sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Naguib: arte moçambicana

São Paulo, a capital paulistana, sempre foi um lugar surpreendente e agradável para mim. Na adolescência ia para curtir as peças teatrais de Zé Celso e Antunes Filho e os shows de rock no saudoso Dama Xoc, visitar as lojas de vinil Baratos Afins e Woodstock, e a Galeria do Rock, é claro, com seus quatro andares repletos de rock’n’roll, tattoos e skate. Logo em seguida, as amizades e amores de estrada em lugares como Trindade, São Thomé das Letras e Ilha Grande. Depois, com a entrada da pintura em minha vida, passei a ir constantemente em busca das exposições nas galerias, museus e, principalmente, na Bienal de Arte.

Em uma dessas viagens, lembro de um final de semana que a programação era intensa e de altíssima qualidade. Só para ficar no espaço do Ibirapuera, havia no MAM uma retrospectiva sobre o Alfredo Volpi com mais de cem obras; o MAC/USP estava com o seu importante acervo de arte modernista brasileira, com obras fundamentais de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Samsor Flexor e tantos outros. Porém, a maior surpresa viria com a exposição ao lado, “África/Brasil: um retorno às raízes”, apresentando o artista moçambicano Naguib Elias Abdula.

Nascido em 1955 na cidade de Tete às margens do rio Zambeze, Moçambique, Naguib freqüentou a Escola de Belas Artes de Lisboa, estagiou Serigrafia na Universidade do Cabo (África do Sul), partiu para a Alemanha onde fez Conservação e Restauro no Kunts Museum de Colônia e freqüentou a Universidade de Nothumbria, Reino Unido.

Iniciou sua trajetória artística após a independência moçambicana em 1975, participou de várias coletivas até realizar sua primeira individual em 1986, chamada “Grito de Paz”, na Galeria Decorama, em Maputo/Moçambique. Desde então, solidificou uma carreira consistente e inquietante, que denuncia o caos social do país, a valorização da condição humana e da pluralidade cultural moçambicana. Sua arte atravessou as fronteiras de seu país e do continente africano, conduzindo-o ao título de embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, Naguib é um dos grandes nomes da arte moçambicana, equiparando-se aos artistas Malangatana Valente, Chissano e Roberto Chichorro.

Para o escritor Mia Couto, Naguib:

“é um artista plural, empenhado na procura de sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo (...). Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos moçambicanos, as diversas raças do nosso colectivo (...). A pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique.” (Naguib. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 45-48)

A valorização da mulher, o erotismo exacerbado e a diversidade de temas tratados por Naguib em suas obras são apontados por Ana Mafalda Leite:

“É esta também a marca da terra actual, generosa de alegria e de indevidos abusos e corrupção, mas a esperança, sem rosto, com um tremendo corpo de desejo não permite abandonar a promessa de um país culturalmente diverso e rico que também se prolonga, recriado em teus quadros. Talvez por isso volvam em alguns deles as inscrições rupestres, marcas zoomórficas, traços de crianças, reinícios nas tuas pinceladas, em que fragmentos fósseis, letras que retomam algumas frases de Samora Machel. Hieróglifos de um tempo novo que é preciso decifrar nas letras antigas, na tinta que escorre dos murais, em certas palavras de ordem que urge relembrar. As crianças percorrem esse princípio de pedra gravada, em que os répteis dançam, emolduram o negro-castanho-branco de fragmentos de tecidos nos corpos de mulheres.” (Naguib, op.cit., pp. 39-43)

Na referida exposição, a primeira obra é um site specific que denuncia com dados oficiais a miséria e abandono que vivem as crianças africanas e brasileiras. Apesar de sempre fazermos força para esquecer, é bom lembrarmos que temos indicadores sociais piores do que alguns países africanos. Temos uma elite corrupta e governos opressores como qualquer país periférico. No site specific, Naguib apresenta sua coragem em apropriar-se de objetos de consumo na construção do trabalho utilizando-se de bonecos enforcados e queimados em um forno, e ainda unir pintura e texto pichado na melhor escola neoexpressionista dos anos 1980. Explodem na memória a semelhança com as intervenções e instalações de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.

A ousadia híbrida na escolha de materiais para suas telas impactantes e viscerais dão a tônica do restante da exposição deste multifacetado artista. Naguib presta uma bela homenagem ao poeta moçambicano José Craveirinha na intervenção "Karingana wa karingana (In memória do Tio Zé Craveirinha)". Trata-se de postes pintados nas paredes, seus fios e roupas rabiscadas com trechos de poemas do Velho Cravo nesse varal lírico criado pelo artista.

Karingana Wa Karingana, 2005 (In memória do Tio Zé Craverinha)



Na série de três trabalhos chamada “Alquimia de jóias na dança de ucanho”, Naguib espanta-nos com a pluralidade de elementos concentrados sobre a tela, mostra a incessante procura por novas formas de expressão. Fotografias pintadas com mulheres zoomorfas, ora girafas, ora zebras, em intenso erotismo, estão ao lado de embondeiros geometrizados, aves sagradas, motivos tribais na busca de um lirismo primordial.

Alquimia de jóias na dança de ucanho I, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.48 X 1.83 m


Alquimia de jóias na dança de ucanho II, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.01 X 2.49 m

Alquimia de jóias na dança de ucanho III, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.50 X 2.37 m


Também nas três pinturas de “Exaltação lírica nas margens do Zambeze”, a manipulação digital alia-se aos traços rupestres da pintura, imagens de embondeiros e pedras ancestrais mesclam-se com hieróglifos representando mulheres ora nuas, ora com capulanas, tartarugas, elefantes, crianças e seres tribais a lembrar que o ato criativo do homem é ancestral. E mais, Naguib mostra-nos que se apropria de referências desse passado ancestral para criar o seu presente pictórico e, sobretudo, moçambicano.

Exaltação lírica nas margens do Zambeze I, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.55 X 1.80 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze II, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.00 X 2.43 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze III, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s /tela. 2.60 X 1.87 m

A liberdade do seu traço, a sensualidade feminina, a mãe com a criança, os símbolos tribais reaparecem na série “Reinventário de manhãs para amar sem medo”. A originalidade de Naguib ao rabiscar e pintar tais motivos sobre jornais causa furor aos olhos. Naguib é um artista que busca se reinventar a cada série, apropriando-se de materiais inusitados e criando pontes surrealizantes entre os elementos que, quando unidos, transbordam em lirismo.

Reinventário de manhãs para amar sem medo I, 2005
(in memória de Carlos Cardoso)
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela
2.34 X 1.82 m

Reinventário de manhãs para amar sem medo II, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Reinventário de manhã para amar sem medo III, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Um expressionismo visceral é escancarado nas pinturas “Efabulírica com todas as claves” e “Australírica numa variação de nyau”. Telas em grande formato, grandes áreas com predomínio de uma cor, máscaras, mulheres sensuais, galinhas, tartarugas e símbolos rupestres embelezam essas obras.


Efabulírica com todas as claves, 2004
terra vermelha, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrilico s/ tela
1.43 X 1.10 m

Australírica numa variação de nyau, 2004
resíduo de mármore, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrílico s/ tela
1.45 X 1.78 m

Todavia, cabe aqui algumas considerações pertinentes quando nos referimos ao termo expressionismo ao lidarmos com artistas africanos, pois a nossa referência é o expressionismo alemão do início do séc. XX, mais precisamente aos artista do Die Brucke (A Ponte): Ernest Kirchner, Emil Nolde e outros da cidade de Dresden. Logo, a partir do momento em que os artistas modernistas tiveram contato com a arte africana na virada dos sécs. XIX e XX, isso fez com que se encorajassem e partissem para a ruptura com a prática de ensino acadêmico adotado nas escolas de artes e os valores burgueses europeus da época.

Os artistas apresentam novas características formais: o emprego livre das cores, pinceladas com gestual expressivo, rompimento da perspectiva renascentista, geometrização, abstracionismo das formas da natureza, emprego da luz sem preocupação em destacar ou modelar figuras, indistinção na relação figura/fundo e despreocupação com a verossimilhança. Ferreira Gullar, ao comentar tal ruptura em “Argumentação contra a morte da Arte”, diz que:

“a civilização européia, do mesmo modo que se julgava a única sociedade civilizada, considerava também sua arte como a expressão suprema e perfeita, diante da qual o que faziam os povos da Ásia, da África ou da América era puro barbarismo. A ruptura radical com as concepções acadêmicas e, em seguida, com os vínculos entre arte e natureza conduziu à desintegração progressiva da linguagem artística e pôs à mostra a expressividade das formas até então consideradas não-artísticas. A primeira conseqüência disso foi a valorização da arte dos povos ditos primitivos ou selvagens, como a escultura negra africana, as máscaras e totens da Oceania etc.”

Na arte ocidental européia, o expressionismo carrega uma relação conturbada com a mimese. Há o objetivo do artista em expressar o real, entretanto, este real é contaminado pela carga emocional que o pintor ou escultor emprega no momento da ação. O artista vale-se de um gestual agressivo, levando-o a distorcer as formas da figuração humana e da natureza, comprometendo, assim, o aspecto naturalista da obra. Contudo, tal desleixo e aparência rude das obras expressionistas, trazem em si outras discussões como o questionamento às rápidas mudanças tecnológicas que a modernidade apresentava, dilacerando a sensibilidade e oprimindo o homem em relação à máquina. Daí o retorno às coisas da natureza e um olhar atencioso aos povos ditos "primitivos".

Portanto, ao mencionarmos o expressionismo de um artista africano devemos levar em consideração essa diferenciação, pois, para o artista tradicional africano, conforme afirma Nei Lopes em “Kitábu”, a desproporção e assimetria da figuração humana é algo natural porque ele está ilustrando uma entidade que não tem forma. Por isso, quando uma escultura fala de uma deusa ou deus da fertilidade, apresentar-se-á com as genitálias maiores do que o normal; se for para falar da sabedoria, a cabeça será maior que o corpo e assim por diante.

Após essas considerações, voltemos a Naguib. É fascinante a diversidade de materiais utilizados por ele, tornando-o um artista diferenciado na arte moçambicana e atento às propostas contemporâneas dos principais artistas do mundo. Carlos Lopes, no catálogo da exposição, frisa que:

“Naguib destaca-se dos demais pela sua jornada estética arrojada. Nunca se deixou esgotar numa única visão. A sua originalidade não se mede pela alteridade repetida depois de encontrado o denominador comum da diferenciação. Não! Naguib prefere demarcar-se pela reinvenção, rebuscando no produto acabado por ele próprio a fonte para fazer diferente logo depois. Uma auto-alteridade assumida por séries que quase parecem sair de mãos diferentes, não fossem algumas constantes evocações à mulher, à terra e aos símbolos totêmicos.” (Carlos Lopes, Naguib, p. 3)

E é na incansável procura por novas manifestações de sua arte, que Naguib Elias Abdula renova e surpreende a cada tela, fazendo a constante ligação entre passado e presente, exaltando a natureza humana carregada em erotismo, revelando a multifacetada cultura de Moçambique com um olhar contemporâneo que funde o local ao universal.

Riso


Bibliografia:
Catálogo da exposição África/Brasil: um retorno às raízes – NAGUIB. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. 30 de março de 2006.
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da Arte. Editora Revan. 1993.
LOPES, Nei. Kitábu – o livro do saber e do espírito negro africanos. Rio de Janeiro: Senac/RJ, 2006.
NAGUIB. Lisboa: Editorial Caminho, 2005.

Internet:
http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/AfricaBrasil.asp
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=456

Mia Couto: O beijo da palavrinha

Com o lançamento no mercado brasileiro da editora Língua Geral, especializada em divulgar autores da língua portuguesa, e sua coleção intitulada Mama África, direcionada ao público infantil com contos tradicionais africanos escritos por autores consagrados e ilustrado por artistas plásticos igualmente prestigiados, resolvi analisar um título da coleção mencionada, a saber: O beijo da palavrinha, escrito por Mia Couto e ilustrado por Malangatana Valente. Dois artistas moçambicanos comprometidos com a sua terra, com a pluralidade cultural de seu país, com o bem-estar entre os homens das diversas “raças” e crenças, e que fazem do universo onírico o espaço necessário para perpetuar os seus desejos de liberdade, de preservação das culturas autóctones e de uma sociedade plural e pacífica.

Em O beijo da palavrinha, Mia Couto conduz-nos ao interior de sua Moçambique, a um lugar onde vivia uma menina que nunca vira o mar, e para enfatizar a distância da localidade do litoral, afirma: viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz. Logo na primeira página o autor contextualiza, de maneira simples e clara, o ambiente de dificuldades causados pela seca e miséria, que se confirma no próprio nome da personagem principal, Maria Poeirinha, a indicar o flagelo, a vida sem maiores aspirações da menina. Os nomes das personagens são fundamentais para compreender a obra coutiana. O uso da onomástica apresenta características que compõem os personagens de suas estórias. Há de se ressaltar também o trabalho gráfico que faz uso de uma fonte em tamanho reduzido, pequena e discreta na oração em que o nome da menina é apresentado em relação aos outros parágrafos desta página inicial a chamar a atenção do leitor-criança para a condição minúscula da personagem. Ao lado do texto temos a ilustração de Malangatana em uma de suas principais características, a imagem poluída por figuras humanas, confinadas e asfixiadas no espaço limitador da moldura da tela, estilo que brilhantemente representava a condição dos moçambicanos diante da ação colonizadora e da posterior guerra civil que assolou o país em diversas pinturas da sua carreira, além da cor vermelha constante na obra do artista, e principalmente as diversas expressões faciais encarando o leitor, que retratam espanto, tristeza, melancolia, dor e indiferença. O artista ilustra o povo da aldeia, procura valorizar a cultura autóctone, caracterizando suas pessoas com trajes típicos como cordões e ornamentos nas cabeças, e utensílios domésticos como um vaso.

Diante da miséria em que a personagem vivia, até o sonho, espaço libertador dos descaminhos de um sofrido cotidiano, espaço para se escorar no universo onírico para dar asas à imaginação e trazer um pouco de alento a tão triste vida, nem nesse espaço ilimitado e livre a menina consegue desvencilhar-se de sua condição, como relata o autor: até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos. Às vezes se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos. A descrição de seu manto representa o seu viver fragmentado e frágil como grãos de areia, a falta de ambição porque talvez nem saiba o que isto seja, e ausência de qualquer expectativa de melhora, pois o que imagina bom está distante como a princesa de um livro, condição esta que também é motivada pela hostilidade do ambiente em que vive. O seu espaço físico-geográfico hostil, é o que decepa as asas literárias do sonho para rapidamente recolocá-la no seu meio, na sua realidade crua, de pés descalços, intenso calor e rio seco: Mas depressa ela saía do sonho pois seu pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão. Enquanto isso, Malangatana representa em intensas alegorias o sonho da menina, porém percebemos um peixe enorme e furioso pronto para aboncanhá-la e, assim, trazê-la para o seu mundo. E diante dos sonhos interrompidos, mais uma vez o predomínio dos tons avermelhados na ilustração.

Dois coadjuvantes são apresentados. Primeiro, seu único irmão, Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa. A seguir, o tio Jaime Litorânio que achava um absurdo seus familiares não conhecerem o mar, pois este o havia aberto a porta para o infinito. Para Jaime Litorânio o mar era seu universo de liberdade contra as agruras da vida, como acreditava: havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do sol mas das águas profundas. O mar, a porta para o infinito, um infinito de liberdade, sem pobreza, sem miséria que vinha das águas profundas, contrastando com o pélago profundo de Charles Baudelaire em As flores do mal. O mar infinito como lugar de refúgio, abrigo, acalanto, como lugar de toda cura contra as mazelas da vida. Assim pensava Jaime Litorânio, que destaca em seu nome sua paixão pelo mar. O infinito é destacado na diagramação das páginas desta passagem. E Malangatana retrata a luz deste mar profundo em figuras dispersas, apenas rostos, rostos impessoais, fragmentos de rostos flutuando (nadando) no espaço. O mar que exige a alma inteira, entregue para visualizar e reconhecer a mencionada luz, que pode ser a própria luz da pessoa que se dispõe a tal exercício libertário.

Daí o tio crer que a cura da doença da menina, quando esta desenvolve uma terrível enfermidade que a leva à beira da morte, ser o momento exato para que conhecesse a praia e descobrisse outras praias dentro dela. A incredulidade dos moradores da aldeia apresenta-se: Mas o mar cura assim tão de verdade?, entretanto o tio permanece convicto e insiste na salvadora viagem. E Malangatana apresenta um destemido navegante na popa de um barco, cônscio de sua sagrada missão, a de conduzir a pobre Poeirinha que parece nos encarar assustada com a velocidade dos acontecimentos e proporcional rapidez da morte que se aproxima.

Contudo, a viagem não se concretiza em razão da elevada fragilidade da menina. As pessoas não sabem o que fazer e sua mãe começa a entoar as velhas melodias de embalar. Em vão. Momento que Malangatana registra com lirismo comovente o leito de morte de Poeirinha, cercada por conhecidos e sua mãe que pega a sua mão. Todos já se conformam com a morte de Poeirinha, já preparavam as finais despedidas, até que aparece na cena seu irmão Zeca Zonzo com um papel e uma caneta.

Zeca Zonzo informa que vai mostrar o mar para irmã e surpreende a todos ao não desenhar o que esperavam, como um oceano azul cheio de peixes. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra “mar”. Apenas isso: a palavra inteira e por extenso. Zonzo ainda não sabe o que fazer, até que sua irmã murmura em débil suspiro: Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada, tão cansada que já não consegue se levantar. Os olhos, as pálpebras sem forças para se levantar, a luz cansada. Faróis, faróis de luz que iluminam a vida. O olhar distante da menina que olha apenas de soslaio para a discreta claridade no alto a sua esquerda, a remeter características barrocas, como o claro x escuro, o contraste entre o terreno e o sagrado, a posição superior diagonal da luz invadindo a ilustração e o tratamento granulado empregado pelo artista na realização da obra.

Com a fragilidade da irmã, Zeca Zonzo resolve ajudá-la: Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu. Sendo, em seguida, repreendido pelos pais que achavam se tratar de mais um desvario da criança vazia, porém o menino está determinado no seu objetivo e guia o dedo da menina sobre os traços que desenhara. Todavia, Poerinha denuncia sua condição e, entre murmúrios, diz: Estou tocando sombras, só sombras, só. É a vida que se esvai do corpo, desprendendo-se para outro plano, outra vida, como a aura disforme retratada por Malangatana que envolve e se vai do corpo físico para o plano espiritual, a caminhar sozinha em um novo mundo desconhecido, um mundo de sombras, o que é realçado na diagramação do texto com o destaque para a palavra com a fonte em tamanho maior.

Entretanto, Zeca Zonzo insiste e sopra os dedos da irmã como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel. Com o dedo guiado pelo irmão, Poeirinha consegue decifrar a primeira letra, o “m”, momento em que os dois sorriem sem que os outros presentes compreendessem o motivo da alegria. A letra “m” é descrita pelo narrador como feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem, e Poeirinha recorda-se das ondas do rio: Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.

E passa para a letra “a”. É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria. Nesta passagem, Malangatana representa a dor da menina em seu leito com a gaivota imaginária. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela. As pessoas ao redor estavam emudecidas diante das crianças que chegam à última letra: É uma letra tirada da pedra. É o “r” de rocha. E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. Mais uma vez o vermelho ressurge na pintura de Malangatana, os dedos da menina sangram, mas o olhar não revela dor, mas sim, um distanciamento, um vazio, talvez o fim que se anuncia.

Emocionado diante da situação o tio Jaime Litorânio diz: Calem-se todos: já se escuta o marulhar! O som do mar que anuncia a mudança de estado de Poeirinha. E abre-se espaço para o universo onírico de Mia Couto aparecer com a reconhecida maestria: Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. É o vôo da liberdade para uma nova vida sem as agruras da vida terrena. É retomando o sonho da menina transcrito no início do livro e o fantástico surge entre as palavras e viajamos com a gaivota branca ou no rio dos seus sonhos. Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeirinha que se erguia? (...) Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto de remoinhos, remendos e retalhos? A paz, a liberdade e a harmonia sendo conduzidas nas asas de um pássaro, animal que tantas vezes aparece na literatura moçambicana, não só em Mia Couto, mas também nas poemas de Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, e constantemente representado nas pinturas de Roberto Chichorro.

Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra a lenda do flamingo e do nascimento da noite. Conta sobre um flamingo que um dia resolve não mais voar, que está cansado de viver e que deseja ir a um lugar onde só há luz, mas não é dia, e a ave parte e diz aos seus pares: não quero mais pousar, só repousar. E parte em direção ao sol poente:

Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.

Ou seja, os pássaros são tidos como animais sagrados que também fazem essa transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Terna e bela é a última ilustração de Malangatana, ao retratar a menina em seu leito de morte, cercada por seus familiares com olhares complacentes após o seu derradeiro suspiro. O fundo azul simbolizando o mar, a colcha de retalhos, os peixes e a sua passagem desta para outra vida.

Não apenas por ser um livro infantil, mas as crianças são bastante representativas nas literaturas africanas de língua portuguesa, pois estão mais próximas dos antepassados devido a pouca idade, assim como os mais velhos que também estão mais próximos, mas pelo avançar da idade. As crianças são argutas, espertas, observadoras e inocentes, e geralmente ajudam a solucionar conflitos, vivenciam os dramas do período colonial e da guerra. Em O beijo da palavrinha, o personagem Zeca Zonzo era tratado como um menino que nada sabia, nada resolvia, desprovido de juízo, entretanto, partiu dele a idéia de ajuda a irmã, surpreendendo a todos, e mostrando a ela como era o mar, porque nem o tio Jaime Litorânio com todo o seu amor pelo mar conseguiu apresentar à menina como era o oceano, e o menino, de maneira lúdica, teve a felicidade de conduzi-la ao mar através da leitura e da escrita. É importante frisar a presença desses dois últimos componentes na construção de Moçambique independente, e o autor Mia Couto foi um dos participantes nesse processo de divulgação e unificação da nação pela língua portuguesa.

Podemos fazer a seguinte analogia a partir da atitude dos dois irmãos, o estado de saúde de Maria Poeirinha com a palavra “mar” e a tríade início-meio-e-fim. O “m” de mar com suas ondas que sobem e descem, como a condição da menina extremamente doente em seu leito de morte; a letra “a” do mar como a gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria, momento em que todos ao redor haviam se calados pela perplexidade com que a criança vai sendo apresentada ao mar ou pela brisa fria, o vento frio a indicar que algo de ruim estaria por vir, enquanto as crianças, no universo imaginário, preocupavam-se em não demorar com o toque sobre a letra para não espantar o pássaro que ali estava; e quando encerram a leitura e a escrita da palavra mar a menina reconhece a letra “r”, o r da rocha. E os dedos da menina magoaram-se no rugoso r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. A letra “r” muito bem observada pelo autor por causa da sua tipografia. O “r” de rocha que encerra a onda, local de repouso das aves, rocha na beira do mar de vento frio a simbolizar o fim, o término da vida de Maria Poeirinha.

E assim a menina é conduzida pela gaivota e navega no derradeiro sonho.

Eis minha mana Poeirinha que foi beijada pelo mar. E se afogou numa palavrinha.

* análise feita para o módulo Literatura Infanto-Juvenil Africana e Afro-Brasileira, ministrado pela Profa. Dra. Conceição Evaristo, no curso de pós-graduação África/Brasil: Laços e Diferenças (Universidade Castelo Branco).
Fontes:
COUTO, Mia. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
COUTO, Mia. O ultimo voo do flamingo. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2005.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret. 2003.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ondjaki, Rita Chaves e Tania Macedo

Links para as entrevistas com Ondjaki, Rita Chaves e Tania Macedo no programa Biblioteca Sonora - Rádio USP.

O universo literário e cultural de Angola
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=070409
Essa edição percorre o universo literário e cultural de Angola. Ele foi realizado na companhia de Rita Chaves e Tânia Macedo que organizaram, juntamente com Carmen Lucia Tindó Secco, a coletânea Brasil, África: como se o mar fosse mentira. Este livro foi publicado pela Editora UNESP em co-edição com a Edições Chá de Caxinde. Apoio cultural: Odebrecht.

Novos Ficcionistas: Brasil e África
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=071123
Nessa edição temos: Paulo Bloise autor do romance Sobre Humanos eHeloisa Prieto, coordenadora da coleção Primeira Pessoa, publicada pela Editora Moderna.
Antes, nas duas primeiras partes do programa, Ondjaki que escreveu o livro Bom Dia Camaradas. A crítica literária e professora da USP, Rita Chaves também participa dessa edição dialogando com o escritor angolano.

Mia Couto - entrevista na Rádio USP

a crítica e a criação

Entrevista realizada pelas Professoras Tania Macedo e Rita Chaves com o escritor Mia Couto na Rádio USP apresentada em 14/08/2006.

"Essa edição tem como convidado Mia Couto autor do Romance O Outro Pé da Sereia , publicado pela Companhia das Letras. O ficcionista conversou a respeito do seu trabalho literário com as professoras Rita Chaves e Tânia Macedo Antes, porém o programa apresenta uma homenagem ao professor e crítico literário João Alexandre Barbosa, que faleceu recentemente. O intelectual também foi o re-fundador da EDUSP e graças a sua atuação em poucos anos essa casa tornou-se a principal editora universitária do país."

Clique em:
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=060814

Riso

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cabo Verde

É com intensa satisfação que anuncio que este blog - Riso: sonhos não envelhecem - consta nos links sobre Literatura no sítio dedicado a Cabo Verde da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, da Universidade São Paulo (USP). O endereço é http://www.simonecaputogomes.com/

Simone Caputo orienta-me nos assuntos relacionados a Cabo Verde, apresentando pintores, indicando autores e textos sempre com muita gentileza e atenção. Daqui presto meu agradecimento.

Sobre Cabo Verde já postei os seguintes textos:
Tchalê Figueira (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html

Kiki Lima (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/pincelada-rtmica-de-kiki-lima.html

Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Ovídio Martins (poeta)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Dina Salústio (contos)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-liberdade-adiada.html

http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-tabus-em-saldo.html

Ainda este mês, colocarei um texto sobre o livro de contos "Mornas eram as noites", de Dina Salústio.

Riso

Breve panorama da arte brasileira no Paço Imperial e Centro Cultural Correios

Volpi, Contente, Ivens Machado, Edmílson Nunes, Victor Arruda, Auto-retratos do Brasil e Rubem Valentim: breve panorama da arte brasileira no Paço Imperial e Centro Cultural Correios

As exposições no Paço Imperial e Centro Cultural Correios, ambos no Rio de Janeiro, são uma oportunidade de termos uma amostragem dos caminhos percorridos pela arte brasileira no decorrer do século XX e início deste.

Comecemos pelo mais velho: Alfredo Volpi. A exposição consta com quase cinqüenta trabalhos da coleção Diógenes Paixão, que tem como característica a maioria das pinturas em pequeno formato – 24 x 33 cm –, mas que em nada diminui o lirismo e o encantamento proporcionado pelas telas de Volpi.

Estão lá as tradicionais bandeirinhas ilustradas nas fachadas, ogivas e marinhas. Impressiona-me como o artista recriou o tema no decorrer de sua longa trajetória, levando-se em conta que as pinturas da coleção de Paixão foram realizadas entre os anos de 1974 e 1984, época em que o colecionador adquiriu as obras, no auge da arte conceitual e na posterior retomada da pintura nos anos 80, com a Geração 80 carioca.

O que quero dizer é que Volpi manteve uma trajetória coerente, não se desprendendo do tema popular que elegeu como inspiração; suas bandeirinhas sempre estiveram presentes, mesmo quando flertou com a arte geométrica dos concretos e neoconcretos paulistas e cariocas nos anos 1950. Passou pela pop, minimal e todas as vanguardas surgidas na virada dos anos 1960/70. E Volpi não abandonou a pintura. Volpi não desprezou as suas populares bandeirinhas para embarcar nos discursos conceituais e/ou marxistas da época. Volpi permaneceu fiel às suas características. E foi nessa insistente pesquisa, fiel à têmpera também, que Alfredo Volpi construiu uma obra repleta de lirismo, suavidade e beleza, com uma diversificada paleta cromática, rara entre os pintores brasileiros, e tornou-se uma referência em nossa arte.

A mostra de Ivens Machado no primeiro andar do Paço, chamada “Acumulações”, choca-nos pela brutalidade dos materiais que formam suas esculturas. Esqueçam qualquer aparência naturalista ou expressionista caso dirijam-se a esta exposição. O caminho escultórico de Ivens Machado percorre outras trilhas que desconcentram olhares delicados em busca do belo.

Na contemplação incômoda de suas obras, não há como não recordar das imensas esculturas de Richard Serra que desafiam a gravidade e causam um estado permanente de desassossego no observador. Lembraremos, sobretudo, da arte povera italiana, em razão da união entre materiais industriais e o que consideramos resto, como pedras e carvão.

Em sua maioria, objetos do mundo industrializado são os materiais que formam suas obras. O artista usa cimento, madeiras, ferros, pedras, redes de aço, ou seja, materiais embrutecidos e de agressivo aspecto contidos em áreas demarcadas, pressionados, num estranho exercício de convivência, porém prevalecendo suas diferenças. Torna-se inevitável não pensar em choque, ou como muito bem expressa o crítico de arte Luiz Camilo Osório no catálogo da exposição:

“os materiais se juntam sem que se misturem; apostam no risco da convivência como se cada um deles fosse uma força contrária à adequação na unidade. Cada matéria mantém a sua personalidade, afirma sua diferença no contexto, na tensão e no abandono. As esculturas de Ivens na secura bruta dos materiais, recusam qualquer facilitação do apelo sensorial, tudo nelas é exterior e silencioso.”

É uma exposição que vale pela inquietação que tais obras nos apresentam: quietas, ásperas, rudes, monumentais. E confirmam o caminho singular traçado por Ivens Machado na escultura brasileira, tornando-o um importante artista em nossa arte.

Empolgo-me toda vez que sei de uma nova exposição de Carlos Contente. Recordo das primeiras impressões diante de suas carinhas carimbadas repetidas à exaustão por todos os lados no Parque Lage e nas ruas da Lapa. Lembro de discutir com a Ilana a semelhança com os hieróglifos urbanos do artista norte-americano Keith Haring, de intervir no espaço e tal.

Contente é um artista inquietante e faz da repetição de suas carinhas, que beira o infinito, uma de suas marcas registradas, além da fina ironia ao questionar os rumos e condutas adotados pela arte contemporânea, seus artistas, curadores, críticos e apreciadores.

Na exposição “Contente: autos-retratos também” deparamo-nos com um misto de intervenção/instalação carregado na sua cada vez melhor verve irônica. Paredes pichadas com suas “teorias” sobre arte, catálogo satirizando uma marca famosa e explicando sua origem, crítica à sociedade de consumo, caderninho de anotações, banco pichado... são tantas as referências em uma única sala... Ele cita explicitamente a “action painting”, movimento capitaneado por Jackson Pollock no pós-guerra, mas prefiro pensar nos grandes nomes dos anos 1980 do neo-expressionismo americano. Falo do já citado Keith Haring (inclusive com um caderninho do próprio) e seu amigo Jean-Michel Basquiat.

Uma sala toda ocupada com a arte inconformada, incômoda e inquietante de Contente. Uma exposição que mexe com o nosso senso diante de todo o escracho inteligente ilustrado. Para encerrar, um comentário do artista:

“E a partir do momento que comecei a pensar repetidamente no termo ‘arte agora’: mais tarde estaria associando à contemporaneidade.
Daí viria a desenvolver o termo ‘zoation painting’, ou ‘pintura de zoação’, em 2002. Uma referência à ‘action painting’, mas agregando novos elementos como a avacalhação e a alegria de viver.”

A mostra “Auto-retrato do Brasil” traz um imenso painel com cem auto-retratos de alguns dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Vale pela surpresa em identificar os artistas por seus traços e materiais característicos, como Beatriz Milhazes, Rubens Gerchman e Gianguido Bonfanti, ou pela surpreendente descoberta de que tal trabalho foi produzido por tal artista, como as telas de Daniel Senise e Antonio Manuel. É uma atividade lúdica e satisfatória diante da qualidade dos trabalhos apresentados. Além dos citados estão presentes Iole de Freitas, Luiz Zerbini, Antonio Tostes, Amílcar de Castro, Siron Franco, Carlos Vergara, Cabelo, Tomie Ohtake e tantos outros significativos nomes.

É gratificante quando entramos em uma sala e percebemos a força e constante renovação da pintura no decorrer de tantos séculos de atividade, em um mundo infestado por imagens que se renovam a cada instante. Esta alegria de ver ótima pintura é o que motiva e obriga a visita à exposição “Pinturas extemporâneas”, de Victor Arruda.

Contemporâneo da “Geração 80”, geração que afirmou pela milésima vez a vitalidade da pintura, Arruda apresenta telas em grande formato com grande riqueza temática e várias referências às vanguardas que movimentaram o século XX.

Na primeira sala vemos quatro telas em reduzida paleta de cores, com predomínio do preto, branco e cinza, além da impactante citação à pop art, à solidão humana, e ao surrealismo, prestando tributo ao célebre trabalho de René Magritte, “Golconda”, aquela das figuras humanas suspensas no espaço.

As obras seguintes apresentam-nos um expressionismo voraz, gestualidade visceral, intensas cores e erotismo, carregadas em ironia e referências a grandes artistas e movimentos artísticos, como Picasso e o cubismo, Tarsila do Amaral, Marc Chagall e o neo-expressionismo dos anos 1980. Uma exposição obrigatória.

Já a mostra “Céu”, de Edmílson Nunes, encanta pela delicadeza, lirismo e sensibilidade do artista em lidar com panos sensíveis (alguns espalhafatosos), pintura e texto. Trabalhos que teriam tudo para tender ao kitsch em mãos menos habilidosas, apesar de manter um diálogo escancarado com ele. Entretanto, Edmílson Nunes é um artista experimentado, navega por tal caminho há anos, e não cairia nas armadilhas que porventura poderiam aparecer na confecção de suas obras. São trabalhos que levam os olhos a alçar vôos na magia proporcionada por tão singelas que são.

Ah! Nunes comparece com um belo trabalho na fraca exposição “A imagem do som do samba”, também no Paço Imperial, baseado na música “Coisinha do pai”, de Jorge Aragão. O artista optou pela ironia cheia de erotismo e aproximação com o kitsch.

Enquanto isso, caminhando um pouquinho até o Centro Cultural Correios, encontramos uma retrospectiva de Rubem Valentim. Com mais de cem peças, a exposição além de passar por várias fases do artista, ainda propõe diálogos entre a obra de Valentim e trabalhos de artistas como Pierre Verger e Alfredo Volpi. É exposição de altíssima qualidade, de um artista que soube universalizar os elementos da religiosidade afro-brasileira em um inovador diálogo com o construtivismo. Rubem Valentim é um dos melhores do século XX. Referência obrigatória.

Bom, as dicas foram dadas. Rubem Valentim ficará no Centro Cultural Correios até o dia 10 de fevereiro e as mostras do Paço Imperial ficarão até 24 de fevereiro.

Abraço,
Riso

Tartarugas podem voar (turtles can fly)


O nosso cinema nacional anda esquecido em retratar o Brasil. Desde a chamada “retomada do cinema nacional” em meados da década de 1990 com filmes como “Carlota Joaquina” e “Terra Estrangeira”, que as películas produzidas por aqui apresentam certo marasmo e ilusão típicos de uma novela do principal canal de televisão, comandante do país. Felizmente, não foi o acontecido com os dois filmes citados.

Foi criado nesses quase vinte anos um cinema que ouso chamar de “cinema de evasão”. Um cinema frio, de estórias românticas paupérrimas, de alegria efêmera, rostos bonitos de atores globais que muitas vezes representam os mesmos papéis das novelas. Isso quando os filmes apresentam uma estética televisiva, caso do fraquíssimo “Olga”. E ainda querem chamar aquilo de cinema.

A hipocrisia que domina nossa sétima arte é tanta que anos atrás, o jovem Erick Rocha, filho de Glauber Rocha, lançou a pertinente polêmica “estética da fome”. Rocha criticava abertamente este cinema de espetáculo, completamente submisso ao poder estabelecido, que conseguia a proeza de filmar um sertão sem miséria. Basta lembrarmos de “Eu, tu, eles”. Reivindicava o retorno a um cinema contestatório e independente no campo das idéias como foi o nosso Cinema Novo, sem que isso refletisse um retorno ao desleixo técnico da época, mas que era utilizado dentro de uma estética pré-estabelecida com os parcos recursos a que tinham acesso.

Hoje, quase não vejo cinema produzido neste país. Ainda temos alguns raros exemplos de diretores que arriscam novas linguagens, planos imprevisíveis, estórias que não seguem necessariamente uma linha narrativa linear e finais felizes. Cito Claudio Assis, de “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, Beto Brant, de “O invasor”, “Crime delicado” e outros filmes impactantes, Matheus Nachtergale com “A Concepção” e, parafraseando meu amigo Luíz Horácio, mais uma meia dúzia de dois ou três. Ah! Não posso deixar de citar o recente e belo “Mutum”, de Sandra Kogut, baseado na obra de Guimarães Rosa.

Pior que não precisamos ir muito longe para termos contato com cinema de alta qualidade, é só assistirmos às produções argentinas que por aqui chegam. Sempre revisitando seu passado, sem medo e sem se entregar aos grupos dominantes que tentam ofuscar a História.

Bom, após esse longo desabafo, vamos ao que interessa. Para quem está acostumado com um cinema que não encara os problemas sociais, políticos culturais etc. do seu país, terá uma surpresa que provavelmente será angustiante e inquietante diante da co-produção iraniana-iraquiana “Tartarugas podem voar” (Turtles can fly), filme que passou no domingo último no Telecine Cult/NET.

O filme narra o cotidiano de um campo de desabrigados curdos em uma região fronteiriça do Iraque dias antes da invasão norte-americana comandada por Bush Filho. A população do referido abrigo é formada por velhos e crianças, pois os homens e mulheres em idade ativa foram mortos, em sua maioria, na primeira Guerra do Golfo, patrocinada por Bush Pai. Irônico, não?

Acompanhamos um grupo imenso de crianças liderado pelo adolescente Satélite, que além de líder é também o responsável pela manutenção das antenas parabólicas do vilarejo e atua como tradutor de inglês (apesar do péssimo inglês e ser admirador dos Estados Unidos) para os mais velhos, líderes da comunidade. Para o sustento de seu grupo de crianças órfãos e muitas mutiladas pelas minas espalhadas pelo território, Satélite organiza a captura dessas minas e posterior venda em mercados da redondeza.

O detalhe curioso é que os atores não são profissionais, as crianças são realmente órfãos e foi o primeiro filme produzido em solo iraquiano após a invasão norte-americana.

É desesperador ver crianças mapeando áreas minadas e desarmando essas famigeradas armas de destruição e morte. Assim é a guerra, faz com que as pessoas sobrevivam em contato constante com a morte, com aquilo que mata.

O filme mostra a miséria e abandono a que são submetidas as crianças. Fome, roupas esfarrapadas, estupros, morte, famílias dilaceradas, ódio e violência são os alimentos diários dessas crianças impedidas de sonhar, de sorrir, de brincar. São seres amargos, embrutecidos pela vida, crianças que prematuramente são obrigadas a amadurecer em um mundo envolto em desencanto.

A personagem traduz em seu olhar um mundo de desesperança, sofrimento e dor. Em sua curta vida presenciou o assassinato de sua família, foi estuprada pelos assassinos e carrega à contra-gosto a criança fruto dessa violência. Arredia, a menina mal consegue se comunicar com outras pessoas, mesmo sendo de sua idade como o apaixonado Satélite, e não sente nenhum apreço ou carinho pelo filho. Procura abandoná-lo a qualquer custo, idéia que não é compartilhada por seu irmão (médium e sem braços), responsável por tentar passar algum amor ao pequeno menino.

Vemos a tensão crescendo com a proximidade do ataque norte-americano, o vilarejo se preparando para o ataque a sua maneira, com pouquíssimas armas para a defesa e uma quantidade mínima de máscaras para os ataques químicos. A agitação do menino-líder é intensa, aos berros comanda suas crianças e tenta dar alguma ordem ao caos.

Enquanto isso a menina abandona seu filho em um lugar que julga ermo e parte para um desfiladeiro onde comete suicídio. Entretanto, o menino retorna e é encontrado em uma área minada. O desespero toma conta das crianças, Satélite vai ao socorro do menino, mas não consegue evitar a explosão da mina que mata a criança e o atinge gravemente.

Satélite fica alojado em uma carcaça de tanque de guerra abandonado. Logo em seguida, o ataque norte-americano é implacável e ocupa a região. Satélite olha para aquilo tudo com desencanto e parte, com muletas, na direção contrária a dos soldados norte-americanos.

Uma dentre várias questões ou várias questões em uma: quando o nosso cinema retratará o cotidiano das crianças que vivem nas favelas, cercadas por traficantes, policiais assassinos, pais alcoólatras e desempregados quando os há, mães sozinhas e ganhando uma ninharia para sustentá-los, esgoto a céu aberto, sem escola, sem posto de saúde, mas com medo, desesperança e morte? Ah? O quê? Ah, tá! O problema é deles, vagabundos que não querem trabalhar e defendem os traficantes. Tropa de Elite neles! Além do mais, não haveria papéis para Alemão, o padrão de beleza nacional, e Graze Massafera. E para finalizar, quem gosta de miséria é intelectual. Quem quer saber e ver desgraças?

“Tartarugas podem voar” está na grade do Telecine Cult/NET e também pode ser visto em DVD.


Riso


TARTARUGAS PODEM VOAR (LAKPOSHTHA HÂM PARVAZ MIKONAND)Curdistão/Irã/Iraque/França, 2004
Direção, roteiro e desenho de produção: BAHMAN GHOBADI
Fotografia: SHAHRAM ASSADI
Montagem: MUSTAFA KHERQEPUSH, HAYDEH SAFI-YARI
Música: HOSSEIN ALIZADEH
Elenco: SORAN EBRAHIM, AVAZ LATIF, SADDAM HOSSEIN FEYSAL, HIRESH FEYSAL RAHMAN, ABDOL RAHMAN KARIM, AJIL ZIBARI
Duração: 98 minutos

sábado, 5 de janeiro de 2008

Mia Couto: uma brincriação


Arte digital - 28/01/2007


Fiz esta brincriação com a personagem Nãozinha de Jesus, curandeira e conhecedora das plantas medicinais, do conto "O adeus da sombra" do livro Estórias Abensonhadas (Editora Nova Fronteira), de Mia Couto, com as caixas de remédios da indústria farmacêutica.

A brincriação feita fala da pressão que a indústria farmacêutica exerce sobre os países periféricos e a propaganda para desacreditar o conhecimento ancestral das plantas de cura. Trata-se de uma questão que aparece com freqüência na obra de Mia Couto.

Riso

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

José Luandino Vieira - entrevista

O escritor angolano José Luandino Vieira concedeu uma entrevista ao jornalista Edney Silvestre no programa Espaço Aberto/Globo News.

José Luandino Vieira é a expressão máxima da literatura angolana. Publicou Luuanda, Nós, os do Makulussu, No Antigamente, na Vida, A cidade e a infância entre outros títulos.

Acesse o endereço abaixo:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM767804-7823-JOSE+LUANDINO+VIEIRA,00.html

Abraço,
Riso

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

João Tala: blog

Ao navegar pela internet em busca de textos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, encontrei o blog do poeta contemporâneo angolano João Tala, chamado blogtala74 - blog de literatura de joão tala, no endereço http://blogtala.blogspot.com/

Ali fiquei sabendo que o poeta esteve presente no recente III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na UFRJ, e, para minha grata surpresa, João Tala refere-se ao texto que escrevi sobre o seu livro Lugar Assim neste blog.

O texto do poeta está em:
http://blogtala.blogspot.com/2007/11/apreciaes-em-sua-mensageme-mail-de.html

O texto feito por mim está em:
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/10/joo-tala-lugar-assim.html

Abraço,
Riso