Volpi, Contente, Ivens Machado, Edmílson Nunes, Victor Arruda, Auto-retratos do Brasil e Rubem Valentim: breve panorama da arte brasileira no Paço Imperial e Centro Cultural Correios
As exposições no Paço Imperial e Centro Cultural Correios, ambos no Rio de Janeiro, são uma oportunidade de termos uma amostragem dos caminhos percorridos pela arte brasileira no decorrer do século XX e início deste.
Comecemos pelo mais velho: Alfredo Volpi. A exposição consta com quase cinqüenta trabalhos da coleção Diógenes Paixão, que tem como característica a maioria das pinturas em pequeno formato – 24 x 33 cm –, mas que em nada diminui o lirismo e o encantamento proporcionado pelas telas de Volpi.
Estão lá as tradicionais bandeirinhas ilustradas nas fachadas, ogivas e marinhas. Impressiona-me como o artista recriou o tema no decorrer de sua longa trajetória, levando-se em conta que as pinturas da coleção de Paixão foram realizadas entre os anos de 1974 e 1984, época em que o colecionador adquiriu as obras, no auge da arte conceitual e na posterior retomada da pintura nos anos 80, com a Geração 80 carioca.
O que quero dizer é que Volpi manteve uma trajetória coerente, não se desprendendo do tema popular que elegeu como inspiração; suas bandeirinhas sempre estiveram presentes, mesmo quando flertou com a arte geométrica dos concretos e neoconcretos paulistas e cariocas nos anos 1950. Passou pela pop, minimal e todas as vanguardas surgidas na virada dos anos 1960/70. E Volpi não abandonou a pintura. Volpi não desprezou as suas populares bandeirinhas para embarcar nos discursos conceituais e/ou marxistas da época. Volpi permaneceu fiel às suas características. E foi nessa insistente pesquisa, fiel à têmpera também, que Alfredo Volpi construiu uma obra repleta de lirismo, suavidade e beleza, com uma diversificada paleta cromática, rara entre os pintores brasileiros, e tornou-se uma referência em nossa arte.
A mostra de Ivens Machado no primeiro andar do Paço, chamada “Acumulações”, choca-nos pela brutalidade dos materiais que formam suas esculturas. Esqueçam qualquer aparência naturalista ou expressionista caso dirijam-se a esta exposição. O caminho escultórico de Ivens Machado percorre outras trilhas que desconcentram olhares delicados em busca do belo.
Na contemplação incômoda de suas obras, não há como não recordar das imensas esculturas de Richard Serra que desafiam a gravidade e causam um estado permanente de desassossego no observador. Lembraremos, sobretudo, da arte povera italiana, em razão da união entre materiais industriais e o que consideramos resto, como pedras e carvão.
Em sua maioria, objetos do mundo industrializado são os materiais que formam suas obras. O artista usa cimento, madeiras, ferros, pedras, redes de aço, ou seja, materiais embrutecidos e de agressivo aspecto contidos em áreas demarcadas, pressionados, num estranho exercício de convivência, porém prevalecendo suas diferenças. Torna-se inevitável não pensar em choque, ou como muito bem expressa o crítico de arte Luiz Camilo Osório no catálogo da exposição:
“os materiais se juntam sem que se misturem; apostam no risco da convivência como se cada um deles fosse uma força contrária à adequação na unidade. Cada matéria mantém a sua personalidade, afirma sua diferença no contexto, na tensão e no abandono. As esculturas de Ivens na secura bruta dos materiais, recusam qualquer facilitação do apelo sensorial, tudo nelas é exterior e silencioso.”
É uma exposição que vale pela inquietação que tais obras nos apresentam: quietas, ásperas, rudes, monumentais. E confirmam o caminho singular traçado por Ivens Machado na escultura brasileira, tornando-o um importante artista em nossa arte.
Empolgo-me toda vez que sei de uma nova exposição de Carlos Contente. Recordo das primeiras impressões diante de suas carinhas carimbadas repetidas à exaustão por todos os lados no Parque Lage e nas ruas da Lapa. Lembro de discutir com a Ilana a semelhança com os hieróglifos urbanos do artista norte-americano Keith Haring, de intervir no espaço e tal.
Contente é um artista inquietante e faz da repetição de suas carinhas, que beira o infinito, uma de suas marcas registradas, além da fina ironia ao questionar os rumos e condutas adotados pela arte contemporânea, seus artistas, curadores, críticos e apreciadores.
Na exposição “Contente: autos-retratos também” deparamo-nos com um misto de intervenção/instalação carregado na sua cada vez melhor verve irônica. Paredes pichadas com suas “teorias” sobre arte, catálogo satirizando uma marca famosa e explicando sua origem, crítica à sociedade de consumo, caderninho de anotações, banco pichado... são tantas as referências em uma única sala... Ele cita explicitamente a “action painting”, movimento capitaneado por Jackson Pollock no pós-guerra, mas prefiro pensar nos grandes nomes dos anos 1980 do neo-expressionismo americano. Falo do já citado Keith Haring (inclusive com um caderninho do próprio) e seu amigo Jean-Michel Basquiat.
Uma sala toda ocupada com a arte inconformada, incômoda e inquietante de Contente. Uma exposição que mexe com o nosso senso diante de todo o escracho inteligente ilustrado. Para encerrar, um comentário do artista:
“E a partir do momento que comecei a pensar repetidamente no termo ‘arte agora’: mais tarde estaria associando à contemporaneidade.
Daí viria a desenvolver o termo ‘zoation painting’, ou ‘pintura de zoação’, em 2002. Uma referência à ‘action painting’, mas agregando novos elementos como a avacalhação e a alegria de viver.”
A mostra “Auto-retrato do Brasil” traz um imenso painel com cem auto-retratos de alguns dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Vale pela surpresa em identificar os artistas por seus traços e materiais característicos, como Beatriz Milhazes, Rubens Gerchman e Gianguido Bonfanti, ou pela surpreendente descoberta de que tal trabalho foi produzido por tal artista, como as telas de Daniel Senise e Antonio Manuel. É uma atividade lúdica e satisfatória diante da qualidade dos trabalhos apresentados. Além dos citados estão presentes Iole de Freitas, Luiz Zerbini, Antonio Tostes, Amílcar de Castro, Siron Franco, Carlos Vergara, Cabelo, Tomie Ohtake e tantos outros significativos nomes.
É gratificante quando entramos em uma sala e percebemos a força e constante renovação da pintura no decorrer de tantos séculos de atividade, em um mundo infestado por imagens que se renovam a cada instante. Esta alegria de ver ótima pintura é o que motiva e obriga a visita à exposição “Pinturas extemporâneas”, de Victor Arruda.
Contemporâneo da “Geração 80”, geração que afirmou pela milésima vez a vitalidade da pintura, Arruda apresenta telas em grande formato com grande riqueza temática e várias referências às vanguardas que movimentaram o século XX.
Na primeira sala vemos quatro telas em reduzida paleta de cores, com predomínio do preto, branco e cinza, além da impactante citação à pop art, à solidão humana, e ao surrealismo, prestando tributo ao célebre trabalho de René Magritte, “Golconda”, aquela das figuras humanas suspensas no espaço.
As obras seguintes apresentam-nos um expressionismo voraz, gestualidade visceral, intensas cores e erotismo, carregadas em ironia e referências a grandes artistas e movimentos artísticos, como Picasso e o cubismo, Tarsila do Amaral, Marc Chagall e o neo-expressionismo dos anos 1980. Uma exposição obrigatória.
Já a mostra “Céu”, de Edmílson Nunes, encanta pela delicadeza, lirismo e sensibilidade do artista em lidar com panos sensíveis (alguns espalhafatosos), pintura e texto. Trabalhos que teriam tudo para tender ao kitsch em mãos menos habilidosas, apesar de manter um diálogo escancarado com ele. Entretanto, Edmílson Nunes é um artista experimentado, navega por tal caminho há anos, e não cairia nas armadilhas que porventura poderiam aparecer na confecção de suas obras. São trabalhos que levam os olhos a alçar vôos na magia proporcionada por tão singelas que são.
Ah! Nunes comparece com um belo trabalho na fraca exposição “A imagem do som do samba”, também no Paço Imperial, baseado na música “Coisinha do pai”, de Jorge Aragão. O artista optou pela ironia cheia de erotismo e aproximação com o kitsch.
Enquanto isso, caminhando um pouquinho até o Centro Cultural Correios, encontramos uma retrospectiva de Rubem Valentim. Com mais de cem peças, a exposição além de passar por várias fases do artista, ainda propõe diálogos entre a obra de Valentim e trabalhos de artistas como Pierre Verger e Alfredo Volpi. É exposição de altíssima qualidade, de um artista que soube universalizar os elementos da religiosidade afro-brasileira em um inovador diálogo com o construtivismo. Rubem Valentim é um dos melhores do século XX. Referência obrigatória.
Bom, as dicas foram dadas. Rubem Valentim ficará no Centro Cultural Correios até o dia 10 de fevereiro e as mostras do Paço Imperial ficarão até 24 de fevereiro.
Abraço,
Riso
Um espaço dedicado à literatura negro-brasileira, às literaturas africanas de língua portuguesa e demais literaturas negro-diaspóricas
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Breve panorama da arte brasileira no Paço Imperial e Centro Cultural Correios
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Tartarugas podem voar (turtles can fly)

O nosso cinema nacional anda esquecido em retratar o Brasil. Desde a chamada “retomada do cinema nacional” em meados da década de 1990 com filmes como “Carlota Joaquina” e “Terra Estrangeira”, que as películas produzidas por aqui apresentam certo marasmo e ilusão típicos de uma novela do principal canal de televisão, comandante do país. Felizmente, não foi o acontecido com os dois filmes citados.
Foi criado nesses quase vinte anos um cinema que ouso chamar de “cinema de evasão”. Um cinema frio, de estórias românticas paupérrimas, de alegria efêmera, rostos bonitos de atores globais que muitas vezes representam os mesmos papéis das novelas. Isso quando os filmes apresentam uma estética televisiva, caso do fraquíssimo “Olga”. E ainda querem chamar aquilo de cinema.
A hipocrisia que domina nossa sétima arte é tanta que anos atrás, o jovem Erick Rocha, filho de Glauber Rocha, lançou a pertinente polêmica “estética da fome”. Rocha criticava abertamente este cinema de espetáculo, completamente submisso ao poder estabelecido, que conseguia a proeza de filmar um sertão sem miséria. Basta lembrarmos de “Eu, tu, eles”. Reivindicava o retorno a um cinema contestatório e independente no campo das idéias como foi o nosso Cinema Novo, sem que isso refletisse um retorno ao desleixo técnico da época, mas que era utilizado dentro de uma estética pré-estabelecida com os parcos recursos a que tinham acesso.
Hoje, quase não vejo cinema produzido neste país. Ainda temos alguns raros exemplos de diretores que arriscam novas linguagens, planos imprevisíveis, estórias que não seguem necessariamente uma linha narrativa linear e finais felizes. Cito Claudio Assis, de “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, Beto Brant, de “O invasor”, “Crime delicado” e outros filmes impactantes, Matheus Nachtergale com “A Concepção” e, parafraseando meu amigo Luíz Horácio, mais uma meia dúzia de dois ou três. Ah! Não posso deixar de citar o recente e belo “Mutum”, de Sandra Kogut, baseado na obra de Guimarães Rosa.
Pior que não precisamos ir muito longe para termos contato com cinema de alta qualidade, é só assistirmos às produções argentinas que por aqui chegam. Sempre revisitando seu passado, sem medo e sem se entregar aos grupos dominantes que tentam ofuscar a História.
Bom, após esse longo desabafo, vamos ao que interessa. Para quem está acostumado com um cinema que não encara os problemas sociais, políticos culturais etc. do seu país, terá uma surpresa que provavelmente será angustiante e inquietante diante da co-produção iraniana-iraquiana “Tartarugas podem voar” (Turtles can fly), filme que passou no domingo último no Telecine Cult/NET.
O filme narra o cotidiano de um campo de desabrigados curdos em uma região fronteiriça do Iraque dias antes da invasão norte-americana comandada por Bush Filho. A população do referido abrigo é formada por velhos e crianças, pois os homens e mulheres em idade ativa foram mortos, em sua maioria, na primeira Guerra do Golfo, patrocinada por Bush Pai. Irônico, não?
Acompanhamos um grupo imenso de crianças liderado pelo adolescente Satélite, que além de líder é também o responsável pela manutenção das antenas parabólicas do vilarejo e atua como tradutor de inglês (apesar do péssimo inglês e ser admirador dos Estados Unidos) para os mais velhos, líderes da comunidade. Para o sustento de seu grupo de crianças órfãos e muitas mutiladas pelas minas espalhadas pelo território, Satélite organiza a captura dessas minas e posterior venda em mercados da redondeza.
O detalhe curioso é que os atores não são profissionais, as crianças são realmente órfãos e foi o primeiro filme produzido em solo iraquiano após a invasão norte-americana.
É desesperador ver crianças mapeando áreas minadas e desarmando essas famigeradas armas de destruição e morte. Assim é a guerra, faz com que as pessoas sobrevivam em contato constante com a morte, com aquilo que mata.
O filme mostra a miséria e abandono a que são submetidas as crianças. Fome, roupas esfarrapadas, estupros, morte, famílias dilaceradas, ódio e violência são os alimentos diários dessas crianças impedidas de sonhar, de sorrir, de brincar. São seres amargos, embrutecidos pela vida, crianças que prematuramente são obrigadas a amadurecer em um mundo envolto em desencanto.
A personagem traduz em seu olhar um mundo de desesperança, sofrimento e dor. Em sua curta vida presenciou o assassinato de sua família, foi estuprada pelos assassinos e carrega à contra-gosto a criança fruto dessa violência. Arredia, a menina mal consegue se comunicar com outras pessoas, mesmo sendo de sua idade como o apaixonado Satélite, e não sente nenhum apreço ou carinho pelo filho. Procura abandoná-lo a qualquer custo, idéia que não é compartilhada por seu irmão (médium e sem braços), responsável por tentar passar algum amor ao pequeno menino.
Vemos a tensão crescendo com a proximidade do ataque norte-americano, o vilarejo se preparando para o ataque a sua maneira, com pouquíssimas armas para a defesa e uma quantidade mínima de máscaras para os ataques químicos. A agitação do menino-líder é intensa, aos berros comanda suas crianças e tenta dar alguma ordem ao caos.
Enquanto isso a menina abandona seu filho em um lugar que julga ermo e parte para um desfiladeiro onde comete suicídio. Entretanto, o menino retorna e é encontrado em uma área minada. O desespero toma conta das crianças, Satélite vai ao socorro do menino, mas não consegue evitar a explosão da mina que mata a criança e o atinge gravemente.
Satélite fica alojado em uma carcaça de tanque de guerra abandonado. Logo em seguida, o ataque norte-americano é implacável e ocupa a região. Satélite olha para aquilo tudo com desencanto e parte, com muletas, na direção contrária a dos soldados norte-americanos.
Uma dentre várias questões ou várias questões em uma: quando o nosso cinema retratará o cotidiano das crianças que vivem nas favelas, cercadas por traficantes, policiais assassinos, pais alcoólatras e desempregados quando os há, mães sozinhas e ganhando uma ninharia para sustentá-los, esgoto a céu aberto, sem escola, sem posto de saúde, mas com medo, desesperança e morte? Ah? O quê? Ah, tá! O problema é deles, vagabundos que não querem trabalhar e defendem os traficantes. Tropa de Elite neles! Além do mais, não haveria papéis para Alemão, o padrão de beleza nacional, e Graze Massafera. E para finalizar, quem gosta de miséria é intelectual. Quem quer saber e ver desgraças?
“Tartarugas podem voar” está na grade do Telecine Cult/NET e também pode ser visto em DVD.
Foi criado nesses quase vinte anos um cinema que ouso chamar de “cinema de evasão”. Um cinema frio, de estórias românticas paupérrimas, de alegria efêmera, rostos bonitos de atores globais que muitas vezes representam os mesmos papéis das novelas. Isso quando os filmes apresentam uma estética televisiva, caso do fraquíssimo “Olga”. E ainda querem chamar aquilo de cinema.
A hipocrisia que domina nossa sétima arte é tanta que anos atrás, o jovem Erick Rocha, filho de Glauber Rocha, lançou a pertinente polêmica “estética da fome”. Rocha criticava abertamente este cinema de espetáculo, completamente submisso ao poder estabelecido, que conseguia a proeza de filmar um sertão sem miséria. Basta lembrarmos de “Eu, tu, eles”. Reivindicava o retorno a um cinema contestatório e independente no campo das idéias como foi o nosso Cinema Novo, sem que isso refletisse um retorno ao desleixo técnico da época, mas que era utilizado dentro de uma estética pré-estabelecida com os parcos recursos a que tinham acesso.
Hoje, quase não vejo cinema produzido neste país. Ainda temos alguns raros exemplos de diretores que arriscam novas linguagens, planos imprevisíveis, estórias que não seguem necessariamente uma linha narrativa linear e finais felizes. Cito Claudio Assis, de “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, Beto Brant, de “O invasor”, “Crime delicado” e outros filmes impactantes, Matheus Nachtergale com “A Concepção” e, parafraseando meu amigo Luíz Horácio, mais uma meia dúzia de dois ou três. Ah! Não posso deixar de citar o recente e belo “Mutum”, de Sandra Kogut, baseado na obra de Guimarães Rosa.
Pior que não precisamos ir muito longe para termos contato com cinema de alta qualidade, é só assistirmos às produções argentinas que por aqui chegam. Sempre revisitando seu passado, sem medo e sem se entregar aos grupos dominantes que tentam ofuscar a História.
Bom, após esse longo desabafo, vamos ao que interessa. Para quem está acostumado com um cinema que não encara os problemas sociais, políticos culturais etc. do seu país, terá uma surpresa que provavelmente será angustiante e inquietante diante da co-produção iraniana-iraquiana “Tartarugas podem voar” (Turtles can fly), filme que passou no domingo último no Telecine Cult/NET.
O filme narra o cotidiano de um campo de desabrigados curdos em uma região fronteiriça do Iraque dias antes da invasão norte-americana comandada por Bush Filho. A população do referido abrigo é formada por velhos e crianças, pois os homens e mulheres em idade ativa foram mortos, em sua maioria, na primeira Guerra do Golfo, patrocinada por Bush Pai. Irônico, não?
Acompanhamos um grupo imenso de crianças liderado pelo adolescente Satélite, que além de líder é também o responsável pela manutenção das antenas parabólicas do vilarejo e atua como tradutor de inglês (apesar do péssimo inglês e ser admirador dos Estados Unidos) para os mais velhos, líderes da comunidade. Para o sustento de seu grupo de crianças órfãos e muitas mutiladas pelas minas espalhadas pelo território, Satélite organiza a captura dessas minas e posterior venda em mercados da redondeza.
O detalhe curioso é que os atores não são profissionais, as crianças são realmente órfãos e foi o primeiro filme produzido em solo iraquiano após a invasão norte-americana.
É desesperador ver crianças mapeando áreas minadas e desarmando essas famigeradas armas de destruição e morte. Assim é a guerra, faz com que as pessoas sobrevivam em contato constante com a morte, com aquilo que mata.
O filme mostra a miséria e abandono a que são submetidas as crianças. Fome, roupas esfarrapadas, estupros, morte, famílias dilaceradas, ódio e violência são os alimentos diários dessas crianças impedidas de sonhar, de sorrir, de brincar. São seres amargos, embrutecidos pela vida, crianças que prematuramente são obrigadas a amadurecer em um mundo envolto em desencanto.
A personagem traduz em seu olhar um mundo de desesperança, sofrimento e dor. Em sua curta vida presenciou o assassinato de sua família, foi estuprada pelos assassinos e carrega à contra-gosto a criança fruto dessa violência. Arredia, a menina mal consegue se comunicar com outras pessoas, mesmo sendo de sua idade como o apaixonado Satélite, e não sente nenhum apreço ou carinho pelo filho. Procura abandoná-lo a qualquer custo, idéia que não é compartilhada por seu irmão (médium e sem braços), responsável por tentar passar algum amor ao pequeno menino.
Vemos a tensão crescendo com a proximidade do ataque norte-americano, o vilarejo se preparando para o ataque a sua maneira, com pouquíssimas armas para a defesa e uma quantidade mínima de máscaras para os ataques químicos. A agitação do menino-líder é intensa, aos berros comanda suas crianças e tenta dar alguma ordem ao caos.
Enquanto isso a menina abandona seu filho em um lugar que julga ermo e parte para um desfiladeiro onde comete suicídio. Entretanto, o menino retorna e é encontrado em uma área minada. O desespero toma conta das crianças, Satélite vai ao socorro do menino, mas não consegue evitar a explosão da mina que mata a criança e o atinge gravemente.
Satélite fica alojado em uma carcaça de tanque de guerra abandonado. Logo em seguida, o ataque norte-americano é implacável e ocupa a região. Satélite olha para aquilo tudo com desencanto e parte, com muletas, na direção contrária a dos soldados norte-americanos.
Uma dentre várias questões ou várias questões em uma: quando o nosso cinema retratará o cotidiano das crianças que vivem nas favelas, cercadas por traficantes, policiais assassinos, pais alcoólatras e desempregados quando os há, mães sozinhas e ganhando uma ninharia para sustentá-los, esgoto a céu aberto, sem escola, sem posto de saúde, mas com medo, desesperança e morte? Ah? O quê? Ah, tá! O problema é deles, vagabundos que não querem trabalhar e defendem os traficantes. Tropa de Elite neles! Além do mais, não haveria papéis para Alemão, o padrão de beleza nacional, e Graze Massafera. E para finalizar, quem gosta de miséria é intelectual. Quem quer saber e ver desgraças?
“Tartarugas podem voar” está na grade do Telecine Cult/NET e também pode ser visto em DVD.
Riso
TARTARUGAS PODEM VOAR (LAKPOSHTHA HÂM PARVAZ MIKONAND)Curdistão/Irã/Iraque/França, 2004
Direção, roteiro e desenho de produção: BAHMAN GHOBADI
Fotografia: SHAHRAM ASSADI
Montagem: MUSTAFA KHERQEPUSH, HAYDEH SAFI-YARI
Música: HOSSEIN ALIZADEH
Elenco: SORAN EBRAHIM, AVAZ LATIF, SADDAM HOSSEIN FEYSAL, HIRESH FEYSAL RAHMAN, ABDOL RAHMAN KARIM, AJIL ZIBARI
Duração: 98 minutos
Marcadores:
cinema,
crítica de filmes
sábado, 5 de janeiro de 2008
Mia Couto: uma brincriação

Arte digital - 28/01/2007
Fiz esta brincriação com a personagem Nãozinha de Jesus, curandeira e conhecedora das plantas medicinais, do conto "O adeus da sombra" do livro Estórias Abensonhadas (Editora Nova Fronteira), de Mia Couto, com as caixas de remédios da indústria farmacêutica.
A brincriação feita fala da pressão que a indústria farmacêutica exerce sobre os países periféricos e a propaganda para desacreditar o conhecimento ancestral das plantas de cura. Trata-se de uma questão que aparece com freqüência na obra de Mia Couto.
Riso
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
José Luandino Vieira - entrevista
O escritor angolano José Luandino Vieira concedeu uma entrevista ao jornalista Edney Silvestre no programa Espaço Aberto/Globo News.
José Luandino Vieira é a expressão máxima da literatura angolana. Publicou Luuanda, Nós, os do Makulussu, No Antigamente, na Vida, A cidade e a infância entre outros títulos.
Acesse o endereço abaixo:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM767804-7823-JOSE+LUANDINO+VIEIRA,00.html
Abraço,
Riso
José Luandino Vieira é a expressão máxima da literatura angolana. Publicou Luuanda, Nós, os do Makulussu, No Antigamente, na Vida, A cidade e a infância entre outros títulos.
Acesse o endereço abaixo:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM767804-7823-JOSE+LUANDINO+VIEIRA,00.html
Abraço,
Riso
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Luandino Vieira
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
João Tala: blog
Ao navegar pela internet em busca de textos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, encontrei o blog do poeta contemporâneo angolano João Tala, chamado blogtala74 - blog de literatura de joão tala, no endereço http://blogtala.blogspot.com/
Ali fiquei sabendo que o poeta esteve presente no recente III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na UFRJ, e, para minha grata surpresa, João Tala refere-se ao texto que escrevi sobre o seu livro Lugar Assim neste blog.
O texto do poeta está em:
http://blogtala.blogspot.com/2007/11/apreciaes-em-sua-mensageme-mail-de.html
O texto feito por mim está em:
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/10/joo-tala-lugar-assim.html
Abraço,
Riso
Ali fiquei sabendo que o poeta esteve presente no recente III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na UFRJ, e, para minha grata surpresa, João Tala refere-se ao texto que escrevi sobre o seu livro Lugar Assim neste blog.
O texto do poeta está em:
http://blogtala.blogspot.com/2007/11/apreciaes-em-sua-mensageme-mail-de.html
O texto feito por mim está em:
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/10/joo-tala-lugar-assim.html
Abraço,
Riso
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Mostra de filmes africanos no CCBB/RJ
OS SEMMENTAIS DE YENNENGA
Cinema
02 a 20 de janeiro de 2008
Senhas distribuídas gratuitamente 30 minutos antes de cada sessão.
Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
A África representa o rosto da diversidade cultural, comprovada mais uma vez com a exibição desta mostra, com obras que nos convidam a uma viagem através das realidades e sensibilidades africanas. Os filmes premiados pelo FESPACO ( Festival Pan Africano de Cinema e Televisão de Uagadugu) constituem etapas importantes nessa filmografia, graças à riqueza dos enfoques, a criatividade das narrações e a pertinência das reflexões.
O Ministério Francês das Relações Exteriores contribuiu enormemente para se fazer conhecer melhor o cinema africano ao realizar esta coleção dos grandes prêmios do FESPACO e fazer a criação cinematográfica africana alcançar um público mais amplo.
Os filmes foram digitalizados a partir de cópias antigas. Exibição em DVD.
Apoio: Cinemateca da Maison de France Ali Zaoua, de Nabil Ayouch. França, 2000, Prêmio de público, Amiens 2000.
http://www44.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr2/rj/DetalheEvento.jsp?Evento.codigo=32699&cod=2
Programação - Os Semmentais de Yennenga
De 02/01/2008 a 20/01/2008
• Dia 02/01 - quarta-feira
17h - As Mil e uma Mãos (75 min)
19h - Sarraounia (120 min)
• Dia 03/01 – quinta-feira
17h - Heritage África (110 min)
19h - História de um Encontro (80 min)
• Dia 04/01 – sexta-feira
17h - Finyé (105 min)
19h - Tilaï (81 min)
• Dia 05/01 – sábado
17h - Drum (104 min)
19h - Em nome de Cristo (82 min)
• Dia 06/01- domingo
17h - Buud Yam (99 min)
19h - Muna Moto (89 min)
• Dia 08/01 – terça-feira
17h - Guimba (93 min)
19h - Djeli (92 min)
• Dia 09/01 – quarta-feira
17h - Baara (93 min)
• Dia 10/01 – quinta-feira
17h - Ali Zaoua (90 min)
19h - En Attendant le Bonheur (95 min)
• Dia 11/01 – sexta-feira
17h - Djeli (92 min)
19h - Buud Yam (99 min)
• Dia 12/01 - sábado
17h - Identidade (97 min)
19h - Finyé (105 min)
• Dia 13/01 - domingo
17h - Em Nome de Cristo (82 min)
19h - As Mil e uma Mãos (75 min)
• Dia 15/01 – terça-feira
17h - Muna Moto (89 min)
19h - História de um Encontro (80 min)
• Dia 16/01 – quarta-feira
17h - Tilaï (81 min)
19h - Drum (104 min)
• Dia 17/01 – quinta-feira
17h - Guimba (93 min)
19h - Identidade (97 min)
• Dia 18/01 – sexta-feira
17h - En Attendant le Bonheur (95 min)
19h - Sarraounia (120 min)
• Dia 19/01 - sábado
17h - Muna Moto (89 min)
19h - Heritage África (110 min)
• Dia 20/01 - domingo
17h - Ali Zaoua (90 min)
19h - Baara (93 min)
Sinopses - Os Semmentais de Yennenga
De 02/01/2008 a 20/01/2008
Ali Kwika, Omar e Boubker são meninos de rua. Apesar das dificuldades do cotidiano, uma amizade indefectível os une. Ali é logo morto durante uma briga entre bandidos rivais. Seus três amigos agora terão um único objetivo: dar-lhe o enterro que ele merece. Dias 10 e 20.
As Mil e Uma Mãos, de Souhel Benbarka. França, 1971. Em Marrakech, o velho tintureiro Moha e seu filho Miloud transportavam pacotes fios de lã... assim começa a minuciosa tecelagem de tapetes vendidos no exterior e a labuta dos homens, mulheres e meninas. Dias 02 e 13.
Baara, de Souleymane Cissé. França, 1978. Um jovem camponês maliano trabalha como 'baara', isto é: carregador de bagagens em Bamaco. Um dia, faz amizade com um jovem engenheiro. Este passa a protegê-lo e consegue um emprego para ele na fábrica. Dias 09 e 20.
Buud Yam, de Gaston J-M Kabore. França, 1997. Prêmio Etalon de Yennenga, Fespaco 1997. Wend Kuuni foi encontrado quase morto na selva quando era criança e foi adotado por uma família. A vida em família decorre serena até o dia que Poghnéré, sua irmã adotiva, fica gravemente doente. Wend Kuuni parte em busca de um curandeiro lendário. Sai então de sua aldeia nativa e começa uma jornada que o conduzirá rumo às suas próprias raízes. Dias 06 e 11.
Djeli, de Fadika Kramo-Lanchiné. França, 1981. Dois estudantes marfinenses, Fanta e Karamoko, estão apaixonados e querem se casar. Nascidos na mesma aldeia, seus respectivos pais se conhecem bem. Mas Karamoko Kouyaté, filho de Griô, não pode casar com Fanta, filha de um descendente direto de famílias ilustres. Apesar do mundo em plena transformação, as famílias se opõem ao casamento entre seus filhos para preservar a tradição. Dias 08 e 11.
Drum, de Zola Maseko. França/África do Sul, 2004. Drum é um filme sobre a vida de Henry Nxumalo, jornalista de investigação famoso nos anos 50 em Sophiatown, bairro símbolo da resistência cultural em Joanesburgo. Ele trabalha para uma revista negra da moda, Drum, verdadeira arma de mídia na época. Durante esta época, toda uma geração de autores, críticos, músicos e jornalistas exigentes sul-africanos surgiu e exprimiu-se nessa resistência.
Dias 05 e 16.
Em Nome de Cristo, de Roger Gnoan M'Bala. França, 1993. Em uma aldeiazinha marfinense, vive um pequeno porqueiro desprezado por todos. Um belo dia, bebe demais e tem a visão de uma 'criança Deus' que o elege para salvar seu povo. Ele passa então a ser Magloire 1º, primo de Cristo e usa a sua eloqüência para impressionar a imaginação das pessoas e fundar uma seita. Dias 5 e 13
En Attendant le Bonheur, de Abderramane Sissako. França/Mauritânia, 2002. Prêmio da Crítica Internacional, Cannes 2002 e Étalon de Yennenga Fespaco, 2003. Abdallah, um menino, encontra sua mãe em Nouadhibou, cidadezinha da costa da Mauritânia, enquanto esperam para viajar para a Europa. Nesse lugar de exílio, cuja língua não entende, tenta decifrar o mundo que o rodeia. Dias 10 e 18.
Finyé, de Souleymane Cissé. França, 1982. Ganhador do Etalon de Yennenga, Fespaço 1983. Dois adolescentes malinenses, Bah e batrou, oriundos de classes sociais diferentes, se encontram no liceu. Bah é o descendente de um grande chefe tradicional. O pai de Batrou, governador militar, representa o novo poder. Ambos pertencem à uma geração que recusa a ordem estabelecida e põe em questão a sociedade. Dias 04 e 12.
Guimba, de Cheik Oumar Sissoko. França, 1995. Ganhador do Etalon de Yennenga, Prêmio de melhores Figurino e Decoração, Fespaco 1995. Sitakili, uma cidade do Sahel, vive sob a dominação de um homem, Guimba e seu filho Janguiné. Dias 08 ,09 e 17.
Heritage Africa, de Kwaw Ansah. França, 1989. Ganhador do Etalon de Yennenga, Fespaco, 1989. O filme conta a ascensão social de Kwesi Atta Bosomefi graças a educação escolar e religiosa que recebeu. Nomeado Comissário Regional africano, Kwesi se identifica com os ingleses que dirigem seu país. Dias 03 e 19.
História de um Encontro, de Brahim Tsaki, França, 1983. Duas crianças surdas e mudas - ela, filha de um engenheiro americano; ele, filho de um camponês argentino - encontram-se e conseguem se comunicar, ultrapassando todas as barreiras culturais que os separam. Dias 03 e 15.
Identidade, de Mwenze Dieudonné Ngangura , França, 1998. Ganhador do Etalon de Yennenga e de melhor intérprete feminino. Mani Kongo, o velho rei de uma província congolesa, decide partir em busca de sua filha, Mwana, que ele mandou para a Bélgica aos oito anos para estudar, e está sem notícias há anos. Dias 12 e 17.
Muna Moto, de Jean Pierre Dikongué Pipa, França, 1974. Ngando e Ndomé se amam e querem se casar, mas a família de Ndomé lembra-lhe que ele deve pagar o dote. Orfão, ele recorre ao tio para ajudá-lo. Mas o tio, que não consegue ser pai apesar das três esposas, decide casar com a moça, sem saber que ela está grávida de Ngando.
Dias 06, 15 e 19
Sarraounia, de Med Hondo, França, 1986. Em uma aldeia da África, um velho confia sua filha ao seu amigo. Com este pai adotivo, ela aprende o manejo das armas, as verdades da vida, os modos de comunicação com os espíritos. Uma vez mulher, Sarraounia assume a liderança dos Aznas. Rainha, ela não procura dominar, mas luta pela independência e pela paz.
Dias 02 e 18.
Tilaï, de Drissa Quedraogo,França, 1990. Ganhador do Grande Prêmio do festival de Cannes, 1990, Ganhador do Etalon de yennegna. Saga volta a aldeia depois de uma ausência de dois anos. Muitas coisas mudaram. Sua noiva Nogma é agora a segunda esposa de seu pai, mas Saga e Nogma ainda se amam.Dias 04 e 16.
Cinema
02 a 20 de janeiro de 2008
Senhas distribuídas gratuitamente 30 minutos antes de cada sessão.
Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
A África representa o rosto da diversidade cultural, comprovada mais uma vez com a exibição desta mostra, com obras que nos convidam a uma viagem através das realidades e sensibilidades africanas. Os filmes premiados pelo FESPACO ( Festival Pan Africano de Cinema e Televisão de Uagadugu) constituem etapas importantes nessa filmografia, graças à riqueza dos enfoques, a criatividade das narrações e a pertinência das reflexões.
O Ministério Francês das Relações Exteriores contribuiu enormemente para se fazer conhecer melhor o cinema africano ao realizar esta coleção dos grandes prêmios do FESPACO e fazer a criação cinematográfica africana alcançar um público mais amplo.
Os filmes foram digitalizados a partir de cópias antigas. Exibição em DVD.
Apoio: Cinemateca da Maison de France Ali Zaoua, de Nabil Ayouch. França, 2000, Prêmio de público, Amiens 2000.
http://www44.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr2/rj/DetalheEvento.jsp?Evento.codigo=32699&cod=2
Programação - Os Semmentais de Yennenga
De 02/01/2008 a 20/01/2008
• Dia 02/01 - quarta-feira
17h - As Mil e uma Mãos (75 min)
19h - Sarraounia (120 min)
• Dia 03/01 – quinta-feira
17h - Heritage África (110 min)
19h - História de um Encontro (80 min)
• Dia 04/01 – sexta-feira
17h - Finyé (105 min)
19h - Tilaï (81 min)
• Dia 05/01 – sábado
17h - Drum (104 min)
19h - Em nome de Cristo (82 min)
• Dia 06/01- domingo
17h - Buud Yam (99 min)
19h - Muna Moto (89 min)
• Dia 08/01 – terça-feira
17h - Guimba (93 min)
19h - Djeli (92 min)
• Dia 09/01 – quarta-feira
17h - Baara (93 min)
• Dia 10/01 – quinta-feira
17h - Ali Zaoua (90 min)
19h - En Attendant le Bonheur (95 min)
• Dia 11/01 – sexta-feira
17h - Djeli (92 min)
19h - Buud Yam (99 min)
• Dia 12/01 - sábado
17h - Identidade (97 min)
19h - Finyé (105 min)
• Dia 13/01 - domingo
17h - Em Nome de Cristo (82 min)
19h - As Mil e uma Mãos (75 min)
• Dia 15/01 – terça-feira
17h - Muna Moto (89 min)
19h - História de um Encontro (80 min)
• Dia 16/01 – quarta-feira
17h - Tilaï (81 min)
19h - Drum (104 min)
• Dia 17/01 – quinta-feira
17h - Guimba (93 min)
19h - Identidade (97 min)
• Dia 18/01 – sexta-feira
17h - En Attendant le Bonheur (95 min)
19h - Sarraounia (120 min)
• Dia 19/01 - sábado
17h - Muna Moto (89 min)
19h - Heritage África (110 min)
• Dia 20/01 - domingo
17h - Ali Zaoua (90 min)
19h - Baara (93 min)
Sinopses - Os Semmentais de Yennenga
De 02/01/2008 a 20/01/2008
Ali Kwika, Omar e Boubker são meninos de rua. Apesar das dificuldades do cotidiano, uma amizade indefectível os une. Ali é logo morto durante uma briga entre bandidos rivais. Seus três amigos agora terão um único objetivo: dar-lhe o enterro que ele merece. Dias 10 e 20.
As Mil e Uma Mãos, de Souhel Benbarka. França, 1971. Em Marrakech, o velho tintureiro Moha e seu filho Miloud transportavam pacotes fios de lã... assim começa a minuciosa tecelagem de tapetes vendidos no exterior e a labuta dos homens, mulheres e meninas. Dias 02 e 13.
Baara, de Souleymane Cissé. França, 1978. Um jovem camponês maliano trabalha como 'baara', isto é: carregador de bagagens em Bamaco. Um dia, faz amizade com um jovem engenheiro. Este passa a protegê-lo e consegue um emprego para ele na fábrica. Dias 09 e 20.
Buud Yam, de Gaston J-M Kabore. França, 1997. Prêmio Etalon de Yennenga, Fespaco 1997. Wend Kuuni foi encontrado quase morto na selva quando era criança e foi adotado por uma família. A vida em família decorre serena até o dia que Poghnéré, sua irmã adotiva, fica gravemente doente. Wend Kuuni parte em busca de um curandeiro lendário. Sai então de sua aldeia nativa e começa uma jornada que o conduzirá rumo às suas próprias raízes. Dias 06 e 11.
Djeli, de Fadika Kramo-Lanchiné. França, 1981. Dois estudantes marfinenses, Fanta e Karamoko, estão apaixonados e querem se casar. Nascidos na mesma aldeia, seus respectivos pais se conhecem bem. Mas Karamoko Kouyaté, filho de Griô, não pode casar com Fanta, filha de um descendente direto de famílias ilustres. Apesar do mundo em plena transformação, as famílias se opõem ao casamento entre seus filhos para preservar a tradição. Dias 08 e 11.
Drum, de Zola Maseko. França/África do Sul, 2004. Drum é um filme sobre a vida de Henry Nxumalo, jornalista de investigação famoso nos anos 50 em Sophiatown, bairro símbolo da resistência cultural em Joanesburgo. Ele trabalha para uma revista negra da moda, Drum, verdadeira arma de mídia na época. Durante esta época, toda uma geração de autores, críticos, músicos e jornalistas exigentes sul-africanos surgiu e exprimiu-se nessa resistência.
Dias 05 e 16.
Em Nome de Cristo, de Roger Gnoan M'Bala. França, 1993. Em uma aldeiazinha marfinense, vive um pequeno porqueiro desprezado por todos. Um belo dia, bebe demais e tem a visão de uma 'criança Deus' que o elege para salvar seu povo. Ele passa então a ser Magloire 1º, primo de Cristo e usa a sua eloqüência para impressionar a imaginação das pessoas e fundar uma seita. Dias 5 e 13
En Attendant le Bonheur, de Abderramane Sissako. França/Mauritânia, 2002. Prêmio da Crítica Internacional, Cannes 2002 e Étalon de Yennenga Fespaco, 2003. Abdallah, um menino, encontra sua mãe em Nouadhibou, cidadezinha da costa da Mauritânia, enquanto esperam para viajar para a Europa. Nesse lugar de exílio, cuja língua não entende, tenta decifrar o mundo que o rodeia. Dias 10 e 18.
Finyé, de Souleymane Cissé. França, 1982. Ganhador do Etalon de Yennenga, Fespaço 1983. Dois adolescentes malinenses, Bah e batrou, oriundos de classes sociais diferentes, se encontram no liceu. Bah é o descendente de um grande chefe tradicional. O pai de Batrou, governador militar, representa o novo poder. Ambos pertencem à uma geração que recusa a ordem estabelecida e põe em questão a sociedade. Dias 04 e 12.
Guimba, de Cheik Oumar Sissoko. França, 1995. Ganhador do Etalon de Yennenga, Prêmio de melhores Figurino e Decoração, Fespaco 1995. Sitakili, uma cidade do Sahel, vive sob a dominação de um homem, Guimba e seu filho Janguiné. Dias 08 ,09 e 17.
Heritage Africa, de Kwaw Ansah. França, 1989. Ganhador do Etalon de Yennenga, Fespaco, 1989. O filme conta a ascensão social de Kwesi Atta Bosomefi graças a educação escolar e religiosa que recebeu. Nomeado Comissário Regional africano, Kwesi se identifica com os ingleses que dirigem seu país. Dias 03 e 19.
História de um Encontro, de Brahim Tsaki, França, 1983. Duas crianças surdas e mudas - ela, filha de um engenheiro americano; ele, filho de um camponês argentino - encontram-se e conseguem se comunicar, ultrapassando todas as barreiras culturais que os separam. Dias 03 e 15.
Identidade, de Mwenze Dieudonné Ngangura , França, 1998. Ganhador do Etalon de Yennenga e de melhor intérprete feminino. Mani Kongo, o velho rei de uma província congolesa, decide partir em busca de sua filha, Mwana, que ele mandou para a Bélgica aos oito anos para estudar, e está sem notícias há anos. Dias 12 e 17.
Muna Moto, de Jean Pierre Dikongué Pipa, França, 1974. Ngando e Ndomé se amam e querem se casar, mas a família de Ndomé lembra-lhe que ele deve pagar o dote. Orfão, ele recorre ao tio para ajudá-lo. Mas o tio, que não consegue ser pai apesar das três esposas, decide casar com a moça, sem saber que ela está grávida de Ngando.
Dias 06, 15 e 19
Sarraounia, de Med Hondo, França, 1986. Em uma aldeia da África, um velho confia sua filha ao seu amigo. Com este pai adotivo, ela aprende o manejo das armas, as verdades da vida, os modos de comunicação com os espíritos. Uma vez mulher, Sarraounia assume a liderança dos Aznas. Rainha, ela não procura dominar, mas luta pela independência e pela paz.
Dias 02 e 18.
Tilaï, de Drissa Quedraogo,França, 1990. Ganhador do Grande Prêmio do festival de Cannes, 1990, Ganhador do Etalon de yennegna. Saga volta a aldeia depois de uma ausência de dois anos. Muitas coisas mudaram. Sua noiva Nogma é agora a segunda esposa de seu pai, mas Saga e Nogma ainda se amam.Dias 04 e 16.
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Malangatana Valente - poemas
Além de ser o principal nome da pintura moçambicana, Malangatana Valente também passa pela poesia.
Para conhecer a pintura de Malangatana, visite http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/estar-se-no-stio-como-moambicano-como.html
e a relação dele com o poeta moçambicano José Craveirinha, visite
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/11/craveirinha-e-malangatana-comunicao.html
A seguir, alguns poemas deste multifacetado artista.
A coruja
A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;
O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana* Muhlonga
apitava o Kulungwana* mortal;
Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.
Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.
In Livro "Vinte e quatro poemas" de Malangatana Valente Ngwenya, edição do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, 1996 pag.35
A Mamã preocupada
Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?
Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
In livro de Malangatana Valente NGWENYA "Vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Portugal,página 24
Amor Verde
Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom
Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
In Do livro "Malangatana - vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Instituto Superior de Psicologia Aplicada-CRL, Lisboa, em 1996, o poema na página 32.
Pensar alto
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor
enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.
http://kafekultura.blogspot.com/2007/06/valente-malangatana-pintura-poesia.html
Para conhecer a pintura de Malangatana, visite http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/estar-se-no-stio-como-moambicano-como.html
e a relação dele com o poeta moçambicano José Craveirinha, visite
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/11/craveirinha-e-malangatana-comunicao.html
A seguir, alguns poemas deste multifacetado artista.
A coruja
A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;
O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana* Muhlonga
apitava o Kulungwana* mortal;
Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.
Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.
In Livro "Vinte e quatro poemas" de Malangatana Valente Ngwenya, edição do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, 1996 pag.35
A Mamã preocupada
Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?
Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
In livro de Malangatana Valente NGWENYA "Vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Portugal,página 24
Amor Verde
Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom
Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
In Do livro "Malangatana - vinte e quatro poemas", edição do ISPA, Instituto Superior de Psicologia Aplicada-CRL, Lisboa, em 1996, o poema na página 32.
Pensar alto
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor
enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.
http://kafekultura.blogspot.com/2007/06/valente-malangatana-pintura-poesia.html
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Ana Paula Tavares: A divisão do mundo
A angolana Ana Paula Tavares é apontada como a principal voz feminina nas literaturas africanas de língua portuguesa.
Em poesia publicou Ritos de passagem, de 1985, O lago da lua, de 1999, Dizes-me coisas amargas como os frutos, de 2001, e Ex-votos, de 2003. Lançou dois livros de crônicas: O sangue da buganvília, de 1998 e A cabeça de Salomé, de 2004. A crônica transcrita abaixo é deste último, que reúne textos que foram publicados no jornal Público, de Lisboa, entre os anos de 1999 a 2002.
Sobre as crônicas de A cabeça de Salomé, a professora Rita Chaves (USP) diz que o “tom dessa escrita que aproveita da crônica aquilo que melhor pode render o gênero. A leitura de cada uma levará a ver que a leveza que encontramos nos bons cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, para citar apenas dois dos nossos melhores, manifesta-se nos textos de Ana Paula Tavares. A ela, a autora angolana associa a densidade ancorada no desejo de manter, pela via da palavra, a forte ligação que existe entre ela e o patrimônio cultural que a sua identidade propicia. É de dentro desse campo, onde consolidaram-se as suas mais poderosas experiências, que ela olha o mundo e procura trilhas que nos permitam partilhar esse universo de saberes e sabores que a sua linguagem guarda e espalha.” (1)
A divisão do mundo
Em poesia publicou Ritos de passagem, de 1985, O lago da lua, de 1999, Dizes-me coisas amargas como os frutos, de 2001, e Ex-votos, de 2003. Lançou dois livros de crônicas: O sangue da buganvília, de 1998 e A cabeça de Salomé, de 2004. A crônica transcrita abaixo é deste último, que reúne textos que foram publicados no jornal Público, de Lisboa, entre os anos de 1999 a 2002.
Sobre as crônicas de A cabeça de Salomé, a professora Rita Chaves (USP) diz que o “tom dessa escrita que aproveita da crônica aquilo que melhor pode render o gênero. A leitura de cada uma levará a ver que a leveza que encontramos nos bons cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, para citar apenas dois dos nossos melhores, manifesta-se nos textos de Ana Paula Tavares. A ela, a autora angolana associa a densidade ancorada no desejo de manter, pela via da palavra, a forte ligação que existe entre ela e o patrimônio cultural que a sua identidade propicia. É de dentro desse campo, onde consolidaram-se as suas mais poderosas experiências, que ela olha o mundo e procura trilhas que nos permitam partilhar esse universo de saberes e sabores que a sua linguagem guarda e espalha.” (1)
A divisão do mundo
“Caiu a noite
Chegou a hora da caça ao caracol”
Provérbio cabinda
Chegou a hora da caça ao caracol”
Provérbio cabinda
Tal como outros valores culturais, o sistema dos provérbios assenta num património de conhecimento facilmente reconhecível pela comunidade, que o aprende integrado num sistema de ensino baseado no aproveitamento da singularidade do indivíduo, enquanto parte de um todo comunitário, onde a solidariedade é cultivada como dado adquirido a não perder.
A agilidade do espírito, adestrada num cotidiano que a estimula, é perfeitamente capaz de actualizar receitas antigas, modernizar a língua e tornar de uso comum um património que, de outra maneira, se perderia no imenso limbo do passado a descobrir em museus, fossilizado nos pressupostos que o tornaram vivo numa época histórica determinada.
Este domínio da linguagem, muito para lá da mera utilização da palavra, pertence a todos, constituindo uma arma de recurso à disposição, cujo papel no apaziguamento de tensões internas dos indivíduos e das sociedades já foi reconhecido.
Os provérbios, parte deste sistema gramatical onde a história, o conto e o pequeno apontamento de escárnio e maldizer também tomam lugar, sintetizam, de certa forma, maneiras de pensar e encarar o mundo, iludir o tempo e viver com justiça. Mesmo em tribunal, o recurso a esta forma de linguagem cifrada (mas que todos conhecem) é utilizado, por vezes, segundo um enquadramento tão particular que as partes em litígio se esquecem do verdadeiro motivo que ali as levou, para se entregarem ao exercício da palavra, puro gozo, ao delírio de descobrir o provérbio radical, que deixe sem palavras o lado opositor.
As mulheres fazem (faziam) desta arte um amplo recurso, escolhendo formas de enfeitar as tampas de madeira das suas panelas que, uma vez postas em relação especial no espaço fechado que lhes era destinado, serviam para uma troca de mensagens prontas para atingir o alvo, conscientes de que “coração, cabeça e estômago” são entidades sempre associadas por esta ordem ou pela inversa.
Assim, depressa descobriram a correspondência entre objecto visualizado e provérbio inscrito, fornecendo, com a comida preparada de forma esmerada, o resto da cadeia para a eficácia da mensagem.
A linguagem do amor ficou assim servida por um acréscimo de recursos, onde cartas esculpidas celebram e dão notícia de promessas e juramentos arrancados ao coração da madeira.
Deve-se esta arte (em certos locais completamente extinta) a uma consciência bem enraizada sobre a consistência da palavra: uma vez gravada e tornada pública, perdura muito para além das outras levadas pelo vento ou pelo canto do matindindi.
Tratava-se de uma avaliação, consciente da importância da cristalização na madeira do estado real dos sentimentos, de uma peculiar gestão do amor, na esperança de que a tradição, não sendo já o que era, nem sempre deixa de ser o que parece.
Artífices da palavra de madeira eram encarregues de a fazer falar de forma especial. Uma mulher visitava o artista e estabelecia com ele um convénio de curta duração. Em troca da partilha de sonhos e revelação de estórias íntimas da família, conseguia fazê-lo arrancar, do coração da floresta, a madeira com todos os nós necessários à elaboração do discurso.
Embalado pela palavra, o artista ia lavrando, na tampa de uma panela, um primeiro esboço de uma escrita iluminada, a gravação dos sons da alma em tom de confissão.
Por vezes, a consulta a um especialista de provérbios, sábio de todas as linguagens, era o último recurso para evitar repetições e pôr de pé um sistema do simbólico imparável a partir desse momento.
Ao que sei, esta linguagem anda hoje perdida: as pessoas vêem as imagens mas perderam a noção de conjunto. Com a desculpa de uma apressada realidade de plástico, ignora-se a floresta e escolhe-se o caminho mais curto. Entre o que se escreve e o que se lê, deixou de haver ligação. Regressou-se à verbalização e os conceitos esvaziaram-se em caricaturas da verdade.
As tampas que falam são recusadas em busca dos segredos, que, em boa verdade, hoje não são meus, nem teus, nem de quem os há de apanhar.
TAVARES, Ana Paula. A divisão do mundo. In: A cabeça de Salomé. Lisboa: Caminho, 2004. pp. 27-29.
(1) http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13295
A agilidade do espírito, adestrada num cotidiano que a estimula, é perfeitamente capaz de actualizar receitas antigas, modernizar a língua e tornar de uso comum um património que, de outra maneira, se perderia no imenso limbo do passado a descobrir em museus, fossilizado nos pressupostos que o tornaram vivo numa época histórica determinada.
Este domínio da linguagem, muito para lá da mera utilização da palavra, pertence a todos, constituindo uma arma de recurso à disposição, cujo papel no apaziguamento de tensões internas dos indivíduos e das sociedades já foi reconhecido.
Os provérbios, parte deste sistema gramatical onde a história, o conto e o pequeno apontamento de escárnio e maldizer também tomam lugar, sintetizam, de certa forma, maneiras de pensar e encarar o mundo, iludir o tempo e viver com justiça. Mesmo em tribunal, o recurso a esta forma de linguagem cifrada (mas que todos conhecem) é utilizado, por vezes, segundo um enquadramento tão particular que as partes em litígio se esquecem do verdadeiro motivo que ali as levou, para se entregarem ao exercício da palavra, puro gozo, ao delírio de descobrir o provérbio radical, que deixe sem palavras o lado opositor.
As mulheres fazem (faziam) desta arte um amplo recurso, escolhendo formas de enfeitar as tampas de madeira das suas panelas que, uma vez postas em relação especial no espaço fechado que lhes era destinado, serviam para uma troca de mensagens prontas para atingir o alvo, conscientes de que “coração, cabeça e estômago” são entidades sempre associadas por esta ordem ou pela inversa.
Assim, depressa descobriram a correspondência entre objecto visualizado e provérbio inscrito, fornecendo, com a comida preparada de forma esmerada, o resto da cadeia para a eficácia da mensagem.
A linguagem do amor ficou assim servida por um acréscimo de recursos, onde cartas esculpidas celebram e dão notícia de promessas e juramentos arrancados ao coração da madeira.
Deve-se esta arte (em certos locais completamente extinta) a uma consciência bem enraizada sobre a consistência da palavra: uma vez gravada e tornada pública, perdura muito para além das outras levadas pelo vento ou pelo canto do matindindi.
Tratava-se de uma avaliação, consciente da importância da cristalização na madeira do estado real dos sentimentos, de uma peculiar gestão do amor, na esperança de que a tradição, não sendo já o que era, nem sempre deixa de ser o que parece.
Artífices da palavra de madeira eram encarregues de a fazer falar de forma especial. Uma mulher visitava o artista e estabelecia com ele um convénio de curta duração. Em troca da partilha de sonhos e revelação de estórias íntimas da família, conseguia fazê-lo arrancar, do coração da floresta, a madeira com todos os nós necessários à elaboração do discurso.
Embalado pela palavra, o artista ia lavrando, na tampa de uma panela, um primeiro esboço de uma escrita iluminada, a gravação dos sons da alma em tom de confissão.
Por vezes, a consulta a um especialista de provérbios, sábio de todas as linguagens, era o último recurso para evitar repetições e pôr de pé um sistema do simbólico imparável a partir desse momento.
Ao que sei, esta linguagem anda hoje perdida: as pessoas vêem as imagens mas perderam a noção de conjunto. Com a desculpa de uma apressada realidade de plástico, ignora-se a floresta e escolhe-se o caminho mais curto. Entre o que se escreve e o que se lê, deixou de haver ligação. Regressou-se à verbalização e os conceitos esvaziaram-se em caricaturas da verdade.
As tampas que falam são recusadas em busca dos segredos, que, em boa verdade, hoje não são meus, nem teus, nem de quem os há de apanhar.
TAVARES, Ana Paula. A divisão do mundo. In: A cabeça de Salomé. Lisboa: Caminho, 2004. pp. 27-29.
(1) http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13295
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Dina Salústio: Tabus em saldo
Dina Salústio é uma conceituada voz da literatura feminina de Cabo Verde. Nascida em 1941, na Ilha de Santo Antão, em seus textos os dramas, anseios, desejos, medos da mulher cabo-verdiana ocupam posição de destaque. Entretanto, na escrita da autora os sentimentos femininos tornam-se universais, não se reduzem apenas à mulher de sua pátria, mas expandem-se a todas as mulheres do mundo.
Publicou, apenas para citar alguns, textos em poesia (Mirabilis – veias ao sol), prosa (A louca do serrano), contos (Mornas eram as noites).
Tabus em saldo
Se tivesse nascido macho era um rapaz, mas como nasceu fêmea é mulher. As fêmeas são sempre mulheres. Mas mesmo mulheres, elas são de todos nós. Para serem protegidas. No entanto, porque já têm tudo para serem motivo de tudo, há outros de nós que as desejam para o folclore da fantasia e para o encobrimento ridículo e camuflado da irracionalidade do estar.
De repente – ou não terá sido assim tão de repente? – vamos aos esconderijos privados desta sociedade que dolorosamente ou não, recorre a proibições, enfatiza princípios, agrupa-os em tabus para a defesa mínima de um certo decoro, ou, dando uma de evoluídas, parcelas outras há, que embandeiradas na necessidade de se cortar de vez com a hipocrisia social, em nome do progresso e outros mais, arranham a ferida onde ela dói mais: as crianças e as adolescentes.
Não satisfaz mais a orquestrada exploração da candura das meninas européias, a sedução das orientais, a instrumentalização das americanas do sul e do norte. Não. É preciso vir para mais perto. Temos uma juventude tão bonita que há que se retirar os dividendos, transformando-as em objectos de gozo mais sofisticado, em produtos rentáveis. E por isso vamos, outros de nós, aos liceus, às escolas para as envolver em collants e transparências e expô-las em fotos aos instintos curiosos de outros.
O negócio rende. Cada espiadela vinte escudos, diz-se. Dois rebuçados ao fim e ao cabo. Barato como quase tudo em Cabo Verde. Barato como nós, a nossa autenticidade, as ambições, os sentires, o orgulho e a existência. Dois rebuçados: o custo de uma espiadela ao clandestino filmado das nossas crianças fêmeas.
A gargalhada forte de um grupo de meninas perturba-me de alegria, mas imediatamente olho para os lados com medo que algum fotógrafo, caçador de corpos, esteja por perto para um primeiro contacto.
Desisti de querer ver mais. É o que a maioria faz, por cobardia, vergonha e secretos desejos que as coisas ruins deixem de acontecer.
Para depois ficam a luta, a briga e a denúncia. E as consciências tranqüilizam-se com a promessa.
... À noite, na televisão, passou um filme sobre prostituição infantil, em várias nuances. Eram crianças americanas. Podiam ser caboverdianas.
Era o primeiro dia do Ano Novo de 1992. A primeira noite.
SALÚSTIO, Dina. Tabus em saldo. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Instituto Camões, 1999. pp. 32-33.
Publicou, apenas para citar alguns, textos em poesia (Mirabilis – veias ao sol), prosa (A louca do serrano), contos (Mornas eram as noites).
Tabus em saldo
Se tivesse nascido macho era um rapaz, mas como nasceu fêmea é mulher. As fêmeas são sempre mulheres. Mas mesmo mulheres, elas são de todos nós. Para serem protegidas. No entanto, porque já têm tudo para serem motivo de tudo, há outros de nós que as desejam para o folclore da fantasia e para o encobrimento ridículo e camuflado da irracionalidade do estar.
De repente – ou não terá sido assim tão de repente? – vamos aos esconderijos privados desta sociedade que dolorosamente ou não, recorre a proibições, enfatiza princípios, agrupa-os em tabus para a defesa mínima de um certo decoro, ou, dando uma de evoluídas, parcelas outras há, que embandeiradas na necessidade de se cortar de vez com a hipocrisia social, em nome do progresso e outros mais, arranham a ferida onde ela dói mais: as crianças e as adolescentes.
Não satisfaz mais a orquestrada exploração da candura das meninas européias, a sedução das orientais, a instrumentalização das americanas do sul e do norte. Não. É preciso vir para mais perto. Temos uma juventude tão bonita que há que se retirar os dividendos, transformando-as em objectos de gozo mais sofisticado, em produtos rentáveis. E por isso vamos, outros de nós, aos liceus, às escolas para as envolver em collants e transparências e expô-las em fotos aos instintos curiosos de outros.
O negócio rende. Cada espiadela vinte escudos, diz-se. Dois rebuçados ao fim e ao cabo. Barato como quase tudo em Cabo Verde. Barato como nós, a nossa autenticidade, as ambições, os sentires, o orgulho e a existência. Dois rebuçados: o custo de uma espiadela ao clandestino filmado das nossas crianças fêmeas.
A gargalhada forte de um grupo de meninas perturba-me de alegria, mas imediatamente olho para os lados com medo que algum fotógrafo, caçador de corpos, esteja por perto para um primeiro contacto.
Desisti de querer ver mais. É o que a maioria faz, por cobardia, vergonha e secretos desejos que as coisas ruins deixem de acontecer.
Para depois ficam a luta, a briga e a denúncia. E as consciências tranqüilizam-se com a promessa.
... À noite, na televisão, passou um filme sobre prostituição infantil, em várias nuances. Eram crianças americanas. Podiam ser caboverdianas.
Era o primeiro dia do Ano Novo de 1992. A primeira noite.
SALÚSTIO, Dina. Tabus em saldo. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Instituto Camões, 1999. pp. 32-33.
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Dina Salústio: Liberdade Adiada
Dina Salústio é uma conceituada voz da literatura feminina de Cabo Verde. Nascida em 1941, na Ilha de Santo Antão, em seus textos os dramas, anseios, desejos, medos da mulher cabo-verdiana ocupam posição de destaque. Entretanto, na escrita da autora os sentimentos femininos tornam-se universais, não se reduzem apenas à mulher de sua pátria, mas expandem-se a todas as mulheres do mundo.Publicou, apenas para citar alguns, textos em poesia (Mirabilis – veias ao sol), prosa (A louca do serrano), contos (Mornas eram as noites).
Liberdade Adiada
Sentia-se cansada. A barriga, as pernas, a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima. Esperava que a qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.
Como seria o coração?
Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?
Seriam todos os corações do mesmo formato?
... Será que as dores deformam os corações?
Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam a sola dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.
Imaginou os filhos que aguardavam e que já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava!
Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria que caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia, e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.
Não. Não voltaria para casa.
O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final.
Conhecia aquele tipo de sorriso e não tinha boas recordações dos tempos que vinham depois. Mas um dia havia de o eternizar. E se fosse agora, no instante que madrugava? A lata e ela, para sempre, juntas no sorriso do barranco.
Gostava da sua lata de carregar água. Tratava-a bem. Às vezes, em momentos de raiva ou simplesmente indefinidos, areava-a uma, dez, mil vezes, até que ficava a luzir e a cólera, ou a indefinição se perdiam no brilho prateado. Com o fundo de madeira que tivera que lhe mandar colocar, quando começou a espirrar água e já não suportava uma torcida de farrapo, ficou mais pesada, mas não eram daí os seus tormentos.
Atirar-se-ia pelo barranco abaixo. Não perdia nada. Aliás nunca perdeu nada. Nunca teve nada para perder.
Disseram-lhe que tinha perdido a virgindade, mas nunca chegou a saber o que aquilo era.
À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.
O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos... Como ela os amava, Nossenhor!
Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.
Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.
Quando a encontrei na praia, ela esperando a pesca, eu atrás de outros desejos, contou-me aquele pedaço da sua vida, em reposta ao meu comentário de como seria bom montar numa onda e partir rumo a outros destinos, a outros desertos, a outros natais.
SALÚSTIO, Dina. Liberdade adiada. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Instituto Camões, 1999. pp. 7-8.
Liberdade Adiada
Sentia-se cansada. A barriga, as pernas, a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima. Esperava que a qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.
Como seria o coração?
Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?
Seriam todos os corações do mesmo formato?
... Será que as dores deformam os corações?
Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam a sola dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.
Imaginou os filhos que aguardavam e que já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava!
Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria que caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia, e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.
Não. Não voltaria para casa.
O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final.
Conhecia aquele tipo de sorriso e não tinha boas recordações dos tempos que vinham depois. Mas um dia havia de o eternizar. E se fosse agora, no instante que madrugava? A lata e ela, para sempre, juntas no sorriso do barranco.
Gostava da sua lata de carregar água. Tratava-a bem. Às vezes, em momentos de raiva ou simplesmente indefinidos, areava-a uma, dez, mil vezes, até que ficava a luzir e a cólera, ou a indefinição se perdiam no brilho prateado. Com o fundo de madeira que tivera que lhe mandar colocar, quando começou a espirrar água e já não suportava uma torcida de farrapo, ficou mais pesada, mas não eram daí os seus tormentos.
Atirar-se-ia pelo barranco abaixo. Não perdia nada. Aliás nunca perdeu nada. Nunca teve nada para perder.
Disseram-lhe que tinha perdido a virgindade, mas nunca chegou a saber o que aquilo era.
À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.
O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos... Como ela os amava, Nossenhor!
Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.
Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.
Quando a encontrei na praia, ela esperando a pesca, eu atrás de outros desejos, contou-me aquele pedaço da sua vida, em reposta ao meu comentário de como seria bom montar numa onda e partir rumo a outros destinos, a outros desertos, a outros natais.
SALÚSTIO, Dina. Liberdade adiada. In: Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Instituto Camões, 1999. pp. 7-8.
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