo posto na carne.”
(Idem, p. 13)

O eu-lírico indigna-se com a realidade vivenciada pelo oprimido, toma partido e faz do poema espaço de resistência contra a opressão, em rabiscos (gatafunhos) desmascara o silêncio:

“Demasiado o verso fulcral em bocas de traumatizados
são lágrimas devotas o diálogo sem pão;
volto aos problemas, puxo a língua do oprimido e
com a caneta verbal o debate repousa
nos seus enormes olhos tempestuosos, achados na
política geral de meus gatafunhos. – A gíria das bocas
em rebelião.”
(Idem, p. 14)

Nos poemas da segunda parte, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, a metalinguagem aprofunda-se. O ato de escrever torna-se o espaço libertador, o eu-lírico convoca o leitor para fazer poesia. Poesia como alento em “a vida é um vício lírico”:

“Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.”
(Idem, p. 24)

A desilusão e a amargura com o quadro político angolano são demonstrados nos versos de “muitas palavras”. O dilaceramento dos ideais causado pelo desencanto com as promessas políticas é o alimento para a distopia:

“As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.”
(Idem, p. 29)

O esfacelamento da dignidade da palavra é de extrema gravidade em culturas que possuem sua transmissão de conhecimento pela oralidade, a descrença na palavra foi o que fizeram os governantes e seus opositores em Angola no pós-independência motivados por fatores da Guerra Fria e posteriormente pelo neoliberalismo, e fraturaram ainda mais as tradições das etnias angolanas.

Na poesia de João Tala a palavra e o corpo estão em processo constante de metamorfose, num delírio surrealizante na confecção do poema que acompanha as realizações do cotidiano do poeta, suas angústias apresentadas em mãos textuais:

“É uma ortografia tangível memória habitável
os seus passos de líricas;
é de palavras assim que assino o homem;
enche o tempo e os cadernos do tempo;
de alma em barro confecciona pequenos dias
de longas líricas, o meu poeta.
Quem o escuta?
Cabe na minha ortografia como a saudade da
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[palavra;
É um pequeno deus de coisas líricas.
De palavras assim o homem explode a
roda ortográfica tangível – alma da gente;
ou como entendia a notícia de mãos textuais
no corpo da palavra.”
(Idem, p. 30)

Os versos de Remendos da Memória buscam recompor as tradições devastadas. Os sonhos esgarçados por séculos de colonização e guerras e tentam se reagrupar no poema, que canta o fim de um longo período sombrio de feridas cicatrizadas na memória. Para tanto, deve-se recorrer aos valores tradicionais, ao velho tambor (ngoma) e, assim, recomeçar a sonhar com a paz recentemente conquistada:

“Ah! ficaram apenas os túmulos como cicatrizes do olhar.
em que país os olhos são apenas cicatrizes?
não direi nada a humanidade despede-se dos túmulos
os soldados dizem não à guerra por direito próprio.
o meu ngoma sucumbe pela noite pálida o meu Ngoma
é o único instrumento vegetal que realiza o sonho.”
(Idem, p. 39)

Para concluir, percebemos que os poemas de Lugar Assim apresentam a falta de perspectiva com a realidade social de Angola, todavia, João Tala, apesar do amargo de boa parte do livro, ainda assim escreve versos que valorizam a linguagem poética como espaço de resistência da utopia. Com isso, ele segue a tradição lírica angolana de crer em um futuro próspero e justo para um país em construção.

Riso


Outros poemas de Lugar Assim

ONDE ESTÁ O MEU POEMA?

estão aonde os versos da morte, lágrimas do
meu tempo?
eu não sei nem os redigi do pão, da água ou da
mentira.
porque o meu poema cumpre-se a si, é um
corpo fatigado,
temor das esperas.
uma simples conversa não me leva a nada.
o meu poema também é tempo, calor de
gemidos,
musa de línguas ao sol, sons ao faro. lábios
suados.
o meu poema, é assim a rosa palavra de um
rosário.
(Idem, p. 22)


CONSTRUÇÃO DE IDEIAS

Na várzea do texto imploro fundamentos
dum corpo a encher o tempo.
É uma lei como edifício no tempo.
Como entender a notícia de mãos textuais
no meu temperamento?
O rebento dessa notícia é uma crónica
edificada com as mãos no texto.
O benefício será sentir de pensamentos
e outra várzea a tactear bocas do mundo.
Bocas somente no dorso das mãos construtivas.
Com mãos assim toca a encher o Tempo.
(Lugar Assim, p. 26)


O ROSTO IDO(OSO)

Não mais prometo o rosto sem paisagem.
Quero sorrir-me dentro de ti.
E da prevalência de um mundo de dias guardados
o crepúsculo dos sentidos enrugado como
a voz que de súbito é uma caverna;
como o coração de súbito é uma campainha.
(Idem, p. 37)


RIOS DE NÓS

(estes rios fogem de dentro de nós e fora são
promessas de volta ao tempo.
sem passado, eles dirigem-se ao futuro.
do presente só um refresco, minha kota,
só mesmo um refresco da mesma água que
nos lava o corpo; da mesma água que nutre os pastos.)
(Idem, p. 41)


O DAVID MESTRE, RECONHECIDAMENTE

Foste de memória mais longe do que fará a morte.
Grande poeta! Grande pensamento. Sobre o teu
continente múltiplo marcavas o rosto da palavra.
Era esta a fortuna de palavras e ressaibos quando
as mãos fragmentavam o próprio suspiro/estilo?
Assim concluías a jornada: limpo mudo severo.
Qualquer poema traz-te da semente de volta ao chão;
por isso, David, vou já levantar-te do primeiro tambor.
(Idem, p. 45)


LUGAR ASSIM
(para o José Luís Mendonça)

Dizei-me a fúria dessa áfrica que é uma Árvore.
Tempera a voz negra dizei-me um lugar assim.
Na balbúrdia de uanga a palavra respirar.
E onde pensar estrelas a Noite que me acoite.
Dizei-me a Árvore, um ébano me faz igual.
E chegadinho ao crepúsculo só a cor das queimadas.
E a luzir os dedos, as mãos acenam vazias, caricatas.
Como poderei tocar palavras respiradas.
África orgásmica, existe mesmo lugar assim?
(Ibidem, p. 48)



Bibliografia:

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

III Encontro de Professores de Literaturas Africanas – Pensando África: Crítica, Ensino e Pesquisa

Divulgada a programação do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas – Pensando África: Crítica, Ensino e Pesquisa. Nomes importantes dos cinco países africanos estarão presentes como Luandino Vieira, Manuel Rui, João Melo, Luis Carlos Patraquim, Nelson Saúte, Ondjaki, Vera Duarte, Paula Tavares, Odete Semedo, Ana Mafalda Leite e outros mais. Além de professores e críticos: Russel Hamilton, Pires Laranjeira, Terezinha Taborda, Marli Fantini...

A seguir os links do evento:
Programação:
http://www.letras.ufrj.br/pensandoafrica/index.php?option=com_content&task=view&id=12&Itemid=20


Página inicial:
www.letras.ufrj.br/pensandoafrica

No dia 22/11/2007, às 13h, Prédio da Faculdade de Letras (Ilha do Fundão), apresentarei minha comunicação.
MESA 35
LOCAL: sala H 311
COORDENADORA: Viviane Mendes de Moraes (UFRJ)
Viviane Mendes de Moraes (UFRJ) - Guita Jr. e Manuela Cruz: memórias, sonhos e incertezas moçambicanas
Fábio Santana Pessanha (UFRJ) - Geogonia de Duarte Galvão
Ricardo Silva Ramos de Souza (UFRJ) - Letras e desenhos encarcerados: a reclusão libertadora na arte de José Craveirinha e Malangatana Valente

Aqui, mais uma vez exponho meus agradecimentos especialíssimos à Profa. Dra. Norma Lima, por ter me inserido nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, à Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, pelos livros, e-mails, convites para defesas de teses, aulas e para ministrar palestras, à Profa. Dra. Maria Teresa Salgado, à Profa. Dra. Simone Caputo Gomes. Aos professores e amigos Claudia, Cláudio Capuano, Gisela, Silvinha, Lygia Santos, Fernanda, Lucia Matos, Rosemary Granja, Cláudia Breviário, Stowasser, Mauricio do Carmo, Sabrina, Iasmin, Cristina e tantos outros (a lista é grande!) que me apoiaram até hoje. Toda a força do mundo! Sempre!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Secos & Molhados: Quem tem consciência para ter coragem

Ontem, durante um papo com minha inteligentíssima amiga Norma Lima, comentamos sobre a banda Secos & Molhados e a nossa admiração por ela. Logo, decidi escrever este post em homenagem a tão escandalosa e criativa banda, que teve uma passagem meteórica pelo sombrio Brasil dominado pelo ditador E. G. Médici.

O conjunto, com sua formação clássica, gravou apenas dois discos entre 1973/1974 e entrou para a história da música brasileira. Primeiro pelo impacto visual com rostos pintados, roupas coloridas e despojadas, visual andrógino, principalmente com o vocalista Ney Matogrosso; e segundo, pela qualidade fantástica dos arranjos, pelos timbres alcançados por Ney e o cuidado com as composições. Essa mistura de visual colorido com ótima música era algo comum à época em artistas estrangeiros como David Bowie, Marc Bolan (T-Rex), um pouco do Lou Reed pós-Velvet Underground e o Kiss. Nomes que ficaram agrupados na alcunha glam rock, e para quem quiser conhecer mais sobre tal fase, basta ver o filme Velvet Goldmine (direção Todd Haynes).

Os Secos & Molhados, em sua formação clássica, era formado pelo já citado Ney, João Ricardo (principal compositor, violão, harmônica e voz), Gerson Conrad (violão e voz) e Marcelo Frias (bateria e percussão). O primeiro e melhor álbum foi gravado e lançado em maio/junho de 1973, no ano seguinte saiu o segundo e derradeiro disco. Depois, a banda ainda tentou continuar com diversas formações, mas não chegou nem perto do nível atingindo nos dois primeiros LP’s. Por isto, enfatizarei o disco seminal.

Em meio à amargura, desilusão, medo e solidão impostos pela ditadura, as composições do álbum Secos & Molhados eram um alento aos corações e mentes sufocados e encurralados pelo terror. Em belas e inusitadas alegorias, as letras dos Secos & Molhados denunciavam o clima tenso e a asfixia vivenciada no período. Todavia, a resistência não deixava de ser cantada em forma metafórica, apesar do forte patrulhamento, dos presos e dos desaparecidos, das mutilações físicas sofridas nos porões da ditadura. Assim dizem os versos de “Primavera nos Dentes” (João Ricardo – João Apollinário), um autêntico rock’n’roll:

"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera"

A ruptura com os valores estabelecidos, dando continuidade à mudança de comportamento iniciada pelos tropicalistas, o desejo de liberdade por um mundo justo e igualitário são apresentados por metáforas que compõem o elemental ar, como o grito que estava sufocado na garganta, às vezes a esperança, às vezes o desespero:

“(...)
Rompi tratados,
traí os ritos.
Quebrei a lança,
Lancei no espaço:
Um grito, um desabafo.
E o que me importa
É não estar vencido.”
(Sangue Latino – João Ricardo e Paulinho Mendonça)

“leve como leve pluma
muito leve leve pousa
na simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
(...)
simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
que em mim amadurece”
(Amor – João Ricardo e João Apollinário)

“eu solto o ar
no fim do dia
perdi a vida”
(O patrão nosso de cada dia – João Ricardo)

Os vôos da imaginação surgem, espaço libertador por excelência, a vontade de voar e ser livre apresenta-se trazendo a paz que virá em um novo amanhecer:

“ cada um dos
4
como num teatro
voem
pombas
(pombas
brancas)
... e amanheça”
(Prece Cósmica – João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Entretanto, não há flores, não há paz. O clima é tenso, pesado, cruel. O desamparo e o desespero rondam as mentes. O grito das andorinhas é de agonia. A ausência da nota musical Sol, pode indicar a falta de luz do astro Sol em um período dominado pelas trevas. Vale frisar a experiência formal na construção do poema de Antonio Nobre:

“-Nos
-fios
-ten
-sos
-da

-pauta
-de me-
tal

-as
-an/
do/
ri/
nhas
-gri-
tam
-por
-fal/
ta/
-de u-
ma
-c’la-
ve

-de
-sol”
(As andorinhas – Antonio Nobre, João Ricardo e Cassiano Ricardo)

Grandes nomes da poesia brasileira têm poemas musicados. A ironia ao poder e novamente ‘a aérea esperança’ em “Rondó do Capitão”, de Manuel Bandeira, e a bela versão da pacifista “Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Moraes:

“Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A área esperança...
Área, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!”
(Rondó do capitão – João Ricardo e Manuel Bandeira)

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada”

(Rosa de Hiroshima – Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)

A ironia também está acompanhada do flerte com o homossexualismo, o que era muito comum para os artistas da época, pois consideravam como parte do comportamento transgressor. Heloísa Buarque de Hollanda em Impressões de Viagens, afirma que no início dos anos 1970, período chamado por ela de pós-tropicalismo, as experiências não se restringem apenas ao campo das artes, mas, sim, ao próprio cotidiano e corpo do artista que passam a ser experimentalizados. Daí o uso abusivo das drogas, o apreço com a marginalidade e com todo o seu significado de banditismo, as experiências homossexuais, o isolamento e o suicídio. Torquato Neto é o exemplo clássico da asfixia à qual o país estava submetido.

Entretanto, as composições do Secos & Molhados até flertavam com algumas características do período, mas não compartilhavam com o clima pesado de um governo ilegal que implantara o terror como ordem do dia aos seus habitantes. A solidão passa a ser a companheira, o afastamento e o individualismo é quase que obrigatório: ‘Eu já não sei se sei / de nada ou quase nada / eu só sei de mim / só sei de mim / só sei de mim’ (O patrão nosso de cada dia). Músicas como “O vira”, “El Rey” e “Assim assado” já prenunciavam o desbunde que se fortaleceria no decorrer da década, com seus versos carregados em deboche.

Diante de anos tão conturbados, nada mais natural que a preocupação com os descendentes que em breve nascerão seja demonstrada. Em “Mulher barriguda”, apreendemos a angústia em trazer uma nova vida para um mundo envolto em guerras (como a do Vietnã e as dos países africanos) e em ditaduras latino-americanas (brasileira e chilena, por exemplo). Os sonhos esgarçados, as derrotas sofridas e o recrudescimento do sistema opressor após o AI-5 no final de 1968 deixam as mentes confusas e desorientadas, porém persiste esperança na metáfora do dia seguinte, de que o pesadelo um dia acabará:

“Mulher barriguda que vai ter menino
Qual o destino
Que ele vai ter?
Que será ele
Quando crescer?

Haverá guerra ainda?
Tomara que não,
Mulher barriguda,
Tomara que não...”

O disco encerra-se com “Fala”, canto desesperado contra a tortura e toda e qualquer forma de repressão. O silêncio como forma de resistência e ação política, perante os gritos assustadores e insistentes dos famigerados torturadores, que tentam arrancar uma confissão qualquer durante os intermináveis e violentos interrogatórios feitos aos opositores do regime ou não. Porque o Poder, quando baseado na força, encontra inimigos até entre os seus aliados, pois o que interessa é manter o estado permanente de medo. São agonizantes os gritos de Ney Matogrosso escorados em um belo arranjo:

“Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto

Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala
Fala

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto

Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto

Fala
Fala"
(Fala – João Ricardo e Lulli)

Para finalizar, só tenho a dizer para quem não conhece o disco Secos & Molhados que compre a obra ou faça o download na Internet. A seguir, listei alguns endereços com vídeos e registros em mp3, desta banda histórica na nossa cultura. É muito som!!!

Riso


Mp3
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=6244330&tid=2444409808218177754

Vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=wIyvM9Ce7mM
http://www.youtube.com/watch?v=HK_msOCc0II
http://www.youtube.com/watch?v=6S-x6W82z04

PRIMAVERA DOS LIVROS - RJ - 2007

Retirado de http://www.libre.org.br/libre/pages/view/9?m=3
Museu da República (Rua do Catete, 153 - Catete)
de 29/11 (quinta-feira) a 02/12 (domingo)
de 10:00 às 22:00
Desde sua fundação a Libre vem desenvolvendo ações no campo das políticas públicas, visando à ampliação do mercado do livro e sua regulação, e participando de feiras no Brasil e no Exterior.

Uma de suas mais importantes ações é a PRIMAVERA DOS LIVROS, evento que já se consolidou como um dos destaques nos calendários culturais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A PRIMAVERA DOS LIVROS reúne editoras de diversos estados brasileiros: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Paraná, Santa Catarina e Distrito Federal. É composta de duas frentes: o Fórum de Artes, Ciência e Cultura e uma feira de livros.

No Fórum de Artes, Ciência e Cultura os participantes têm acesso ao universo cultural da cadeia de criação e produção do livro, o que permite real interação entre os leitores e os artífices do livro – escritores, editores, livreiros e críticos. Além disso, o Fórum apresenta um significativo panorama da produção editorial do país, oferecendo ao público a possibilidade de adquirir obras de seu interesse.

A Feira de Livros oferece acesso direto à produção das editoras participantes (a preços convidativos) e contato direto com os editores (sempre presentes em seus estandes).

Na Primavera dos Livros
*Editores brasileiros e de outros países se encontram com o objetivo de viabilizar a troca de experiências e o desenvolvimento articulado de políticas culturais solidárias.
*Os diversos setores da cadeia do livro se reúnem para analisar, propor e apoiar políticas governamentais.
*Profissionais do livro (ilustradores, diagramadores, revisores, editores) realizam workshops para que alunos de ensino médio conheçam o processo de produção do livro e obtenham informações sobre os diversos segmentos da área editorial com vistas a uma possível opção profissional.
*No espaço infanto-juvenil são desenvolvidas dramatizações, leituras, oficinas e encontros com autores e ilustradores, estimulando nos jovens leitores a curiosidade e o prazer pela leitura.
*Profissionais das artes cênicas e estudantes universitários participam de workshops para refletir sobre as possibilidades e resultados da adaptação de obras literárias para estas mídias.
Público e autores se encontram em atividades de leituras e debates culturais.
*É realizado o Fórum Anual de Discussões dos editores filiados à Libre, no qual são debatidas questões como as políticas governamentais para a formação e ampliação da rede de bibliotecas públicas, parcerias entre os diversos setores da cadeia do livro (fornecedores, editores, distribuidores, livreiros etc), perspectivas para o futuro do mercado editorial, formas de difusão da leitura e de capacitação de professores e bibliotecários, entre outras questões de interesse comum aos profissionais da área editorial.
Editoras participantes:
7Letras
Aeroplano
Alameda
Alis
Altana
Andrea Jakobsson
Anita Garibaldi
Arquivo Nacional
Azougue
Barracuda
Bem-te-vi
Biruta
Brinque-Book
Calibán
Callis
Capivara
Casa da Palavra
Casa de Rui Barbosa
Claridade
C/Arte
Cia. de Freud
Contracapa
Contraponto
Cosac & Naify
Crisálida
Cuca Fresca
Desiderata
Editora 34
Editora de Cultura
Ed. Museu da República
EdUERJ
EdUFF
Estação Liberdade
Fissus
Francis
Frente
Galo Branco
Garamond
Gryphus
Íbis Libris
Iluminuras
Jobim Music
Letra Capital
Lucerna
Lumiar
Maco
Manati
Mauad
Mercuryo
Musa
Myrrha
Nova Alexandria
Nova Razão Cultural
Odysseus
Oficina de Textos
Ouro sobre Azul
Outras Letras
Pallas
Panda Books
Peirópolis
Perseu Abramo
Pinakotheke
Prazerdeler
Publisher Brasil
Quartet
Roma Victor
Rosari
Senac Rio
Terceiro Nome
Terra Virgem
UFMG
UFRJ
Unesp
Uapê
Versal
Via Lettera
Viana & Mosley
Vieira & Lent