segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mia Couto revisitado (entrevista)

Quinta-feira, 14/9/2006
Elisa Andrade Buzzo
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2047

Ele tinha mãos calmas e as apoiava em cima do gravador. O tempo quente não o impedia de vestir uma camisa - fora rendido pelo calor, indicavam as leves dobras em cada manga.

Ouvir a fita cassete, gravada em 29 de agosto de 2004 no Hotel Luzeiros, traz inevitavelmente à tona o ambiente da noite. A maciez da fita magnética premida pela pequena almofada traz mistérios, completa o ar de sons amortecidos, que agora ressoam novamente. As palavras do escritor moçambicano Mia Couto inundam o cômodo.

A entrevista que irá se seguir a este texto foi feita na ocasião de uma viagem à Bienal Internacional do Livro de Fortaleza, em 2004. No entanto, a conversa com o escritor não havia sido publicada até o momento. Recuperada a fita cassete, transcrevi apenas as perguntas feitas por mim e respondidas por Mia, abstendo-me de incluir a parte de um jornalista de Pernambuco também presente.

Em junho deste ano Mia Couto esteve novamente no Brasil, desta vez para lançar o livro O outro pé da sereia pela editora Companhia das Letras. Lá estavam, mais uma vez, as mãos em calmaria no teatro do Sesc Vila Mariana, onde Mia fez uma pequena conferência ao público, seguida de uma seção de autógrafos.

António Emílio Leite Couto nasceu em 1955 na cidade de Beira, em Moçambique. O "Mia" é apelido que veio da infância. Trabalhou como jornalista dirigindo a Agência de Informação de Moçambique, a revista Tempo, e o jornal Notícias de Maputo; foi militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Atualmente trabalha como biólogo.

O escritor foi editado no Brasil inicialmente pela Nova Fronteira, na década de 1990. As edições dos livros Terra sonâmbula, Histórias abensonhadas e Cada homem é uma raça estão esgotadas. Mais três livros foram editados nos últimos anos, desta vez pela Companhia das Letras: Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra, O último vôo do flamingo e O outro pé da sereia.

Também vale a pena conferir livros do autor não-publicados no Brasil, no site da editora portuguesa Caminho Editorial.

Elisa – Posso te chamar de António... Mia?

Mia Couto – Ah, Mia! António já não existe [risos].

Elisa – Estive lendo algo sobre quinze livros ser a média de publicações por ano em Moçambique. Você sabe se esse número aumentou, se há hoje uma vida literária mais intensa no país?

M. C. – Eu imagino que quinze livros é o que está a ser publicado agora. Quinze, vinte livros, que deve ser aquilo que o Brasil publica em meio dia ou algumas horas só, né? [risos] Uma situação recente esta, porque nós, até sete anos atrás, publicávamos só dois, três por ano. Então isso origina um círculo vicioso porque a pouca produção não estimula que novos valores nasçam. Mas é algo que eu acho que realmente é contingente, quer dizer, é uma herança de um país que, ao mesmo tempo, é um dos países mais pobres do mundo. Moçambique está dentre os dez mais pobres do mundo; e é também uma herança de uma guerra que demorou dezesseis anos e que paralisou por completo o pouco que havia. Então, nós estamos a sair disso, estamos emergindo de alguma coisa que foi uma espécie de uma noite apocalíptica quase.

Elisa - Você acha que o país agora está caminhando para...

M.C. – O problema é esse “para”. Está caminhando, mas está para onde? Não sabemos. Porque ali tudo é muito frágil, nós vamos ter eleições agora em novembro e o grande drama é este, uma eleição aqui é alguma coisa que não pode alterar profundamente muito, não precisa já ter rotinas, já tem procedimentos, tem esquemas que funcionam independentemente da política, quer dizer independentemente da política não tanto assim, mas que não estão tão dependentes da política como no nosso caso. No nosso caso, nós dependemos absolutamente do que vai a passar numa eleição. E isso pode terminar que este caminho, que é um caminho de estabilidade, que é um caminho de crescimento que temos tido desde... a independência foi em 1975, depois tivemos paz em 92, desde 92 nós temos um caminho que é um caminho de crescimento, de consolidação desta paz. E esta turbulência que o país foi vivendo é tão ligada à vida de cada um, que nossos escritos percorrem um caminho que é quase paralelo a isso. No meu caso, por exemplo, eu escrevi aquilo que era antes da guerra, durante a guerra, depois da guerra. Os meus livros seguem muito próximos a essa espécie de crônica do fazer e desfazer de um país.

Elisa – Você sempre morou em Moçambique?

M.C. – Sempre morei em Moçambique. Mesmo durante a guerra eu nunca saí.

Elisa – A gente aqui no Brasil tem uma visão da África que muitas vezes é estereotipada. Agora, qual é a visão que você acredita que Moçambique tem do Brasil?

M.C. – Olha, há visões diferentes. Mas em geral é uma visão estereotipada também, né? Eu acho que os moçambicanos em geral, os moçambicanos urbanos, sabem o que é o Brasil, sabem que há o Brasil, sabem um bocadinho da história do Brasil, sabem que o Brasil fala português. E mesmo os menos escolarizados têm essa consciência de que está ali alguém da família do outro lado. O reverso já não é tão verdadeiro, eu vejo que muitos brasileiros com quem eu falo na rua, etc, quando eu me apresento como moçambicano, eles às vezes perguntam, “Moçambique"? E perguntam coisas extraordinárias, sobre onde é que fica... Ambos os que olhamos para o outro lado e vemos alguma coisa, vemos alguma coisa que não há. Vemos um Brasil que não há, vocês vêem um Moçambique que não há; mas os que vêem, mesmo essa imagem mistificada, são mais os moçambicanos que têm esse acesso a um Brasil. Há que se dizer, por exemplo, o moçambicano comum, o que ele sabe do Brasil é um bocadinho daquilo que o Brasil sabe exportar, sabe exportar a si mesmo. E conhece muito da música, embora provavelmente não seja a de maior qualidade, mas conhece, sabe o que se passa. Os discos mais vendidos em Moçambique, a música mais ouvida na rádio é provavelmente música brasileira. As novelas chegam lá, chega lá a Igreja Universal do Reino de Deus, um grande canal de comunicação [risos] internacional.

Elisa – Que tipo de música chega até lá?

M.C. – Olha, uma das cantoras mais vendidas é a Roberta Miranda, por exemplo. Duplas sertanejas, Chitãozinho e Xororó... era o Roberto Carlos, foi o Nelson Ned, estes nomes assim, Agnaldo Timóteo. Chegam estes com uma certa hegemonia, depois os outros como o Chico [Buarque], como o Caetano [Veloso], como o Milton [Nascimento]... tocam um pequeno grupo só, não são tão populares assim. Algumas canções deles conseguiram, mas não têm a popularidade que têm estes outros cantores.

Elisa – Mia, eu queria muito ter lido alguma coisa de sua poesia para hoje... [no entanto não pude ter acesso ao livro de estréia de Mia Couto]

M.C. – Melhor não... [risos]

Elisa – Você não gosta mais da sua poesia?

M.C. – Eu fiz um livro de poesia só. Foi o meu primeiro livro, chama-se Raiz de orvalho. Foi publicado em Moçambique e depois em Portugal. Eu não me revejo muito ali, eu acho que eu sou um poeta que escreve em prosa. O que eu estou fazendo é poesia, em grande medida. Aquela é uma poesia datada, eu queria dizer qualquer coisa contra o que estava passando e o verso era a minha arma. Mas não, não me envergonho, mas não acho que é a melhor maneira de começar por travar conhecimento com a minha escrita.

Elisa – Você acredita que escreve uma prosa poética?

M.C. – Ou uma poesia em prosa. Quem sabe o que é que é uma coisa e outra, onde é que está a fronteira, né? Mas eu me considero um poeta, por exemplo, se me dissessem que eu sou um escritor, eu tenho uma certa resistência, se alguém me disser que eu sou um poeta, eu acho que isso me honra muito.

Elisa – Como foi pra você essa transição da poesia para a prosa, apesar dessas relações?

M.C. – Eu era jornalista naquela altura, tanto que eu comecei a trabalhar como jornalista em 74. E por volta de 85, eu já tinha percorrido muito do meu país, das zonas interiores, aquilo que é o nosso sertão, que lá se chama savana. E eu recolhi muitas histórias, enfim, uma instigação forte daquilo que eram as vozes rurais que ecoavam na minha cabeça. E eu escrevi o primeiro livro de contos que se chamava Vozes anoitecidas, exatamente porque era um livro de vozes, era alguma coisa que me chegava do outro lado do mundo e que, digamos, que estavam veladas pela noite e que a minha operação era simplesmente desocultar isto. Eu não era um autor, eu era uma espécie de caixa de som. E essa foi a minha forte motivação para passar a contar histórias e contá-las usando a prosa, mas sendo uma prosa premiada pela poesia.

Elisa – Que é seu grande diferencial...

M.C. – Ah, eu não sei fazer de outra maneira. Não é um mérito, eu não sei fazer de outra maneira.

Elisa – Então, você acha que o jornalismo talvez tenha te ajudado de alguma forma a caminhar para a prosa?

M.C. – Eu acho que o jornalismo ajuda muito a perceber como é que se comunica com os outros, mas é um mestre que tem que se matar rapidamente porque senão nos aprisionam num certo tipo de linguagem, e nós ficamos olhando os outros de uma maneira que eu acabo por não gostar. Uma das razões pela qual eu deixei o jornalismo foi porque entrei em ruptura com certos tipos de atitude. Como posso explicar? Não fiquem magoados comigo porque eu ainda sou jornalista, nunca deixei de ser jornalista. Mas ali há uma certa tentação de arrogância, quer dizer, o jornalista não tem tempo. Não tinha o tempo que eu queria. Nós somos enviados para um lugar ou para um acontecimento e não podemos telefonar para a redação dizendo “olha, eu preciso de um mês para ganhar o espírito e para ir fundo, para mergulhar nas coisas”. Ninguém nos autoriza a uma coisa dessas. Então, isto é um certo convite à uma certa mentira, pois temos que dizer que somos supostos transmissores de uma certa idéia do mundo. E tinha uma outra coisa, ter mais tempo, viajar mais fundo, não ir a correr nesta espécie de ditadura do estar lá e estar em cima do acontecimento. Essa idéia de tempo é uma idéia fatal, é uma idéia que nos acaba por matar.

Elisa – Mia, queria pensar numa questão, você se considera um escritor moçambicano ou um escritor português nascido em Moçambique?

M.C. – Não, sou um escritor moçambicano, eu não me considero português. Quer dizer, eu sei que eu tenho um lado português, mas não sou português. Não por uma razão de nascimento no sentido geográfico, mas porque eu só me concebo... aquilo que me falta ainda nascer só pode nascer lá [Moçambique], nesse sentido. As vezes que eu nasci, todas elas foram lá e acho que ainda eu vou nascer, são lá. É mais nesse território da fé, no território da minha geografia cultural que está ali em Moçambique. Obviamente não tenho nenhuma briga com aquilo que é minha herança portuguesa, gosto dela. Se há alguma coisa que eu possa dizer que eu sou, eu sou dali, daquela Moçambique, sim.

Elisa – Há escritores brasileiros que você sente ter influenciado sua obra? Ou o que escreve veio apenas de si, um jeito seu?

M.C. – Ah, não, não, um jeito meu, não. Agora é meu, mas começou por ser de outros. É uma influência muito marcada por João Cabral de Melo Neto, pelo [Carlos] Drummond de Andrade, pelo Manoel de Barros, pelo Guimarães Rosa. Eu deixei por último este, embora seja a influência que mais me fascinou. Eu comecei escrevendo recriando o português muito na esteira daquilo que pessoas como o Guimarães Rosa fez. Mas sem saber que existia o João Guimarães Rosa. Eu conhecia alguém que foi muito influenciado por ele, que foi Luandino Vieira, um angolano, que depois numa entrevista que eu li, escreveu que ele tinha sido marcado pelo Guimarães Rosa. Eu comecei a perseguir este Guimarães. E aquilo foi um incêndio, foi uma coisa cataclística. Muito importante pra mim, impressionante como uma espécie de caução, havia ali um sancionar, é possível fazer isto, há uma luz verde. Mas não é um caso que acontece só comigo, acho que a literatura moçambicana, toda ela, está marcada por uma influência brasileira fortíssima e muitas vezes mais forte do que a portuguesa ou qualquer outra africana.

Elisa – Por que acha que isso aconteceu?

M.C. – Porque a maneira como a língua brasileira, variante da língua portuguesa, se aproxima mais de nós, da maneira como uma outra cultura está a trabalhar na língua portuguesa e, portanto ela tem que reformular, tem que vestir de uma outra forma. E quando nós descobrimos o Brasil, nesse sentido, foi como uma descoberta de nós próprios. E o Brasil tinha, desde o Manuel Bandeira, o Mário de Andrade, essa preocupação também de encontrar linhas de ruptura com a literatura portuguesa, com a língua portuguesa. Havia esta idéia do abrasileiramento da linguagem, que era a nossa preocupação também, nós vamos buscar socorro à literatura brasileira durante muito tempo. Depois foi Jorge Amado, Graciliano Ramos, a Rachel de Queiroz, num ou noutro momento, foram fontes de inspiração muito, muito grandes. Não há escritor moçambicano, não há geração de escritores moçambicanos que não tenha vindo beber aqui com muita força. Eu sempre digo isto porque é uma espécie de homenagem que eu faço a vocês, ao Brasil.

Elisa – Quero falar um pouco sobre o Primeiras Estórias e seu livro da Companhia das Letras, eu sempre confundo o nome, é Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra...

M.C. – Sim. Eu também confundo.

Elisa – Enquanto eu estava lendo o livro, pensei na “Terceira margem do rio” [conto do livro de Guimarães Rosa], o rio é a parte central, e no seu livro o rio também é um elemento bastante importante, não é? É esse componente do maravilhoso que vejo, assim como no Guimarães.

M.C. – É provável que haja qualquer coisa ali, não refuto, mas acho que ali há duas coisas. A primeira coisa é que eu atravessava um rio, durante três anos trabalhei numa estação de biologia que ficava na outra margem do Maputo e era preciso atravessar o estuário do rio para chegar ao outro lado, e eu não sabia nadar, não sei nadar até agora. E aquilo pra mim era uma viagem, sei lá, num limiar, era uma viagem numa condição extrema. E esse outro lado, é aí que eu fui buscar a minha inspiração para construir essa pequena vida onde se passa essa história, o Luar-do-Chão. E depois, o maravilhoso é uma coisa que está completamente presente na realidade moçambicana, a fronteira entre aquilo que nós podemos dizer que é o fantástico e a realidade está toda reformulada lá. Portanto, eu acho que mesmo que um escritor moçambicano não tenha nenhuma relação com qualquer autor, eu não falo no Guimarães Rosa, mas qualquer autor latino-americano da escola do realismo mágico... ele só pode fazer isso, ele não pode escrever de outra maneira porque ali, aquilo que é percepção do mundo, aquela racionalidade é uma outra racionalidade. Os meus colegas que são bons cientistas, que são geneticistas, são gente da ciência, da linha de ponta da ciência, se lhe dissessem que de noite tu conversas com o mar eles acreditam que é possível.

Elisa – Neste livro, por exemplo, você tem tanto o componente rural, quanto o urbano.

M.C. – Em tantos livros passa sempre essa questão desse trabalho de alfaiate, dessa costura, dos mundos distintos que hoje existem em Moçambique, que não se conhecem, que nem sequer sabem como falar uns com os outros. Então, o mundo rural e o mundo urbano, meio que são mundos que se desconhecem. E, provavelmente, se é que a escrita tem alguma missão, o que os escritores podem fazer é desfazer, dissolver esses medos. Até convidar, neste sentido que essa viagem nos dá intenso prazer de entrar com realidade, urbanidade. E, entrar modernidade e a tradição, é uma espécie de convite para que os outros façam essa viagem sem temor. Uma coisa que me aflige, que me aflige muito, é que Moçambique passou estes dezesseis anos de guerra, perdeu um milhão de pessoas e nós somos só dezessete milhões, portanto foi um momento muito sofrido, um momento de luto. Nós ainda não fizemos o luto e de repente Moçambique esqueceu-se, se fores hoje a Moçambique ninguém fala do que se passou. É uma esponja que passou ali, não há resquícios. E isso não é bom, quer dizer, isso significa que nós perdemos aquilo que deixou de ser nosso, nós temos que ter acesso àquela memória. E os escritores podem ter aqui um outro papel ao escrever, ao abrir portas, ao fazer uma espécie de catarse sobre esse momento.

Elisa – Tem muito, então, de autobiográfico nesse livro?

M.C. – Sim, esse Marianinho sou um bocadinho eu [risos]. Eu também nunca conheci um avô meu, então é uma espécie de tentativa de escrever a minha própria história.

Nelson Saúte: A sombra vagabunda

- Estou a apodrecer vivo.

Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa, parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava uma tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.

Estávamos os dois em plena avenida Samora Machel, na baixa de Maputo. A cidade imitava o bulício de outros dias. Interrompi meus pensamentos sobre o esqueleto do prédio Pott, que também apodrecia – como as palavras pungentes do homem que parara diante de mim -, resistindo as suas paredes mijadas e defecadas, sujas e ultrajadas depois de longos anos de abandono. Também o prédio, cuja construção começara em 1905, cem anos antes justamente, se queixava das mazelas do corpo. Deixei-me do corpo de pedra e dediquei-me àquele homem que entrara na minha solidão.

Eu estava à espera que o Moisés e os seus mufanas (rapazes, miúdos) acabassem de lavar o meu carro. Há muito que eles cuidam do meu automóvel. Em compensação o Moisés -, o patrão, tem uma avença. Tudo isto ali na praça.

Pensava vagarosamente sobre as mutações constantes da cidade. Do alto da avenida surgia, hierático, o edifício da câmara municipal, vulgo conselho executivo, terminologia que veio a reboque da revolução.

- O senhor doutor não está a ver quem sou eu?

Não hesitei em ser sincero.

- A sua cara não me é estranha. Mas do nome não me lembro.

Fixei a sua imagem sofredora. Era um homem escuro, demasiadamente escuro. Magro, pelo pescoço se adivinhavam as marcas das veias. No olhar, a sombra dele próprio. Fiquei aturdido perante aquela imagem de um homem que sobrara naquele esqueleto, da vida que resistia naquela expressão.

- Estou a sofrer senhor doutor.

Nada disse. Permaneci em silêncio.

- Estou a vir do hospital, tenho bolhas por todo o corpo...

Sem acabar a frase, baixou-se vagarosamente e puxou as calças pela bainha. Fiz-lhe um sinal com as mãos e a cabeça:

- Não precisa, meu caro senhor.

De nada me valeu a advertência. O homem mostrou as suas partes íntimas, naquele instante breve entre a sua primeira frase e o meu inescondível espanto.

- Está a ver? Tenho o corpo todo assim. Preciso de setenta meticais para o hospital. Não posso prometer, mas um dia eu vou pagar.

Para evitar constrangimentos de ser interpelado e não saber mentir, muitas vezes, quase sempre, ando sem dinheiro. Como era sábado, naquela manhã, eu tinha algum.

O homem tinha os ombros recurvos, que os fez dobrar para intensificar a sensação da dor, perante meu indisfarçável espanto. Pensei comigo: por que razão não darei os setenta meticais? Talvez contribua com mais um dia de vida no incauto destino deste homem.

Provavelmente o dinheiro teria outra utilização e não o hospital ou a farmácia. Mas lá tranqüilizei minha consciência por estar a partilhar com o próximo as parcas benesses que me couberam neste mundo.

- Muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer, doutor.

- Não tem que me agradecer. Desejo-lhe rápidas melhoras.

O homem baixou-se numa vênia, o movimento foi feito com a lentidão das forças que lhe restavam. Vestia uma camisa às riscas, de flanela, uma camisola por dentro, umas calças jeans, sapatos pretos e meias grossas igualmente escuras. Olhei outra vez para a sua mão e tornei a reparar nas manchas que lhe brotavam daquela zona do corpo.

Enquanto o bulício da cidade se imiscuía nos meus pensamentos, deixei-me por uns momentos fixado na imagem daquele homem que dobrava a esquina da avenida Zedequias Manganhela, em direcção ao mercado Central, o famoso Bazar da baixa. Eu continuava ali na Samora Machel, a avenida que termina justamente na praça 25 de junho, onde se levam os carros, que se encontrava encerrada, em obras, ouvindo ao longe as buzinas dos motoristas impacientes, o trânsito caótico do meio-dia, da cidade toda que descera à baixa, dos veículos que não tinham onde estacionar.

- Sou da família Nhantumbo, dissera.

Confesso que anuíra com a cabeça mas, na verdade, não o conhecia. A cidade é pequena, quase todos nos conhecemos. É provável que este homem tenha sido alguém que tivera ou travara algum conhecimento comigo no passado. É provável, mas não me recordo. Olhava fixamente para o cimo da Samora Machel e tentava descortinar, nas teias da memória, algo que trouxesse aquele rosto aos dias do presente.

Há muito que não escrevo, pensei, a matéria prima está aqui, nos dias que passam rente ao meu nariz. Aqui estão as histórias, as vidas destes homens desencontrados com o seu tempo.

Lembrei-me então da mulher grávida e imensamente magra que se cruzara comigo horas antes. Era também o mapa de uma mulher sofrida, cuja barriga era maior que o seu corpo. Caminhava sem olhar para a frente. Caminhava como muitos dos que se perdem na esquina adiante. Caminhava como quase todos nós caminhamos. Deixava pelo caminho um pouco de nós próprios, perdendo em cada rasto a nossa desconhecida biografia. Como aquele homem que me deixara assombrado e que caminhava, não obstante. Provavelmente, em cada esquina da cidade ele deixava cair – já poucas forças restavam – o que lhe sobrava da sua sombra vagabunda.

Saúte, Nelson. A sombra vagabunda. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. 1ª edição. pp. 47-51.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Novos Baianos – Acabou Chorare

Acaba de sair um livro de autoria de Moraes Moreira com a sua versão para a história do criativo grupo/comunidade Novos Baianos, surgido na virada dos anos 1960/1970 em meio ao terror estabelecido pela sangrenta ditadura militar que assombrava nosso país. Soube do livro pelo programa Espaço Aberto – Literatura (Globo News/Net) com o sereno jornalista Edney Silvestre, e fiquei a recordar os meus primeiros contatos com a obra do conjunto de cabeludos, sujos e largados. Verdadeiros hippies.

Entre os incontáveis discos de vinil que meu pai possuía, havia o antológico “Novos Baianos – Acabou chorare”. Álbum de capa dupla com diversas fotos dos numerosos integrantes no sítio que ocupavam em Jacarepaguá. Eu ficava espantado (tinha então uns seis ou sete anos de idade) com o estilo despojado, alegre, descontraído e sem maiores caprichos com a aparência que eram parecidos com as primeiras idas da minha família para Figueira, em Arraial do Cabo, no final da década de 1970. Lugar que na época não tinha energia elétrica, anoitecia e ficávamos sob a inconstante luz do lampião de querosene, ausência de água encanada conseguida através de uma bomba manual à qual os adultos tinham que ficar agachados para “tentar” tomar banho. A comida era feita em um fogão de tijolos e todas as pessoas ficavam amontoadas em barracas. Bons tempos em vida comunitária, mesmo que fosse por poucos dias.

Diante de tais semelhanças, logo de cara construí uma simpatia por aquela desconhecida galera. Peguei o disco e coloquei na minha vitrolinha portátil Philips. Era um aparelho que, quando fechado, parecia uma maletinha, quando aberto posicionava-se a caixa de som que ficava presa à tampa.

Os Novos Baianos chegaram ao Rio de Janeiro em 1971 e iniciaram sua experiência comunitária em uma cobertura na zona sul e um belo dia receberam a visita de João Gilberto, um dos grandes nomes da bossa nova. Esse contato faria com que o grupo ampliasse suas influências no clássico álbum “Acabou chorare”, um dos mais antropofágicos discos da música brasileira, e a bossa nova faz-se na música-título, composição de Galvão e Moraes, tanto no som quanto na letra:

“Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo”

Depois, o grupo estabeleceu-se no famoso sítio de Jacarepaguá onde uniu música, futebol e vida alternativa. Tudo com muito humor e alegria, contrastando com a barra pesadíssima da sanguinária passagem do ditador Médici pelo poder usurpado, e os versos iniciais de Brasil Pandeiro (composição de Assis Valente), “Chegou a hora dessa gente / bronzeada mostrar seu valor”, retratam a coragem e ousadia dos integrantes ou como canta Baby em “Tinindo trincando” (composição de Moraes e Galvão), mostrando o espírito que norteava o grupo:

“Eu vou assim
E venho assim

Porque quem invade não
não chega não
chega não porque pera aí
sou mesmo assim
sou mesmo assim
sou mesmo assim
assim”

Entretanto, nessa transição que desencadearia no movimento do desbunde, a experiência no sítio, a idealização e tentativa de concretização do sonho da contracultura em levar uma vida libertária a enfrentar o sistema capitalista pela mudança de comportamento, e não se associando ao radicalismo da esquerda que na época vivia o auge da luta armada, Moraes Moreira na entrevista a Edney Silvestre relata que a experiência foi bem sucedida até a chegada dos filhos do grupo. Aí, a falta de grana começou a pesar e o sonho do flower power tropical começou a ruir.

Para combater o inferno astral do período, “Besta é tu” (composição de Galvão, Pepeu Gomes e Moraes Moreira) convoca a todos a buscar um novo olhar perante a realidade estabelecida:

“Besta é tu, besta é tu
Besta é tu, besta é tu

Não viver nesse mundo, se não há outro mundo

(Por que não viver?)
Não viver nesse mundo
(Porque não viver?)
Se não há outro mundo
(Por que não viver?)
Não viver outro mundo

E pra ter outro mundo, é preci-necessário
Viver, viver contanto em qualquer coisa
Olha só, olha o sol. O maraca domingo. O perigo na rua

O brinquedo menino
A morena do Rio, pela morena eu passo o ano olhando o Rio
Eu não posso com um simples requebro
Eu me passo, me quebro, entrego o ouro

Mas isso é só porque ela se derrete toda só porque eu sou baiano”


Galvão, inspirado, para confundir a censura, a caretice de direita e esquerda, defini-se em “Mistério do planeta”:

“Vou mostrando como sou e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.
Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta.

O tríplice mistério do "stop", que eu passo por
e sendo ele no que fica em cada um.
No que sigo o meu caminho e no ar que fez e assistiu.
Abra um parênteses, não esqueça que independente disso
eu não passo de um malandro.
De um moleque do Brasil, que peço e dou esmolas.

Mas ando e penso sempre com mais de um,
por isso ninguém vê minha sacola.”

No disco encontramos frevo, samba, bossa nova, rock’n’roll e outras citações sonoras exploradas com ousadia e competência por Moraes, Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi, Jorginho Gomes, Baixinho e Bolacha num intenso diálogo com as idéias tropicalistas de Gil, Caetano e Mutantes. Talvez a melhor fusão do rock com ritmos brasileiros já feita por aqui.

Para termos uma noção da recepção do álbum “Acabou chorare” pela crítica, cito o que Torquato Neto, compositor, músico, ator, jornalista, poeta e um dos pilares do tropicalismo ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso, escrevia entusiasmado a respeito do grupo:

“Essa é pra ninguém perder: o Teatrão da Siqueira Campos vai apresentar hoje, à meia-noite, um superconcerto dos Novos Baianos, o conjunto (conjunto?) mais ligado desta banda de cá. Quem se amarra neles não pode, mesmo, perder. Quem não se amarra está por fora e é muito bom entrar nessa dança: vamos lá: é no Teatrão, à meia-noite, hoje, hoje, hoje.” (NETO, 22/10/71. p. 123)

Em outra nota de sua famosa coluna Geléia Geral, no jornal Última Hora, Torquato Neto extravasa toda a sua empolgação com o show citado acima, em uma simpática forma de escrever. E creio que tenha sido uma experiência além do que retratou:

“Eu não estou sabendo de nada mais importante pra ser curtido do que o show dos Novos Baianos. Todo mundo já sabe: começa hoje e vai até domingo, no Teatrão da Siqueira Campos, vulgo Teatro Teresa Raquel. Um concerto hoje, outro amanhã e dois no domingo: dá de sobra pra ninguém arranjar desculpas: se querem ficar por fora, fiquem, mas fiquem sabendo que a transa dos Novos Baianos é o que existe de melhor, mais limpo e integralmente porreta entre tudo o que está pintando por aí depois do show da Gal.” (NETO, 29/10/71. p. 131)

Fui crescendo ao som de “Acabou chorare”, chegou o Rock in Rio em 1985, estavam lá Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Moraes Moreira. Além da gravidez de Baby, o fato que mais me marcou das apresentações dos antigos representantes do grupo naquele festival foi o solo de guitarra arrasador de Pepeu Gomes na chamada “noite dos metaleiros”. Aliás, considero Pepeu o mais criativo guitarrista do Brasil! Seu disco instrumental “A geração do som”, gravado no final dos anos 70, é uma pérola perdida da mistura rock e ritmos brasileiros, não devendo nada a álbuns de Stevie Vai, Joe Satriani e Ingwie Malmsteen.

Portanto, coloco “Acabou chorare” como um dos melhores álbuns de todos os tempos da música popular brasileira, fundamental na década de 1970 e que marca uma época em que a transgressão e a utopia andavam de mãos dadas. Uma referência cultural que jamais poderemos perder.

Bom, este texto foi motivado pelo livro de Moraes que ainda nem vi, mas que pretendo comprá-lo em breve. Em Uma outra história dos novos baianos e outros versos, lançado pela Editora Língua Geral, Moraes escolheu o estilo da literatura de cordel para narrar a sua versão da história do grupo. Uma opção interessante e agradável. A literatura de cordel já rendeu ótimos exemplos nas nossas letras. Inspirou João Cabral do Melo Neto, com o obrigatório “Morte e vida Severina”, e contou com a simpatia do respeitável poeta Ferreira Gullar em sua passagem pelo CPC da UNE, no raiar da década de 1960.

Para quem quiser conhecer uma outra versão da história dos Novos Baianos, basta procura o livro Anos 70 – Novos e Baianos, de Luiz Galvão, pela Editora 34.

A seguir, alguns vídeos raros que estão no Youtube com músicas de Acabou Chorare. É só curtir!

Riso

A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=mqcq4wwjL8o&feature=related

Brasil pandeiro
http://www.youtube.com/watch?v=jY3cppFA3aQ&feature=related

Mistério do planeta
http://www.youtube.com/watch?v=WWfseMcAUZY&feature=related

Preta pretinha
http://www.youtube.com/watch?v=2eomEoNO4qc&feature=related

Novos Baianos e Marisa Monte – A menina dança
http://www.youtube.com/watch?v=H3E_JrEKFvQ&feature=related



BIBLIOGRAFIA:
NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. Ed. Aeroplano. 1973.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Dina Salústio: “Mornas eram as noites”

Os contos apresentados pela cabo-verdiana Dina Salústio em “Mornas eram as noites” levam-nos a refletir sobre diversas questões que afligem a condição humana, retratando, sob a ótica feminina, os dramas, anseios, felicidades, medos, angústias, revoltas, cumplicidades e tantos outros estados que perpassam pelo cotidiano da mulher. Tendo Cabo Verde como pano de fundo, em um constante movimento entre o local e o universal, depreendemos que tais relatos ora são específicos da mulher cabo-verdiana, ora atingem as mulheres de todo o mundo.

A própria escolha do termo “morna” no título apreende a importância da condição feminina nos contos do livro, porque a morna é “tradicionalmente canto de mulher (...) Música de mulheres, em que a mulher é a peça principal” (GOMES, 2000, p. 115) A morna é a principal expressão musical de Cabo Verde e a mais importante característica cultural do arquipélago, elemento unificador dos cabo-verdianos em qualquer lugar do planeta. Além disso, mostra a estreita relação que há entre a música e a literatura cabo-verdianas, presente em textos de Corsino Fortes, Jorge Barbosa, Pedro Cardoso, Manuel Lopes entre outros, como analisa a Profa. Dra. Simone Caputo Gomes em seu artigo “Ecos da caboverdianidade: Literatura e Música no Arquipélago” (pp. 4-7).

Dina Salústio é uma das principais representantes da literatura cabo-verdiana contemporânea. Pouco destacada, a autoria feminina encontra-se em ótimas letras nos trabalhos de Orlanda Amarilis, Vera Duarte além da própria Dina apenas para citarmos alguns nomes.

Chamada Bernadina Oliveira Salústio, nasceu em 1941 na ilha de Santo Antão. Sua obra apresenta-se em poesia na antológica coletânea “Mirabilis – veias ao sol” (1991), no romance “A louca do Serrano” (1998), no ensaio “Insularidade na literatura cabo-verdiana” (1998) e nos contos que aqui serão discutidos em “Mornas eram as noites” (1994) entre diversos textos espalhados em várias publicações.

Em entrevista concedida à Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), a escritora conta como elaborou o livro e da:

“necessidade de publicar as inúmeras histórias de mulheres, histórias de vida que passam por mim (...) Não são ficção, é cá um encontro que é verdade, um momento só (...) Não fiz uma seleção desses textos, só o primeiro foi intencional, para querer mostrar o meu reconhecimento a estas mulheres cabo-verdianas que trabalham duro, que fazem o trabalho da pedra, carregar água, trabalham a terra, que têm a obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume. Quis prestar homenagem a esta mulher (...) Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito, falo da prostituta, falo de todas as mulheres que me dão alguma coisa, e que eu tenho alguma coisa delas (...) Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 114)

Diante de tais esclarecimentos, quando deparamo-nos com as curtas narrativas de “Mornas eram as noites” percebemos a presença constante de um narrador-personagem que se vale da transmissão oral dos acontecimentos para compor a matéria literária. Para Walter Benjamin, em seu célebre texto O narrador, a sociedade moderna vem perdendo gradativamente a sabedoria de narrar, desaprendemos a ouvir e contar histórias “sempre foi a arte de contá-las de novo” (Benjamin, 1936, p. 205), algo que Dina Salústio realiza com maestria e encantamento, fazendo disso uma forte característica em seu texto, como na passagem a seguir:

“Há amigos que tenho prazer em oferecer um copo. Não pelo facto de só beberem água mas também porque entre um gole e outro contam estórias que me cativam.” (SALÚSTIO, 1999, p. 19)

ou até mesmo quando, com percepção investigadora, narra conversas de outrem e assume com ironia tal condição para o fazer-literário, ou quando se vale da cumplicidade feminina:

“Eu tinha que ouvir. Bom, não necessariamente, porque podia ter-me desligado como habitualmente, mas deixe-me estar, entrando na conversa, ficando de fora, protegida pelos óculos escuros e pelo livro aberto. (...) Optei por escrever esta crônica. Sem remorsos por ter roubado pensamentos.” (Ibid, ibidem, pp. 79-80)

“Não tínhamos pressa e deixámo-nos ficar conversando, interrompidas apenas pelo ruído das carruagens que chegavam e partiam.” (Ibid, ibidem, p. 60)

Assim, apreendemos que esse narrador-personagem aproxima-nos da atmosfera do cotidiano feminino, das confidências, problemas, amores e desejos que atingem impressionante lirismo durante as narrativas.

Um dos principais temas explorados por Dina Salústio é o sexo, mais precisamente, a prematura iniciação sexual e a posterior gravidez precoce das adolescentes cabo-verdianas. Um problema que mostra a opressão sofrida pelas meninas, o desrespeito dos homens e a falta de planejamento familiar. A autora resume com acidez: “Nasceu fêmea é mulher” (Ibid, ibidem, p. 58). O estupro e o abandono são rotineiros no arquipélago. Meninas são obrigadas a ter relações sexuais e, com isto, o fim dos sonhos da adolescência. O texto denuncia a crueldade da vida e reclama à Natureza:

“Aos dezasseis anos não se devia ter filhos. A natureza não soube fazer contas. Aos dezasseis anos não se devia carregar culpas. Nem vergonhas.
Paula perdeu o olhar meigo e livre de adolescente. Agora apenas um rostinho triste e resignado que de longe se abre, quando gargalhadas de menina como ela despertam o resto de menina que ainda existe.” (Ibid, ibidem, p. 42)

O narrador revolta-se com a situação estabelecida, porém sabe que não pode exigir tal comportamento de meninas. Apresenta soluções em meio a sua indignação, percebe a ilusão de esperança que a jovem ainda possui, mas que terminará em breve. Ficará apenas o intenso calor cabo-verdiano e as dificuldades futuras para quem se tornou “forçadamente mulher, forçosamente mãe”:

“Queria vê-la com raiva (...) Mas, por Deus, aos dezasseis anos quem pode ter essa força toda? (...)
Queria que ela e todas elas se juntassem e calassem para sempre os latidos daqueles que perseguem manhosamente as nossas meninas na quietude das noites (...).
Mas Paula chora às escondidas. E tem esperança. Ainda. Porque a esperança aos dezasseis anos é a última coisa a deixar-se ir. Mas secará com o primeiro leite do primeiro filho. Secará com os sonhos da adolescente forçadamente mulher, forçosamente mãe.
Para Setembro haverá calor.” (Ibid, ibidem, pp. 42-43)


Daí resulta a postura agressiva contra a hipocrisia social perante a exploração da prostituição infantil em “Tabus em saldo”, motivada pela miséria que assola as ilhas do arquipélago, afinal “as fêmeas são sempre as mulheres”, e a impotência da sociedade diante da pedofilia, preferindo o silêncio e a indiferença da omissão:

“há outros de nós que as desejam para o folclore das fantasias e para o encobrimento ridículo e camuflado da irracionalidade do estar.” (Ibid, ibidem, p. 58)

“Temos uma juventude tão bonita que há que se retirar os dividendos, transformando-as em objetos de gozo mais sofisticado, em produtos rentáveis (...) e expô-las em fotos aos instintos curiosos de outros.
O negócio rende. Cada espiadela vinte escudos, diz-se. (...) Barato como quase tudo em Cabo Verde. (...)
Desisti de querer ver mais. É o que a maioria faz, por cobardia, vergonha e secretos desejos que as coisas ruins deixem de acontecer.” (Ibid, ibidem, pp. 58-59)


No primeiro conto, “Liberdade Adiada”, a partir de um comentário do narrador-personagem a respeito do desejo de conhecer outros ares, o terra-longismo típico do cabo-verdiano, “de como seria bom montar numa onda e partir rumo a outros destinos”, escuta o relato sofrido de uma mulher que tinha sido iniciada prematuramente no sexo: “Disseram-lhe que tinha perdido a virgindade, mas nunca chegou a saber o que aquilo era”, os vários filhos que nasciam:

“Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria que caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.” (Ibid, ibidem, p. 7)

Com uma vida monótona e de extrema dificuldade financeira análoga às dificuldades geográficas e climáticas do arquipélago, como a busca da água que leva a mulher ao desespero, a odiar os filhos e a cogitar o suicídio diante do barranco:

“Pensou em atirar a lata de água ao chão (...) confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam a sola dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.
Imaginou os filhos que aguardavam e já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava. (...)
O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final. (...)
Atirar-se-ia pelo barranco abaixo. Não perdia nada. Aliás nunca perdeu nada. Nunca teve nada para perder.” (Ibid, ibidem, pp. 7-8)

Entretanto, o amor de mãe cria forças para superar as dificuldades e que viver é preciso:

“À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.
O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos... Como ela os amava, Nossenhor!
Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.
Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.” (Ibid, ibidem, p. 8)

A preocupação com a violência descontrolada na sociedade cabo-verdiana não se restringe apenas às adolescentes, expande-se aos atos agressivos dos jovens e da violência contra as crianças. Nos contos “Para quando crianças de junho a junho?” e “Filho de deus nenhum”, a revolta e a indignação apossam-se do narrador ao relatar dois momentos de crueldade extrema. No primeiro conto citado, um grupo de adolescentes espanca um doente mental sob os olhares inertes dos adultos, enquanto no segundo conto é mostrada a mobilização de segmentos da sociedade contra a morte à dentada de um menino de três anos de idade praticada pela madrasta:

“De repente, uma rua larga, agora espreitada pela violência que transborda e agride os caminhantes. Uma dúzia. Talvez menos de uma dúzia de rapazes da quarta, que deviam ser crianças e que se haviam transformados em feras, perseguindo e atacando um doente mental. Livros e pastas esquecidos na valeta. Nas mãos, pedras. Nos gestos, ódio. Olhares frios. O homem no meio, indefeso, confuso, louco, impotente, cada vez mais agitado pelos uivos dos estudantes que nunca deveriam lançar outros sons que os da alegria e da esperança.” (Ibid, ibidem, p. 28)

“Homens e mulheres enfurecidos atacam a cadeia onde se encontra detida a assassina do pequeno Lizandro, de três anos, morto à dentada. (...) O pequeno Lizandro não resistiu às mordeduras e pancadas da madrasta. (...) Não conheceu alegrias. Para ele, apenas tristezas que o seu corpo cedo recusou.” (Ibid, ibidem, pp. 53-54)

Nos dois contos a violência urbana e a insensibilidade da sociedade estão presentes. Problemas que ocorreram em Cabo Verde, mas poderiam ter acontecido e acontecem em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. É a violência causada por um sistema neoliberal que exclui e oprime as classes menos favorecidas, não dá oportunidade para os jovens que ficam impossibilitados de realizar seus sonhos. Famílias desestruturadas que vivem à beira da miséria, sem perspectivas, sem nada. Apenas indiferença e desencanto. Tempos amargos como o jovem que liderou o espancamento ao doente mental, jovem que reclama a ausência da figura paterna, o vazio da vida:

“‘... Se fosse meu pai, eu não teria pena... Se ele morresse, problema dele... Se eu gosto do meu pai? Se você o vir pergunte-lhe se ele gosta de mim, ou... se... se me conhece.’
Nas últimas palavras um soluço abandonado. Silêncio no grupo. Pedras que caem das mãos. Bando que se desfaz.
E quando o miúdo chefe se mexe e retoma o caminho para casa, arrastando os pés, não há crueldade nos seus olhos. Apenas uma criança amarga que havia parido prematuramente um homem. Desencantado.” (Ibid, ibidem, p. 29)

A sensação de impotência é apontada pela autora, que manifesta sua perplexidade com o crescimento e vulgarização da violência, levando-a a questionar o caráter brando, ameno e feliz do povo cabo-verdiano exaltado por teóricos como Gabriel Mariano, que nos anos 1950 dizia “a sua morabeza; o seu feitio hospitaleiro,de uma hospitalidade amorosa, integral, sem reservas; a sua franqueza, a sua liberalidade ingênua” (MARIANO, 1991, p. 77). Tal posição idealizada sobre o cabo-verdiano, fundamental em um momento de afirmação da cabo-verdianidade em plena ditadura salazarista, não é aceita pela narradora-personagem que procura explicações nas características geográficas do arquipélago diante da barbárie. Questionamentos confusos de um ser que faz da indignação a mola propulsora para não aceitar a situação vigente:

“Aparentemente revoltamo-nos com tudo, desde o aumento dos preços dos bilhetes do cinema, à morte, à dentada, do Lizandro, no Sal, mas vamo-nos habituando, docemente, nos habituando a casos semelhantes que se multiplicam. E vamos perdendo o sentido da tragédia e da relatividade dos crimes.
A sensibilidade que nos caracterizava, existia mesmo? (...)
Éramos um povo de brandos costumes. (...)
Na normalidade do quotidiano a violência ganha espaço e afirma-se. Alguns defendem que a nossa dureza vem das rochas, da fome e das secas. Outros encaixam-na na escravatura.
E vamos fabricando teorias para justificar a insensibilidade e o ser cruel que existem em nós. Em todos nós.” (Ibid, ibidem, pp. 53-54)


A violência atinge os lares, destrói a harmonia do casal que incompreensivelmente permanece junto após anos de brigas e desentendimentos, “num desafio permanente à vida, à morte, ao direito de viver” (p. 21), levando a mulher a assassinar o marido. É a denúncia do conto “Foram as dores que o mataram”. A autora trata de outro problema universal, a violência doméstica. Só que no caso relatado, a mulher rebela-se contra as pancadas e abusos do seu corpo que dilaceraram a sua vida, o seu amor, a sua esperança:

“Via-o partir e ali ficava horas e dias à espera de que as coisas iriam mudar. Nesse dia não lembraria mais os tempos duros, os paus de pedra que me roíam e me desgastavam as entranhas. Mas para mim, não voltava nunca. Apenas para pedaços do meu corpo que esquecia logo. (...)
Ele matou-se. Criou um espaço onde coabitavam a violência, a destruição, a miséria, o animalesco. E nós.
Deu-me as armas e fez-me assassina.” (Ibid, ibidem, p. 22)

No corpus literário cabo-verdiano o espaço físico do arquipélago marca sua presença, sendo a insularidade um dos seus aspectos mais representativos. Em palestra sobre a identidade cultural cabo-verdiana, David Hopffer Almada afirma que:

“A insularidade, dado o caráter arquipelágico das ilhas, circundadas por ar e mar, criando no espírito ilhéu o eterno dilema: ‘querer partir e ter que ficar’ e/ou ‘ter que partir e querer ficar’, a base do espírito evasionista e anti-evasionista tão cantado na literatura cabo-verdiana.” (ALMADA, 1989, p. 65)

Em razão das condições adversas da geografia, clima, desemprego e miséria o ilhéu convive com este impasse: ter que abandonar sua terra, conflitando os sentimentos de evasão e anti-evasão. O escritor e ensaísta Gabriel Mariano aprofunda um pouco mais a questão ao demonstrar o quanto é doloroso para o cabo-verdiano abandonar sua terra:

“É sabido que o isolamento provoca ou excita a ânsia de convivência. (...) a temática da ‘hora di bai’ ou da evasão não são mais do que a contra-prova do desejo de convívio, não são mais do que expressões de quanto é doloroso para o crioulo o corte de raízes, a interrupção do diálogo, a fuga do convívio familiar. (...) Querendo ficar, mas também querendo partir. (...) partindo, mas subordinando a partida ao regresso; não se desprendendo nunca em absoluto do seu solo nativo” (MARIANO, 1991, p. 77)

A insularidade atinge as relações amorosas, demarca os destinos das pessoas. A interrupção do amor é explorada por Dina Salústio no conto “Uma viagem de saudades”. Neste, a autora inverte a situação de despedida, porque a diáspora tem preponderância masculina, ao narrar a partida de uma adolescente que parte da ilha Brava aos dezessete anos, deixando o seu amor, contudo comprometendo-se em retornar brevemente:

“Ela saíra aos dezassete anos, trinta anos atrás. Deixou noivo e a promessa de emigrarem juntos para a América logo que voltasse da viagem que duraria três meses. Ia conhecer o pai, que por causa de uma hipótese de traição tinha jurado nunca mais voltar à Ilha Brava.” (SALÚSTIO, 1999, p. 19)

Após trinta anos, a mulher retorna com a esperança de encontrar o seu antigo amor adolescente. A narradora-personagem apenas escuta as experiências vivenciadas pela mulher no estrangeiro, o desejo de retomar a relação interrompida. Ela não emite opinião para não decepcioná-la, apesar de saber que o homem descrito não corresponde ao aspecto físico atual:

“Voltava agora. Intacta. Para casar com o primeiro namorado, moço bonito, branco e de cabelo fino (...) Voltava e nunca mais, em nome de coisa nenhuma se separariam.
Contou-me todos os sonhos da sua juventude, os segredos, os jogos partilhados com o noivo, as esperanças e as certezas. (...)
Disse-me o nome do homem e teve que o repetir umas duas vezes para eu o ligar à pessoa que conhecia, atarracado pelos anos e pelas gorduras, careca, avermelhado pelo grogue. (...)
Ela casara em França, foi feliz, foi infeliz, viveu e morreu como todos nós nesses anos todos; mas era como se o tempo lhe tivesse poupado o coração; como se a esperança não tivesse sofrido um lanho que fosse, enquanto estivera ausente.
Podia ter-lhe dito que voltasse para a França, para junto da filha e dos netos e que esquecesse os antigos amores que só devem existir na lembrança guardada, mas fiquei calado e nem pude sorrir para ela e desejar-lhe sorte quando se levantou do caixote para embarcar no Furna a caminho da sua ilha e do seu homem.” (Ibid, ibidem, pp. 19-20)

É importante frisar a polêmica questão da insularidade no corpus literário cabo-verdiano, pois sempre foi representada nas letras do arquipélago, causando diversas rupturas no decorrer do século XX, por exemplo: entre a geração da revista Claridade e os pós-claridosos. A autora não foge do embate e tece algumas considerações a respeito:

“A literatura cabo-verdiana revela o cabo-verdiano, ele próprio, que só se compreende na insularidade. (...) E nesta viagem ao encontro da literatura, antes de qualquer outra visa, surge-nos o mar enorme e sem fim, ditando o rumo, traçando rotas, revelando distâncias, marcando o silêncio. Imposições que vão definir as relações entre a ilha e o ilhéu. (...) cheiros do mar que o isola do resto do mundo, (...) e em atitude quase mítica entrega-se desarmado e só à insularidade, relação e sentimentos que constituem um autêntico maná, matéria prima para a escrita. (...) já cheguei a pensar que o recurso à insularidade poderia ser uma forma do escritor se vingar dela.” (Apud: SALÚSTIO, 1998, Insularidade, pp. 33 e 34)

No conto “Please come back to me” a irrealização do amor dar-se de forma inusitada. Novamente, o aspecto insular faz-se presente na narração da relação amorosa de uma mulher por um estrangeiro e a dificuldade de comunicação entre o casal, pois esbarram na barreira da língua:

“Devo confessar que sou dura para a aprendizagem de línguas e do inglês apenas sabia quatro palavras e o meu amigo John que é também fraco de idiomas, igualmente sabia outras quatro em português, e o nosso relacionamento era apenas silêncios e ternuras.” (Ibid, ibidem, p. 51)

É a partir da ausência do amor vivenciado por esta mulher, que recorremos a Roland Barthes, em “Fragmentos de um discurso amoroso”:

“Ora, só há ausência do outro:é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem. Ele é, por vocação, migrador, quanto a mim, que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar , não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica – e não de quem parte. (...) Historicamente, o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária, o Homem é caçador, viajante; a Mulher é fiel (ela espera), o Homem é conquistador (navega e aborda). É a Mulher que dá forma à ausência.” (BARTHES, 1977, p. 27)

Retomando o conto, ao fazer um pedido ao companheiro no seu parco inglês, o estrangeiro espanta-se com a solicitação e ela com a reação dele, o que levou ao fim do relacionamento. Sem compreender o sucedido, pede explicação a um amigo que revela o mal entendido. A partir daí, entra em um curso de inglês, mas já é tarde para uma reconciliação com o amante estrangeiro, porque este já não se encontra mais na ilha:

“Virei-me para o meu companheiro e, no inglês balbuciante que já ousava, pedi-lhe que me abraçasse. (...)
Ao meu pedido, John interrompeu o percurso de um pensamento que me desenhava o corpo, olhou-me espantado como se me estranhasse e quando lhe repeti ‘abraça-me’, (...) começou a bater-me, a princípio suave, muito suavemente, aumentando depois de intensidade e de fúria (...).
Por fim deixei de lhe suplicar que parasse, em português, claro, para apenas ser o momento que vivia.
Depois, sem Lionel, Hello ou pancadas; sem amor, friozinho e sem nada vi o John levantar-se, olhar para mim de modo incompreensível e sair.
Passados dias, ainda confusa, contei a um amigo comum o que acontecera entre nós (...).
Fez uma cara desconsolada, chamou-me burra e explicou-me que em vez de dizer ‘abraça-me’ tinha dito ‘bate-me’(...).
(...) decidi que ia aprender inglês, custasse o que custasse, para poder entender-me com ele (...) inscrevi-me num curso intensivo de inglês e com muita dificuldade, ao fim de cinco meses, aprendi mais cinco palavras ‘Please come back to me’.
Entretanto rebentou a guerra do Golfo e perdi o contato com o Koweit e com o John. Odiei Saddam, o poder e a paixão e soube que nunca mais iria poder dizer-lhe: Por favor, volta para mim.” (SALÚSTIO, 1999, pp. 51-52)

A vida sem maiores perspectivas de uma prostituta é retratada em “Um ilegítimo desejo”. Como muitos navios estrangeiros aportam nas ilhas de Cabo Verde, a prostituição é o caminho encontrado por algumas mulheres para sobreviver. Nha Djina, ou apenas Djina, era saudosa desses amores de porto, amava um francês que nunca mais o viu:

“Um dia ansiou pela volta do francês que colocou na mesa de cabeceira de pinho, em cima dos dólares franceses, um sabonete verde que cheirava a encontro suaves, palavras doces, análises ternas e urgências várias.
O francês não voltou, nem o cheiro e a cor do sabonete.” (Ibid, ibidem, p. 36)

O conto narra as desventuras que tal profissão pode trazer às mulheres que se encontram indefesas diante das vontades e desejos sádicos. Uma vez expôs a um cliente o medo que tinha de cemitérios. O cliente pagou-a e forçou-a a entrar, como não conseguiu superar seu medo, apanhou e perdeu o dinheiro:

“Um dia, distraída, falou do seu medo de entrar no cemitério a um cliente que, sádico, a troco de mais uns trocados, a obrigara a ir com ele até... só até a entrada.
A caveira da porta arrepiou-a e, apesar do dinheiro se ter triplicado, não conseguiu coragem com o desempenho pretendido. Preferiu os bofetões e insultos que apanhou sem refilar. Preferiu ficar também sem a renda da casa. Pelo menos por aquela noite.” (Ibid, ibidem, p. 37)

Certo dia, a vida sofrida de Djina chega ao fim e deixa para seu sobrinho a tarefa de cumprir o seu último desejo, uma música, mas não a morna cabo-verdiana, mas sim algo que lembre o seu amor insular, que represente, talvez, o único momento de alento em sua vida:

“Um dia a esquina acordou sem ela.
No ar, no único gemido, o seu testamento: – Música a acompanhá-la ao cemitério – o seu último e ilegítimo desejo.
O sobrinho (...) ao décimo dia o peito minguado encheu de esperança: um senhor e seu violino choravam na campa de alguém . Raúl arranjou coragem e pediu-lhe, quase soluçando, que tocasse uma música para tia Djina. Uma só. Não a clássica morna hora di bai, mas uma canção francesa que falasse de amor – com todo o respeito, senhor – soluçou o sobrinho. (...)
Djina sorriu no outro mundo e descansou para sempre ao lado de um anjo que falava francês.” (Ibid, ibidem, pp.37-38)

A condição marginalizada da mulher inquieta a narradora-personagem em “Álcool na noite”. No conto, o estado despudorado, obsceno e agressivo de duas mulheres bêbadas que choram suas mágoas e revoltas enquanto cantam uma morna, assustam a narradora-personagem que não compreende o comportamento de ambas e o seu próprio:

“(...) De lá das bandas do cemitério uma voz canta uma morna. Tudo normal se a voz não parecesse sair dos intestinos de algum bicho em vez de uma garganta humana, por muito desafinada que fosse. (...) Aliás, eram as vozes de duas mulheres. A segunda faz coro com obscenidades e a desarmonia, o desleixo transparecido e o despudor agridem os ouvidos. Há um sentimento incomportável nas palavras quotidianas. Vêm-se aproximando. E estão bêbadas. Depois um palavrão. Talvez o eco de uma topada. E outro. E gargalhadas. Não consegui entender a felicidade dos risos debochados. Mas haveria mesmo felicidade? Quem me encomendou o sermão? Sinto raiva. (...)” (Ibid, ibidem, p. 56)

A deplorável situação das mulheres agride a narradora-personagem que se impressiona ainda mais com os maus tratos dados à filha de uma das mulheres. Tamanha amargura de tal passagem aumenta a sua angústia, a crise instala-se diante de vidas desperdiçadas, e pensa em um problema universal da condição feminina:

“– Mamã, és tu mamã? – Angústia e alívio na filha que encontra a mãe.
– Que mania essa de andares atrás de mim feito cachorro? Qualquer dia ainda te desfaço. – Mais insultos. (...)
A noite não tinha mais magia. Acho que nem estrelas. Apenas uma ferida num sentimento antigo de ver nas mulheres, para além de tudo, seres diferentes. Porque um estatuto de pureza para elas? Porque esta incompreensão para sua embriaguês? Porque o preconceito contra as fraquezas que não são as minhas? E vou pensando, enquanto desço as escadas.
E os passos falam vergonha, humilhação e revolta. E pena.” (Ibid, ibidem, pp. 56-57)

Dina Salústio narra outro problema universal: a crise de uma mulher de meia-idade é abordada em “O que é isso de liberdade”. Trata-se de uma mulher recém-separada após vinte anos de relacionamento. Agora, aos quarenta anos de idade, busca adaptar-se à nova vida sem o companheiro, mesmo tendo-o ainda na memória. O tempo cronometrado do início da separação é recebido com ironia pela narradora-personagem; a mulher procura mudar o comportamento, amigas, tudo na tentativa de recomeçar:

“Estou mais magra, vês? Perdi doze quilos. Foi o divórcio, sabes? Há treze meses e onze dias que me divorciei. Agora não estou a sofrer, mas a princípio custou muito. Foram vinte anos juntos...
(...) mentalmente concordei com um amigo que diz que ser-se inteligente é tirar proveito dos desaires. Há mil anos que o não vejo. Mil anos e sete horas.
(...) pensei para mim que afinal ela ainda não estava divorciada, porque entre as várias fases de um divórcio há duas absolutamente decisivas: o veredicto e a conscientização de que a cena acabou. Para ela, a última ainda não chegara.
Tem quarenta anos, imagina-se com vinte e só anda com miúdas de dezassete. Vê lá o disparate.” (Ibid, ibidem, pp. 60-61)

Como uma nau sem rumo, a mulher tenta convencer-se de que está melhor. Contudo, o recomeço é dolorido, as lembranças do ex-marido são constantes, quer crer na sensação de liberdade adquirida rompendo antigas castrações. Porém a metáfora do barulho do comboio demonstra que ainda está presa ao passado, seu discurso não é escutado:

“(...) Estou livre e faço tudo o que quero sem ter que dar satisfações a ninguém, sem medos, sem culpas. (...)
... ouço as músicas que eu gosto e abro as janelas e deixo entrar o sol e o frio. Ele detestava abrir janelas e eu fazia-lhe a vontade. Para o poupar, sabes? Durante vinte anos. Agora abro as janelas. Agora sou livre.
O barulho do comboio que chegava abafou a sua declaração de liberdade.
Hoje, dias depois do nosso encontro, penso nela. Terá dançado na passagem de ano ou apenas abriu a janela para imaginar a vida lá fora?” (Ibid, ibidem, p.61)

A sensibilidade em lidar com os problemas femininos e discorrer sobre eles prendem a atenção do leitor em “Mornas eram as noites”. Como boa ouvinte e excelente narradora, valendo-se do lirismo imposto aos textos a encantar as situações cotidianas. O amor, a dificuldade em lidar com o ser amado e as crises existenciais são discutidos abertamente em “O conhecimento em debate”:
“(...) - O conhecimento destrói a fantasia, o vocabulário irracional e os sentimentos. Amor é ingenuidade, é vulnerabilidade, é incerteza. É ficção. Conhecimento é transparência, nudez e crueza e actua sobre o estímulo esvaziando-o, reduzindo-o ao nada existente antes do desejo.
- É cruel dissecar a coisa do amor. Penso que o conhecimento dá a possibilidade de não se violentar o outro.
- Engano. Enquanto há amor ninguém violenta ninguém para além do que a normalidade exige. E isso tem outro nome. (...)
Um amigo disse-me que o conhecimento dá nojo – disse uma voz vinda de um interior sofrido.
Nojo? É isso. Nojo é a palavra certa. Quando nos conhecemos uns aos outros, sentimos nojo porque o tempo todo fingimos o que não somos, o que não podemos ser, o que desejaríamos ser e o conhecimento mostra a realidade, as tripas fora, a pequenês. É por isso que querer conhecer alguém é querer violentá-lo, despir-lhe a armadura, exibir-lhe as cicatrizes, o intestino.” (Ibid, ibidem, p. 46)


Já em “Conversa de comadres”, a cumplicidade feminina dá a tônica do conto. Um grupo de amigas preocupa-se com o estado arredio, porém feliz de uma companheira, exige que compartilhe o que está sentindo, o que não é aceito por ela:

"Era uma verdade grande, bonita e tão minha que a escondia de toda a gente, incluindo os compadres e comadres com quem compartilho os segredos mais secretos. (...)
Alguns dias depois, à minha volta, comecei a notar uns cochichos, uns olhares desastrados e até certas reservas nos mais próximos. (...)
Como estava lá alguém que desconhece o tacto social, aliás despreza tudo o que é tacto, ao ver-me disse:
- Estamos preocupadas, porque já não és mais a mesma e damos conta que algo de grave se passa contigo. (...)
acordei. Afinal a lengalenga era comigo e procurei logo cortar as suas preocupações, afirmando e jurando que estava tudo bem e que não havia crise.
Muito bem até. Isso estamos a ver e que aqui é que está o problema – Sempre fomos todas uma por uma e uma por todas e agora com o teu alheamento, sentimo-nos penalizadas, porque sem dúvida, e isto é facto assente, tu estás feliz e nós resolvemos que devemos participar. (...)
Elas queriam participar para se sentirem vivas, concluí rapidamente, e, dispus-me a contar-lhes algo da minha felicidade." (Ibid, ibidem, pp. 83-84)

O clima adverso de Cabo Verde a flagelar o crioulo é o tema de a “Traição do tempo”. A escassez de chuva é um sério problema no arquipélago, como lembra a Professora Simone Caputo em suas aulas, Cabo Verde tem 360 dias de sol ao ano. Durante muitas décadas o clima hostil do país foi acusado pelo sofrimento do cabo-verdiano, mas Dina Salústio renega tal acomodação e questiona o fatalismo da ausência das águas do céu e a conseqüente seca:

"Não sei se pescado no discurso oficial, se por conta própria , a verdade é que a jornalista disse ao longo da reportagem que os problemas de São Nicolau e, quiçá, os problemas de Cabo Verde só se resolverão com as chuvas. Possivelmente nem terá dito isso e eu ouvi mal, ainda pensando na notícia anterior. Mas, se ela fez de facto a afirmação acima e se referia ao desemprego sem fim, à falta de bens e a inúmeras outras situações ligadas à pobreza, então eu não estou de acordo porque seria condenar desnecessariamente todo um povo à dependência de uma incógnita que há muito deixou de o ser para tomar corpo de uma certeza. Somos um país seco, de seca garantida. Se ela se referia aos humores do crioulo, então sim, tem razão, porque, cá entre nós, pensando como eu penso, só poderia estar certa. (...)" (Ibid, ibidem, p. 72)

Salústio ataca a postura conformista que acusa a seca como a desgraça maior, para isso aponta os problemas sociais e econômicos que revoltam o ilhéu. Rompe com a antiga afirmação de que o cabo-verdiano seria um ser pacato e benevolente como justificava Gabriel Mariano nos seus ensaios dos anos 1950. Esclarece que o crioulo rebela-se contra as agruras do tempo, com as chuvas que não vêm na estação esperada e transfere sua indignação para outras situações ou pessoas:

"O crioulo, a partir de Junho, começa a incubar dentro de si um ser ruim, desconfiado, medroso, inseguro. (...) resmungando por tudo e nada sobre a ingratidão das chuvas, a maldição das ilhas, os pecados cometidos. Traído, porque as nuvens maninhas mais uma vez cumpriram o seu destino de negar à terra o consolo da água, o crioulo enraivece-se contra tudo o que o rodeia. Torna-se insuportável de tão intolerante, tão feio, tão desamado. (...)
Eu fujo dos meus patrícios nos meses das águas frustradas. (...)" (Ibid, ibidem, pp. 72-73)

Como já mencionamos anteriormente, as condições climáticas ruins, os limites geográficos impostos pela insularidade participam ativamente da literatura do arquipélago, o que é constatado em diversos autores. O desejo de evasão aparece diante de tantos transtornos e dificuldades às quais o crioulo é obrigado a suportar, e a narradora busca a fuga, no sonho o lugar da utopia:

"Eu fujo de mim. (...)
Afasto-me e, no engano do sonho que me ensinaram a sonhar, vejo uma rua, uma aldeia, uma ilha, todas as ilhas do regadas, verdes de chuva clara, com gargalhadas de chuva na boca dos meninos, com risos de chuva nos olhos dos homens, com o perfume da chuva nos corpos das mulheres.
Tudo fica calmo.
Depois, recuso acordar, temendo enfrentar a cidade seca, as gentes secas, os amores secos." (Ibid, ibidem, p. 73)

A crise econômica e as adversidades por que passam a população também são denunciados nos contos de Dina. A exclusão social, os sonhos que não se realizam, os pequenos desejos de consumo de crianças à beira da miséria são mostrados nos textos que expõem a indiferença da sociedade. Indiferença não compartilhada pela autora no conto “Natal”, em que descreve com sensibilidade a entrada de um pequeno grupo de crianças humildes, fascinadas, ao entrar em uma loja no período das festas natalinas:

"Três mocinhos semi-esfarrapados entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos. Os olhitos passam de um brinquedo para o outro e neles vejo o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.
Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroçaria de um camião. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, aventura de uma corrida." (Ibid, ibidem, p. 68)

Quando são percebidos na loja pelos clientes, explode o preconceito, insatisfeitos com a presença de moribundos, autênticos representantes do refugo humano citado pelo filósofo contemporâneo Zigmuth Baumann, pequenos ladrões que ameaçam as compras, suas consciências tranqüilas que não podem ter contato com a miséria:

“Um dos miúdos distrai-se e solta uma exclamação. Os clientes olham para ele, para eles e para vendedora e apertam com mais força os embrulhinhos de Natal. E a raiva e as frustrações que a contabilidade provoca soltam-se e aparecem nos olhos e nos murmúrios. São gente de bem que não podem aceitar a vadiagem que os fatinhos rotos deixam perceber.” (Ibid, ibidem, p. 69)

Tal situação leva a autora a questionar a hipocrisia da festa natalina, do consumo exacerbado ao qual as pessoas se sentem obrigadas a satisfazer, e a atitude tomada pelas crianças redimensiona o problema, porque estão acostumadas a enfrentar semelhantes situações e à margem da festa católica curtem “o seu Natal, tecido com olhares e imaginação: um Natal de espreita”.

“(...) o que os compradores queriam era que as lojas fechassem, que não houvesse coisas para comprar e que um decreto proibisse aquela mascarada toda. A sua consciência ficaria tranqüila, o orgulho salvo. Talvez o natal passasse a ser mais humano, mais de compromisso, porque não artificial.
Há um sorriso nos mocinhos que eu não percebo, como se não fizessem parte de nós. Como se fôssemos uns palhaços para os divertir. Ou quem sabe, uma certa nostalgia de não serem palhaços como nós.
Tranqüilamente saem, em busca de outras lojas de sonhos.” (Ibid, ibidem, p. 69)

Há espaço para as tradições crioulas nos contos de Dina Salústio. Em “A indústria dos tambores” apreendemos o conflito entre tradição e modernidade representado pela comunicação feita por tambores. Através dos sonhos uma personagem deseja recriar a tradição de sua ilha: do tambor como canal de informação. Pelo tambor, o renascer de antigos hábitos cabo-verdianos, tambor como intermediador de conflitos sociais, em sintonia com o canto do galo, ajudando a valorizar a comida local e comunicando breves assuntos entre as pessoas. O tambor como expressão destacada da cultura cabo-verdiana:

“... Sonhei um Cabo Verde despertado cada manhãzinha pelo som repicado do tambor, substituindo a horrenda música do programa radiofônico Bom dia Cabo Verde, abafando para sempre a inestética publicidade, rivalizando harmoniosamente com o cantar dos galos, o riso das galinhas, os motores, catchupa na frigideira, trapiches e computadores.
Sonhei que a tradição seria reposta e o jornal e a rádio não seriam os veículos monopolizadores das gostosas fofocas e mal dizeres e o tambor retomaria o seu tan tan para trazer e levar mensagens, mantenhas, recados, avisos, boas novas e também as más, porque infelizmente a vida é assim, Sr. Diretor.
Sonhei que o tambor voltaria a ser um complemento do aparelho judiciário e (meu Deus, como sonhei!) que cada indivíduo que ofendesse a moral, a sublime nobreza do parceiro, conhecido ou desconhecido, viria para a rua atrelado ao seu tambor e desdiria nas praças, nas ruas, nos largos, nos becos e avenidas o que houvera dito. (...)
‘... desdigue o que tenho digue, desdigue o que tenho digue sobre fulano ou beltrano.’” (Ibid, ibidem, pp. 48-49)

Até a atitude masculina é reavaliada no conto “Campeão de qualquer coisa”, em que o comportamento masculino é tratado por um prisma distante do lugar-comum e esteriotipado do homem. Apresentando um personagem discreto que não se vangloria de seus feitos, que não segue a tradição de poder comum aos homens, a autora redimensiona não só a masculinidade, mas também a postura feminina da narradora-personagem em relação ao homem, mostrando que novos caminhos podem ser trilhados na relação homem/mulher sendo apenas o que de fato são: homens ou mulheres.

"A noite ia a mais de meio. Grupo de homens e grupo de mulheres convenientemente estabelecidos. Eu fazia o protocolo e chegaste e como manda a praxe, fui-te passando um copo para as mãos e porque não te conhecia disse-te: os campeões das anedotas estão ao fundo, ao lado, os campeões da política internacional, à esquerda os do futebol, os do sexo, debaixo do abacateiro, os do copo, junto ao bar (...)
Espantado com o acolhimento (...) foi então que me disseste que não eras campeão de coisa nenhuma e nem sequer eras bom em qualquer coisa e que eras um tipo normal.
Não havia tristeza nas tuas palavras e, como pensei que um homem normal o mínimo que se devia sentir era triste pela revelação e porque já havia percorrido vários grupos onde cada um era melhor que todos e estava com uma espécie de raiva concentrada, disse-te não te preocupes, pois há um campo onde não precisas provar nada. Vai para debaixo do abateiro. (...) Conta as tuas fantasias e os teus fantasmas. Os teus e os dos outros, como coisa resolvida. Incarna os atores do hardcore. Inventa situações, viagens e encontros, princesas e prostitutas, virgens e lésbicas, homossexuais, mulheres casadas, ninfomaníacas, colegiais e o resto. Inventa. Inventa o mais que puderes. Faz como os outros. Dá nomes e moradas e não te preocupes porque não vão te julgar pela baixeza porque é prática aceite. (...) Mente. Mente muito. E sobretudo exagera. Exagera até o impossível. Vá. Campeão é assim.
Teimosamente dissste que não podias, que não querias fazer-te de atleta de façanhas tantas, porque eras adulto e há muito passaras os dezassete anos e que as tuas necessidades e os teus interesses eram outros e que as tuas fantasias eram as tuas parceiras e expô-las em público seria como veres-te ao avesso num grande écran. (...)
Ensinaram-nos que devíamos ser heróis de qualquer coisa. Exigem que façamos permanentemente exercícios de auto afirmação. Não nos educaram para corajosamente debatermos os nossos medos, falhas, hesitações, infernos. Apetrecharam-nos com o mito de super-machos e esperam que sejamos vencedores, fazendo-nos inimigos da própria maneira de estar, escamoteando a verdade, falseando as fronteiras. E porque somos apenas normais e temos vergonha da nossa normalidade, passamos o tempo todo a pensar numa roupagem que impressione. (...)
Alguém chamou-me porque o meu carro estava impedindo a saída. A conversa não podia ser retomada. Hoje lembrei-me de ti e pensei como podemos ser tão bonitos quando conseguimos ser nós próprios: homens ou mulheres." (Ibid, ibidem, pp. 13-15)

E é assim, inferindo diversos aspectos da condição feminina, “de mulher que se pensa e se escreve, procurando, além de expressar a intimidade de uma voz, dar voz a todas as mulheres” (GOMES, Ecos... p. 11) ora tratando um drama local, ora universalizando os sentimentos da mulher cabo-verdiana, lidando com problemas masculinos, dialogando com a insularidade e o eterno dilema evasão e anti-evasão, com os flagelos da seca e as características geográficas do arquipélago são alguns dos condutores da prazerosa leitura das curtas, porém belas e surpreendentes, narrativas de “Mornas eram as noites”.

Os contos deste delicado livro vão muito além da modesta declaração da autora que afirma: “Sou uma mulher que escreve umas coisas”. Contos que celebram o ato de narrar, distinguem Dina Salústio como uma voz marcante da literatura de autoria feminina de seu país e a equiparam aos grandes nomes das literaturas africanas de língua portuguesa. São contos que falam, sim, de Cabo Verde, mas, ultrapassam as fronteiras geográficas, e, sobretudo, nos fazem refletir sobre a condição humana:

“Se eu algum dia estive presa à cabo-verdianidade, acho que já ultrapassei esta fase (...) Ser cabo-verdiano é assumir um lado bonito, mas assumir também todos os lados horríveis (...) É uma sociedade de stress, de conflitos, porque somos de raças diferentes e pobres, pelos ciclos de fome. Mas eu não acho que sejamos diferentes, acho que todas as outras gentes têm os mesmos lados. Não tenho tido necessidade de afirma-me como cabo-verdiana. (...) As nacionalidades são defesas que nos afastam de outras pessoas.” (Apud: Sepúlveda, 2000, p. 123)


BIBLIOGRAFIA:
ALMADA, David Hopffer. A identidade cultural cabo-verdiana. In: Caboverdianidade & Tropicalismo – 2ª Jornada de Tropicologia. Recife: Massangana, 1992.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Franscico Alves, 1986.

BAUMANN, Zigmuth. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia, Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas – Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985.

GOMES, Simone Caputo. Mulher com paisagem ao fundo: Dina Salústio apresenta Cabo Verde. In: SEPÚLVEDA, M. C. & SALGADO, M. T. (ORGs). África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000.

MARIANO, GABRIEL. Mestiçagem: seu papel na formação da sociedade caboverdeana. In: Cultura Caboverdeana – ensaios. Coleção Palavra Africana. Lisboa: Vega, 1991.

SALÚSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Colecção Lusófona. Lisboa: Camões, 1999.

SALÚSTIO, Dina. Insularidade na literatura cabo-verdiana. In: Cabo Verde: insularidade e literatura. Paris: Karthala, 1998. p. 33-34.

INTERNET:
GOMES, Simone Caputo. Ecos da caboverdianidade: Literatura e Música no Arquipélago. Artigo acessado em
www.simonecaputogomes.com no dia 28/01/2008.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Antologias da literatura angolana na UEA

A União dos Escritores Angolanos (UEA) disponibilizou em seu sítio – http://www.uea-angola.org/index_antologia.cfm – algumas antologias sobre a literatura angolana. Ao todo são seis edições, sendo que uma dedicada a contos infantis e as outras cinco abordando diferentes aspectos da poesia angolana.
A antologia poética “É em momentos depois de ter sonhado – dimensão formalista da poesia moderna angolana”, organizada por Nilton Saraiva Botelho de Vasconcelos, divide-se em quatro gerações: a de 1945, 1970, 1980 e 1990. Procura apresentar os poetas que se preocuparam com propostas formalistas na confecção poética. Estão presentes poetas como Jorge Macedo, Arlindo Barbeitos, Ruy Duarte de Carvalho, João Maimona, José Luiz Mendonça, João Tala e Abreu Paxe.

Ao prefaciar a antologia, NSBV diz que “os poetas aqui representados, apesar de suas especificidades, têm compromissos com as estéticas mais exigentes em termos de plástica, futurismo, imagimos e concretismos, labor criativo que passa também pelo recurso constante ao contraditório não só por justaposição de palavras contrárias quanto ao que significam, mas como conotações possíveis, formando até sinestesias”.

Com isto, o organizador pretende encerrar uma acusação sofrida pela literatura angolana: “cai por terra a idéia ideológica que só existe uma literatura baseada em chavões revolucionários que têm como essência temática as aspirações dos operários e camponeses, sempre numa lógica de exclusão, de confronto de classe e de esvaziamento da dimensão espiritual do homem. (...) o leitor entenderá que o que vai enriquecer a nossa literatura é essa diversidade plástica com temáticas abertas que expressem os diversos ‘mundos e faces’ porque a matriz social angolana tem até elementos culturais profundos que podem tornar mais peculiar a atual poesia.”
Em “Nuvem Passageira”, organizada por Filomena Gioveth e Seomara Santos, há o interesse em prestar tributo a poetas já mortos, porém como destaca em título de posfácio a Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha (UFF/RJ): poetas mortos, poesia viva, que sedimentaram a trajetória da poesia angolana, “os homens e mulheres que contribuíram para o enriquecimento do imaginário poético angolano”. Constam na antologia nomes como José da Silva Maia Ferreira, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Henrique Abranches, Cordeiro da Mata, Antonio Jacinto e Alda Espírito Santo.
Em “Todos os sonhos – antologia da poesia moderna angolana”, temos um amplo panorama da poesia angolana com poemas selecionados pelos próprios autores. Nomes como Lopito Feijoó, Trajano Nankhova Trajano, Ondjaki, Sapyruka, Kudjimbe, Maria Celestina Fernandes, Fernando Kafukeno, E. Bonavena e tantos outros poetas estão nesta robusta edição de mais de seiscentas páginas.
Em “O amor é sempre agora – antologia do Éden angolano” os poemas selecionados têm como tema principal o amor, pois como justifica Adriano Botelho Vasconcelos: “ressalvo que a maior pujança temática da nossa literatura pós-independência, concretamente, até ao ano de
2002, esteve implicitamente relacionada com o apogeu da revolução marxista-leninista, numa ditadura cultural que só valorizava o discursivo e pouco espaço sobrou para o jogo de luzes e luas onde as palavras pudessem alcançar a maior plenitude. (...) Decidi organizar a antologia de poemas de amor porque muitos leitores necessitam das nossas «febres e luas». E também para que o caos existente nos dias de hoje, a solidão da sociedade moderna, a poluição sonora e de gritos de angústia não se sobreponham aos valores de afecto e de ternura, valorizando-se a interioridade humana, a sua fragilidade e as suas incansáveis utopias. «O amor é o sal da
vida», os mais-velhos têm razão.”

Nesta antologia também podemos conferir uma breve seleção de poemas de poetas universais como Fernando Pessoa, Camões, Charles Baudelaire, Pablo Neruda e outros que influenciaram os escritores angolanos. De Angola encontraremos Paula Tavares, Manuel Rui, João Melo, Costa Andrade, Arnaldo Santos e outros mais.
A poesia de autoria feminina está presente em “O amor tem asas de ouro – antologia da poesia feminina angolana”, organizada por Filomena Gioveth e Seomara Santos. Como a poesia de autoria feminina ainda é pouco representada na história literária angolana, esta fundamental antologia preenche este espaço e deparamo-nos com importantes nomes como Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Alda Lara e Isabel Ferreira.
A única antologia dedicada à prosa, apresenta um segmento ainda tímido não só nas letras angolanas, mas nas literaturas dos outros quatro países africanos de língua portuguesa, que é a literatura infantil. Em “Boneca de pano – coletânea de contos infantis”, percebemos a influência da tradição oral nos contos dos doze autores selecionados, o extraordinário e o fantástico também comparecem na personificação de animais e plantas contracenando com seres humanos. Uma bela iniciativa com textos de John Bella, Raúl David, Abreu Paxe entre outros.

As antologias estão na União dos Escritores Angolanos – http://www.uea-angola.org/index_antologia.cfm Vale o acesso ao sítio para conhecer o seu vasto conteúdo com entrevistas, textos críticos e outros ensaios que abordam a literatura angolana.

A seguir alguns poemas das antologias.

Riso

Ruy Duarte de Carvalho

5.
Nada mudou para quem delega a glória.
Nada é tão grave que nos impeça os corpos.
Estamos aqui, sentados, sabendo que o conforto
é só cá dentro e a casa é cheia de alegria e festa
e a carne é fresca porque viva e alheia
à carne longe, retalhada e fria.
Somos de facto, em nosso apuro e com o nosso dote,
uma versão apenas indecisa
do nó que nos habita bem no centro.
Rapazes, raparigas,
que cada um empunhe a flor oculta
para inseri-la entre pernadas jovens.

A morte será longe enquanto nos arder
à flor da boca
esta atenção pelas florações dos outros.
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 57)


João Maimona

Ramos de grito
entre a estrada e a catástrofe
entre a sombra e o naufrágio
as abelhas descobrem a espuma
azul e solitária.

no silêncio distante, ardente silêncio
no íntimo das nuvens, tombam chamas
que agasalham as lágrimas.

e das lágrimas da garganta sem universo
vejo os crepúsculos que se diluem em penumbra
e dos dias tristes, das noites que murmuram
dores e suspiros rampantes
apenas sobressaíram corpos envoltos em gritos

doces gritos que escorrem pela estrada.
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 84)


José Luís Mendonça

O fruto das Palavras
Um hálito de pedra. É o que és
neste inventário de invenção.
Um rio que não dorme talvez o verão
de um fruto visitado pelos dentes da palavra

Ébrio de vento como um barco no deserto
acendi a rã adormecida no teu ventre
e o gume do meu canto escorre
o sangue ainda quente de tu seres
a fêmea do dia que me ocupa.

O fruto das palavras. É o que és
neste inventário de invenção. Quem sabe
o verão de um rio
visitado pelo hálito da pedra que não dorme
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 98)


Fernando Kafukeno

no túnel
eu incendiava as mãos do enxofre

dos olhos via a foz do meu receio
na boca do sol grelhas louvavam
a santa no meu ventre vazio e o
sal do luando gota a gota caia como
a saliva da colmeia

eu tinha xatas para as lágrimas de túnel
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 121)


João Tala

nossos olhos abriam o chão…
Quando a mentira cai das mãos regressa ao ódio.
Hoje as mesmas mãos desprendem rochas e
costuram pequenas harpas com que as vogais
abrem a terra.

Por isso as trincheiras mentem;
com a esperança da mentira os flagelados
cantavam as dores
porque as falsas trincheiras amanhecem
sempre que nós caímos; sempre que nos calamos.

Não nos calemos, estamos a escasso tempo do
chão; o chão mais profundo, inevitável;
o chão que os nossos olhos abriam quando
comiam a terra.
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 129)


Amélia Dalomba

Mão
Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz
Cristo às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero
(É em momentos depois de ter sonhado. P. 129)


Abreu Paxe

o lago envelhecido sintoma
um pedaço de sorriso adere vertical ecrã o sino
louco o beijo artérias do beijo
nova voz estende-se o quintal nua geração a árvore
capilar sossegado presságio o lagarto com descrição
a cidade humedecido mergulho sem dobrar o mundo
sinais de vanguarda permanecem os cemitérios utilizáveis
telhas nevadas, elásticas despem-se do alto as esgrimas
consomem do tarso ao ilíaco as flores do campo
lago envelhecido sintoma alarga o passo turvo brilho


Alda Lara

Maternidade
Dentro de mim,
é que trago
a voz que se não cala,
e a força
que não mais se apaga...

Dentro de mim
é que o caudal-anseio alaga,
e correndo
há-de ir, de mar em mar,
levar
ao fim da terra,
um sinal de infinito...

Dentro de mim,
do meu sangue nutrida,
e sustentada,
é que a voz não é soluço
mas grito!

Dentro de mim,
eco de paz ou de alerta,
dentro de mim,
é que a eternidade é certa!...
Lisboa, Fevereiro de 1959
(Nuvem Passageira, p. 45)

Agostinho Neto

Sinto na Minha Voz…
Sinto na minha voz as vozes duma multidão
No coração sinto um mundo
No meu braço um exército

A multidão calou
O mundo perdi-o
O exército foi vencido

Mas a multidão silente não morreu
O exército vencido não desapareceu
E no coração tenho a certeza

De que o amanhã
não será só Ilusão
(Nuvem Passageira, p. 89)


Antonio Jacinto

O Ritmo do Tantã
O ritmo do tantã não o tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã no coração
no coração
no coração
o ritmo do tantã não tenho no sangue
nem na pele
nem na pele
tenho o ritmo do tantã sobretudo
mais no que pensa
mais no que pensa
Penso África, sinto África, digo África
Odeio em África
Amo em África
Estou em África
Eu também sou África
tenho o ritmo do tantã sobretudo
no que pensa
no que pensa
penso África, sinto África, digo África
E emudeço
dentro de ti, para ti África
dentro de ti, para ti África
Á fri ca
xxxxxxÁ fri ca
xxxxxxxxxxxxÁ fri ca
C.T, Chão Bom, 28.06.70
(Nuvem Passageira, p. 100)

David Mestre

Obra Cega
Escrito a cal
este reboco
Obra Cega
de merda
seca e sal

Boa noite
Anjo Azul
olhar
com menino
por trás Só

a dor imita
o cursivo oculto
da adaga
tinta
de sonhos
(Nuvem Passageira, p. 156)


Henrique Abranches

História de Uma ideia Franzina
Na aurora de uma ideia que parte para a guerra
grisalha ainda o engano duma esperança fútil.
Frágil segurança
como a prece inútil, que foi rezada em Fátima.

E cresce o desengano
como um novo anátema,
guinada dolorosa
de um velho quisto.
Apenas um curto momento
de piedade de nós mesmo.
Apenas um momento a esmo,
chorando tudo isto...

E a bandeira a duas cores que flutua orgulho
caída na armadilha do tempo inexorável
desbota lentamente
enche-se de humores,
de pus e de aguadilha,
do veneno delicioso do tortulho,
e balança no alto do mastro imponente
uma dança velha e lamentável
como a marcha trôpega de um veterano.

No curso duma ideia que voltou da guerra
e esperança empalidece,
cala-se o choro,
vai mirrando a prece.
Fica apenas o sóbrio desengano
que não pontifica, não constrói
nem erra...
(Nuvem Passageira, p. 229)


Viriato da Cruz

Makèzú
«Kuakié!... Makèzú, Makèzú…»
.....................................................

O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p’ra Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das «venidas de alcatrão»
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

– «Kuakié!... Makèzú, Makèzú...»
– « Antão, véia, hoje nada?»
– «Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado...»
– « Mas tá passá gente perto...
Como é qui tás fazendo isso?»

– «Não sabe?! Todo esse povo
Pegô um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima,
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu».

– «Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu ?»

– «É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!...»
(Nuvem Passageira, pp. 329-330)


Ana de Santana

A Canção do silêncio
A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo

O olhar de uma santa de barro

A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel

A canção do silêncio
(Todos os sonhos, p. 107)


Beto Van-Dúmen

Esperança
A lua assoma entre as nuvens
Em rodopio com o contraste dos ventos
Raios de luz desfilam pelos matagais
Abafando prantos de ansiedade

E nas sanzalas solitárias
Quebram-se as trevas da noite
E renasce a esperança do amanhã
(Todos os sonhos, p. 213)


E.Bonavena

A Espera de Ti
Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.

Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás ao amanhecer

com as águas das montanhas
entre o coaxar das rãs
saindo do teu peito.

Os dias serão maduros
de azul, cânticos de amor e pão.

Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!
(Todos os sonhos, p. 306)


John Bella

Agora sim… não é poesia
Venham ver por favor
hipocrisia do ovo
nesta terra da graça
são poetas que gritam
por um pouco de justiça
são pedras que dizem
não ter nada para dar
ah! e o diamante
nos olhos da minha namorada???...
o ouro jorrado preto
no caderno dos políticos???...
a (des)graça nesta terra
só cai do «empire state»
direito à caneta do poeta?!...
oh, por favor
inventem outros planetas
que até mesmo em Marte
o poeta lá torra milho
depois o reserva paciente
em jura gaveta escolhida
mas venham por favor ouvir
gemido dessas areias
já invadiram mar
agora vão a caminho
das pálpebras lunares
e eles repetem...
Agora sim... não é Poesia
é desabafo!...
(Todos os sonhos, p. 450)


Lopito Feijoó

A nona brisa
No espaço sepultado pela ventura
a Nona Brisa escorre intimamente
... qual menina(s) do(s) meu(s) olhos(s)...
sacudindo as pétalas do aroma temporal em

escala profética ao fruir súbito
das fricções encarnadas num ser qual quer nas
hostes dos demónios pernilongos!

A Nona Brisa ilimitada pela dimensão erótica
do corpo veloz traz no rosto
a extensão do sangue e o exercício do pudor

memorial
de carne espessa ou sombra encantatória
miserável determinista no circuito dos anjos
amantes testamentários da violência mitológica!
(Todos os sonhos, p. 511)


Luís Kandjimbe

O Aroma Ervanário
Na minha casa durmo sono profundo
Se a mulher nas entranhas estremece
E me fizer massagem de água quente
Com ervas aromáticas da sua mão

A mulher dorme e levita o sonho profundo
Quando ouve enorme
Meu respirar profundo

A mulher não levita, estremece nas entranhas
Doa meu respirar profundo
O aroma ervanário de sua mão.
(Todos os sonhos, p. 525)


Sapyruka

Estratagema
Tudo o que se come tem sabor a vómito
Aqui tudo é tão estranho
Que até o preço da utopia
Vem disfarçado nos noticiários da televisão

E quantos lábios confessam solidariedade?
Oh! Que penoso calote.
(Todos os sonhos, p. 623)


Trajanno Nankhova Trajanno

Retrato onírico de meu rosto
ledo alado e brando elevei-me
para além de mim ungido de mito rito e ansiedade

ignorei o oceano de porta escancarada ajoelhado a meus pés
ledo alado e brando
encontrei-me mais vezes viçoso trepando árvores
derrubadas do que a plantar sentimentos e dar sentido azul
a sedimentação das dunas
as mãos fecundas do tempo acenando a idade
ao ridente horto de tetas ridentes
a ondulação das ancas dos cavalos-marinhos
desconhecidos das capitanias

a todo instante ledo alado e brando
anda uma geração
distante da intimidade azul quando o céu o é bastante azul
(Todos os sonhos, pp. 636-637)


Arnaldo Santos

Poema Da Intenção
Se eu pudesse deitar-me
entre a terra e o sol
na crina
de todas as copas mulembeiras
e no caminho dos túneis
dos ventos decompor
o espectro de sons
o marulhar
que se quebra
nas margens dos nossos sonhos

Colheria
para ti apenas
o canto das viuvinhas

e dar-te-ia
uma nova respiração
num tapete
de altos-cúmulos de Novembro
prenhe de grandes chuvas
sementeiras.
(O amor é sempre agora, p. 86)


Carlos Ferreira

(Para ti)
Tuas mãos tua pele tua voz
teu saber entender o mundo
tua boca teus olhos teu palco
tua plateia calada estupefacta
tua lágrima teu saber estar viva
nossa morte paulatina
tua lição de repensar a esperança
(O amor é sempre agora, p. 97)


João Melo

Ela disse: beija o meu corpo com a tua poderosa língua, vibrante como uma canção, terrível como uma ciência antiga, espessa e doce como um pecado; captura suavemente os bicos túrgidos dos meus seios, como se fossem dois pequenos pássaros desesperados; ilumina
a minha carne sombria com os teus dedos múltiplos e tenazes; abre o suplicante coração das minhas pernas, e, com o teu ombro duro como uma estátua de bronze, fá-lo deleitar-se até à completa exaustão do tempo.
(O amor é sempre agora, p. 153)


Jofre Rocha

Dá-me O Luar
dá-me o luar
e toda a verdade
enquanto minhas mãos percorrem
o mapa do teu corpo
e minha língua impaciente
freme em tua boca

dá-me apenas o luar
e a lembrança que não morre
até seres capaz de saciar
a sede e a fome que me devoram

dá-me o luar
e toda a verdade
para contigo ficar
eternamente
(O amor é sempre agora, p. 187)


Manuel Rui

Trazias Tanto Mar Na Pele Dos Dedos
Trazias tanto mar na pele dos dedos
onde o teu corpo é sempre o meu princípio
de nunca querer chegar
ao fim a voz da vaga
quantas vezes te disse e te cantei?
Quantas vezes sal de pôr na boca
Quantas vezes concha seios de maré
búzio de carne
um leito de água no teu ventre
de marulhado espasmo musical?

E quando a água aquecia nossa fúria
quantas vezes sentimos que o mar era tudo
e os olhos queriam mais no meio dos ruídos casuarínos
um ximbicar nas coisas sem limite.

Mas põe o nosso corpo nestas dunas
de sol plano e todo destapado
alimentando o lago da miragem
que se descobre na esquina onde só era
o nu da luz na escassez de arbustos
de um pouco-a-pouco deste ar sopro quente
que a nossa boca expira para a boca
e nossos olhos prolongam para sul.

Aqui pressinto o que faltava quase
ao nosso mar
para que fosse a imensidão
mais simples mais essencial.
Ouve-me então nesta coragem de planta
Erecta em solidão da tua ausência
Depois que trouxeste tanto mar na pele dos dedos.
(O amor é sempre agora, p. 234)


Carla Queirós

Eternas Vítimas
Acorrentem as vozes
de quem não tem bico
Feiticeira hora
que julga os insepultos
Castiguem a mancha berrante
retida nos olhos
Suspirem os sonhos
Como louca mania
Sob os auspícios da lua e da poesia

Violentem as epopeias mestiças
Cuspidas nas heces-fecais dos Deuses
Odisseias e prosopopeias
Darão corpo
À mística corrosão
De que sois, afinal,
Eternas vítimas
(O amor tem asas de ouro, p. 68)


Isabel Ferreira

Desilusão
Caí em letargia…
Meu sonho adormeceu profundamente…
Ficou num par de fronhas virgens…
Estreadas em noites de volúpia…

Sonho bordado
Nas fronhas dum hotel
Vidas aneladas
Pontos cheios de suspiros sem gemidos…

Juntos dormimos
Mas nossos sonhos
Esses!
Adormeceram
Num par de fronhas…
(O amor tem asas de ouro, p. 104)


Leila dos Anjos

Um Grito no Escuro
Na escuridão da noite o silêncio
é sepulcral na boca daquele que
nem uma palavra pode pronunciar,
no peito, o bater descompassado do
seu coração, nas mãos os calos
manchados pelo trabalho forçado,
nos pés, o tique-taque do cansaço
da caminhada do dia, na mente,
a esperança dividida da salvação.

Um suspiro prolongado, denuncia a
saudade que sente da pessoa amada,
uma lágrima caída, fortifica a esperança
de vitória, no sono um sonho cheio de
alegria floresce, e ao acordar a realidade
irradia-o com o raiar do sol.

No peito a pergunta incessante do
futuro que se anuncia. Conto os
dias, conto as noites, conto as horas
que ainda faltam. Fala ao sol, falo à
lua, falo à água que por aqui corre,
serei eu ou serás tu que romperás as
algemas do silêncio e anunciarás a
minha e a tua liberdade de expressão?
(O amor tem asas de ouro, p. 121)


Maria Alexandre Dáskalos

A ternura de um pequeno adeus
tem o sabor
de um vinho adamascado sem idade.

O teu olhar lembra-me
o cheiro do seu mosto.

Cantamos o vinho
bebemos despedidas.
(O amor tem asas de ouro, p. 134)


Paula Tavares

O Lago da Lua
No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua

No lago branco da lua
misturei meu sangue e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros.
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos
para tomar.
(O amor tem asas de ouro, p. 189)

O Cercado
De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado
(O amor tem asas de ouro, p. 192)