terça-feira, 6 de novembro de 2007

Nelson Saúte – Os Narradores da Sobrevivência

Após a independência moçambicana em 1975, houve um curto período de euforia com a libertação, mas desestabilizado com a guerra civil entre Frelimo, partido que fez a revolução, e Renamo, apoiado pela África do Sul, Rodésia e tendo a colaboração não-declarada do governo norte-americano. Conflito que mergulhou o país numa crise sem precedentes em sua história, prolongando o sofrimento causado pelos séculos de ação colonizadora portuguesa.

A crueldade da situação vivenciada pelos moçambicanos deixou marcas profundas naqueles que participaram desses terríveis anos, que viram a violência aumentando cada vez mais, as mortes tornando-se rotineiras, os habitantes do interior refugiando-se na capital (os deslocados) e os mutilados pelas famigeradas minas tropeçando pelas ruas da capital Maputo. E o que é pior, a desilusão com as promessas não cumpridas pela revolução, que não concretizou os projetos de maior igualdade social, distribuição de renda, fim da fome e diversos outros problemas estruturais, que custaram tantas vidas durante a guerra colonial nos anos de 1964 a 1975.

É no clima de desencanto com os caminhos trilhados pelo país que, nos anos 1980, emerge a literatura de Nelson Saúte. Contemporâneo da revista Charrua, publicação que apresentou novos paradigmas ao corpo literário moçambicano e lançou nomes como o de Eduardo White entre outros, que Saúte se aproxima da literatura. Através de suas atividades no jornalismo, Saúte desempenha um importante papel ao documentar os nomes que formaram e ainda formam a literatura de Moçambique. Entrevista grandes escritores, organiza antologias de poesia e contos, e, em seguida, publica suas experiências nas letras.

Nascido nos subúrbios da então Lourenço Marques, atual Maputo, em 1967, Nelson Saúte tem a língua portuguesa como o principal e único idioma. Não fala nenhuma língua de etnia local, nem o ronga, língua predominante na região onde foi criado. Portanto, é testemunha viva da história recente do país: participou como “pioneiro” nos anos de euforia com o pós-independência, vivenciou o longo período de guerra civil passado durante a adolescência e juventude, que só encerraria com o acordo de paz de 1992.

Tive a oportunidade de assistir a uma palestra de Nelson Saúte no ano passado. Naquela época, a editora Língua Geral lançava uma série de livros infantis, intitulada Mama África, e Saúte assinava um dos livrinhos - O homem que não podia olhar para atrás - com ilustrações de Roberto Chichorro. Impressionou-me, durante a sua fala, a melancolia e amargura ao comentar sobre o seu passado durante a guerra, o que só viria a compreender melhor com a leitura do romance que comentarei a seguir, Os Narradores da sobrevivência (Publicações Dom Quixote, 2000).

O romance se passa nos difíceis anos da década de 1980, época de sofrimento extremo para Moçambique, um país arrasado pela violência, e pela desesperança e desencanto de seu povo com o irreal cotidiano. Como afirma o narrador: “Anos de uma grande ilusão destruída diante dos nossos olhos por mãos humanas como a nossa”. (SAÚTE, 2000, p. 141)

É a história do desencontro de Marimbique, jovem moçambicano recrutado para lutar pelos ideais da revolução, e sua mãe, a velha Xinguavilana, e o posterior reencontro no enterro de ambos. Metáfora do dilaceramento da sociedade moçambicana, que via as famílias tendo seus destinos separados e/ou encerrados pelas ações deploráveis da guerra.

Depois de vários anos afastado de sua cidade natal, Maputo, Marimbique retorna em um caminhão trazendo trinta e tantos corpos mortos, os quais ele é o responsável:

“O camião que Marimbique escoltava trazia a notícia mais dilacerante da guerra. Três dezenas de cadáveres: pernas, braços, intestinos, ventres, olhos, orelhas, pedaços de carne, corpos macerados. Pela primeira vez a guerra chegava à capital – marchava vagarosa com o camião que entra na cidade ao entardecer”. (Ibide, Ibidem, p. 15)

Trata-se do primeiro momento que a capital, ou a “Nação” como é chamada pelos moçambicanos, com o que a guerra tem de mais cruel: os seus mortos. Até então, a guerra para os moradores de Maputo resumia-se a racionamentos: “Que era a guerra na grande cidade? A falta de energia, a ausência de água”. (Ibide, Ibidem, p. 15) É a partir do reencontro de Marimbique e da presença dos mortos na cidade que o romance trilhará seu caminho.

Diante de tantas desgraças vivenciadas por Marimbique, ele recorre constantemente à memória para buscar um pouco de sossego às vistas cansadas de dor, medo e morte. O jovem está acompanhado pelo motorista, contudo os dois não se comunicam, conheceram-se para cumprir a triste missão. O filósofo Walter Benjamin apontava para a dificuldade em narrar que os novos tempos apresentavam, a violência exacerbada da guerra seria uma das motivadoras desse quadro, pois os soldados quando retornavam das batalhas nas trincheiras permaneciam mudos, incapazes de se comunicar após o convívio desesperador com os mortos e mutilados. Daí o amparo na memória, nas lembranças da infância para suportar as durezas trazidas pelo ódio e matança desenfreada entre os moçambicanos:

“Quando atravessou o Alto-Maé acenou à Estrada da Circunvalação, deste modo ele saudava a infância. Lembrou os canaviais e os carros alegóricos que atravessavam a Avenida de Angola. Estes partiam do Largo Albasine, desciam os foliões em direcção ao Bairro do Aeroporto. Todo aquele mundo labiríntico dos subúrbios acordava lembranças muito nítidas. As coisas que poderiam ter acontecido na véspera por certo deslembrava. Tal é o prodígio da memória, que nos faz recuar a tempos imemoriais e é incapaz de nos revelar uma imagem do dia anterior. No caso, ele tinha razões mais do que razoáveis para se refugiar no tempo – ou templo? – perdido. A infância, a adolescência.” (Ibide, Ibidem, pp. 38-39)

A devastação causada pela guerra às mentes das pessoas, mantém assombrados os pensamentos, a condição miserável do presente faz com que o narrador vasculhe a memória para acalantar a existência:

“As lembranças constantes de lugares ou situações que nos tenham sido queridos denunciam que o presente pouco acrescenta às nossas vidas. Abraçamo-nos ao passado, marcados por uma vontade dilacerante de o reviver constantemente ou, de forma intermitente, momentos inolvidáveis, que já não nos pertencem, a não ser no domínio inatingível da imaginação.” (Ibide, Ibidem, p.21)

A partir daí, a narrativa procura remontar o passado de Marimbique em situações vivenciadas pelas pessoas com quem convivia ou em suas próprias lembranças, entrecruzando-as com a mãe e a sua luta persistente, inglória para todos, em rever o filho desaparecido, o que a faz ser agressiva com os que querem convencê-la da morte do rapaz:

“Morto deixa corpo. Quem disse que um morto desaparece assim mesmo? (...) Nesta vida eu já me cruzei várias vezes com a morte. Todas as vezes ela deixou rasto, não é agora assim. Como se comprova que meu filho morreu?” (Ibide, Ibidem, pp. 19-20)

A morte passa a ser uma rotina no cotidiano dos moçambicanos, que são alvejados em cruéis emboscadas nas estradas, nas minas espalhadas pelo país e nos combates entre os soldados. Torna-se um terrível hábito ter que enterrar os entes queridos, o absurdo da situação chega a atingir o nível extremo de se enterrar apenas os pertences de um morto, pois muitos foram deslocados dos seus locais de origem e seus corpos jamais seriam revistos. Tal proposta é feita à mãe de Marimbique, que denuncia o desrespeito com os que se foram e a insensibilidade daqueles que se acostumaram com a desgraça e vivem dela: “Querem é vender as roupas do meu filho no dumba-nengue (mercado de rua) e mafiar-me que estão enterradas”. (Ibide, Ibidem, p. 26) Por outro lado, revela o estado de penúria a que se encontravam os moçambicanos, em miséria absoluta:

“Há anos que entretanto não se realizavam aquelas cerimônias de enterrar os pertences dos mortos. Roupa dos falecidos serve para os vivos. Numa altura destas, prenhe de crises, como desperdiçar os farrapos dos outros, mesmo depois de passarem para o outro lado da fronteira, lá onde habitam os sem-vida?” (Ibide, Ibidem, p. 26)

Este acontecimento demonstra o dilaceramento das tradições espirituais, a descrença nos rituais funerários dos antepassados, a cultura esgarçada. Nei Lopes, em Kitábu, comenta que a morte é a continuidade da vida, que se desprende do corpo físico e parte ao encontro dos que o precederam, em um outro nível de existência. Por isso, é fundamental o respeito aos antepassados e o cumprimento dos rituais e obrigações para com eles.

Tais costumes tentam sobreviver nos bairros periféricos de Maputo, os bairros de caniço, onde se passa a história. Bairros que tinham como característica o convívio entre as diversas raças (negros, árabes, portugueses, indianos) que viviam em Moçambique e formaram a cultura miscigenada do país.

A narrativa privilegia as manifestações da religiosidade africana deformada pelos séculos de colonialismo e depois perseguida pelos representantes da revolução, de orientação comunista, que diziam que a “revolução era pagã”. Porém, a hipocrisia é uma característica dos que estão no poder e tal fato não era praticado pelos dirigentes, que, às escondidas, visitavam os curandeiros:

“Dizem até, numa altura em que os grandes não punham os pés nas igrejas nem sequer admitiam cerimónias para lembrar os antepassados, tudo isso porque a revolução era pagã, alguns, muitos destes alguns, dizem as falas populares, saíam dos seus Volvos e dirigiam-se, à socapa, ao velho Aeroporto, famoso por socorrer as mais incríveis inquietações.” (Ibide, Ibidem, p. 29)

Contrapondo-se à asfixia das origens locais, o narrador mostra a relação com o mundo dos mortos, o que os envolve como os xicuembos (espíritos malignos, constantes na pintura de Malangatana Valente), xipócùes (almas de outro mundo) e os nyangas (curandeiros). Sendo assim, conhecemos doenças como a nyocana, a doença da lua, sofrida por Marimbique, o ritual para sua cura e como o ritual se adaptou à geografia dos subúrbios:

“Quando há luar, o atingido entra nas convulsões, sofre espasmos. (...) Mata-se um animal representativo – cabrito, por exemplo – cozinha-se carril de amendoim de galinha, mais xima, alguns assimilados fazem arroz, junta-se a família. Para além disso, existem as bebidas tradições, como o uputso. Vinho também serve, mas tem que ser branco. (...) Ajoelha-se a um canto da palhota, se for no subúrbio, no quarto da flat para aqueles que transitaram e estão na cidade, e fala com os velhos de antigamente. (...) A cerimônia termina sempre com alegria entre os convivas. Assim, os que estão deste lado da Terra podem continuar sossegados, os espíritos haverão de protegê-los.” (Ibide, Ibidem, pp. 115-116)

Como a mãe de Marimbique acreditava nos valores da revolução, não dava importância para o que sentenciavam os nyangas (curandeiros) e Marimbique não cumpriu as obrigações necessárias. Somente com a velhice acompanhada do desespero em não reencontrar o filho e a morte que se aproxima, é que ela retornará às crenças locais:

“O filho sofrerá a vida inteira desta doença e dos maus espíritos que lhe ensombraram os caminhos. Muitos anos depois, a velha será uma devota das consultas aos curandeiros. Mas o filho terá já desaparecido, as suas demandas pouco ajudarão a saber do seu destino.” (Ibide, Ibidem, pp. 116-117)

Embalados pelo clima festivo e de vitória absoluta da independência, alguns excessos foram cometidos pelos novos governantes e seus simpatizantes. Seguindo a cartilha dos partidos comunistas europeus, houve um patrulhamento intenso sobre os costumes tradicionais moçambicanos e tudo o que não seguisse as diretrizes européias era considerado contra-revolucionário, passível de pesadas punições. Havia, por exemplo, a “Operação Produção”, que mandava para fora da cidade os desajustados sociais, como os bêbados:

“Durante a ‘Operação Produção’ desapareceram, passaram a beber clandestinamente num improvisado bar de subúrbio, até passar a fúria revolucionária que varria os famosos improdutivos dos centros para o Niassa.” (Ibide, Ibidem, p. 113)

A burocracia estatal mostra sua (in)eficiência no controle da vida das pessoas, na quantidade enorme de documentos exigidos aos transeuntes pelos despreparados soldados governamentais, procedimento que ficou conhecido como “Operação Tira-Camisa”, que também servia para prender ou forçar ao alistamento nas tropas:

“– Documentos?
– BI, cartão de residente e cartão de recenseamento!
(...)
– Os que estão indocumentados para aquele canto. Fiquem ali em fila, tirem as camisas.
Era a mais do que conhecida ‘Operação Tira-Camisa’. Marimbique ouvira falar apenas deste tipo de rusga. Os militares ficavam à porta dos cinemas e de outros lugares de concentração dos jovens e exigiam que estes exibissem os papéis. Pediam de preferência documentos impraticáveis. Havia aqueles que, no delírio de sua ignorância, até exigiam que os incautos transeuntes sacassem dos bolsos certidões de óbito. Quem não os tivesse ia preso. Era levado para os centros de concentração ou eram recrutados compulsivamente para a tropa. A guerra apertava. Precisava-se, com urgência, de carne para canhão.”
(Ibide, Ibidem, p. 50)

Com o intuito de equiparar tudo, de criar uma sociedade sem classes como nas teorias socialistas, o governo revolucionário toma medidas radicais. Surge o cartão de abastecimento e a lei de igualdade salarial:

“Quatro barra oitenta foi uma das leis mais conhecidas no tempo da revolução, com ela se estipulava a igualdade de salários nas mesmas categorias profissionais. (...) Para além dos salários que provinham dessa lei, havia os cartões de abastecimento que o GOAM (Gabinete de Organização do Abastecimento de Maputo), distribuía, sem os quais não se podia adquirir comida nas lojas.” (Ibide, Ibidem, p. 84)

A incompetência estatal também serve para mascarar a corrupção, alimentar o tráfico de influências e favorecer os quadros políticos. Infelizmente, situações típicas das elites dos países periféricos. O romance denuncia o deplorável caráter de alguns representantes das lideranças revolucionárias e mais uma vez o despreparo para o comando:

“Muitas das padarias da cidade não faziam pão. Tinham entrado em crise. Ter pão era privilégio dos chefes, os famigerados Estruturas. Aqueles que vestiam balalaicas do poder e acenavam dos seus LADA. Os LADA eram carros importados de um dos países socialistas que apoiavam a revolução. Os populares não sabiam a origem exacta dos carros protocolares, mas eximiam-se no escârneo, LADA significava, na fala de rua: leva atrás dirigente analfabeto.” (Ibide, Ibidem, p. 13)

A luta pela independência serviu para unificar Moçambique e as várias etnias que compõem o país. Porém, a harmonia entre elas era instável, as lideranças dividiam-se, enquanto os combatentes, como Marimbique, desconheciam as outras regiões e povos. O bairro onde vivia, a Munhuana, havia o convívio entre povos de várias raças, o que pode ser confirmado nos depoimentos do poeta José Craveirinha ao comentar sobre a Mafalala.

“Em pouco tempo ficou a perceber que era do Sul, havia os do Norte. Também soube que era ronga e havia os macuas. A revolução não resolvera o grande dilema de um país embrulhado em várias nações. Não sabia Marimbique o que significava a palavra etnia. Mais tarde aprendeu na dureza do quotidiano que os homens se dividiam por origens geográficas, por raças, por línguas ou etnias.
O seu mundo era a Munhuana, ali eram, todos, meninos. Pretos, chineses, mulatos, fosse o que fossem. Eram todos da mesma raça. (...)”
(Ibide, Ibidem, p. 41)

Tal situação era geradora de intensos conflitos na mente de Marimbique, que não compreendia as desavenças entre os vivos, a matança desenfreada da guerra, o desarranjo do mundo:

“Hoje, quando olha o país mergulhado na confusão de cores, lembra-se do daltonismo que então guiava os moçambicanos. (...) De onde são estes corpos que transportamos? Que língua falarão lá no lugar para onde vão? A que etnia pertencem? Serão eles ainda muito diferentes na sua condição única de mortos?” (Ibide, Ibidem, pp. 41-42)

O convívio com a guerra faz com que a anestesia se apodere dos sentimentos das pessoas. Amor, sonho e dignidade são desalojados pela inércia e desinteresse pelo sofrimento do próximo. Os mutilados não causam espanto, nem revolta:

“Apareceram depois os mutilados. Os transeuntes olhavam-nos mas não se importavam. Era apenas mais uma palavra que a guerra nos trouxera para o vocabulário: mutilado. (...) Pessoas que viram seus membros estilhaçarem-se ao vento. Gente que perdeu sonhos e dignidade. Agora vendem maços de cigarros em bancas improvisadas nos passeios.” (Ibide, Ibidem, p. 59)

Com a aproximação da independência, os portugueses colonizadores, que segundo Albert Memmi se acostumaram à vida e às benesses oferecidas na colônia jamais imaginaram que essa realidade um dia findaria e que precisariam abandonar a colônia e seriam obrigados a retornar à metrópole. Essas pessoas viviam às custas do sistema colonial e tiveram que se retirar em massa, deixando os apartamentos nos prédios da cidade desocupados. Estes, passaram a sofrer com a falta de manutenção e foram ocupados pelas pessoas que viam do interior, que se adaptavam, a sua maneira, à nova vida, situação parecida com a da novela angolana de Manuel Rui, Quem me dera ser onda:

“Os prédios ameaçavam ruir de podre. (...) Por todos os lados havia furos de água suja. A rede de esgotos acolhia ratazanas. Os tubos das canalizações enferrujavam secos. Bebia-se água insalubre, que subia a baldes nas escadas porcas e escorregadias (...) Os inquilinos acendiam fogões a carvão nos andares, punham a lente em chama nas flats, as paredes escureciam ocultando o branco que haviam tido antes. Os homens, nas suas horas de lazer, plantavam pequenas hortas nas banheiras. Eles ignoravam a utilidade dos novos objectos que se atulhavam nas casas de banho da revolução. (...) As explêndidas moradias tinham sido deixadas ao abandono pelos antigos proprietários. Estes haviam sido apanhados desprevenidos na encruzilhada da História, eles que se julgavam eternos, na sua modorra africana (...)”(Ibide, Ibidem, p. 71)

As ruínas da cidade são as ruínas psicológicas dos moçambicanos, fraturadas pela presença constante da morte e dos mutilados. Pessoas deslocadas dos seus locais de origem sonambulam pelas estradas com o risco real de sofrer uma emboscada, além da fome, que passa a ser uma fiel companheira do cotidiano. Há, até uma denúncia feita em relação a isto, pois os postos de abastecimento tinham papéis higiênicos e outros artigos em grande quantidade, enquanto a comida quase não aparecia:

“As lojas do Povo o que tinham de mais era o batom e papel higiênico. Não que as moças desgostassem do batom que vinha do Leste da Europa, não que os nossos hábitos fossem contrários ao uso de papel higiênico, preferindo a areia, coisa que se fazia agachado, depois de se defecar no mato, também tínhamos ânus urbanizados, o que se passa é que a comida era pouca e a necessidade terrena de nos desfazermos dos sólidos desnecessários ao organismo também. Daí o excesso na provisão do papel higiênico.” (Ibide, Ibidem, pp. 143-144)

Em um estado de pobreza onipresente, cada cidadão lida com a terrível época a sua maneira. A personagem Jamaica é um ex-combatente que se tornou mutilado após pisar em uma mina. Porém, era “mutilado de uma guerra que ele recusava existir, Jamaica, enfim, vivia das lembranças”. (Ibide, Ibidem, p. 61) Recordava-se sim, dos tempos em que era jogador de futebol e das meninas que namorava. A evasão servia para encobrir a realidade: “Mutilado eu? Vão todos para aquele sítio. Dizem que eu não tenho perna? Quem não tem perna é este país que está cheio de malucos. Eu sinto a minha perna, esta muleta é tudo estilo”. (Ibide, Ibidem, p. 62) Já a personagem Bragança, amigo de Jamaica, fez da incomunicabilidade a sua forma de reação contra as agruras da guerra: “Bragança, esse, não falava. Voz dele extinguiu-se há muitos anos”. (Ibide, Ibidem, p. 63)

O desajuste perpetrado pela guerra, desloca os homens para longe da racionalidade. A realidade aniquilada pelas minas apresenta um quadro surreal que beira a loucura:

“Mano, como não podemos estar com o juízo fora de lugar? As búlgaras gostam dos pretos, os italianos filmam cães a fornicar nossas filhas. Como não ficar maluco perante esta sociedade que até nos traz os mortos de Maluana para serem passeados pela Avenida Eduardo Mondlane como se fosse dia de carnaval? Tudo isto não bate certo. Fazemos parte de um terrível carnaval de estúpidos!” (Ibide, Ibidem, p. 81)

A irracionalidade dos anos de guerra motiva a ironia ao grotesco dos acontecimentos. Rir-se da própria desgraça. O riso como fator crítico da ordem estabelecida, demonstrando, através do grotesco, as falhas da época:

“Não muito tempo depois, nos palcos da cidade se começou a zombar da própria desgraça, fazendo com que os desgraçados se rissem de si próprios. Não sei se moçambicanamente cultivamos a ironia na forma de nos retratarmos no quotidiano, mas verdade seja dita: o teatro que haveria de irromper, nos anos aflitos de guerra, nos tempos do cerco à cidade, quando se anunciavam todos os apocalipses, seria de grande motivação do riso e do escárneo.” (Ibide, Ibidem, p. 72)

A maneira como a guerra definha os sentimentos dos povos que são obrigados a conviver com cenas deprimentes e deploráveis, ultrapassa o grotesco. O horror das mortes corriqueiras, amendronta até aqueles que estão habituados a conviver com ela, como o coveiro Mandala:

“Afaguei muita morte. Mas, palavra de honra, tenho medo destes mortos. São caras de mulheres assustadas, de crianças que ainda gritam, de homens surpreendidos pelas baionetas, precocemente. Não são mortos vindos do sossego. Dizem que são as vítimas da guerra. De Maluana, de Taninga. Com estes mortos assim qualquer dia esta guerra não fará vítimas, ela própria será vítima dos mortos porque nenhuma guerra devia agüentar tanto.” (Ibide, Ibidem, p. 88)

A inconseqüência e fúria dos ataques dos soldados destroem as vidas das pessoas, que perdem seus bens materiais, seus parentes, suas identidades. Vários personagens representam o vazio, a ausência de um passado que foi dilacerado no decorrer do conflito. A perda da identidade é o que pode haver de mais doloroso, além da perda de contato com os familiares desaparecidos. Mandala é um personagem sem passado e sem nome, recebeu a alcunha daqueles que passaram a conviver com ele: “Dizer velho Mandala é uma espécie de redundância dado que o nome de Mandala ninguém conhecia e assim lhe chamavam por sua idade justificar tal alcunha”. (Ibide, Ibidem, p. 87)

O mesmo acontece com a velha mãe de Marimbique. Seu passado são especulações dos que com ela passaram os anos:

“Fala-se muito dela mas nada se sabe ao certo. Sua lenda intensifica-se na densidade da incerteza. Nem mesmo o elementar pormenor do nome. Como se chama? Ninguém lhe conhece o nome. Ela é conhecida, porém, pela alcunha, que lha deram por ser má, intratável, difícil, irascível – Xinguavilana.” (Ibide, Ibidem, pp. 22-23)

A tragédia da morte ronda todo o romance e é somente na morte que Marimbique e sua mãe, Xinguavilana, voltam a se encontrar, em dois cortejos distintos rumo as suas sepulturas. O rapaz acabou dominado pela loucura em um hospital, sua última morada. A mãe de Marimbique foi vencida pelo tempo quando perdeu a esperança de achá-lo:

“Outra vez eles cruzaram-se, agora nas campas, lado a lado. Definitivamente. Não havia como evitar que se encontrassem. O dia estava-lhes reservado a este encontro na morte, descerão à terra e residirão lá nos lugares onde acoitam os antepassados, ao mesmo tempo quase, e em talhões gémeos por assim dizer. (...)
A filha de Mambone e mãe de Marimbique não resistira ao desgosto do desaparecimento do filho. Quando perdeu a esperança de reencontrar, deixou-se levar para a terra dos antepassados. Afinal, os dois, mãe e filho, por fim encontravam-se e abraçavam-se para a eternidade.”
(Ibide, Ibidem, pp. 139-140)

A família destruída pela guerra continuará dilacerada com a presença do filho de Marimbique, que conheceu o pai e a avó no dia do enterro, e, assim, “ficou a saber a partir daquele dia quando, finalmente, lhe contaram a estória da sua família paterna”. (Ibide, Ibidem, p. 140)

Para finalizar, fico com as palavras do narrador, que melhor expressam o triste período da história recente de Moçambique, neste pungente romance de Nelson Saúte:

“Os anos oitenta foram anos dramáticos. Foi o tempo em que experimentámos a miséria mais abjecta em termos materiais. Onde os homens despojaram-se da sua humanidade e vestiram a bestialidade oculta na sua personalidade. Foram os anos da morte, da violência das armas que em humanas mãos serviram para destroçar os mais belos projectos igualmente humanos que havia entre nós e reduzir o homem moçambicano à condição de coisa nenhuma. (...) Os anos da falta de luz. (...) Os anos dos suicídios dos jovens, da morte estúpida e brutal dos jovens. Estes são os anos oitenta. Os anos da nossa desgraça individual e colectiva, mas os anos que resgatamos hoje e quase choramos ao lembrá-los porque em tudo em que eles representavam havia uma pureza que as minhas palavras não têm competência para nomear. E agora que os homens se vestem dos agasalhos da amnésia para atravessar as ruas, vale a pena recordá-los.” (Ibide, Ibidem, pp. 141-144)


BIBLIOGRAFIA:
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política – ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.

LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

SAÚTE, Nelson. Os narradores da sobrevivência. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000.

SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Paisagens, memórias e sonhos na poesia moçambicana contemporânea. In: A magia das letras africanas – ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora, 2003.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

II Fórum Internacional de Angolanistas

Política, Direito, Economia e Democracia na Reconstrução de Angola
7 a 9 de novembro de 2007
Universidade Estadual do Rio de Janeiro

http://www.angolanistas.org/Evento2007/index1.htm


O II Fórum Internacional de Angolanistas é uma realização da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Centro de Ciências Sociais, Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afroamericanos, Laboratório de Pesquisas e Práticas de Ensino-LPPE, Programa de Pós-Graduação em História), e colaboração do Departamento de Literaturas Africanas da UFRJ, Departamento de História/História da África da UFF e da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto/Angola, com o apoio da Embaixada da República de Angola no Brasil e do Consulado Geral de Angola no Rio de Janeiro. Tem como objetivo estimular e divulgar a produção de idéias que visam a reconstrução, o progresso e o desenvolvimento sustentável de Angola, bem como o intercâmbio acadêmico-científico entre estudantes, cientistas, pesquisadores, acadêmicos e atores da sociedade civil e pública para debater questões do interesse desse rico e potencialmente influente país africano. Passando para a sua segunda, depois da bem-sucedida realizacão do I Fórum de Quadros Angolanos e Angolanistas no Brasil, promovido pela mesma Universidade, caracteriza-se como o primeiro esforço de lutar pela necessidade de convergência e colaboração dos angolanistas do Brasil, de Angola e do mundo inteiro com vistas a engajá-los na discussão de idéias e propostas que podem ajudar Angola a trilhar o rumo do desenvolvimento social, cultural e científico sustentável. É um projeto que busca afirmar-se como um Fórum Internacional de natureza acadêmica e científica para a discussão, produção, divulgação e monitoramente de idéias propositivas que auxiliem Angola a construir planejadamente uma sociedade socialmente mais justa, politicamente harmoniosa e economicamente estável.
Além dos conferencistas e palestrantes convidados do Brasil, Angola e outros países, poderão submeter trabalhos para palestras à apreciação da Comissão Científica professores, estudantes de graduação e pós-graduação e investigadores envolvidos em trabalho de pesquisa (concluída ou em andamento) sobre os diversos temas do interesse de Angola e da academia (veja aqui como inscrever trabalhos). Alunos de graduação, bolsistas, concluintes e interessados em geral, poderão submeter seus trabalhos para apresentação dentro da programação "Comunicações.

ONDJAKI - O homem mais magro de Luanda.

A seguir um conto extraído do recente livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral, do escritor angolano Ondjaki, representante da novíssima geração do seu país. Nascido em Luanda, em 1977, é romancista, contista e às vezes poeta. É membro da União dos Escritores Angolanos. Recentemente co-dirigiu o documentário Oxalá crescam pitangas - histórias de Luanda (2006), e passou por aqui no Festival do Rio de Cinema 2007.
O homem mais magro de Luanda
– Mas caíste das escadas ou foi assim acidente de carro?
– Não, pá. Foi o Chico que me deu um apertão.
Palavras do Vaz, dias depois do apertão.
A casa do tio Chico tinha talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda. Os mais-velhos é que falavam isso, antes e depois de beberem umas quantas. Eu e a tia Rosa tínhamos mais a ocupação de abrir a porta e ir buscar essa tal deliciosa cerveja.

Não me lembro bem se os toques eram diferentes ou não, mas o tio Chico sabia quem estava no portão pelo modo como a campainha tocava. As pessoas iam chegando.

– Ó Rosa, traz aí uns torresmos e o jindungo malandro.

Dois toques rápidos “é o Osório, vai abrir, Dalinho”, um toque suave tipo tímido “é o Mogofores, e vem com sede”, toque longo e palmas “é o Lima, ó Rosa dá aí um jeito”, a mesa enchia-se de copos de cerveja, aperitivos e sobras, quitetas, kitaba, camarões, chouriço, a televisão sempre ligada e pessoas de todas as cores que vinham beber dos barris de cerveja do tio Chico.

O tio Chico gostava de fazer obras no quintal, acho eu. Ao lado da enorme gaiola de rolas ele construiu dois quartos. Pensei que era quarto de gente, afinal era para guardar carne, peixe e o barril de cerveja que ficava lá dentro. Um quarto era tipo geleira, o outro era arca de congelar tudo.

Naquele tempo o tio Chico tinha um contacto para ir buscar barris de cerveja e podia haver maka se não houvesse aquela botija fininha de dar pressão aos finos. Ficava tudo dentro do quartinho-geleira. Cá fora havia a torneira da cerveja e um banquinho para eu chegar lá e poder encher os copos. Eu então gostava bué dessa minha missão de finos.

No quintal do tio Chico eu já não contava os finos, era perda de tempo. Depois do fino 77 as pessoas riam muito e já não havia quase torresmos no pires. Os olhos brilhavam mais e eu até já podia contar anedotas sem graça nenhuma que todos riam mesmo só à toa.

A campainha tocou. Só que o tio Chico não disse quem era. Olhei logo na direcção do portão, para saber se ia já a correr abrir. O Lima pousou o copo. O Mogofores parou de rir, ainda por cima arrotou sem pedir desculpa. O Osório puxou as calças para cima como sempre gostava de fazer mesmo que o cinto já estivesse perto do sovaco. A tia Rosa também esperou. A campainha tocou mais. Eu já só mexia os olhos.

– Vai lá ver – o tio Chico falou.

– O miúdo não vai sozinho – a tia Rosa agarrou-me no braço.

Os outros ficaram com cara de não-sei-quê. Era sempre assim, se houvesse uma pequena maka entre a tia Rosa e o tio Chico, todos paravam de beber. A tia Rosa levantou-se, fomos juntos. Era o Vaz.

O Vaz era um senhor muito alto, também camba do tio Chico, talvez o homem mais magro de Luanda.

– Boa noite, dona Rosa, o senhor Chico ta? – a tia abriu o portão para ele entrar.

No quintal já havia barulho de novo. Todos riram quando o Vaz entrou nessa maneira desajeitada de cumprimentar as pessoas.

– Ó meu sacana, então tu não sabes tocar a campainha como deve ser?

O Vaz não disse nada, cumprimentou todos e no fim aproximou-se com receio do tio Chico.

– Não me digas que tás outra vez com medo de me apertar a mão?

Não sei, eu era só uma crianças dessas a olhar os mais-velhos, mas muita gente não gostava assim muito de cumprimentar o tio Chico.

– Anda cá, meu sacana, andas a tocar a minha campainha com toques secretos, tu quase que entras pela racha do muro.

O Vaz, com medo, chegou perto do tio Chico. Quando foi abraçado, o tio Chico fez questão de lhe dar um apertozito. As costas do Vaz fizeram um ruído tipo estalido de porta enferrujada.

– Ó Dalinho, traz aí um fino bem tirado pra este sacana do Vaz.

Atravessei o quintal com o copo de vidro na mão, na direcção da torneira da cerveja pendurada na parede. Na cozinha aberta, cá fora, a tia Rosa, com o avental dela azul e bonito, com chinelas abertas e antigas, fritava mais torresmos e controlava o peixe grosso no forno. Durante muitos anos, para mim o mundo teve o cheiro daquele quintal maluco: as cervejas, as comidas e as mãos da tia Rosa a emprestrarem cheiros de cozinha aos meus cabelos despenteados.

De longe olhei o Vaz fazer caretas de dor. Tentava disfarçar, mas desconseguiu. Trouxe-lhe o fino bem gelado e ele bebeu tudo assim num gesto de matar a dor.

- Tavas cheio de sede, meu sacana.

Depois do jantar, as filhas do tio Chico já tinham ido dormir e a telenovela estava quase a acabar. Acordei com a voz do Sinhôzinho Malta a dizer “tou certo ou tou errado...?”, e o telefone tocou. O tio Chico atendeu. Primeiro ficou preocupado, depois riu devagarinho.

– Tá bem, tá bem, espero que corra tudo bem com esse sacana.

Eu e a tia Rosa também queríamos saber do caso. O tio andou devagar, de propósito, sentou-se.

– Ó Rosa, vai-me lá buscar um fino, filha – o tio Chico fechou as janelas da sala, recebeu o copo e bebeu de penalty. – À saúde do Vaz – ainda disse, enquanto ia para o quarto.

A tia Rosa apagou a luz da sala e fomos juntos para o quarto.

– O sacana do Vaz tá no hospital, tem duas costelas partidas.

Eu ainda queria perguntar se isso de costelas era o quê, mas já era tarde.

– Amanhã vamos lá ver o gajo, e tu podes mexer na manivela da cama, Dalinho.

O tio apagou o candeeiro, enquanto a tia Rosa fez-me uma festinha na bochecha e endireitou o lençol, como fazia sempre há tantos anos, para os mosquitos não me ferrarem nos braços e não me atrapalharem nos meus sonhos de falar durante a noite.


ONDJAKI. O homem mais magro de Luanda. In: Os da minha rua. Rio de Janeiro: Editora Língua Geral, 2007. pp. 53-57.

sábado, 3 de novembro de 2007

Luandino Vieira: A cidade e a infância


A Companhia das Letras lança o primeiro livro de contos de Luandino Vieira:

A CIDADE E A INFÂNCIA
José Luandino Vieira

Os contos de A cidade e a infância anunciam algumas das características que se tornariam marcas da escrita de José Luandino Vieira: a paisagem urbana e o contexto de pobreza e marginalidade de Luanda; a oralidade pronunciada da narrativa; o convívio e a tensão entre negros, brancos e mulatos; a crítica da modernização excludente. Engajado e radicalmente inovador, Luandino ajudou a consolidar a literatura angolana no período de luta contra a colonização portuguesa, criando uma dicção literária única (sua prosa madura é comparada à de Guimarães Rosa). O livro traz dez narrativas breves, inspiradas na infância do próprio autor, vivida nos bairros pobres de Luanda, em companhia de meninos negros e mestiços. O volume inclui algumas das "estórias" (como o próprio Luandino as chama) mais conhecidas do autor: "Companheiros"; "O nascer do sol"; "A cidade e a infância" e "A fronteira de asfalto". Este último conto narra a história de duas crianças, um menino negro e uma garota branca, que são proibidos de se encontrar. Apartados por iniciativa da família dela, eles também são separados pela "fronteira de asfalto" que divide os bairros ricos e os musseques de Luanda. A cidade e a infância traz o texto "A libertação do espaço agredido através da linguagem", prefácio de Manuel Ferreira à segunda edição portuguesa (1977) e o prefácio de Costa Andrade à primeira edição (1960).


Informações retiradas de http://www.companhiadasletras.com.br/

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Língua Geral: lançamentos e noite de autógrafos

A Editora Língua Geral fará na quarta-feira, 07/11/2007, às 19h30, uma noite de autógrafos na Livraria Travessa (Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema) com os escritores e os seguintes livros:
Ondjaki – Os da minha rua
Patrícia Reis – Morder-te o coração
Francisco José Viegas – À luz do Índico
Nelson Saúte – Rio dos Bons Sinais

Nelson Saúte – Moçambique e Ondjaki – Angola, participarão do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas no dia 21/11, às 16h, na Fundação Biblioteca Nacional, ao lado dos escritores Jacques dos Santos – Angola e Fragata de Moraes – Angola.

As informações a seguir são do sítio da Livraria Travessa: http://www.travessa.com.br/wpgEventos.aspx?pcd=10002


OS DA MINHA RUA
Ondjaki
Editora: Língua Geral

RESENHA

Músicas, lugares e cheiros estimulam as lembranças do escritor angolano Ondjaki, no livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral. Neste livro Ondjaki passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990. Os limites entre biografia e ficção são continuamente desafiados: basta observar o tom intimista a mesclar-se continuamente a uma perspectiva histórica. Dessa forma Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura, conduzindo os leitores a cenas de caráter intimista que levam ao registro de uma época em Angola. Os da minha rua revela grande mobilidade não só pelo olhar intimista que se expande ao registro histórico: os 22 textos desta obra podem ser lidos como unidades autônomas, que valem por si mesmas (como se fossem contos), mas também podem ser lidos feito capítulos de um romance. Trata-se portanto de uma obra muito flexível, de intenso hibridismo, que se vale de outro tom, muito próximo ao da crônica. Este surge por meio do registro sobre o cotidiano, que vem a ser uma das marcas incontestáveis desse gênero. Com um discurso muito afeita à oralidade, o narrador lembra de amigos, família, festas na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de 1.º de Maio, a piscina de Coca-Cola e a novela brasileira Roque Santeiro. Com essas memórias entre o ficcional e o biográfico, Ondjaki nos leva à reflexão sobre nossas próprias particularidades, de nosso passado e de nossas lembranças sobre um período de descobertas e brincadeiras. “A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (...).”

ISBN: 9788560160235
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 168 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007


MORDER-TE O CORAÇÃO
Patricia Reis
Editora: Língua Geral

RESENHA

Em "Morder-te o coração" há muitas tentativas para compreender o amor, o desejo, a fuga, o medo; tenta-se compreender sobretudo a procura do sexo com mais-valia de calor humano que nos protege e nos defende da solidão. Encontros e desencontros de sentimentos, de vontades e de decisões mapeiam o novo romance de Patrícia Reis, escritora portuguesa que tem mais de um romance lançado pela editora Língua Geral e que é, em Portugal, um dos maiores sucessos de público e crítica neste ano. "Morder-te o coração" traz as lembranças de um homem por um amor de verão; seus sonhos e desejos com uma mulher misteriosa, calada e que ele acreditou amar. O romance revela a desilusão deste homem após a fuga do seu amor, a busca por ela em todos os cantos do mundo (de uma ilha portuguesa a Veneza) e até mesmo em outra mulher, na nova vida que tenta levar na cidade fria de Estocolmo, onde seu único desejo é ter alguém para abraçar todos os dias. Através desta segunda personagem ele se envolve num triângulo amoroso, uma fuga da solidão, o sexo como instrumento de sobrevivência. Após ver o rosto da mulher amada na internet, ele foge e deixa para trás o abraço de todo dia, a amante, em busca do seu amor, na tentativa de refazer a vida, de ir atrás daquele que acreditava ser seu destino. "O amor visto por um homem em o poder e a dor das coisas maiores", aforma a autora Patrícia Reis. Histórias de sexo, amantes que se entrelaçam com lembranças da infância, da mulher misteriosa que recorda a perda da mãe, do alcoolismo do pai, as mentiras, a paixão epla fotografia e a tentativa de suicídio. Patrícia Reis apresenta uma narrativa que alterna histórias de cada personagem, histórias divididas que dialogam entre si.

ISBN: 9788560160129
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 162 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

À LUZ DO INDICO
Francisco Jose Viegas
Editora: Língua Geral

RESENHA

As lembranças da antiga cidade colonial de Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique) num período anterior ao processo de independência, a busca de Miguel por Maria de Lurdes e a inquietude de um assassinato logo nas primeiras páginas caracterizam A luz do Índico, novo romance do escritor português Francisco José Viegas. Vinte e sete anos depois de ter saído de Moçambique, em 1973, Miguel retorna à cidade de Maputo, onde teve seu primeiro amor, Maria de Lurdes. Este retorno de Miguel à cidade de Maputo traz consigo a busca por esta mulher, que ele não vê há cerca de dois anos. Conseqüentemente encontra Pemba, Nampula, o lago Niassa, entre outras localidades de Moçambique. Revela-se então um país totalmente modificado e revirado pela guerra. Um território diferente do que a memória apresentava para Miguel. A narrativa romântica da busca por Maria de Lurdes é entremeada pelo estilo policial que se inicia nas primeiras páginas, com o assassinato de Gustavo Madane, ex-homem forte do regime marxista, que aparece morto nos arredores de Maputo. Durante a viagem, Miguel reencontra Domingos Assor, companheiro de infância e agora investigador policial, responsável pela investigação da morte de Madane. Domingos lhe serve como interlocutor na sua busca por Maria de Lurdes e a partir desse diálogo surge a imagem de uma intensa solidão, resultado de um país com um passado glorioso e um presente devastado.

ISBN: 9788560160204
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 273 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

RIO DOS BONS SINAIS
Nelson Saúte
Editora: Língua Geral

RESENHA

Depois de O homem que não podia olhar para trás, lançado pela Editora Língua Geral e que faz parte da coleção Mama África, voltada para o público infato-juvenil, o moçambicano Nelson Saúte apresenta agora uma literatura um tanto singular. Em Rio dos bons sinais, seu novo livro de contos, a morte permeia todas as histórias, e a realidade e a ficção caminham lado a lado. Eufrigino dos Ídolos, o homem que ia a todos os funerais com seu guarda-chuva amarelo, o enterro da bicicleta do popular deputado que tinha nove filhos, o ministro de Deus, a aldeia dos homens sem sombra, a vovó Mafaduco e a Menina dos Prazos são alguns dos curiosos, batalhadores e cativantes personagens que compõem os enterros, funerais e o luto que servem como cenário para a obra. “Este é um livro de ausências. Sem grandes gestos, grandes batalhas, grandes epopéias, sem grandiloqüências ou arroubos filosóficos. As grandes aventuras estão no quintal da nossa casa, raramente nos horizontes exóticos e são os nossos olhos gulosos buscando o infinito que nos levam para o vazio dos gestos históricos”, afirma o também moçambicano Ruy Guerra, na orelha do livro. Em Rio dos bons sinais, que integra a coleção Ponta-de-Lança, Nelson Saúte apresenta a relação com os mais velhos, a morte sob diversos ângulos, o que também revela as particularidades da cultura africana. No cenário da morte e do luto, Nelson revê os conceitos, a pobreza, o amor, a amizade, recorda a infância e mostra que a morte é um fato da vida e que pode nos ajudar a compreender o que somos.


ISBN: 9788560160198
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 13 x 18 140 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2007
COLEÇÃO: PONTA-DE-LANÇA
ANO EDIÇÃO: 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Manuel Rui - A casa do rio


Novo livro do escritor angolano Manuel Rui, A Casa do Rio. Manuel Rui estará presente no III Encontro Internacional de Professoras de Literaturas Africanas, participará da palestra de abertura ao lado de Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e João Melo. Onde? Fundação Biblioteca Nacional. Quando? 21/11, às 11h.
Riso


Começaram a almoçar e Antero recontou à mais-velha a sua saída, obrigado e mandado pelo administrador do Posto do Chipindo e ainda ela quis saber da vida no Puto, que ainda tinham lá um parente nas obras que mandara uma carta em mãos, a falar que viria de férias. Antero quase não ouvia nada e, nas piadas, exagerava no riso para, de cabeça baixa, sentir as lágrimas a misturarem-se nos lábios com a comida que nem saboreava. Era melhor não avançar nada sobre a casa, tanto mais que não seria ali o lugar, bem altaneiro, e a casa era numa baixa, sopé das serras. Mas, para não esquecer, adiantava entregar o recado ao irmão e só depois de almoçados, aí sim, a factura para a motorizada.
«Paquito. Guarda esse bilhete no bolso. É dos teus sobrinhos.»
«Já foi há muito tempo, mas soube que o mano Gandi morreu. Mas também sei que a madrinha, a mãe, está viva, mas o mano não trouxe fotografias dos meus sobrinhos?»
«Não trouxe, desculpa foi tudo à pressa e ainda graças ao primo Juca. Nem hoje. Há tempo para te contar como vim parar aqui. Quer dizer, tinha que vir. Mas vou-te mandar as fotos que não vamos perder mais o contacto.»

Género(s): Literatura/ Ficção/Romance
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 340
Peso: 400 g Colecção: «Outras Margens», n.º 67
Código: 93.067
ISBN: 978-972-21-1894-1
1.ª edição: Setembro 2007
Preço: 14,70 €

Mia Couto: Idades Cidades Divindades

Novo livro de poesia de Mia Couto.
http://www.editorial-caminho.pt/
Idades Cidades Divindades
Mia Couto

Idades Cidades Divindades é uma das raras incursões deste autor na poesia, colocando ao serviço do verso todos os reversos de que a sua língua particular se veste, reveste e tresveste, sempre com uma admirável acutilância na forma de ler o mundo.

Género(s): Literatura/ Poesia
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,4x21 cm
Páginas: 126
Peso: 156 g Colecção: «Outras Margens», n.º 69
Código: 93.069
ISBN: 978-972-21-1896-5
1.ª edição: Setembro 2007
30-09-2007.ª edição: Setembro 2007
Preço: 7,99 €
Lições

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
(Maputo, 2006)

Mia Couto: Idades Cidades Divindades (Lisboa: Caminho) » 2007 » pp. 27-28

Habana Blues

Habana Blues (2005)
Direção: Benito Zambrano
Elenco: Alberto Joel García Osorio, Roberto Sanmartín, Yailene Sierra, Tomás Cao Uriza, Zenia Marabal, Marta Calvó, Roger Pera.

Um filme baseado na música cubana traz logo à mente o belo Buena Vista Social Club, com suas salsas, merengue e tais de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e outros. Uma Havana que podemos dizer folclórica. Felizmente, isto não acontece na película de Benito Zambrano, Habana Blues, que retrata a cena underground contemporânea de Havana, com muito rock, reggae, rap, heavy metal e outras misturas (Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga, do Planet Hemp, lembra? É por aí.) em meio à amizade de dois músicos que vêm seus caminhos sendo separados quando aparece a oportunidade de deixar o país e tocar no exterior.

Tito (Roberto Sanmartin) e Ruy (Alberto Joel Garcia Osorio) são os personagens principais de um filme que possui caráter quase documental ao apresentar os sons feitos pela juventude e a decadência do país. A partir do convite feito por uma dupla de produtores espanhóis, que pretende levá-los para a Espanha, os dois amigos percebem a esperança de vencer na música, sair da ilha e ter uma vida com mais liberdade e sem a miséria que ronda suas vidas.

Contudo, a proposta é baseada em condições que prendem os artistas ao contrato: receberão uma pequena porcentagem, terão que mexer nas músicas e, no exterior, deverão fazer propaganda anti-castrista, ou seja, tornar-se-ão escravos de um capitalismo feroz. A partir daí, os dois amigos ficam com a amizade abalada pela escolha de diferentes caminhos. Tito é jovem, solteiro, detesta as condições de vida oferecidas pelo sistema político cubano. Sente-se sufocado pela falta de liberdade e pelas dificuldades financeiras para produzir música e sobreviver. Enquanto Ruy tem um relacionamento conturbado, próximo da ruptura, com a esposa Caridad (Yailene Sierra), mãe de seus dois filhos, que não agüenta a incerteza da vida de Ruy.

O filme mostra o dilaceramento das vidas de uma geração que presencia o pior momento do socialismo em Cuba, que não possui mais a ajuda financeira da extinta União Soviética e sofre com o perverso bloqueio econômico norte-americano. São pessoas que sentem que suas vidas serão desperdiçadas enquanto estiverem na ilha, tendo que agüentar a falta de energia, bicos que podem envolver contrabandos para aumentar os parcos salários, o telefone comunitário, a cidade em ruínas.

A condição insular só piora a situação dos personagens. Caridad resolve abandonar Ruy e encarar o perigo de uma viagem clandestina rumo a Miami com seus filhos. Tito, desesperado com a recusa do parceiro em ir para a Espanha, briga com o amigo e ameaça denunciar os produtores espanhóis caso a viagem seja cancelada. E Ruy, perdido e confuso com os recentes acontecimentos, vivencia a contradição de continuar com a sua carreira incerta no país, a vontade de partir, mas sem se vender à exploração capitalista, pois como diz: “Eu já traí muita gente na vida, mas minha música não”, além da impotência em reconquistar a esposa e nada fazer para impedir a viagem. Com tudo isso acontecendo com as pessoas mais importantes em sua vida, agarra-se ao show de lançamento da banda em um teatro decadente de Havana, tentar aparecer no cenário cubano e, assim, permanecer no país.

O problema é que o personagem de Ruy é indeciso, um tanto estranho. Aceita com passividade que sua mulher vá para os EUA com seus filhos. Mesmo quando rompeu o contrato com os espanhóis, alegando que não serviria ao neoliberalismo, não apresenta em outras passagens maiores preocupações políticas. E o seu desejo de sair não é tão forte quanto o de Tito. Ruy talvez retrate bem os jovens de hoje.

Ao expor as contradições de uma juventude desencantada com o país, Benito Zambrano realizou um filme comovente e triste que denuncia a situação atual de Cuba. Contudo, não apresenta alternativas à realidade cubana, fica apenas nas imagens de pobreza e decadência da cidade e no vazio da existência indefinida de Ruy. O que não deixa de ser um sentimento típico dos jovens dos países periféricos, que percebem seus países assolados pela corrupção, miséria, violência e distopia. Mas o que fazer diante de tanta desilusão?

Riso

João Tala: Lugar Assim

João Tala é um representante da novíssima geração de poetas angolanos, tendo publicado seu primeiro livro, A forma dos desejos, ganhador do Prémio Primeiro Livro da União dos Escritores Angolanos em 1997. Desde então publicou O gosto da semente (2000), que recebeu menção honrosa do prêmio literário Sagrada Esperança/2000, A forma dos desejos II (2003), Lugar Assim (2004) e A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos (2005).

Nascido em Malanje, em 19 de Dezembro de 1959, iniciou suas atividades literárias na década de 80, quando morava em Huambo e fazia o serviço militar. Nessa época, fundou a Brigada Jovem de Literatura Alda Lara e entrou na Faculdade de Medicina. Como médico, trabalhou na Lunda Norte e em Luanda. Chegou a estudar (ou estuda – não posso afirmar) medicina interna no Brasil.

O primeiro contato que tive com a poesia de João Tala foi na antologia de poesia angolana contemporânea publicada na Revista Poesia Sempre nº 23 (Fundação Biblioteca Nacional) e, posteriormente, em uma aula sobre Literatura Angolana, ministrada pela Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha. Foram dois momentos de encantamento com a força poética do autor. Faltava um contato maior com a obra do poeta, ou seja, um livro. Até que consegui Lugar Assim.

A geração literária de João Tala, nascida no pós-independência angolano, é marcada pela desilusão com os caminhos trilhados pela história recente país. A amargura, a dor e a melancolia são temas constantes entre seus contemporâneos, justificado pelos longos e sangrentos anos de guerra entre o MPLA e a UNITA, somente encontrando a paz em 2002.

Os referidos temas já eram trabalhados pelos escritores angolanos desde os anos 1980, época em que começa a ocorrer um processo de desencanto com a não realização das promessas da revolução. O poeta e crítico literário Luís Kandjimbo define os poetas do período como a geração das incertezas, nome de acordo com as indefinidas trajetórias da política e da situação social de Angola. Alguns nomes relevantes que despontaram à época são os de João Melo, Paula Tavares, José Luís Mendonça, Lopito Feijoó, Conceição Cristóvão, entre outros. Tais poetas apresentam novas formulações temáticas e estéticas, aprofundando o caminho iniciado pelos três principais nomes do lirismo angolano dos anos 1970, Arlindo Barbeitos, David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho.

Nos anos 1980 cresce a heterogeneidade da poesia angolana. Segundo Carmen Lucia Tindó Secco:

“A poesia dos anos 80, e também a dos anos 90 têm, como traço constante, a temática da decepção e da angústia diante da situação de Angola, que ainda não resolveu completamente a questão da fome e da miséria. As dúvidas em relação ao futuro interceptam as possibilidades entreabertas pelos ideais libertários dos anos 60, e a poesia se interioriza, não se atendo explicitamente às questões sociais.” (CHAVES, 2006, P. 94)

A melancolia desses anos passa por todos os anos 1990, com o desespero da longa guerra e caos social que se instala no país, entretanto, como assinala Carmen Lucia Tindó Secco, “observamos que a poesia dessa fase nunca deixou de se oferecer como força geradora de utopia, pois os poetas continuaram a crer no poder transformador da linguagem poética”. (Idem, ibidem, p. 101)

Em Lugar Assim, a distopia angolana é tratada em poemas que fazem da metalinguagem a sua principal fonte para combater o dilaceramento social e os sonhos esgarçados do país. Sobre João Tala, Tindó Secco comenta que “a crença no gume das palavras e na raiz da própria poesia transferiu os sonhos para o universo dos poemas, o que fez com que a literatura e as artes em geral se tivessem constituído em locais privilegiados de resistência”. (Idem, ibidem, p. 99)

Os poemas do pequeno livro são divididos em três partes: Economia, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, e Remendos da Memória, que, de certa maneira, ligam-se entre si pelas referências à palavra, a inspiração para os diversos assuntos versados pelo eu-lírico, como o desejo por palavras sem as cicatrizes causadas pelo horror da guerra:

Os dias fundam breves caminhos sobre as palavras.

Não reclamo palavras economizadas,
a grande fortuna, não.

(Nem uma imagem profunda nem
um abismo em nós.)

Não reclamo palavras estafadas ou
mesmo ressentidas, marcadas de novas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[cicatrizes, não
Apenas reclamo palavras de redenção
guardadas entre as revoltas.
(Lugar Assim, p. 11)

O problema dos deslocados de guerra, que eram povos do interior obrigados a abandonar suas cidades, é denunciado no poema:

“(...) A certeza da incerteza é um desvio demográfico,
Imaginação metódica duma população aos pulos.
Brevemente, num só começo, somos possíveis celeiros
- corpos duma geometria fugaz onde medra o grão.”
(Ibidem, p. 12)

Em Economia, os poemas são metonímias daquilo que não há, da ausência que paira na atmosfera social angolana. A revolta com o esfacelamento do país é apresentado na dificuldade em revelar o que é visto:

“o mínimo que posso pronunciar é uma palavra pontilhada,
um grão. talvez uma pupila que ninguém abriu.
sedentos de enigmas configura-me rosto de estio, esta secura
ajusta-se às minhas palavras através desta face enchida de
olhos veementes em sinal de fogo. o fogo posto na carne.”
(Idem, p. 13)

O eu-lírico indigna-se com a realidade vivenciada pelo oprimido, toma partido e faz do poema espaço de resistência contra a opressão, em rabiscos (gatafunhos) desmascara o silêncio:

“Demasiado o verso fulcral em bocas de traumatizados
são lágrimas devotas o diálogo sem pão;
volto aos problemas, puxo a língua do oprimido e
com a caneta verbal o debate repousa
nos seus enormes olhos tempestuosos, achados na
política geral de meus gatafunhos. – A gíria das bocas
em rebelião.”
(Idem, p. 14)

Nos poemas da segunda parte, Mãos Textuais e o Corpo da Palavra, a metalinguagem aprofunda-se. O ato de escrever torna-se o espaço libertador, o eu-lírico convoca o leitor para fazer poesia. Poesia como alento em “a vida é um vício lírico”:

“Um lápis traçará caminhos e parábolas fecundas;
um lápis vigia-se pelos escombros;
as letras do pensamento são do olvido pessoas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[paradas e fatigadas.
têm secretas mensagens com as mãos na
notícia. pega um lápis ensina a sofrer.
toca a escrever poemas.
com as mãos na notícia.
não pode haver outra noite impedida
de nos encher a boca.
(onde é que a intimidade tacteava o chão?)
toca a escrever poemas, minha gente,
há que encher o bairro.
com as mãos na notícia.
Senão a vida será um vício alírico.”
(Idem, p. 24)

A desilusão e a amargura com o quadro político angolano são demonstrados nos versos de “muitas palavras”. O dilaceramento dos ideais causado pelo desencanto com as promessas políticas é o alimento para a distopia:

“As mesmas palavras largadas ao chão cheias de
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
As mesmas palavras esquecidas largadas nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[caminhos.
Palavras boçais repletas de tempestades.
Palavras insatisfeitas repetidas nos comícios
febris palavras convulsivas palavras complicadas
palavras vazias destemperadas incertezas;
o tédio das palavras muitas palavras!
Todas essas palavras como nos ofuscaram
ninguém mais se lembra. Esquecemo-las nos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[comícios.
Nunca mais lhe daremos o valor da palavra
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[humana
com nossas vidas lidas nos comícios. Nunca mais.”
(Idem, p. 29)

O esfacelamento da dignidade da palavra é de extrema gravidade em culturas que possuem sua transmissão de conhecimento pela oralidade, a descrença na palavra foi o que fizeram os governantes e seus opositores em Angola no pós-independência motivados por fatores da Guerra Fria e posteriormente pelo neoliberalismo, e fraturaram ainda mais as tradições das etnias angolanas.

Na poesia de João Tala a palavra e o corpo estão em processo constante de metamorfose, num delírio surrealizante na confecção do poema que acompanha as realizações do cotidiano do poeta, suas angústias apresentadas em mãos textuais:

“É uma ortografia tangível memória habitável
os seus passos de líricas;
é de palavras assim que assino o homem;
enche o tempo e os cadernos do tempo;
de alma em barro confecciona pequenos dias
de longas líricas, o meu poeta.
Quem o escuta?
Cabe na minha ortografia como a saudade da
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[palavra;
É um pequeno deus de coisas líricas.
De palavras assim o homem explode a
roda ortográfica tangível – alma da gente;
ou como entendia a notícia de mãos textuais
no corpo da palavra.”
(Idem, p. 30)

Os versos de Remendos da Memória buscam recompor as tradições devastadas. Os sonhos esgarçados por séculos de colonização e guerras e tentam se reagrupar no poema, que canta o fim de um longo período sombrio de feridas cicatrizadas na memória. Para tanto, deve-se recorrer aos valores tradicionais, ao velho tambor (ngoma) e, assim, recomeçar a sonhar com a paz recentemente conquistada:

“Ah! ficaram apenas os túmulos como cicatrizes do olhar.
em que país os olhos são apenas cicatrizes?
não direi nada a humanidade despede-se dos túmulos
os soldados dizem não à guerra por direito próprio.
o meu ngoma sucumbe pela noite pálida o meu Ngoma
é o único instrumento vegetal que realiza o sonho.”
(Idem, p. 39)

Para concluir, percebemos que os poemas de Lugar Assim apresentam a falta de perspectiva com a realidade social de Angola, todavia, João Tala, apesar do amargo de boa parte do livro, ainda assim escreve versos que valorizam a linguagem poética como espaço de resistência da utopia. Com isso, ele segue a tradição lírica angolana de crer em um futuro próspero e justo para um país em construção.

Riso


Outros poemas de Lugar Assim

ONDE ESTÁ O MEU POEMA?

estão aonde os versos da morte, lágrimas do
meu tempo?
eu não sei nem os redigi do pão, da água ou da
mentira.
porque o meu poema cumpre-se a si, é um
corpo fatigado,
temor das esperas.
uma simples conversa não me leva a nada.
o meu poema também é tempo, calor de
gemidos,
musa de línguas ao sol, sons ao faro. lábios
suados.
o meu poema, é assim a rosa palavra de um
rosário.
(Idem, p. 22)


CONSTRUÇÃO DE IDEIAS

Na várzea do texto imploro fundamentos
dum corpo a encher o tempo.
É uma lei como edifício no tempo.
Como entender a notícia de mãos textuais
no meu temperamento?
O rebento dessa notícia é uma crónica
edificada com as mãos no texto.
O benefício será sentir de pensamentos
e outra várzea a tactear bocas do mundo.
Bocas somente no dorso das mãos construtivas.
Com mãos assim toca a encher o Tempo.
(Lugar Assim, p. 26)


O ROSTO IDO(OSO)

Não mais prometo o rosto sem paisagem.
Quero sorrir-me dentro de ti.
E da prevalência de um mundo de dias guardados
o crepúsculo dos sentidos enrugado como
a voz que de súbito é uma caverna;
como o coração de súbito é uma campainha.
(Idem, p. 37)


RIOS DE NÓS

(estes rios fogem de dentro de nós e fora são
promessas de volta ao tempo.
sem passado, eles dirigem-se ao futuro.
do presente só um refresco, minha kota,
só mesmo um refresco da mesma água que
nos lava o corpo; da mesma água que nutre os pastos.)
(Idem, p. 41)


O DAVID MESTRE, RECONHECIDAMENTE

Foste de memória mais longe do que fará a morte.
Grande poeta! Grande pensamento. Sobre o teu
continente múltiplo marcavas o rosto da palavra.
Era esta a fortuna de palavras e ressaibos quando
as mãos fragmentavam o próprio suspiro/estilo?
Assim concluías a jornada: limpo mudo severo.
Qualquer poema traz-te da semente de volta ao chão;
por isso, David, vou já levantar-te do primeiro tambor.
(Idem, p. 45)


LUGAR ASSIM
(para o José Luís Mendonça)

Dizei-me a fúria dessa áfrica que é uma Árvore.
Tempera a voz negra dizei-me um lugar assim.
Na balbúrdia de uanga a palavra respirar.
E onde pensar estrelas a Noite que me acoite.
Dizei-me a Árvore, um ébano me faz igual.
E chegadinho ao crepúsculo só a cor das queimadas.
E a luzir os dedos, as mãos acenam vazias, caricatas.
Como poderei tocar palavras respiradas.
África orgásmica, existe mesmo lugar assim?
(Ibidem, p. 48)



Bibliografia:

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Sendas de sonho e beleza (algumas reflexões sobre a poesia angolana hoje). In: CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (Orgs.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

TALA, João. Lugar Assim. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

III Encontro de Professores de Literaturas Africanas – Pensando África: Crítica, Ensino e Pesquisa

Divulgada a programação do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas – Pensando África: Crítica, Ensino e Pesquisa. Nomes importantes dos cinco países africanos estarão presentes como Luandino Vieira, Manuel Rui, João Melo, Luis Carlos Patraquim, Nelson Saúte, Ondjaki, Vera Duarte, Paula Tavares, Odete Semedo, Ana Mafalda Leite e outros mais. Além de professores e críticos: Russel Hamilton, Pires Laranjeira, Terezinha Taborda, Marli Fantini...

A seguir os links do evento:
Programação:
http://www.letras.ufrj.br/pensandoafrica/index.php?option=com_content&task=view&id=12&Itemid=20


Página inicial:
www.letras.ufrj.br/pensandoafrica

No dia 22/11/2007, às 13h, Prédio da Faculdade de Letras (Ilha do Fundão), apresentarei minha comunicação.
MESA 35
LOCAL: sala H 311
COORDENADORA: Viviane Mendes de Moraes (UFRJ)
Viviane Mendes de Moraes (UFRJ) - Guita Jr. e Manuela Cruz: memórias, sonhos e incertezas moçambicanas
Fábio Santana Pessanha (UFRJ) - Geogonia de Duarte Galvão
Ricardo Silva Ramos de Souza (UFRJ) - Letras e desenhos encarcerados: a reclusão libertadora na arte de José Craveirinha e Malangatana Valente

Aqui, mais uma vez exponho meus agradecimentos especialíssimos à Profa. Dra. Norma Lima, por ter me inserido nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, à Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, pelos livros, e-mails, convites para defesas de teses, aulas e para ministrar palestras, à Profa. Dra. Maria Teresa Salgado, à Profa. Dra. Simone Caputo Gomes. Aos professores e amigos Claudia, Cláudio Capuano, Gisela, Silvinha, Lygia Santos, Fernanda, Lucia Matos, Rosemary Granja, Cláudia Breviário, Stowasser, Mauricio do Carmo, Sabrina, Iasmin, Cristina e tantos outros (a lista é grande!) que me apoiaram até hoje. Toda a força do mundo! Sempre!