sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Anjo Malaquias


Anjo Malaquias, peça inspirada na vida e obra de Mario Quintana, encerra sua temporada no Centro Cultural Justiça Federal no próximo domingo, dia 27/01. O espetáculo inspira-se no universo onírico para descrever fatos da vida do poeta e fazer declamações dos seus poemas. Ao utilizar meios múltiplos, conhecemos detalhes íntimos de Quintana, como sua paixão pelo cinema de Charles Chaplin e O Gordo e o Magro, e suas paixões pelas atrizes Bruna Lombardi, Greta Garbo e Cecília Meirelles.
Com uma sintonia comovente, estão os dois atores Afonnso Drumond e Fabrício Polido. O primeiro interpreta o poeta, declama os poemas sem exagero e apresenta um belo figurino inspirado no século XIX; o segundo, um músico de talento supreendente responsável por boa parte da sonoplastia da peça, faz às vezes o papel de narrador.

É um espetáculo comovente, belo e simples. Ótimo teatro!

Riso


ANJO MALAQUIAS - Da obra de Mario Quintana, Adapt.: Eloi Calage e Afonnso Drumond. Direção: Delson Antunes. Com: Afonnso Drumond e Fabrício Polido. Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241 - Centro. Tel.: 3212-2565). De qui a dom às 19h. Ingresso: R$ 20. Até 27/01.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

L.A.P.A.

Na próxima sexta-feira, dia 25/01, em frente aos Arcos da Lapa, passará o documentário L.A.P.A., de Cavi Borges e Emilio Domingos, dentro da programação do “CINEMA NA RUA – VERÃO 2008. O evento começará às 20h com a apresentação de vários curtas e terminará com o filme do Emilio. A programação completa encontra-se no final deste texto.

Eu tive a oportunidade de assistir ao documentário na 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, em novembro de 2007, que agora terá sessão aberta ao público. O documentário retrata como o bairro da Lapa serve de ponto de convergência entre MC’s e rappers de todo o Rio de Janeiro. Além disso, a proposta é mostra o cotidiano, muitas vezes conturbado, desses artistas: onde moram, o que fazem, como ganham a vida, como produzem suas músicas entre outros detalhes.

Estão presentes no documentário nomes de destaque no movimento hip-hop carioca, tais como Black Alien, B Negão, Marcelo D2, MC Macarrão, MC Chapadão, MC Aori e tantos outros que aos trancos e barrancos tentam fazer sua arte. São jovens sem condições financeiras, nascidos em famílias humildes dos subúrbios da cidade maravilhosa, mas que com garra, talento, humor, indignação e revolta procuram expressar o que sentem os garotos excluídos do consumismo imposto pelos meios de comunicação, que sofrem na pele o preconceito da sociedade e convívio diário com a violência policial, e a falta de emprego ou o subemprego, a versão neoliberal do eterno regime escravocrata.

Contundente e impactante é o depoimento de Black Alien, ex-Planet Hemp, ao comentar as artimanhas e manipulação da indústria fonográfica. Um bom tapa na cara para aqueles que acham que no meio artístico tudo é festa, mulheres, drogas e você sairá ileso das garras dos empresários. Para quem não se lembra, o Planet Hemp foi uma das principais bandas dos anos 1990. O Planet escandalizou a mídia ao falar abertamente sobre o uso de drogas, a maconha era o tema principal, o que ocultou um pouco o ótimo cd de estréia, chamado “Usuário”.

Também ex-Planet, B Negão é outro que se afastou dos holofotes da grande mídia e manda o seu recado. O outro Planet é Marcelo D2, hoje uma referência na música do país, que conta com muito humor passagens interessantes do início do movimento carioca ao lado do amigo Skank, já morto.

Já que os rappers têm a palavra como o veículo de informação, o documentário acerta ao não apresentar um narrador, mas sim ao deixar que os próprios artistas se expressem. E como nos surpreendemos com os depoimentos desses griots urbanos. A consciência de que estão fora de um esquema considerado normal e social é escancarada por todos, denunciar as injustiças sofridas no decorrer da vida é a principal inspiração para esses garotos. Sendo assim, apresentam um discurso fora da grande mídia, porém sério, fundamentado, sincero e, por que não?, em alguns momentos, hilário.

Macarrão e MC Funkero, mostram a origem humilde, a vida difícil de quem tem que ralar e muito para sobreviver e ainda assim, cantar e sonhar que um dia vencerão com a música, com a própria arte. E o que conseguiram com o rap é apresentado e mostrado com orgulho e devido agradecimento. Sonho compartilhado por Chapadão, que meses depois apresenta uma nova realidade de dificuldade e mesmo assim, com perseverança e ótimo astral, cria um rap de improviso durante o seu emprego como eletricista.

Ao demonstrar como é o cotidiano desses artistas, tanto nas apresentações como a vida nas casas e trabalhos, o documentário L.A.P.A. marca com imenso interesse, leveza, seriedade e humor como são as pessoas que integram a cultura hip-hop no Rio de Janeiro. Um belo registro desses tempos em que se insiste em mostrar que favela e subúrbio só tem miséria, tráfico e violência, e só uma tropa de elite para contê-los.

L.A.P.A. mostra que há vida inteligente, pessoas honestas e conscientes que buscam de alguma forma apresentar que o destino de um jovem pobre não é na boca-de-fumo ou ser morto por tiros antes de completar 25 anos. O grande mérito de L.A.P.A. é mostrar que ainda há esperança, e ela jamais morrerá. Vale a pena conferir!

Aqui deixo meus parabéns ao meu amigo Emilio, o DJ Saenz Peña da festa Phunk!, parceiro para qualquer parada desde os tempos da adolescência, IFCS/UFRJ...

Todo o sucesso do mundo para você, brother!!!

Riso
22/01/2008

CINEMA NA RUA - VERÃO 2008.
Um mix de exibições de filmes, free-styles, pré-lançamentos, rap. Nos arcos da lapa, com um telão de 8X18 mostrando nossas queridas e apreciadas produções.
Dia 25 de janeiro, a partir das 20h nos Arcos da Lapa. Gratuito

filmes:
20h
. CORUJA de Simplício Neto e Márcia Derraik;
. SETE MINUTOS de Cavi Borges, Paulo Silva e Júlio Pecly;
. O LOBINHO NUNCA MENTE de Ian SBF;
. O FILME DO FILME ROUBADO DO ROUBO DA LOJA DE FILMES de Marcelo Yuka, Paulo
Silva e Júlio Pecly;
. AFINAÇÃO DA INTERIORIDADE de Roberto Berliner;
. PRETINHO BABYLON de Emílio Domingos e Cavi Borges;
22h
. PRÉ-ESTRÉIA - PRETÉRITO PERFEITO de Gustavo Pizzi
23:30h
. PRÉ-ESTRÉIA - L.A.P.A de Cavi Borges e Emílio Domingos

Entre as sessões intervenções sonoras com "bastardos" e participação especial de MC Ramon.
FECHANDO O EVENTO: pocket- show com INUMANOS, MARECHAL, FUNKERO, IKY, CHAPADÃO.

Albert Memmi: Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador


No final do ano passado a editora Civilização Brasileira relançou o livro de Albert Memmi, Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Publicado pela primeira vez nos anos 1960, este livro é fundamental para a compreensão dos estudos das literaturas africanas de língua portuguesa.
A seguir uma resenha de Ronaldo Vainfas (História-UFF/RJ) publicada no Caderno Mais!, página 9, de 06 de janeiro de 2008, no jornal Folha de São Paulo.

Psicologia colonial – ensaísta tunisiano oferece instrumentos para entender a dificuldade atual de europeus em viver em sociedades cada vez mais plurirraciais

A obra de Albert Memmi figura entre as clássicas para pensar o colonialismo e mesmo sua versão atual, mais complexa, imersa na chamada globalização. Tunisiano de origem judaica, Memmi nasceu em 1921 e migrou para a França logo após a independência do país, em 1956. concluiu na Sorbonne os estudos iniciados em Tunísia, que prosseguiu na Universidade de Argel. Nos idos de 1943, passou por tremendas dificuldades em campo de trabalhos forçados da Tunísia. Hoje é professor honorário da Sorbonne e ganhou, entre outros títulos, o Prêmio de Francofonia, em 2004.

As novas gerações talvez não façam idéia do impacto causado pelo primeiro grande livro de Memmi, publicado em 1957, Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador, obra surgida no contexto de descolonização da África, antes da dramática guerra franco-argelina de 1961-62.

Memmi escreveu enquanto intelectuais do porte de Jean-Paul Sartre condenavam o colonialismo, construindo uma opinião pública, sobretudo no campo da esquerda, apoiadora dos movimentos de independência na Ásia e África.

A originalidade da obra de Memmi encontra-se, antes de tudo, na sua recusa a limitar o colonialismo ao conceito leninista de imperialismo ou à luta de classes marxista, adotando posição audaciosa num tempo em que o marxismo irrigava o ambiente intelectual europeu, particularmente francês.

O fato é que Memmi sempre deixou claro que o privilégio colonial não é fenômeno “unicamente econômico”. É “uma relação de povo a povo, e não de classe a classe”, escreveu no prefácio da edição de 1966.

Memmi se dedica, assim, a refletir sobre as identidades e relações entre colonizador e colonizado, tomados em abstrato, no campo da psicologia coletiva, e dos valores culturais construídos e/ou introjetados em meio ao fato colonial, concebido este último como um conjunto de situações vividas.

É pioneira sua reflexão sobre o colonizador como um exilado voluntário que busca nas colônias os meios de uma ascensão social inalcançável na metrópole, e por conta disso se enraíza ou, quando menos, hesita ao máximo em regressar. Constrói, então, uma identidade ambivalente em parte ancorada nos valores colonialistas, em parte na valorização da colônia, à exceção do nativo.

No retrato do colonizador pintado por Memmi, seja o grande, seja o pequeno colonizador, combinam-se a ambição de lucro, o apego aos privilégios institucionais, a legitimação da usurpação que faz das riquezas do colonizado, o racismo, o sentimento de superioridade cultural. Ainda que a imensa maioria dos colonizadores não tenha consciência nítida de seu papel histórico, todos tendem a compartilhar desses valores.

Nos extremos dessa posição majoritária estariam, de um lado, os colonialistas, isto é, os agentes da colonização, e de outro, os “colonizadores de boa vontade”, porque menos apegados aos valores metropolitanos. Nem todo colonizador, diz Memmi, está fatalmente destinado a tornar-se um colonialista. Mas esses colonizadores são raros, segundo Memmi, “pois o romantismo humanitário é considerado doença grave, o pior dos perigos: não é nem mais nem menos que a passagem para o campo do inimigo”. “No fim das contas, colonialista é a vocação natural do colonizador.”

A atitude generalizada é, portanto, a de rejeitar o colonizado, seu rosto, seu cheiro, sua cor, sua cultura. Só come pela primeira vez o cuscuz movido pela curiosidade, depois o prova por educação, vez por outra, e, se gosta do cuscuz, reclama do barulho da feira, da música árabe, do cheiro de gordura de carneiro que impregna o ar. É nas mesquinharias do cotidiano que se afirma esta identidade de colonizador, segundo Memmi, diante do colonizado.

No pólo oposto, o colonizado é um tipo ao mesmo tempo indignado com a humilhação e opressão inerentes ao fato colonial, porém amante, em graus variados, da cultura do colonizador. O mais dramático é a introjeção dos estigmas lançados pelo discurso colonialista, a exemplo de que todo colonizado é ladrão, preguiçoso, sujo, medíocre, desprezível.

O ressentimento contra a metrópole é inevitável, alimentado pelo desprezo de si e pela desumanização ou despersonalização provocada pelo colonialista. Para enfrentar o drama, os colonizados têm somente duas alternativas. A primeira deriva do paradoxal “amor pelo colonizador e ódio de si mesmo” e, nesse caminho, o mínimo que o colonizado deseja é “mudar de pele”, mudar de cor, deixar de ser este “outro” desprezível. A segunda é a revolta em busca da auto-afirmação.

Não resta dúvida de que há muitos estereótipos na obra de Memmi, combinados a uma boa dose de ressentimento, mas o livro é um documento formidável dos anos 1950-60. De todo o modo, Memmi termina a obra com alguma esperança romântica nos resultados da descolonização, apostando em que o ex-colonizado se poderá transformar “num homem como os outros”, eliminando as diferenças em relação ao ex-colonizador.

Em recente livro, publicado em 2004 e também traduzido pela Civilização Brasileira, Memmi admitiu sua desolação. É o que se pode ler em Retrato do descolonizado árabe-muçulmano e de alguns outros, no qual examina a condição do descolonizado nas ex-colônias e nas antigas metrópoles, enquanto imigrante.

Denuncia as tiranias pobreza e corrupção vigentes nos países africanos e aprofunda o exame das vivências do imigrante, as feridas humilhação, os arroubos pseudolibertários das mulheres que insistem em usar o véu que antes não usavam, o complô dos “homens de turbante”, a situação especial de filhos de imigrantes, cada vez mais ocidentalizados. Nesse ponto, o novo livro de Memmi oferece lições preciosas para compreender a dificuldade atual dos europeus em viver em sociedades cada vez mais plurirraciais e mulitculturais, bem como os dilemas identitários dos imigrantes muçulmanos nesses países.

Albert Memmi conheceu muito bem, há muitas décadas, o drama do fato colonial no plano das vivências. Mas quem é ele exatamente? Colonizador ou colonizado? É Jean-Paul Sartre que responde: “nem uma coisa, nem outra; vocês talvez digam uma coisa e outra; no fundo á no mesmo”.

Ronaldo Vainfas é professor titular do departamento de história da Universidade Federal Fluminense.

Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador
Albert Memmi
Tradução: Marcelo Jacques de Moraes
Ed. Civilização Brasileira

Retrato do descolonizado árabe-muçulmano e de alguns outros
Albert Memmi
Tradução: Marcelo Jacques de Moraes
Ed. Civilização Brasileira

domingo, 13 de janeiro de 2008

O mistério de Picasso (Le mystère Picasso)

Um dia, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tive oportunidade de assistir a um trecho de “O mistério de Picasso” (Le mystère Picasso), do cineasta francês especialista em filmes de suspense policial, Henri-Georges Clouzout, durante uma aula do Professor Charles Watson. Os anos passaram e a vontade de rever o filme não foi abalada, até que nesta semana encontrei-o em uma livraria. Comprei o dvd imediatamente.

Em 1955, Clouzout conseguiu convencer Picasso a pintar para suas câmeras e fez um filme de raríssima sensibilidade. Em setenta e cinco minutos nos deleitamos com o genial Pablo Picasso desenhando e pintando vinte obras. Contudo, o que é interessante na película é a maneira como foi registrado o processo criativo de Picasso, o tal mistério. Clouzout foge da jeito tradicional de filmar um artista criando, vai além do que era até então um documentário. Ele não se dirige ao atelier de Picasso, mas monta um espaço onde pudesse inovar.

Valendo-se de tintas, papéis e telas especiais a filmagem é feita por trás da obra, ou seja, é como se Pablo estivesse pintando sobre a tela do cinema, pois ocupa toda a superfície da lente cinematográfica. Vemos apenas os traços sendo construídos por Picasso, não o vemos, e escandalizamo-nos com a rapidez como volume, forma e cores vão ocupando seu espaço na tela. É um belíssimo exercício de metalinguagem, com breves momentos da câmera mostrando Claude Renoir filmando. É um magnífico filme-pintura, muito além de qualquer “filme de arte”.

Um detalhe importante é que essas obras só existem no filme. Por razões contratuais, todas as obras feitas foram destruídas após as filmagens. Logo, vemos Picasso pintando incessantemente uma tela atrás da outra e, em alguns momentos, ainda era pressionado por Clouzout para que encerrasse antes do término do rolo de filme. Uma situação incômoda. Todavia, com isso temos a oportunidade de conferir uma das marcas do artista: sua imensa vontade de vencer desafios.

Como o grande astro do filme é o processo criativo, quase não há diálogos e temos poucas aparições dos artistas. Vale frisar a sutil e sensível opção pelo preto-e-branco durante a filmagem da realização das obras e nas poucas vezes em que Picasso, Clouzout e os outros integrantes do set são mostrados, deixando que as cores aparecessem somente nas pinturas no momento em que Pablo resolve usar o óleo. E aí o bicho pega porque Picasso cria trabalhos sensacionais.

Extraordinária é a percepção de como Picasso desenvolve as suas obras. A idéia inicial surge logo nos primeiros traços e pinceladas. Entretanto, o tema é progressivo e exaustivamente trabalhado, pintado e repintado incontáveis vezes, criando interessantes variações que são notadas com esplendor quando a filmagem utiliza a técnica da animação em stop-emotion. É uma espécie de palimpsesto pictórico. Dessa maneira, espantamo-nos com as diversas obras que poderiam ter sido feitas em torno de um mesmo tema. E, detalhe, cada variação mais interessante do que a outra, atestando a inigualável maestria e criatividade do artista. Creio, também, que ajuda a entender a quantidade assustadora de obras que Picasso fez ao longo da vida.

Excelente a música feita por Georges Aurenche. Acompanha com dramaticidade devida os temas criados por Picasso. Porém, no meu ponto de vista, a música é criticada com injustiça por François Truffaut em ótimo extra do DVD, que é uma crítica feita pelo também diretor francês na estréia do filme no festival de Cannes de 1956. Para meu estranhamento, Truffaut narra a frieza com que o filme foi recepcionado pelo público, mesmo assim ele não deixa de exaltar a genialidade e inovação de Clouzout na concepção do filme.

Além do ensaio de Truffaut, os extras do dvd contêm biografias resumidas de Picasso, Clouzout e Alains Renais, este último foi um dos líderes da Novelle Vague, filmou o clássico “Hiroshima, meu Amor” (Hiroshima, mon Amour), e comparece com o ótimo, belo e lírico curta-metragem “Guernica”. Neste curta, de intenso humanismo e amor à vida, podemos ver partes de várias obras de Picasso nas mais diferentes fases que percorreu ao longo da vida, acompanhadas de um belo texto em off que denuncia a agressividade do bombardeio sobre a população civil e da estupidez humana.

Para finalizar, uma crítica à infeliz tradução do título do filme tanto para o português quanto para o inglês (notado durante o trailer), pois não se trata d’O mistério “de” Picasso, mas, sim, d’O mistério Picasso, que permanece insolúvel após o término da projeção. O importante é que Henri-Georges Clouzout, com o fundamental auxílio de Pablo Picasso, realizou uma obra-prima do cinema de incomparável lirismo. Trata-se de um filme obrigatório para quem ama o cinema, ama a pintura e crer na ilimitada capacidade criativa do homem.

Riso - 12/01/2008

Mario Quintana: Quintanear as palavras

Na atual edição da cuidadosa revista Entrelivros, a matéria de capa comenta sobre a resistência que o poeta gaúcho Mario Quintana ainda sofre por parte da crítica especializada e dos meios acadêmicos, apesar de seu enorme sucesso perante o público. Nesta questão, fico com a ironia do cronista esportivo Fernando Calazans que, ao abordar a polêmica de que só foi craque de futebol o jogador ganhador de Copa do Mundo, e em seguida tachar de fracassados excelentes jogadores como Di Stefano, Puskas, Zico e Platini. Calazans simplesmente responde que quem perdeu e teve azar foi a Copa do Mundo, exatamente por não constar em seu elenco de ganhadores craques como os citados acima. Creio que pensamento semelhante posso ter com os que menosprezam a obra de Quintana. Sem maiores pretensões, é o que pretendo desenvolver neste texto.

A estréia de Mario Quintana ocorreu durante a década de 1940 no auge da segunda geração modernista e dos regionalistas. Surge com um livro de sonetos, “A rua dos cataventos”, que causou grande polêmica entre seus contemporâneos, que consideravam um método ultrapassado, passadista, termo ao qual o poeta foi acusado por toda a sua vida mesmo tendo sonetos de altíssima qualidade, equiparados aos de Vinicius de Moraes. José Eduardo Degrazia resume a questão ao dizer que “formalmente Mario Quintana se colocava contra os modernos em plena vitória do modernismo” (QUINTANA, Esconderijos do tempo, p. 9). Por outro lado o poeta gostava de dar declarações inquietantes que demonstravam seu desprezo pelos grupos e escolas literárias: “O fato é que nunca evoluí. Fui sempre eu mesmo” (QUINTANA, Apontamentos de história sobrenatural, p. 23).

A simplicidade da qual é acusado advém do fato de tornar qualquer assunto matéria poética. O poeta traz para a poesia fatos corriqueiros do cotidiano, eleva o status daquilo que é simplório. Também recorre à infância durante toda a sua obra, com personagens e situações constantemente citados. Tudo com excessivo lirismo. Todavia, a simplicidade, a infância e situações banais não fizeram com que a sua poesia fosse simples. Quintana era extremamente rigoroso e exigente com sua matéria poética, talvez tenha adquirido tais características após a sua atividade como tradutor de clássicos da literatura, como Marcel Proust. E a simplicidade temática possa ter suas origens no tempo em que exerceu a função de cronista de jornal, pois ali percebia que tinha que atingir um público amplo e diversificado.

Sua poesia apresenta diversas tendências: o passadismo, o simbolismo, a linha lírica de Casimiro de Abreu, a recusa ao racional mas com rigor técnico e formal, o namoro com o realismo mágico e o sobrenatural, o soneto, a prosa poética... Ao prefaciar uma antologia de Mario Quintana, o crítico Fausto Cunha tece considerações sobre o estilo, temas, recursos e características formais do poeta:

“A verdade é que, sob o campo visual da poesia de MQ, se esconde em uma teia infinita de raízes, um entrançado de sentidos, duplos sentidos, alusões, elipses, subentendidos, um código vivencial de cuja tradução o poeta é o único a possuir a chave. E sua aparente simplicidade formal, aos olhos de leitores mais atentos, encobre uma extraordinária riqueza de recursos poéticos, de sutilezas verbais, de soluções rímicas e rítmicas; revela-se também o conhecimento, por parte do poeta, das grandes fontes da poesia universal.” (QUINTANA, Melhores poemas, p. 9)

A matéria escrita por Claudia Nina, “A alma de passarinho”, aponta alguns caminhos que possam ter dificultado a aceitação de Quintana, tais como a “dificuldade de assimilação da poesia lírica”, pois segundo Silviano Santiago “O poema lírico é auto-suficiente. Convida menos à reflexão e mais à leitura prazerosa”; o fato de o meio acadêmico e os outros poetas preferirem uma poesia melhor elaborada, recheada de citações, mais cerebral e menos emotiva, ou seja, a forma aparentemente descomprometida de escrever do poeta incomodava; a já mencionada dificuldade em enquadrá-lo nas escolas literárias; e jamais ter morado em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, tendo morado sempre em Porto Alegre pode ter ajudado no seu afastamento.

Bom, popular Quintana já o é, falta o respeito e a aceitação do meio acadêmico ao profundo lirismo do cotidiano, de uma poesia complexa que pode ficar oculta em uma primeira leitura rápida e sem compromisso. O poeta é um dos grandes da nossa literatura e aprimorou um estilo que raras vezes encontramos nas letras brasileiras.

A seguir, alguns poemas.

Riso

Os retratos
Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventa para enganar a solidão dos
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx caminhos sem lua.
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 67)


O poema interrompido
A lâmpada abre um círculo mágico sobre o papel onde escrevo. Sinto um ruído como se alguém houvesse arremessado uma pequenina pedra contra a vidraça, ou talvez seja uma asa perdida na noite. Espreguiço-me, levanto-me e, cautelosamente, escancaro a janela. Oh! Como poderia ser alguém chamando-me? Como poderia ser um pássaro? Na frente do quarto, acima do quarto, por baixo do quarto, só havia solidão estrelada... Quem faz um poema não se espanta de nada. Volto ao abrigo da lâmpada e recomeço a discussão com aquele adjetivo, aquele adjetivo que teima em não expressar tudo o que pretendo dele...
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 59)


Eu fiz um poema
Eu fiz um poema
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...

Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um
dicionário
eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de
de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a
terra...

Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?
(Esconderijos do tempo, São Paulo: Globo, 2005, p. 31)


Quem seríamos?
Veio um instante, partiu de novo,
Leve, sem nome...
Para que nomes? Era azul e voava...
No véu das horas punha o seu motivo.
Partiu. E nem
Ficou sabendo
Como eu, acaso, me chamava...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


O velho do espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto... é cada vez menos estranho.
Meu Deus, meu Deus... Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga... Que importa?! Eu sou,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxainda,
Aquele menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra! –
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...
(Apontamentos de história sobrenatural, São Paulo: Globo, 2005, p. 193)


Recordo ainda...
Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 25)


O poema
Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
xxxxxxxxxxxxxxxxxpara sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxcondição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, p. 20)


O Anjo Malaquias
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase... E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
(Melhores poemas Mario Quintana, São Paulo: Global, 2003, pp. 87-88)


Fontes:
CARVALHAL, Tania Franco. Para comemorar a vida. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural – Centenário Mario Quintana 1906-2006, São Paulo: Globo, 2005.
CUNHA, Fausto. O último lírico Mario Quintana. In: QUINTANA, Mario. Melhores poemas Mario Quintana – seleção Fausto Cunho. São Paulo: Global, 2003.
DEGRAZIA, José Eduardo. Anotações do esconderijo. In: QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo – Centenário Mario Quintana 1906-2006. São Paulo: Globo, 2005.
NINA, Cláudia. A alma de passarinho – dossiê Mario Quintana. In: Entrelivros, ano 3, número 32. São Paulo: Duetto, 2007. Pp. 30-34.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Naguib: arte moçambicana

São Paulo, a capital paulistana, sempre foi um lugar surpreendente e agradável para mim. Na adolescência ia para curtir as peças teatrais de Zé Celso e Antunes Filho e os shows de rock no saudoso Dama Xoc, visitar as lojas de vinil Baratos Afins e Woodstock, e a Galeria do Rock, é claro, com seus quatro andares repletos de rock’n’roll, tattoos e skate. Logo em seguida, as amizades e amores de estrada em lugares como Trindade, São Thomé das Letras e Ilha Grande. Depois, com a entrada da pintura em minha vida, passei a ir constantemente em busca das exposições nas galerias, museus e, principalmente, na Bienal de Arte.

Em uma dessas viagens, lembro de um final de semana que a programação era intensa e de altíssima qualidade. Só para ficar no espaço do Ibirapuera, havia no MAM uma retrospectiva sobre o Alfredo Volpi com mais de cem obras; o MAC/USP estava com o seu importante acervo de arte modernista brasileira, com obras fundamentais de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Samsor Flexor e tantos outros. Porém, a maior surpresa viria com a exposição ao lado, “África/Brasil: um retorno às raízes”, apresentando o artista moçambicano Naguib Elias Abdula.

Nascido em 1955 na cidade de Tete às margens do rio Zambeze, Moçambique, Naguib freqüentou a Escola de Belas Artes de Lisboa, estagiou Serigrafia na Universidade do Cabo (África do Sul), partiu para a Alemanha onde fez Conservação e Restauro no Kunts Museum de Colônia e freqüentou a Universidade de Nothumbria, Reino Unido.

Iniciou sua trajetória artística após a independência moçambicana em 1975, participou de várias coletivas até realizar sua primeira individual em 1986, chamada “Grito de Paz”, na Galeria Decorama, em Maputo/Moçambique. Desde então, solidificou uma carreira consistente e inquietante, que denuncia o caos social do país, a valorização da condição humana e da pluralidade cultural moçambicana. Sua arte atravessou as fronteiras de seu país e do continente africano, conduzindo-o ao título de embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, Naguib é um dos grandes nomes da arte moçambicana, equiparando-se aos artistas Malangatana Valente, Chissano e Roberto Chichorro.

Para o escritor Mia Couto, Naguib:

“é um artista plural, empenhado na procura de sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo (...). Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos moçambicanos, as diversas raças do nosso colectivo (...). A pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique.” (Naguib. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 45-48)

A valorização da mulher, o erotismo exacerbado e a diversidade de temas tratados por Naguib em suas obras são apontados por Ana Mafalda Leite:

“É esta também a marca da terra actual, generosa de alegria e de indevidos abusos e corrupção, mas a esperança, sem rosto, com um tremendo corpo de desejo não permite abandonar a promessa de um país culturalmente diverso e rico que também se prolonga, recriado em teus quadros. Talvez por isso volvam em alguns deles as inscrições rupestres, marcas zoomórficas, traços de crianças, reinícios nas tuas pinceladas, em que fragmentos fósseis, letras que retomam algumas frases de Samora Machel. Hieróglifos de um tempo novo que é preciso decifrar nas letras antigas, na tinta que escorre dos murais, em certas palavras de ordem que urge relembrar. As crianças percorrem esse princípio de pedra gravada, em que os répteis dançam, emolduram o negro-castanho-branco de fragmentos de tecidos nos corpos de mulheres.” (Naguib, op.cit., pp. 39-43)

Na referida exposição, a primeira obra é um site specific que denuncia com dados oficiais a miséria e abandono que vivem as crianças africanas e brasileiras. Apesar de sempre fazermos força para esquecer, é bom lembrarmos que temos indicadores sociais piores do que alguns países africanos. Temos uma elite corrupta e governos opressores como qualquer país periférico. No site specific, Naguib apresenta sua coragem em apropriar-se de objetos de consumo na construção do trabalho utilizando-se de bonecos enforcados e queimados em um forno, e ainda unir pintura e texto pichado na melhor escola neoexpressionista dos anos 1980. Explodem na memória a semelhança com as intervenções e instalações de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.

A ousadia híbrida na escolha de materiais para suas telas impactantes e viscerais dão a tônica do restante da exposição deste multifacetado artista. Naguib presta uma bela homenagem ao poeta moçambicano José Craveirinha na intervenção "Karingana wa karingana (In memória do Tio Zé Craveirinha)". Trata-se de postes pintados nas paredes, seus fios e roupas rabiscadas com trechos de poemas do Velho Cravo nesse varal lírico criado pelo artista.

Karingana Wa Karingana, 2005 (In memória do Tio Zé Craverinha)



Na série de três trabalhos chamada “Alquimia de jóias na dança de ucanho”, Naguib espanta-nos com a pluralidade de elementos concentrados sobre a tela, mostra a incessante procura por novas formas de expressão. Fotografias pintadas com mulheres zoomorfas, ora girafas, ora zebras, em intenso erotismo, estão ao lado de embondeiros geometrizados, aves sagradas, motivos tribais na busca de um lirismo primordial.

Alquimia de jóias na dança de ucanho I, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.48 X 1.83 m


Alquimia de jóias na dança de ucanho II, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.01 X 2.49 m

Alquimia de jóias na dança de ucanho III, 2005
acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.50 X 2.37 m


Também nas três pinturas de “Exaltação lírica nas margens do Zambeze”, a manipulação digital alia-se aos traços rupestres da pintura, imagens de embondeiros e pedras ancestrais mesclam-se com hieróglifos representando mulheres ora nuas, ora com capulanas, tartarugas, elefantes, crianças e seres tribais a lembrar que o ato criativo do homem é ancestral. E mais, Naguib mostra-nos que se apropria de referências desse passado ancestral para criar o seu presente pictórico e, sobretudo, moçambicano.

Exaltação lírica nas margens do Zambeze I, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela
2.55 X 1.80 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze II, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2.00 X 2.43 m


Exaltação lírica nas margens do Zambeze III, 2005
acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s /tela. 2.60 X 1.87 m

A liberdade do seu traço, a sensualidade feminina, a mãe com a criança, os símbolos tribais reaparecem na série “Reinventário de manhãs para amar sem medo”. A originalidade de Naguib ao rabiscar e pintar tais motivos sobre jornais causa furor aos olhos. Naguib é um artista que busca se reinventar a cada série, apropriando-se de materiais inusitados e criando pontes surrealizantes entre os elementos que, quando unidos, transbordam em lirismo.

Reinventário de manhãs para amar sem medo I, 2005
(in memória de Carlos Cardoso)
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela
2.34 X 1.82 m

Reinventário de manhãs para amar sem medo II, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Reinventário de manhã para amar sem medo III, 2005
pastel, carvão, acrílico s/papel de jornal digitalização, impressão litográfica e óleo s/tela


Um expressionismo visceral é escancarado nas pinturas “Efabulírica com todas as claves” e “Australírica numa variação de nyau”. Telas em grande formato, grandes áreas com predomínio de uma cor, máscaras, mulheres sensuais, galinhas, tartarugas e símbolos rupestres embelezam essas obras.


Efabulírica com todas as claves, 2004
terra vermelha, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrilico s/ tela
1.43 X 1.10 m

Australírica numa variação de nyau, 2004
resíduo de mármore, cola vulcano 7, médio vinílico, pasta acrílica e acrílico s/ tela
1.45 X 1.78 m

Todavia, cabe aqui algumas considerações pertinentes quando nos referimos ao termo expressionismo ao lidarmos com artistas africanos, pois a nossa referência é o expressionismo alemão do início do séc. XX, mais precisamente aos artista do Die Brucke (A Ponte): Ernest Kirchner, Emil Nolde e outros da cidade de Dresden. Logo, a partir do momento em que os artistas modernistas tiveram contato com a arte africana na virada dos sécs. XIX e XX, isso fez com que se encorajassem e partissem para a ruptura com a prática de ensino acadêmico adotado nas escolas de artes e os valores burgueses europeus da época.

Os artistas apresentam novas características formais: o emprego livre das cores, pinceladas com gestual expressivo, rompimento da perspectiva renascentista, geometrização, abstracionismo das formas da natureza, emprego da luz sem preocupação em destacar ou modelar figuras, indistinção na relação figura/fundo e despreocupação com a verossimilhança. Ferreira Gullar, ao comentar tal ruptura em “Argumentação contra a morte da Arte”, diz que:

“a civilização européia, do mesmo modo que se julgava a única sociedade civilizada, considerava também sua arte como a expressão suprema e perfeita, diante da qual o que faziam os povos da Ásia, da África ou da América era puro barbarismo. A ruptura radical com as concepções acadêmicas e, em seguida, com os vínculos entre arte e natureza conduziu à desintegração progressiva da linguagem artística e pôs à mostra a expressividade das formas até então consideradas não-artísticas. A primeira conseqüência disso foi a valorização da arte dos povos ditos primitivos ou selvagens, como a escultura negra africana, as máscaras e totens da Oceania etc.”

Na arte ocidental européia, o expressionismo carrega uma relação conturbada com a mimese. Há o objetivo do artista em expressar o real, entretanto, este real é contaminado pela carga emocional que o pintor ou escultor emprega no momento da ação. O artista vale-se de um gestual agressivo, levando-o a distorcer as formas da figuração humana e da natureza, comprometendo, assim, o aspecto naturalista da obra. Contudo, tal desleixo e aparência rude das obras expressionistas, trazem em si outras discussões como o questionamento às rápidas mudanças tecnológicas que a modernidade apresentava, dilacerando a sensibilidade e oprimindo o homem em relação à máquina. Daí o retorno às coisas da natureza e um olhar atencioso aos povos ditos "primitivos".

Portanto, ao mencionarmos o expressionismo de um artista africano devemos levar em consideração essa diferenciação, pois, para o artista tradicional africano, conforme afirma Nei Lopes em “Kitábu”, a desproporção e assimetria da figuração humana é algo natural porque ele está ilustrando uma entidade que não tem forma. Por isso, quando uma escultura fala de uma deusa ou deus da fertilidade, apresentar-se-á com as genitálias maiores do que o normal; se for para falar da sabedoria, a cabeça será maior que o corpo e assim por diante.

Após essas considerações, voltemos a Naguib. É fascinante a diversidade de materiais utilizados por ele, tornando-o um artista diferenciado na arte moçambicana e atento às propostas contemporâneas dos principais artistas do mundo. Carlos Lopes, no catálogo da exposição, frisa que:

“Naguib destaca-se dos demais pela sua jornada estética arrojada. Nunca se deixou esgotar numa única visão. A sua originalidade não se mede pela alteridade repetida depois de encontrado o denominador comum da diferenciação. Não! Naguib prefere demarcar-se pela reinvenção, rebuscando no produto acabado por ele próprio a fonte para fazer diferente logo depois. Uma auto-alteridade assumida por séries que quase parecem sair de mãos diferentes, não fossem algumas constantes evocações à mulher, à terra e aos símbolos totêmicos.” (Carlos Lopes, Naguib, p. 3)

E é na incansável procura por novas manifestações de sua arte, que Naguib Elias Abdula renova e surpreende a cada tela, fazendo a constante ligação entre passado e presente, exaltando a natureza humana carregada em erotismo, revelando a multifacetada cultura de Moçambique com um olhar contemporâneo que funde o local ao universal.

Riso


Bibliografia:
Catálogo da exposição África/Brasil: um retorno às raízes – NAGUIB. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. 30 de março de 2006.
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da Arte. Editora Revan. 1993.
LOPES, Nei. Kitábu – o livro do saber e do espírito negro africanos. Rio de Janeiro: Senac/RJ, 2006.
NAGUIB. Lisboa: Editorial Caminho, 2005.

Internet:
http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/AfricaBrasil.asp
http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=456

Mia Couto: O beijo da palavrinha

Com o lançamento no mercado brasileiro da editora Língua Geral, especializada em divulgar autores da língua portuguesa, e sua coleção intitulada Mama África, direcionada ao público infantil com contos tradicionais africanos escritos por autores consagrados e ilustrado por artistas plásticos igualmente prestigiados, resolvi analisar um título da coleção mencionada, a saber: O beijo da palavrinha, escrito por Mia Couto e ilustrado por Malangatana Valente. Dois artistas moçambicanos comprometidos com a sua terra, com a pluralidade cultural de seu país, com o bem-estar entre os homens das diversas “raças” e crenças, e que fazem do universo onírico o espaço necessário para perpetuar os seus desejos de liberdade, de preservação das culturas autóctones e de uma sociedade plural e pacífica.

Em O beijo da palavrinha, Mia Couto conduz-nos ao interior de sua Moçambique, a um lugar onde vivia uma menina que nunca vira o mar, e para enfatizar a distância da localidade do litoral, afirma: viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz. Logo na primeira página o autor contextualiza, de maneira simples e clara, o ambiente de dificuldades causados pela seca e miséria, que se confirma no próprio nome da personagem principal, Maria Poeirinha, a indicar o flagelo, a vida sem maiores aspirações da menina. Os nomes das personagens são fundamentais para compreender a obra coutiana. O uso da onomástica apresenta características que compõem os personagens de suas estórias. Há de se ressaltar também o trabalho gráfico que faz uso de uma fonte em tamanho reduzido, pequena e discreta na oração em que o nome da menina é apresentado em relação aos outros parágrafos desta página inicial a chamar a atenção do leitor-criança para a condição minúscula da personagem. Ao lado do texto temos a ilustração de Malangatana em uma de suas principais características, a imagem poluída por figuras humanas, confinadas e asfixiadas no espaço limitador da moldura da tela, estilo que brilhantemente representava a condição dos moçambicanos diante da ação colonizadora e da posterior guerra civil que assolou o país em diversas pinturas da sua carreira, além da cor vermelha constante na obra do artista, e principalmente as diversas expressões faciais encarando o leitor, que retratam espanto, tristeza, melancolia, dor e indiferença. O artista ilustra o povo da aldeia, procura valorizar a cultura autóctone, caracterizando suas pessoas com trajes típicos como cordões e ornamentos nas cabeças, e utensílios domésticos como um vaso.

Diante da miséria em que a personagem vivia, até o sonho, espaço libertador dos descaminhos de um sofrido cotidiano, espaço para se escorar no universo onírico para dar asas à imaginação e trazer um pouco de alento a tão triste vida, nem nesse espaço ilimitado e livre a menina consegue desvencilhar-se de sua condição, como relata o autor: até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que castelos. Às vezes se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de remoinhos, remendos e retalhos. A descrição de seu manto representa o seu viver fragmentado e frágil como grãos de areia, a falta de ambição porque talvez nem saiba o que isto seja, e ausência de qualquer expectativa de melhora, pois o que imagina bom está distante como a princesa de um livro, condição esta que também é motivada pela hostilidade do ambiente em que vive. O seu espaço físico-geográfico hostil, é o que decepa as asas literárias do sonho para rapidamente recolocá-la no seu meio, na sua realidade crua, de pés descalços, intenso calor e rio seco: Mas depressa ela saía do sonho pois seu pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão. Enquanto isso, Malangatana representa em intensas alegorias o sonho da menina, porém percebemos um peixe enorme e furioso pronto para aboncanhá-la e, assim, trazê-la para o seu mundo. E diante dos sonhos interrompidos, mais uma vez o predomínio dos tons avermelhados na ilustração.

Dois coadjuvantes são apresentados. Primeiro, seu único irmão, Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa. A seguir, o tio Jaime Litorânio que achava um absurdo seus familiares não conhecerem o mar, pois este o havia aberto a porta para o infinito. Para Jaime Litorânio o mar era seu universo de liberdade contra as agruras da vida, como acreditava: havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do sol mas das águas profundas. O mar, a porta para o infinito, um infinito de liberdade, sem pobreza, sem miséria que vinha das águas profundas, contrastando com o pélago profundo de Charles Baudelaire em As flores do mal. O mar infinito como lugar de refúgio, abrigo, acalanto, como lugar de toda cura contra as mazelas da vida. Assim pensava Jaime Litorânio, que destaca em seu nome sua paixão pelo mar. O infinito é destacado na diagramação das páginas desta passagem. E Malangatana retrata a luz deste mar profundo em figuras dispersas, apenas rostos, rostos impessoais, fragmentos de rostos flutuando (nadando) no espaço. O mar que exige a alma inteira, entregue para visualizar e reconhecer a mencionada luz, que pode ser a própria luz da pessoa que se dispõe a tal exercício libertário.

Daí o tio crer que a cura da doença da menina, quando esta desenvolve uma terrível enfermidade que a leva à beira da morte, ser o momento exato para que conhecesse a praia e descobrisse outras praias dentro dela. A incredulidade dos moradores da aldeia apresenta-se: Mas o mar cura assim tão de verdade?, entretanto o tio permanece convicto e insiste na salvadora viagem. E Malangatana apresenta um destemido navegante na popa de um barco, cônscio de sua sagrada missão, a de conduzir a pobre Poeirinha que parece nos encarar assustada com a velocidade dos acontecimentos e proporcional rapidez da morte que se aproxima.

Contudo, a viagem não se concretiza em razão da elevada fragilidade da menina. As pessoas não sabem o que fazer e sua mãe começa a entoar as velhas melodias de embalar. Em vão. Momento que Malangatana registra com lirismo comovente o leito de morte de Poeirinha, cercada por conhecidos e sua mãe que pega a sua mão. Todos já se conformam com a morte de Poeirinha, já preparavam as finais despedidas, até que aparece na cena seu irmão Zeca Zonzo com um papel e uma caneta.

Zeca Zonzo informa que vai mostrar o mar para irmã e surpreende a todos ao não desenhar o que esperavam, como um oceano azul cheio de peixes. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra “mar”. Apenas isso: a palavra inteira e por extenso. Zonzo ainda não sabe o que fazer, até que sua irmã murmura em débil suspiro: Não vale a pena, mano Zonzo. Eu já não distingo letra, a luz ficou cansada, tão cansada que já não consegue se levantar. Os olhos, as pálpebras sem forças para se levantar, a luz cansada. Faróis, faróis de luz que iluminam a vida. O olhar distante da menina que olha apenas de soslaio para a discreta claridade no alto a sua esquerda, a remeter características barrocas, como o claro x escuro, o contraste entre o terreno e o sagrado, a posição superior diagonal da luz invadindo a ilustração e o tratamento granulado empregado pelo artista na realização da obra.

Com a fragilidade da irmã, Zeca Zonzo resolve ajudá-la: Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu. Sendo, em seguida, repreendido pelos pais que achavam se tratar de mais um desvario da criança vazia, porém o menino está determinado no seu objetivo e guia o dedo da menina sobre os traços que desenhara. Todavia, Poerinha denuncia sua condição e, entre murmúrios, diz: Estou tocando sombras, só sombras, só. É a vida que se esvai do corpo, desprendendo-se para outro plano, outra vida, como a aura disforme retratada por Malangatana que envolve e se vai do corpo físico para o plano espiritual, a caminhar sozinha em um novo mundo desconhecido, um mundo de sombras, o que é realçado na diagramação do texto com o destaque para a palavra com a fonte em tamanho maior.

Entretanto, Zeca Zonzo insiste e sopra os dedos da irmã como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel. Com o dedo guiado pelo irmão, Poeirinha consegue decifrar a primeira letra, o “m”, momento em que os dois sorriem sem que os outros presentes compreendessem o motivo da alegria. A letra “m” é descrita pelo narrador como feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem, e Poeirinha recorda-se das ondas do rio: Essa letra é feita por ondas. Eu já as vi no rio.

E passa para a letra “a”. É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria. Nesta passagem, Malangatana representa a dor da menina em seu leito com a gaivota imaginária. Os dois em coro decidiram não tocar mais na letra para não espantar o pássaro que havia nela. As pessoas ao redor estavam emudecidas diante das crianças que chegam à última letra: É uma letra tirada da pedra. É o “r” de rocha. E os dedos da menina magoaram-se no r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. Mais uma vez o vermelho ressurge na pintura de Malangatana, os dedos da menina sangram, mas o olhar não revela dor, mas sim, um distanciamento, um vazio, talvez o fim que se anuncia.

Emocionado diante da situação o tio Jaime Litorânio diz: Calem-se todos: já se escuta o marulhar! O som do mar que anuncia a mudança de estado de Poeirinha. E abre-se espaço para o universo onírico de Mia Couto aparecer com a reconhecida maestria: Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. É o vôo da liberdade para uma nova vida sem as agruras da vida terrena. É retomando o sonho da menina transcrito no início do livro e o fantástico surge entre as palavras e viajamos com a gaivota branca ou no rio dos seus sonhos. Então, do leito de Maria Poeirinha se ergueu a gaivota branca, como se fosse um lençol agitado pelo vento. Era Maria Poeirinha que se erguia? (...) Ou era ela seguindo no rio, debaixo do manto de remoinhos, remendos e retalhos? A paz, a liberdade e a harmonia sendo conduzidas nas asas de um pássaro, animal que tantas vezes aparece na literatura moçambicana, não só em Mia Couto, mas também nas poemas de Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, e constantemente representado nas pinturas de Roberto Chichorro.

Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra a lenda do flamingo e do nascimento da noite. Conta sobre um flamingo que um dia resolve não mais voar, que está cansado de viver e que deseja ir a um lugar onde só há luz, mas não é dia, e a ave parte e diz aos seus pares: não quero mais pousar, só repousar. E parte em direção ao sol poente:

Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.

Ou seja, os pássaros são tidos como animais sagrados que também fazem essa transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Terna e bela é a última ilustração de Malangatana, ao retratar a menina em seu leito de morte, cercada por seus familiares com olhares complacentes após o seu derradeiro suspiro. O fundo azul simbolizando o mar, a colcha de retalhos, os peixes e a sua passagem desta para outra vida.

Não apenas por ser um livro infantil, mas as crianças são bastante representativas nas literaturas africanas de língua portuguesa, pois estão mais próximas dos antepassados devido a pouca idade, assim como os mais velhos que também estão mais próximos, mas pelo avançar da idade. As crianças são argutas, espertas, observadoras e inocentes, e geralmente ajudam a solucionar conflitos, vivenciam os dramas do período colonial e da guerra. Em O beijo da palavrinha, o personagem Zeca Zonzo era tratado como um menino que nada sabia, nada resolvia, desprovido de juízo, entretanto, partiu dele a idéia de ajuda a irmã, surpreendendo a todos, e mostrando a ela como era o mar, porque nem o tio Jaime Litorânio com todo o seu amor pelo mar conseguiu apresentar à menina como era o oceano, e o menino, de maneira lúdica, teve a felicidade de conduzi-la ao mar através da leitura e da escrita. É importante frisar a presença desses dois últimos componentes na construção de Moçambique independente, e o autor Mia Couto foi um dos participantes nesse processo de divulgação e unificação da nação pela língua portuguesa.

Podemos fazer a seguinte analogia a partir da atitude dos dois irmãos, o estado de saúde de Maria Poeirinha com a palavra “mar” e a tríade início-meio-e-fim. O “m” de mar com suas ondas que sobem e descem, como a condição da menina extremamente doente em seu leito de morte; a letra “a” do mar como a gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria, momento em que todos ao redor haviam se calados pela perplexidade com que a criança vai sendo apresentada ao mar ou pela brisa fria, o vento frio a indicar que algo de ruim estaria por vir, enquanto as crianças, no universo imaginário, preocupavam-se em não demorar com o toque sobre a letra para não espantar o pássaro que ali estava; e quando encerram a leitura e a escrita da palavra mar a menina reconhece a letra “r”, o r da rocha. E os dedos da menina magoaram-se no rugoso r duro, rugoso, com suas ásperas arestas. A letra “r” muito bem observada pelo autor por causa da sua tipografia. O “r” de rocha que encerra a onda, local de repouso das aves, rocha na beira do mar de vento frio a simbolizar o fim, o término da vida de Maria Poeirinha.

E assim a menina é conduzida pela gaivota e navega no derradeiro sonho.

Eis minha mana Poeirinha que foi beijada pelo mar. E se afogou numa palavrinha.

* análise feita para o módulo Literatura Infanto-Juvenil Africana e Afro-Brasileira, ministrado pela Profa. Dra. Conceição Evaristo, no curso de pós-graduação África/Brasil: Laços e Diferenças (Universidade Castelo Branco).
Fontes:
COUTO, Mia. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.
COUTO, Mia. O ultimo voo do flamingo. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2005.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret. 2003.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ondjaki, Rita Chaves e Tania Macedo

Links para as entrevistas com Ondjaki, Rita Chaves e Tania Macedo no programa Biblioteca Sonora - Rádio USP.

O universo literário e cultural de Angola
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=070409
Essa edição percorre o universo literário e cultural de Angola. Ele foi realizado na companhia de Rita Chaves e Tânia Macedo que organizaram, juntamente com Carmen Lucia Tindó Secco, a coletânea Brasil, África: como se o mar fosse mentira. Este livro foi publicado pela Editora UNESP em co-edição com a Edições Chá de Caxinde. Apoio cultural: Odebrecht.

Novos Ficcionistas: Brasil e África
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=071123
Nessa edição temos: Paulo Bloise autor do romance Sobre Humanos eHeloisa Prieto, coordenadora da coleção Primeira Pessoa, publicada pela Editora Moderna.
Antes, nas duas primeiras partes do programa, Ondjaki que escreveu o livro Bom Dia Camaradas. A crítica literária e professora da USP, Rita Chaves também participa dessa edição dialogando com o escritor angolano.

Mia Couto - entrevista na Rádio USP

a crítica e a criação

Entrevista realizada pelas Professoras Tania Macedo e Rita Chaves com o escritor Mia Couto na Rádio USP apresentada em 14/08/2006.

"Essa edição tem como convidado Mia Couto autor do Romance O Outro Pé da Sereia , publicado pela Companhia das Letras. O ficcionista conversou a respeito do seu trabalho literário com as professoras Rita Chaves e Tânia Macedo Antes, porém o programa apresenta uma homenagem ao professor e crítico literário João Alexandre Barbosa, que faleceu recentemente. O intelectual também foi o re-fundador da EDUSP e graças a sua atuação em poucos anos essa casa tornou-se a principal editora universitária do país."

Clique em:
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=2&edicao=060814

Riso

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cabo Verde

É com intensa satisfação que anuncio que este blog - Riso: sonhos não envelhecem - consta nos links sobre Literatura no sítio dedicado a Cabo Verde da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes, da Universidade São Paulo (USP). O endereço é http://www.simonecaputogomes.com/

Simone Caputo orienta-me nos assuntos relacionados a Cabo Verde, apresentando pintores, indicando autores e textos sempre com muita gentileza e atenção. Daqui presto meu agradecimento.

Sobre Cabo Verde já postei os seguintes textos:
Tchalê Figueira (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/tchal-figueira.html

Kiki Lima (pintura)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/pincelada-rtmica-de-kiki-lima.html

Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Ovídio Martins (poeta)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/07/mito-hesperitano-pasargadismo.html

Dina Salústio (contos)
http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-liberdade-adiada.html

http://ricardoriso.blogspot.com/2007/12/dina-salstio-tabus-em-saldo.html

Ainda este mês, colocarei um texto sobre o livro de contos "Mornas eram as noites", de Dina Salústio.

Riso